Não presta o espinhal à sombra de seu leito
Do pastor do rebanho vagaroso,
Melhor que as sedas do lençol noturno
Onde o pávido rei dormir não pode?"
(Shakepeare, Henrique VI, 3a p.)
VI capítulo
Shaoran olhava para o corpo morto do amigo estendido na cama: praguejava e ofendia. Tinha ódio em seu coração. Como aquilo fora acontecer justo com Wang? Justo com o homem mais habilidoso do grupo.
"Malditos ocidentais!" - praguejou para si mesmo.- "Acabarei com todos... um após um, nenhum escapará da justiçar de Buda!"
Passaria por cima de tudo e de todos, mas vingaria o amigo, cuja coragem jamais seria esquecida. Jamais seria apagada. Pois ninguém poderia saber dele agora, mas no futuro muitos iriam venerá-lo. Isso iria acontecer, daria sua vida, seu sangue e seu coração para isso. Lutaria com sua espada até a morte.
'Shaoran...?'- uma voz feminina o chamou.- 'Primo, o monge chegou... Mando ele entrar?'
Estava na hora de se despedir de Wang, que por muito tempo fôra seu pai, conselheiro e amigo. Jamais iria esquecer dele. Mas tinha que deixar o corpo dele ser enterrado com a devida honra, já que sua alma certamente estaria ao lado de Buda... Orando por eles. Certamente mais feliz, pois tinha saído do inferno e ido para o paraíso.
'Sim... mande-o entrar, Meylin.'- falou sem encara a prima.- 'Chame seu marido para participar da cerimônia!'
A prima num gesto de respeito beijou as mãos do primo, que era seu único parente vivo, sua única referência depois do marido. Ele era patriarca da família Li desde os doze anos de idade quando infelizmente seu tio e Tutor foram mortos. Tinha muita admiração por seu primo, pois ele fez de tudo para vê-la bem casada com um homem de seu meio. E não podia ter feito escolha melhor.
'Claro, senhor!'- falou levantando-se- 'Com licença.'
Shaoran não percebeu o gesto da prima. Na verdade, não se importava com nada a não ser com a ânsia de vingança que assolava sua alma. Uma sede tão poderosa, uma cólera tão dominante, que o cegava. Wang estava morto assim como seu pai... E nada o traria de volta, mas não podia deixar a morte dele passar em branco.
"Eu prometo que pelo sangue que verte da minha espada que farei todos esse demônios pagarem pela sua arma!" - sentindo um pouco de seu sangue frio voltar.
'Ah, se prometo meu amigo!'- murmurou olhando para as mãos.- 'E o primeiro a sentir a força de nossa rebelião será Eriol... de hoje ele não passa!'
Meylin descia correndo a escada que dava para Taverna. Tinha que achar o marido, antes que o primo perdesse a paciência e fizesse a cerimônia sozinho. O que não seria uma surpresa para ninguém, já que ele sempre fora muito sozinho, seu único conforto fora à espada e a pistola que sempre carregava com ele.
Durante anos fôra apaixonada por ele, mas com o tempo ele deixara bem claro que sua única família era ele mesmo e que o casamento é uma perda de tempo. Ainda se lembrava do dia em que ele, educadamente, disse que não poderia corresponder a altura de seu carinho. Não poderia negar que havia chorado, mas não na frente dele. Pois isso seria uma humilhação ainda maior.
"Uma mulher chinesa não se rebaixa tanto perante a um homem. A não ser perante o seu pai ou a seu esposo"- pensou abrindo a porta secreta que dava para a taverna.
'Aonde Chao foi se meter?'- falou para si mesma olhando para o estabelecimento quase vazio.
Então foi que finalmente, Chao Fu-tien apareceu em sua vida, trazendo o amor de voltar, até esperança de ter um filho, que parecia ter se realizado. Segundo a matriarca e mãe de Chao, Wei Tsi, ela estava grávida de apenas três semanas. Mas já dava para sentir a energia que emanava do seu futuro menininho.
Mas com a morte recente de Wang e o profundo abalo emocional que o fato devido fez no marido, Meylin esperava para dar a tão esperada noticia. Seria uma grande felicidade para ele. Já estava até vendo a cara de seu Chao fazendo planos para seu futuro filho que devia ser macho, um menino, como mandava a tradição de seu país. Uma filha mulher no momento seria bem vinda, mas não como a mesma alegria que um filho varão recebia.
"O que vou falar para Li?"- pensou desanimada olhando para cada pessoa que estava na taverna.- "Ele não está aqui".
Havia apenas meia dúzia de fuzileiros americanos já bêbados, alguns senhores chineses que sempre disfarçados de mendigo ficava ali para proteger ela ou algumas das primas de seres desprezíveis como aqueles lixos americanos. Que realmente era um incômodo, mas em uma coisa tinha que dá a mão a palmatória: eles eram menos vulgares que os ingleses, pois esses bebiam, comiam e não pagavam, além de quando não quebravam tudo pela frente.
