Que volve para mim,
Então ergue-me súbito...
É minha aurora linda...
Meu anjo... mais ainda...
É minha amante enfim!
Castro Alves
28Capítulo.
Ela dormia como um anjo. O cabelo castanho claros adormecia sobre o rosto pálido e cansado de tanto chorar. Estava ainda vestida com a mesma roupa o que dava a ele a certeza de que ela acabara caindo no sono sem ao menos perceber. Por alguns instantes tinha imaginado que ela ainda estaria acordada a espera dele, ou que ao menos estivesse na companhia de Mai. Mas ela não estava... Estava sozinha para o seu desespero e angústia. Não confiava em si mesmo quando estava sozinho com ela.
Durante anos tivera um sonho parecido com aquela realidade. Tivera a ilusão de tê-la em sua casa e em sua cama. Nunca poderia imaginar que depois de todo aquele tempo ela estivesse ali... Tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Sabia que um simples gesto seu poderia trazê-la para os seus braços, mas não queria pagar o preço daquela loucura momentânea. Não era a hora certa para ambos... Talvez o tempo já tenha passado.
Aproximando-se dela sentou na borda da cama de casal. Sabia que devia manter-se a mais ou menos dois ou três quilômetros de distância dela... Ficar assim tão perto de Sakura era como suicídio para sua boa vontade de permanecer fiel a seus princípios.
Ainda se lembrava com detalhes do último momento que havia passado com ela a dezessete anos atrás. Quando a saudade apertava e não conseguia mais segurar a tristeza que invadia seu ser, Shoran corria para casa da irmã a fim de matar a saudade dos últimos momentos ali vividos entre ele e Sakura.
"Eu te amo, Shoran... Não sei como pude ser tão otária a ponto de sentir isso..."
Ela havia falado aquela frase depois que ele otariamente havia repelido. Ela nunca havia sido otária em amá-lo... ele é que havia sido burro o suficiente para não reconhecer a tempo aquele amor.
-Você não sabe o quanto me faz mal saber o que passou por minha causa.-sussurrou ele aproximando-se mais do corpo adormecido de Sakura.-Só de imaginar o quanto você sofreu pela a morte trágica de Touya... só de imaginar o quanto lhe fiz mal, já me dá uma vontade louca de me matar...-passando a mão no rosto dela continuou.-Eu não mereço o seu amor, Sakura.
"Que não me ama, e que fui apenas uma mulher à toa que se deitou por uma noite? Isso eu já compreendo. Mas tem uma coisa que não vai mudar nunca... E é esse sentimento que você com seu sarcasmo não vão apagar..."
Ela nunca seria seu passado. A alma dela embora distante e mais sofrida sempre estaria ao lado dele. Nunca seriam estranhos e o passado nunca os deixariam em paz... Seria difícil estar ao lado dela sem poder tocá-la. Não era um artista, e por isso não sabia como agir de agora em diante.
-Como eu te amo, Sakura.-sussurrou beijando-a no rosto.
Sakura se mexeu na cama. Ela aparentava que estava tendo um pesadelo...A expressão contraída denunciava a angústia que se passava em sua alma. Queria poder confortá-la, mas se desse mais um passo a diante não saberia qual seria sua reação. Poderia perder o controle de vez...
"Seria como jogar o nosso límpido nome na lama mais uma vez."
Seu orgulho jamais permitiria isso novamente. Sim, havia batalhado muito para que o sobrenome de sua família ficasse imaculado. Havia passado por cima do passado e mentindo se fosse necessário para não ver sua família desmoralizada perante a sociedade. Conquistara tudo o que seu pai havia perdido, pensando que assim poderia preencher sua vida vazia. Mas nada mais daquilo lhe tinha valor... O nome de sua família não preenchia sua cama quando estava solitário. Não enchia sua casa de alegria quando ele não tinha ninguém para conversar. Havia perdido muito tempo tentando fazer o certo. Havia cegado sua alma para o monstro que Meiling se transformara... Um monstro cheio de orgulho e vaidade.
