"Quando te logro mais, mais te desejo,

Quando te encontro mais, mais te procuro,

Quando mo juras mais, menos seguro

Julgo esse doce amor, que adorna o pejo."

(Morte, juízo, inferno e paraíso - Bocage)

VIII Capítulo

Havia uma escuridão aterrorizadora em seu redor. Não havia nada, apenas um escuro tão frio que a estava deixando em estado de pânico. Gritava aos quatro ventos, mas ninguém a escutava... Estava sozinha naquele mar de escuridão.

Os muros se fechavam em torno dela, a deixando sem ar... Estava morrendo, ou seria Deus a chamando? Quem a salvaria daquele pesadelo? Queria acorda e ver que ainda estava na mansão de Eriol, segura, sem medo de nada... Não ali, naquele lugar aterrorizador. Onde estava Deus quando mais precisava dele? Será que Deus já não mais a ouvia? Clamava por ele em voz alta, mas ele parecia fazer questão de ignora seu pedido de ajuda. Aquilo já não era um sonho ruim... Era pior que um pesadelo. Não tinha ninguém que viesse socorrê-la, estava à mercê do medo.

De repente o cenário mudou e do nada se viu frente a frente com o seu algoz. Ele sorria com maldade e tinha a face parcialmente escondida pela a máscara. O escuro escondia seu corpo, mostrando apenas o sorriso indolente e maldoso. Sakura sentiu que uma força descomunal estava apertando seus frágeis braços. Nessa hora sentiu mais do que um simples pânico: sentiu medo, pavor e nojo. Queria acordar, queria apenas fugir de tudo e de todos.

Não sabia mais o que fazer, pois já não tinha mais forças para lutar contra o inferno. Havia perdido o juízo e a morte a levaria ao paraíso. No momento era isso que queria fazer: morrer. Sentia o cheiro daquele homem que quase a molestara à horas atrás... Estava com vontade de vomitar.

-Não toque em mim... Por favor, não toque em mim.-ela implorou.-Nunca lhe fiz nada... Por favor, tenha piedade.

Sentiu que a pressão em seus braços diminuía aos poucos. E a cada segundo se sentia livre, pronta para fugir... Sem esperar duas vezes, pensando que não teria outra oportunidade.

Correndo, Sakura avistou o vulto de um Homem alto, mas não muito forte. Seu coração parou de bater, sem ao menos conhecer o homem.Não sentia negatividade nele. Chegando próximo dele sentiu o perfume tão familiar... Aquele homem era Shoran. O que ele estava fazendo ali? Será que até em sonhos ele vinha salvá-la? Porque em fez de alívio sentia medo?

Não sentia mais segurança nele. Mas ali naquele escuro ele era sua única referência... Não podia se dar ao luxo de ficar ali.

-Shoran...-ela falou assim que chegou ao lado dele.-O que você está fazendo aqui...?

Ele não respondeu, ou muito menos a encarou... Era como se ela fosse invisível. A expressão fria não abandonava a face. Estava rígido como aço e frio como um bloco de gelo, mostrando uma face da personalidade que não queria conhecer.

-Eu falei com você... Shoran, não me deixe sozinha.

Continuava quieto. Ao lado dele havia uma espada e em sua mão uma pistola... Aquilo teve o poder de mil bombas no íntimo dela, pois percebeu que ali não havia amigos e em que ela mais confiava estava ao lado dela.

Shoran olhava para corpo perfeito coberto pela uma simples camisola branca. Não pode conter o desejo que sentiu... Ela era tão perfeita que chegava a deixá-lo sem força. Era a primeira vez que sentia assim: com um desejo louco de possuir uma mulher.

"Mas aquela não era qualquer mulher", pensou olhando para a garota. "Era sim a única que mexia com 'seu libido' de homem, que fazia desejar algo que nunca poderia ter."

Pois seria uma injustiça comparar Sakura a outras mulheres. Ela era especial, uma dama gentil, um anjo que merecia ter tudo na vida. Havia prometido para si mesmo que depois daquela noite jamais a magoaria.

A camisola era sem nenhum enfeite, simples como a dona. Observando os detalhes do quarto, percebeu que também não tinha muito que chamava atenção. Era tudo delicado e frágil havia alguns livros sobre a escrivaninha, mas o que mais chamou a atenção fora à flor de lótus. Aquela flor, delicadamente esculpida, que há poucos dias havia dado a ela naquele jardim... Estava fascinado: jamais imaginaria que aquela flor permanecia com ela.

