Ao recostar-se nos travesseiros, abraçou-se ao casaco dela, que jazia
na cama ao seu lado, e adormeceu.
Não acordou muito bem. Sequer dormiu bem. Acordava de hora em hora, remexia-se na cama, chutou o computador que estava sobre ela várias vezes. Pela manhã, acordou com os olhos e um dedo do pé inchado. Era bem cedo quando acordou por definitivo – faltavam quinze minutos para as sete da manhã.
Fazia muito tempo que ele não abria as cortinas do quarto. Elas permaneciam sempre da mesma maneira, a maior parte fechada, apenas uma fresta aberta que iluminava o quarto pela manhã. Naquele dia, irritado, ele agarrou as cortinas e as escancarou, e o estranho sol que havia raiado naquela manhã de novembro ofuscou seus olhos, que se fecharam rapidamente, mas depois tornaram a abrir. Ainda voltou para vestir um roupão, estava frio do lado de fora.
Havia chovido naquela madrugada. Ele não percebera durante a noite, embora tivesse o sono leve, em especial naquela noite. Abriu a enorme janela e saiu à varanda, coisa que ele não fazia há muito tempo. Houve um tempo em que ele gostava de sair à varanda pela noite – jamais durante o dia, o sol podia afetar a sua pele.
Debruçou-se na sacada, arregaçando as mangas do pijama e do roupão para não molhá-las, e contentando-se com as poças d'água frias em que ele fazia questão de arrastar os pés descalços. Resquícios de uma infância que ele não teve.
Passou exatos cinco minutos ali, parado, olhando para os jardins, molhando os pés e a bainha da calça do pijama nas poças geladas e remoendo- se de remorso.
Artemis passou o dia inteiro trancado no quarto. Andava de um lado para outro, calado, jogava-se na cama, ficou horas olhando fixamente para a tela do computador sem fazer absolutamente nada, tomou inúmeros analgésicos, enfim, não moveu uma única palha a manhã inteira.
Eram uma e meia da tarde quando sua mãe resolveu tirá-lo dali.
- Arty, querido, abra a porta, é a sua mãe – ela disse quando bateu. Artemis estava estatelado na cama, ainda com o pijama molhado das poças d'água, com a cabeça entre os travesseiros.
- Vá embora – ele resmungou de volta.
- Artemis, eu estou preocupada com você. – ela respondeu – Juliet o chamou há quase quarenta minutos e você ainda não almoçou, não tomou o café, não saiu deste maldito quarto! Destranque esta porta, Artemis, eu estou mandando!
Artemis, irritado, saiu do meio de seus travesseiros e foi até a porta, abrindo-a.
- Mas o que é?! O mundo está acabando e eu ainda não sei?
- Meu filho – sua mãe se assustou, segurando seu rosto carinhosamente. – você esteve chorando? Seus olhos estão inchados, e veja só, ainda está de pijamas. E descalço! Você pode adoecer dessa maneira, meu filho!
- Não estive chorando não, mãe – ele respondeu, esfregando o nariz, enquanto ela o empurrava para a cama bagunçada e revirada de lençóis e cobertores. – é apenas a rinite. – ele apontou para as cortinas.
- Artemis! Eu já lhe disse para não mexer nas cortinas! Chame Juliet quando quiser fazer isto! Veja só, os olhos lacrimejando, e o nariz... Pobrezinho. Você vai se deitar aqui – a mãe chamou Juliet, que estava parada à porta, e as duas arrumaram a cama de Artemis novamente – e vai ficar aqui até...
Entre os cobertores, Angeline achou um casaco. Um sobretudo azul, feminino, com detalhes em branco. Artemis ruborizou-se quando ela o pegou, e tomou-o das mãos da mãe rapidamente.
- Dê-me isto.
- Artemis... Meu filho. Ande, deite-se aqui. – ela apontou para a cama. Artemis escalou os travesseiros e aninhou-se novamente, evitando olhar a mãe, envergonhado. – Arty, querido. Não precisa ter vergonha. O que está sentindo não é errado.
- Sim, é.
- Não é errado gostar de alguém, Artemis. Muito menos dessa maneira. Butler me contou, e... Honestamente, Artemis. Acho que deveria pedir desculpas à menina, se estiver tão perturbado com isso.