-Por favor, salve Hanako, Shoran...-a voz rouca de Sakura soou tirando Shoran de seus devaneios.
Shoran percebeu que Sakura não tardaria a acordar. Para seu desespero percebeu que mais uma vez teria que deixá-la sem nenhuma notícia boa. O paradeiro de sua filha era uma incógnita. Temia pela a vida daquela jovem... Sabia o quanto àquela cidade poderia se transformar em pesadelo para pessoas mal informadas. Por isso tinha o dever de acreditar em Tao... Ele e mais ninguém poderia ajudá-lo naquele momento.
-Traga a nossa... Traga Hanako de volta.-Ela sussurrou novamente só que desta vez o desespero dera lugar ao pranto.-Ela é nossa... Por favor, Shoran, não me abandone agora...
Seu coração parecia que iria explodir a qualquer momento de tanta tristeza e angústia. Nunca fora otimista, mas daquela vez tinha que ser... Só o fato de ela estar sonhando com ele já era reconfortante. Dava a ele a vontade de lutar mais e mais contra tudo. Já estava na hora de acordá-la e contar toda a verdade sobre o que estava ocorrendo.
-Anjo acorde...-sussurrou segurando uma das mãos dela.-Precisamos muito conversar.
Ela se mexeu um pouco até abrir os olhos verdes. Shoran sentiu uma emoção forte tomar conta dele... Eram os mesmos olhos verdes lacrimejantes de anos atrás... Os mesmos olhos verdes que tanto queria conquistar... os olhos pelo os quais perseguira durante anos. Era o mesmo rosto delicado... O tempo fora de uma certa forma bom para ela. Tinha poucas marcas de expressão.
Não resistindo a vontade de tocá-la, Shoran se levantou da cama. Não queria que ela pensasse mal de sua pessoa. Não era bem visto uma mulher casada deitada na cama com outro homem. Ninguém levaria em consideração que era ele o errado e não ela. A mulher naquela situação sempre seria a culpada e pagaria pelo o erro do homem. E era por isso que deveria se controlar. Não queria destruir pela a segunda vez a vida de Sakura.
-Shoran... o que..o que está fazendo aqui?-ela perguntou assustada.
Podia ver as curvas tentadoras dos seios dela. Era linda mesmo estando com quase quarenta anos. Sakura poderia fazer qualquer garoto de vinte anos perder a cabeça. Ele próprio que era conhecido por nunca perder o auto-controle estava vendo sua boas intenções escorrerem pelos dedos.
-Bem, peço desculpas por entrar assim no seu quarto Sakura, mas o que tenho para lhe informar não poderia esperar.-disse dando as costas para ela. Não queria que ela percebesse seu estado de descontrole quando estava com ela.
Sakura sentiu o corpo tenciona ao ouvir as palavras duras, porém objetivas de Shoran. Havia acordado e visto o rosto dele...Era como se estivesse vendo um arco íris depois de uma tempestade de granizo. Ele era perfeito e olhava com ternura para ela... mas aquele instante de conforto estava prestes a virar um verdadeiro espetáculo de tristeza e incerteza. Não, não agüentaria escutar a verdade dos lábios dele. Hanako tinha que estar bem... se não morreria também.
-Aconteceu algo com Hanako?-perguntou temerosa.-Onde está minha filha...Shoran?
Shoran não a olhava nos olhos o que a deixava extremamente nervosa. A notícia que ele tinha para contar não era muito boa. E só em pensar que algo de grave tivesse ocorrido com sua filha seus nervos já ameaçavam a explodir. Tudo o que estava acontecendo era culpa dela... Dela e de sua fraqueza. Hanako poderia estar pensando mal dela àquela hora... Hanako poderia estar sozinha em uma rua escura correndo um grande risco.
-Tentei de todas as formas encontrá-la Sakura...Mas até agora não há notícias sobre o paradeiro de sua filha.-Shoran falou tentando de todas as formas se manter afastado dela.
