Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudade de mim".
Mário de Sá-CarneiroXXVII Capítulo
A cada segundo que passava Shoran tinha certeza de que Hanako não se encontrava na fazenda. Supervisionara cada pedaço daquelas terras e nada encontrara... Nem mesmo um registro sobre a menina. Temia muito que aquilo viesse à carreta um problema em sua relação diplomática, mas o que mais o deixava nervoso era o fato de saber que Sakura estava desesperada no quarto a cima. Só lhe restava uma alternativa. Tinha que confiar em seu empregado mais novo...
A sua vontade era de querer ir procurar pessoalmente a garota, mas seria burrice. Além do mais a garota não era nada sua e seria estranho que ele ficasse tão aflito. Tinha que reprimir seus próprios sentimentos antes que perdesse o controle sobre seus atos...
- O senhor me chamou?- A voz masculina soou no ambiente frio.
Tao Jung, era uma espécie de faz tudo em sua fazenda. Por justificativas estranhas ele fora recomendado para trabalhar em uma de suas fazendas, mas ao se destacar por usar inúmeras habilidades, se vira obrigado a aceitá-lo em sua residência. Não tinha nada que o visse duvidar da moral do empregado, mas simplesmente não podia confiar em uma pessoa que mal conhecia. Mas naquele momento conhecê-lo já não fazia tanta importância...
- Sim.- Falou tranqüilamente.- Entre e sente, senhor Jung.
Shoran viu o jovem sentar-se determinado na cadeira a sua frente. Ele tinha características físicas conhecidas... Sempre tivera um pressentimento ruim a respeito dele, e por isso sempre se manterá à distância. Mas agora tinha uma missão para ele...Talvez aquela fosse a oportunidade para mudar seu conceito sobre aquele jovem.
- O que deseja senhor?- Tao perguntou sorrindo cinicamente.
Aquele sorriso lhe lembrava alguém, mas quem? Era paranóia sua imaginar bobagem, mas aquele moleque tinha as mesmas feições de Chao. Aquele era um pensamentoabsurdo levando em conta de que não seria muito difícil que seu primo tivesse tido outros filhos e não apenas Chang. Não tinha que duvidar sobre a honra de Chao, pois já tinha problemas demais para resolver por um dia...
- Bem, Tao tenho uma missão para lhe dar.- Disse acendendo um cigarro.- Sei que não é sua obrigação moral, mas preciso muito que procure uma pessoa para mim. E isso não pode ser daqui um dia ou uma semana...- Pausadamente retornou a falar depois de um segundo em silêncio.- Quero pistas conclusivas e urgentes sobre uma garota... E tem que ser para este momento!
Tao apenas olhava para a expressão fria e inquisitiva que Shoran dava a ordem. Queria mostrar para aquele senhor de que não era um mero empregado braçal, e que se estava ali era para cumprir uma missão, cuja ideologia estava presente. Não era igual a ele que abandonara a revolta de 1900 sem mais nem menos, decretando assim a morte de seu pai. Naquele momento sabia que sua obrigação era com ele, e que tinha que cumprir ordens, mas a sua vontade era outra...
- Desculpe senhor... Mas seja mais claro.
Não gostava nada de ter que depender daquele garoto, mas tinha que achar aquela garota de qualquer forma. Não queria nem pensar no que ela poderia estar passando agora... Devia estar perdida e sozinha naquela selva de predadores forais. Tinha que achar a filha de Sakura, pois não agüentaria vê-la sofrendo mais uma vez...
"Por favor, Shoran... Encontre-a", lembrou-se da suplica desesperada de Sakura. Não tinha o que falar para ela a não ser que sua filha havia sumido. Tinha uma esperança. E essa esperança estava a sua frente. Não precisva ser muito inteligente para saber de cor e salteado o passado daquele menino. Naquele momento Tao Jung era sua única eperança.
