os ímpios por causa das obras de impiedade
que praticaram, e por causa de todas as palavras
injuriosas que eles, ímpios, têm proferido contra
o nosso Deus".
(Apocalipse-15-1)
XIX Capítulo
Touya olhou bem para o sujeito na sua frente. Para um soldado de alto escalão ver um mísero guarda era muito suspeito. Mas suspeito ainda que ele ainda não tivesse notado sua presença, pois para um membro do Yijetuan ele estava muito distraído. Claro só podia ser um fraco... Senão, não seria designado para uma missão tão estúpida que era seqüestrar uma mulher indefesa, e que era mal comprometida com outro. O que as pessoas iriam pensar de Sakura quando ela fosse resgatada, conhecendo muito bem o tamanho da língua do povo, certamente iriam difamá-la... Como fizeram com sua mãe há anos atrás. Aquela era a hora certa para atacar. Mesmo distraído sabia muito bem a força que aquele indivíduo tinha... Já ouvira histórias de arrepiar sobre o manejo da espada que aquele garoto tinha. Porém, não era um iniciante...
-Então estou frente a frente com o poderoso e jovem comandante imperial, Shoran Li.-disse zombeteiro tomando o adversário de surpresa.
Shoran por alguns segundos ficou sem ação. Sabia que havia grandes possibilidades de invasão por parte estrangeira, mas nunca imaginara que aconteceria naquele momento. Justo no momento que ele havia se desprendido de vez da vida... Justo o momento em que ele apenas disse adeus a pessoa mais importante de sua vida.
-Pelo visto estou em desvantagem.-disse recuperando a calma que lhe fora tirada pela a carta.-Pois o senhor até sabe meu nome... E eu nem sei quem tu és...-concluiu cínico.
"Desgraçado, eu juro que vou te matar...", Touya pensou com a mão na espada. Ele não precisava saber seu nome, não precisava saber quem era... Precisava apenas sentir o tato da lâmina de sua espada enfiada em seu coração. Daria a vida para defender a reputação de sua irmã.
-Não é necessário saber meu nome, pois meu ódio por ti já é por si só apresentáveis.-Touya respondeu sério.
Uma batalha ali era inevitável. Alguma coisa ele tinha feito para aquele homem o odiar tanto. O mais estranho era que nunca o tinha visto, pois suas feições não lhe eram familiares. Mas com a maneira ríspida em que ele lhe dirigia era óbvio que o conhecia. Infelizmente mais uma vez iria sujar suas mãos de sangue, até poderia vir a padecer... No momento a morte era a única solução viável para seu problema.
-Então o que desejas comigo?-disse rispidamente.-Se for munição? Pode pegar, não vou te impedir...
-Eu quero a tua morte.-Touya falou rancoroso.-Eu quero fazer tu sofreres como minha irmã sofreu, e ainda sofres.
Não havia outra solução a não ser duelar. Talvez a razão do ódio daquele homem fosse motivo o suficiente para levá-lo a morte. Mas não queria e nem podia morrer agora. Um dia seria julgado por tudo... E como um guerreiro experiente sabia que uma lâmina rancorosa era perigosa, mas o rancor cegava a alma e isso era fatal.
-Que arma prefere?-perguntou Shoran seguro de si.-Espada ou pistola?
Nunca fora muito bom no manejo com espada, porém, sabia que espada era mais letal. Além de ser a arma preferida daquele homem. Teria um gosto a mais assassiná-lo com a arma que era considerado mestre.
-Espada.
Shoran retirou a espada embainhada, e em seguida retirou o casaco. Não queria em hipótese alguma que algo desse errado. Estava sendo maluco em aceitar duelar com aquele homem, mas no momento a sua vontade era descontar em alguém a frustração que sentia em abandonar Sakura.
As espadas eram bem parecidas, isso queria dizer que não teria desvantagem para ninguém. Aquele duelo iria começar empatado.
Touya pegou a espada que estava embainhada na cintura e movimentou-a com rapidez, fazendo-a zunir no ar. Satisfeito e certo de que a vitória já era ganha se posicionou. Shoran já estava pronto, sorrindo cinicamente deu sinal de que o duelo mortal poderia começar.
_____
Sakura sentiu náuseas, que era completamente normal em seu estado. Mas desta vez o mal estar não fora passageiro, e sim como um prenúncio de que algo muito grave iria ou estava para acontecer. Vinha sentindo isso há dias, mas agora estava ficando cada vez mais forte... Era como se algo estivesse se partindo em dois. Alguma coisa estava mudando. Só que desta vez o erro seria inevitável.