Ele tremeu de angústia ao ouvir o soluço dela. Sakura estava desesperada e com razão... Ela não tinha ninguém para apoiá-la naquele momento. O trouxa do marido devia estar em algum prostíbulo qualquer gastando o seu tempo e dinheiro com alguma prostituta, enquanto a filha estava perdida. Às vezes não entendia algumas atitudes de alguns homens. Ele morrendo de inveja de um desgraçado, e o desgraçado se engraçando por alguma mulherzinha à toa.
Não devia nenhum tipo de consideração com um sujeitinho daquela laia. Mas devia a Sakura e por isso se manteria afastado quando na verdade queria abraçá-la com todas as suas forças.
-Meu Deus... não posso acreditar.-ela falou levando as mãos a cabeça.-Isso parece um pesadelo bizarro...
-Sei o que deve estar sofrendo, Sakura.-falou ele se aproximando um pouco.-Mas não irei desistir até encontrá-la.
Nunca havia se sentido tão só em toda sua vida. Sua filha em alguma parte daquela maldita cidade e ela ali sozinha. Já não tinha ninguém a não ser Hanako... Shoran era um estranho para ela. Um estranho do qual não podia fugir ou fingir que não conhecia, pois ele já fazia parte de seu ser. Como seria bom se pudesse dividir com ele toda a verdade. Afinal Hanako era filha dele... Era o sangue dele. Mas não podia... Ele na certa ficaria furioso, e não queria ser responsável pela a morte dele. Naquele momento ele era a única pessoa que lhe estendia a mão.
-Eu prefiro a morte Shoran, a ver minha filha machucada...
Ela estava tão frágil e desprotegida. Como queria poder abraçá-la e dizer que sempre estaria ao lado dela, mas não podia... Estava cansado de renegar o que sentia. Passara quase vinte anos mentindo para si mesmo. Já era um homem... já não podia renegar o que sentia. Mesmo sabendo que isso era um pecado mortal.
-Nada vai acontecer com Hanako, Sakura.-disse pela a primeira vez indo sentar ao lado dela.
-Como enfrentarei minha vida de agora em diante Shoran! Não sei onde minha única filha está... Não sei se ela está bem, ou se ela esta mal.-disse passando as mãos no ventre.-Ela durante anos foi à única coisa que me manteve viva... Eu sofri, quase morri para tê-la.-pausadamente colocou as mãos sobre o joelho.-Não sei o que será de mim se perdê-la...-disse voltando a chorar colocando a cabeça entre as mãos.-Deus me tirou tudo... Primeiro você Shoran... depois meu único irmão e em seguida impiedoso levou minha mãe... e agora me tira a única alegria da minha vida... Isso não é justo... Não é...
Shoran escutava o desabafo de Sakura com o coração apertado. Nunca a vira tão descrente da vida como agora. Queria poder falar que ela não estava sozinha, mas não... não podia. Droga estava farto de se enganar. Tinha o direito de tocá-la... Não podia deixá-la agora a mercê de tudo.
-Shhh... Sakura...-falou abraçando-a com carinho.-Nada nessa vida é justo Sakura... Mas pode ter certeza de que sempre estarei ao seu lado, pois eu te amo Sakura.-declarou ele fazendo ela erguer o rosto.-E enquanto estiver vivo nada deixarei que te aconteça... Lutarei até a morte se for preciso para trazer sua filha de volta.
Sakura sentiu os olhos de Shoran cair sobre seus lábios. Ele iria beijá-la... Não era certo, mas não podia recuar. Queria e precisava tanto daquele beijo como do ar que respirava. Queria ter a certeza de que ele iria protegê-la. Precisava da certeza de que sua filha voltaria. Precisava sentir que tudo ficaria bem. Queria se sentir segura e amada. E esses sentimentos apenas Shoran poderia lhe trazer. Ele era o único que poderia trazer a luz de volta a sua vida.
-Eu também te amo... mas...
-Shhh, meu anjo hoje não quero que o termo "mas" entre em nossa vida.-disse tocando os lábios dela com os dedos.-Quero sentir que de novo pertencemos um ao outro, pois necessito disso para viver.
