"Não quero amar.
Não quero ser amado.
Não quero combater.
Não quero ser soldado.
-Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples".
Manuel Bandeira-Belo Belo XXVI Capítulo
Chang olhava assustado para o corpo imóvel da jovem estendido no chão de pedregulho. Estava tão encantado com a nova liberdade, que não prestara a mínima atenção na jovem que se postava em seu caminho. Não havia sido culpa dele, mas não podia fugir deixando uma jovem desmaiada... Não seria uma atitude digna de um homem, muito menos dele que era um Li. Era seu dever acudir aquela menina e depois... Bem, depois ele veria o que poderia fazer. Mas naquele momento o que importava era ajudar.
Levantando-se do chão, Chang se aproximou da jovem e percebeu que também não havia saído ileso daquele acidente um tanto cômico. Seu braço estava ralado e sangrava muito. Mas nada se comparava ao estado que a jovem poderia estar. Ela não se movia ou dava indícios de que estava viva. Só o fato de pensar que poderia ter matado uma mulher o gelou. Nunca se perdoaria se tivesse cometido tal delito, mesmo que não fosse sua intenção matá-la. Infelizmente aquilo havia sido um acidente...
-Cheng-fu ou qual Deus que me estiver escutando nesse momento, por favor, não deixes que nada aconteça com essa jovem.-falou perto da menina.
Ninguém passava na rua naquele momento. Aliás, mesmo que passasse ninguém o notaria. Já não era novidade ver pessoas caídas no chão... O que mais se encontrava nas ruas eram corpos sem nomes destinados ao acaso nas ruas sujas de Pequim.
Mas aquele não era seu caso. A jovem não estava morta apenas desacordada, pois podia sentir a pulsação dela. O que o deixava menos culpado... Embora não lhe aliviasse a consciência. Aquela jovem podia ter sua parcela de culpa, mas fora ele o distraído. Retirando o cabelo dela do rosto, Chang pode perceber o quanto era linda.
-Como é linda...-sussurrou notando os olhos inchados.
Ela usava roupas ocidentais. O que dava a ele a certeza de que ela era nova na cidade. E se fosse realmente uma chinesa não estaria a essa hora na rua. Mas o que mais lhe chamou atenção foi à expressão triste e carregada que ela tinha. Devia ter passado por uma situação estressante, ou pior poderia ter sido violentada. O que explicaria aquele acidente. Não podia ficar para sempre ali naquela rua, e nem era o ideal para aquela jovem. Agora tinha certeza de que ela estava precisando de sua ajuda. Além do mais não podia deixá-la sozinha... Não conseguiria encostar a cabeça no travesseiro se tivesse certeza de que ela estava bem.
-Seja o que o destino quiser.-sussurrou erguendo a garota nos braços.
Sentindo uma dor alucinante nos braços por algum momento pensou que não iria conseguir segurá-la por muito tempo. Mas quando viu que ela se acomodava em seus braços naquele momento a dor desapareceu e um sentimento estranho apossou em seu coração. Naquele instante percebeu que mesmo não conhecendo a garota que jazia em seus braços sabia que já se sentia responsável por ela.
-Droga... Mais uma vez meu coração dá sinais de que tenho muito que aprender.
Segurando o pingente em forma de cruz que ela segurava entre as mãos, Chang tinha certeza de que não iria deixar aquela menina ir embora sem antes lhe dizer quem era. Parecia ser japonesa, mas tinha algo de muito familiar nela. Algo que não sabia o que era, mas o intrigava profundamente.
(**(*(*(*)*)*)**)
Sakura tremia feito uma vara verde. Meiling não se cansava de atacá-la com ameaças inundáveis. Já fazia um tempo que ela havia saído do quarto, mas aquela sensação ruim não saía de seu coração. O medo que antes tinha passado agora voltava com toda força... Só de pensar no estrago que aquela revelação iria fazer na cabeça de Hanako a deixava em extremo estado de nervos. Mais o que mais temia era a reação de Shoran com aquela revelação. Ele iria bater o pé e poderia até se confrontar com Yukito. Não... não, não podia deixar aquele segredo vir a tona. Iria desgraçar a vida de várias pessoas e não só a dela. tinha que impedir Meiling de falar de qualquer maneira.