Juliet, que recolhia os cacos do copo que ele quebrara na noite anterior, ouvia atentamente ao que ela dizia a ele, entristecida. Aliás, foram raríssimas as vezes que ela vira o patrão daquela maneira, desolado, cabisbaixo, envergonhado. Precisando de consolo.
Depois de uma longa pausa, em que Artemis apenas olhava para o nada, encolhido no meio da cama e esfregando o próprio nariz, Angeline se levantou, e disse-lhe que pediria a Juliet que lhe trouxesse algo para comer. Artemis estava estático, e assim permaneceu até depois que Juliet lhe trouxe o almoço.
Sozinho no quarto, ele encarava uma bandeja que estava ao pé da cama, com um belo prato de peixe com legumes. Talvez ele devesse comer, ele pensou. Arrastou-se sob a cama até a bandeja, cutucou levemente o peixe, os legumes, provou um pouco dos dois, mas deixou o prato quase que intacto sob a bandeja e voltou a aninhar-se nos travesseiros, entre acessos de espirros
Depois de um breve momento em que ele perdera a sua consciência, ele adormeceu. Um sono breve, leve e tranqüilo, como os que ele costumava ter quase todas as noites.
Acordou com um ruído vindo do lado de fora. Alguém conversava à sua porta.
Levantando-se da cama, caminhou lentamente até a porta, e ouviu Butler a conversar com sua mãe, propositalmente na porta de seu quarto, para irritá-lo. Falavam dele, ora, de que mais falariam? Assim, Artemis pôs- se a ouvir a conversa, e se revoltou.
- Já chega. – falou consigo, amargo.
E enfiou-se no banheiro, lavou o rosto e penteou os cabelos lisos para trás, embora eles insistissem em cair em seus olhos.
Arrancando fora o roupão e o pijama, meteu-se no closet e olhou ao redor. Ternos, ternos e mais ternos. Teria de fazer algo de emergência – puxou uma gaveta e tirou de dentro dela as coisas mais detestáveis que ele mantinha dentro de casa, e, gemendo, as vestiu.
Não demorou muito para abrir a porta. Butler conversava com Angeline a uns metros da porta, e surpreenderam-se ao vê-lo. Sério, os cabelos repartidos de qualquer maneira, jogados um pouco para um lado, um pouco para o outro; No corpo, uma camiseta. Sim, uma camiseta, preta, de mangas compridas, e calças jeans. Jeans largos, que caíam e deixavam à mostra um pedacinho de sua cueca e de seu abdome, mas que já era o suficiente para ele se irritar. Nos pés, tênis. Tênis escuros, que ele os tinha desde os quatorze anos, que a sua mãe insistira em comprar na esperança de que seu filho se tornasse um adolescente normal, mas que ele jamais usara.
Angeline boquiabriu-se ao ver o filho.
- Artemis? – ela gaguejou, olhando-o da cabeça aos pés.
- Com licença, mamãe – ele disse, segurando o casaco de Elizabeth com ambas as mãos. – Butler, vá aprontar o carro. E seja rápido. – ordenou, indo em direção às escadarias.
Butler olhou para Angeline de uma maneira que comprovava o que concluíra: Artemis finalmente tinha resolvido o que fazer.
Artemis por si próprio abrira a porta do carro e enfiou-se dentro do mesmo, resmungando. No fundo, o que ele tinha era medo. Medo de Elizabeth bater a porta em sua cara, humilhá-lo – por mais humilhado que ele já estivesse naqueles trajes sumários – e não querê-lo de volta. Afinal de contas, ela dissera não quando ele quis beijá-la uma segunda vez. Mesmo assim, daquela vez, ela o beijou de volta, acariciou-lhe o rosto e os cabelos. A única coisa que podia fazer era rezar para que ela não lhe negasse novamente.
- Para onde vai, Artemis?
- Para a casa da Srta. Atlee, Butler. Depressa.
Dentro do carro, Artemis batia o pé esquerdo no chão, mordia uma unha e segurava firmemente o casaco dela, nervoso. E, quanto mais próximos estavam da casa dela, seu nervosismo aumentava em proporções descomunais.
