O coração pelos olhos,

Em terno pranto saía,

E no meu peito saltava;

Disfarçando amor, olhava

Para mim a furto, e ria.

Tomás Antônio Gonzaga

                                                           35 Capítulo—

Hanako mal escutava o que Marien falava com tanta felicidade.Admirava muito a capacidade daquela menina sorrir mesmo não tendo motivo para tal ato.Afinal Marien tanto quanto ela era uma vítima do descaso...Queria ter um motivo para sorrir e ser feliz como ela, mas não tinha...Não podia ter. Sua vontade naquele momento era correr para o colo maternal da mãe, e perguntar o porque de tanta mentira. Com certeza ela não sofreria tanto como agora.

-Esse é o melhor quarto da pensão.-a menina falou abrindo a janela.-Sei que não é grande coisa... Ainda mais para uma dama de sua categoria que deve está acostumada com um quarto grande e luxuoso...

-Que nada Marien.-disse Hanako encantada com o quarto.-Nem sei como vou pagar esse quarto...  Não tenho dinheiro e sei que vocês ganham pouco para me deixar ficar aqui de graça.

-Não, não, não, geralmente não aceitamos hóspedes...E quase nunca minha mãe deixa alguém utilizar esse quarto.-rebateu sorrindo sentando na cama.

-Mais um motivo para não abusar de sua hospitalidade...

-Não fique preocupada com isso...Tanto eu como minha mãe gostamos muito de você.-disse sorrindo fazendo Hanako sentar-se ao seu lado.-Estranho não é mesmo, mal te conhecemos mais parece que você já é da família.

Sim, nunca havia se integrado tão bem com um grupo que conhecera há poucas horas atrás.  Podia até mesmo afirmar que Marien era sua grande amiga já que passara horas conversando com ela, mas ainda não fora capaz de revelar o motivo de sua presença ali...  Fizera de tudo para tentar esquecer de seus problemas, mas era inútil...Seu passado de mentira e o seu destino entravam em conflito.Tudo estava a deixando confusa.  Nem seu sentimento diferente por Chang ficava fora desse carrossel de sentimentos controvertidos que enfrentava.  Bem ou mal a sua verdade já não mais existia.  Nada mais fazia sentido...  Já havia perdido a capacidade de confiar nas pessoas.

-O que te aflige tanto Hanako?-perguntou a jovem preocupada.

Talvez devesse esconder mais seus sentimentos. Ser hipócrita como a muito vinham sendo com ela. Mas algo a impedia de agir da mesma forma que todos agiam com ela... Talvez sua criação não a tivesse feito mesquinha. Sempre aprendera a ser sincera com o que a incomodava.

-Estou bem...Apenas cansada.-respondeu de modo não muito convincente.

-Eu tenho a sua idade... Acho que até sou mais velha.-falou pegando na mão de Hanako.-E sei que não é apenas o cansaço que a deixa com um ar tão desprotegido e triste. Sei que não tenho experiência, mas juro que sou uma pessoa de extrema confiança e jamais falarei para ninguém o mistério que você esconde de todos... até mesmo de Chang.-concluiu sorrindo de forma amigável.

Não devia confiar naquela estranha, que de uma forma simpática afirmava com convicção que ela tinha um segredo duro e frio. Não devia, mas tinha que confiar aquele peso a alguém se não seria sufocada por ele. Não era o fato de não ter um pai que a atormentava mais sim o fato de que por dezessete anos fora enganada... Mendigara por migalhas de carinho de um homem que nem seu sangue tinha. Que agia de forma fria e fugaz... Afinal ela era uma indigente sem pai, sem futuro... Seu sangue era ruim.

-Confie em mim, Hanako.-pediu Marien encarando a jovem com seriedade.

-Não devia falar nada para ninguém... Afinal isso é uma coisa só minha, mas há horas que a verdade vem me atormentando Marien.-revelou deixando as lágrimas rolarem por sua face pela a primeira vez.-Mas se não compartilhar esse segredo com alguém não sei se conseguirei sobreviver.

Marien sempre fora fechada e alegre. Fazia amizade com freqüência, mas nunca tinha sentido uma união tão forte com alguém ainda mais em tão pouco tempo como sentia por Hanako. Era como se já soubesse de alguma forma o segredo dela...E isso acontecera da primeira vez que a vira. Às vezes não compreendia os desígnios de Deus, mas tinha certeza de que ele colocara aquela menina em sua vida para de alguma forma encontrar a verdade de sua vida. Desde que ouvira o sobrenome dela algo em seu ser a fizera gostar mais e mais dela... Afinal Hanako Kinomoto lhe trazia lembranças remotas de uma época que esse nome fora uma figura presente em sua vida. Talvez nessa conversa séria que teria com a moça lhe revelasse o que incessantemente procurava e que apenas mister Kaho tinha, mas que insistia em manter segredo. Estava disposta a procurar até no fim do mundo sua história de vida que apenas aquela garota tinha como ajudá-la.