Escutando passos no corredor, Sakura virou a costa para que a pessoa que entrasse em seu quarto não visse seu rosto borrado por causa de seu desespero. Não era do interesse de ninguém saber o que estava ocorrendo. Porém, haveria um falatório se percebessem seu desespero. Logo a porta foi aberta e o cheiro da fragrância de Shoran se espalhou pelo ambiente.
-Sakura preciso muito falar com você.-disse calmamente fechando a porta.
Sakura mal segurava a emoção. Era como se tivesse voltado há dezessete anos atrás. Naquele mesmo país, mas não no mesmo quarto daquela pensão onde havia passado pelos os momentos mais aterrorizantes e bonitos de sua vida.
-Acho que não temos nada para declarar um ao outro.-Sakura falou sem muita convicção.
Shoran engoliu a seco. Realmente não tinha direito nenhum de estar ali, mas não podia mais conter sua insegurança... Precisava esclarecer os pontos obscuros que havia ficado entre ele e ela. Só agora que a tinha reencontrado podia perceber o quanto à relação de ambos ficara mal resolvida. Precisava de respostas urgentes... Uma delas era sobre Hanako.
-Não tente fugir da realidade Sakura. É impossível fingir que nada aconteceu entre a gente.
Era engraçado ouvir da boca dele tal frase. Não fora ele que sempre fugira da realidade... Não fora ele que a deixara sem uma resposta? Se ele nunca havia correspondido a seu amor... Nem ao menos se dignaria a ler sua carta.
-Para mim... Para mim você ficou no passado.-falou abaixando a cabeça.
Aquilo não era verdade. A realidade era que tanto ele como ela sabia que ainda havia um sentimento forte entre eles... um sentimento que nunca seria quebrado. E que nem mesmo os anos foram capazes de apagar.
-Não tente me confundir Sakura.-Shoran falou cinicamente.-Tanto eu como você temos a nítida certeza de que o que sentimos um pelo outro é eterno.
-Nada é eterno... Eu sofri demais Shoran.-Sakura falou confusa.-Você não sabe o que é perder uma família em tão pequeno espaço de tempo. Eu durante dezoito anos tentei esquecer tudo...
-Mas não conseguiu.-ele a interrompeu.-Eu também sofri...Talvez nem tanto quanto você, mas não foi fácil para mim também.
Tinha que dar um ponto final naquela história antes de cometer uma loucura. Não conseguia mentir para ele. E isso a deixava alarmada. O conhecia tão bem a ponto de saber no que ele estava interessado. Ele queria explicações sobre Hanako. E isso ela não poderia dar nunca...
-Eu não acredito em você. Afinal me parece que recuperou tudo o que era de sua família.-falou olhando para os lados.
-Sim, mas não sou feliz.-disse se aproximando dela.-Consegui tudo o que queria...Minha vingança foi um sucesso, mas não posso ser feliz, pois tenho um peso em minhas costas.
Talvez não devesse se aproximar tanto dela, afinal ela era uma mulher casada, tinha uma filha e um marido. Já não era a jovem livre e bonita que tinha conhecido anos atrás. Só de pensar que ela havia pertencido a outro o deixava doente de ciúmes. Durante anos alimentara a ilusão de que só ele havia sido o dono do corpo e do coração dela, mas agora que via que ela tinha reconstruído sua vida não podia esconder sua ira.
-Não precisava ter se sentido tão culpado por não ter se casado comigo Shoran. Foi apenas uma noite que tivemos e nada mais.-disse indo até a janela.-Além do mais nunca fui grande coisa para você...
-Isso não é verdade, Sakura.-rebateu nervoso.-Eu nunca fui capaz de amar ninguém como te amei.
Sakura sentia o coração pulsar. Precisava urgentemente tirar Shoran de sua vida, mas não podia. Não podia mandá-lo embora... Nunca fora capaz disso. Era uma fraca, sem opinião ou atitude. O que seria dela se Yukito pegasse Shoran em seu quarto. Seu marido não era burro certamente somaria os botões e descobriria quem era Shoran. Isso não podia acontecer.
-O tempo não foi piedoso com o nosso amor, Shoran.-Sakura falou sentindo as pálpebras tremerem.-Agora tudo acabou, o tempo passou e nada nos restou... Por favor, sei que é prepotência de minha parte pedir para que se retire do quarto que é teu por direito, mas não quero que uma tragédia aconteça se caso meu marido descubra sobre nosso passado.