Com dificuldade para nada, Sakura sentou na beirada da cama. Ainda não podia sentir seu bebê, mas sabia que ele estava bem e vivo. Não podia ficar naquele estado de tensão e stress... Não faria bem nem para ela e nem para aquela criança, que inevitavelmente dependia dela. E durante anos só teria ela para se apoiar.
-Pelo o visto a grávida do mês não anda muito bem.- Meilin falou entrando no quarto a pegando completamente desprevenida.
Meilin andava muito agressiva com ela. Desde o nascimento do pequeno Shang-hsun ela vinha mostrando um comportamento estranho. Não a deixava nem se aproximar do pequeno... E o comportamento dela havia piorado ao descobrir sobre a sua gravidez. Era como se estivesse usurpando o seu lugar de mãe, e isso não era verdade... Não queria roubar o lugar de ninguém. Além do mais iria ter um filho ilegítimo. Shoran nunca iria assumir aquela criança.
-Engano seu minha cara Meilin.-disse forjando um sorriso.-Estou muitíssimo bem, apenas uma leve indisposição... Sabe, frescuras de início de gravidez.
Sakura preferiu nunca ter proferido palavras tão duras. Meilin ficou pálida e nervosa... Teve medo da reação daquela garota. Mesmo com o bebê no colo não hesitaria em bater nela.
-Imagino.-disse com escárnio.-Felizmente não me senti indisposta na gravidez de Shang-hsun.
-Fico feliz por você, mas no meu caso acho que vou ter muito dessas indisposições.
Sabia o motivo do ódio mal contido de Meilin.Ela ainda amava Shoran, e de uma certa forma sentia ciúmes por não ter sido ela a gerar o primogênito de Shoran. Ela certamente não se sentia feliz com o marido.
-Você terá uma menina.-disse ela sorrindo satisfeita.
-Por que fala com tanta convicção...?-perguntou Sakura voltando a se sentir indisposta.
-Geralmente a mulher se sente mais desconfortável gerando um bebê do sexo feminino.-respondeu feliz e convicta de que havia ganhado uma batalha.
Sakura não acreditava naquelas deduções bobas... Mas também pouco importava qual fosse o sexo do bebê. O importante era que teria uma parte de Shoran para sempre ao seu lado. E se fosse uma menina seria melhor, assim não correria o risco de perder o pátrio poder sobre a criança.
-Para uma mulher ter uma filha como primogênita é uma vergonha.-a mulher voltou a falar ferina.-Aqui temos o costume de dar a primogênita para outras pessoas.
Na verdade eles matavam as meninas, era por isso que a população masculina naquele país crescia a olhos visto. Meilin dera a entender que daria seu bebê se caso fosse menina, e se fosse um homem certamente tomaria seu filho do mesmo jeito só que com uma diferença, ela iria cuidar da criança. Aquele era mais um motivo para aceitar a proposta de Kaho e fugir dali o quanto antes. Se perdesse o filho também, endoideceria.
-A senhora fala como se uma mulher não passasse de um mero objeto de decoração.-rebateu passando a mão na barriga ainda lisa.
-Mas é isso que somos.-rebateu balançando o bebê entre os braços.-Aqui na China separamos as mulheres por dois tipos: A primeira é a dona do lar, a rainha. Que cuida de tudo e dos filhos homens, possuem sita, como exemplo nesse caso-fez uma pausa sorrindo com sarcasmo.- As outras são as mundanas que satisfazem nossos maridos na cama, posso citar como exemplo a senhorita, que não hesitou a se entregar a meu primo mesmo sabendo que ele nunca iria sujar o nome de nossa família se casando com uma japonesa de sangue sujo.
Sakura sentiu o sangue subir em sua face. Meilin a havia ofendido, e com todas as palavras a chamado de vagabunda e prostituta. Havia se entregado sim a Shoran, mas não fora por esperança de um dia se casar com ele, e sim por amor. Amava Shoran, e desde sempre sabia que ele nunca iria se casar com ela. Sua vontade era se levantar e esbofetear àquela garota, mas não podia ficar tão exaustada. Se tivesse um acesso de fúria no momento o único prejudicado seria seu bebê e aquela pobre criança nos braços daquela mulher.
-Está acima de mim, julgar ou separar as pessoas, senhora.-falou abaixando a cabeça.
-Eu não estou julgando ninguém, Sakura. Apenas estou falando a verdade.
-A sua verdade não é a minha verdade.
-Você sem dúvida ainda vai sofrer bastante.-disse Meilin andando até a porta.-Sabe querida torça para ter um filho varão, pois se não estará perdida. Nunca minha família admitiria que além de dar a luz a uma menina se casasse com Shoran. Quem sabe se você der a ele um filho homem, ele talvez venha a aceitá-la como concubina.-concluiu rindo dela.