-Minha infância foi conturbada... Procurei em toda minha vida fazer m...meu pai me amar, mas ele nunca demonstrou carinho por mim. Ele me rejeitou desde bebê.-ela começou a falar nervosa e já com a cabeça baixa.-Tudo o que fazia, tudo o que falava era errado e sempre merecia um castigo. Eu me perguntava por que meu pai me odiava tanto sendo que eu fazia de tudo para agradá-lo e nada adiantava... Por que minhas poucas amigas tinha o pai afetuoso e o meu aparentava me odiar? O que eu havia feito para receber tamanho ódio??? Por que, por que, por que?-fez uma pausa indo até a janela.- Sempre contei com a minha mãe e com minha ama, mas teve uma época que o amor que as duas tinham por mim já não era o suficiente... Era estranho que minha tia agisse de forma tão cruel comigo.-soltou uma risada amarga.-Sim, uma tia que odiava o fato de eu ter nascido e que várias vezes me jogou na cara que eu jamais havia sido desejada pelo o meu pai... Você não sabe o quando isso doía... e ainda dói.

O dia já se fora. A lua brilhava no céu... Nem parecia que já fizera quase vinte e quatro horas que descobrira toda a verdade de sua vida. A vida havia sido sem dúvida cruel com ela, mas aquilo ainda não era o final... Sim era uma indigente sem nome e sem destino, mas ainda havia esperança de ser feliz. Não tinha muita certeza de que tudo era como seu coração afirmava. Nada era perfeito... E sua vida ainda tinha muitos altos e baixos pela a frente. Os porquês dela jamais seriam completamente explicados. Nada mais lhe restava a não ser viver a vida que Deus estava dando a ela.

-Eu cresci com essa sensação... Ele era meu pai, mas nem todos os pais demonstravam o seu amor pelo o filho... E tinha uma mãe que me amava e me dava o carinho que precisava.-falou fazendo uma pausa sentindo-se mais calma.-Eu cresci com a idéia dele ser meu pai... eu tinha um nome e uma família linda que nem todos me amavam, mas era a minha família.-falava com prosperidade.-Tudo mudou desde o momento em que meu pai nos comunicou que viríamos à China para resolver problemas "externos" do governo japonês. Logo minha mãe mudou o seu comportamento, ficou mais fria e mais distante. Naquela época já sabia que o casamento deles era uma fraude... "Sakura odiava Yukito, que por si só arranja amante a cada esquina".-falou cinicamente.-Não culpava minha mãe por agir dessa forma com ele, afinal aquele senhor merecia pagar por tudo o que ele havia me feito. Mas o nosso dever como sua família era acompanhá-lo para onde ele fosse.-ela voltou a fazer uma pausa mais dolorosa.-Chegamos ontem na parte da manhã... Mal sabia eu que descobriria tudo naquele mesmo dia... Pode parecer impressionante ou até mesmo irreal, mas descobri que Yukito não é meu pai da forma mais cruel possível.

Marien escutava tudo com atenção redobrada. Sentia muito por ela, mas aquilo de uma certa forma não era novidade. Havia passado pelo o mesmo quando Kaho friamente havia contado toda a sua história de vida e de seu amor além da vida com o seu pai. O mais doloroso naquilo tudo fora saber que aquela mulher idealizada por todos nada mais era do que sua mãe adotiva. Era uma criança quando soubera de tudo, mas a sensação era a mesma. De repente você perde a identidade e passa a ser uma indigente... Sem família, sem dignidade, como se tivessem usurpando sua vida inteira.

-Lamento muito, Hanako.-falou se aproximando dela.-Sei o que deve estar sentido...Você perde completamente o senso de realidade... Tudo fica sem sentido... e você quer...

-Morrer, sim foi por isso que praticamente me joguei na frente da bicicleta de Chang... Primeiramente saí correndo e não conseguia ver nada a não ser minha mãe confirmando tudo o que mais temia...-completou conformada.-Todas aquelas perguntas que tinha feito no passado que ficaram sem resposta de repente ganharam uma... Yukito havia me criado por obrigação, pois nada era dele... Era sim uma criança indesejada que nascera de um caso entre minha mãe e um rebelde chinês. Foi minha culpa, mas tive sorte por não ter acontecido algo pior comigo. Embora ainda esteja confusa e terrivelmente envergonhada.-concluiu sentindo-se vazia por dentro.

