"Teu amor na treva é – um astro,
No silêncio uma canção,
É brisa-nas calmarias,
É abrigo – no tufão; "
(O gondoleiro do Amor-Castro Alves)
XI Capítulo
Shoran acordou com o barulho da porta sendo aberta. Não sabia onde estava, além de sentir um mal estar horrível. Sua cabeça parecia que iria explodir em mil partículas. Não deveria ter bebido tanto vinho na noite passada... o pior era que não se lembrava de nada que havia acontecido. Mas sabia que, no fundo não tinha feito grande coisa.
- Parabéns, Shoran. - Chao falou sentado na poltrona.- A gueixa parecia muito satisfeita, quando deparei com ela há minutos atrás. - concluiu cinicamente acendendo um fumo.
"Koushi... como fui me esquecer...", pensou ele para si mesmo levando as mãos à cabeça, ao sentir o estômago revirar. Pela a primeira vez na vida se sentia enjoado ao fazer amor com uma mulher, aliás, nunca havia feito amor com uma e sim, sexo.
Antes, nunca havia notado diferença em fazer sexo ou amor. Mas agora sabia que fazer sexo por fazer era muito vazio e sem sentido e que por mais que no momento sentisse êxtase, quando aquele minuto, passava tudo ficava frio e sem sentido. Era frustrante ter que admitir que não havia sentido nada com Koushi ao não ser prazer físico e que agora nem ao menos se lembrava do rosto da jovem.
Tinha que admitir que estava um lixo... seu estado físico e mental estavam péssimos. Nada mais fazia sentido, a não ser ter Sakura a seu lado. No momento sentia uma ânsia em enorme em vê-la, e apenas sentir que ela estava bem. No fundo, era aflição que sentia era por ela, pois temia que Lin viesse a machucá-la. Não que Sakura estivesse segura a seu lado, mas sabia que nada viria acontecer nada com ela se ele estivesse ali para protegê-la.
- Bem, meu caro amigo Shoran Li... Decreto o fim de nossa farra. Chega de mulheres e bebidas... sei que foi bom, e até eu queria aproveitar um pouco daquela japonesinha, mas nosso querido líder Tshao Li está a nossa espera. - Chao comunicou com sacarmos.
Shoran ficou frio por alguns segundos. Não era possível que seu avô houvesse abandonado a montanha. A última vez que ocorrera isso fora na revolta de 1855, quando junto com um grupo de rebeldes mongóis tentaram expulsar os japoneses da Coréia. Depois disso nunca mais abandonara o exílio que ficava nas montanhas de Pequim. Os motivos para o isolamento, poucos conheciam... Alguns diziam que a derrota fora dura demais para seu orgulho de guerreiro... Outros diziam que havia sido ferido gravemente por uma espada rancorosa e isso havia deixado-o com seqüelas. E agora ele estava ali... na Taverna. O motivo era um mistério.
- O poderoso Tshao Li...- Chao murmurou pensativo. – Vamos, Shoran! Estou extremamente curioso para saber o que Tshao veio fazer aqui.
Shoran não mexeu um músculo, preferiu ficar deitado na cama enquanto refletia os motivos que teria o homem mais velho do clã Li para tratar ali. Talvez seria a saída para seu problema ou seria o começo de outro. Mas na certa Tshao estava ali para acabar com a farra de Chao... No momento, temia que a chegada de Tshao em Pequim viesse causar um derramamento de sangue.
- Você acha que o plano para o sitiar as embaixadas em Pequim vai acontecer? - Shoran perguntou temeroso com a resposta do amigo.
Chao ficou quieto por um longo minuto, se permitiu apenas em dar uma longa tragada no fumo. Se Buda permitisse que vivesse até o dia da vitória ficaria feliz, pois sentia que não tinha muito futuro e por isso havia implorado para ter um filho com Meling. Ansiava pelo o momento do cerco de Pequim... seria a gloria para a sua revolta.
- Não sei...Mas torço para que isso venha a acontecer. - falou pensativo.
