"Eu dormia, mas meu coração velava.
Eis a voz do meu amado".
Cânticos os cânticosXXIII Capítulo
18 de Abril de 1917
As nuvens nebulosas encobriam as poucas estrelas que ainda restavam no céu de Pequim. Shoran não conseguia pegar no sono... Há anos que não sabia o que era dormir e ter sonhos bons. Aliás, a única época que chegou a sonhar, fora quando ainda tinha Sakura... Era uma burrice de sua parte ainda ter esse tipo de recordação dela. Não tinha esse direito. Devia odiá-la e não ainda nutrir aquele sentimento forte por ela.
Às vezes sonhava com ela, mas nunca tinha um final feliz. Era como se cada toque dele pudesse ter o poder de feri-la. O que mais o assustava era o fato de ainda amá-la com tanta intensidade.Tudo teria sido diferente se ele não tivesse rasgado aquela carta, talvez Touya Kinomoto ainda estivesse vivo e ele a essa hora não estaria carregando aquela pesada cruz em suas costas. Não havia um dia que não se lembrava do último golpe que havia desferido contra o corpo do irmão de sua amada. Se pudesse voltar no tempo... Nada daquilo certamente não havia acontecido.
Naquela noite as lembranças de Sakura estavam mais fortes do que o normal. O cheiro de cerejeira estava mais presente em seu olfato...Mais do que nunca a sentia perto dele. Antes ela era um fantasma, agora era real. Sabia que era idiotice sua pensar que ela estava ali na China. Não haveria motivo para ela voltar agora. Talvez tivesse sua própria família, e nada a prendia a ele... Nem mesmo um filho de ambos. Talvez devesse seu tormento àquele casal japonês que estava para desembarcar na manhã seguinte no porto... Talvez tivesse a esperança burra e cega de que junto com eles Sakura viesse junto. Realmente não havia motivo para esperar a presença dela, pois o destino não seria tão ardiloso a ponto de colocá-los novamente frente a frente.
-Senhor Li...-a voz doce da empregada o tirou de seus devaneios.-Posso entrar?-perguntou ela delicada.
Ling Fu era apenas uma jovem de vinte e um anos. Sua beleza era semelhante à de Sakura, e isso fora o que mais lhe chamara atenção nela. Entre dez concubinas ela fora escolhida para satisfazer um poderoso latifundiário. Sentia orgulho disso, mesmo sabendo que não era ela que ele pensava quando fazia amor... Ela ali apenas sedia seu corpo, pois os pensamentos dele eram destinado a outra. A quem ele todas as noites chamava de Sakura. Não tinha coragem de perguntar quem era aquela pessoa, mas muitas vezes tivera essa vontade.
-Claro Ling...Entre.-Shoran falou sério.
Naquela noite não tinha vontade de possuir o corpo da garota. Naquela noite queria apenas sentir o cheiro dela... E imaginar que Sakura ainda estava em seus braços. Ling era uma boa garota. Inteligente demais para perceber que para ele, ela era um simples objeto de desejo e nada mais. Nunca poderia desposa-la, e não faria isso por preconceito e sim pelo o simples motivo de que nunca poderia amá-la como amara Sakura.
-Aconteceu algo, Senhor?-perguntou sentando aos pés dele.
-Não, apenas cansado.
Não acreditava nele, mas não ousaria contestá-lo. Era por demais grata a ele por tê-la tirado do inferno no qual vivia. A cada noite com Shoran era uma recompensa e dava tudo de si para que ele jamais duvidasse de sua obediência.
-Me conte... Como foi seu dia hoje?-ele perguntou relaxando completamente com a massagem que a garota fazia em seu pé.
Havia sido péssimo e isso já não era novidade a ninguém... Nem mesmo a Shoran. Meiling como sempre a humilhava... Não tinha um dia que ela não soltasse uma praga ou mentira sobre ela. A noite era o único momento de paz que tinha.
-Como sempre cansativo Senhor...-se limitou a uma simples explicação.-Não é fácil ser mulher.-completou com um sorriso.
-Como minha prima se comportou com você hoje?
