Suponha que um anjo de fogo

Varresse a face da terra

E os homens sacrificados

Pedissem perdão.

Não peça.

Segredo- Carlos Drummond de Andrade

Capítulo 34

A casa de Tai-Ling nada tinha de oriental. Sua segunda esposa era uma jovem turca que viera como missionária de uma igreja batista alemã a quase vinte e dois anos atrás. Presenciara de perto o amor proibido entre aqueles senhores. Ela era uma estrangeira cujo principal objetivo era catequizar o maior número de chineses possível e ele um rebelde que era proibido de se aproximar de qualquer estrangeiro a não ser para matá-lo. Além de tudo era casado e segundo as antigas tradições chinesas podia ter mais de uma mulher, mas isso não incluía ter uma família com uma estrangeira. Acompanhara o sofrimento do amigo como se fosse o dele, e se identificava com o seu sofrimento, pois tinha Sakura entre os braços, mas jamais poderia assumir seu amor por ela. Naquela época tudo era mais difícil... Hoje na era moderna que a China vivia casar com uma estrangeira era a coisa mais normal, embora ainda presenciasse o preconceito que aquelas pobres mulheres sofriam. Fora um idiota em deixar se cegar pela mentira que seu cérebro havia colocado em seu coração. Se houvesse lutado por Sakura agora teria uma família... Mas não, ele havia jogado seu grande amor nos braços de outro.

-Bem, essa é minha casa.-Tai falou orgulhoso.-Yulyan quis uma casa que se aproximasse de sua terra... E infelizmente meu amigo já não sou um homem tão forte como antes.-disse sorrindo.-Uma mulher minou minha coragem.

-Compreendo.-concordou sorrindo.-Realmente sua mulher é uma boa decoradora, com certeza se um chinês conservador entrar aqui terá uma bela surpresa.-conclui sentando no sofá coberto por seda vermelha.-Mas para mim meu amigo isso só me traz inveja do que você construiu ao lado da mulher amada.

Sim, tinha um pouco de inveja de Tai. Ele fizera de tudo para ter a mulher que gostava até mesmo ser deserdado e pedir a anulação de seu casamento... Tudo para ficar com a turca que fizera seu coração bate mais forte. Ele ao contrário mandara a mulher que mais amava para os braços de um idiota... Sua filha tinha o nome de outro homem e não o dele. Realmente soubera como transformar a própria vida num verdadeiro inferno. Mas tinha tempo para corrigir tudo... acharia Hanako de voltar e lutaria para ter Sakura eternamente entre os seus braços.

-Nunca mais você viu Sakura, não é Shoran?!-Tai falou sério.-Por que não vai atrás dela no Japão? Afinal você tem dinheiro o suficiente para achá-la até no final do mundo...

-Ai que se engana meu amigo...-rebateu Shoran levando as mãos até o cabelo.-Sakura está do meu lado agora... morando sob o meu teto.

-C-como assim, Shoran?-o homem perguntou surpreso.-Não compreendo...

Nem ele até agora entendia sua sorte que trouxe-a de volta para seus braços... Estava tendo uma segunda chance de ser feliz ou o ainda estava pagando pela morte de Touya anos atrás? Preferia ficar com a primeira suposição, pois nunca deixaria de pagar as penas do inferno por ter tirado a vida do jovem japonês.

-Sakura é casada com o embaixador japonês que veio negociar as entregas de terras que o Japão tirou de nossas posses há anos atrás.-informou acendendo um cigarro.

-Não acredito.-disse pensativo.-Deve ter sido horrível vê-la casada com outro... mas quem imaginaria que o destino ira pôr vocês frente a frente dessa forma...

-Eu nunca pude imaginar... Eu amo aquela mulher mais do que minha própria vida.-confessou ele nervoso.-Meu coração parou de bate naquela hora... Ela está tão bonita, mas agora está presa a um homem que não ama... Tendo uma filha comigo...

-Filha? Como assim Shoran... Sakura saiu da China grávida, e você é o pai da criança?