Shoran não sentia a mesma ânsia, ao contrário, temia esta revolta. Muitas vidas inocentes iriam pagar... Por um crime que certamente não cometeram. Não queria que nenhum inocente viesse a sofrer o que Sakura estava sofrendo.
- Bem, seja o que for estarei pronto para seguir as ordens de meu avô. - Shoran disse levantando da cama e indo até onde estavam suas roupas.
- Você está bem, Shoran? - perguntou Chao curioso.
- Sim... Aliás, nunca estive tão bem em toda a minha vida. - respondeu cínico. - Agora, por favor, Chao se retire...Em no máximo cinco minutos estarei descendo.
Chao estranhou o comportamento frio e distante de Shoran. Ele não era assim, podia ser tímido, mas sua essência transparecia algo diferente, nunca havia considerado-o uma pessoa fria o calculista, como algumas pessoas o consideravam. Uma coisa havia mudado nele... e tinha uma leve idéia de quem era o pivô daquela mudança... Essa pessoa tinha lindos olhos verdes e era a última pessoa no mundo com quem seu amigo deveria se meter. Essa mulher se chamava: Sakura Kinomoto.
Sakura sentia as pernas fraquejarem novamente. Temia não agüentar a grande carga nervosa que estava tencionando seu corpo. Sentir o frio do metal de uma pistola apontada para sua barriga e as unhas perfurando seus braços, estava sendo torturante demais para ela. Inexplicavelmente tinha uma venda nos olhos... temia estar sendo levada para ser executada. Não queria morrer agora... era muito jovem. Mas seu apelo de nada adiantaria, a não ser aumentar ainda mais a revolta da jovem terrorista.
- Princesinha... você terá a grande honra de conhecer nosso grande líder. - a voz ameaçadora da mulher soou na suas costa.- Então se comporte... se não terei que te matar e acho que você já sabe disso, mas antes teria o grande prazer de vê-la sofrer.- conclui maldosa. - Garanto que milhões de homens estão a fim de se deitar com você.
Sakura tremeu toda. Qual seria o próximo passo agora?... A entregar para algum marginal qualquer? Admitiria tudo menos isso... seria o último golpe de crueldade a sua honra.
- Reze muito para o seu Deus a salvar, pois seu destino é muito cruel... nem seu Deus ou seu maldito noivo irão salvá-la da justiça divina. - ela voltou a falar depois de um longo minuto em silêncio.
Lin era cruel, fria e calculista e por algum motivo o qual desconhecia, ela a odiava. Um ódio tão latente e perigoso que a estava amedrontando. Queria poder falar algumas verdades na cara dela, mas infelizmente não tinha coragem.
E esse era seu maior ponto fraco. Nunca havia tido coragem... Seu comodismo era tanto, que mal tivera palavras para contestar o pai quando ele praticamente a obrigou a entrar num navio e partir para uma terra estranha de encontro a um homem, cuja única informação que tinha era de que ele era frio e sanguinário.
O resto do caminho foi feito em silêncio, para o alívio de Sakura. Não tinha mais nervos para uma tortura psicológica, pela qual estava passando nas últimas doze horas. Horas essas que lhe parecia uma eternidade...
Sakura sentiu que Lin diminuía os passos. Isso era um sinal de que estavam chegando até o destino esperado. E só o fato de imaginar o que a esperava, lhe dava náuseas. Em um determinado momento sentiu que Lin a obrigava a pára.
E imediatamente tirava-lhe a venda que estava sobre seus olhos.
- Olha garota, o senhor Tshao Li é um dos maiores homens de toda a China... Se houver alguma reação agressiva de sua parte você já saber o que irá te acontecer. - ela voltou a falar ameaçadoramente. - Ouviu garota?
- S-sim...-Sakura gaguejou nervosa.
- Espero mesmo, pois não gosto de você e para mim seria um presente matá-la. - ela falou séria.
Sakura preferiu ficar quieta. Sua voz não saía e tudo o que viria a dizer só a prejudicaria. Aquela mulher não era flor que se pudesse cheirar e ela não estava querendo morrer agora... Não ali naquele ambiente úmido e cheio de livros.
