"Quando dominam os justos, alegre-se o povo;
quando governa o ímpio, o povo geme. "
(Provérbios)
XVII Capítulo
Sakura olhou para Shoran com malícia. Se uma de suas várias preceptoras a visse naquele momento, certamente a faria ajoelhar no milho por uma semana. Mas no momento as últimas pessoas que se importava, era com aquelas mulheres frias e recalcadas de pudores ridículos. No termo e poucos minutos que havia sido de Shoran havia aprendido que não havia limites para paixão e que a vida era curta demais para ser desperdiçada com pudores morais. E não se negaria ter mais uma chance com o homem que amava, pois sabia que depois dele não seria mais capaz de se entregar a nenhum homem.
-Como vai, lady Sakura?-perguntou ele embainhado a espada.
-Não me chame de lady, Shoran.-disse sorrindo indo até o lago.-Apenas de Sakura...
-Tanto faz.-falou sério indo até a beira do lago lavar o rosto.-Desde quando está me espionando?
-Que sacrilégio, como ousa falar isso...-falou num tom de indignação que não sentia.-Eu cheguei agora pouco... Questão de cinco minutos apenas.-concluiu aumentando o volume da voz.-Como pode pensar que estava te espionando?
-Como pude chegar a essa conclusão? É fácil Sakura...-disse sarcástico.-De um tempo para trás é só isso que a vossa senhorita faz...
Ele estava certo, mas nunca havia o seguido... Apenas ficava o seguindo com os olhos. Em busca de um olhar de carinho vindo dele. O que não deixava de ser uma busca sem sentido, pois Shoran mal olhava para ela.
-Ai que o senhor se engana.-rebateu revoltada.-Não perco meu tempo te seguindo... Não preciso disso meu senhor.-concluiu irônica.
-Há quem pensa enganar, Sakura!-perguntou se aproximando dela.
-Há ninguém senhor, pois nunca fui obrigada a mentir meus sentimentos.-disse erguendo o busto num gesto orgulhoso.
-Está me chamando de mentiroso, senhorita?-perguntou perigosamente perto dela.
-Sim...
-Saiba a vossa senhoria que não vou agüentar a sua língua ferina.-disse bem próximo do corpo dela, a ponto de sentir sua respiração.
Era reconfortante voltar a sentir a respiração dele. Além de ser uma vitória, pois mais uma vez havia tirado o todo poderoso Shoran do sério. Em fim havia conseguido atingir o alvo... Agora era só fazê-lo perceber que a amava... Afinal havia ganhado mais uma batalha mais não a guerra.
-Tu temes minha língua, pois a julga perigosa.-ela falou maliciosa.-Mais saiba que o perigo não está no que falo, mas sim no que penso...
-Quem disse que tenho medo da senhorita.-disse sarcástico.-Mas temo esses olhos verdes perigosos, que são capazes de cegar a razão de qualquer homem.-concluiu passando as mãos no seu rosto.-Temo cair em tentação mais uma vez... Temo não segurar minha luxúria e arrematar seu corpo mais uma vez.
Hipnotizada pela a sensualidade das palavras dele, Sakura o enlaçou pelo pescoço. Estava em uma grande desvantagem, pois Shoran era muito alto. Mas mesmo assim não pode conter e tomou a iniciativa.
-É só isso que sente por mim?-ela perguntou olhando para os lábios dele.-...Luxúria...
Não, não sentia apenas luxúria por ela. Mas sim amor... Um amor tão forte que o impedia de falar o que realmente sentia por ela. Tinha de alguma forma protegê-la desse sentimento destrutivo que o estava deixando louco. Se não partisse imediatamente para Pequim não saberia do que seria capaz.
-É o que devo sentir...
-Como assim?-ela voltou a indagar olhando diretamente nos olhos.
-Eu não posso te amar.-disse empurrando ela com delicadeza.-A única coisa que posso sentir por você é pena, desejo e nada mais...