Shoran apenas fez um gesto afirmativo com a cabeça. Não querendo ver os olhos de piedade que Tai jogava sobre ele, Shoran deu as costas tremendo. Era a primeira vez que falava sobre seu drama pessoal com alguém a não ser Sakura e isso o deixar nervoso sem saber que passo dar agora que Tai sabia que havia sido um mal-caráter com a única mulher que amara na vida.

-Lamento muito por tudo, Shoran.-o velho sussurrou não escondendo o choque inicial.-E agora o que pretende fazer? Afinal essa menina é sua filha... sua única filha.

-Não sei, Tai.-Shoran falou com sinceridade.-A menina não sabe da verdade, e meu amor por Sakura continua a ser correspondido. Não, não sou capaz de desistir delas pela segunda vez... cometerei uma loucura para ficar com Hanako e Sakura.-disse passando as mãos trêmulas no cabelo.

-Aquela menina desaparecida é sua filha, então.-disse Tai pensativo.

-Sim, agora você já sabe o motivo para o meu desespero.

-Claro...

Lamentava pela tragédia pessoal na vida do amigo. Como queria que todos tivessem um final feliz como o dele com Yulyan... Ao mesmo tempo em que não podia ser cego e percebia muito bem o mal que Shoran havia causado para si mesmo. Durante anos, depois da partida de Sakura, o vira bêbado chorando por ela, mas nunca tivera coragem de procurá-la. Touya havia morrido e isso não era culpa dele. Ele apenas tivera a infelicidade de tirar a vida do irmão de sua amada. Mas já havia pagado caro demais pelo o seu erro... No fundo não sentia nenhum resquício de pena daquela pobre homem à sua frente.

-Ela é uma criança de dezessete anos perdida nessa cidade.-Shoran falou.-Ordenei para Tao Jung, um empregado novo procurá-la... não dei muita importância, mas agora sinto que falhei... e preciso achá-la. Pois senão não viveria com mais uma peso em minha consciência.

"Ordenei para Tao Jung, um empregado novo procurá-la...". Tao não podia estar no meio dessa confusão toda... ele havia jurado não se aproximar... Por todos os deuses, agora sim tinha que contar quem era Tao jung a Shoran. Antes que aquele maluco machucasse alguém com o seu fanatismo.

-Não, não poder ser.-Tai falou segurando com força o braço do sofá.-Você falou o nome de Tao Jung?

-Sim, você conhecesse Tao?-perguntou Shoran sentado novamente no sofá.-Não gostei dele, mas não quis me preocupar com uma menina que até então não era nada minha, a não ser uma lembrança dura de que minha Sakura havia pertencido a outro homem a não ser eu.

Shoran percebeu que a face de Tai estava pálida como a morte. Não queria ler o que estava escrito nos olhos dele. Temia o que ele tinha para falar... Temia ter entregado a vida de sua menina a um maníaco. Não, não era tudo um sonho.

-Shoran lembra que estamos aqui para falar sobre o passado obscuro de Chao e a criança que ele pós no mundo junto com uma mulher... A mulher mais distinta que conheci em toda minha vida.-começou o senhor abaixando a cabeça. Estava preste a desenterrar uma história que ainda mexia muito com ele... e que com certeza mudaria os pensamentos de Shoran sobre o primo que tinha até aquele momento.

Hanako sentia-se péssima ao presenciar aquele idílio amoroso. Era como se algo despedaçasse em mil pedaços em dentro de si... Sentia algo profundo por aquele garoto senão não estaria tão afetada por vê-lo beijando aquela menina. Não sentia ódio muito menos repulsa... apenas uma dor que vinha crescendo a cada segundo que presenciava aquele beijo tão apaixonado. Era uma idiota por senti alguma coisa por Chang. Ele mais de uma vez mostrara que gostava dela com um sentimento de proteção...Nunca tinha dado a entender algo a mais do que simples amigo.