Ainda estava confusa. Mas se sentia bem por ter contado tudo a alguém. Dividir seu peso com aquela menina fora a melhor coisa que fizera... Agora se sentia renovada, mas ainda incapaz de julgar seus sentimentos por sua mãe ou até mesmo por Chang. Mesmo sabendo que nada poderia sentir por ele.

-Senti o mesmo que você no momento que soube que meu pai havia morrido sem saber que eu não existia e que minha mãe praticamente me abandonara com uma estranha. Mas agradeço aos céus que tenho Kaho, pois senão viveria sem nome, sem futuro e perdida na vida.

-Você me falou vagamente sobre seu pai... Deve ser difícil saber que ele morreu...-falou amargamente quase para si mesma.

-Sim, mas todos os finais de semana vou visitá-lo...-falou sentindo o coração disparar no peito por estar próxima de tirar a dúvida que a atormentava desde o momento que encontrou aqueles olhos verdes tão parecidos com o seu.-Meu pai se chamava Touya...

-Gostou do seu quarto jovem Hanako?-perguntou uma voz conhecida na soleira da porta.

Kaho sentia o coração sair pela a boca. Por mais que amasse a filha adotiva, por mais que ela fosse um pedaço perdido de seu grande amor e por mais que quisesse lhe contar a verdade àquela não era a hora. Não queria que fosse pela a boca de Hanako que ela descobrisse a verdade. Não queria padecer do mesmo erro de Sakura... Agora que sabia da verdade tinha a certeza de que devia procurar sua grande amiga. Mas o problema era onde? Como chegaria até ela se mal sabia onde ela estava. Tinha que refletir muito no que faria de agora em diante odiaria magoar pela a segunda vez aquela menina.

-Muito, senhora Kaho.-falou sorrindo timidamente.-Tanto que acho que não vou ser capaz de pagá-la... Aceitaria qualquer coisa que me oferecesse até mesmo um quarto velho de empregada.

-Jamais a colocaria num quartinho nos fundos.-falou entrando no quarto.-Não se preocupe com dinheiro, pois só sua presença já é o nosso melhor pagamento.

Não compreendia a atitude tão receptiva daquela senhora. Mas não podia se dar ao luxo de negar nada. Ainda mais agora que teria que se cuidar sozinha sem ajuda monetária de ninguém.

-Nenhuma palavra no mundo seria capaz de descrever a gratidão que sinto por você...

Kaho simplesmente sorriu, enquanto Marien se remoia por dentro por mais uma vez não ter sido capaz de desvendar seu passado tão escondido. Mas teria outra oportunidade... Tinha que ter...

Chang mau continha à própria ansiedade para voltar a rever Hanako. Era uma vontade que ultrapassava seu senso de que nada poderia ter por aquela menina a não ser um carinho de irmão...  Não podia se apaixonar por uma garota estranha que entrara em sua vida de uma maneira inesperada, e que mal confiava nele para contar seus maiores segredos. Não podia confundir seus sentimentos, pois estaria machucando não apenas ele como a todos envolvidos naquela inacreditável história.

Havia beijado Marta como a muito não beijava.  Só que daquela vez algo havia mudado...  Já não havia tido um gosto bom, já não mais sentira o corpo arder de desejo...Havia sim sentido uma vontade enorme de explicar tudo para Hanako. De falar para ela que nada era como imaginava e que se beijava Marta era para fugir do que sentia por ela.  Um sentimento que o estava deixando louco...Um sentimento que nunca havia sentido antes em sua vida...Ainda mais por uma estranha.

-Estou maluco...-sussurrou guardando a bicicleta num quarto desocupado.

A vida era um pouco maluca ainda mais com ele que jamais acreditara em destino e sim em conseqüência de seus atos.  Nem em seus sonhos pensara que de uma forma tão estranha fosse conhecer uma menina de incríveis olhos verdes...  Jamais... que o encantara de forma inacreditável.  Por esse sentimento sentia que o mundo estava brincando com a sua vida. E não gostava nada disso...Não gostava de se sentir pressionado.