"Está na hora de cumprir uma das maiores missões de sua vida" pensou se aproximando da flor. "Não tinha dúvida que aquelas seria uma das mais penosas e difíceis também". Na penteadeira do mogno maciço perto da janela tinha um livro que estranhamente chamou sua atenção. Não conseguindo segura sua própria curiosidade foi até o livro. Pegando ele sem fazer barulho nenhum, Shoran leu o titulo na capa "Bíblia Sagrada" aquela era o símbolo Máximo para os cristãos de todo mundo... Era outra farsa inventada por eles a fim de conseguir mais seguidores em todo o mundo. Deveria deixar ela ali e, por respeito a sua religião deveria jamais abri-la.

"Senhor, povos infiéis invadiram a vossa herança,

Profanaram o vosso santo templo

De Jerusalém fizeram um montão de ruínas.

Os corpos de vossos servos expuseram como pasto às aves,

E os de vossos fiéis às feras da terra."".

O que era aquilo... Eles durante anos reprimiram e perseguiram meu povo. Não estava costumado a refletir sobre poesias incógnitas, mas aquela tinha uma particularidade e uma semelhança com o dilema que vinha passando em sua vida.

"O que está acontecendo comigo...?" Pensou ele. Não estava a costumado a abrir um bíblia cristão e muito menos concorda com o que ela dizia em seus versos vagos e vazios. Além do mais estava ali para por sua missão em prática e se demorasse mais um segundo poderia por tudo a perder. Shoran acabou guardando a bíblia em sua bolsa, seria um passa-tempo para Sakura naquela casa fria na montanha.

Pegando a pistola, Shoran viu que não tinha mais como protelar, ou seria agora o nunca aconteceria... Já havia perdido tempo demais.

Caminhando lentamente até o leito onde Sakura dormia, Shoran sentia o peito comprimir. Não era de sua personalidade protelar tanto, aliás, nunca havia hesitado tanto em sua vida, como estava fazendo agora. Dentro de cinco minutos, Chao e os outros iriam atacar os guardas de Eriol e assim ninguém daria por falta deles até que já estivessem em um lugar seguro.

-Shoran...-a voz dela soou aflita assim que ele se abaixava para acordá-la. Por um momento pensará que fora apenas ilusão já que à muitos dias vinha sempre escutando a voz dela.-O que você está fazendo aqui...?

Sentiu um frio na espinha e seu coração sobressaltou, só agora vinha perceber que tinha medo de que ela o odiasse. Tinha medo de seqüestrá-la, por que no fundo temia perder a confiança que ela tinha nele. E só o fato de ela já estar acordada o deixava em pânico.

-Eu falei com você... Shoran, não me deixe sozinha! -Ela sussurrou implorando.

Pode respirar aliviado no momento que percebeu que ela estava dormindo... Ela estava aflita, e se debatia na cama. Prevendo, talvez, pelos os momentos difíceis que viria a passar.

-Eu nunca vou deixá-la sozinha... A partir de hoje você esta sobre minha responsabilidade.-ele falou cansado de esconder o que sentia.

Passando a mão sobre o rosto soado e contraído da jovem, pode pela primeira vez sentir o contorno daquele lindo rosto. A pele era tão macia e cheirosa que o estava embriagando, o deixando alucinado.

"Como uma jovem tão bela e doce pode ser noiva de um assassino?" Pensou, retirando os cabelos sedosos que grudavam na face dela. "Como você veio parar nesse inferno...?".

-Eu protegerei você... Juro que essa será a primeira e a última vez que aponto uma arma para você.-sussurrou rosando os lábios no rosto dela.

-Por favor, salve-me daqui...-ela voltou a delirar.-Shoran...

O tempo se esgotara... O que iria fazer de agora em diante seria duro e cruel, mas esse era seu destino e como um membro do Yijetuan tinha que cumprir sua missão.O corpo já se debatia transtornado na cama, não demoraria muito para ela acordar e se quisesse ter êxito nessa terrível missão tinha agir o quanto antes.

Procurando um lugar seguro para se esconder, Shoran sentou na poltrona que ficava na parte mais escura do quarto. Estava decidido que seria ali que esperaria alguns minutos até Sakura acordar. Bem, teria mais chance de fugir se ela estivesse desacordada, mas antes queria dar a ela o direito de saber o que estava acontecendo. Já estava conformado de que iria perder a confiança dela, mas não podia fazer nada.

"O que está acontecendo?" Perguntou Sakura para si mesma. Estava sentada na cama e percebia que alguma coisa de errado estava acontecendo ali. No meio do pesadelo tivera a impressão que alguém falava com ela, dizendo que ia protegê-la e que aquela seria a última vez que iria magoá-la. Por um momento pensar que era Shoran, mas isso seria impossível já que Shoran jamais saberia onde seu quarto ficava.