Não podia conviver com aquilo. Saber que ela se importava tanto com a opinião do marido a ponto de mandá-lo embora de seu quarto. Fora um idiota em pensar que ela ainda o amasse. Talvez ainda mantivesse um sentimento por ele, mas já não era o mesmo de antes. Em suma estava tudo acabado entre eles. Podia ver isso nos olhos dela.
-Eu não me importo com o seu marido Sakura. Durante anos eu amei você incondicionalmente. Auto-me flagelei quando tive a infelicidade de... de...-não podia contar sobre a morte de Touya, ainda era uma ferida aberta em seu peito.-Você não sabe o quanto me arrependi de ter fugido em vez de abrir aquela carta.
Sakura podia sentir a respiração dele em suas costas. Ele estava tão perto a ponto de abraçá-la. Não era forte o suficiente para impedir que aquele contato acontecesse. Tanto ela quanto Shoran ansiava por aquele momento. Quando sentiu os braços dele apertando sua cintura sabia que não poderia voltar atrás.
-Por que me deixou, Shoran? Seríamos tão felizes juntos...-sussurrou aceitando o abraço dele.
-Eu me arrependo disso amargamente Sakura.-disse beijando os cabelos dela.-Durante anos sonhei com esse momento, e agora que a tenho em meus braços não sei se sou capaz de soltá-la.
Sentindo os lábios dele em seu pescoço Sakura derrubou algumas lágrimas. Sempre tivera o mesmo sonho, mas sempre ele acabava em sangue ou tragédia. Havia um mundo separando os dois... Nunca poderiam amar e serem felizes juntos. Tinha que acabar com aquilo logo enquanto tivesse algum resquício de sanidade em sua mente.
-Por favor, Shoran...Não podemos.-se distanciou dos braços dele.
Havia perdido o controle completamente. Por alguns segundos pensara que poderia tê-la novamente em seu braços como anos atrás. Mas como Sakura havia muito bem falado o tempo havia sido seu maior inimigo. Qualquer tentativa de aproximação agora seria burrice...
-Eu nunca te esqueci Sakura, por mais que tentasse tirar você da minha cabeça, você estava lá sempre... Sei que não tenho o direito de falar nada sobre seu relacionamento com seu digníssimo marido, mas posso lhe afirmar que você também ainda sente algo por mim... E nada e nem ninguém vai apagar esse sentimento.-disse se distanciando.
Sua vontade era de esmurrar a parede com toda a fúria e frustração que estava contida em seu ser durante dezessete anos. Matara Touya, mas era um ser humano passivo de erros e acertos. Tudo seria diferente se desde o principio soubesse sobre o grau de parentesco entre a sua vítima e Sakura. Já estava conformado em viver com aquela eterna culpa, mas não estava nem um pouco satisfeito em ter seu grande amor ao seu lado e não poder nem ao menos beijá-la.
-Talvez nunca te esqueça Shoran, mas não posso sucumbir ao desejo que minha carne impera... –sussurrou olhando pela a primeira vez no rosto do amado.-Tenho uma filha Shoran e devo dar um bom exemplo a ela.
Não havia nada que pudesse fazer. Shoran mais uma vez se mostrava superior a ela. Não podia deixar de pensar no quanto ambos teriam sido felizes se caso ele tivesse lido aquela maldita carta. Hanako teria uma família de verdade, e ela o seu amor. Mas tudo havia acontecido de maneira diferente.
-Eu te admiro por isso.-Shoran falou abaixando a cabeça.-Fique sabendo que a jovem Hanako é tão ou mais bonita que você. Além de me parecer uma menina delicada.-concluiu sorrindo.
Retribuiu o sorriso. Era bom ouvir Shoran falar assim de sua própria filha... Hanako era linda, uma beleza desigual e que nem de longe se comparava a dela. Era delicada e por isso temia por demais que ela descobrisse a verdade.
-Mas o que não a faz melhor do que você, Sakura.-ele falou em um meio de acesso de timidez.-Eu sei que vai ser muito difícil nossa convivência, mas espero sempre contar com a sua amizade... Por mais que me doa vê-la com outro...