Já passava das cinco da tarde, e o sol já se escondia por completo no céu bonito de Pequim. Aquela era uma das primeiras noites desde que se instalara na pensão que chegava tão cedo...Geralmente usava de seu prestígio como um Li para almoçar em algum restaurante sem pagar nada, pois em sua maioria os comerciantes eram gratos a seu tio, ou ficava com Marta e às vezes ia para a sede do partido comunista.Gostava muito de discutir política e fatos da atualidade com os membros mais antigos do movimento revolucionário.  Mas jamais havia chegado àquela hora... Certamente a sua presença não passaria despercebida. Com certeza o indagaria, mas apenas responderia que estava cansado...Não falaria que o motivo de sua presença ali era por causa da jovem japonesa.

Mas primeiramente precisava tomar um banho...Estava se sentindo bastante cansado.Sentia-se esgotado fisicamente e psicologicamente...Entregar jornais era uma profissão sacrificada, porém digna.E não tinha vergonha de ser um simples entregador de jornal.Sentia sim vergonha dele mesmo não apenas como ser humano mas como homem.

Pensando dessa forma Chang entrou na casa.  Decidido a esquecer aquele sentimento que o estava deixando maluco...Não podia sentir desejo por Hanako.Tinha que ser forte...  Se não padeceria no inferno igual ao seu tio.

-Preciso conversar com você, Shoran.-Meiling falou entrando no quarto do primo sem ao menos bater na porta.

Pensamentos controvertidos dominavam seus pensamentos e seu coração. Odiava ter que admitir que fora uma burra ao revelar toda a verdade a ele.De uma certa forma havia unido mais aquele casal...Agora ambos tinham um motivo para lutar...Eles tinham um elo que os prendiam eternamente.  Poderia ser mais maldosa e falar para o idiota do marido da Sakura que aquela menina a quem ele havia criado era filha de Shoran, e poderia cometer o maior desastre ao falar com quem sua santa esposa havia passado a noite enquanto ele se divertia pela a noite de Pequim. Mas amava por demais Shoran para fazê-lo sofrer daquela forma...  Não podia entregá-lo a um homem vingativo e com sede de vingança.  Afinal não era tão maldosa como todos achavam...O seu único defeito foi ter sempre amado Shoran e Chang como tudo na vida, e tê-los priorizado como sua família.

-Já foi tudo falado há horas atrás, senhora.-disse secamente.-Acho que não temos nada a falar um para outro.

-Não, não, não, não é verdade.-falou com a cabeça baixa.-Eu ainda tenho muito a lhe contar...tenho muito...

-Shhh, já falei que não precisa mais se humilhar Meiling.-Shoran rebateu sem paciência com a mulher.-Eu já deixei bem claro as regras do jogo de agora em diante. E por favor, não tente fazer nada contra Sakura...

-Sim...claro sempre a matrona se metendo entre nós.-falou sarcástica.

Já havia perdido completamente sua paciência com aquela mulher. Era impressionante como o simples soar de sua voz já o deixasse com um extremo mau humor. Agüentara por tanto tempo aquela mulher se metendo em sua vida como se tivesse algum direito sobre ela. A verdade era que estava a ponto de odiá-la, e não queria isso... não queria odiar um membro bem ou mal de sua família. Mas era difícil esquecer do que ela fizera tanto para ele como para o próprio enteado quando o menino mais precisava de apoio e carinho. O egocentrismo dela havia contaminado a própria alma... Mas agora dizia um basta para aquele relacionamento que se arrastava por anos sem conclusão.

-Não meta Sakura nisso.-falou se virando para a prima.-Ela foi mais uma vítima de sua maldade, cobiça, ânsia de querer mais do que já tem... Mas infelizmente não foram apenas ela ou minha filha. Sim minha filha, Meiling, meu sangue que vai herdar tudo o que tenho, mas mesmo que ela não levasse nem um vintém ela sempre seria minha filha. Mas sim todos que a cercam... Eu um dia pensei que você pudesse mudar seu comportamento, mas agora vejo que sua alma já foi corrompida.-concluiu irado.

-Como se atreve a falar isso de mim, Shoran.-falou tensa se aproximando dele.-Justo eu que fiquei ao seu lado nas horas mais difíceis... Nem mesmo sua amada teve coragem de te assumir como pai da filha dela depois que a rebelião acabou...

-Não fale asneiras Meiling.-falou com os olhos cheios de raiva.-Tanto eu, como você e até mesmo o papa sabe que Sakura é completamente inocente nessa história... Se tiver um culpado na minha tragédia sou eu mesmo que durante anos escondi e reneguei meus próprios sentimentos.                   