Sabia da forma grotesca que Meiling tratava todos os empregados, mas sua antipatia por Ling era maior, pois tinha uma mente doentia e pensava que Ling era sua amante. Uma coisa irreal, por que a garota não era e nunca fora sua amante... Não podia negar que houvera sexo entre eles, mas isso acontecia raramente. Sua mente e seu corpo ainda pertenciam a Sakura. Na maioria das vezes as visitas de Ling a seu quarto se limitavam a simples massagens.
-Como sempre...
-Ela te humilhou?
-Não. Hoje ela estava até mesmo afável...-explicou com dificuldade.-Ela não queria se estressar já que amanhã teremos hóspedes.
Era bem típico de Meiling. Sempre gostara de uma boa pompa... Não a recriminava porque fora criado assim. Mas não pode deixar de sentir repulsa pela a jovem prima. Durante dias ela vinha tentando fazer ele mudar de opinião... Havia feito de tudo para permanecer na casa, mas ele continuava irredutível. Era impossível viver mais um mês com Meiling sobre seu teto... Era difícil admitir mais estava começando a odiar Meiling. Só agora havia enxergado a verdadeira face dela.
-E Chang ele deu algum sinal de vida?-voltou a perguntar.
As últimas informações que tivera de Chang não foram nada animadoras. Não entrava em sua cabeça que seu único herdeiro pudesse estar dormindo em um centro estudantil...No meio de vários comunistas. Ele mais do que ninguém sabia como o ser humano era influenciado por outras pessoas. Mas a verdade era que um jovem bem nascido como Chang não precisava ter que pagar aluguel para dormir em um quarto barato, numa pensão fedida e mal falada. Ao mesmo tempo não tinha motivo nenhum para impedi-lo de seguir seu caminho. Chang não tinha seu sangue, mas era como se fosse seu filho.
-Nenhum, meu senhor.-Ling falou.
Não havia um dia sequer que ele não fizesse a mesma pergunta. Não entendia o motivo para o sobrinho de Shoran ser tão revoltado e impulsivo. O menino nunca havia sofrido na vida... Mas cairia na real logo, quando se visse na miséria, sem dinheiro, sem amigos e sem comida. Não dava nem dois meses para ele estar de volta para aquela casa.
-Amanhã é o dia em que a delegação japonesa chega, não é senhor?-a garota perguntou ousando mais na massagem.
Estava muito cansado. Tinha que maneirar no trabalho... Afinal não era de ferro. Talvez devesse parar de se preocupar demais com o seu trabalho e da mais atenção para os assuntos políticos. A China estava mudando e como um bom nacionalista sabia que essas mudanças eram por demais preocupantes. Talvez devesse dar um tempo.
-Sim... Ling, por favor, me deixe sozinho.-ele pediu levantando da poltrona.-Hoje quero descansar.
Ling sentiu o peito se contrair. De uma certa forma não estava acostumada a aceitar aquele tipo de ordem vindo dele. Temia muito que ela já não o estivesse satisfazendo... O que seria dela longe daquela casa? Nada disso iria acontecer, Shoran estava apenas cansado... O que era normal. Cabia a ela acatar a ordem do patrão.
-Claro, meu senhor...-falou abaixando a cabeça para que ele não saber o quanto consternada estava.-Com licença.-concluiu procurando sair correndo dali.
Shoran se limitou a fazer um gesto com a cabeça. Naquela noite nada mais importava para ele. Não haveria ninguém aquela noite em sua cama... Nem Mai ou muito menos Ling. Naquela noite sua única satisfação seria a bebida e as lembranças amargas e doces de seu único amor.
Pegando a garrafa de Run, Shoran voltou a sentar-se na poltrona. Não temia ter uma tremenda ressaca na manhã seguinte. Aquela noite era dele e de sua tragédia. Um tipo de recompensa por ver que sua vida recomeçava do zero novamente. E desta vez nada o impediria de voltar a ser feliz.
"-Nada que fizer vai diminuir o que sinto por você, Shoran...-sussurrou sentindo os lábios dele roçarem os seus.-Não quero nada de você... Quero apenas que volte vivo..."
