Ciúmes! Dor! Sarcasmo! Aves da noite!
Vós povoais-me a solidão sombria,
Quando nas trevas atormenta ulula
Um uivo de agonia!...
Castro Alves
Capítulo 39- Penúltimo
Chang não conseguia ignorar o próprio medo. Era aterrorizante perceber que uma grande amiga estava partindo. Infelizmente Marta era apenas isso para ele... Não podia sentir nada por aquela garota a não ser compaixão e pena. Sim, sentia muito por ela ter cometido aquela burrice.Afinal não havia preço para vida. Não podia conceber que ela se sacrificara por amor a ele... Não podia acreditar que uma mulher tão altiva e determinada poderia cometer uma idiotice daquele tamanho para provar que o amava. Infelizmente o coração não escolhia por quem se apaixonar... Não seria fácil amá-la, mas com certeza não sofreria por Marta nunca... Apenas lamentava por aquela situação constrangedora ter acontecido. De nada resolveria aquela atitude impensada e imatura de Marta. Infelizmente seu coração já tinha dona... e no momento sangrava por ela.
-Ela ainda tem alguma chance de se recuperar, doutor?-perguntou Kaho aos pés da cama.
Levando as mãos a cabeça, Doutor Yung fechou os olhos e sensitivamente falou:
-Apenas um milagre é capaz de devolver a vida a essa moça, senhorita Kaho.- pausadamente continuou com o diagnóstico.-Ela irá agonizar por mais algumas horas...Mas posso afirmar que depois de quase quarenta anos exercendo a profissão, essa menina não irá sobreviver. A hemorragia foi intensa e infelizmente levá-la ao hospital seria um gasto desnecessário.
-Então o que podemos fazer para minimizar esse sofrimento?-perguntou Chang com a cabeça baixa.
-Infelizmente meu jovem no caso de sua amiga é só mesmo esperar a hora que Deus lhe der o descanso eterno.-falou o velho pegando a maleta.-Recomendo que fique ao lado dela, pois pelo o que percebi a pequena dama tem um grande carinho por você.-tossindo continuou.-Não importa que loucura ela tenha cometido o importante agora é ela se sentir protegida e amada nesses últimos resquícios de vida.
O que podia fazer. Sabia que estava desperdiçando a única chance de ser feliz ali... se martirizava por saber muito bem o que Hanako estava imaginando dele naquele momento. Na certa aquela cabeça estava pensando que ele amava Marta, o que era uma mentira. Pois por Marta só podia sentir carinho e comiseração por aquela alma atormentada, nem mesmo mais desejo sentia. Mas não podia condená-la por pensar assim da pessoa dele...Teria os mesmos sentimentos se aquele trágico momento estivesse acontecido com ela. Mas agora não lhe restava outra saída a não ser permanecer em vigília no leito de Marta... Era a última coisa que poderia fazer por ela, e acima de tudo o certo a fazer naquele interlúdio conturbado. Saía do céu para entrar no mais frio inverno.
-Farei isso doutor.-sussurrou olhando para a face pálida e quase sem vida de Marta.-Eu sei das minhas responsabilidades...
-Nunca duvidei disso menino.-falou batendo nas costas dele.-Aliás, fui o seu primeiro médico.
-Nem me lembre desse fato doutor.-falou sorrindo timidamente.-Até hoje morro de vergonha pelo o que minha mãe o fez passar.
-Mãe é mãe, Chang.-falou indo até a porta.-Repousarei hoje na pensão da minha cara amiga, Kaho. Caso necessite de minha ajuda é só me chamar no quarto ao lado.
-Não hesitarei em recorrer as suas bondosas mãos, Doutor.
-Nem sempre tão bondosas, garoto, mas faço o que posso.-disse fechando a porta.
Kaho olhava abismada para o corpo desfalecido de Marta. Nunca fora com a cara da garota, mas isso não queria dizer que queria o mal dela. Desde o começo já previra que isso iria acontecer...Percebia pela a alma atormentada da garota que ela jamais aceitaria perder Chang para Hanako. Mas daí a suicídio é um longo caminho. Não a julgava, pois não seria justo ela que tanto fez por amor, condenar um ato impensado de uma jovem, mas não podia deixar de condenar tamanha estupidez, já que aquilo não mudaria em nada os fatos... Percebia pelo os olhos de Chang o amor dele por Hanako, e aquele sentimento era algo mais forte do que as forças dele. Era contra aquele relacionamento, mas nada ela poderia fazer. Apenas torcia para que aquela derradeira história não terminasse em algo mais trágico do que já estava decorrendo.