Não estava acostumada a ser julgada daquela maneira. Não por alguém que amava mais do que tudo... Alguma coisa havia mudado e algo lhe dizia que tamanho ressentimento não era pelo o fato de ter escondido sobre sua paternidade. Era algo mais forte do que aquilo...

-Eu sempre te amei Shoran...Amei quando todos te achavam um assassino sem sentimentos, amei quando estava casada com Chao... Amei com todas minhas forças quando vendi minha alma ao inferno para ficar ao seu lado.-falou passando as mãos no rosto dele.-Não faça isso comigo, meu amor...

Era um ser humano mesquinho, falso, que não sabia o verdadeiro significado da palavra amor. Amar era nunca querer o mal para quem quer demonstrar afeto... Amar é saber respeitar a opinião aleia, e amar quando é para ser amado, e compreender os sentimento do outro sem esquecer da própria dignidade. Coisa que Meiling jamais um dia viria saber, pois os seus defeitos cegavam as qualidades. Só podia rezar para que com o tempo aquele poço de egoísmo aprendesse a amar verdadeiramente.

-Você nunca me amou.-falou segurando as mãos dela com força excessiva.-Tenho pena de sua alma Meiling que de tão podre foi capaz de deixar na rua o filho de seu marido, que foi capaz de nunca amar o próprio filho e usá-lo para me prender a você.-concluiu notando a palidez na face da prima.-Espero do fundo do meu coração que ame seu filho de agora em diante, pois ele será o único a te visitar quando estiver velha e sozinha.

Estava pálida, quase mórbida... Seu coração batia descompassado ao ritmo de um carro em alta velocidade. Seu extinto de guerreira a alertava de que estava próxima do fim. Seus segredos mais íntimos havia sido descoberto. Havia escondido durante anos a existência daquele menino... Não era sua obrigação como viúva de Chao criar o filho bastardo dele. Já tinha Chang apara ocupar todo o seu tempo e Shoran para reconquistar. Até mesmo tentara ajudar aquela estrangeira, mas chegara uma hora de sua vida que tomara consciência do papel ridículo que representava.

-Não me julgue por isso se não te falei antes foi...-tentava se explicar sentindo cada vez mais os olhos de Shoran a sufocarem.

-Não tente explicar seu egoísmo.-falou encarando ela com raiva.-Como pode Meiling deixar o filho de Chao desprotegido... como pode deixar apenas Chang como herdeiro sendo que ele tem um irmão consangüíneo... Como pode ser ambiciosa e cobiçar o dinheiro do próprio marido. 

-Fiz pelo o bem de meu filho. Naquela época havíamos perdido tudo, tudo, tudo. O clã Li até então respeitado virara motivo de chacota.-falou irônica.-Como podia pensar num bastardo quando meu filho estava passando fome.

-Não seja mentirosa Meiling.-rebateu Shoran apertando o braço da prima com mais força.-Nunca deixei que Chang ou você passasse fome. Nunca, tirava da minha boca para dar a vocês. Além do mais minha prima você não era tão miserável. Você tinha a herança do seu marido...

-Tinha um pouco apenas. O governo nos tomou tudo e a única coisa que conseguimos salvar foi à casa do desfiladeiro. Por favor Shoran, como criaria um menino que me odiava.

Meiling era uma perfeita atriz. Se não tivesse visto o tamanho de sua maldade, agora estaria pedindo desculpas pela a forma grosseira que a estava tratando. Ela tratava aquele bendito problema sem nenhum resquício de arrependimento. Falava de forma fria, cruel, como se o dinheiro pudesse comprar tudo e até apagar o mal que ela havia feito a uma criança indefesa.

-Por que esconder de mim, Meiling?-perguntou afastando a mulher com grosseria.

-Tinha medo...

Sim, tinha medo de que aquilo afastasse de uma certa forma o encantamento que Shoran tinha por Chang. Nunca fora uma mulher ciumenta, nunca havia amado o marido e até de uma certa forma o incentivava a ter casos extras conjugais. Gostava de Shoran, e seu ciúme e sua atenção ficaram tudo para ele. Quando estava grávida até chegara a imaginar que ele era o pai de Chang. De uma certa forma usara o próprio filho para permanecer ao lado dele, e se aquela criança entrasse no jogo com certeza o carinho seria dividido. Naquela época preferira ficar amargando um arrependimento para que mais tarde seu filho ficasse com tudo de Shoran. Mas agora tudo fora em vão...

-Você tinha medo do que? Por favor, Meiling, me poupe de sua explicação sem sentido.