Limitou-se a abaixar a cabeça e esperar assim a mulher sair. Não adiantaria nada mostrar sua fé e repugnação contra aquele tipo de pensamento. No fundo sabia que ela estava certa. Talvez o destino era ser uma prostituta. Nada na sua vida estava certo a não ser que teria aquela criança longe dos olhos da família Li. Pois seu filho ali sempre seria um bastardo com sangue nipônico.
Como sua avó sempre dizia:
"O homem compra a glória e a grandeza e a fama; mas é a mulher quem paga o preço."*
Por mais que fosse otimista, fora idiota em pensar que tudo acabaria bem. No fundo sabia que seria ela que iria pagar o preço por aquele momento de loucura.Um momento impensado que havia gerado uma vida que iria proteger com seu próprio sangue. Não importava se fosse um menino ou uma menina... O que realmente importava no momento era seu bem estar, e jamais deixaria Meilin a ferir.
***
Algo estava acontecendo com Touya, Kaho pensou sentando sobre a relva do campo. Seu coração palpitava. Sempre se sentia assim quando sentia que seu amado corria risco de vida. E naquele momento algo lhe dizia que nunca mais o veria. Sentia que Touya estava morrendo. Por pouco não segurou o choro. Sentiu-se profundamente arrependida por não ter falado a verdade para ele. Devia ter revelado que era filha de Tshao, seria doloroso, mas pelo menos ele não pensaria mal dela. Ainda se lembrava com perfeição do choque que fora descobrir que seu grande amor era um espião. Não podia voltar atrás, mas tinha consigo a lembrança de cada ato e palavra de amor.
Os toques dele ainda eram bastante recentes em sua memória. Kaho olhou para as mãos e como um passe de mágica voltou há dois meses atrás.
[Começo do Flashback]
Os dias eram praticamente iguais quando estava na Taverna. Suas tarefas eram limitadas, e o pouco que conseguia fazer desagradava profundamente Meilin. O que a deixava às vezes nervosa. A garota imaginava que era dona do mundo, mas não passava de uma mísera primeira esposa de Chao. E não era por que estava grávida podia pensar que era a rainha de tudo. Naquele dia havia tido uma discussão horrível com a garota... Nervosa não se importou em procurar Touya, que desde a descoberta que ele era filho de Nadeshiko Kinomoto e espião do governo japonês, nunca mais havia se falado.
Tinha que admitir que sentia uma pequena queda por aquele homem, mas nunca havia se entregado a ele. Mas sentia uma vontade louca de beijá-lo. Era maluquice querer beijar o inimigo. E sabia que seu dever era entregar aquele impostor para Tshao, mas não havia conseguido... No fundo sentia uma atração poderosa por ele. E tinha certeza de que ele também sentia o mesmo por ela, pois o modo de olhar dele a deixava tensa.
Naquele dia estava com uma vontade louca em vê-lo. Sabia que estava agindo por impulso, mas já não era uma garota desprotegida, havia passado por uma série de obstáculos na vida e sabia muito bem o que queria. Entrando na ala dos empregados viu ele erguendo uma pesada dobradiça. O trabalho dele ali era variado, podia ser um espião, mas trabalhava e todos ali reconheciam e admiravam o jovem Touya. Ele era bastante forte, era alto, embora não tivesse um corpo definido.
-Senhorita Mizuki?!-ele exclamou surpreso por vê-la ali, a última vez que tinham se encontrado não havia terminado nada bem.
-Olá, Touya!-cumprimentou sorrindo e se aproximando.-Espero não estar te atrapalhando!
-Estava terminando de recolocar essa dobradiça no lugar.-falou ele em tom sério.
Ninguém poderia duvidar daquele jovem e trabalhador rapaz. Sabia que estava colocando em cheque a vitória de seu pai, mas não podia denunciar o filho da mulher que mais admirava na vida. Ao mesmo tempo não se sentia capaz de viver sem vê –lo.
-Precisa de alguma coisa, senhorita?
"Sim, de você", pensou Kaho maliciosa. Precisava muito dele ao seu lado. Nunca deveria ter começado aquele jogo...
-Não... Quer dizer sim.-ela gaguejou nervosa.
-Sim ou não?-ele perguntou franzindo a testa.
Tinha que vencer a timidez. Pedir a ele que a ensinasse a andar de cavalo era o ideal... Ele não recusaria e ela ganharia um ótimo motivo para ficar ao lado dele.
-Sim... Eu não sei montar a cavalo.-ela começou sorrindo.-Bem que poderia me ajudar, ou melhor, me ensinar a montar um lindo cavalo.
Ele apenas sorriu e por longos minutos ficou em silêncio. Kaho se sentiu muito mal por ter que mentir, mas não agüentaria ficar longe dele.