O mais duro foi vê-lo dar as costas para ela sem ao menos dizer "Bom dia" ou "até mais tarde".Ele simplesmente dera as costas e partira... nem ao menos um olhar de carinho ou ternura lhe direcionou...Aquilo doeu mais do que mil facadas.

Kaho percebeu o olhar dolorido de Hanako e o sorriso feliz de Marta. Naquele momento teve certeza de que era tarde demais para tentar modificar o futuro... ou evitar que alguém se machucasse. Já não tinha o que ser feito para tirar de dentro de Hanako o amor que havia nascido há pouco tempo e que talvez nem mesmo a garota tenha dado conta de que ele já estava ali... Alguém sairia machucado, alguns tentariam negar o que sentia, como Chang estava fazendo. Mas o destino e futuro já estavam traçados. Lutaria para que nem Hanako ou Chang saísse com feridas eternas daquele interlúdio.

-Querida Hanako, então você veio do Japão?-perguntou Marien encantada com a beleza da estranha.

Hanako sentiu um pouco incomodada com a pergunta impertinente da menina quase uma criança à sua frente. Naquele momento a ultima coisa que queria era responder perguntas pessoais. Pois já tinha até mesmo decidido que assim que se recuperasse por completo sairia daquela pensão e seguiria seu caminho bem longe da complicação que estava se transformando sua vida desde que chegara naquele maldito país. mas ao mesmo tempo não podia ser mal educada com a filha da mulher maravilhosa que estava lhe estendendo a mão naquele momento tão estranho e confuso de sua vida.

-Sim. Nasci no Japão.-respondeu sorrindo.

-Sabe que meu pai era um valente soldado japonês.-a menina falou entusiasmada ao receber um sinal negativo de Kaho para não continua a falar.-Sim, ele foi um valente soldado que morreu pelas mãos de um rebelde a quase vinte e dois anos atrás.-concluiu orgulhosa dos feitos de um homem que nunca tivera o prazer de conhecer em vida, mas que sempre estava a seu lado.

Kaho ficou pálida com as palavras de Marien. Sabia que a jovem filha de criação tinha inocência de um animalzinho e que mesmo tendo dezessete anos de idade não havia aprendido a malícia que cada ser humano empregava em seu dia-a-dia. Nem ao menos a pobre menina havia percebido a semelhança que havia com Hanako e com aquela foto de Touya que havia mostrado há dias atrás para ela.

-Uma bela história de vida.-Hanako falou desanimada.-Então seus pais são japoneses?

Estava crente de que aquela menina era filha de Kaho com aquele digníssimo soldado japonês. Marien não sabia, mas ela tinha uma inveja quase latente dela... A jovem garota ao menos sabia quem era o seu progenitor. E ela, não sabia nem o nome dele... Podia ser qualquer um...Aquilo sim era doloroso.

-Não, minha mãe já é falecida...-disse a menina abaixando a cabeça.-Felizmente Kaho era muito amiga de meu pai, e fez a caridade de me criar...

-Sinto muito...

-Eu sei...Mas sou feliz aqui com minha mãe postiça.-disse levantada a cabeça com um sorriso.-Agora me diga uma coisa?

-Sim, pode perguntar.-Hanako falou. Já decidida de que gostava de Marien.

-Você... quer dizer, a senhorita pretender ficar no quarto do senhor Chang... ou prefere instalação própria?-perguntou já de pé.

Queria ficar o mais longe o possível de Chang e da tentação que ele representava para si. Seria um erro permanecer naquele quarto sabendo que ele era comprometido com outra. Se...Se fosse sua noiva, como Marta era, certamente não iria gostar em nada de saber que uma estranha dormia na cama com o seu amado.

-Prefiro um quarto à parte.-respondeu se pondo de pé também.-Já dei muita dor de cabeça para Chang.

-"timo.-a menina falou feliz.-Venha comigo vou te mostra o seu quarto novo.