-Tudo o que fiz foi para manter nossa família unida.-confessou sentindo uma lágrima escorrer pela a face.-Tudo o que fiz...

-Fique quieta Meiling.-bradou nervoso.-Não fale nada. Nada do que falar agora vai mudar a visão distorcida que tenho de você. Por favor, saia do meu quarto antes que te expulse...

-Não!!!!! Tudo o que fiz foi por amor a você. Graças a mim você tem o que tem hoje.

-Não fale asneira.-disse abrindo a porta do quarto.-Cansei de tudo Meiling. De você, do seu ciúme e da sua mentira. Hoje tenho consciência de que todos esses anos foram sem dúvidas os piores da minha vida.-concluiu triste.-Amanhã procure uma casa digna para morar, pois já não a quero mais em minha casa.

-Não... faça tudo comigo... Mate-me, mas não me expulse dessa casa.

Não adiantava o desespero, as lágrimas, o arrependimento. Não adiantava se humilhar... Estava tudo acabado. A expressão de Shoran era contundente. Ele não a mais aceitaria de volta, e para por um ponto final naquele ciclo de mentira a colocava para fora daquela casa com dignidade.

-A partir de amanhã não a quero mais sobre o meu teto. Não te deixarei desamparada, mas jamais contará com o meu carinho e respeito. Acabou Meiling...

Era a melhor decisão que tomava há anos. Já não suportaria conviver com Meiling. Já não confiava nela e temia que a mulher fizesse algo para Sakura. Não agüentaria a tensão de não saber qual era o próximo passo daquela maluca.

Tinha tomado uma decisão que deveria ter tomado a muitos anos atrás. Não tinha motivo para se arrepender de nada... Agora tinha apenas que se concentrar no paradeiro da filha e no seu amor por Sakura. Mas primeiramente tinha que vê-la e entregar aquelas flores de cerejeira que havia comprado especialmente para ela.

Sakura não conseguia se olhar no espelho. A falta de notícia estava a matando, a cada minuto que passava mais seu coração dava sinal de que estava mais distante da filha. Daria tudo o que tinha em troca de uma notícia concreta sobre o seu paradeiro. Suas jóias, seus vestidos, seu nome de nada valia sem ter sua filha ao seu lado. Havia um ditado que dizia longe dos olhos, perto do coração. Sim, estava longe da filha, mas perto do coração atormentado dela. O que se passava pela aquela cabecinha a deixava desarmada.

-Seu marido tem visita para o jantar, Sakura.-Mai falou entrando no quarto.-Um casal estranho que nunca vi antes na minha vida... Mas o homem é bem semelhante a uma pessoa que conheço...

-Não tenho fome.-falou indo até a janela.-Fale para meu digníssimo marido que não irei jantar com ele hoje.

-Falarei, mas você sabe como Yukito é...

-Eu conheço meu marido, Mai.-falou olhando para o vestido de cetim.-Pode ficar tranqüila que sei lidar com ele.

-Mas você está tão linda, Sakura.-falou sorrindo.-Será uma humilhação para aquela...

-Não me fale dela, Mai.-cortou nervosa.-Para mim meu marido pode ter mil amantes, eu não o amo...Queria apenas ser respeitada. Prefiro ficar aqui com os meus pensamentos a ter que ter um jantar indigesto.

Sakura brilhava como a lua que despontava no céu de Pequim. Mesmo vestida de forma simples ela conseguia brilhar como a luz da noite. Para ela a amiga devia descer e mostrar a todos do que era capaz. Por mais que a amiga fosse bonita e brilhante, mas ela ainda ficava com medo da reação de Yukito.

-Shoran está lá também...

-Shoran? Mas como? Pensei que ele ainda não tivesse voltado...

Estava tão surpresa como nervosa. Shoran devia uma explicação a ela, e nem ao menos se dignara a vim falar com ela sobre o paradeiro de sua filha. O que havia acontecido? Talvez estivesse errada em sua maneira de pensar em Shoran.

-Bem, quando o vi estava pálido como papel e acabava de chegar.-informou sorrindo.-Nem ao menos se dignou a olhar para o rosto de Yukito e de seus convidados.

O que havia acontecido afinal? Será que ninguém percebia o quanto estava nervosa com aquela situação toda. Ainda tinha esperança de que tudo se resolvesse, mas algo lhe dizia que teria que enfrentar tudo e todos para ter o que mais desejava no mundo, que era ser feliz. Não queria ter ilusão, há muito tempo havia perdido essa capacidade de sonhar. A vida nunca havia sido fácil para ela.