Por longos minutos os dois ficaram ali apenas se olhando, sorrindo como se nada tivesse acontecido. Como se ainda fossem jovens. Mas não eram...Ambos estavam velhos e amargos. O tempo havia transformado Shoran em um milionário solitário, e ela numa mulher sozinha com obcessão pela filha.
-E... Eu darei o melhor de mim para transformar essa convivência boa.-disse abaixando a cabeça.-Pois eu ainda te amo muito Shoran.
Shoran sentiu o mundo explodir em mil estrelas a sua volta. Saber que ela o amava era lindo, maravilhoso, mas não dava esperança de nada para ele. A não ser de que tudo seria mais dolorido dali para frente. Não agüentando mais a saudade que marcava o coração dele, Shoran foi de encontro a Sakura.
Sabia que era proibido aquele gesto de carinho. Que ela nunca deveria ter aceitado aquele abraço, mas simplesmente não conseguia segurar a ânsia... A saudade era grande e poderosa demais para negar aquele terno contato de corpos. Durante dezessete anos reprimira seu libido... Esquecera de que era uma mulher. Mas agora com ele ali ao seu lado tudo aflorava... Talvez eles nunca mais fossem amigos.
-Eu também te amo Sakura...-sussurrou a beijando delicadamente nos lábios.-Sei que isso não devia acontecer, mas meu amor por você é maluco e inexplicável. Não posso lutar contra ele...
Havia muita paixão contida naquele beijo. Era como se tivessem num mar a deriva e o único galão de água estivesse acabando. Sakura podia novamente se sentir viva... Era uma mulher completa. O cheiro e os gosto dos lábios.
-Você não sabe a volta que você me fez...-ele sussurrou.
-É como estar perdida durante anos e depois de tanto procurar achar o caminho.-ela completou sorrindo.-Devo estar maluca...
O beijo continuou com a mesma intensidade. Mas daquela vez o gosto se modificou... Já não era mais saudade. Era desejo.O que deixava Shoran desorientado.
-Devo estar sonhando.-ele falou sorridente.
Tudo parecia um sonho... Daqui a pouco Mai entraria porta a dentro gritando que sua filha havia sumido. Como naquele sonho que tivera há dias atrás. Tudo era extremamente familiar. Mas não admitia que aquela explosão de desejo acabasse assim.
-Sakura abra a porta, por favor.-a voz nervosa de Mai chamou atenção de Sakura, que em sobresalto se distanciou de Shoran.
O mal pressentimento de horas atrás voltou com muita força. Tudo estava transcorrendo igual ao sonho. Só faltava Mai lhe dizer que Hanako havia sumido. Não se preocupando com que a empregada iria pensar, Sakura não hesitou em abrir a porta. O ambiente que estava tranquilo se modificou com a expressão pálida e desesperada de Mai.
-O que aconteceu?-Sakura perguntou tremendo dos pés a cabeça.
-Sakura... Por Deus...
Shoran sentiu o clima tenso. Seja o que fosse algo de muito grave havia acontecido em sua propriedade e isso era seu problema também. Não podia sair agora do quarto e deixar Sakura sozinha... Não depois do que haviam compartilhado. Ainda tinha o gosto dela em seus lábios.
-Fale logo... Fele logo Mai.-a voz desesperada de Sakura soou.-O que aconteceu com minha filha?
-Eu não sei onde Hanako está Sakura... eu já procurei feito louca por toda a mansão e não a encontro em lugar nenhum.-Mai falou chorando.
Sakura não conseguiu digerir a informação com clareza. As únicas palavras que registrou foi que Hanako havia sumido... Sua filhinha perdida. Por que? Como isso havia acontecido? Só podia ser Meiling... Ela era a única que poderia cometer alguma coisa contra sua filha.
-Se acalme Sakura.-Shoran falou calmamente.-Talvez sua filha tenha ido passear pela a propriedade e se perdido. Essa fazenda não é pequena.
Queria muito acreditar nas palavras dele, mas em seu íntimo sabia que Hanako não estava ali... Para seu desespero temia que ela tivesse escutado a conversa que tivera com Meiling a minutos atrás. Não, só em pensar naquela hipótese o coração latejava mais. Só de pensar que Hanako escutara da boca de outra pessoa sobre sua verdadeira origem já começava a entrar em outra crise de pânico.
-Por favor, Shoran... Encontre-a.-Sakura sussurrou sentando na cama.-Por favor, por favor...