O estúdio era bem bonito, havia tudo o que espelhava a cultura chinesa. No canto havia uma estátua de Buda...E ao lado da janela havia um altar onde um senhor estava ajoelhado. Era aquele o homem de quase noventa e nove anos, cujo nome era Tshao Li, que era líder espiritual do grupo. Devia ser avô de Shoran...
- Senhor... aqui está a prisioneira. - Lin falou ajoelhando-se perante Tshao.
O velho não tirava os olhos dela e isso a estava deixando nervosa... Era como se ele lê-se sua alma. A sabedoria chinesa era presente nele, embora a face fria e cruel fosse mais mortal do que qualquer coisa. Mas o que mais chamava atenção naquele homem, era a incrível semelhança que ele tinha com Shoran... era como se observasse Shoran mais velho. Os olhos cor de chocolate eram os mesmos... A face linda e perfeita. Ambos eram altos, mas havia uma coisa nele que o diferenciava do jovem, que era a sabedoria... Shoran ainda tinha que sofrer muito na vida para aprender a valorizar as pessoas pelo o que elas são, não pela sua religião ou pela nacionalidade.
- Então, você é a tão famosa Sakura Kinomoto! - ele falou sorrindo. - Bem, que me informaram da sua beleza minha jovem.
Sakura sentiu o estômago revirar. Sua beleza... todo mal que sofria era por causa de sua maldita aparência física, pois se não fosse bonita certamente seu pai não a havia vendido para um inglês nojento... e ela não estaria ali. Como queria ter a face transfigurada ou escondida por uma máscara. Assim ninguém a machucaria.
- Você não fala, minha jovem? - ele perguntou andando com dificuldade até a cadeira de Chao.
Falar o que, se ali ninguém daria a mínima atenção para o que ela dizia... certamente se abrisse a boca seria morta por Lin ou outra pessoa.
- Falar o quê, meu senhor... se sou apenas a prisioneira aqui? - Sakura retrucou com a cabeça baixa. - Minhas palavras iriam te ofender... E a única coisa que tenho e prezo é minha vida.
Lin apertou o braço de Sakura com força excessiva fazendo - a sentir dor. Era um sinal para se manter calada, pois já sabia o que viria acontecer com ela se não mantivesse a boca fechada.
- Aqui ninguém irá te matar sem a minha permissão... Você só terá serventia para nós, se estiver viva. - ele falou severo. - Eu queria muito conhecer a filha de uns dos maiores políticos do Japão atualmente...
Procurando respirar com calma e superar o medo, tomou iniciativa de falar.
- Por quê estou aqui?... Eu não fiz nada a vocês. Se o senhor me desse apenas um motivo para estar aqui, ficaria mais aliviada... contudo, não terminou de falar, pois sentiu a mão pesada de Lin em seu rosto.
- Lin! - repreendeu Tshao. - Por favor, quero ficar sozinho com a senhorita Kinomoto. - ele ordenou severamente, naquele momento não aceitaria um não como reposta.
A mulher baixou a mão e se retirou lentamente da sala. Não seria bom para ela desobedecer ao grande chefe.
- Outra coisa, senhorita Soo. - Tshao a chamou novamente. - Nunca mais faça isso em minha presença... A senhorita não sabe quem está humilhando. Eu devo muito ao pai dessa menina. Isso é uma ordem... e eu não costumo ser piedoso ou justo com quem me desobedece, veja pelo seu marido.
Sakura não pôde deixar de sentir uma onda de satisfação correr pelo seu corpo ao ver o rosto consternado de sua algoz. O simples fato de vê-la humilhada havia feito milagre com seu humor, além de nem ter sentido o tapa que lhe fora dado. E por fim descobrira que Tshao Li era conhecido de seu pai... Talvez ele não fosse igual aos outros ali, mas mesmo assim tinha que se manter muito atenta com relação a ele. Ainda mais, se ele era líder de um movimento que até minutos atrás, queria matá-la.