- A filha do embaixador Tsukihiro Yukito, a senhorita HanakoTsukihiro desapareceu misteriosamente da minha casa hoje.
- C-como assim senhor?- Tao perguntou empalidecendo.
- Não sei... Eu estava conversando com Sak... Quero dizer com a senhora Tsukihiro quando a ama dela veio desesperada nos informar.- Contou sem muita convicção.- Não quero entrar em contato com a polícia no momento, pois nem o senhor Tsukihiro foi informado sobre esse acontecimento.- Fazendo uma pausa significativa.- Em suma, acho que ela está por perto e preciso muito que descubra onde ela está.
"Então era isso!"- Pensou satisfeito. A querida filha daquele maluco havia sumido... Devia não procurar se negar a isso, mas até que seria interessante se aproximar mais de sua vitíma. Saber todos os detalhes de sua rotina.
- Sei, também acho que ela não foi longe.- Disse penasativo reprimindo um sorriso.- Bem, senhor acho que posso de ajudar... Mas é claro que quero uma recompensa...
Nunca se enganava com as pessoas. A única pessoa que havia julgado mal era hoje a pessoa que mais amava e a única que nunca poderia ter no mundo. Talvez devesse dar mais liberdade para esse lado de sua mente...
- Você terá uma bela recompensa. Quanto a isso fique tranqüilo.- Falou sorrindo zombeiteiramente.- Então posso contar com você, Tao Jung?
Ás vezes acreditava que realmente existia Deus. Tudo parecia estar ajudando ele em seu plano. Iria encontrar a filha desaparecida de Yukito e com isso ganharia sua confiança e depois a mataria. Colocando assim um ponto final naquela história ridícula.
- Claro senhor...
Shoran preferiu ignorar a expressão cínica que se formava no rosto do jovem. Naquele momento só podia recorrer a Tao... Se ele tivesse segundas intenções com aquele caso não era de sua competência julgar agora. Por mais que fosse frustrante, pouco tinha há fazer, senão confiar nele...
Sakura não escondia sua impaciência. Por mais que quisesse ficar calma não conseguia... Não sentia a presença de sua filha, mas também já não sentia uma grande dor no peito. Sua filha estava bem em alguma parte daquela estranha cidade. Mas a simples constatação desse fato não servia para deixá-la calma, e sim mais nervosa...
- Não adianta se martirizar agora Sakura.- Mai falou enxugando às lágrimas que escorriam por sua face.- Hanako... Deve está bem...
Seus pensamentos estavam tão ou mais confusos do que antes. A cada minuto que passava tinha mais certeza de que Hananko não estava ali... E que ela havia visto uma cena desagradável entre a mãe e dono da casa. Não era possível que ela estivesse perdida. Hanako sempre fora uma menina esperta demais para tal atitude. - Como não me culpar Mai? Por Deus, minha filha sumiu! - Tenha calma... Talvez Shoran já tenha a encontrado.- Falou Mai sem certeza do que falava. - Não tenho certeza disso, Mai.- Revelou.- Não há motivos para uma garota calma e tímida como Hanako sumir assim... Realmente tudo que estava acontecendo era uma novidade. Hanako sempre fora uma garota calma e avessa a novidades. Não tinha motivo especifico para aquele sumiço.- Não podemos fazer nada Sakura... A não ser esperar.- A babá falou com a cabeça baixa.- O que temo neste momento é seu marido... O que Yukito irá pensar dessa história toda...
Naquele momento pouco importava com a opinião de Yukito. Ele nunca demonstrara afeto nenhum por Hanako... Sempre a renegara. Não seria agora que ele iria ficar preocupado com sua filha. Na certa iria comemorar. Cada minuto que passava mais se arrependia por ter sido tão fraca... Tudo talvez teria sido diferente. Amarra sua vida a um homem que odiava sua filha. Tentara fugir, mas agora era a tarde demais...