Shoran sentiu um termo sentimento. Estava preocupado com Hanako. Sabia o quanto aquela terra era perigosa para uma menina indefesa, mas não estava alarmado. No fundo sentia que ela estava bem. E durante aqueles anos aprendera muito a acreditar no que sentia. Havia perdido tempo demais querendo discutir consigo mesmo o que queria fazer e não podia. Aprendera a confiar mais em seus sentimentos.
-Eu irei encontrá-la.-disse passando a mão no rosto dela.-Por você e ninguém mais...-concluiu saindo do quarto.
Sakura olhou para o homem de sua vida. Em poucos minutos via apenas a sombra dele e nada mais. Talvez ela havia agido errado... Mas havia tentado fazer o certo. Seus pensamentos agora estavam voltados para sua filha... sua filhinha. Nunca se perdoaria se algo acontecesse com ela.
Mai não ousava falar. Tinha a garganta tomada por soluços. Conhecia muito bem Hanako para saber que ela não sairia assim sem avisar... Sem mais nem menos. Algo havia acontecido,talvez ela tivesse presenciado a mesma cena que ela há poucos minutos atrás flagrara. Gostava muito de Sakura, mas não pode deixar de culpá-la.
Sentindo o olhar acusador de Mai, Sakura simplesmente abaixou a cabeça e levou as mãos ao ventre. Estava desesperada... Novamente se via presa num terrível pesadelo. Só que daquela fez o personagem principal era sua filha. Seu único motivo para viver...
-Por favor, ache nossa filha Shoran.-sussurrou chorando copiosamente sendo amparada por Mai.
*-*-*-*-*-*
Estava caindo num abismo. Tudo despedaçava ao seu redor... Já não tinha nome, família... já não era ninguém. O seu mundo perfeito virara cinzas de uma hora para outra. Tudo o que era de direito dela foi usurpado. Já não tinha mais adjetivos que lhe fornecessem tanta riqueza de detalhes de que fora completamente usada. E o que era pior pela a pessoa que havia dado a luz a ela, agora estava ali presa num abismo escuro e cruel. Talvez aquilo fosse o inferno.
Ela não é filha de seu marido
Aquela frase não tinha o poder de tirá-la da escuridão, mas era óbvio que tinha o direito de jogá-la no inferno no qual estava vivendo. Sempre tivera suas dúvidas, mas nunca fora capaz de duvidar da própria mãe. Sempre que era maltratada por Yukito pensava nessa possibilidade, mas sempre fugia, pois temia descobrir a verdade.
-Menina... Por favor, abra os olhos.-a voz masculina chamou sua atenção.-Se não acordar me verei obrigado a chamar um médico.
Não reconhecia a voz. E por mais que tentasse abrir os olhos não conseguia. Sabia que era medo... Temia enfrentar a realidade. Não queria envolver médico naquilo tudo... Já tinha a certeza de que não estava morta, e não iria morrer. Aquela voz devia ser do moço que havia atropelado-a. Era o pensamento mais óbvio que lhe vinha à cabeça.
-Por todos os deuses do mundo abra logo esses olhos.-sussurrou ele cada vez mais desesperado.
Hanako estava encantada com o timbre de voz do homem. Seja quem for, ela já havia percebido que era uma pessoa boa. Abrindo os olhos devagar deu de frente para um grande par de olhos castanhos escuros. Os cabelos eram lisos e vinham até para baixo da orelha... Ficou vermelha ao perceber que estava num quarto semi-escuro.
-Que susto me deu menina. Por um momento pensei que tinha matado a senhorita.-ele falou se distanciando dela também sem graça.
Ela era mais linda ali acordada do que necessariamente dormindo como um elfo. Há muito tempo atrás ouvira falar sobre a beleza das mulheres ocidentais, mas sempre tivera a impressão inversa. As poucas que tinha conhecido eram gordas e baixinhas, ou magras e muito altas. Mas aquela garota com enormes olhos verdes era diferente. Ela tinha traços chineses, mas se vestia como uma madame ocidental. Devia mandá-la embora o quanto antes.
-Nunca foi minha intenção assustá-lo. –a menina sussurrou timidamente.-Aliás, me desculpe se o feri com minha mania de parar no meio da rua.