-Está certo senhorita.-ele falou sorrindo.-Eu te ensino, mas...
Kaho não se agüentava de felicidade. E em um gesto um tanto inusitado para uma moça daquela época, Kaho pulou no pescoço de Touya.
-Obrigada...-sussurrou olhando-o nos olhos.
Ele estava visivelmente encabulado. Além do mais se alguém o pegasse naquela situação com a jovem certamente seria preso. Mas em vez de afastá-la simplesmente a apertou mais entre seu corpo. Estava apenas seguindo seu instinto... Não podia negar que Kaho mexia muito com ele.
-Desculpe-me...-ela sussurrou encabulada tentando afastá-lo em vão.-Tenho que ir...
-Não... Fique.-disse erguendo o rosto dela.-Sempre a achei tão linda... Tem a pele perfeita, os olhos sofridos... Seus lábios me parecem tão doces.-concluiu contornando os lábios dela com o dedo.
Kaho se sentiu hipnotizada com cada toque dele. Era bom se sentir amada... Era bom sentir as mãos calejadas dele sobre sua pele.
-Sei que é errado, mas não posso passar por cima do que estou sentindo no momento.-ele falou tomando o seu lábio num beijo arrebatador.
Aquele seria o primeiro beijo de muitos, Kaho teve certeza disso no momento em que se entregou ao beijo. Sabia o que sentia por ele era amor... E que era impossível se negar ao sabor daquele beijo.
[Final do Flashback]
Depois do primeiro beijo começou o círculo vicioso. Agora sentia que seu Touya estava morrendo... Queria estar ao lado dele. Queria poder dar a ele a paz, mas era impossível. Não podia ir para Pequim com Sakura grávida. Além do mais quando chegasse lá ele já estaria morto. Tinha pena de Sakura... Pobre garota tão nova e já sabia o que era chorar lágrimas de sangue. Talvez fosse aquela sua verdadeira missão ficar ao lado daquela menina inocente.
O cavalo começou a ficar impaciente. Aquilo não era bom... Era sinal de que alguém estava chegando. Levantando-se rapidamente viu três homens devidamente armados. Dois estavam com farda inglesa... E o outro não era nada mais nada menos do que Fujitaka Kinomoto.
***
Os sons das espadas se chocando era assustador. Nenhum dos dois guerreiros estavam dispostos a morrer. Aos poucos iam conhecendo mais a técnica do outro. Desenvolvendo assim a técnica mais apropriada para lutarem.Shoran demonstrou ser mais rápido, e a sua espada com movimentos certos feriam cada vez mais Touya. Era visível a superioridade de Shoran.Era assustador lutar contra o jovem chinês, ele demonstrava prazer em ferir, além de manter um sorriso cínico nos lábios.
As feições de Touya eram frias, não tinham expressão maior do que o desprezo que sentia em seu coração. Ele se defendia como podia dos golpes letais de Shoran. Reconhecia que aquele homem era muito hábil com a espada, admitia que estava em desvantagem... E a cada golpe de Shoran se sentia cada vez mais grudado no chão. De repente um ataque forte o quase pegou de surpresa, nervoso aparou com dificuldade.
A luta era feroz, não havia trégua. Os sons das espadas davam para ouvir de longe. As respirações estavam se tornando pesadas. Os soldados que acompanhavam Touya se limitavam a ficar olhando, obedecendo assim a ordem de seu superior.
Shoran atacava sem cessar e Touya se defendia como podia, porém sua defesa estava cada vez mais fraca e ineficiente diante aos ataques consecutivos de Wushu de Shoran. Alguns golpes a mais fizeram Touya perder o equilíbrio e perder a espada, dando assim o gosto da vitória a Shoran.
Shoran fez um movimento errado e Touya aproveitou para pegar a espada e dar uma estocada esquerda, que Shoran só conseguiu se defender na última hora. Touya estava muito debilitado e já havia perdido muito sangue. Shoran percebeu isso e aproveitando a posição vantajosa avançou decidido a matar. Com surpreendente agilidade, Shoran atacou Touya com o golpe supremo do Taolu. A espada penetrou fundo nos pulmões de Touya. Shoran se ergueu e satisfeito retirou a lâmina, que ficara presa no corpo do adversário.
Em câmera lenta, Shoran viu Touya caindo no chão. Aos poucos o sorriso de satisfação que estava no rosto do jovem Li foi sumindo. Ele novamente havia tirado a vida de um ser humano. Dessa vez não seria absorvido.
Aproximando-se do corpo semi-inconsciente do tenente, Shoran pegou a placa de identificação que havia no pescoço do jovem. Por alguns minutos ficou estático... Depois como num quebra cabeça tudo se montou perfeitamente em sua cabeça.