-Não vou descer, Mai.-decidiu com convicção.-Não quero apresentar um papel ridículo na frente de todos. Ainda tenho orgulho e não irei me rebaixar ao nível de meu marido. Fale para ele que estou indisposta.

Mai não mais falou, apenas com um gesto deu um beijo na testa de Sakura e saiu decidida a fazer o que a grande amiga havia falado. No lugar de Sakura com certeza faria a mesma coisa. Mesmo para uma mulher que não amava o marido deveria ser uma humilhação ver a amante do marido a seu lado sendo tratada da mesma maneira que ela. Nunca fora casada, mas sabia que nunca iria tolerar uma situação igual aquela. Mas também jamais deixaria que alguém tentasse sequer tomar seu lugar.

-Pense bem, Sakura. Não é certo você ter que ficar presa aqui enquanto seu marido utiliza do prestígio que alcançou graças a seu pai para fazer o nome dele.-concluiu fechando a porta.

Ela havia falado a verdade. Não era justo ficar se escondendo quando o marido utilizava seu nome para conseguir fama e prestígio. Nunca fora idiota e sabia que Yukito não saíra de bolsos vazios quando se casaram há dezessete anos atrás. Seu pai quando descobrira sua gravidez deixara bem claro que não aceitaria um bastardo em sua família e que ela tinha apenas duas escapatórias, casar com um homem que aceitasse aquela condição, que era assumir o filho de outro homem, ou quando a menina nascesse ela (como mãe) doasse a criança para adoção. Naquela época pouco importava com quem casasse desde que não fosse obrigada a dar seu único bem, que era aquela criança. Um casamento arranjado com um general falido depois de uma rebelião não seria nada mal, mas ele não sairia perdendo com tudo aquilo. Nunca ficara sabendo o preço que ela e o seu bebê valiam, mas em uma discussão ele deixara bem claro que fora pouco. Talvez estivesse mais do que na hora de enfrentar o marido e mostrar para ele que não fora o objeto mudo que durante anos ele manteve guardado num quarto fechado.

-Você pode, você deve, você tem que mostrar o que tu és para seu marido.-sussurrou borrifando um pouco de perfume na pele do pescoço.-Só assim terá forças para mostrar a ele que aquele casamento de fachada tinha que acabar.

Não estava mais disposta a se sacrificar para manter um casamento que só existia no papel. Um casamento que fora mais um contrato de livre acordo do que realmente uma união de quase vinte anos. Já estava com quarenta anos, idade suficiente para tentar ser feliz nos poucos anos que ainda lhe restavam. Não iria mais se sacrificar para manter um casamento que só beneficiava Yukito e ninguém mais.

"Eu quero que você seja muito feliz"

Sim mamãe, eu serei feliz. Não mais por ninguém, mas sim pela a minha filha e Shoran, pois não viverei sem eles. Hoje mesmo acabarei com esse casamento de mentira. Não dá mais para agüentar a falta de respeito com que Yukito me trata, e mesmo que me tratasse com o respeito que mereço não o amo e acho que ele deve ser feliz com outra mulher. Já não me importo com o que vão falar de mim...O que realmente me importa é o amor de Shoran.

Tenho que ser feliz, muito, mas muito feliz. Pois já havia pagado um preço muito alto por sua covardia.Abrindo a porta do quarto teve uma surpresa que jamais se esqueceria em sua vida.

-Shoran...-sussurrou sentindo-se cada vez mais decidida a lutar por seu amor por ele.

-Sakura... Desculpa por não ter vindo vê-la antes, mas infelizmente tive que colocar alguns assuntos ainda pendentes em dia.-falou estendendo as flores para ela.

-Eu sabia que viria.-falou sorrindo puxando ele pela a mão.

Shoran não esperou mais nem um minuto e beijou-a com paixão. Nunca mais desistiria de Sakura e seus beijos, o seu amor por ela crescia cada dia mais, a cada segundo percebia o quanto necessitava dela em seu dia-a-dia. Nunca mais iria deixar ela ir embora... Nunca mais...

-Eu te amo, Shoran...-sussurrou olhando diretamente nos olhos.-Nunca mais irei ir embora.

-Como você pode deixá-la mudar de quarto, Marta?-perguntou Chang nervoso.-Deixei bem claro que era para tomar conta dela enquanto estivesse fora...