Aquelas palavras tiveram o efeito de mil bombas no coração de Sakura. Não queria a piedade dele muito menos desejo, queria sim ter seu amor... Ser a única mulher em sua vida. Mas pelo visto ela não passava de um objeto de prazer. Não iria desistir dele tão fácil... Apenas precisava de um tempo.
-Lamento muito por você ser um ser tão frio.-disse olhando para ele com rancor.-Incapaz de sentir nada... Não lamento por você, e sim por mim que fui incapaz de revestir com uma máscara preta meu coração.-concluiu quando erguia a cabeça e lhe dava as costas a fim de esconder as lágrimas que brotavam de seus olhos.
-Sakura...-ele gemeu indo até ela.
Odiava ver ela sofrendo. Mais do que ninguém queria vê-la sorrindo como a minutos atrás, mas jamais poderia esconder a verdade dela... O amor de ambos era impossível. E mesmo que não fosse um Boxer jamais poderia se casar com ela... Sakura era especial demais para um homem tão insignificante como ele.
-Fique onde está... Não se aproxime de mim.-ela pediu com a voz rouca. Era visível a sua dor.
-Sakura, por favor, me compreenda...
-Compreender o que?-disse virando para ele com os olhos embaçados.-Que não me ama, e que fui apenas uma mulher a toa que se deitou por uma noite? Isso eu já compreendo. Mas tem uma coisa que não vai mudar nunca... E é esse sentimento que você com seu sarcasmo não vão apagar...-pausou olhando fixamente nele.-Eu te amo, Shoran... Não sei como pude ser tão otária a ponto de sentir isso...-concluiu dando lhe as costas.
Sakura não esperou por uma resposta apenas deu as costas para o amor, e correu mata adentro. No momento queria ficar sozinha com sua desilusão, e procurar na tristeza um motivo para caminhar daqui a diante.
5 dias mais tarde, Pequim...As barricadas já não agüentavam mais a incursão dos Boxers. Que além de terem mais homens, tinham também armamento. A situação já estava ficando caótica... Pequim havia sido varrida pelo os rebeldes, Tsentsin havia sido dominada, e o único porto a sua disposição havia sido destruídos. Algumas pessoas já se resignavam com o futuro, outras ainda tinham esperanças de ajuda internacional.
Em algumas cartas destinadas a sir.Claude, Guilherme II, imperador da Alemanha lhe garantia que a força aliada estava a caminho da China, e que era para eles agüentarem por mais algumas semanas. O que era imaginário? Os hospitais já estavam necessitando de mais e mais leitos, crianças adoeciam de doenças estranhas... As condições de vida estavam piorando. Nos pensamentos mais otimistas de Touya eles não conseguiriam sobreviver por mais dois meses... Cada minuto era precioso. Era aterrorizante escutar o grito de guerra dos Boxers.
-Droga!-praguejou trocando a munição do rifler.
-Touya venha cá.-Yukito chamou uma barricada adiante.
Levantando-se, Touya caminhou até seu comandante. Que lhe pareceu um tanto nervoso.
-Que canhão faz aquela fumaça?-perguntou intrigado.
Touya olhou para a fumaça que vinha do lado inimigo. Conhecia bem aquele cheiro de pólvora... Era... Era da arma mais letal que havia conhecido.
-É Betsy...
-O quê? Não posso acreditar.-Yukito falou horrorizado.
-Sim, é a arma mais perigosa que há hoje em dia.-disse erguendo a sobrancelha.-Não é preciso descrever o estrago que ela faz...
-Alguma notícia?
-Não...
-Estamos sem munição.-Touya falou.
-Eu sei...
-Alguma idéia?
Sim, tinha mais não arriscaria mais uma vida. Entrar na tubulação no momento era burrice. Ninguém ali estava altamente capacitado para aquele tipo de ação. E não arriscaria a vida de Touya.
-Não.-mentiu dando as costas.-Só nos resta esperar que a força de coalizão chegue antes de nossa queda.