Desnorteado, Shoran largou a corrente e levou as mãos na cabeça, e como há muito tempo não fazia chorou. Chorou por tudo que sua vida havia se transformado. Minutos depois estava decidido a nunca mais matar, pois de uma certa forma havia morrido junto com aquele homem. Ele havia matado Touya Kinomoto irmão da única mulher que chegara perto do que ele realmente era. Agora sim teria motivo o suficiente para nunca mais chegar perto de Sakura. Naquele momento tudo havia perdido o sentido para ele.
***
Kaho sentiu o vento frio passar sobre seu rosto. À vontade de chorar foi enorme, mas nunca derrubaria uma lágrima. Desta vez Touya havia partido para nunca mais voltar. Sabia e sentia isso, mas não havia tempo para lamentações tinha que descobrir o motivo que trazia o general ali. E de que forma ele poderia ajudá-la a retirar Sakura daquele purgatório.
Saindo da mata, Kaho se aproximou lentamente com as mãos erguidas. Percebeu que os soldados apontavam os rifles para ela, apenas Fujitaka se mantinha impassível e calmo. O tempo havia ensinado muito a ele.
-Então estou frente a frente com o famoso Fujitaka Kinomoto.-disse com escárnio na voz.
-Sim, e eu estou na frente da filha bastarda de Tshao Li.-rebateu rancoroso.
Como ele havia descoberto o desfiladeiro? Duvidava muito que ele estivesse ali por puro acaso. Fujitaka Kinomoto nunca estava por puro acaso em um lugar. Ele estava ali para resgatar Sakura.
-Sou eu mesma.-disse sorrindo friamente.-Agora me responde uma coisa... O que você está fazendo aqui?
-É tão difícil imaginar, minha cara senhorita.
-Não, mas preciso saber...
-Vim atrás de minha filha.-falou ordenando que os soldados abaixassem as armas.-E não adianta falar que ela não está aqui, pois sei muito bem que ela está.
Kaho mais uma vez estava certa. Fujitaka pelo menos se preocupava um pouco com a filha... Senão, não enfrentaria o perigo para chegar até ali. Sakura ainda tinha pessoas que a amavam. Embora que as mais queridas já não estivessem mais ali.
-Felizmente o senhor tem razão...
-Eu a quero de volta.
-Calma, calma.-ela o acalmou.-Sua filha não é um objeto... E tem algumas coisas que preciso saber antes que a entregue ao senhor.
Não iria contar sobre a gravidez, mas sim sobre as dificuldades que a jovem havia passado com Eriol, e a tortura psicológica que estava passando desde a partida de Shoran. Assim não haveria o risco da jovem ter que reassumir o compromisso com Eriol.
-Eu preciso levá-la para Pequim o mais rápido o possível...-Fujitaka falou demonstrando emoção pela a primeira vez na vida.
-Senhor entenda que é impossível.-disse aflita.-Todos estão de olhos abertos nela... Trazê-la para o senhor agora seria a mesma coisa que decretar sua morte.
Fujitaka olhou para a expressão triste e cansada da jovem. Bem ou mal aquela mulher estava querendo ajudá-lo... E no fundo ela estava certa. Mas o seu desespero estava o cegando. Nadeshiko se encontrava cada vez pior... Os médicos não lhe davam nem mais vinte quatro dias de vida. Estava lutando contra o relógio.
***
Touya aos poucos sentiu a vida se esvaziar. Mais uma vez Shoran havia ganhado... E ele não merecia mais viver. Havia perdido seu orgulho como guerreiro e como homem. Se lhe fosse concedido um pedido, iria querer rever Kaho. Sim, queria poder falar com a mulher que marcara sua vida... E dizer que nunca havia deixado de amá-la, e que em hipótese alguma havia acreditado que ela fora amante de Tshao. Ainda tinha a imagem dela consigo, e iria morrer com ela.
Kaho estava com o mesmo vestido daquele fatídico dia que ela havia pedido para ele dar aulas de equitação. A seda chinesa cobrindo toda à parte daquele corpo desejado... O cabelo solto ou amarrado numa fita. O mesmo sorriso... E por fim a imagem triste dela. Naquele momento ela estava cada vez mais longe dele. Fechando os olhos Touya viu Sakura ainda criança, os mesmos olhos de esmeraldino. Amava sua irmã, e de onde estivesse estaria ao lado dela, pois no fundo sentia que nunca deixaria aquele plano espiritual.
Por um longo tempo Touya ficou olhando para o próprio sangue até que em fim fechou os olhos e adormeceu em sua mortalha. Touya Kinomoto havia morrido... E assim levando tudo consigo. Aquela terrível batalha havia tido um fim trágico, mas não era só Touya que havia morrido... No fundo Shoran havia entregado sua alma ao demônio. Naquele mesmo dia o temível líder boxer abandonou seu posto indo se refugiar na casa de verão da família em Dalian (Dairen).