Butler parou o carro às escadarias que davam para a casa dela. Artemis suspirou, hesitou, quis permanecer dentro do carro. Por fim, tomou coragem e encarou seus medos. Saltou do carro, subiu as escadas rapidamente. Inspirou fundo, e bateu à porta. Não demorou muito, e alguém a abriu.
- Sim? – um idoso falou.
- A Srta. Atlee, por favor?
- Sinto muito, Senhor, ela não se encontra.
Artemis fez um muxoxo.
Meio segundo depois, algo apareceu em sua mente.
- O Parque – ele falou consigo. – O Parque! Obrigado, meu caro. – ele falou a Geoffrey, o mordomo. – Butler, para o Parque! Rápido!
- Como disse, Artemis?
- Para o Parque de São Estevão, Butler! Não pense, agora!
Artemis olhou rapidamente no relógio de pulso. Este marcava quatro e meia da tarde, e ela tinha de estar lá. Do contrário, Artemis iria surtar, e seria capaz de revirar a cidade inteira atrás dela.
Antes que Butler pudesse aproximar-se mais de onde Artemis costumava ficar no parque, no mesmo banco, debaixo do mesmo carvalho, todas as vezes, o garoto saltou do carro, mandou Butler ir embora, e correu, com o casaco dela entre os dedos e congelando de frio, já que esquecera de pegar um casaco para si próprio, até as roseiras, onde os dois se conheceram.
Ninguém estava lá.
Ninguém aparentava sequer estar no parque. Viam-se apenas as folhas secas voando em círculos sob o gramado seco, queimado pelo vento, e ouvia- se apenas o farfalhar das folhas das árvores. Artemis perdeu as esperanças.
Até ouvir um ruído.
- O que está fazendo aqui?
Virou-se para trás, boquiaberto, e viu Elizabeth, parada, com um olhar triste, porem ameaçador. E ela nunca parecera tão bonita a seus olhos.
Ela encolhia os braços de frio dentro do casaco azul, com o zíper fechado até a metade. Usava um cachecol cor-de-rosa claro, enrolado duas vezes ao redor do pescoço, e os cabelos presos para trás, como no dia que ele a conhecera.
- Liz – ele disse, empurrando os cabelos para trás.
- Que roupas são essas? E o que você está fazendo parado aqui?
- Pareço normal o suficiente para você agora?
- Não sei. Você só diz meias-verdades, e está sempre tramando alguma coisa. Você é... um gênio, um... criminoso. Vive de manipular as pessoas. E eu não sou perfeita, garoto. E nem você. Muito menos como você pensa. E ainda não me disse que diabos você veio fazer aqui.
- Eu vim... Vim...
- Veio...?
- Elizabeth, escute – ele pegou uma de suas mãos, contra a vontade dela. – Eu vim lhe pedir desculpas. Por favor, me desculpe. Eu agi de uma maneira... Horrível. E me desculpe por esta cena, eu... Não sei pedir perdão.
- Estou vendo.
- Por favor, Liz – ele a olhou nos olhos. – Podemos ser... Amigos?
- Não sei. Eu posso me arrepender depois, e... – ela o olhou estranhamente. – Isso é... Um sorriso? – ela gaguejou. Artemis tinha um sorrisinho discreto no rosto, até ela falar aquilo, quando abriu-se num belo e brilhante sorriso, acompanhado de um olhar de inocência. – É... o sorriso mais bonito que eu já vi. E não faça essa cara para mim! Não me obrigue a fazer o que eu não quero, Artemis, eu...
Artemis pôs dois dedos de leve à frente dos lábios dela, fazendo-a se calar. Ainda com um sorriso no rosto, ele a puxou de leve, fazendo o casaco dela cair no chão, segurando-a pelo pescoço com as duas mãos. E a beijou nos lábios, suavemente. E depois, a olhou. Ela segurava suas mãos, com os olhos arregalados.
- Por favor.
- Isso... Isto poderia estragar a amizade.
- Então... – Artemis desviou o olhar por um momento. – Podemos ser algo... A mais?
- Feito.
Ela o abraçou, dando-lhe um beijo, quando ela mesma interrompeu.
- O que foi?
- Mas... Nós nos conhecemos há apenas três dias.
- Quatro – ele corrigiu – e foram quatro dias que você não saiu do meu pensamento.