- Compreendo senhor...- murmurou Lin lançando um olhar frio e mortal para Sakura antes de sair da sala.
Sentiu que aquilo não ficaria assim. Lin era uma pessoa fria e rancorosa e certamente nunca iria perdoá-la pela humilhação. No fundo, já sabia que a terrorista iria fazer sua estadia ali o pior momento de sua vida. E ela não teria a quem recorrer, pois até seu seqüestrador havia sumido e até agora não havia dado sinal de vida. Talvez estivesse comemorando o grande feito em algum bordel... Estava sendo difícil admitir isso, pois no fundo sabia que estava certa... Era dolorido saber que Shoran estava dormindo com outra aquela hora. Mas fazer o quê, se Shoran era impossível para ela. Ele era seu inimigo agora e nunca havia sido o garoto bom por quem havia se apaixonado.
- Agora que estamos sozinhos, minha jovem, posso responder a sua pergunta. - o velho falou enrolando o fumo em um pedaço de papel. - Não tem nenhum motivo exato para sua presença aqui... Como a senhorita mesmo disse nunca fez nada para ninguém, mas seu noivo sim. - concluiu acendendo o cigarro já preparado. - Eu não pretendo machucá-la... isso nunca foi minha intenção e fiquei muito triste por ter sido mal interpretado.
O que ele estaria sugerindo com aquilo? Que ela seria uma hóspede dele?... se não fosse ridículo até que seria engraçado. Não fora isso que aquelas pessoas haviam transmitido para ela.
- Desculpe-me senhor... Mas não o compreendi – estava receosa, temendo incomodá-lo com suas insistentes perguntas.
- Minha querida, daqui a algum tempo você irá me entender. - ele falou pensativo. - Mas por este instante, você não ficará mais aqui...
- Como assim...?- perguntou sentido uma luz de esperança acender em seu interior.- Eu vou ser libertada?
-Não, minha jovem. - ele respondeu sorrindo. - Mas irá para outro lugar com o meu neto, Shoran Li. Nas montanhas você estará mais segura, pois em Pequim ira chover sangue, como diz o velho ditado popular e eu não quero que você esteja aqui quando isso acontecer.
Era difícil acreditar nas palavras daquele senhor. Era tão improvável e estranho ter uma pessoa ali que "queria", protegê-la. Não sabia se deveria ficar triste ou aliviada com aquilo. Ainda mais que iria ficar com Shoran em lugar frio e deserto que, de certo, não teria mais ninguém a não ser os dois.
- Bem, minha jovem não sou seu amigo ou inimigo. Apenas quero poupar mais uma vida humana da morte. - ele disse dando as costas para ela. - Pode ir... Minha criada ira cuidar da senhorita de agora em diante.
Assim que terminou de falar, uma mulher jovem adentrou a sala. Para sua surpresa a mulher era japonesa e tinha no máximo trinta anos de idade... Era muito bonita e tinha um sorriso agradável, que fez Sakura sentir uma paz enorme.
- Essa é a senhorita Kaho Mizuki. - ele apresentou olhando com admiração para a mulher. - Ela ficará responsável por você a partir de agora.
Era estranho que, num meio de um tumulto, houvesse uma pessoa com um sorriso tão puro e alegre. Sakura não sentiu medo da mulher... Era impressionante mais era como se a conhecesse há anos.
- Muito prazer, senhorita Kinomoto...- ela cumprimentou-a fazendo uma referência com o corpo. - Vamos... Eu quero apresentar seu novo aposento.
- C-certo...
Simplesmente inacreditável. Não sabia se estava sonhando ou se estava acordada. Há horas que vinha tentando entender alguma coisa. Tinha milhões de perguntas, mas no momento essas perguntas eram insignificantes.
Tshao deu uma longa tragada no cigarro. Era impressionante como aquela jovem era parecida com Nadeshiko. Os mesmo traços, a pele... Não estava preparado para encontrar a filha da mulher que mais havia amado no mundo e a única culpada por sua tragédia pessoal. Por ela havia abandonado tudo, até mesmo o campo de batalha aonde, por anos, lutara.