"Bem... parece que todo mundo resolver sumir hoje, até Wei Tsi desapareceu!"- pensou olhando para outro lado do salão. Encontrando a sogra com duas meninas com cara de ascendência japonesa.- "O que significa aquilo? O que duas jovens damas de classe estariam fazendo em um lugar como aquele?"
Curiosa, Meylin percebeu que Wei tirava a sorte da jovem mais bonita dali, que tinha grande olhos verdes, a pele branca... Aquela era menina que Shaoran iria seqüestrar. Só podia ser ela. Foi dessa forma que Chao a descreveu. Mas o que ela estava fazendo ali.? Tinha que descobrir urgentemente.
Sakura jogou as moedas para cima, trêmula com medo do que estava por vir. Nunca havia tirado sorte, aliás, nunca havia tido sorte na vida... E agora, lá estava ela de frente com aquela senhora que com apenas um olhar tinha o poder de ler sua alma. E isso a assustava, mas não por medo da mulher...Isso não, sendo que tinha gostado da presença dela. Sentira paz... Mas sim, por medo de saber o que iria acontecer com sua vida.
'Mas antes de tudo. Preciso saber sua data de nascimento, minha jovem.'- a senhora falou abrindo um tabuleiro na sua frente.- 'E preciso saber seu zodíaco, antes de jogarmos.'
Tomoyo não podia acreditar no que a prima estava fazendo. Aquela cidade era inimiga de ambas... Pode ver o ódio que eles olhavam para elas. O cartaz pregado em cada esquina com inscrições difamadoras sobre eles. E ela ainda ali dando dinheiro a uma mulher...Uma bruxa que devia ser queimada...Na fogueira de Deus. Não entendia Sakura, estava com medo, cansada, queria voltar para o forte aonde teria Eriol para protegê-las... E não aquele chinês que enganava todo mundo, menos ela. Certamente era um rebelde que planejava fazer algo com Eriol.
'Claro...Eu entendo.'- falou trêmula.- 'Nasci no dia 1 de abril de 1883.'
'Mas antes de tudo, minha jovem ...Fale para sua prima parar de ter pensamentos pecaminosos.'- falou a sábia velha.- 'Sua alma está sobrecarregada.'
Sakura olhou para Tomoyo com ressentimento, num educado pedido de compreensão da prima. Essa apenas abaixou a cabeça desanimada, percebendo que nada faria Sakura abandonar aquela idéia absurda.
'Vá em frente, depois vamos a igreja, a fim de confessar.'- falou virando o rosto.
'Pronto senhora, Wei.'- ela falou sorrindo para velha, ignorando completamente prima. -'Podemos começar!'
A velha olhou atentamente ao hexagrama em sua frente. Sakura percebeu que uma palidez mortal surgiu no rosto da mulher, deixando-a em estado de alerta. Estava trêmula, os minutos passaram e a velha olhava para o tabuleiro e em seguida olhava para as moedas.
'Minha jovem, sua vida está numa encruzilhada...'- falou finalmente limpando a garganta.- 'Eu nunca vi uma pessoa com uma estrela tão forte. Você é boa e muito pura. E isso irá fazê-la sofrer. Eu vejo que há dois homens em sua vida. Ambos estão passando por momentos difíceis.'- ela disse. -'Um nesse momento, chora a perda de um grande amigo. Um irá te amar como nunca e outro irá te odiar com todas as forças!'
Sakura ouvia atentamente a revelações da velha anciã, como se nele estivesse a decisão sobre seu futuro. Focou preocupada ao escutar as palavras. Mas como poderia se livrar de sina tão cruel, estando presa a um homem duro e implacável?
'Então jovem não desvie de seu caminho; não se deixe dobrar, nem desencorajar. Fique imperturbável...'- falou Wei pegando as mãos delicadas da garota.- 'O destino irá bagunçar sua vida, causando conflitos internatos.'
'Como assim?'- Sakura perguntou como se não entendesse ao certo o sentido da frase.- 'Eu não compreendi, senhora...'
'Você vai passar por um terrível momento...'
'É melhor a senhora entrar, mamãe!'- uma voz fina falou atrás das duas cortando qualquer outro pensamento ou visão de Wei Tsi.- 'Está tarde, e pode acontecer algo com a senhora.'
Sakura olhava a jovem chinesa em sua frente. Era bonita e com traços puros. Vestia roupas simples de camponesa, e seu cabelos estavam preso por uma fita rústica. O rosto era pouco expressivo, na verdade parecia até um pouco hostil. Ela não a queria ali.
'Vamos, senhora Tsi... Meu marido não gostará nada de saber que esteve aqui fora, e ainda mais ao lado de uma ocidental.'- falou estendendo as mãos para a velha.
'Preciso terminar de disser algo importante a ela...'- a voz da velha já deslustrava cansada.
'Outro dia...Agora temos que entrar.'- falou pegando as mãos da velha e erguendo-a do banco.