Kaho observava tudo com grande emoção. Afinal Marien e Hanako eram primas... Desde do começo, ou melhor, desde do nascimento de Marien tinha um sonho, que at então era apenas um sonho e nada mais, que era dar a aquele anjo uma família... Sim, uma família!!! Mas não uma postiça, como ela representava para a garota, e sim uma de verdade... Apresentar aquela menina ao sangue de quem ela realmente pertence. Mas o medo havia feito esconder Marien apenas para ela. No fundo era uma mulher sozinha e egoísta que precisava de um apoio em sua triste caminhada...O medo de perde seu único elo com Touya a impedia de procurar Sakura e conta que o seu grande amor havia lhe deixado uma herdeira.

-Est passando bem, Senhorita Mizuki?-perguntou Marta percebendo a palidez que tomava o rosto da mulher no momento que observava Hanako e Marien se distanciarem.-Sua fisionomia mudou de repente...

-N-Nada...-disse pensativa.-Nunca imaginei que em poucas horas a vida pudesse da um salto tão grande...-concluiu sorrindo para a garota a sua frente.-Não sei se gosto dessa forma de mudança.

Marta a compreendia com perfeição incrível. No caso dela estava adorando... Nunca havia esperado uma reação tão apaixonada de Chang. Ele sempre se mostrara tímido at mesmo frio quando se aproximava muito dele, e agora na frente de várias pessoas ele a beijava com ferocidade que nunca nem sequer imaginara que um dia pudesse vim a ocorrer da parte de um homem tão complicado, como Chang era.

-Eu sei...-sussurrou levantando-se da mesa.-Espero que não esteja incomodada com a presença de...

-Não, Hanako sempre ser bem-vinda em minha pensão...-apressou em falar j retirando a mesa de café.-Ela muito parecida com uma grande amiga minha, além de ser uma boa garota.-concluiu ocultando alguns fatos. Odiava ter que admitir que não gostava nem um pouco da mulher sua frente.

Sim, Hanako era boa demais para ser verdade. Suspeitava at mesmo que Chang havia usado para tentar de todas as formas afastar a tentação que a jovem japonês representava, não s para ele como para todos os homens que residiam na pensão. Não precisava ser muito inteligente ou perspicaz para perceber o crescente interesse da ala masculina tinha por Hanako. Afinal um belo par de olhos verdes e com uma pele sedosa, além de um lindo corpo ajudava em muito. Morria de ciúmes dele, e não precisava de muito esforço para assumir esse fato. Ao mesmo tempo em que não nutria nenhum sentimento maldoso por Hanako...

No fundo também tinha uma certa simpatia por ela, mas que com certeza acabaria a partir do momento em que percebesse que a garota era sua rival também ao amor de Chang.

Por seu príncipe e seu futuro seria capaz de tudo. At mesmo pisar em uma pessoa inocente.

-Realmente Hanako encantadora.-disse não escondendo o sorriso cheio de cinismo.-Além de ter muita sorte... Afinal Chang um homem honrado e não a deixou agonizando na rua sozinha ou desamparada.

-Sim, Chang um bom homem.-concordou Kaho olhando seriamente para a mulher.-Nunca pude imaginar que estava tendo um relacionamento sério com ele. Afinal ele sempre falou que era seu amigo...apenas...e nada mais.

-Eu sei.-falou pensativa olhando para ao longe.-Não sei o que deu em Chang para ter essa atitude...Sempre fomos amigos e nada mais...-concluiu abaixando a cabeça.-Nunca pude imaginar que ele do nada viesse me beijar... Mas também não é segredo para ninguém que eu tenho um sentimento muito forte por esse chinês.

Conhecia Marta por meio de Tao, o jovem revolucionário havia apresentado a ela como uma órfã sozinha em Pequim. Desde do começo não entrara muito na história, pois conhecia muito bem o tipo de Marta. Sim, era uma mulher ambiciosa. Que amava todos os jovens que representasse um futuro a ela. Não culpava a garota. Afinal sabia muito bem o quer era ter uma vida simples e sem luxo algum... Sabia também o que era cansar de passar fome e só ver uma solução na vida...casar com um homem de posses. Só não concordava com o suposto relacionamento dela com Chang Li. Conhecia a família Li muito bem para saber que eles jamais aceitariam uma estrangeira, ainda mais portuguesa, no clã. E também tinha o fato do jovem não estar realmente apaixonado pela jovem... Podia perceber aquilo nos olhos dele.