Ainda se lembrava com perfeição das palavras ditas naquele bosque há anos atrás. Até hoje era horrível voltar para o desfiladeiro... Pensar que ali foram os momentos mais felizes da vida dele. Mas o passado não podia voltar... Talvez tudo fosse diferente se nunca tivesse saido de lá. Vivo não estava, estava apenas sobrevivendo. A única forma de ser vivo era estando com ela, e isso era impossível.
Tomando no gargalo da garrafa, Shoran olhou para a Lua que aparecia entre as nuvens. E fechando os olhos teve a visão linda de um anjo...
Chang olhava para o céu. Seus pensamentos não eram nada animadores. Há dois dias que Tao não dava notícias, talvez fosse a hora dele ir a luta e encontrar um emprego decente. Já não podia ficar ali sem fazer nada. Era bonito viver de ideologia, mas ideologia não enchia barriga. Comia pouco, pois pouco era a comida. E não podia reclamar, pois ali era hóspede. Sua fome era grande, até pensara em ir atrás do tio, mas logo mudara de idéia... Era orgulhoso demais para pedir ajuda.
-Alguém em casa?-Tao perguntou abrindo a porta.
O amigo não mudava nunca. Quando estava desistindo eis que ele aparece. Talvez sua sorte estivesse mudando... Só que não sabia se era para melhor ou para pior.
-Você não morre tão cedo, Tao.-disse animado.-Estava pensando em você.
Devia se manter por conta própria. Jamais daria o gosto da vitória para Shoran e sua mãe. Na certa ambos estavam pensando que por ser imaturo voltaria logo para casa, mas tinha amigos que poderiam ajudá-lo. E Tao era um deles...
-Espero que não mesmo, Chang.-o amigo falou sorrindo.-Tenho boas notícias para ti...Aliás, têm várias.-concluiu animado.
-O que aconteceu?
Tao tinha vindo com uma novidade animadora. Havia acabado a malfada tentativa de restauração. Estava cada vez mais claro que o jovem imperador já não tinha mais nenhum poder... Poucos sabiam, mais a China naquele momento estava sendo comandada por militares, e o imperador era um mero fantoche. O governo, porém era fraco, e seu comandante não tinha credibilidade nenhuma e o povo o odiava, isso ficava cada vez mais evidente. Em suma o governo não tinha condições de enfrentar abertamente os radicais.
-Terminou aquela malfada tentativa de restauração.-Tao disse sorrindo.-A China está mudando amigo... No momento estou do lado das pessoas que prezam uma sociedade livre, e não à volta da monarquia. Chega de sermos manipulados por um Imperador.
Chang admirava a postura de Tao. Não tinha a mesma ânsia por mudança igual a ele, mas lutava por uma sociedade justa e leal. Sua família durante anos fora dona de grandes terras, mas o ocidente descobriu a China. E como um rio de sangue as terras de sua família foram usurpadas. Pouco havia restado, e o único bem foi confiscado pelos ingleses. Tudo fora injusto, a injuria que aqueles malditos tinham feito ainda era muito forte, mas nenhum sentimento era maior do que o ódio e ressentimento que tinha pela a família real.
-Isso é uma ótima notícia.-disse sem o mesmo ânimo.-Que dizer que o famoso "coronel" perdeu!
-Sim, mas não é apenas isso que tenho para te informar.-falou Tao pegando um papel do bolso.-Foi difícil, mas consegui convencer meu chefe Ching Fei de te colocar no quadro de empregados dele.
Não havia sido fácil. No período incerto em que a China se encontrava não dava para ficar desperdiçando dinheiro com mão de obra. Mas Tao não era qualquer pessoa, e o senhor Ching era um grande admirado de seu pai, quando falara que o serviço era para o seu meio-irmão na hora ele mudara de idéia. Mas havia avisado que era temporariamente, e não seria bem remunerado já que ele teria uma função simples que era entregar os jornais em centros comerciais. Não era uma grande coisa, mas já era algo... E sabia que Chang não iria reclamar.
-Aqui está Chang, amanhã mesmo você começa.-falou dando um papel para o irmão.