Observando tudo calada, Tomoyo nem ao menos se dignava olhar. Mas tinha um ar irritante de superioridade no rosto que a deixava desnorteada. Estavam sozinhas ali, pois Shaoran havia desaparecidos havia alguns minutos, e até o momento não havia dado nenhum sinal de vida aparente. Não que aquilo a deixasse com medo, mas pelo simples fato de Tomoyo estar ali e saber que ela não deixaria de contar o episódio para Eriol e isso deixava Sakura com os cabelos em pé. Sua prima não era ruim. Apenas apaixonada e cega, mas não era má. Tinha que refletir sobre aquela situação.
'Aquela mulher era uma bruxa...'- Tomoyo falou zombeteira.- 'Eu não acreditei em nada do que ela falou!'
Sakura olhava para as próprias mãos. Desanimada, viu a velha sumir junto com a outra garota. Queria tanto fazer mais uma pergunta para ela. Deveria ignorar as palavras da mulher, mas não conseguia. Seu coração lhe dizia que era verdade. Nervosa, segurou com força a cruz que tinha no pescoço pedindo silenciosamente que Deus a protegesse do que estava por vir. E que se acontecesse o que acontecesse, que apenas ela seria a prejudicada.
'Estou com medo...'- Sakura ouvia a prima sussurrando em seus ouvidos.
'O que faremos agora, Tomoyo?'- falou desanimada com as atitudes impensadas da prima.
'Eu não sei. Mas acho que se não agirmos logo estaremos em sérios apuros!'- falou trêmula apontando para os dois fuzileiros que vinham em sua direção.
'Foi a pior idiotice que você fez, Shaoran!'- Chao falou quase aos gritos.- 'Como você pôde trazer ela aqui?
Shoran estava com a cabeça baixa. Não por vergonha, mas por respeito. Sabia que agira por impulso... não devia ter trazido Sakura ali, não antes de seqüestrá-la. Realmente não foi um gesto de inteligência de sua parte.
'Se ainda ela estivesse sozinha, mas não você trouxe a prima dela a tira colo!'- disse, extremamente nervoso.- 'E se essa garota der com as línguas no dentes, nosso plano vai estar ameaçado!'
'Eu sei... Mas quando recebi aquele bilhete não pensei em outra a coisa a não ser vir imediatamente para cá!'
'Fez muito errado!'- falou andando de um lado para outro.- 'Agora não há alternativa, a não ser seqüestrá-la o quanto antes...'
'Era isso que iria ter propor.'- falou Shaoran olhando para espada de Chao jogada no chão.- 'E bem, queria ter carta branca para levá-la até as montanhas. Além de ser um lugar calmo, poucas pessoas sabem da existência daquela propriedade!'
'Certo, será melhor mesmo... já que você já cometeu esse terrível erro!'
Fôra um engano ter tê-las trazido ali. Um engano que poderia custar todo um planejamento de meses, uma mudança de planos... Tudo porque ele não fôra capaz de controlar seus sentimentos.
'Hoje à noite...'- Chao falou decidido.- 'Hoje a noite será o seqüestro.'
Shaoran sentiu o coração disparar. Sabia que teria que ter sangue frio se quisesse seqüestrar a linda menina. De uma certa forma sentia que não devia fazer aquilo. A menina não merecia isso. Era tão meiga e pura, que não seria justo fazê-la pagar por um crime de que não fôra a culpada. Ao mesmo tempo sabia que devia cumprir com suas obrigações com o grupo. Desapontá- los agora seria suicídio... Ainda mais agora com a morte de Wang. Tinha que ser manter firme em seu propósito senão morreria.
'Espero que esteja de acordo, Shaoran?'- Chao perguntou abrindo a porta da sala.
'Claro... Claro que estou.'- falou sem convicção.
'Estaremos escondidos até as onze da noite e a partir daí neutralizaremos os guardas.'- falou tramando um plano. -'O resto é com você.'
'Pode deixar Chao... Não irei desapontá-lo.'
'Espero, Shaoran!'- falou batendo na costa dele.- 'Agora vou ver como Meilin está!'- concluiu com um sorriso nos lábios ao falar da mulher.
Sozinho novamente, Shaoran pode refletir sobre os seus planos. Como poderia tirá-la daquele forte sem feri-la? Causando o mínimo de transtorno a ela. Não queria vê-la nervosa ou assustada, pois já perceberá que seu ponto fraco seria vê-la aterrorizada.
Estava preparado para enfrentar o ódio e ira dela, mas não podia negar que sentia uma coisa estranha pela garota... uma coisa que o fizera fazer sexo com Mai pensando nela. Uma coisa que era mais poderosa do que tudo. E sabia que não era uma simples atração física. Era algo a mais.
'O que está acontecendo comigo?'
Ouviu um grito abafado o chamando. Pensando que fôra o vento ou coisa assim voltou a recostar a cabeça nas mãos, mas logo em seguida veio outro mais forte poderoso, que o fez reconhecer a voz doce de Sakura. Ela estava pedindo ajuda. E ele ali parado enquanto ela corria risco. Não pensando duas vezes, sacou a espada de Chao que ainda estava jogada no chão e vai ao socorro da jovem que estava mudando sua vida.
