"Não me arrependo do pecado triste
que sujou minha carne, suja toda carne.
O caminho é tão claro, a estrela tão larga,
Os dois brilham tanto que me apago neles".
Carlos Drummond de Andrade-Castidade
Capítulo 25
Shoran foi pego de supresa pelo beijo de Meiling. Nunca imaginaria que a prima teria a ousadia de beijá-lo...Não que já não tivesse tentado, mas sim por beijá-lo em público. Justo ela que se julgava tão superior e refinada. Sua vontade era de empurrá-la e dizer para que nunca mais tentasse beijá-lo novamente, mas ao ver a expressão chocada de Sakura, resolvera incentivar o beijo de Meiling. Sakura não tinha o direito de recriminá-lo, pois ela era casada e, por isso, direito nenhum tinha de julgar seus atos. Será que ela ainda sentia algo? Não...duvidava muito que Sakura ainda o amava. Passara-se dezessete anos, era tempo demais para ainda alimenta algum sentimento. Além do mais, Sakura tinha uma família...Um marido e uma filha... Sakura tinha um lar, ele não tinha ninguém.
-Por que não me avisou que estava indo buscá-los, meu amor? Eu teria acompanhado-o com o maior prazer. - falou acariciando o rosto do primo.
Não estava gostando muito daquela encenação de Meiling. Se sentia mal ao ter que compartilhar daquela farsa, mas tinha que mostrar para Sakura que não havia ficado sozinho, chorando por ela. Não queria que ela percebesse o quanto ainda era apaixonado por ela. Ao mesmo tempo, não compreendia a atitude ousada de Meiling. Será que ela não tinha reconhecido Sakura? Duvidava muito que ela ao menos tivesse reparado na mulher a sua frente.
- Não quis acordá-la...Parecia estar cansada. - disse abaixando a cabeça, para não ver os olhos recriminadores de Sakura cairem sobre ele.
Só o fato de ainda se importar com o que ela pensava dele, já o deixava doente. A sua obsessão por Sakura era cada vez mais forte... E isso o deixava terrivelmente preocupado.
- Bem, não seja por isso... - ela falou animada. - Quero muito conhecer nossos hóspedes.
Meiling sorria satisfeita. Nunca imaginaria que Shoran iria retribuir aos seus beijos. Há anos atrás tentara de todas as formas beijá-lo, mas recebera um belo empurrão e um hematoma no braço esquerdo. Nunca mais tentara cometer aquele desatino...até aquele momento, quando percebera que ele havia chegado com a japonesa e sua família. Não havia olhado para ela, e nem queria fazer isso, pois sabia que não importava quem fosse, veria apenas aquela mulher a sua frente, aquela bruxa que tirá-la a capacidade de Shoran de amá-la.
Shoran pegou as mãos de Meiling com carinho e levou-a até onde estava o casal. Estava atento ao rosto da prima. Era uma mistura de surpresa e dor... Meiling poderia ser tudo, mas uma coisa que nunca fora, era cega. Ela já tinha reconhecido Sakura, pois seus olhos tinham um brilho diferente.
- Essa é a senhora sua esposa, senhor Li? - Yukito perguntou sorrindo para Meiling , ao mesmo tempo em que pegava nas mãos da prima de seu anfitrião e dava um significativo beijo nelas.
Shoran não havia gostado nada daquele gesto. Não que estivesse com ciúmes de Meiling, ao contrário, nunca seria capaz de sentir nada por aquela mulher, mas sim pela ousadia daquele homem em beijar a mão de outra mulher na frente da esposa. Sakura não merecia ser tratada com tanto desrepeito por parte do próprio marido.
- Não, Meiling é apenas um parente que mora comigo, para me ajudar a comandar a casa. Afinal, sou homem e por isso não sei nem fritar um mísero ovo. - disse brincalhão. - Eu, infelizmente não sou casado. - concluiu, olhando diretamente para Sakura que imediatamente desviou o olhar.