-Não se iluda com pouco, Marta.-aconselhou Kaho indo para porta com algumas xícaras na mão.-Tanto eu como você sabemos que o jovem herdeiro do clã Li jamais se casará com alguém como você...-concluiu saindo da sala.

Sabia daquilo e tinha certeza de que nunca seria aceitar por ninguém daquela família. Mas tinha a esperança de conta sempre com o amor de Chang, pois só o fato de tê-lo a seu lado já era de grande importância.

"Tanto eu como você sabemos que o jovem herdeiro do clã Li jamais se casará com alguém como você..."

Provaria a Kaho, a Tao, ao clã Li, a até mesmo a Hanako provaria a mundo que era mulher o suficiente para ter Chang para sempre a seu lado. Honraria o nome dos Li e seria a senhora de toda aquela fortuna. Nada no mundo a impediria de atingir seu objetivo... Nem mesmo o seu orgulho.

Yu olhava para o rosto sorridente de Tao sem muito compreende o motivo de tamanha alegria. Com certeza não era por tê-la definitivamente a seu lado... Havia sim um sorriso maquiavélico. Como se seu grande sonho de muitos anos sonhados estivessem próximo de ser conquistado.

-Olá minha querida Yu.-disse ele cumprimentando.-Vejo que já esta pronta para conhecer nossa casa.-continuou ele pegando as malas dela.-Vamos minha querida, que o esplendor a espera.

Estava feliz como há muito tempo não ousava a ficar. Nunca tivera tanta esperança na vida como naquele tórrido momento. Em menos de dois dias havia conseguido adiantar seu plano que levaria vários meses para ser completado. Ficara em tão pouco tempo amigo de Yukito. Até mesmo iria jantar na mansão dos Li naquela mesma noite. Seria um espetáculo ver a cara de surpresa do todo poderoso Shoran ao vê-lo sentado em sua mesa como convidado do embaixador. Tinha certeza de que tudo sairia como planejava...O ideal mesmo era manter o paradeiro da linda Hanako em segredo e só depois ganhar um bom dinheiro em cima daquele drama todo. Além do mais a senhora Tsukishiro não ira querer que o digno marido descubra o tórrido caso de amor entre ela e seu quase tio, que era sem sombra de duvidas pai da japonesinha que estava tirando completamente sua concentração.

-Ao que se deve tamanha alegria?-perguntou Yu sorrindo.

-Você irá saber minha digníssima dama.-falou gargalhando beijando a mão dela.

Yu teria um papel fundamental em toda aquela história. Afinal a jovem chinesa seria sua mulher, esposa que carregaria seu nome, o título de mulher íntegra e pura... tão pura que traria o seu futuro amante para ser sacrificado o quanto antes. Sabia que seria fácil para uma mulher tão formosa seduzir um homem carente que gostava de prostitutas e que tinha uma mulher que amava outro.

-Você tem vestido para festa, Yu?-perguntou sentando ao lado dela já na carruagem.

Não, não tinha roupas decentes para uma festa social. Tinha roupas sim, mas eram roupas vulgares que jamais voltaria a usar.

-Não... infelizmente as roupas que possuo não são adequadas para convivo social, meu senhor.-respondeu olhando para as mãos.

-Então vamos as compras.-disse segurando as mãos dela com carinho.-Quero que minha esposa vista do bom e do melhor.-concluiu beijando a face dela.

"minha esposa"

Sim a parti daquele momento era esposa dele. Honraria seu nome mesmo não sabendo o que o levava ser tão bondoso. O respeitaria o obedeceria até na morte.