Estava morrendo de sede, não agüentava esperar nem mais um minuto por um copo de água. Além do quê, estava com muito calor. Sakura se espreguiçou e foi até a janela onde ficou por alguns segundos a observar o movimento. O que viu não foi muito tranqüilizador... Os homens de Eriol estavam todos mortos, e aquele grupo que à horas atrás a havia observado... Estavam comemorando com armas nas mãos, alguns revistavam os cadáveres no chão a procura talvez de algum bem material. "Por que não confia em seus instintos?" Praguejou para si mesma. Tinha que ir correndo avisar Eriol, isso se ele já não estivesse morto, como aquelas pobres almas. Era isso que tinha que fazer, mas o medo a fez ficar parada com um copo de água na mão.

"O que está acontecendo...? Porque sinto este aperto horrível no peito?".Pensou ela horrorizada com o que via. "Por que sinto esse medo...? Por que tenho a maldita certeza de que isso tudo vai cair em cima de mim?".

-Pelo visto você já deve ter percebido o que está para acontecer, não é mesmo senhorita Kinomoto?-a voz sátira e ao mesmo tempo muito familiar a trouxe de volta a realidade.-Bem, chegou à hora da nossa justiça divina acontecer.

Não era possível que aquilo tivesse acontecendo com ela. Aquela voz era de Shoran! Disso não tinha dúvida, mas o que ele estava fazendo ali...? Por que tamanho ódio em sua voz? Não, só podia ser um pesadelo... Um pesadelo horrível.

-Shoran... É v-você?-sua voz não saiu fria como queria, estava tremula e nervosa.-O que você está fazendo aqui?

Shoran tinha a alma carregada, estava sendo penoso para ele cumprir a missão, mas mesmo assim tinha que cumpri-la e iria fazer isso. Mas agora com ela ali nervosa e assustada sentia fraquejar, e isso não poderia acontecer. Tinha que se lembra de seus companheiros mortos... Tinha que honrar a memória dos seus pais que estavam mortos. Tinha que dar paz à alma atormentada de Wang.

-Você deve saber o que venho fazer aqui...-falou cínico recuperando o sangue frio.

-N-não, eu não sei.-falou nervosa.

Ben sapeava io che natural consiglio,

Amor, contra di te già mai non valse,

Tanti locciuol, tante impromesse false,

Tanto provato avea 'l tou fiero artigiio.

Aquela não era hora de lembra de um verso italiano. Por mais que ela traduzisse seu sentimento, sua decepção... Seu medo. Ela havia tido Shoran na mais alta estima, e agora ele mostrava cinicamente sua verdadeira face. Era decepcionante.

-Bem, princesinha.-ele falou levantando da poltrona que estava sentado.- Está na hora de seu noivo pagar por tudo o que ele fez... E você deve imaginar quem vai pagar por ele.

Seria ela... Certamente pagaria por um crime que não cometeu. Mas por que tinha que acontecer isso justo com ela... E porque seu algoz era justo aquele homem que mais havia confiado. -Mas porque eu...?-sussurrou desesperada.-Eu nunca fiz nada a ninguém...

Era verdade. Shoran pensou desanimado. Ela, dentre todas as pessoas era a única que merecia se poupada, mas agora não era a hora, nem lugar para falar isso. Dizer que não iria machucá-la seria dar sopa demais para o azar.

-Pelo simples fato de você ser noiva do almirante...-falou se aproximado lentamente dela.-Além disso, você é uma pecadora como todas as cristãs.

Ele era um rebelde, ou melhor, um fanático... Por Deus, será que essa era a grande provação que tinha que passar em sua vida? Seria que sua alma era tão suja a ponto de Deus lhe enviar um castigo tão grande, ou aquilo era apenas seu destino pondo mais uma vez uma prova em seu caminho?

-Mas o que eu lhe fiz?

-Você não me fez nada... Mas é uma cristã e por esse simples fato você já é uma pecadora.

O seu pior temor era ele matá-la, como havia acontecido com muitas missionárias inglesas. Era obvio que era isso que iria acontecer... Se não ele não estaria com uma arma na mão pronta para atirar.

-Você vai me matar?-perguntou temerosa.

-Não!-falou, já ao lado dela.-Mas não se sinta feliz com isso, pois o que está para acontecer será muito pior do que a morte.