-Eu vou resolver alguns problemas decorrentes a essa lamentável situação, Chang.-informou Kaho retirando a carta presa no kimono.-Ao adentrar no quarto a segunda coisa que vi foi essa carta destinada a você, o que já indica que ela pretendia se matar... Relutei muito a entregar essa carta a você pelo o simples fato de não querer vê-lo sofrer, mas...mas agora perante essa situação não vejo outra escapatória.-concluiu entregando a carta na mão dele.-Não deixe que essas palavras de uma mulher com o coração partido e com a mente atormentada o feche para o mundo... Ela fez a escolha dela, cabe a você decidir a sua sem ser influenciado por meia dúzia de palavras jogadas ao vento.
Chang apenas olhava para a carta... Nenhuma palavra coerente sairia de seu lábio naquele momento. Nunca poderia imaginar que Marta seria levada a cometer um ato de egoísmo e covardia tamanha. Não se sentia culpado ao contrário lamentava e muito que o seu relacionamento com Marta tenha acabado dessa maneira tão fria e impessoal.
-Obrigado por tudo senhorita M...
-Não há motivos para agradecer, menino.-falou abrindo a porta.-Nesse momento apenas temo por você e por Hanako, e não por ela que logo será chamada para o descanso eterno.
Ele escutou o estrondo da porta sendo fechada. De forma doída fitou o corpo sem vida que estava a sua frente. Perguntava-se inutilmente o motivo para tamanho disparate. A resposta não vinha...Talvez as obtivesse naquela missiva, mas quem sabe viveria na dúvida. Isso seria o castigo dela? Não sabia.
-Por que você fez isso, Marta?-sussurrou olhando para os pulsos enfaixados dela. Ao ver aquele pedaço de trapo ensangüentado sentiu uma terrível dor na boca do estômago.-Por que? Tinha tantos anos pela a frente... tantos homens que você poderia vir a amar...
Ela já não estava mais ali, o seu único elo com ela era aquela carta... Tinha que lê-la mesmo que isso o transtornasse depois. A alma dela já tinha feito um vôo para outro lado da linha... Nunca mais veria Marta sorrindo ou falando. Marta estava morta e a única coisa que restava dela era uma carta e os últimos suspiros de uma mulher sofrida e que o amou de uma forma distorcida.
Abrindo a carta Chang se pôs a ler com o coração doendo...
Querido Chang,
Sei que deve estar me odiando por minha fraqueza... Eu apenas posso lamentar por nosso relacionamento ter acabado dessa forma tão trágica. Não tiro sua razão... mas não posso viver sem ter o seu cheiro, o seu carinho e o seu corpo ao meu lado. Ainda mais sabendo que agora uma mulher o tem por que infelizmente nunca fui capaz de ter.
Invejo Hanako, mas não a odeio...apenas lamento por não ter os olhos verdes e cristalinos que tanto o encantou. Sou a Marta, apenas a Marta sua grande amiga, mas jamais sua mulher.E isso conta e muito...
Como Tao sempre disse: "Chang jamais será seu... Afinal ele é o espelho da família". Mas não foi sua família que nos separou, e sim uma mulher.
Já era a minha hora... O que iria fazer nesse mundo sem você? Eu iria ser uma morta viva, e o que é pior sem nenhuma esperança de vida. Optei pela a morte, ela é mais fácil no momento e a mais amiga.
Por favor, não tenha ódio de mim... Eu apenas fiz isso por amor e por você. Viva a sua vida com Hanako e tenha muitos filhos com ela... se puder se lembre de mim. Não como a maluca apaixonada, mas como a única mulher que não viu saída a não ser seu amor.
Adeus Chang!!!
Ai vão meus últimos beijos!!!!
Ass: Marta.
Não pode nem sequer chorar...Apenas lamentava por tudo. Lamentava por não ter correspondido o amor sublime que ela humildemente havia lhe oferecido, lamentava por Hanako que também sofria com aquela situação...lamentava por ele por estar sendo corroído pela a culpa.
-Por amor não se morre, Marta.-sussurrou beijando o rosto dela.-Por amor as pessoas vivem...Você não sabe o verdadeiro significado de amar...Arrependo- me de não ter sido seu grande amigo antes que cometesse tal barbaridade, talvez se tivesse tido uma sensibilidade com os seus sentimentos você não estaria morrendo.
A respiração dela era fraca, tão fraca que só podia ser sentida com o leve movimento de seu abdome. Ela tinha poucos momentos de vida, mas mesmo assim reunira o pouco de força que tinha para vê-lo pela a última vez. Não se arrependia de ter cometido aquela loucura.... Afinal teria a paz tão desejada. Não queria apenas vê-lo com aquele tom de voz sofrido se culpando por aquele relacionamento ter acabado daquela forma. Queria do fundo do coração que ele fosse feliz com a pequena japonesa...Doía pensar neles, mas já não havia motivo para ter ciúmes... Não agora que se via rodeada por luzes brancas, o seu amor por Chang já não tinha importância, a única coisa que importava era a felicidade do único ser que amou.