Sakura encarava Yukito com ódio. Já estava acostumada com as escapadas dele, mas jamais aceitaria ter que agüentar aquela mulher, ou melhor, amante dele na casa de Shoran. Era humilhante demais ter que passar por isso e ficar quieta. Não, não aquilo era demais. Já não bastava estar preocupada com a filha.

-Faça o favor Yukito.-disse andando de um lado para outro.-Já não basta às consecutivas humilhações que você já me fez passar, agora tem a coragem de trazer a amante para a casa que nem sua é...

O drama de Sakura não o convencia. Nada o que ela falasse o faria colocar a pobre Mary na rua àquela hora do dia. Estava decidido a tentar ter mais uma chance com a esposa, mas não iria deixar uma de suas mulheres correr o risco naquelas ruas perigosas.

-Não faça drama querida esposa.-falou sarcástico.-Isso já não mais funcionar comigo, aliás, nunca funcionou.

-Mesmo não tendo um casamento tido como normal...mesmo nunca ter sido sua mulher... mesmo tendo uma filha que não é sua.-disse apontando o dedo para ele.-Isso não lhe dar o direito de agir dessa forma comigo e com a sua família...-concluiu sentando na cadeira.-Jamais fui apaixonada por você, Yukito...nunca, mas juro que jamais desonrei o seu nome perante a sociedade. Não mereço ter tratamento menos digno do que tive pela sua honra durante anos.

Nunca havia tido pensamento diferente daquilo que ela lhe falava agora. Sakura não o amava e nem um dia sequer tentara amar de verdade. Fora apenas um fantoche nas mãos dela e da família Kinomoto... Fora usado para dar o seu nome a uma menina chinesa para evitar um escândalo. Essa constatação sempre o deixara chateado... Havia lutado tanto para conquistá-la, que com o tempo ela virara uma obsessão. Nunca se separaria de Sakura... Ela era seu porto seguro... Mesmo contando apenas com o carinho dela e nada mais amava aquela garota... Não se importava como fantasma daquele maldito homem que ainda a rodeava. Queria apenas estar com ela, mas não podia ceder às suas vontades... Não tendo marcado um jantar com aquele honrado moço...

-Sakura...-sussurrou caindo aos pés dela.-Sei que nutre seu rancor por mim, sei que mereço seu ódio eterno...Sei que não sou digno do carinho de Hanako, pois a tratei de forma cruel...-pausou fechando os olhos.-Sei também que nutre um rancor maior do que o sentimento de carinho que um dia veio a nutrir por minha pessoa...Mas não posso viver sem você e Hanako...

Não entendia o sentido das palavras arrependidas do marido. Nem ao menos se convencia de que ele nutrisse algum arrependimento pelo erro que fora aquele casamento de dezessete anos. Se não fosse por aquele maldito dogma que a forçava a ficar ao lado dele certamente já estaria longe daquele mal fadado casamento.

-Não quero seu arrependimento falso Yukito.-disse duramente afastando-se dele.-Não quero suas palavras doces... quero apenas ser respeitada e nada mais. Por favor, tire aquela mulher daqui... não é por despeito, mas sim por respeito a mim e a minha filha.

Já era tarde demais para ser feliz ao lado dela? Pergunto-se mentalmente vendo a esposa se dirigir até a porta. Talvez fosse... Não mandaria Mary embora. Não por que Sakura tinha um senso de respeito... A partir daquele momento a mulher iria saber qual era o seu lugar. E teria que ficar quieta, pois ainda tinha um resquício de respeito sobre aquele matrimônio forjado.

-Sakura, não irei ceder aos seus tolos caprichos. A senhora nunca foi minha esposa e por isso não tem o direito de exigir nada.-falou dando as costas para ela.-Mary ira ficar aqui a partir de hoje... E não aceito reclamações.