Meiling sentiu o rosto ferver. Como fora idiota ao não perceber a tempo que era ela... Aquela maldita estava de volta. Não sabia como reagir... Shoran agia de forma normal. Aliás, normal demais para quem reviu a mulher que lhe dera um filho. Maldita... só faltava ela ter trazido o filho para dormir naquela casa. Não... isso não poderia acontecer. Só Buda sabia, o quanto havia orado para que aquele momento nunca acontecesse.
- Esse é o representante japonês, Yukito Tsukishiro e sua mulher, Sakura Kinomoto Tsukishiro... e aquela mocinha ali é Hanako Tsukishiro, filha de Lady Sakura com o senhor Yukito. - Shoran falou de forma pausada.
Seus olhos caíram sobre Hanako. Nunca em toda sua vida, sentira um ódio tão grande como sentia por aquela menina. Era tão ou mais bonita que a mãe... Era a única filha de Shoran, a única herdeira daquilo tudo. E agora ela estava li, talvez para reivindicar a parte dela na herança, tirando assim qualquer direito que Chang poderia vir a ter. Nem morta deixaria isso acontecer...Uma vez havia vendido a alma ao demônio, não custaria nada vender seu único bem de novo...Tudo em nome de seu amor por Shoran.
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Sakura estava em um estado lastimável. Queria muito deitar em uma cama e dormir...dormir para sempre e esquecer daquelas cenas horríveis, que presenciava. Ao escutar da boca de Shoran que nunca fora casado havia sido demais para ela. Torcia para ele ter sido feliz na vida, mas percebia agora que ele também havia derrubado lágrimas, durante aqueles anos terríveis que haviam passado separados.
Fechou os olhos para reter as lágrimas insistentes, que pareciam quererem escorrer sobre seu rosto. Aquele não era o momento adequado para dar vazão aos seus sentimentos. Quando estivesse sozinha, daria espaço para as lágrimas e arrependimentos por nunca ter sido sincera com ele.
- Bem, eu estou muito feliz por recebe-los em nossa casa.- a voz afetada de Meiling soou em seus ouvidos, tirando Sakura de seu devaneio.
- Garanto que não abusaremos de sua hospitalidade. - Yukito falou sorrindo.
Seu maior medo, naquele momento, era a forma odiosa com que Meiling olhava para Hanako. A sua inocente filha não percebia o olhar hostil que a odiosa mulher lhe direcionava. Temia...Temia mais do que tudo em sua vida, a reação vingativa daquela mulher. Fora por culpa dela que havia se separado definitivamente de Shoran... e sabia que Meiling havia odiado Hanako desde de que ela estava em seu ventre. Tinha que proteger sua filha.
- Espero que tenhamos umas convivências pacífica, senhora Tsukihiro. - ela falou com pouco caso.
Shoran apenas olhava para ela, nada dizia sobre a atitude da prima. Mas talvez, aquela mulher significasse pouco para ele. Conhecia Li tão bem, que sabia que ele jamais seria capaz de dar esperança a qualquer pessoa. Havia sido assim com ela. No caso de Meiling, certamente Chao estivesse morto e a viúva, atrás de um marido. Não acreditava que Shoran tivesse algo com aquela mulher.
- Bem, vamos entrando. - disse ela abrindo a porta, ao mesmo tempo que se dirigia a Sakura.
Uma fila de empregados se fez presente em sua frente. Havia de tudo, de negros a crianças pequenas. Sabia da fase ruim que ele havia passado, mas Shoran fora homem o suficiente para se reerguer com a cabeça erguida. Sentia orgulho dele...Sentia-se imensamente feliz por ele. Só apenas ficava triste por saber que ele havia construído um império para ele mesmo. Como queria que ele tivesse sido feliz e tido filhos. Só agora percebia o quanto triste tinha sido a vida dele... Pelo menos ela tinha Hanako, e Shoran? Quem Shoran tinha para amar?