Odiava receber aquele tratamento frio dele. Parecia que Chang não estava nem ao menos prestando atenção na forma que havia se arrumado para ele. Apenas tinha os pensamentos e revolta voltada para aquela japonesa. O que mais a deixava nervosa é ter que presenciar o desespero dele só pelo o simples fato de Hanako ter saído daquele quarto para se mudar para um que ficava a poucos metros dali. Bem ou mal Chang sentia algo por aquela garota. Algo que a deixava nervosa e terrivelmente tensa, pois era um sentimento que fugia de seu controle.

-Não pude fazer nada, Chang.-respondeu encarando o moço.-Aquela jovem é teimosa, tentei impedi-la, mas ela estava decidida a ficar em outro quarto.

-Mas mesmo assim Marta.-falou andando de um lado para o outro.-Aquela garota está sobre minha responsabilidade...

-Ela não se mudou para o Brasil, Chang.-cortou ela cravando as unhas na palma da mão.-Ela está a poucos metros de distância de seu quarto sendo muito bem cuidada por Kaho e sua filha. Por favor, não venha com drama.

Nada media seu desespero quando não encontrara Hanako em seu quarto. Ainda mais quando ouvira da boca de mister Kaho que a menina estava muito bem instalada em um quarto da pensão e que ela já não era mais de sua responsabilidade. A sua ira há essa hora subira quase a ponto de gritar para quem quer que fosse que Hanako era sua responsabilidade sim, era desde o momento em que colocara os olhos nela... Desde o momento em que a tocara e sentira o perfume adocicado de flores. E não admitia que ela o tratasse daquela forma... Aliás, merecia um pouco de consideração da parte daquela estrangeira.

-Você não me entende, Marta...

-O que tenho que entender Chang?!-exclamou em voz alta.-Que você se sente atraído por ela, a ponto de não se imaginar mais longe de sua amada, que está tão obcecado por ela que nem mais me olhar como mulher...

-Não fale bobagem.-Chang falou raivoso, ao mesmo tempo pálido.

-Bobagem?!-falou sarcástica.-Bobagem é vossa senhoria me beijar como se fosse uma prostituta para apenas afastar aquela menina de você. Bobagem é você estar me usando da forma mais vil para fazer ciúmes a Hanako...

-Cale a boca, Marta!-ele exclamou sentindo a ira tomar conta de seu corpo.-Nunca te usei, e se a beijei hoje foi porque queria...

Era mentira. Tanto ele como Marta sabia que a beijara para afastar Hanako. Jamais havia amado Marta, o máximo que chegara a sentir por ela foi desejo, que agora virara pó. Via aquela garota mais como amiga do que amante.

-Então me beije agora, que sua princesa não está aqui para presenciá-lo.-desafiou Marta nervosa.

Não tinha escapatória, havia colocado a corda no pescoço... Sua obrigação era não desiludir mais uma pessoa. Beijaria Marta, mas ao mesmo tempo não seria ela e sim Hanako. Agiria da mesma forma que fizera de manhã. Só que daquela vez não fugiria dos olhares constrangidos de Hanako.

Provando algo que não queria, Chang beijou Marta. De forma fria e calculável. Não amava aquela mulher, e jamais iria amá-la... Jamais.

Hanako observava aquela cena ridícula com lágrimas nos olhos. Em pensar que devia explicação a ele. Estava mais do que óbvio que ele estava feliz por ter sua privacidade de volta. Afinal ele e sua amante tinham que ter horas de prazer e alegria. Já não tinha mais nada o que fazer ali. Viveria sua vida sem ilusão... Estava desiludida com tudo e todos.

Olá Pessoal!!!!!!!!!!

 Bem, coitadinha da Hanako!  Não sei porque sempre tenho que fazer um personagem.  Acho que pelo o fato de ter uma alma dramática sempre acabo caindo para  "Folhetim"  de escrever.  Pretendo melhora um pouco nesse aspecto.

No próximo capítulo muitas coisas novas iram acontecer.  Como minha amiga Li falou em seu e-mail.  Estou caminhando para o final.  Pode at mesmo passar do capítulo40,  pois quero da um final digno e não algo corrido e mal feito.  Mas o final est próximo.

Beijos para: Carol Higurashi Li, Dani Glatz, Dark-chan, RubyMoon, miaka, Bella-chan, Warina-Kinomoto, Laine,Hime Hayashi, Rafinha Himura Li, Anaisa e RêChan. É um beijo a minha colaboradora oficial Lídia.  

Espero muito contar com as opiniões de todos.  Ainda mais agora que a fic está no final.  Espero elogios e críticas,  pois sempre evoluo quando leio a opiniões de todos vocês.

Muito obrigada!!!

Beijos!!!!!!!!!

Annah