Sem nenhuma frase romântica ou palavras de carinho, os lábios de Sakura e Shoran se encontraram em uma comunhão perfeita... Ambos se entregaram ao carinho como se fosse o último momento da vida de ambos. Sabia que tudo aquilo era errado, mas não podiam renegar o desejo de se unirem novamente. O amor mais uma vez fora mais forte do que tudo.
Chang acordou assustado. Havia tido um pesadelo horrível com Hanako... Ela caía num abismo profundo do qual não queria sair. Ela também falava palavras desconexas, como que não tinha família e que jamais perdoaria sua mãe por todo aquele sofrimento que estava passando. Ficara aliviado ao perceber a respiração calma ao seu lado.
Embora ela estivesse mais calma a febre não cedera. Tinha que procurar Tao antes que ela não agüentasse. Aproveitaria o tempo em que ela estava adormecida para sair e só voltaria com um médico.
Levantando-se da cama, Chang vestiu um casaco e logo em seguida caminhou até a porta. Não devia olhar para trás, pois sabia que não resistiria a vontade de ficar ao lado dela. Mas tinha um dever a cumprir. O desejo de olhar mais uma vez para o rosto dela foi tanto que voltou para o lado da cama.
-Você me desconcerta garota...-sussurrou ajoelhando ao lado da cama.-Deveria não estar preocupado com sua saúde, pois já tenho problemas demais com minha... mas não posso resistir...às vezes tenho que dar razão a Tao.
O rosto perfeito tinha o repouso que merecia. Temendo acordá-la, Chang afastou uma mexa solta que caia sobre sua face. Era um maluco por estar se envolvendo com uma garota cheia de mistério como aquela...Isso não tinha explicação. Talvez um dia tudo se explicasse, mas agora tinha que ajudá-la... Não se perdoaria se algo acontecesse àquele anjo.
Yukito olhava para o corpo nu da prostituta que repousava ao seu lado. Ela não era tão indomável como todos pensavam. Tinha que admitir que ela possuía uma língua ferina e uma inteligência vívida como poucas mulheres, mas não tinha nada mais que a diferenciava das outras mulheres. Era igual... não podia ver dinheiro que vendia a alma para o diabo se fosse preciso.
-Satisfeito?-perguntou a mulher sorrindo.
-E muito minha jovem.
-Sei que é prepotência da minha parte perguntar...-ela fez uma pausa significativa.-Mas quem é Sakura?
Yukito empalideceu. Durante todo ato permanecera quieto, as poucas vezes que falara fora o nome de Sakura, sua esposa e única obsessão. Não tinha que dar satisfação àquela mulher, mas se via no direito de responder aquela pergunta.
-Minha esposa...
-O senhor deve amá-la e muito.-Mary falou encantada.
Não gostava nada daquele falatório. Talvez a cortesã tinha razão quando falara sobre Mary. Ela tinha o corpo perfeito, as mãos de anjo. Mas nem por isso tinha o direito de abrir a boca. Amava Sakura sim, mas era um amor que se transformava em ódio a cada dia que passava. Talvez tivesse até tido uma segunda chance com ela se caso Hanako não tivesse nascido. Mas tudo dera errado.
-Acho que isso não é de seu interesse.-falou secamente.
A garota ficou pálida, e logo em seguida recuperou o senso de humor.
-Desculpa se fui indiscreta.-sussurrou subindo no corpo dele novamente.-Essa noite serei o que você quiser... meu senhor
Chang entrou na república em que Tao sempre se encontrava quando precisava dele. Lá talvez lhe informassem o paradeiro do amigo. Se não o encontrasse ficaria desesperado... Hanako precisava tanto ou mais de Tao do que dele. O amigo era a única pessoa que conhecia que tinha alguma instrução sobre o que fazer.
-Olá Chang.-a mulher saudou com um sorriso nos lábios.-O que faz a essa hora aqui?