Houve uma pequena celebração, no qual os empregados fizeram reverência manchu. Aos poucos, eles foram voltando às atividades normais do cotidiano. E nada melhor do que o silêncio... Não que não tenha ficado feliz com a celebração, mas naquele momento estava com uma imensa dor de cabeça.
- A senhorita Ling Fu irá levar a senhora e sua amável filha até seus aposentos.
Sakura apenas vez um gesto com a cabeça. Não tinha nada para falar para aquela mulher a não ser insultos. Mas não iria fazer isso, pois tinha que considerar sua filha que era a parte mais fraca de toda aquela terrível trama.
Logo uma menina chinesa apareceu a sua frente. Por alguns segundos, Sakura apenas ficara olhando para a figura inocente e sorridente a sua frente. Só então percebeu a cor dos olhos da menina... Por um determinado momento, se perguntara se aquilo era coincidência, ou a jovem era muito parecida com ela? Talvez fosse uma mera e assustadora coincidência. Shoran não era um sádico.
Olhando para Hanako, viu que a garota também estava esgotada. Não era por menos, aquele estado de tensão havia mexido com os nervosos de todos. Queria e precisava de um descanso. Se não, não saberia do que seria capaz.
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Shoran olhava concentrado para o por-do-sol. Nunca imaginaria que a veria de novo...Agora que estava sozinho, podia dar vazão aos seus sentimentos, a sua emoção. Tinha que admitir que ainda amava e que sentia um aperto no coração todas as vezes que reparava em Hanako. Pelo simples fato de que ela poderia ter sido sua filha e não do panaca que dormia no mesmo quarto que Sakura.
Ninguém poderia saber o tamanho do rancor que destinava ao maldito senhor, o qual havia decidido que eles nunca poderiam ficar juntos. Tudo talvez seria diferente se tivesse se casado com ela. Talvez Hanako fosse sua filha.
Sorrindo, Shoran acendeu o cigarro. Nada o faria mais feliz se tivesse um filho dele com ela. Dando longas baforadas, deixou se levar pela nostalgia de imaginar-se com um filho de Sakura e dele entre os braços. Fechando os olhos, viu todos os detalhes da criança. E por incrível que pareça, a criança era idêntica a Hanako.
Estava ficando louco ao imaginar aquilo. Nem em sonhos Hanako era sua filha... Sakura nunca iria esconder dele um assunto tão sério assim. Mas ainda persistia a dúvida do que estava escrito naquela carta que rasgara há anos atrás. Será que se tratava de uma gravidez...? Sakura era uma mulher digna, de uma forma ou de outra, devia tê-lo avisado. Não, não Hanako não era sua filha, e sim daquele covarde que o governo japonês mandara.
Não tivera sorte na vida, nem um filho da mulher amada fora capaz de ter. Talvez aquele fosse um sinal de que algo precisava ser mudado... Talvez o destino estivesse lhe dando mais uma chance, porém sabia que era impossível reviver aquele amor. Afinal, ele fora responsável pela tragédia que se abatera sobre a vida de Sakura... Ele havia matado Touya Kinomoto, e isso era motivo o suficiente para nunca mais poder ficar ao lado dela.
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Sakura retirava a roupa pesada com ajuda de Mai, que lhe direcionava olhares interrogativos. Talvez tanto ela como a empregada, soubessem do risco que Hanako sofria estando sob o mesmo teto que Meiling.
- O que vai fazer agora, Sakura? - Mai perguntou, desfazendo os laços que prendiam o corpete a cinta liga.
Não, não sabia. Talvez ficasse quieta e longe de Shoran. E depois Hanako sempre estaria a seu lado, e duvidava muito que a odiosa mulher tentasse contar alguma coisa para sua filha. Na certa, Meiling tinha mais interesse em seu silêncio do que ela própria tinha, em manter a verdade escondida.