***
Um mês depois...
Sakura não sabia o que era comer ou dormir. Sua vida era sua mãe... Sabia que isso não fazia bem para o seu bebê, e não ia deixar a única pessoa que lhe restara sozinha. Tudo fora tão traumatizante. Devia admitir que não fora feliz na China apenas tivera alguns momentos de felicidade ao lado de Shoran. Nunca mais havia o visto, deveria estar morto ou se refugiado na Tailândia com Tshao. Havia se conformado e já não mais chorava por ele.
Os seus únicos apoios eram Kaho e Yukito que dividia o tempo entre cuidar dele e suas freqüentes visitas ao cemitério onde Touya estava enterrado. Ainda não se conformara com a idéia de seu único irmão ter morrido. No fundo sentia que fora ela a culpada pela tragédia do irmão. Yukito estava se recuperando do ferimento que havia sofrido, e a ajudava no que podia.
Seu pai estava consolado, e por incrível que pareça havia aceitado a gravidez dela com a maior naturalidade. Talvez devia estar arrependido pelo o que tinha feito ela passar nas mãos de Eriol. Tomoyo tinha partido para o Japão dizendo que não queria passar nem mais um segundo naquele país que tanto lhe trouxera desgraça.
A revolta havia acabado com uma verdadeira tragédia. Os boxers haviam perdido, mas a grande causadora daquilo ainda estava no poder. Não era seguro ficar em Pequim. Mesmo eles tendo o apoio de muitas entidades. As feridas ainda estavam abertas demais. Só não havia deixado aquele país por causa de Nadeshiko, ela não estava habilitada a viajar... E seu estado teimava piorar a cada momento.
-Sakura, meu anjo... Você esta aí?!-a voz rouca e dramática de Nadeshiko a tirou dos devaneios.
-Sim, mamãe.-respondeu sentando na cadeira mais próxima.-Precisa de alguma coisa?
Aquela não era sua mãe. Nunca a vira tão vulnerável... No fundo sabia que ela não viveria por muito tempo. Aqueles eram os últimos dias dela. Daria de tudo para que ela e Touya estivessem bem.Mas Deus estava teimando em fazê-la sofrer...
-Sim, estou com sede.-disse sorrindo.-Pode pegar um copo de água para mim?
-Claro.
Em segundos estava ajudando a mãe a beber o líquido gelado. Ela já havia perdido a noção do dia e da hora, já não se locomovia e mal conseguia mastigar a própria comida. Era triste. Tinha que se segurar para não chorar.
-Filha... Prometa-me... Uma coisa.-disse vendo Sakura sentando ao lado dela novamente.
Ela estava se despedindo.
-Sim.-disse com a voz embargada.
-Eu quero que você seja muito feliz.-disse passando a mão na barriga da filha sorrindo.-E que essa linda menina seja igual a você, linda por dentro e por fora.-interrompendo por um acesso de tosse.-... Só vejo uma alternativa para ti, meu anjo... Se case com Yukito.
Sakura empalideceu. Sua mãe havia escutado a última conversa que havia tido com o melhor amigo de seu irmão. Yukito havia lhe implorado que se casasse com ele... O que era impossível, pois ainda amava Shoran. E jamais se casaria com outro para salvar sua reputação.
-Mãe...
-Shhh...-ela falou pondo a mão na boca da filha.-Yukito é um bom homem e com alta patente militar. Não seja egoísta e pense apenas nessa linda menina que está esperando.-recuperando o fôlego concluiu.-Sei que ama aquele rebelde, mas você não está mais sozinha... Filha eu vou, estou partindo.
Nadeshiko olhou para cima da cabeça de Sakura, e logo em seguida voltou a olhar para ela com uma expressão radiante e feliz, como há muito tempo não ficava.
-Sabe quem está aqui, meu anjo?!-ela sussurrou sorrindo.
Olhando para os lados percebeu que ambas estavam sozinhas no quarto. Àquela hora da tarde ninguém ficava ali, a não ser ela e a querida Mai. Logo Yukito iria chegar... Mas naquele momento estavam ambas sozinhas.
-Não, mamãe...-falou assustada.-Quem está aqui?
-T-Touya... Meu filhinho está ao meu lado.-disse sonhadora.-Ele veio me buscar... Chegou minha hora querida.
-Não, não, mamãe.-disse com os olhos rasos de lágrimas.-Touya morreu...
-Eu sei, mas ele veio me buscar...