Chang mal podia acreditar. Há uma hora atrás não tinha nada, e agora de uma hora para outra tinha um emprego. Realmente tinha uma dívida de honra com o amigo, jamais iria esquecer o que Tao fez por ele. Naquele momento seria capaz de dar sua vida por Tao. Teria uma dívida de honra para sempre com seu amigo.
-Muito obrigado, Tao.-ele falou triste.-Não medirei esforços para recompensar o que está fazendo por mim.
-Que nada, amigo.-falou sorrindo.-Não fiz nada, além do mais seu cargo não é grande coisa.
Não se importava com nada. Sabia que seria um mero entregador de jornal, mas o que importava. Era uma ocupação digna, não estaria matando ou roubando ninguém. Era o começo de sua longa estrada que teria de atravessar. Seguiria forte e firme, nada o afetaria.
-Que dia começo?-perguntou lendo o papel.
-Amanhã, você terá que passar primeiro no jornal para pegar a bicicleta.-informou pegando o casaco.-Bem Chang, assim que tiver novidades te procuro. Agora tenho que ir, tenho uma reunião importante com Sun Yat-sen.
-Certo... Mais uma vez obrigado, Tao.-disse fazendo um cumprimento com a cabeça.-Sempre que precisar de mim não hesite em me procurar.
Isso nunca iria acontecer, pensou Tao triste. Chang era um homem forte, mas ele sempre precisaria de ajuda. Ele não, desde cedo aprendera a sobreviver. Jamais precisaria da ajuda de seu irmão mais novo.
Sem mais palavras, Tao saiu. Deixando Chang ali parado e eufórico. Talvez aquele emprego fosse o começo de um sofrimento na vida do irmão, mas fazeria o que fosse para protegê-lo. Naquele momento ele teria que sobreviver sozinho, pois ele estava partindo para um missão que talvez não saísse vivo. Estava indo direito para a morte. Ele seria responsável pelo o atentado que mataria o embaixador japonês.
Sakura olhava para a lua triste no céu. Era dificil acreditar que em questões de horas estaria de novo pisando no solo chinês. Como aquilo era assustador...Há muito tempo atrás havia jurado que nunca pisaria naquela terra, e agora ela estava ali de novo, naquele mundo fechado e terrivelmente perigoso. Pois mesmo que se passasse cem anos a China nunca teria estabilidade... Aquele solo sempre seria um barril de pólvora pronto para estourar a qualquer momento.
-No que está pensando Sakura?-Yukito perguntou já de pijama.
Era aterrorizante o fato de ter que dormir sobre o mesmo teto que o marido. A dezessete anos casada com ele nunca fora obrigada a deitar ao lado dele, mas naquela viagem em si teria que fazer um esforço. Pois seria estranho que a mulher do embaixador dormisse em quarto separado. Mesmo isso sendo uma tradição...
-Em nada especial...-sussurrou fechando mais o roupão.
-É inacreditável que estamos de volta a essa terra.-Yukito falou não escondendo seu temor.-Por mim não estaria aqui...
-Eu sei, mas agora que estamos aqui não adianta falar.-Sakura resmungou indo até a penteadera.-Meu maior medo você sabe qual é...
-Não sei mais qual é seu medo.-disse indo à direção dela.-Se é por Hanako, ou se é por você.
Ele havia amado muito sua esposa, mas ela porém jamais tinha sido capaz de corresponder a esse amor. Sabia que o medo dela era estúpido e nada tinha a ver com sua filha. Ela tinha medo de não poder resistir e se entregar àquele marginal. O que era impossível, pois tinha certeza de que aquele homem não estava vivo, e se estivesse certamente não estaria em Pequim e sim em Sião, como todos os ex-líderes da rebelião.
-Como assim?-perguntou ela olhando para ele através do espelho.
-Você teme reencontrá-lo...-disse sarcasticamente se pondo atrás dela.-...Você ainda o ama, e não seria fiel a mim. Aliás, você nunca me respeitou.
-Não seja idiota, Yukito.-disse se sentindo incomodada com a aproximação dele. Nunca havia se sentido bem ao lado de Yukito.