- N-não sei...Talvez ficar quieta para proteger Hanako. - respondeu triste pegando um quimono leve.
- Só eu sei como Meiling é vingativa, ou melhor, aquela mulher é como uma cobra. Quando se sente ameaçada, ataca.-a criada falou. - Hanako estará segura comigo. Mas não é isso que me preocupa Sakura...
- O que te preocupa, Mai?
Penteando o cabelo, Sakura olhava para empregada que estava sentada na beirada da cama. O que deixava Mai aflita era o fato de Shoran estar ali. Mai, como ela, tinha um mesmo sentimento em comum que era o amor incondicional por Shoran. Sempre havia tido uma leve suspeita sobre o real sentimento que Mai tinha por Shoran, era só olhar para o carinho que ela sempre havia destinado a Hanako. Ela amava Hanako, porque a jovem era filha de Shoran. Mas naquele momento, tinha certeza de que Mai amava muito Shoran, e por incrível que pareça não tinha ciúmes.
- O fato da senhora estar sob o mesmo teto que Shoran. Só eu e Deus sabemos o tamanho de seu amor por ele... E senhora, eu percebi que ele também a ama muito. - revelou com a cabeça baixa. - A senhora não sabe o quanto dói lhe dizer isso...
Sakura levantou-se e, sorrindo, foi até a empregada. Parando na frente dela, se ajoelhou. As suspeitas dela eram ridículas...Jamais voltaria a se envolver com Shoran. Tinha honra e dignidade e não agiria como o marido, ao procurar uma coisa que não tinha em casa. Amava demais Shoran para renegá-lo ao simples cargo de amante.
- Oh minha amiga... -falou erguendo o rosto dela entre as mãos. - Só você sabe o quanto foi e é importante para mim e para minha filha. Eu te amo Mai, e juro que por tudo que me é mais sagrado, não me envolverei com Shoran.
Mai apenas sorriu. O mesmo acontecia com ela. Sakura e Hanako eram sua única família, sem as duas não existiria nada. E por isso que temia o encontro dos dois... Não queria ver Sakura sofrer de novo... Não por causa de Shoran.
- Eu tenho que ir ver se Hanako precisa de algo. - disse enxugando as lágrimas.
- Claro, minha filha é muito atrapalhada... Isso ela puxou de mim. - disse sorrindo se levantando.
Sakura estava feliz como há muito na ficava, e Mai temia que essa felicidade tivesse um fim trágico. Sabia também que, por mais que Sakura lutasse, o amor era mais forte do que tudo. Até mesmo que a razão.
- Sakura... Não lute contra o destino, apenas siga seu coração... - disse fechando a porta.
Fechando os olhos, Sakura teve uma visão distorcida de Hanako chorando. Às vezes sentia uma grande falta de Kaho. A amiga havia desaparecido e nunca voltou a dar notícias. Ela havia lhe dito no dia do nascimento de Hanako, que nada a distanciaria de Shoran...Poderia passar anos ou séculos, que o destino sempre iria tramar contra eles.
- Sakura Kinomoto!!! Há quanto tempo. - a voz gritante a fez abrir os olhos.
Assustada, Sakura viu o reflexo de Meiling no espelho. O pânico tomou conta de seu corpo como há anos atrás, quando Meiling a intimidara para ir embora do desfiladeiro, sabendo que ela estava grávida de Shoran. Mas já se passara muito tempo e já não era uma menina assustada. E jamais voltaria a fugir de Meiling.
- Realmente Meiling...E da última vez que te vi, não foi nada agradável. - rebateu, levantando-se da cadeira.
Rindo como uma gazela, Meiling entrou no quarto deixando a porta semi aberta.
- Precisamos ter uma conversa de amiga para amiga. - falou sorrindo.