Marta era uma moça de vinte anos de idade. Tinha descendência portuguesa e libanesa. Há pouco mais de um mês morava em Pequim...Havia vindo de Macau fugida da família, que insistia em casá-la e em seguida mandá-la de volta para a terra natal.
-Olá Marta...-saudou Chang ofegante.-Queria muito saber se Tao está aqui...
Sentia uma forte atração por Marta e isso nunca fora escondido de ninguém. Apenas não tomava mais liberdade pelo fato da diferença social que havia entre ambos. Ela era portuguesa e nem ao menos tinha seu sangue misturado com de um chinês. Não era preconceito, apenas não queria misturar seu sangue com de uma estranha. E jamais a usaria para satisfazer apenas um desejo carnal e nada mais. Tinha moral para não fazer isso a uma mulher.
-Olha Chang, não faço a mínima idéia de onde Tao possa estar. Há dias que ele mal aparece aqui.-disse ela sorrindo convidativamente.-Mas antes de sair ele me passou mais ou menos aonde procurá-lo em caso de urgência.-concluiu passando um pequeno papel amarelado para ele.
Chang olhou demoradamente para o pedaço de papel. Não era certo, já havia incomodado demais seu amigo. Mas Hanako dependia dele e Tao. Não fazia a mínima idéia onde ficava aquela casa... Mas procuraria até não restar mais lugar nenhum em Pequim.
-Obrigado Marta... isso já foi uma grande ajuda.-agradeceu dando as costas para a menina.
Ele sem dúvida era bastante cobiçado pelas mulheres da região. Ela não ficava atrás, Chang era um homem bonito e educado, além de muito rico. Era uma pena que o jovem nem ao menos olhasse para a cara dela. Embora não escondesse o desejo louco que sentia por ela.
-Espere...Chang.-a menina chamou constrangida.
Não queria dar falsas esperanças a jovem. Seu dever era dar as costas para a jovem e nunca mais olhar para a cara dela. Não podia e não queria se envolver com uma estrangeira agora, mas não podia se desfazer dela agora... Virando para a jovem viu que ela corria em sua direção.-O lugar em que Tao está é meio complicado de se achar, pois é uma favela. Eu conheço muito bem essa região, pois morei ali por muitas semanas.-pausadamente Marta falou.-Eu tenho certeza de que será mais rápido encontrar a residência dele se caso for com você...Mas é claro que...
Chang olhava atentamente para a garota. Sabia que era idiotice não aceitar a ajuda que ela oferecia, mas isso dava espaço para Marta entrar em sua vida. Não podia negar que sentia algo por ela, mas não era um sentimento tão profundo que valesse a pena se arriscar. Naquele momento pouco importava se ele estava ou não bem... Marta era a única que talvez saberia onde Tao estava. Iria perder tempo demais tentando encontrar o amigo.
-Eu aceitaria de bom grado sua ajuda Marta, mas temo está te atrapalhando...Sei o quanto é dificil para você abandonar essa pensão agora...
Para ela seria o céu sair com Chang, mesmo que não fosse um encontro romântico. Sempre sonhara com aquele momento. Lady Mari não iria se importar se ela saísse mais cedo naquele dia. Afinal trabalhara a semana inteira sem pedir um segundo sequer de folga. Ela merecia aquele tempo... Por Chang cometeria qualquer loucura.
-É claro que não terá problema algum Chang...Madame Mari te adora, quando explicar a situação a ela, certamente irá compreender.-falou saindo do balcão onde estava até então.
Não havia alternativa a não ser aceitar a ajuda de Marta. Hanako não gostaria de saber que mais de uma pessoa saberia de seu paradeiro, mas não carregava peso nenhum na consciência. Afinal estava se sacrificando pelo o bem estar dela.
-Espero que esteja certa do que está fazendo Marta. Não quero ser responsável pelo o seu desemprego.-disse cauteloso.
Ele sempre se preocupava com ela. Essa constatação a deixava em extremo estado de êxtase. Era mais um motivo para acompanhá-lo.