Sakura estufou o peito num gesto de orgulho. Nunca iria ceder a nada... e se aquilo era uma guerra ela iria entra para ganhar. Naquele momento se importava mais com a sua felicidade e com de Hanako do que com os casos sentimentais de seu marido. Lutaria pela sua felicidade e nada mais. Quando entrara naquela sala fora para apenas comunicar o desaparecimento de Hanako, mas agora decidira que Yukito não tinha o direito de saber daquilo, pois Hanako nunca fora sua filha e ele nem carinho dera a pobre garota. Tinha fé que Shoran iria encontra Hanako, e por isso oraria... Afinal sua família só se resumia em Hanako, Shoran e Mai.

-Quer saber de uma coisa, meu querido marido.-falou abrindo a porta.-Faça o que quiser da sua vida... eu...eu já não me importo mais com ela.-concluiu batendo a porta.

Shoran não acreditava no que havia escutado da boca de Tai. Era tudo tão inacreditável que parecia mais um pesadelo do que realidade. Chão tinha um filho fora do casamento ( até então isso não era uma surpresa... Já que seu primo nunca fora o exemplo de marido fiel, e muito menos acreditava que Meiling fora), mas sm pelo o fato daquele garoto ser Tao Jung, seu empregado e afiliado a um partido comunista que visava fechar o país para convívio estrangeiro. Não aquilo tinha que ser mentira. Afinal em que mão havia entregado a vida de sua filha? Bem ou mal Hanako era chinesa também, mas aquele desequilibrado não sabia da verdade. E mesmo que Hanako não fosse sua filha e sim de Yukito não justificava sua morte.

Ainda se lembrava com esmero da revelação de Tai... As palavras dele ainda ecoavam em sua mente o culpando de algo que nem tinha certeza existir.

"A mãe de Tao era uma inglesa linda, tinha os olhos verdes e pele clara... Um verdadeiro anjo. Logo se via que era de família e tinha o nome... Você conheceu muito bem seu primo sabe que ele ama um desafio. E o desafio dele no momento era aquela bela inglesinha simpática e formosa. Não demorou muito para que ambos se envolvessem de forma séria... E ela ficasse grávida. Mas ele não assumiu aquela criança, além do mais sua esposa estava grávida, lhe daria um menino. Morrendo de medo ele se acovardou... e ela foi abandonada pela família, que foi completamente dissipada. Chao não era por completo mau-caráter e ajudava ela a se manter numa sociedade conturbada por uma revolução... Logo o bebê nasceu e Chao foi condenado à morte... e ela ficou sozinha com o beb".

Estava andando em direção a sua casa. Já anoitecia, e já não havia mais sentido ir a até seu sobrinho... Assim que o sol nascesse ira até Chang. Pediria ao sobrinho se necessário a sua ajuda... Não havia motivo especifico para ter aquele pensamento sobre Chang, o garoto talvez fosse de grande ajuda agora que sabia que Tao era seu sobrinho também. No fundo uma voz mandava ele seguir até seu sobrinho. O que Chang tinha para lhe conta para aquele maldito pensamento não lhe sair da cabeça?

"Aquela inglesinha embora tivesse uma aparência frágil e desprotegida não deixava de ser forte e determinada a criar aquela criança sozinha. Apenas eu, Meiling e Tshao sabíamos dela e do bebê... Meiling não precisava saber o grau de envolvimento houvera entre Chao e a inglesa, mas desconfiava sobre a criança... Direta ou indiretamente ela ajudou a amante de Chao. Sei que tem um ressentimento muito forte por aquela criatura, mas no fundo daquela aparência austera bate um coração bondoso. Mas mesmo assim depois de alguns anos Meiling por algum motivo desconhecido não mais ajudou aquela senhora... E a turbeculose foi mais forte do que o amor dela pelo o seu filho. Com apenas vinte e seis anos o grande amor de Chao morreu..."