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Sakura evitava todas as formas de olhar para ele. Já não fazia mais refeições junto com os outros. Preferia fazer suas refeições ao lado dos criados. Seu coração já havia sangrado demais...Não queria mais sofrer. E ele já havia a magoado demais. Mas naquele dia em especial fora forçada a ficar no mesmo ambiente que ele... Aquele era o jantar que antecedia a ida dele a Pequim. Bem ou mal ainda o amava, e queria muito guardar alguma recordação dele. Além do mais não era otária a ponto de negar que aquela poderia ser a última vez que o via em vida.
Todos na mesa estavam quietos. Pareciam conformados... Nem parecia que Shoran estava indo para uma "guerra", certamente já estavam acostumadas com aquele tipo de situação aterrorizante.
Shoran estava mais velho, sua expressão estava séria. Pela primeira vez chegou a cogitar a possibilidade de ele também estar sofrendo com aquela situação. Não havia tido contato com ele, e as poucas vezes que o tinha visto fora de longe quando ele treinava com sua espada. Ficava a distância observando cada golpe dele... Admirando o corpo perfeito. E se odiando por amar um homem que sentia pena dela. E cada vez mais sentia o amor que tinha por ele crescer... E interiormente se odiava por se sentir tão vulnerável.
Seu coração a oprimia. Aquela poderia estar sendo a última vez que o via com vida. Só a simples idéia de que aquilo era um adeus definitivo já a deixava nervosa. Mesmo que ele não morresse... Aquilo era definitivamente uma despedida. Pois não ficaria para sempre naquele desfiladeiro.
-Está se sentindo bem, Sakura?-Kaho perguntou com um leve sussurro.
-S-sim -sussurrou acordando de seu devaneio.
-Anda muito estranha ultimamente... Aconteceu algo que não saiba?
-Não, eu estou bem...-disse sorrindo.-Ando com muita saudade de minha família. Sou grata a vocês por tudo o que fizeram e que fazem por mim, mas aqui não é meu lugar...
-Entendo perfeitamente como se sente...-Kaho falou.-Mas não é o momento para sair daqui... Além do mais acho que o seu problema se chama Shoran...
-Não quero tocar nesse assunto, senhorita Mizuki...-disse com a cabeça baixa.-Se um dia senti algo por essa pessoa pode ter certeza de que está morto.-concluiu pondo um ponto final naquele assunto tão doloroso para ela.
Sakura sentiu o magnetismo dos olhos dele. Shoran estava olhando para ela, certamente querendo guardar a imagem da otária com quem havia dormido. Mas mesmo assim não se arrependia de nada que havia feito, apenas não repetiria a mesma burrice.
-Com licença vou me deitar.-Sakura falou se levantando. Não tinha estômago e se ficasse mais um minuto ali não iria segurar os seus sentimentos e iria chorar.
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Shoran nunca se sentiu tão desconfortável. No fundo queria levantar daquela cadeira e correr atrás dela... Mas a certeza de que só iria feri-la ao ir atrás dela o havia mantido preso ali. Não queria dar falsas esperanças a ela... Já havia destruído o amor que ela dizia sentir por ele. Naquele momento certamente o odiava por tudo o que ele havia feito a ela. Certamente tinha tanto rancor em seu coração que agora o queria morto. Não a culpava, ao contrário a entendia perfeitamente, como ela poderia continuar amando um homem que não fizera outra coisa a não ser machucá-la.
-E-eu vou ver...
-É melhor não, Shiefa.-Shoran replicou autoritário.
-Mas...
-Não me desobedeça.-falou com certo autoritarismo.
Amava Sakura, e a conhecia muito bem a ponto de perceber que ela não precisava da ajuda de ninguém naquele momento. Ela precisava de tranqüilidade... No fundo sentia o mesmo desespero que ela. O medo de nunca mais vê-la tomava conta de seu corpo. Não seria fácil dizer adeus. Talvez fosse melhor que ela se distanciasse dele antes da partida, talvez o silêncio dela fosse a calmaria para o seu coração. Queria guardar para sempre a imagem angelical dela em seu coração.
O jantar transcorreu num clima pesado depois da saída inesperada de Sakura. Ninguém estava com fome, comia por obrigação. Shoran não agüentava mais aquele clima insulso tanto que logo se levantou e saiu. Precisava exercitar os músculos que estavam tensos como a arca de uma harpa. E nada melhor do que treinar um pouco Wushu... Seria uma forma de descontar na espada a frustração que era não poder se aproximar de Sakura.