-Não se preocupe comigo Chang...Sei me cuidar muito bem.-disse ela sorrindo.
-Nunca duvidei disso Marta.-falou cinicamente.-Bem, agora é melhor irmos.
Não tinha tempo para ficar de conversa com aquela mulher. Tinha alguém que precisava nesse momento de ajuda médica. Da qual só Tao poderia oferecer. E para chegar até ele só por intermédio de Marta. Mas por algum motivo não confiava em si mesmo quando estava ao lado da morena sedutora.
Sakura olhava sonhadoramente para o corpo adormecido de Shoran. Sentia-se completa novamente...Ser amada por Shoran a fazia esquecer dos problemas que enfrentava. Fora um ato de loucura se entregar a ele novamente. Mas não se arrependia do que havia feito. Fora o melhor momento vivido em anos. Fora um sonho realizado...
Não estava feliz, pois uma parte dela estava perdida em algum canto escuro daquela cidade. Uma parte dela e de Shoran... Sua filhinha perdida, talvez passando por situações horríveis. Como queria correr atrás dela e abraçá-la, mas não podia. Seria um ato burro de sua parte...Talvez fosse aquele o momento certo para contar a verdade a Shoran. Ele mais do que ninguém merecia saber da verdade. Mas tinha medo... Era uma mulher, mas não assumia a verdade para si mesma. Quanto mais o tempo passasse pior seria.
Shoran resmungou virando de bruço na cama. Sakura não pode deixar de admirar o corpo bem feito de Shoran.Tinha os ombros fortes e não aparentava nenhum sinal de que passara dos quarenta anos. Ele era perfeito... fora bom estar com ele. E por isso devia ser sincera com ele, pois se não, não se sentiria bem.
-Como te amo, Shoran...- sussurrou repousando cabeça sobre os ombros dele.-Tenho que ser sincera contigo... se não vou morrer... Perder minha filha e a sua confiança em mim seria o inferno.
Não segurando as lágrimas que vertia sobre seu rosto, Sakura deu vazão a seus sentimentos. Tinha que contar toda a verdade para ele antes que Meiling ou outra pessoa se encarregasse de falar por ela. Iria enfrentar Shoran, mas seria sincera com ele. E depois Shoran não tinha nenhum direito de julgá-la... Ela havia feito o que achava melhor...
-Era questão de vida ou morte... Precisava de uma família...-sussurrou beijando as costas dele.-Era pelo o bem de nosso bebê.-concluiu fechando os olhos.-Só agora sei o quanto egoísta fui... pensei só em mim, mas irei reparar meu erro,meu amor. Só espero contar com o seu apoio.
Chang olhava para o casebre em que o amigo morava. Não podia acreditar que Tao havia trocado o conforto da pensão pela aquela casa de papelão. Não tinha explicação...
-É uma casa simples, mas posso afirmar que é bastante confortável.-Marta informou notando a cara preocupada de Chang.
-Espero que ele esteja em casa.-falou sem dar devida importância a observação de Marta.
-Tenho certeza de que aqui ele estará.-ela falou sorrindo batendo na porta.
Chang já não tinha tamanha certeza.A cada minuto que passava a certeza de que poderia estar sendo fatal para Hanako aumentava. Toda aquela espera o deixava angustiado.
-Viu, as luzes acenderam...-ela falou novamente sorrindo.
Apenas se limitou fazendo um movimento com a cabeça. Os minutos que procederam a abertura da porta foi de grande tensão para Chang. Se não fosse Tao estaria perdido. Voltaria para a casa e rezaria pela melhora de Hanako.
Mas a sorte estava ao seu lado.Tao com uma expressão de sono apareceu na porta. Não parecia nem um pouco surpreso por vê-lo ali.Talvez pelo o fato de Marta estar com ele.. Não sabia. E não seria agora que iria querer saber sobre o relacionamento dele com aquela mulher. Aquele era mais um motivo para ficar longe dela.
-Hora, Hora, hora... Nunca imaginei que você... meu querido amigo Chang Li descobriria o meu esconderijo.