Era por Nadeshiko que estava protegendo aquela garota, pois se não fosse por ela... Certamente não estaria nem um pouco preocupado e, ao ver o tapa que Lin havia dado na garota, percebera que ainda amava Nadeshiko e que iria proteger a filha dela com todas suas forças. Não havia ninguém melhor que Shoran para essa tarefa, já que não queria ver a mão de seu único neto manchada de sangue.
Shoran sentiu as mãos suaves de Koushi em seu rosto, por um momento achara quase impossível que fosse ela, pois o perfume de Sakura era muito forte na garota. Quem as visse juntas, pensaria que eram irmãs gêmeas e que só eram diferenciadas pela cor dos olhos. Mas havia apenas uma diferença que para ele era primordial... Sakura era pura de alma e coração, enquanto Koushi não passava de uma mera boneca japonesa que era treinada para dar e receber prazer.
- Antes de ir embora para sempre Anata...- ela começou a falar timidamente. - Queria presenteá-lo com uma coisa que é muito importante para mim... e espero do fundo do meu coração que o senhor seja feliz com sua dama.
Ficou observando cada gesto delicado dela ao pegar cuidadosamente um livro, que por sinal parecia ser bem antigo... era estranho uma pessoa dar um livro tão antigo. O que aquela garota queria dizer com aquilo?
- Bem, Anata... esse é um diário. - ela falou entregando o livro em suas mãos. - Como você pode perceber ele está em branco...
Shoran pode constatar que realmente não tinha nada escrito nele. As páginas já estavam amareladas devido ao tempo e a má condição do local no qual estava guardado. A capa era forte, porém não deixava de ter seu chame.
- Estranho esse livro estar em branco...- Shoran sussurrou olhando para o livro.
- Anata, desde de pequena aprendi a dar valor para um livro em branco, pois é nele que colocamos todos os nossos sentimentos.- Koushi disse sabiamente. - Dê esse livro para uma pessoa especial para você... Mande essa pessoa escrever nesse livro tudo o que a aflige. Posso garantir para você que essa pessoa será eternamente grata a ti.
Shoran com muito custo aceitou o presente... Seja o que for que aquela gueixa queria falar, ela estava certa... só daria aquele diário para quem realmente um dia viesse a amar. No momento, não tinha condição para afirmar que amava Sakura, mas sabia que gostava muito dela... E esse sentimento parecia ser correspondido a altura. Embora, agora ela devia odiá-lo. E essa simples constatação serviu para deixá-lo muito mais nervoso.
- Obrigado, Koushi...- Shoran falou guardando o diário no bolso falso da blusa, aonde tinha guardado sua pistola de pequeno calibre. - Agora tenho que ir...
Koushi observava o único homem que havia tratado-a como um ser humano, se distanciar. Seus sentimentos estavam muito confusos... de um lado torcia para ele ser feliz ao lado da garota japonesa, o que realmente achava muito difícil, e do outro queria que ele voltasse para seu braços, mesmo sabendo que isso era impossível. Não podia deixá-lo partir sem antes dar um último beijo nele...
- Espere, anata...- ela correu até ele e foi recebida de braços abertos...- Obrigada anata... eu estarei rezando por você, meu senhor...- não terminou sua frase, pois sentiu os lábios dele passarem sobre os delas, num beijo fraternal.
- Adeus, Koushi...-Shoran disse se afastando de vez.
"Essa será a última vez que o vejo... não sei se estará vivo ou se um dia voltará aqui... nem eu mesma sei do meu futuro, mas de uma coisa eu tenho certeza... eu nunca me esquecerei de você, Anata" - pensou Koushi triste ao ver o vulto de Shoran sumir no horizonte.
- Bem, vamos trabalhar mulher... Temos um dia longo pela a frente ânimo garota. - Francis falou assim que a viu parada na porta.
"Obrigada por tudo mesmo..." - pensou sorrindo. "Seja qual for o meu futuro, jamais me esquecerei de você."