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O que estava fazendo naquele lugar? Perguntou para si mesma, mal acreditando que estava de volta para aquele mesmo lago. Depois do que acontecera ali ficara bem claro de que nunca mais poria seus pés naquele lugar, mas pelo visto estava completamente enganada. Pois ali estava...Olhando mais uma vez para o lago que um dia foi à testemunha da morte de seu amor por Shoran.
Não tinha boas lembranças daquele lugar, e por algum motivo ainda obscuro sentia seu coração disparar toda vez que ele se aproximava dela, ou pelo fato de um simples olhar dele fazê-la fugir como uma lebre assustada. Não negava que ainda o amava, mas não o deixaria rebaixá-la de novo. Aliás, aprender amar era mais fácil do que desaprender a gostar.
Escutando passos, logo percebeu que teria companhia. Esperava que não fosse quem estava pensando... Não tinha barreiras para combatê-lo agora, e certamente isso daria alguns pontos a ele. Não demorou muito para ele aparecer. Todo poderoso carregava consigo uma espada, porém estava pálido. Certamente também não contava com a presença dela ali.
-O-o que está fazendo aqui...?-perguntou ela não escondendo a surpresa.
Pelo o visto os papéis havia se invertido. Agora ela perguntara e não ele, como havia ocorrido na situação passada há cinco dias atrás. Ela estava linda, a escuridão da noite constatava com os longos cabelos dela prendidos num cocke... Os olhos verdes tinham uma tonalidade gótica que a deixava mais linda do que já era. Sua vontade no momento era abraçá-la e revelar todos os seus reais sentimentos.
-Precisava pensar um pouco...-disse colocando a espada no chão.-Não esperava te encontrar aqui...
-Eu também não esperava te encontrar mais.
-Eu sei...-disse abaixando a cabeça. Não poderia reparar o erro cometido, mas poderia ao menos devolver o sorriso para aqueles lindos olhos... Não se perdoaria se partisse sem ao menos se despedir como devia a ela.-Sakura... Sinto muito por tudo o que aconteceu entre nós.
-Não sinta, Shoran.-disse tacando pedrinhas no lago.-Tudo o que fizemos teve um propósito... E eu não me arrependo em nada do que fiz com você.
-Mas eu violei sua honra.
-Não, violar a honra de uma mulher não é você tirar sua castidade e sim magoá-la.-disse rindo.-Eu não me arrependo de ter me entregado a ti, pois devo admitir que foi o momento mais lindo da minha vida.
Para ele não fora diferente. Nunca se esqueceria daquela noite mágica onde pudera sentir a mulher amada perto de seu corpo. Cruzada em seu ser... Nunca esqueceria dela, mesmo que vivesse cem anos.
-Então de uma forma ou de outra violei sua honra...
-Não, você não me magoou, mas sim feriu meu orgulho... Não tenho ódio por você, mas sim por mim, pois ainda te amo.-disse abaixando a cabeça.-A honra eu abstraio... Quando você a perder não tem outro caminho a não ser a morte.
Shoran abaixou a cabeça e sentou ao lado dela. Como queria poder ser sincero como ela, e abrir seu coração... E dizer o que queria falar, mas isso era impossível... Era tarde demais.
-Um guerreiro quando perde a 'honra' a primeira coisa que pensa em fazer é se suicidar.-ela continuou embaraçada.-Uma mulher quando perde a 'honra' a primeira coisa que pensa em fazer é erguer a cabeça e seguir em frente...Quando ela perde seu grande amor ela chora, mas nunca pensa em desistir...-concluiu encarando ele nos olhos.-Sabe Shoran, eu nunca vou te odiar, pois você durante um tempo foi minha única referência... 'Meu porto seguro'. Queria muito que me amasse, mas se isso não é possível...
"Eu te amo, com todo o meu ser... o que mais queria é ter uma vida ao seu lado, mas vejo que é melhor me distanciar. Sei que será mais feliz sem minha presença", pensou ele triste e cabisbaixo.