O que seria pior do que a morte naquela ocasião? O simples fato de não saber o que seria de sua vida lhe trazia uma expectativa horrível. Temia morrer tão jovem... Temia tudo o que seu incerto futuro lhe reservava. Então o que seria pior do que a morte? Nada... A morte na certa lhe daria alguns alívios. Mas isso não era o que aquele grupo queria para ela, certamente queria vê-la sofrer para Eriol pagar pelos seus supostos crimes. Mas o que eles não percebiam era que tinham pegado a pessoa errada, pois Eriol não a amava e para ele pouco importava seu bem estar físico e mental.

-Então o que vai ser de mim?-ela voltou à perguntar após minutos de silêncio absoluto.-Se não irei morrer, o que vocês vão fazer comigo?

Chegara o momento tão esperado, o momento crucial... O momento que por tantos minutos protelara. Agora não teria para aonde ir, já não tinha motivo para adiar.

-Seja uma boa menina que não irei te machucar.-falou apontando a pistola para ela.

Seu coração parecia que iria parar, suas mãos estavam tão trêmulas e geladas que não conseguia segurar o copo que nelas estava. Como num pronuncio que sua vida iria mudar o copo se espatifou no chão. Era a primeira vez estava na mira de uma pistola e nunca tivera uma experiência tão assustadora.

-P-Por favor, não me machuque.- Foi a única coisa que saiu de seus lábios no momento em que ele encostava o cano da pistola em seu rosto.

Shoran sentiu um aperto terrível em seu peito. Era como se tivesse apontando a arma para si mesmo... Nunca havia sentido uma 'dor' assim. Essa só não era a pior dor de toda sua vida, porque a morte de seu pai fora sem dúvida a que mais o marcara.

-Não irei te machucar se você me obedecer...-falou pegando a mão dela.-Se fizer tudo aquilo que eu lhe ordenar, juro que não irei arrancar um fio de seu lindo cabelo.- concluiu amarrando as mãos dela bruscamente.

"Tenha calma... não se desespere, ele não irá te machucar, pelo menos não agora".Sakura tentava se acalmava mentalmente.

-Eu não quero ferir ou machucar você.-ele voltou a falar após certificar que suas mãos estavam bem amaradas.-Mas se tenta fugir não responderei pelos os meus atos, entendeu Senhorita Kinomoto?

Não, não estava entendendo nada... Aliás, não queria entender nada a não ser que estava sendo punida por algo que nunca cometera. Quem aquele homem pensava que era para dar ordens a ela? Ele que ficasse sentado esperando que ela fosse obedecer as vontades dele.

-Não se atreva a me tocar, seu selvagem!-ela falou agressiva quando ele fez menção de tocar seu rosto.

Shoran ficou chocado. As palavras de Sakura transmitiam uma enorme repulsa e decepção. Decepção era que não estava preparado para enfrentar.

"Seja duro, Shoran, ponderou para si mesmo".Não era hora de demonstrar fraqueza."

-Nunca fale assim comigo outra vez.-Shoran levantou a mão e esbofeteou-a no rosto, ao mesmo tempo em que se lamentava em silêncio. Aquele tapa doeu mais nele do que nela...

Sakura estava pasmada. Era difícil imaginar que ele a esbofeteara.Pior do que leva um tapa na cara era a dor moral de ser ele o seu agressor, já que a única pessoa que confiava era agora seu algoz.

-Nunca entendeu...? Nunca mais fale isso, pois não terei pena de você se caso me destratar novamente.-falou dando as costas para ela, a fim de que ela não percebesse sua tristeza.-Agora não tenho mais tempo... É melhor irmos.-concluiu puxando as mãos dela.

Andaram até a porta do quarto, e sem emitir um som sequer Sakura seguia Shoran. Estava muito escuro e por isso não sabia em que cômodo da mansão se encontrava, apenas sentia que a cada passo que dava, ficava mais perto estava da morte. Continha a muito custo as lágrimas. Recusava-se a chora na frente de Shoran: "Prefiro a morte a isso".

Ele, por sua vez, caminhava ao lado, olhando sempre para frente, sem coragem de encará-la. A angústia corroia sua alma, e o perfume sensual de Sakura não o deixava se concentrar.

"Não deixe que nada estrague sua missão".Shoran tentava se convencer. Queria dar apenas um conforto a ela, não queria por nada vê-la triste e deprimida, mas isso estava fora de seu alcance. Esse era só o começo de sua jornada. Jornada que seria dura e difícil. Só rezava para Buda que fizesse Sakura perdoá-lo depois de tudo aquilo, pois não conseguiria dormir com o ódio dela.

"Desculpe-me, Sakura, mas é para o bem de meu povo... e por ele irei até o fim do túnel".