Tinha certeza de que aquela conversa tinha o intuito de intimidá-la, mas só que daquela vez, Meiling não teria êxito, pois não tinha mais nada a perder. E tinha a nítida impressão, de que aquela mulher sim, tinha muita a perder. Estava pronta para guerra, e sabia que não sairia fracassada daquela batalha...
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Chang andava pelas às ruas com a bicicleta. Nunca havia tido tanta liberdade como naquele momento. Aliás, sempre havia sido reprimido pela mãe e pelo o jeito de vida que ela queria que ele levasse. O único esporte que havia praticado era hipismo e de vez em quando, praticara artes marciais com o tio. Mas aquilo não era sempre, pois Shoran não tinha tempo para o primo mais novo. Não recriminava ninguém, mas não tinha memórias boas de sua infância... Se um dia viesse a ter um filho, certamente não o super protegeria. Iria amá-lo, mas não a ponto de sufocá-lo com esse amor.
As ruas de Pequim eram um misto de sujeira com modernidade. Havia uma grande mistura de raças que dava um contraste entre a população, que na sua maioria, era descendente de manchu. Era visível que a China estava mudando...Nada era como há anos atrás, de uma certa forma o povo já estava se acostumando com a sua situação, aceitando assim a superioridade estrangeira. O que era uma pena, tendo em vista de que nada iria mudar. Sempre existira um imperador fantoche e uma república falsa, e para variar, sempre o poder capitalista ganharia. Ficava triste por perceber que não estava deixando nada construtivo para seus filhos e netos. Ficava se perguntando até quando a pobre China iria agüentar, até os bárbaros destruírem tudo o que seus antepassados demoraram milênios para construir.
Era isso que sempre Tao falava, e ele surdo não conseguira escutar. Talvez estivesse na hora de rever seus pensamentos e tomar uma atitude com relação a tudo que estava ocorrendo com o seu país.
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Hanako estava entediada. Não havia nada para fazer, a não ser olhar para aquela grande obra da arquitetura chinesa, mas isso não a animava em nada. Há anos vinha morando em uma casa maior do que realmente ela ou sua família precisavam... Sinceramente, não via nada de bonito naquelas cores mortas e sem vida. Tinha pena do simpático senhor que residia naquele museu.
Havia sentido uma leve simpatia pelo dono da casa. Não sabia o motivo, mas no momento em que escutara a voz dele, algo acendera em seu íntimo, como se já o conhecesse. O mais estranho era de que ele era muito familiar...
Mas o que mais lhe preocupava era a mãe. Há dias que vinha notando sua mudança, mas agora parecia mais visível... Tinha uma leve impressão de que as coisas já não eram mais as mesmas entre ela e seu pai. Talvez ela tivesse descoberto as inúmeras traições de Yukito, ou simplesmente desistido de ser feliz. Essa constatação só serviu para deixá-la mais curiosa.
Precisava urgentemente ter uma conversa muito séria com sua mãe. Não podia deixar seu único ser querido, se alto destruir assim, sem mais nem menos, e tudo por causa de um homem que não era digno nem de sua pena, quanto mais de seu coração.
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Sakura mau continha o ódio que sentia por Meiling. Sua vontade era de expulsá-la de seu quarto e madá-la mais uma vez para a eterna escuridão de sua mais remota memória. Se não tivesse sido tão fraca, a essa hora tudo poderia ter sido diferente... Mas tinha que admitir que não fora forte o suficiente para lutar por aquilo que queria. Não era por menos, já que não passava de uma criança desprotegida que morria de medo de ficar sozinha, com um bebê recém-nascido nos braços.
- Então fale de uma vez, Meiling. - Sakura falou nervosa. - Não tem motivo nenhum para você fazer um drama tão grande.
Meiling engolia a seco. Queria voar no pescoço daquela mulher que lhe roubara definitivamente o amor de Shoran. Que havia tirado tudo o que era por direito dela. Nenhuma palavra seria o suficiente para descrever o sentimento que tinha por ela. Seu pesadelo estava concretizando, estava perdendo o controle novamente, e o que era pior, sabia que a adversária tinha um grande trunfo na mão. Não era justo ver seu filho morando em quarto estudantil, enquanto que a filha da "outra" estava dormindo em uma das melhores suítes da mansão.