-Eu nunca quis te dar falsas esperanças...-falou com a voz baixa.
-Eu sei... Mas mulher é um bicho burro.-disse usando vocabulário diferente, seu tom de voz era brincalhão.-Adoramos amar homens 'impossíveis'... Adoramos viver em perigo.
Sakura tinha vontade de gritar a plenos pulmões que o amava mais do que a própria vida. Que jamais iria deixá-lo... Contentaria com o pouco que ele lhe desse.Viveria de esmola, mas mesmo assim seria feliz. Seria muito feliz, pois teria ele ao seu lado.
-E eu sou um homem 'impossível'?-perguntou entrando na brincadeira.
-Sim, um homem inacessível a mim... Um homem tão duro e cruel que é incapaz de amar.-ela falou séria.
-E-eu...-ele gaguejou.-Você é uma pessoa muito especial... Tão especial que não mereço tamanha devoção. –disse tomando coragem e a tocando no rosto.
Sakura tentou de todas as formas se libertar das mãos dele, mas era impossível levando em conta a força que Shoran possuía.
-Me solta, Shoran.-ela falou num tom suplicante.-Não me machuque mais... Eu não serei capaz...
-Shhh.-disse tampando a boca dela.-Essa é a última vez que me vê...não existirá uma próxima vez.
Ele estava se despedindo. Devia pensar que iria morrer, ou quando voltasse ela estivesse partido para o Japão. Mas isso nunca iria acontecer.
-Antes de tudo quero lhe pedir que se aquela noite tiver alguma conseqüência...-ele fez uma pausa.-Não hesite em tirá-la, ou se não tiver coragem de tal ato, por favor, abandone essa criança em qualquer lugar.
-O quê?-ela perguntou pálida. Se tivesse carregando em seu ventre um rebento de Shoran seria a mulher mais feliz do mundo... Seria uma forma de Deus mostrar que não havia deixado a desamparada. Nunca seria capaz de matar uma parte de Shoran.-Eu jamais faria isso... É contra a lei de meu Deus...
-O seu Deus não é o mesmo que o meu... E jamais toleraria ter um filho bastardo.
-Ele não será um bastardo, pois terá uma mãe para zelar por ele.-disse erguendo a cabeça.- Eu jamais abandonaria um ser indefeso... Eu não sou igual a você e a seu povo que jogam crianças no lixo, como se a vida dela não valesse um centavo qualquer.-concluiu revoltada.
Ter um filho dela seria o céu, mas não era justo destruir a vida dela. Jamais toleraria ver seu filho ser tratado como um ser insignificante. O preferia morto a conviver com estigma de "espúrio".
-Você sabe minha posição.-disse duro.-Faça o que quiser da sua vida.
As mãos dele apertaram seu rosto com crueldade. Sentia tentado a beijá-la, mas temia que isso desencadeasse nele sensações perigosas demais para serem controladas.
-Como queria...-ele sussurrou suavizando seus toques.-Como queria...
-Queria o que?-perguntou ela se deixando levar pelo clima contagiante.
-Como queria poder beijá-la.-falou se aproximando dela.-Como queria poder amá-la...
Sakura se deixou levar pelo o calor das mãos de Shoran. Era contagiante sentir o cheiro dele novamente.
-Nada que fizer vai diminuir o que sinto por você, Shoran...-sussurrou sentindo os lábios dele roçarem os seus.-Não quero nada de você... Quero apenas que volte vivo...
-Shhhh, não quero pensar em nada agora...-disse arrebatando seus lábios.-Apenas quero sentir seus lábios pela última vez.
Era difícil descrever o que aconteceu depois. Mas não podia negar que todas às vezes que a beijava ia para o céu... Foi espetacular e triste, pois aquele beijo tinha um sabor de despedida. Nunca mais iria sentir o cheiro dele... Nunca mais iria beijá-lo, ou muito menos sentir o corpo novamente. A simples constatação a deixara com os olhos marejados. Nunca iria se esquecer de Shoran... Muito menos deixá-lo de amá-lo... Se Deus concedesse a ela o milagre de conceber um filho de Shoran seria seu maior presente.