Se um dia Sakura o traísse não saberia o que faria. Seria capaz de matá-la. Ela e o amante. A amava muito para perdê-la... Só de imaginá-la nos braços de outro enlouquecia. Ela nunca havia sido dele, mas isso não tirava o direito dele se revoltar contra ela.
-Eu te amo Sakura...-revelou perdendo o controle.-Vivi vário anos da minha vida tentando quebrar essa parede de vidro que transformou sua alma...
Aquilo era mais uma invenção dele. Ela e todo o Japão sabiam que o seu matrimônio com Yukito fora planejado por causa de sua gravidez. Em várias recepções escutara burburinhos dizendo que ela havia engravidado de Yukito ainda noiva de Eriol. Não ousava desmentir, pois para ela aquela mentira era bem vinda.
-Você nunca me amou Yukito...
-Não é verdade, Sakura.-falou passando a mão no cabelo dela.- Antes mesmo de partir para a China pedi sua mão em casamento, mas seu pai me achou pouco demais para uma lady como você.
Sakura ficou estática, seu corpo estava tenso. Tinha medo do próprio marido... Esse fora o fato decisivo que fez o marido se afastar definitivamente dela. E era o que mais doía nele também. Pois para um homem não havia nada mais humilhante do que viver com uma mulher que repudiava seus toques.
-Seja o que for Yukito.-disse levantando a cabeça.-Não acredito que me amou... Pois eu nunca cheguei ser capaz de retribuir esse amor.
Sakura se arrependeu por ter dito palavras tão amargas para o marido. Viu um misto de ódio e prazer nos olhos dele. Por um momento pensou que ele iria bater, mas depois sentiu as mãos dele sobre seu rosto.
-Me odeie, sinta pena de mim, mas nunca se esqueça de que só terá sua liberdade se um dia eu vier a morrer.-disse raivoso apertando o rosto dela entre as mãos.-Caso ao contrário você e sua filha jamais terão paz...
Nervosa, Sakura viu ele sair com um andar triunfante do quarto. Não temia enfrentar Yukito,pois com ela aquele homem não teria a menor chance, mas temia por Hanako que ainda era delicada e amava aquele homem como se fosse seu pai.
Colocando o pente encima da mesa, Sakura deitou na cama. O medo ainda dominava seu corpo. Estava cansada de se sentir assim...Tão frágil e desprotegida. Sentindo as lágrimas descerem pelo seu rosto ela chorou até que os olhos cansados pediram repouso. Dormiu como a muito não dormia, seus sonhos eram povoados de visões lindas... E pela a primeira vez em anos sonhou com Shoran...
Shoran contornou o rosto de Sakura com paixão. Não podia acreditar que ela estava de volta. Só Buda poderia saber do tamanho do seu amor por ela.
-Como senti sua falta, meu amor.-ela sussurrou o abraçando.
Ele havia quase morrido de saudade e arrependimento. Ela estava linda e suas expressões eram mais madura e feminina. Não tinha um fio sequer de cabelo grisalho. Ela estava bem melhor do que ele. Pensou sentindo a maciez dos cabelos dela, que estavam mais longos do que a última vez que se viram.
-Eu te amo, Sakura...-sussurrou sentindo o cheiro tão familiar de cerejeira dela.
-Por favor, nunca mais me deixe...
-Nunca...Nunca...-sussurrou sentindo o desejo crescer.
Um desejo contra o qual não podia lutar. Foram anos de sofrimento...anos de luta. Anos que lutara contra vontade de procurá-la. Com o polegar ele tocou os lábios róseos e suaves como pétalas de cerejeira. Em seguida o cobriu com os lábios. Durante anos, dias e noites lutara contra o desejo de sentir aqueles lábios contra os deles.
A união dos lábios já não era o suficiente para satisfazê-los. Deitando ela na relva, Shoran a possuiu como nunca antes havia.
Shoran acordou com um grito desesperado. Tudo não passara de um sonho. Um sonho no qual pudera sentir de novo o cheiro e sabor dela... Sakura não estava de volta para os seus braços, aliás, nunca estivera tão longe. Não lhe restava nada mais do que maldizer o destino cruel que havia os separado. Por culpa dele não era feliz. Repudiava sonhar com ela... Sempre que isso acontecia se sentia miserável de novo, mas daquela vez foi diferente.