- Eu tenho ódio Sakura... - falou entre os dentes. - Durante anos, tentei de todas as formas tirar você dos pesamentos de Shoran, mas não consegui...Só eu sei o quanto meu primo sofreu por você, e a senhora não sabe o quanto isso me marcou...
Sakura podia sentir o olhar cortante da mulher a sua frente. Sabia que Meiling era traiçoeira, mas não iria se acovardar como fez no passado. Já não tinha um bebê na barriga para zelar.
- E-eu não tenho culpa se Shoran nunca pode me esquecer...Eu fiz minha parte. - falou nervosa, encostando-se na penteadeira.
- Sim, você é a única culpada! - disse ela, mostrando um toque de agressividade. - Você chegou com esses olhos verdes e enfeitiçou Shoran como nenhuma mulher foi capaz.
- Eu amei Shoran como nunca consegui amar outro homem. - Sakura falou, encarando os olhos castanhos furiosos de Meiling. - Eu nunca tive outro homem depois de Shoran...
- Isso não me importa, Sakura!! - a mulher falou cinicamente. - O que realmente me importa é aquela garota que está com você... Ela sim me preocupa.
Sakura empalideceu ao final da frase. Sentiu um grande aperto no peito ao se dar conta de que era de Hanako que Meiling tinha falado. Sabia e sentia que aquela mulher ambiciosa, não iria deixar sua filha em paz... Ainda mais sabendo que Hanako era filha de Shoran.
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Hanako havia escutado vozes alteradas de longe. Logo, pensou que poderia ser mais uma das longas e terríveis brigas da mãe com Yukito. Mas desta vez a coisa parecia mais séria.
Desde pequena, crescera ouvindo as intermináveis brigas entre sua mãe e seu pai. Muitas dessas brigas se davam em conta da falta de interesse dela por ele. No fundo, todos sabiam que sua mãe nunca amara o marido, e se estava com ele, era por comodismo e por que tinha uma filha. Ninguém poderia medir o quanto isso a entristecia. No fundo, queria muito que sua mãe fosse feliz. não se importava com quem fosse.
"Realmente menina, você não conhece a mãe que tem...", Hanako lembrou das palavras enigmáticas de Tomoyo. Talvez realmente não conhecesse sua mãe, mas tinha certeza de que a amava e de que um dia a veria feliz.
Se aproximando mais da porta, percebeu que ela estava semi aberta. Os gritos eram cada vez mais fortes. E como levasse um choque, Hanako viu que a voz era de uma mulher... Era uma voz afetada e familiar.
Afastando-se da porta, deu meia volta. Não era educado escutar a conversa de sua mãe... Tinha medo de escutar a verdade. Era uma burra, mas tinha princípios e não passaria por cima deles.
-O que realmente me importa é aquela garota que está com você... Ela sim me preocupa.
Hanako sentiu o coração bater em ritmo desigual, ao perceber que a mulher estava falando dela. Não resistindo ao impulso de bisbilhotar a conversa, se aproximou da porta e discretamente olhou pelo vão.
Assustada, percebeu que era a prima de Shoran que estava ali, discutindo com sua mãe. A mesma mulher que havia a tratado friamente. Mas aquilo não justificava aquela gritaria toda... Nem em seus mais estranhos sonhos, poderia imaginar que sua mãe conhecesse aquela mulher, e o que era pior, que aquela senhora a conhecesse também. Sua mente estava dando um nó.
"Ela tem vários, e muitos com relação a você". Lembrou de novo das palavras de Tomoyo. Agora tinha mais certeza de que sua mãe lhe escondia algo. E isso a estava deixando confusa. Naquele momento, não teve mais dúvidas se devia ou não escutar aquela conversa. Se sua mãe lhe escondia algo, ela tinha o direito de saber.