-Chang... meu Chang... olhe para mim.-sussurrou com a voz fraca quase sem nexo, passando as mãos machucadas na face dele.
Ele olhava para ela como se fosse um ser de outro mundo. Ela via uma emoção latente nos olhos dele... ele a amava de uma forma diferente, como um irmão, mas sim ele gostava muito dela. Só em saber dos verdadeiros sentimentos dele já havia ficado muito feliz e tinha a certeza que sempre estaria na memória dele de uma forma tão cândida que a deixava eternamente grata.
-Marta...Marta... por que fez isso?-perguntou desesperado beijando a mão dela.-Você queria me castigar por não amá-la como queria?...Eu não tenho culpa...
-Shhh, Chang.-falou carinhosamente.-Não fiz isso para chamar sua atenção...fiz porque não via saída para minha solidão...Fiz por ver todos os meus sonhos caídos por terra, jogados ao vento...
-Nada justifica o que você fez para si mesma.-pausadamente ele sentiu os olhos arderem, mas jurou para si mesmo que não iria chorar na frente dela.- Você está morrendo, Marta...morrendo por um erro sem volta.
-Eu não me arrependo de nada que fiz, Chang... mas não poderia viver sendo apenas sua grande amiga...
-Amar não é sofrer.
-Mas quem nunca sofreu por amor?!-falou sorrindo.-Você sofre por amor... Nesse momento queria estar com a bela japonesinha, mas não pode por estar com uma semimorta...-foi interrompida por um acesso de tosse, mas continuou.-Estou morrendo Chang e preciso como nunca aliviar minha consciência falar de coisas que jamais julguei capaz de lhe contar...
-Não é necessário, Marta.
-É necessário sim... Não posso morrer e deixar que a maldade de Tao fique entre você e aquela garota.
-C-como assim? O que Tao tem a ver com essa história toda?-perguntou confuso.
Seu corpo estava adormecido e quase sem vida, mas não podia deixar que Tao continuasse com aquele plano desumano com Chang...e com o clã Li. Havia guardado segredo por uma questão de honra, mas agora percebera que só estava sendo desonesta com aqueles que lhe estendera a mão. Tinha que fazer algo por Chang para que pudesse descansar em paz... Talvez assim Deus tivesse piedade por sua alma pecadora e ceda um pedacinho do céu a alma cansada dela.
-Não sei o que ele pretende, aliás, pouco ele falou comigo sobre o seu passado. Mas, porém um dia escutei por de trás da porta que ele desejava muito se aproximar de você, pois sendo um Li seria mais fácil cumprir sua missão.-tossindo voltou a falar, rezando para ter forças e seguir com o que tinha para dizer.-Quando ele pôs os olhos em Hanako percebi um brilho estranho nos olhos dele... era como se ele tramasse algo contra aquela menina...
Chocado Chang não tinha reação... Não tinha palavras já que Tao era a última pessoa que ele um dia poderia desconfiar. Mas agora algumas perguntas sem resposta começavam a ser solucionadas.
-Hoje quando tomei a decisão de cometer suicídio vi Tao entrando transtornado na pensão.-respirando com dificuldade prosseguiu.-Devo estar errada Chang, mas acho que ele voltou para fazer algo contra Hanako... eu percebi o desejo incontrolável dele de possuir tudo o que é seu...
-Não posso acreditar... Tao não iria cometer tamanho desatino.-sussurrou sentindo um grande peso reprimir seu peito. Embora não quisesse acreditar no que Marta lhe dizia, tudo fazia sentido à medida que os segundos passavam... Não havia explicação mais lógica para Tao querer ajudá-lo a não ser se aproximar mais de sua família tendo assim acesso às coisas que ele não contaria a qualquer estranho. Mas o que mais o deixava nervoso era o fato que envolvia Hanako, havia percebido a mesmíssima coisa que Marta... e a cada milésimo ficava mais comprovado que seu grande amor corria algum risco de vida.
-Eu sei que sou a última pessoa que deve confiar, mas não tenho motivo para mentir sobre um assunto tão grave... Eu não te amei assim que te vi Chang.- confessou ela fechando os olhos.-Eu me interessei por sua aparência e dinheiro, e depois fui amando o ser humano digno que você...é.-como decretando a própria morte ela juntou as suas últimas palavras e falou.-Vá, vá e proteja Hanako com a sua própria vida, e jamais a deixe... É só isso que lhe peço, pois eu te amo...Pois eu te amo...