A voz dela era semelhante a de um anjo. Doce e delicada como uma magnólia. Tudo nela transpirava flores. Ela era tímida e falava pausadamente. O que dava a ele a certeza de que fora muito bem educado.
-Bem, a culpa também é um pouco minha já que sou desatento a essas coisas.
Hanako sorriu simplesmente. Julgava a causa daquele acidente como coisa do destino. Ele estava destinado a conhecê-la. O que o deixava um pouco tenso... Não sabia nada sobre aquela garota, e o fato de ela ser bem instruída e bonita não revelava nada sobre sua personalidade.
-Primeiramente devo pedir desculpas, pois estou lhe dando trabalho.-ela falou após minutos em silêncio.
-Não está me dando trabalho algum... Estou apenas preocupado com o seu estado. Não posso deixar de me sentir culpado.-falou sorrindo.-Bem, esse é um cantinho apertado, mas dá para a senhorita passar a noite.
Não podia passar a noite ali. Aquela altura já deviam ter notado a ausência dela. Não era de se duvidar que já não estivesse um batalhão atrás dela. Não podia prejudicar aquela pessoa que de uma certa forma lhe estendera a mão. Tinha que ir para bem longe, aonde nada e nem ninguém a encontrasse.
-Não posso senhor...
-Não, não sou senhor...-ele falou sorrindo bebendo água.-Meu nome é Chang-Hsun Li, acho que sou um pouco mais velho que você e nada mais. Acho que não cheguei à idade de ser chamado de senhor.
-Claro... ahn, disculpas... Não quis ser indelicada.-abaixou a cabeça vermelha.
-E não foi.-replicou ele sorrindo.-Bem, posso saber seu nome...
Hesitou por algum tempo. Queria muito ser sincera com ele, mas sabia que corria um grande risco se revelasse sua verdadeira identidade. Sabia que o preço seria alto... Conhecia apenas o nome dele e nada mais. Fora sempre cercada de proteção, mas não era uma jovem indefesa.
-Meu... meu nome Hanako Kinomoto.-falou hesitante.
Depois de saber a verdade ficara bem claro que não tinha o direito de usar o sobrenome de Yukito. Se pelo menos soubesse quem era seu pai talvez as coisas poderiam ser bem diferentes. Mas seu caso era desesperador... Mal sabia quem era, e agora tudo o que havia vivido não passava de uma ilusão dolorosa de seu passado. Nunca mais voltaria ser a mesma.
-Bonito nome.-Chang falou sentando ao lado dela.-Se não me engano você é japonesa. Não é?
-Sim.
-O que está fazendo aqui? Ainda mais sozinha numa cidade desconhecida.
Chang sentiu a onda de hesitação que vinha dela. Talvez fosse cedo demais para entrar em detalhes... Mas não conseguia segurar a própria curiosidade de conhecer mais sobre aquela misteriosa menina.
-Estou... Eu não posso falar nada para o senhor... quer dizer Chang.-ela falou angustiada.-Só sei que não posso voltar para aquela casa...-concluiu agarrando a manga da blusa do jovem a sua frente.
Os olhos não se desgrudaram por nenhum momento. Havia um magnetismo entre ambos. O que era estranho, pois mal se conheciam... Mais sabia que poderiam contar um com o outro. Havia uma pureza escondida naquela menina... Os olhos inchados lhe davam a certeza de que ela estava sofrendo.
-Desculpas...-disse sussurrando retirando as mãos da blusa dele.-Só lhe peço um abrigo por essa noite apenas... Amanhã procurarei outro lugar para ficar.
Não, isso era incabível. Não a deixaria sozinha por aquelas ruas podres de Pequim. Uma jovem como aquela não teria uma vida longa naquela selva que era o centro de Pequim. Não queria nem imaginar o que aconteceria com uma menina tão bela e educada como aquela.
-Não, eu irei te ajudar... Você é nova aqui na cidade e isso te torna um alvo fácil nas mãos de pessoas mal-intencionado.-disse pegando a mão dela.
Hanako sentiu que a face ficava ruborizada de encantamento e timidez. Nunca um homem havia chegado perto o bastante para ter aquele tipo de intimidade com ela. Poderia se dizer que aquele era seu primeiro contato físico com o sexo oposto... Devia ser uma idiota por colocar sentimento em um gesto que não tinha nenhum interesse. Realmente às vezes concordava com a frase de que as mulheres se envolviam mais facilmente na arte do amor.