- Esse é o seu novo quarto, senhorita Kinomoto. - Kaho falou abrindo a porta. - Não é grande coisa, como uma dama merece, mas é melhor do que aquele cubículo em que foi encarcerada. - concluiu abrindo a pequena janela.
"Com certeza aquilo era melhor do que o porão em que estava."- pensou feliz olhando para o quarto simples, porém com instalação mais dignas do que o anterior. A cama era grande e espaçosa e havia um quarto contíguo a seu. Certamente era ali que Kaho iria dormir.
- Eu não tenho palavras para agradecer a senhora por estar...
- Querida não precisa me agradecer... – ela falou alegre. - Você é muito parecida com sua mãe, sabia?...
Estranho, primeiro Tshao Li conhecia seu pai e agora Kaho também conhecia sua mãe. Aquilo era muita coincidência ou eles estava brincado com ela.
- Como... Como a senhora conhece minha mãe?
Kaho se aproximou da garota, cujo rosto parecia sofrido demais para uma jovem da idade dela. O que não era justo... Na idade dela era feliz e vivia saltitando pelos lados. Sakura não, ela tinha marcas profundas em seus olhos verdes. Um sofrimento tão grande que causava aflição. Nadeshiko era igual e era por isso que Tshao havia se apaixonado...
- Sua mãe foi uma grande amiga de infância... –despistou abrindo a porta do guarda roupa. - Eu morei na província de Tomoeda por anos em minha infância...
Isso não explicava nada, apenas a deixava mais intrigada. Mas preferiu ficar quieta, pois se não, estaria abusando demais da boa vontade daquela mulher, que bem ou mal ainda era sua inimiga. Já que pouco sabia dela, a não ser que seria sua companheira de agora em diante.
- Olha, aqui tem uma muda de roupa. Porque não toma um banho para relaxar? - disse Kaho pondo um ponto final naquele assunto. - Eu tenho que ir agora, pois meu amo me espera...
Adoraria tomar um banho. Seria muito bom tirar o suor que estava acumulado em seu corpo... Aceitando com muito agrado as vestes que Kaho oferecia.
- Obrigada, senhorita Mizuki. - Sakura sorriu.
- Você é minha hóspede querida... mas, por favor, não fale nada para ninguém. - falou deixando-a sozinha.
Sakura olhou para suas roupas, aliás, olhou para o que restava de suas veste que além de encardidas, estavam rasgadas. Nada seria melhor do que um banho... mesmo que a água fosse fria. O que importava era tirar esse cheiro horrível de pólvora. Respirando fundo... viu seu mundo voltar parcialmente nos eixos. Embora ainda estivesse sendo refém daquele grupo.
- Como assim... eu não entendi senhor...- Shoran resmungou alto. - Então o que planejamos a anos será posto em prática em uma semana...? Isso é loucura...
Estava transtornado... o que mais temia havia acontecido. Aliás, de repente tudo o que não esperava e não queria estava acontecendo. Primeiro havia seqüestrado uma garota que tinha tudo, menos maldade em seu coração. E segundo, agora teriam que sitiar Pequim... Isolar as embaixadas ocidentais. E matar todos, não importando se essas pessoas fossem crianças, velhas ou mulheres. E tudo isso em nome da imperatriz.
-Shoran, não se faça de desentendido... tanto eu como você estamos cansados de saber que isso iria acontecer... e agora é a hora certa para isso. - Tshao falou. - Mas minha visita aqui não foi para tratar sobre esse assunto.
Qual motivo seria de tamanha importância para que ele não pudesse mandar um mensageiro em seu lugar? Seu avô era muito estranho... Numa hora era o frio senhor das terras, em outras, um velho bondoso... Que nada parecia com um verdadeiro integrante do clã Li.
- O que te trás aqui, senhor? - perguntou nervoso.
Era difícil falar com Shoran. Ele sempre vinha armado com pedras nas mãos... Mas no fundo, era uma boa pessoa, assim como Chang... seu filho, que havia sido cruelmente morto ao lado da mulher. E isso havia afetado duramente seu neto...