Como em um sonho, Nadeshiko voltou para sua casa no Japão. Ela estava separando a briga de Touya com Sakura. Ambos eram crianças, e Touya insistia em chamar Sakura de monstrenga. Ah, como era feliz naquela época... Daria uma vida inteira para ter seus filhos de volta unidos. Naquele momento via Touya com perfeição... Ele era apenas um menino e já havia morrido... Iria embora com ele.
-Você não vai morrer, mamãe.-disse ela desesperada abraçando o corpo da mãe.-Eu não vou deixar... A senhora tem que apenas repousar...
Como se não tivesse ouvido, ela prosseguiu.
-Diga para o seu pai que o amo e que nunca me arrependi por ter me casado com ele... Em vez de tsh...-ela interrompeu tossindo.-Agora tenho que partir para o lado de Touya e de Deus.
-Mamãe, por favor...
Nadeshiko fechou os olhos e disse:
-Posso ver nossa casa no Japão, posso sentir o perfume de cerejeira... Posso ver seu pai, e vocês, meus lindos filhos brincando no jardim... Eu estou de volta para o lugar onde nem eu e nem minha família devia ter saído...
Por um longo tempo Sakura ficou soluçando baixinho até perceber que sua mãe havia partido para sempre. Agora ela estava sozinha... Primeiro Touya, agora ela a única pessoa que apoiara.
-Não, não, não...-ela sussurrou abraçando o corpo imóvel da mãe.-Por que Deus...??? Por que me deixaste sozinha... Por que, por que, por que...
Os minutos transcorreram com ela abraçado ao corpo da mãe, até Yukito chegar e tomar o pulso de Nadeshiko. A respiração dela era ofegante que embalava o corpo frio da mãe entres os braços. Finalmente Yukito a tocou no ombro.
-Ela se foi, Sakura.-sussurrou com suavidade.
-Eu sei...
Devagar Sakura colocou calidamente o corpo da mãe na cama. Com carinho e entre lágrimas ajeitou o cabelo dela.Despedindo-se pela a última vez daquela mulher tão especial.
-Por que Yukito?-perguntou abraçando o amigo.
-Ela já sofreu o bastante, Sakura.
Nenhuma palavra seria capaz de descrever a revolta que ela sentia por Deus ter a abandonado. Queria ir embora o quanto antes da China e esquecer de vez o que havia acontecido ali. Amava Shoran e o havia perdido, adorava seu irmão e ele havia morrido... Venerava sua mãe e agora ela havia partido. Não havia salvação para sua alma. A única pessoa que havia lhe restado era seu filho... E lutaria por ele até o fim.
***
Um semana depois...
Porto de Tien-Tsin
Estava no convés do navio. Tinha uma paisagem perfeita de Tien-Tsin. Aquela seria a última visão daquele país. Depois do enterro da mãe avisara seu pai que tinha a intenção de voltar para o Japão com Yukito. Havia sido duro, mas seguiria o conselho da mãe, iria se casar com Yukito em um prazo de duas semanas. Kaho e Mai iriam com ela, ajudar nos preparativos para o simplório casamento. Não amava aquele homem, mas poderia com o tempo vir a sentir algo por ele... Afinal seu bebê precisaria de um pai. E como não tinha notícias sobre o paradeiro de Shoran. Resolvera reconstruir a vida em seu país.
Havia aprendido a duras penas que era difícil amar. O amor por si só era complicado... Nunca duvidara da força do amor de Shoran, mas sabia que vários empecilhos o impediam de ficar juntos. No fundo se conformara... Afinal tinha uma parte dele em seu ventre.
Pegando o diário que Shoran lhe dera. Olhou pela a última vez para a única lembrança que tinha dele. Mas havia prometido no túmulo de sua mãe e de Touya que iria esquecer o passado e isso incluía esquecer também Shoran. Sabia que era uma missão impossível já que tinha a prova viva de seu amor. Seria duro se desfazer daquele presente... Mas seria a prova de amor a seu bebê.
Passando a mão na barriga, Sakura jogou o livro no mar. No fundo sentia reconfortada... No fundo sabia que aquele diário havia voltado para o lugar que realmente pertencia.
***
Shoran não participou da carnificina que aconteceu no dia em que a força multinacional invadiu Pequim. Matando todos os líderes Boxers... A imperatriz se manteve no poder, e traiu aqueles que lhe foram mais fiéis.
O que não foi uma surpresa para ele, no fundo sempre duvidara da palavra e da sinceridade da grande imperatriz dragão. No fundo se sentiu morto... Havia matado o único irmão de seu anjo. Há uma semana atrás a vira no cemitério. Tivera que se conter para não ir a seu encalço, apenas ficara ali observando seu sofrimento. Para o bem dela resolvera ficar longe.