Chang olhou para a mulher quase morta a sua frente e não mais reconheceu Marta naquele corpo. Ela estava partindo...aliás, ela já havia deixado aquele plano.
-Eu também te amo, Marta.-falou o que mais ela desejava escutar.
-Como queria escutar essas palavras... mesmo sabendo que elas não são verdadeiras...-falou Marta sorrindo.-Me beije pela a última vez, Chang.
Naquele momento daria tudo o que ela lhe pedisse. Aqueles eram os últimos momentos de vida de um ser humano sem sorte, sem vida, que apenas havia amado e pecado por amá-lo de forma errada.
Levando os lábios ao dela, ele pousou nos lábios secos e sem vida. A única coisa que importava era que Marta partisse feliz, e que ele assim fosse procurar Hanako e cumprir a promessa que havia feito a ela.
-Adeus Chang...-sussurrou fechando os olhos para eternidade.
Chang não conseguiu chorar, pois o sentimento de perda era seu maior sofrimento.
-Adeus Marta.-sussurrou levando a mão dela até o rosto onde deu o último beijo naquela mão sem vida.-Nunca irei te esquecer...
Repousando a mão sem vida dela ao lado do corpo, Chang se levantou e seguiu seu caminho. Marta já não sofreria mais, mas ele sim ainda tinha uma longa estrada pela a frente. Teria que enfrentar dragões e cobras no caminho de sua felicidade. Sempre teria uma lembrança doce de Marta. Mas agora a única coisa que importava era Hanako... Iria atrás de seu grande amor e imploraria para que aquela dama se casasse com ele, pois temia perdê-la... Já não concebia vida sem aquela flor.
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Já estava cansado de mentiras bobas, por causa de sua omissão havia perdido Sakura pela a segunda vez. Agora não iria perder também o sobrinho o qual considerava como filho. Antes que Tao contasse a versão dele sobre o traumatizante passado ele iria revelar que o grande amigo do sobrinho era na verdade seu irmão. Quem sabe assim pudesse conseguir o perdão dos deuses e voltasse a ter Sakura ao seu lado... Tudo era uma incógnita, mas não podia perder a esperança de tê-la de volta a seus braços. Se perdesse esse sentimento de segurança com certeza desejaria a morte, pois certamente não haveria mais condições de viver sem ela.
Agradecia mentalmente a Tai por tê-lo ajudado naquele interlúdio tão difícil. Eram naquelas horas que realmente se sabia quem era ou não amigo de verdade. Mesmo inocente e não sabendo uma vírgula do seu passado que pudesse a vir desconfiar sobre Tao, Tai lhe abrira os olhos e contara para ele onde Chang se encontrava. Tinha entre as mãos o endereço do lugar em que seu querido sobrinho estava hospedado... agora era só orar para Buda e apertar mais os passos, pois o dia já amanhecia na capital não oficial da China.
Evitava todas as formas pensar na gravidade de sua situação com Sakura agora que a verdade viera à tona... Não podia julgá-la ou muito menos cobrar algo que não tinha direito. Ela pertencia a outro e agora o odiava, pois fora com aquelas malditas mãos que tirara a vida de seu amado irmão. Ninguém nem mesmo Sakura podia compreender o quanto ele sofrera com aquilo tudo... Se ao menos pudesse aliviar um pouco o sofrimento de sua fada, mas nem isso ele poderia fazer por ela. Não lhe restava alternativa a não ser dar tempo ao tempo... e nada mais. Aquela situação era frustrante, mas ele havia feito uma escolha e rezava para ter feito a escolha certa... Senão seria condenado pela a segunda vez, condenado a viver na escuridão do mais profundo deserto.
"Compreenda os sentimentos de Sakura. Ela amava Touya com um amor cego e desprovido de ver a face real da personalidade daquele guerreiro bondoso ao mesmo tempo cruel... Ela voltará assim que você trazer o rebento perdido para os braços dela... Hanako é a sua filha e no momento a sua única redenção". Era isso que sua mente repetia por diversas vezes enquanto ficava parado na porta da pensão... Sabia que ao trazer o passado de volta e dando a Chang um irmão, com certeza Hanako voltaria... E Sakura não iria mais odiá-lo.
"Não posso mudar meus planos agora".Sussurrou mentalmente entrando na casa, e parando no pequeno balcão que havia na entrada. "A muitas pessoas que dependem desse meu ato de coragem. Além do mais minha felicidade está em jogo".