- Sakura Kinomoto... Não achei certa a forma que estão tratando essa garota. - Tshao falou. - E em hipótese alguma a quero aqui...
Shoran sentiu o corpo dar sinal de alertar. O que seu avô queria dizer com "E em hipótese alguma quero ela aqui."? Será que ele iria dar as ordens de execução? Não, se fosse isso achava que não seria capaz de deixar... Sakura já era importante para ele, como as estrelas são importantes para a lua.
- Como assim... fale mais claro, senhor. - Shoran falou nervoso acendendo um cigarro.
Li já não conseguia esconder seus sentimentos. Estava mais do que provado que ele estava irremediavelmente interessado na garota japonesa - pensou Chao olhando cinicamente para o amigo. Shoran só podia ser idiota se o que imaginava fosse verdade... Aquela infiel nada merecia do que desprezo.
- Estamos com um sério problema de segurança. Um de meus informantes descobriu por fontes seguras da embaixada japonesa, que aqui na taverna tem um espião implantado. - Tshao falou completamente transtornado. - Se de alguma forma vazar a informação de que essa garota está aqui, as forças japonesa e inglesa invadirão o local... E isso meus caros jovens, é suicídio para nossos planos. - ele fez uma pausa andando de um lado para outro, logo em seguida encarando o neto. - Shoran, quero que pegue Kaho, Meling e a senhorita Kinomoto e vá para as montanhas... e lá fique até chamá-lo, o que será feito em uma semana antes do cerco das embaixadas.
"Isso é loucura, como ele pode ser tão impulsivo?... Tshao não sabia que sitiar Pequim agora era suicídio, não apenas para eles, mas um genocídio contra pessoas inocentes.". O bom disso tudo, era que Sakura não iria ficar ali, naquele ambiente instável e frio.
- Realmente, o senhor está certo. - Shoran falou abaixando a cabeça. - E quanto poderei viajar com elas?
- Quando preferir, mas sugiro que seja amanhã de madrugada. - Chao falou pelo tio. Seria ótimo que sua esposa também saísse dali por algum tempo... pelo menos até seu filho nascer. - Agora o que me preocupa é saber quem é esse espião...
Sim, esse era o prisma de tudo. Mas já não era mais um grupo secreto… e pelas as ações que haviam comandado era mais do que certo de que essa proteção havia se extinguindo completamente. Era hilário saber que o jogo havia se invertido.
- Bem, seja quem for Chao, não poderemos fazer nada... Somos em número bem maior do que eles e certamente eles pouco podem fazer contra gente. - Shoran falou com sacarmos. - Agora se me derem licença eu quero ver como a senhorita Kinomoto está. - concluiu andado até a porta.
- Espere, Shoran. - Tshao o chamou com cara de poucos amigos. - A garota está no quarto de Kaho, e não mais naquele porão em que vocês a prenderam. - ele fez uma pausa acendendo um cachimbo.- Mais à noite quero tanto você como Chao aqui, pois teremos uma reunião com a imperatriz...A nossa senhora está muito preocupada e precisa urgente nos falar.
"Mas uma vez, a grande mãe o chamava para uma conversa. Da última vez, cem crianças perderam a cabeça... agora quais seriam as vítimas dela?"- pensou Shoran triste, abrindo a porta. Fora o pior momento de sua vida, mas agora não estava disposto há seguir as ordens dela... Mesmo que isso acarretasse na sua morte. Uma coisa que dificilmente iria acontecer.
- Estarei aqui, meu senhor. - Shoran falou secamente fechando a porta
Kaho entrava silenciosamente na ala de empregados. Sua presença ali seria pouco notada... seria só o tempo de ver Touya e passar um recado para ele. Mas sabia que não iria resistir a tentação de se deitar com ele.
- Touya...-sussurrou ao vê-lo se banhado.
Ele era lindo. Os músculos bem definidos... a pele estava morena por causa do trabalho pesado. Seu rosto parecia estar transfigurado pelo ódio... o que o deixava mais bonito. Sabia que era desleal da parte dela se envolver com aquele jovem... mas o desejo era mais forte do que a razão.