E ele a tomou num beijo delicado, longo e apaixonado.
Não acordou muito bem. Sequer dormiu bem. Acordava de hora em hora, remexia-se na cama, chutou o computador que estava sobre ela várias vezes. Pela manhã, acordou com os olhos e um dedo do pé inchado. Era bem cedo quando acordou por definitivo – faltavam quinze minutos para as sete da manhã.
Fazia muito tempo que ele não abria as cortinas do quarto. Elas permaneciam sempre da mesma maneira, a maior parte fechada, apenas uma fresta aberta que iluminava o quarto pela manhã. Naquele dia, irritado, ele agarrou as cortinas e as escancarou, e o estranho sol que havia raiado naquela manhã de novembro ofuscou seus olhos, que se fecharam rapidamente, mas depois tornaram a abrir. Ainda voltou para vestir um roupão, estava frio do lado de fora.
Havia chovido naquela madrugada. Ele não percebera durante a noite, embora tivesse o sono leve, em especial naquela noite. Abriu a enorme janela e saiu à varanda, coisa que ele não fazia há muito tempo. Houve um tempo em que ele gostava de sair à varanda pela noite – jamais durante o dia, o sol podia afetar a sua pele.
Debruçou-se na sacada, arregaçando as mangas do pijama e do roupão para não molhá-las, e contentando-se com as poças d'água frias em que ele fazia questão de arrastar os pés descalços. Resquícios de uma infância que ele não teve.
Passou exatos cinco minutos ali, parado, olhando para os jardins, molhando os pés e a bainha da calça do pijama nas poças geladas e remoendo- se de remorso.
Artemis passou o dia inteiro trancado no quarto. Andava de um lado para outro, calado, jogava-se na cama, ficou horas olhando fixamente para a tela do computador sem fazer absolutamente nada, tomou inúmeros analgésicos, enfim, não moveu uma única palha a manhã inteira.
Eram uma e meia da tarde quando sua mãe resolveu tirá-lo dali.
- Arty, querido, abra a porta, é a sua mãe – ela disse quando bateu. Artemis estava estatelado na cama, ainda com o pijama molhado das poças d'água, com a cabeça entre os travesseiros.
- Vá embora – ele resmungou de volta.
- Artemis, eu estou preocupada com você. – ela respondeu – Juliet o chamou há quase quarenta minutos e você ainda não almoçou, não tomou o café, não saiu deste maldito quarto! Destranque esta porta, Artemis, eu estou mandando!
Artemis, irritado, saiu do meio de seus travesseiros e foi até a porta, abrindo-a.
- Mas o que é?! O mundo está acabando e eu ainda não sei?
- Meu filho – sua mãe se assustou, segurando seu rosto carinhosamente. – você esteve chorando? Seus olhos estão inchados, e veja só, ainda está de pijamas. E descalço! Você pode adoecer dessa maneira, meu filho!
- Não estive chorando não, mãe – ele respondeu, esfregando o nariz, enquanto ela o empurrava para a cama bagunçada e revirada de lençóis e cobertores. – é apenas a rinite. – ele apontou para as cortinas.
- Artemis! Eu já lhe disse para não mexer nas cortinas! Chame Juliet quando quiser fazer isto! Veja só, os olhos lacrimejando, e o nariz... Pobrezinho. Você vai se deitar aqui – a mãe chamou Juliet, que estava parada à porta, e as duas arrumaram a cama de Artemis novamente – e vai ficar aqui até...
Entre os cobertores, Angeline achou um casaco. Um sobretudo azul, feminino, com detalhes em branco. Artemis ruborizou-se quando ela o pegou, e tomou-o das mãos da mãe rapidamente.
- Dê-me isto.
- Artemis... Meu filho. Ande, deite-se aqui. – ela apontou para a cama. Artemis escalou os travesseiros e aninhou-se novamente, evitando olhar a mãe, envergonhado. – Arty, querido. Não precisa ter vergonha. O que está sentindo não é errado.
- Sim, é.
- Não é errado gostar de alguém, Artemis. Muito menos dessa maneira. Butler me contou, e... Honestamente, Artemis. Acho que deveria pedir desculpas à menina, se estiver tão perturbado com isso.