-Antes de tudo Sakura...-ele disse se distanciando dela.-...Queria muito te dar um presente.-concluiu abrindo o agasalho.
Não poderia revelar seu amor, mas poderia dar a prova dele para Sakura naquele momento. Iria dar o livro que Koushi havia lhe entregado naquela manhã. Ainda se lembrava com perfeição das palavras dela.
"Dê esse livro para uma pessoa especial para você..."
Sim, daria esse livro para a única mulher que um dia amou no mundo. No fundo queria ser tão especial para ela, do que ela havia sido para si.
-Esse livro foi de uma pessoa muito bondosa...-ele disse retirando o livro do bolso.-Ele está em branco...Como percebeu é um diário.-entregou o diário a ela.-Essa é uma forma de desabafar os seus sentimentos...
Sakura olhou emocionada para o pequeno livro que lhe foi entregue, sem saber o passado dele.Mas tinha certeza de aquele livro iria acompanhá-la pelo o resto da vida.
-Obrigada Shoran.-disse abraçando ele derramando lágrimas.-Saiba que sempre serei grata a você por tudo que fizeste por mim.
E ele ficaria eternamente grato por ela ter ensinado a amar. Pois amando é que pode perceber que a vida era um poço mais profundo do que imaginara.
-Eu é que tenho que agradecer.-disse beijando as lágrimas que escorriam pelo o rosto da jovem.-Já passa da meia noite é melhor voltarmos para a casa.
Gesticulando um sim com a cabeça se deixou guiar por Shoran. Naquele momento nada parecia afetá-la... E pela a primeira vez em cinco dias podia falar que estava feliz. Pois no fundo sabia que Shoran sempre estaria a seu lado.
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Nadeshiko estava entre a vida e a morte. Os médicos estavam pouco otimistas com relação a recuperação da jovem mulher do oficial japonês. Se ela ficasse ali sem condições de tratamento ou medicamento certo para seu problema certamente chegaria a óbito. Para o desespero de Fujitaka, que se julgava o único culpado pela a tragédia que se abatera sobre sua família. Seu destino era ficar sozinho... Sakura perdida em algum lugar daquele país continental, Touya em frente de batalha arriscando sua vida, Tomoyo em Cantão sem recursos e agora sua linda e admirável esposa quase morta.
-Querido já disse que não gosto dessa expressão em seus olhos...-ela sussurrou sorrindo com candura.
-Como posso ficar feliz com você nessa cama, Nadeshiko.
-Eu estou bem... Vou me recuperar, pois antes de morrer quero ver minha filha.-disse olhando para Mai que virara sua enfermeira em tempo integral.
Sim, Nadeshiko iria ver Sakura... Iria procurar a filha no fim do mundo se preciso. Enfrentaria um pelotão Boxer se preciso, mas Nadeshiko iria rever a filha. Beijando a mulher na testa Fujitaka olhou decidido para a jovem Mai.
-Senhor...-ela chamou cabisbaixa.-Não acho certo...
-Minha mulher está morrendo, senhorita.-disse em inglês polido.-Eu nunca me perdoaria se ela morresse antes de rever a filha... Então se a senhorita tiver alguma informação, por favor, peço que me repasse.
Mai admirava Nadeshiko, em pouco tempo de convivência havia aprendido muito com aquela mulher. Que há uma semana atrás havia protegido da fúria de Lorde David... Estaria traindo Shoran, mas não era por maldade e sim para a felicidade de uma mulher com as horas contadas.
-Bem, lady Sakura até dias atrás estava na Taverna na periferia de Pequim...-disse olhando para a janela se lembrando da carta que recebera de Shoran há dois dias atrás.-Por questão de segurança eles foram para o desfiladeiro...
Não estaria prejudicando ninguém. Shoran estava ali perto dela, e as mulheres estavam sozinhas... Além do mais Fujitaka não iria com o exército. No momento faria de tudo para ver lady Nadeshiko feliz...