- Kaho...-ele falou pegando a tolha para enxugar o rosto.
Erguendo o vestido, Kaho correu até aos braços de Touya, que no momento já se encontrava estendido para ela.
- Estava com tanta saudade, meu amor...-ela falou beijando o rosto dele. - Você não sabe o quanto...
Touya se limitou a levantá-la no ar e colocá-la em sua cama. Com Kaho era assim... Nunca havia se deitado com uma mulher que lhe desse tanto prazer quanto ela... Kaho era um fogo que nunca se extinguirá. E certamente ela era uma das mulheres de sua vida... Embora nunca tenha falado isso para ninguém. A beijando com paixão, Touya soltou o laço que prendia os cabelos da mulher... "Deus como essa mulher é linda. Jugo que tamanha perfeição não existe..." - pensou beijando o pescoço dela.
- Como és linda. Kaho...- sussurrou beijando-a novamente com paixão.
- O que você está fazendo aqui? - Sakura perguntou deixando a toalha cair no chão.
Aquela visão era horrível. A morte estava apontando para ela... e ela não tinha a quem recorrer. Lin iria matá-la... sabia que ia. Seus olhos estavam transfigurados... a aparência era de uma assassina que, com um passo em falso que
a sua vítima desse, iria atirar.
- Menina... o que eu disse para você hoje. - ela falou transtornada. - Eu falei que a mataria se me desobedecesse... e você vez mais do que isso. Por tal motivo, agora irá morrer.
Não era a primeira vez que tinha uma arma apontada para si... mas era a primeira que iria atira nela e sabia que desta fez seria o fim... Até que poderia ser uma salvação...
- Por favor, senhora Soo... Eu não fiz nada...
- Cale a boca! Aqui quem manda sou eu... E não você. - falou sorrindo falso. – Então, comece a rezar menina, pois seu fim está próximo...- concluiu gargalhando andado até ela.
- Vá embora! Kaho chegará a qualquer momento...
Lin sorriu, triunfante:
- Ela está muito ocupada com Touya no porão. - voltou a gargalhar como uma louca. Quanto mais chegava perto dela, mais Sakura tremia.
- Não é verdade...
- Ah, que pena tenho de você, senhorita...- ela falou cínica apertando sua face. - Seria uma ótima gueixa, mas seu futuro, ou melhor, você não quis isso...
Não suportando o olhar ameaçador da empregada, Sakura tentou fugir. Lin, era muito mais hábil e a agarrou pelo o braço.
- Você é perigosa garota...- a mulher falou sorrindo. - Não tenho mais tempo para ficar brincando com você. Chegou à hora da sua execução...- disse esbravejando, sacudindo-a e atirando-a na parede.
Sakura caiu e não ousou se levantar. Lin apontava para sua cabeça. A pistola estava pronta para disparar.
-A culpa disso tudo é sua! - ela gritou descontrolada. - Apenas seu Deus poderá salvá-la agora. - concluiu apertando o gatilho.
Um estopim surdo soou pelo quarto. Por um momento Sakura pensou que estava no céu... Seus olhos estavam fechados. A paz era tão grande, que já não escutava os gritos desesperados de Lin. Seria ali o céu...
- Encoste um dedo nela e lhe estouro os miolos, Lin. - era Shoran. - Desapareça daqui! - gritou.
Lentamente, Sakura abriu os olhos e viu Lin completamente desarmada. Em cima de sua cabeça havia marcas de tiro na parede. Isso queria dizer que Shoran havia desviado os projéteis. E era ele, por sinal, que estava com as duas armas nas mãos... Ele por sinal estava lindo... mas aquela não era hora de pensar naquilo.
- Você me paga, garota...- sussurrou Lin ao transtornada, sair do quarto.
Sakura olhava atentamente para o jovem que, por algum motivo não parava de olhar para a janela. Ele estava nervoso e isso era visível. Talvez estava confuso que nem ela... que por um momento o odiava e por outro o amava.