- Tire Hanako dessa história, Meiling. - a voz suplicante de sua mãe, soou depois de vários segundos de tensão. - Minha filha não tem nada haver com o meu passado...
- É óbvio que tem minha, querida Sakura. Afinal ela não é filha de seu marido, ou é? Pelas as minhas contas, Hanako Tsukishiro só pode ser filha de meu primo, e de ninguém mais...
Hanako não escutou mais nada depois daquilo. Um barulho ensurdecedor fez ambas se calarem. Mas naquele momento, a jovem já não queria escutar mais nada. Tinha lágrimas nos olhos e estava pálida.
"Pelas as minhas contas, Hanako Tsukishiro só pode ser filha de meu primo e de ninguém mais..."
Não, não, não podia ser. Aquilo só podia ser mentira ou maldade. Não, não podia ter convivido com uma mentira por tanto tempo... Aquilo não era justo. Yukito tinha que ser seu pai... Levando as mãos a cabeça, Hanako percebeu que alguém se aproximava. Naquele momento, a única coisa que precisava era fugir...Sim, fugir para longe, antes que alguém a encontrasse.
Descendo as escadas aos prantos, Hanako andava as cegas pela casa até encontrar a saída. As ruas estavam movimentadas, mas Hanako não sabia onde estava. A única coisa que sabia é que era uma indigente, sem pai... Sem nome, sem ninguém. Só agora entendia o motivo para que Yukito a odiasse tanto.
Desde criança, ele a tratava com hostilidade e distância, e quase não ficava em casa. Só agora compreendia o motivo daquele, o que ela chamava de pai, para odiá-la. Naquele momento, crescia um grande ressentimento por sua mãe... Ela era a única culpada. Seria tão mais fácil ter falado antes...
- Por que Deus...Por que... O que eu fiz...? Fala-me, me dê um sinal...- sussurrou, andando em esmo pela rua.
Desorientada, Hanako não percebeu que uma bicicleta vinha em alta velocidade em sua direção. Naquele momento não sentia nada, não escutava. Apenas andava, e a única voz que ouvia era da odiosa mulher falando que ela não era filha de Yukito. Na certa, Meiling era mais uma amante de seu... Não, não ele não era seu pai. Yukito Tsukishiro não tinha seu sangue. Ela nunca havia tido uma família de verdade...Tudo não passara de uma farsa.
- Cuidado!!!! - uma voz masculina gritou.
Olhando na direção da voz, Hanako percebeu que uma bicicleta vinha em sua direção. Mas já era tarde demais para impedir a colisão.
Entorpecida, Hanako apenas sentiu o baque de seu corpo caindo no chão. E depois, uma sensação de paz inundou seu ser. Pela primeira vez em minutos, pôde sentir a sensação de paz e liberdade. Depois tudo se apagou e nada mais pôde sentir...
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Olá Pessoal!!!!!!
Bem, esse capítulo não ficou muito bom. Acho que ficou meio sem nexo. No próximo pretendo melhorar. ^^
A bicicleta que atropelada Hanako ( da onde fui tirar essa idéia ^^") é de Chang. Não sei quando e nem onde Sakura vai rever a filha, mas acho que Chang ficará tempo o suficiente ao lado de Hanako. Tenho uma leve impressão de que eles vão se separar quando Yukito morrer. Não vou conta mais nada, senão perde a graça.
Um beijo para Bella-Chan, B166ER, Lan Ayath, Anaisa, Miyazawa Yukino-Erika, Warina Kinomoto, Carol, Letícia Himura, Jenny-Ci, Nina, Rê_~-Chan e a Lídia.
Agradeço muito a Lê!!!!^^
Um beijo a todos!!!! Espero do fundo do coração reviews.
Muitos, muitos beijos