Juliet, que recolhia os cacos do copo que ele quebrara na noite anterior, ouvia atentamente ao que ela dizia a ele, entristecida. Aliás, foram raríssimas as vezes que ela vira o patrão daquela maneira, desolado, cabisbaixo, envergonhado. Precisando de consolo.
Depois de uma longa pausa, em que Artemis apenas olhava para o nada, encolhido no meio da cama e esfregando o próprio nariz, Angeline se levantou, e disse-lhe que pediria a Juliet que lhe trouxesse algo para comer. Artemis estava estático, e assim permaneceu até depois que Juliet lhe trouxe o almoço.
Sozinho no quarto, ele encarava uma bandeja que estava ao pé da cama, com um belo prato de peixe com legumes. Talvez ele devesse comer, ele pensou. Arrastou-se sob a cama até a bandeja, cutucou levemente o peixe, os legumes, provou um pouco dos dois, mas deixou o prato quase que intacto sob a bandeja e voltou a aninhar-se nos travesseiros, entre acessos de espirros
Depois de um breve momento em que ele perdera a sua consciência, ele adormeceu. Um sono breve, leve e tranqüilo, como os que ele costumava ter quase todas as noites.
Acordou com um ruído vindo do lado de fora. Alguém conversava à sua porta.
Levantando-se da cama, caminhou lentamente até a porta, e ouviu Butler a conversar com sua mãe, propositalmente na porta de seu quarto, para irritá-lo. Falavam dele, ora, de que mais falariam? Assim, Artemis pôs- se a ouvir a conversa, e se revoltou.
- Já chega. – falou consigo, amargo.
E enfiou-se no banheiro, lavou o rosto e penteou os cabelos lisos para trás, embora eles insistissem em cair em seus olhos.
Arrancando fora o roupão e o pijama, meteu-se no closet e olhou ao redor. Ternos, ternos e mais ternos. Teria de fazer algo de emergência – puxou uma gaveta e tirou de dentro dela as coisas mais detestáveis que ele mantinha dentro de casa, e, gemendo, as vestiu.
Não demorou muito para abrir a porta. Butler conversava com Angeline a uns metros da porta, e surpreenderam-se ao vê-lo. Sério, os cabelos repartidos de qualquer maneira, jogados um pouco para um lado, um pouco para o outro; No corpo, uma camiseta. Sim, uma camiseta, preta, de mangas compridas, e calças jeans. Jeans largos, que caíam e deixavam à mostra um pedacinho de sua cueca e de seu abdome, mas que já era o suficiente para ele se irritar. Nos pés, tênis. Tênis escuros, que ele os tinha desde os quatorze anos, que a sua mãe insistira em comprar na esperança de que seu filho se tornasse um adolescente normal, mas que ele jamais usara.
Angeline boquiabriu-se ao ver o filho.
- Artemis? – ela gaguejou, olhando-o da cabeça aos pés.
- Com licença, mamãe – ele disse, segurando o casaco de Elizabeth com ambas as mãos. – Butler, vá aprontar o carro. E seja rápido. – ordenou, indo em direção às escadarias.
Butler olhou para Angeline de uma maneira que comprovava o que concluíra: Artemis finalmente tinha resolvido o que fazer.
Artemis por si próprio abrira a porta do carro e enfiou-se dentro do mesmo, resmungando. No fundo, o que ele tinha era medo. Medo de Elizabeth bater a porta em sua cara, humilhá-lo – por mais humilhado que ele já estivesse naqueles trajes sumários – e não querê-lo de volta. Afinal de contas, ela dissera não quando ele quis beijá-la uma segunda vez. Mesmo assim, daquela vez, ela o beijou de volta, acariciou-lhe o rosto e os cabelos. A única coisa que podia fazer era rezar para que ela não lhe negasse novamente.
- Para onde vai, Artemis?
- Para a casa da Srta. Atlee, Butler. Depressa.
Dentro do carro, Artemis batia o pé esquerdo no chão, mordia uma unha e segurava firmemente o casaco dela, nervoso. E, quanto mais próximos estavam da casa dela, seu nervosismo aumentava em proporções descomunais.