-O que deseja senhor?- a voz do ser a sua frente chamou sua atenção. Era uma menina quase raquítica, mais parecia um duende do que uma garota... Estranhamente lhe parecia com uma pessoa conhecida.-Se for algum quarto me desculpe, mas estamos com todos os nosso quartos ocupados.
Sorrindo, Shoran se limitou a conferir o endereço, pois aquele lugar não era exatamente o que ele havia imaginado, mas naquele momento era a última coisa que importava a ele.
-Não, não é isso senhorita.-disse rasgando o papel.-Meu nome é Shoran Li, sou parente de Chang Li, e recebi algumas informações que ele está hospedado nessa pensão.
-Sim, ele está, mas no momento julgo que ele esteja ocupado.-falou a menina com prepotência. Era a primeira vez que via aquele senhor com pose de rico e com uma petulância que chegava a assustá-la... Aliás, não estava mentindo, aquela noite havia sido terrível para todos naquela pensão até mesmo para ela que havia nascido naquele meio. Afinal um deles estava morrendo.
-Mas senhorita é um assunto de família urgente.-falou impaciente.-Desculpa a minha insistência, mas não tenho tempo a perder...
-Eu vou ver se ele deseja falar com o senhor, mas não garanto nada, pois foi por ordens dele que insisto tanto em não deixá-lo entrar, e como nossa obrigação é obedecer à ordem de nossos clientes, não me resta...
-Compreendo e respeito à ética do estabelecimento, mas não há formalidade alguma que me empeça de falar com o meu sobrinho.-rebateu olhando de forma agressiva para a menina. Sabia que agia de forma impensada com quase uma criança, mas a situação o fazia agir daquela forma.
-Mas aqui não é a sua casa, e não aceito receber ordens de pessoas prepotentes como o senhor está sendo.-falou mal-educada como ele também estava sendo.-Eu irei fazer um favor para a senhoria, não por prazer mais porque minha mãe me ensinou a ser educada. Agora se me der licença vou avisar Chang que o senhor está o esperando... não posso garantir nada, mas vou pelo menos tentar.-disse subindo a escada.
Aqueles olhos, aquela forma de falar eram idênticas a de Touya. Sim, era da mesma forma arrogante e orgulhosa que ele falava quando empunhava uma espada. Era com aquele mesmo olhar de crueldade e prepotência que ele havia morrido. Não podia ser? Aquilo era tudo fruto de sua imaginação. Aquela garota que mais parecia um duende não era filha...
-Não, não pode ser...-sussurrou para si mesmo.-Devo estar ficando maluco, mas tenho certeza de aquela garota é filha...
-Sim, Shoran. Aquela garota cheia de vida e arrogante é Marien, filha bastarda de Touya Kinomoto, o único homem que amei e o homem que você tirou a vida.-a voz feminina soou em suas costas.
Como se levasse um grande choque Shoran olhou para Kaho que sorria timidamente para ele. Aquilo mais parecia um pesadelo... O mundo havia mudado e dado voltas e ele ali parado, surpreso por Kaho, à única irmã que conhecera está voltando a sua vida.
-Kaho...
-Sim, sou eu meu irmão.-disse indo até ele.-Eu sabia que isso um dia iria acontecer...
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Hanako não sabia que atitude tomar perante o monstro que aquele homem se formava a sua frente. Era inconcebível ter que sofrer mais do que já sofria, mas parecia que seu Deus a havia abandonado definitivamente...Perguntava-se incessantemente para ele o motivo por ela passar por tantas privações sendo ela uma serva tão fiel. Aquela era sua sina, era sua cruz, era o caminho cheio de espinho que tinha que percorrer.
-Eu mal o conheço...-sussurrou olhando assustada para ele.
-Mas eu conheço muito bem a senhorita.-rebateu se aproximando mais dela.
-Nunca vi sua face cruel na minha vida. Não sei o que pode saber tanto da minha existência.
-Ai que se engana, minha jovem.-pausadamente continuou.-Sei tudo sobre a sua vida...Sei que é uma bastarda igual a mim e que seu pai é quase dono de toda a China.
-C-como assim...-Falou ficando presa na parede.-O senhor não tem o direito...
-Tenho sim, minha dama.-disse tocando a face de Hanako, o que causou uma certa repulsa na menina.-Calma, calma fadinha...Sabia que é muito bonita? Desde o momento em que pus os olhos em você tive certeza de que seria minha.
-Jamais serei sua...Você é um estranho que por motivo nenhum veio atrapalhar a minha paz.