- Não sei qual será a reação dele.- Falou pensativa.- E realmente não importa mais o que ele pensa ou deixar de pensar. A única coisa que me preocupa é minha filha e nada mais!
- Você perdeu o juízo Sakura.- Mai replicou nervosa.- Você não mede o enorme erro que cometeu... E se Hanako presenciou o que acabei de ver?
Não, era impossível que Hanako tivesse escutado ou visto algo entre ela e Shoran. A porta estava fechada. Mas se isso tivesse acontecido nunca mais teria coragem de encarar a filha frente a frente. Escondendo o rosto entre as mãos, Sakura percebeu que já não tinha lágrimas para derramar.- Não... Não posso negar o que sinto Mai.- Revelou exasperada.- Mandei Shoran ir embora. Fiz de tudo até o impossível para não trair meu marido, mas não consegui... Fui fraca... Mas só Deus sabe o quanto amo e preciso de Hanako. E ele não seria tão vingativo comigo a esse ponto.
Mai não tinha tanta certeza daquilo. Gostava muito de Sakura e Hanako, o suficiente para protegê-las, mas não poderia compactua com uma traição. Tremia só de pensar no estrago que seria se no lugar dela Yukito presenciasse aquele idílio amoroso...
- Eu sabia desde do início que tudo isso iria acabar mal.- Sussurrou Mai.- E o pior é que ainda nem começou... Sakura, por favor, se afaste de Shoran. Isso será para o seu próprio bem.
Não sabia se seria capaz de seguir aos conselhos de Mai. Sua paixão por Shoran era tão grande que cegava seu coração e anulava seus sentidos. Sabia o quanto isso poderia ser fatal para ela, mas não se importava. A única coisa que a perseguia era a consciência.
- Lutarei contra ele Mai, mas acho que não serei capaz...- Pausadamente completou.- De lutar contra o que sinto.
O silêncio pesado caiu o no quarto. Ambas lutavam com os próprios demônios... Lutavam contra a vontade de sair e correr atrás de Hanako, pois a cada segundo que passava ficava mais evidente de que Shoran não encontrara a garota. Tudo era suposição, mas Sakura tinha certeza de que jamais iria ser perdoar se algo tivesse acontecido com Hanako.
Não viveria com a culpa de não ter sido uma mãe exemplar que queria ter sido. Quisera dar uma família a sua filha, mas seu plano dera errado. Enlouqueceria se não descobrisse onde sua filhinha se encontrava. Naquele instante sentiu uma força interior crescer em seu peito. Naquele instante sabia que tudo daria certo, pois nunca desistiria de lutar pelo bem estar de Hanako. Naquele instante teve a certeza de que a filha voltaria para seus braços.
Chang observava o rosto delicado de Hanako repousar sobre o travesseiro. A noite estava esfriando, mas nem por isso a lua poderosa se escondia. Ela brilhava como nunca brilhara antes. Era uma pena que Hananko não estivesse acordada para ver o resplendor da grande mãe. Mas ela não estava nada bem... Resmungava palavras desconexas e ainda estava pálida... Embora ela insistisse em dizer que estava bem. Queria de todas as formas procurar por Tao. No fundo a menina não estava bem. Por mais que ela tentasse lhe dizer que estava tudo bem podia ver e sentir que ela estava com febre e acabava de sair de um colapso nervoso.
Estava preocupado com o bem estar da garota. Afinal ele se sentia um pouco culpado. Mas não era isso o que mais o incomodava. E sim o fato de querer protegê-la... Queria muito poder abraçá-la e dizer de que nada aconteceria com ela. Mas mal a conhecia e não tinha direito nenhum em consolá-la.
Tinha ânsia em saber mais sobre aquela garota, o deixava intrigado. Sabia que várias jovens japonesas vinham para a China a fim de se transformar em prostitutas, pois várias casas de diversões aceitavam gueixas a fim de satisfazer os desejos de marinheiros estrangeiros. Mas aquela garota não tinha cara de ser esse tipo de mulher. Sabia, porém, que uma gueixa era educada e nem sempre se deitava com o cliente, mas mesmo assim ela não lhe parecia ser uma concubina. Ela era pura e todos os seus gestos coincidiam com os seus pensamentos.