Agora era o único homem da família, e cabia a ele reerguer o nome do clã Li. Jamais poderia desposar Sakura. E saber que ela não estava grávida o aliviava. Agora tinha uma obrigação que era cuidar do filho de Chao e de Meilin. Havia finalmente chegado à hora do adeus. O momento que tanto temera aconteceu... Agora só lhe restava lembranças boas, e eram essas lembranças que o dariam forças para seguir em frente.
_________________________________________________________________________
Olá pessoal!!!!
Antes de jogarem pedras em mim (envergonhada). Eu resolvi dar um pulo de 17 anos na história. O.O (????) Sim 17 anos, muito tempo, mas será o tempo o suficiente para Hanako (filha de Sakura e Shoran) e Chang-hsun (filho de Meilin e Chao) crescerem... E se apaixonarem (?). Bem, não adianta explicar muito... No próximo capítulo vocês entenderão mais.
Podem tacar pedras agora!!! Eu matei Touya e Nadeshiko, mas foi para dar continuação na história. O que acharam? Enviem reviews então.
Explicações históricas: Para sufocar a rebelião, organizou-se uma internacional colonialista, uma tropa composta por 20 mil soldados (japoneses, russo, ingleses, americanos, franceses e depois por alemães) foi enviada para ocupar a sede imperial, onde penetrou em 14 de agosto de 1900. Os boxers, abandonados pela imperatriz viúva Tsisi, foram cruelmente sufocados e suas lideranças decapitadas. "Arrasem Pequim!" - que seguissem o exemplo de Átila! Essa foi à recomendação do imperador Guilherme II da Alemanha aos oficiais que partiam para a China. Depois dessa aberta e brutal intervenção militar, o outrora orgulhoso Império Celestial definitivamente tornara-se a "colônia de todas as metrópoles". Para infamar ainda mais as autoridades do império, os colonialistas obrigaram que fossem chineses os carrascos que executariam as sentenças de morte dos principais líderes da rebelião de 1900.
Citação de Khalil Gibran.
Miyashawa Yukino-Erika: Olá Erika!!!! Bem, no próximo capítulo ficara bem claro o motivo para Sakura ficar grávida. Eu também não queria, mas a fic caminhou para esse capítulo. Eu sei que sou muito má... Mas fazer o que? Não é mesmo. Espero que tenha gostado desse capítulo. Bjs!!!!
Serenite: Eu sempre paro em partes estratégicas para assim aguçar em vocês a curiosidade para lerem o próximo capítulo. Ficou feliz que tenha gostado do outro capítulo, e espero do fundo do coração que tenha gostado deste. Bjs!!!
Anaisa: Olá!!! Eu matei Touya... Eu fiquei triste por isso, mas não tinha escapatória. Desculpas. Eu sou boa para fazer drama já falaram isso para mim. Espero que tenha gostado desse capítulo. Bjs!!!!
Rê_~Chan: Olá Renata!!!! Eu matei Touya. Realmente é um desperdiço, mas foi para o bem da fic. Obrigada pela review Renata!! Espero que tenha gostado desse capítulo. Bjs!!!!
B166R: Olá Rafa!!!! Eu não vou matar a criança, mas não vou garanti que ela viva por muito tempo. A fic vai da um pulo de 17 anos. Touya vai morrer, mas Yukito vai ficar bem vivo por sinal. Não liga, amor de fã é para sempre, mesmo ele estando do outro lado do mundo. Bjs!!!!
Hime Hayashi: Eu adoro fazer suspense Lia. Mas sempre dou a resposta naquele momento, e só presta a atenção no que escrevo. Eu sou maluca!!!^^" Eu vou presta mais atenção nisso da próxima vez. Bjs!!!
Jenny-Ci: Olá Jenny!! Bem, garanto que vai gosta da doce Hanako. Quando a Touya como viu ele morreu. Adoro receber sugestões... Sempre me ajuda. Ainda mais vindo de você. Bjs!!!
DarkAngel: Olá Nathasha!!!! Ficou feliz que tenha gostado. Como viu tudo o que falou aconteceu. Eu sou mesmo muito dramática. Obrigada por gosta das minhas poesias. Te adolo!!!! Bjs!!!1
Lan Ayath: Olá Lan!!!! Eu fico feliz que tenha gostado. O mesmo acontece comigo... Em redação escolar eu sou a primeira a ler, mas não precisa ser bidu para saber que um personagem ira morrer. Como dizem: eu sou a rainha do drama. Adorei sua review!! bjs!!!
Um beijo para a Lê e para Lídia. Sem às duas essa fic não saia.
Bem, por hoje é só.
Bjs!!!!
Anna
Obs: Lêem (se poderem) minha fic "Anjo Rebelde", é sobre Tomoyo e Eriol.