Percebeu que havia adormecido na poltrona e ao lado dele jazia uma garrafa de Run vazia. Levantando percebeu que o dia já havia amanhecido, mas ainda era cedo... Cedo demais. Mas logo teria que preparar o carro que locomoveria o casal japonês até sua residência. Tinha muitas coisas para resolver, não sabia como seria seu dia já que acordara com uma imensa dor de cabeça. Mas daquela vez teve uma expectativa melhor... No fundo sentia que aquele sonho era um aviso e que Sakura estava cada vez mais perto dele.
Sakura acordou sobressaltada, olhando para o lado oposto da cama percebeu que Yukito já havia se levantado. . Sentou-se na cama tentando se lembrar do sonho que havia tido com Shoran. Mas as imagens que lhe vinham a mente eram muito confusas. Apenas se lembrava dos toques dele e do cheiro forte de homem.
-Ah Shoran...-sussurrou triste.-Por que estou pensando tanto em você!
A luz do sol penetrava pela cortina de sua cabine. Afastando as cobertas, Sakura foi até a pequena janela. O dia estava lindo e ensolarado. Queria ficar ali apreciando a beleza do dia. Mas sabia porém que logo teria que se arrumar... Aquele era o dia em que pisaria em solo chinês. Por algum motivo seu coração dava sinais de que nunca mais sairia de lá.
Será que nunca seria feliz? Será que o amor e a beleza de estar com o homem amado não fora reservado a ela! Seu destino era ser infeliz, pois a felicidade para ela não lhe fora reservada.
Queria muito ser feliz, mas não era. Queria que o mundo voltasse a sorrir para ela, mas ele sempre lhe dava as costas. Tivera apenas um homem que enchera sua vida de felicidade, paz e poesia. Esse homem se chamava Shoran Li.
Shoran estava parado na frente do carro. Havia desistido de ir de carruagem por questões muito óbvias. Naquele momento queria ser o mais rápido possível, pois não tinha tempo para conversa... Não ali na frente de todos. Havia repórteres e fotógrafos. Não queria sensacionalismo. Aquela visita era muito importante para ele e para o futuro de toda a China. Afinal o Japão seria obrigado a devolver a parte da Coréia que lhe pertencia.
-O navio já foi liberado para o desembarque senhor.-o motorista falou voltando.-Daqui a poucos minutos eles estarão desembarcando.
Uma sensação desconhecida apoderou sua mente. Algo semelhante a um nervosismo... Como se alguém muito importante para ele estivesse voltando depois de muito tempo. Ficando quieto, Shoran olhava impacientemente para o ponteiro do relógio.
-Senhor Li, por favor, uma declaração...-um jornalista desesperado falou pulando na frente dele.
-Desculpas meu jovem, mas não tenho nada a declarar...
-O que a visita do embaixador promovido Yukito Tsukishiro muda na relação entre a China e o Japão?-o homem voltou a perguntar ignorando a recusa de Shoran.
Odiava qualquer tipo de imprensa. Achava interessante a batalha daquelas jovens por informação, mas achava inútil aquela forma tão precipitada de perguntar. Já estava terrivelmente ansioso e preferiu fingir indiferença. Aliás, Japão e China nunca seriam irmãos...Ambos eram muito diferentes.
-Ele estará aqui com sua mulher Sakura Tsukishiro Kinomoto e sua filha Hanako Tsukishiro?-voltou a perguntar persistente.
Shoran sentiu o mundo ruir em sua cabeça. As pessoas já desembarcavam... Não conseguia enxergar nada a não ser escutar mais uma vez o nome da esposa do embaixador. Pois só poderia ser uma terrível coincidência. O destino não iria voltar a pregar aquela peça de novo... Sakura não tinha o direito de voltar a sua vida. Mas logo o que era incerteza virou verdade de um dia para noite.
Como em um sonho Sakura entrou em seu campo de visão. Pela a primeira vez na sua vida sentiu sua perna amolecer e sua visão nublar de emoção. Sua mente não parava de martelar... o nome dela. Para a sua alegria e desespero Sakura estava de volta.