- Por favor, Chang pegue um copo de água.- A voz rouca dela chamou sua atenção, tirando ele de seus devaneios.
Ela olhava para ele com uma incrível doçura. Uma expressão tão pura quando a lua... Não era justo ter que sacrificar aquela garota. Tinha que chamar um médico antes que ela ficasse pior do que já estava.
Indo até a pequena mesa de mármore do século XV, Chang pegou a jarra e virou o líquido frio no copo de cerâmica. Sabia muito bem que ela negaria receber um médico, mas não podia ficar ali vendo ela piorar aos poucos. Era como se estivesse presenciando um assassinato.
Sem falar uma palavra sequer, Chang apenas estendeu o copo da água. Precisava escolher as palavras certas para convencê-la a procurar um médico. Mal a conhecia, mas tinha certeza de que era teimosa...
- Obrigada Chang.- Ela silabou as palavras cansadas.
As mãos trêmulas da garota seguravam o copo como se ali estivesse a sua salvação, ou melhor, sua cura. Ela estava fraca e precisava de médico. Admitia isso, mas não queria causar algum problema para aquele jovem. Ficara algum minuto apenas observando o perfil da jovem. Ele era bonito... Tinha os olhos castanhos e era alto. Tinha o corpo forte e os lábios carnudos. Tinha vontade de beijá-lo. Naquele momento ela tinha certeza de que estava passando mal. Não era de seu costume ter pensamentos obscenos com um homem sem ao menos saber quem ele era. Não, não... Era burrice de sua parte sentir algo por uma pessoa que conhecia apenas algumas horas...
- Hanako acho melhor chamar um médico.- Ele falou sério interrompendo os pensamentos perturbadores dela.
- Eu já disse que estou bem Chang.- Falou abaixando a cabeça.- Não preciso de médico...
- Sim, você precisa senhorita.- Disse retirando o copo da mão dela.- Não quero ser responsável pela sua morte também.- Concluiu secamente.
Hanako sentiu o coração bater acelerado. Tinha que impedi-lo de chamar alguém... Um médico sempre tinha influência e com certeza poderia fornecer pistas sobre o seu paradeiro. Se ele fizesse a chamar alguém, não teria alternativa a não ser fugir. Conhecia bastante seu... seu... Yukito para saber que ele faria estrago na vida de Chang. Não suportaria ter que ficar quieta quando uma pessoa tão boa sofria. Além do mais não queria voltar a conviver com sua suposta família. Não queria ter que ficar frente a frente a sua mãe... A única coisa que queria era paz para poder pensar com calma sobre o que aconteceria com seu futuro daqui a diante.
- Por favor, por favor, Chang não chame nenhum médico.- Pediu desesperada derrubando algumas lágrimas.- Não preciso de médico... Não quero que ninguém saiba onde estou. Por favor,...
Chang não se comovia com aquele ataque de Hanako. Não estava preocupado com que pensaria deles, mas sim com o que aconteceria a ela se caso continuasse com aquela febre. Importava-se com aquela garota. Sabia que ela escondia algo, mas nem por isso perguntava. Queria apenas o bem estar dela.
- Conheço um residente em medicina... Não chega a ser um médico, pois ainda está estudando... Mas garanto que ele será de grande utilidade.- Disse pegando as mãos dela.-Além do mais não tenho dinheiro para chamar um médico profissional.- Concluiu segurando com força a mão dela.- Eu prometo que ele manterá sigilo absoluto.
Hanako não sentia segura. Queria muito confiar nele, pois sabia que não estava bem. Mas a certeza de que chamar um médico seria perigoso a fazia querer colocar a própria vida em cheque.