-Me sinto muito grata pelo o seu interesse em minha situação, mas acho que já lhe causei problema...
-Shh...-disse ele tocando no rosto dela.-Não me causou problema algum. Mas antes de tudo devo pedir autorização à senhora que é dona desse apartamento para você ficar.-concluiu sorrindo.
A mão dele era suave como poucas mãos. Logo percebeu que ele não era um mísero trabalhador braçal... Talvez fosse igual a ela.
-Muito obrigada por tudo... Chang.-falou retirando a mão dele de seu rosto.-Terei uma dívida eterna contigo.
Era um idiota. Mal conhecia a garota e já tocava em seu rosto com uma intimidade que não tinha o direito ou muito menos a liberdade de ter. Realmente não tinha experiência alguma com relação a mulheres. Simplesmente não resistira ao impulso de tocá-la... Aquele sentimento já estava virando sua obsessão.
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Tao espreitava o todo poderoso lorde como uma raposa esperta. Tinha que primeiro conhecer a rotina do representante japonês, pois sua missão não admitia erros... Não teria uma segunda chance. Ou matava Yukito ou o deixava vivo para cumprir os planos expansionistas japoneses. Recriminava-se por estar fazendo parte de um plano tão sórdido e covarde, mas isso era por bem de uma nação. Pequim já não agüentava o cheiro de sangue... A China precisava ser livre para ter uma sociedade mais justa e igualitária.
Afinal os princípios do comunismo eram a paz e igualdade. E não a devastação que o capitalismo selvagem estava causando com o seu país. Não odiava Yukito ou família dele. Queria apenas paz e liberdade de expressão. E para isso acontecer ele teria que morrer... Naquela noite. Se passasse mais um dia talvez fosse tarde demais. Tinha que aniquilar com o inimigo antes que ele fugisse assustado. Para isso tinha que por um fim naquilo agora. Seria fácil dar um disparo certeiro no coração do jovem embaixador.
-Tao, o senhor Li está o chamando na sala dele.-a voz de Hsu soou cansada.
-Já estou indo.-falou guardando a arma.
Seja o que Shoran quisesse não podia conter o ódio. Tinha falhado em sua primeira tentativa. Mas não iria falhar na próxima. Havia prometido a si mesmo e a seu falecido pai que agora repousava ao lado de Buda. Estar ali era realizar a ambição de Chao e não dele, mas não deixaria o nome do pai esquecido. Um dia quando a China se tornasse independente Chao Futei teria seu nome lavado e colocado num altar. O sujo naquela história toda foi a grande imperatriz que trairá os boxers com o maior disparate.
Ela e todos seus descendentes iriam sumir da China. Dando lugar ao grande senhor, o rei da igualdade e da paz. Não era por nada que estava arriscando a própria vida.
Olá Pessoal!!!!!!!!!!!!!^^Hoje o capítulo ficou parado novamente. Mas no próximo pretendo já matar Yukito. Acho que ele iria sobrar nessa nova parte da trama, e isso não será bom.
Bem, hoje eu quero falar sobre música. Alguém tem o CD "Room on Fire"do The Strockes? Eu tenho... Nossa esse CD é muito bom. Eu escrevi esse capítulo escutando a faixa 12:51 e Between love & Hate. Nossa é muito legal. Eu amo The Strockes, tenho pena de quem não gosta.
Um abraço a todos que me enviaram reviews.
Lan Ayath, RubyMoon, Anaisa, Bruna, Warina Kinomoto, Carol, Myazawa Yukino-Erika, Rafa Himura, Bella-Chan, Fab Lang ( Fab, amiguinha vou te enviar um e-mail para acertamos o pontos da fic. To ansiosa pela a minha participação na sua maravilhosa fic :), Nina ( Fofa, eu irei postar sua carta essa semana. Felizmente consegui um tempo. Só estou com duvida sobre seu endereço. Me enviar um e-mail) e a Jenny-Ci!!!!!! Beijo a todas vocês.
Bem, quero agradecer a Li e a Carol. Se não fosse às duas (minhas queridas amigas) esse capítulo não iria existi.
Enviar-me seus comentários. Eu adoraria recebê-los.
Bjs!!!
Anna