-Se não for minha não será de mais ninguém, nem mesmo de meu caro parente Chang.-falou sentindo prazer no desespero dela. Não mentia, admirava cada vez mais aquela menina que fizera seu irmãozinho perder a cabeça...Além do mais sentia um desejo físico quase latente pela a jovem e desprotegida Hanako.-Não vim atrapalhar a sua paz...Vim apenas cumprir minha missão.
-Seja qual for sua missão eu não tenho nada haver com isso.-falou tremendo de medo e raiva.
-Ai que se engana, Hanako.-disse olhando para a face transfigurada pelo o medo.-Você é a peça fundamental para todo um mistério.
Era horripilante sentir o contato da mão dele sobre a sua pele; nunca se julgara capaz de sentir tamanha repulsa por um homem que conhecera a pouco menos de um minuto, mas já tinha certeza que o odiava mais do que sua própria vida. Preferiria ser picada por mil víboras a ser tocada por um estranho que tinha os olhos tão frios e a face que cada vez mais, ficava sombria conforme a luz da lua dava lugar aos raios do sol.
-Não sei o que está falando e nem desejo saber, quero apenas que o senhor se retire antes que comece a gritar e Chang venha me socorrer.-ameaçou ela sabendo que faria de tudo para não ser tocada por aquele homem.
-Não me faça rir, pequena.-disse pegando os braços dela a impedindo assim de fugir.-Será pior e mais sofrida a sua entrega a mim...
-Jamais serei sua...
-Eu digo e afirmo que será minha como afirmo que a lua cedera o seu lugar ao sol.-afirmou ele gargalhando contendo o impulso de beijá-la.-Sei quem é seu pai... Não, não é aquele trouxa japonês. Sei que também é dona de uma fortuna, e que seu pai o todo poderoso Shoran Li é meu tio e o que é mais interessante tio do seu querido e amado Chang.
Hanako naquele instante sentiu a face empalidecer e as pernas ficarem moles. O mundo não poderia ser tão pequeno e aquele senhor não poderia saber tanto da vida dela... Poderia até saber que ser ou não filha de Yukito já não fosse um segredo, pois as diferenças entre ambos eram como a água e o vinho, e Sakura infelizmente não era uma alquimista para transformar ouro em prata.
-O senhor só pode estar brincando comigo... Isso é impossível...E ilógico.- falou mais mortificada do que já estava.
-Eu não estou brincando. Se quiser quando terminamos a nossa pendenga poderemos assim voltar para o seio de sua família, da qual tirará as próprias conclusões.-falou tranqüilamente aproveitando do momento frágil em que Hanako se encontrava para prendê-la novamente entre os seus braços.
Sabia que ele não mentia podia ver nos olhos dele. Mas mesmo assim não podia deixar de ter dúvidas, afinal o que estava acontecendo em sua vida? Quem era aquele homem que mais parecia um monstro? O que mais o destino lhe reservava? Naquele momento a única coisa que queria era fugir para sempre daquele mundo...fugir de tudo e de todos...
-Por que está fazendo isso comigo? O que eu lhe fiz?-perguntou chorando.
-Oh, anjinho, não fique assim... Não minta para mim, sei muito bem que tipo de pessoa você é. -disse segurando o rosto dela com violência.-Não se faça de santa, Hanako, na verdade você e sua mãe são da mesma laia.-estava farto daquela situação, sabia que Hanako não era tão inocente assim como todos imaginavam. Tanto ela como a mãe eram duas golpistas de grande porte, e Yukito era igual, pois que homem aceitaria ter a esposa junto do amante no mesmo teto.-A dama será minha como foi de tantos os homens pelo mundo a fora.
Hanako se assustou com a violência do gesto de Tao. Como se não bastasse a violência física, com ele fungando como porco e rasgando seu kimono, agora usava o artifício da violência verbal. Atacando sua integridade, humilhando sua mãe que fora a única a lhe dar apoio e clemência. Não queria nada de seu pai biológico... Um, porque tristemente nunca tivera um pai, e por mais que sentisse a falta de um, tinha certeza de que não conseguiria amar esse senhor rico que agora aparecia em sua vida.
-Me solte... Eu te odeio, jamais me deitarei com um homem que me chama de cortesã e humilha minha mãe sem nunca tê-la conhecido.-falou com tamanho ódio que cuspiu na cara dele.
-Eu conheci muito bem a senhora sua mãe, e sei que tipo de mulher ela é.
De uma forma surpreendente, Hanako conseguiu se livrar dos braços de seu carrasco e acertou um tapa no rosto dele.
-Sua cadela...-sussurrou a prensando ainda mais na parede, e violentamente falou.-Você é uma desgraçada menina, mas mesmo sendo uma perdida continua bonita e eu a terei nesse momento. Se não for por bem será por mal...