- Não, não, não... Mil vezes não.- Ela falou agarrando os braços dele.- Eu não quero ter que voltar para aquela casa... Eu não quero voltar a ver meu pai...- Disse abaraçando ele.- Eu lhe peço Chang... Por favor, não chame ninguém. Por favor, não me abandone agora.
Estava sem ação. Sentia o corpo trêmulo dela agarrando o seu, a respiração ofegante dela... Podia sentir o contorno delicado do corpo dela. O perfume e até a pele quente que denunciava que ela estava nada bem. Era maluco por sentir aquele desejo enorme em beijá-la... Era uma desconhecida que tinha medo de algo desconhecido e que nem ao menos confiava nele.
- Não posso compactuar com isso garota.- Disse friamente. Sua vontade era outra, mas não podia agir por impulso.- Hanako olha para mim...- Disse segurando ela pelos braços praticamente obrigando-a a olhar para seus olhos.- Não sei o que aconteceu com você... Não sou hipócrita para dizer que não tenho curiosidade sobre o que aconteceu com você, mas não posso obrigá-la a contar um segredo tão íntimo. Mas espero contar com a sua honestidade e confiança, pois se não for assim não sei se poderei te ajudar...
Hanako mal contia o soluço que insistia em sair. Queria muito dizer que confiava nele, mas ela ainda era um estranho que tentava de todas as formas ajudá-la. E tinha coisas que era preferível não falar. Ela era uma bastarda... Filha de um caso sem importância entre sua mãe e outro homem. Um estranho que preferia nem mesmo saber o nome. De que lhe adiantaria saber quem era o pai verdadeiro se nem ao menos sabia onde poderia encontrá-lo. Não queria ser hipócrita, ou muito menos desonesta com ele, mas naquele momento não poderia aceitar a ajuda de ninguém... a não ser de Deus.
- Por favor, Chang... não faça isso.- Sussurrou voltando a abraçá-lo.- Não me deixe agora... Fique comigo... Apenas me abrace e me diga que tudo isso vai acabar...
Não tendo controle sobre os próprios impulsos, Chang se viu abraçando o corpo semi amortecido da jovem. Era estranho estar ali em menos de duas horas de convivência... Era estranho estar tão íntimo de alguém sem saber nada dela. Porque não podia afastá-la e sair à procura de Tao? Se mostrar forte e salvar a vida daquela jovem. Porque não podia lutar contra aquilo que sentia? Por que estava tão confuso?
- Hanako isso não é certo... Por favor, garota, não vê que está mal e que precisa de um médico?- Disse abraçando-a com mais força do que o necessário.- Não acarrete mais problemas para mim...
Era justo isso, não queria e lutava para não acontecer. Não queria que ele viesse a sofrer... Sua família era poderosa, e certamente interpretaria aquele encontro inocente de forma completamente diferente. Não queria que nada acontecesse com ele... Não queria que ninguém soubesse onde estava. E ali era seu refúgio... Se... Se tivesse que morrer não seria ele que iria impedir...
- Por favor, não me abandone agora...- Repetiu se aconchegando melhor nos braços dele.-Fique comigo por mais alguns segundos, minutos ou horas...
Como iria resistir àquele toque, àquelas palavras de suplica. Era uma garota sozinha e triste. Algo havia acontecido que havia tirado a habilidade dela de sorrir ou confiar. Naquele momento ela precisava dele e de mais ninguém... Talvez devesse estar correndo atrás de Tao, mas não podia abandoná-la... Não agora, talvez mais tarde...
- Hora, hora, hoje temos a visita do ilustre embaixador Yukito Tsukihiro.- A voz enfadonha da mulher mais bonita que havia conhecido em sua vida soou em suas costas.-O que deve a sua visita em nosso humilde, porém, digno prostíbulo?