Sempre soubera de vários fatos envolvendo a vida pessoal de Chao, mas nunca pudera sequer pensar que o primo vivera um tórrido caso de amor com uma inglesa... Ainda se lembrava com perfeição dos discursos machistas dele sobre o seu relacionamento com Sakura. Segundo ele namorar ou amar uma estrangeira era o pior pecado que um chinês poderia cometer contra seu país e seu clã.... Certo que naquela época seu primo falava aquilo sempre quando estava bêbado ou revoltado. Mas agora compreendia com perfeição as palavras melancólicas dele... Não era exatamente ele que era fraco por se deitar com Sakura e sim ele, Chao por não ter tido a coragem de assumir que amava aquela inglesa. No fundo Chao era triste por não ter a mulher amada ao seu lado.

-Rosas, senhor?-uma criança perguntou parando na frente dele.-Hoje temos flores de cerejeira importadas...

"O problema era aquele menino que agora estava desamparado... Juro Shoran, se naquela época não estivesse passando por grande dificuldade na minha vida tinha pegado aquele menino... Posso ter meus defeitos, mas tanto eu como minha esposa iríamos adorar tê-lo em nossa casa. Mas o destino impiedoso... Não esperou por mim ou por qualquer outra pessoa. O fato era que havia uma criança sozinha nesse mundo... e eu nada podia fazer por ela..."

"E porque não me procurou, Tai?... Aquele menino também um Li"

"Tentei... Tentei de todas as formas te informar Shoran. Mas nessa época Meiling já estava estranha e me impediu de todas as formas de lhe conta a verdade... Além do mais o menino estava sendo criado por um casal universitário... Embora tendo idéias estranhas tinha de verdade um grande apreço por Tao..."

Realmente o mundo era feito de hipocrisia. Tinha certeza que Meiling havia escondido a verdade dele por simples vaidade... Naquela época estava perturbado. Já não tinha mais gosto na vida... Tudo para os lados que olhava via, sentia e escutava a voz de Sakura. Seu sonho era com Touya morto o culpando por ter feito Sakura sofrer. Agora tudo fazia sentido... Meiling sempre escondera a verdade dele... Primeiro afastara Sakura dele e jamais contara sobre Hanako... aliás, sempre fizera questão de demonstrar seu ódio por ela. Segundo não tivera amor por um pobre órfão. Sim, Meiling um dia fora pura e bondosa, mas agora havia se transformado em um poço de vaidades... que nem o próprio filho agüentava.

-Sim, quero uma dúzia.-respondeu sorrindo para a menina suja a sua frente.

A vida era um golpe de sorte. Muitas crianças como aquela menina moravam nas ruas e sobreviviam da bondade alheia... Muitas morriam de fome e de doenças. Mas uma criança sobreviveu a tudo e agora voltava sua vida para se vingar. De quem ele não sabia...Mas o fato era que Hanako podia estar na mão de uma pessoa mal-intencionada.

Já havia prometido a Sakura (sua flor de cerejeira) que iria trazer a filha de ambos de volta. E daquela vez não iria abandoná-la como uma vez fizera há anos atrás quando covardemente rasgara e jogara no lixo a única chance de ser feliz. Mas daquela vez tudo seria diferente... tinha que ser...senão morreria perdido num abismo.

Ol Pessoal!!!!

Bem, pretendo de agora em diante dar novo ritmo a fic. Com a descoberta de Shoran sobre a existência de Tao vai fazê-lo tomar uma decisão inédita até então(mas só no próximo capítulo que vão saber). E também Tao ficara revoltado com a atitudes de Shoran e começara uma vingança contra a pobre do nosso anjinho que é a Hanako. Tudo isso e muito mais no próximo capítulo. Então não percam...

Reviews: Carol, Anaisa, Lan Ayath, Bella-chan, Laine,Dani Glatz, Rafinha Himura Li, Lili-chan, miaka, RubyMoon, Rê chan e a Hime Hayashi.Muito obrigada mesmo meninas!!!

Por favor, todo o qualquer tipo de opinião é bem a ceita, então não se esqueçam de mim.

Um beijo especial para Lili, Bella e a Duda(que anda me dando boas idéias para a fic de agora em diante).

Até semana que vem!!!

Tchau!!!!!!

Anna