Hanako se debatia quando ele a jogava no chão com violência fazendo assim ela bater a cabeça e rasgar o vestido no chão rústico. Era inútil se debater, aquele monstro era mais forte do que ela. Restava apenas ela gritar e tentar de alguma forma feri-lo.
-Seu monstro.-gritou ela em seu tom mais forte de voz.-Eu te amaldiçôo por tudo o que está me fazendo... Eu quero que você morra vítima de sua própria maldade.
Quanto mais ela se debatia mais ele gostava. Aquela garota tão bonita seria dele mesmo que tivesse que enfrentar uma legião para ter uma noite de prazer com ela.
-Não seja tola menina.Ninguém irá escutá-la.
Ele tinha razão, mas ela morreria tentando... Mesmo que isso lhe custasse à vida não deixaria aquele homem possuí-la. Seu corpo e sua alma pertenciam apenas a uma pessoa... Morreria para não ter que passar por tal humilhação.
-Por favor, me solte seu desgraçado!!!!!-gritou ela - sentiu que a mão dele já abria o espaço entre as pernas.-Por favor, por favor...-ela suplicava em vão, pois ninguém a escutava.
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Sakura estava perdida numa floresta... Era a floresta mais brilhante e pura que havia conhecido, e já não tinha mais vontade de ir embora. Havia anjos e fadas convivendo normalmente... Aquilo era o céu perto do inferno interior que estava passando.
-Olá grande irmã...-uma menina vestida como anjo, mas com asas de borboleta surgiu a sua frente. Tinha a feição igual às de Hanako quando era criança, mas ao mesmo tempo não deixava de ser alguém místico, como toda criança era.-Estávamos a sua espera por tantos anos que até lhe preparamos uma festa digna de nossa rainha.
-Não, não, eu não posso ir.-falou para a fada, encantada com a beleza da menina.-Tenho pressa, pois tenho uma filha a minha espera...
-Minha irmã a pressa é inimiga da perfeição.-falou a garota dançando em volta de seres místicos.-Sua filha voltará para os seus braços, mas antes ela tem que passar por vários obstáculos.
-Mas tenho Shoran...
-Ele cuidará de sua filha e lhe trará a menina de volta.-falou a menina sorrindo para ela.-Agora venha a mais linda de nossas irmãs terrestres, pois esse mundo não é como os céus dos deuses cristãos, mas o paraíso dos seres que precisam de paz e amor... Logo voltará para o seu mundo junto com os seus entes queridos, mas agora venha ser feliz e dançar comigo e com os outros seres de luz.
Sakura foi contagiada por aquele clima de paz e se deixou levar pela a menina com cara de anjo e com o corpo de fada. Descansaria ali, e depois voltaria a viver feliz em seu mundo ao lado de sua filha e Shoran, o homem que nunca deixara de amar, e que não concebia vida sem ele. Aquele era seu momento e iria aproveitar... Deixaria que Shoran resolvesse tudo. Afinal sofrera muito por amá-lo...
Mai fazia uma vigília silenciosa ao lado da cama de Sakura. O dia já amanhecia e de uma certa forma necessitava saber o que havia ocorrido naquela noite...Além de um pressentimento horrível a afligir. Uma horrível dor que atravessava seu peito a cada momento em que visualizava o rosto triste e quase sem vida da amiga. Não tinha a quem recorrer naquele momento, até mesmo tentara falar com Yukito, mas a criada lhe comunicara que o "sir" Tsukishiro tinha saído há muito tempo com uma jovem atraente mulher. Era óbvio que essa atraente mulher não era Sakura, e deu muito bem para perceber isso na feição cínica da copeira. Certamente deveria falar inverdades de sua dama quando estava de conchavo na cozinha.
"Ah, Sakura", pensou passando a mão pelo o rosto delicado e envelhecido da japonesa. "Não nos deixe agora... abra esses olhos e lute pela a sua felicidade. Nós precisamos de você para nos manter unidos... sem você tudo irá pelos ares".
Sabia que suas palavras eram em vão. Sakura estava dormindo profundamente...Dormindo com as fadas e os anjos. Apenas uma pessoa poderia tirá-la daquele sonho, e essa pessoa estava longe do paraíso que Sakura se encontrava.
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-Pensei que nunca mais iria te ver novamente, Kaho.-sussurrou Shoran andando de um lado para outro.-Para mim você tinha sumido no mundo junto com Tshao.