Nada havia mudado ali depois de quase vinte anos. Era engraçado o quanto o tempo podia parar naquela situação. Esteve ali pela a primeira vez com um almirante inglês que insistira em apresentá-lo ao centro mais famosos de "diversões" de Pequim. Não tinha motivo algum para ter voltado a aquele lugar que tanto lhe deu prazer no passado. Agira estimulado apenas pela curiosidade de saber se tudo continuava no mesmo lugar que havia deixado no passado. E para sua surpresa nada havia realmente mudado...
- Garanto que senti saudade de sua humilde casa, madame Beatrize.- Falou charmoso.
- Bem, meu antigo freguês merece receber honras da casa.- Falou puxando a estola de pele de carneiro pelos ombros.
Era o mesmo ambiente luxuoso e terrivelmente vermelho do passado. Tudo era arcaico e antigo... Parecia que o progresso não havia chegado àquela parte da cidade. Era tudo baseado nos velhos prostíbulos franceses da época napoleônica. As mulheres vestiam poucas roupas atraindo os olhares cobiçosos de vários estrangeiros e chineses que ali estavam.
- Nada mudou por aqui...- Sussurrou para a mulher.
- Nada mudou na China, senhor.- Ela falou sorrindo.- Tudo continua a mesma coisa... Os pobres mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. Mas isso não é da minha competência julgar, pois isso me ajuda e muito.
Na guerra o na paz a vida fácil que aquela mulher levava ganhava dinheiro em qualquer época do ano. Não era uma pessoa de falsos valores morais... Mas não podia ser fiel a uma boneca que negava a ele a direito de sentir prazer. Se estava ali era por culpa de Sakura e ninguém mais. Era culpa de sua mulher tudo o que havia ele se transformado.
- Aquela revolta idiota apenas serviu para afundar mais a China.- Comentou cinicamente.-Não vejo motivo para uma francesa ainda estar no meio de tamanha sujeira.
- Bem ou mal senhor Tsukihiro aqui na China vivo melhor do que estaria vivendo em Paris.- Revelou com um ar melancólico.- Aqui tenho meu próprio negócio, enquanto se estivesse em Paris seria uma miserável prostituta de rua... E isso querido, é uma humilhação.
- Não duvido disso, madame.- Falou sorrindo.
Olhando para os lados viu um grupo de mulheres que lançavam olhares sedutores para ele. Mas nenhuma delas atiçou seu desejo... Eram vulgares e sem classe... Nenhum chegava ao nível de sua intocável esposa. Mas em um canto escuro uma jovem se escondia... Ela vestia uma camisola preta. Mas o que mais chamou sua atenção era o fato dela ter os olhos verdes iguais a Sakura.
- Quem é aquela, madame Beatriz?- Perguntou rapidamente.
- Uma jovem inglesa... Mas não recomendo que se deite com ela, pois como vou dizer... Ainda é arredia a contatos humanos.- Disse colocando as mãos delicadas sobre seu peito.
- Não... Quero aquela.- Disse decidido.
- Tem certeza?
Nenhuma mulher era indomável. Aliás, tinha uma que nunca possuirá e talvez jamais a teria. E o mais frustrante era o fato dela ser dele por direito. Queria domar aquela jovem inglesa... Mostrar a ela tudo o que havia escondido de Sakura.
- Nunca tive tanta certeza em minha vida.- Falou decidido.
- Bem, depois não venha reclamar e querer o dinheiro de volta.- A mulher falou indo à direção da jovem.
Em minutos a garota já olhava para ele com os mesmo olhos desafiadores de Sakura. Naquela instante ele teve certeza de que finalmente iria se livrar da obsessão que Sakura havia tornado em sua vida...