Butler parou o carro às escadarias que davam para a casa dela. Artemis suspirou, hesitou, quis permanecer dentro do carro. Por fim, tomou coragem e encarou seus medos. Saltou do carro, subiu as escadas rapidamente. Inspirou fundo, e bateu à porta. Não demorou muito, e alguém a abriu.
- Sim? – um idoso falou.
- A Srta. Atlee, por favor?
- Sinto muito, Senhor, ela não se encontra.
Artemis fez um muxoxo.
Meio segundo depois, algo apareceu em sua mente.
- O Parque – ele falou consigo. – O Parque! Obrigado, meu caro. – ele falou a Geoffrey, o mordomo. – Butler, para o Parque! Rápido!
- Como disse, Artemis?
- Para o Parque de São Estevão, Butler! Não pense, agora!
Artemis olhou rapidamente no relógio de pulso. Este marcava quatro e meia da tarde, e ela tinha de estar lá. Do contrário, Artemis iria surtar, e seria capaz de revirar a cidade inteira atrás dela.
Antes que Butler pudesse aproximar-se mais de onde Artemis costumava ficar no parque, no mesmo banco, debaixo do mesmo carvalho, todas as vezes, o garoto saltou do carro, mandou Butler ir embora, e correu, com o casaco dela entre os dedos e congelando de frio, já que esquecera de pegar um casaco para si próprio, até as roseiras, onde os dois se conheceram.
Ninguém estava lá.
Ninguém aparentava sequer estar no parque. Viam-se apenas as folhas secas voando em círculos sob o gramado seco, queimado pelo vento, e ouvia- se apenas o farfalhar das folhas das árvores. Artemis perdeu as esperanças.
Até ouvir um ruído.
- O que está fazendo aqui?
Virou-se para trás, boquiaberto, e viu Elizabeth, parada, com um olhar triste, porem ameaçador. E ela nunca parecera tão bonita a seus olhos.
Ela encolhia os braços de frio dentro do casaco azul, com o zíper fechado até a metade. Usava um cachecol cor-de-rosa claro, enrolado duas vezes ao redor do pescoço, e os cabelos presos para trás, como no dia que ele a conhecera.
- Liz – ele disse, empurrando os cabelos para trás.
- Que roupas são essas? E o que você está fazendo parado aqui?
- Pareço normal o suficiente para você agora?
- Não sei. Você só diz meias-verdades, e está sempre tramando alguma coisa. Você é... um gênio, um... criminoso. Vive de manipular as pessoas. E eu não sou perfeita, garoto. E nem você. Muito menos como você pensa. E ainda não me disse que diabos você veio fazer aqui.
- Eu vim... Vim...
- Veio...?
- Elizabeth, escute – ele pegou uma de suas mãos, contra a vontade dela. – Eu vim lhe pedir desculpas. Por favor, me desculpe. Eu agi de uma maneira... Horrível. E me desculpe por esta cena, eu... Não sei pedir perdão.
- Estou vendo.
- Por favor, Liz – ele a olhou nos olhos. – Podemos ser... Amigos?
- Não sei. Eu posso me arrepender depois, e... – ela o olhou estranhamente. – Isso é... Um sorriso? – ela gaguejou. Artemis tinha um sorrisinho discreto no rosto, até ela falar aquilo, quando abriu-se num belo e brilhante sorriso, acompanhado de um olhar de inocência. – É... o sorriso mais bonito que eu já vi. E não faça essa cara para mim! Não me obrigue a fazer o que eu não quero, Artemis, eu...
Artemis pôs dois dedos de leve à frente dos lábios dela, fazendo-a se calar. Ainda com um sorriso no rosto, ele a puxou de leve, fazendo o casaco dela cair no chão, segurando-a pelo pescoço com as duas mãos. E a beijou nos lábios, suavemente. E depois, a olhou. Ela segurava suas mãos, com os olhos arregalados.
- Por favor.
- Isso... Isto poderia estragar a amizade.
- Então... – Artemis desviou o olhar por um momento. – Podemos ser algo... A mais?
- Feito.
Ela o abraçou, dando-lhe um beijo, quando ela mesma interrompeu.
- O que foi?
- Mas... Nós nos conhecemos há apenas três dias.
- Quatro – ele corrigiu – e foram quatro dias que você não saiu do meu pensamento.
E ele a tomou num beijo delicado, longo e apaixonado.