Shoran subia as escadas hesitantes. Não estava certo se devia agir como queria... Talvez fosse melhor se trancar em seu quarto e só procurar Sakura no dia seguinte. Não queria ver o desespero nos olhos dela. Podia sentir a angústia dela. Não sabia o que era ter um filho desaparecido, mas sabia muito bem o quanto uma mãe podia vim a sofrer sem notícias do próprio rebento. Mas ao mesmo tempo não poderia deixá-la sozinha sem notícias... Seria um gesto horrível da sua parte se trancar num quarto e deixar uma mãe desesperada. Sakura não merecia isso.
- Vai a socorro de sua princesa, meu primo?- A voz sarcástica de Meiling soou em suas costas.
Era só o que faltava. Mais uma vez Meiling se punha em seu caminho com um ar superior que não devia ter. E o pior é que nem tomar uma atitude poderia tomar...
- Não sei do que está falando Meiling.- Rebateu em tom falso.
- Não seja dissimulado meu primo.- Rebateu a mulher sorrindo forçado.- Sei de que está se corroendo por dentro ao ver sua eterna amada casada com outro...
- Por favor, Meiling não tente criar uma história que só existe em sua cabeça.- Falou tranqüilo.- Sakura é uma senhora e está casada... Nada posso ter com ela a não ser uma bela amizade.
- Shoran não tente me enganar... Só eu sei o que aconteceu entre você dois... Sei que ainda a ama, e por isso que estava indo para o quarto dela.- Revelou maldosa.- Só para ter informações. O galante marido de sua amada saiu bem arrumado há poucas horas. Bem, não é da minha classe julgar alguém, mas acho que ele foi para um centro de diversões, aonde vocês homens costumam freqüentar quando a digna esposa já não satisfaz mais suas necessidades.- Concluiu com um tom agressivo.
Shoran sentiu a face arder. Sua vontade era de ensinar aquela mulher a ter mais respeito pelo o próximo e principalmente com Sakura. Se o bastardo do marido de Sakura não prestava, isso não era culpa dela e sim da insegurança que fazia o embaixador a ter uma atitude tão imoral. Não podia de deixar de sentir pena de um homem assim, pois se estivesse no lugar dele, essa hora estaria ao lado de Sakura consolando-a.
- Não é da minha competência ficar sabendo todos os passos do senhor Tsukihiro, Meiling.-Recuperando a calma sentenciou.- E acho que uma senhora em sua posição deveria estar dormindo há essa hora... Então se me der licença preciso me retirar.
Meiling sentiu os olhos faiscarem de ódio. Tinha um grande desejo de pular no pescoço de Shoran. Não era justo que aquela mulherzinha levasse a melhor depois de dezessete anos de silêncio. Não podia deixar que ela se aproximasse de seu homem. Não era justo... Tinha que agir.
- Muito cuidado Shoran.- Falou nervosa.- Afinal de contas ela é casada... Imagina o escândalo que seria para nossa família se caso seu caso com ela for descoberto.- Percebeu que seu veneno estava surtindo efeito continuou.- Seria como jogar o nosso límpido nome na lama mais uma vez.
Os pesos das palavras de Meiling caíram sobre sua consciência com a potência de um tiro de canhão. Ela estava certa... Não devia ter nada com Sakura. Senão tudo o que havia lutado para conseguir cairia por terra. Infelizmente viviam em sociedade quadrada e que condenava a liberdade, pois a liberdade os assustavam. Não queria que Sakura sofresse as conseqüências de mais um ato impensado. Seria como repetir o mesmo erro pela segunda vez depois de anos.
Estava decidido que teria que vê-la naquele momento. Mas a visita, porém, não passaria de poucos segundos. Não queria cair novamente na tentação que era aquele corpo. Não queria ver ele novamente hipnotizado pelos olhos verdes dela. Tinha que ser forte... Para o bem de ambos.
Olá pessoal!
Bem, esse capítulo foi de transição. No próximo pretendo colocar mais ação... Cansei de ficar estagnada, pretendo ler mais sobre a história e alguns fatos daquela época. Vai ser difícil, mas não impossível.
Aguardem o próximo capítulo.