Kaho passou a mão nos cabelos grisalhos e maltratados que um dia foram cobiçados por toda uma sociedade. Mas tudo havia mudado, dezessete anos se passaram. Shoran não era mais o mesmo, já dava para perceber que as marcas de expressão dominavam aquele rosto ainda belo. Ele também não ficara ileso dos feitos do tempo. Agora os antigos camaradas voltavam a se reencontrar, não sabia se fora o destino ou se um mero acaso... Mas ela tinha consigo Hanako, e já estava mais do que na hora da menina voltar para seu verdadeiro lar, o lar que devia ter sido criada... o lar que nunca mais devia fugir.
-Eu jamais abandonaria a filha de Touya.-suspirando continuou.-Quando Fujitaka falou da suposta filha de Touya não tive dúvidas que devia ir ao encontro dela, e agora estou aqui com a minha filha tocando esse pequeno negócio, mas bendito, pois é dele que sobrevivo.
-Você tem o meu sangue também, Kaho, não é justo que viva uma vida sacrificada tendo uma propriedade grande em seu nome.
-Faz anos que renunciei a essa vida, Shoran. E não pretendo voltar jamais a ela...
-Devia pensar nessa menina, e no futuro dela quando não estiver aqui para socorrê-la caso ela sofra de alguma enfermidade.-falou irritado.-Além do mais me sinto responsável por essa...
Kaho percebera a dor nos olhos dele ao se lembrar daquele triste episódio que acarretara a morte de Touya. Eles teriam sido grandes amigos se não tivessem se conhecido de forma tão trágica. Às vezes chegava a duvidar dos caminhos que Deus traçava em suas vidas.
-O que aconteceu entre você e Touya já passou, meu caro Shoran.-falou olhando com carinho para o velho amigo.-Agora o futuro está nas nossas mãos.-completou com entusiasmo.-Cabe a nós guiarmos Marien, Hanako e o seu sobrinho Chang para um futuro melhor do que os nossos foram.
Ele ficou mudo. Nada conseguia tirar aquele peso do coração. Nem mesmo a citação do futuro da própria filha...
-Sim, Hanako está aqui, Shoran.-respondeu a indagação que surgiu nos olhos castanhos dele.-Por um golpe do destino foi Chang que a trouxe para os meus cuidados.
-Não é possível...
Shoran sentia que o coração iria explodir em mil pedaços. À vontade de gritar foi mais forte do que o mau presságio que ainda estava instalado em seu peito. Sim, era um golpe do destino e de sorte... e em pensar que estava ali pelo o motivo completamente oposto. Queria apenas ver com os seus olhos a felicidade de seu anjo ao saber que a filha de ambos estava bem com a grande amiga Kaho.
-Vá Shoran.-falou Kaho notando a felicidade do homem. Ele já não era um moleque e sabia que ele iria fazer de tudo para fazer aquelas mulheres felizes, embora já fosse um pouco tarde para aquilo.-Conte a Sakura, pois eu sei que ela está apreensiva com todo esse mal entendido.
Já não tinha palavras, apenas uma vontade louca de criar asas e sair voando dali... Aquela era a sua última chance com Sakura, e Deus ou Buda tinha de uma certa forma o ajudado a seguir pelo o caminho mais fácil.
-Eu juro que não a deixo sair daqui nem que a casa esteja desmoronando.- brincou percebendo o brilho preocupado nos olhos de Shoran.
-Além de ser uma fada Kaho, você ainda lê pensamentos.-falou sorrindo pegando na mão dela.-Eu serei eternamente grato a você... terei uma dívida eterna de gratidão...
Kaho sorriu ao ver a forma alegre que Shoran corria. Ele parecia novamente um jovem que havia descoberto um tesouro. Realmente ele havia achado um tesouro... o tesouro da vida.
-A única dívida que tem comigo já foi paga há anos, meu amigo. Agora apenas me basta a sua felicidade.-sussurrou subindo a escada.
Precisava conversar com Hanako e colocar na cabeça daquela menina que Sakura não havia mentido para ela, havia apenas omitido uma parte de seu passado que aprendera a ter vergonha.
-Eu irei te matar, seu desgraçado...- Kaho escutou o grito desesperado. Estacando na escada escutou novamente um gemido e depois o silêncio. Nervosa Kaho se deslocou em direção aos gritos... rezando para não ser de quem ela imaginava.
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Chang olhava desesperado para a cena que se desenrolava a sua frente. Hanako lutava inutilmente contra a força desenfreada de Tao. Estava petrificado, mas não era o único a presenciar aquela covarde cena, Marien gritava desesperada, mas era completamente em vão, Chang estava tomado pelo o próprio desejo.
-Faz alguma coisa, Chang.-implorou Marien em desespero.
Não, não queria acreditar naquilo. Era um pesadelo, era uma droga... não podia ser Tao, seu grande amigo que tanto o ajudara. Ele não podia ser capaz daquilo. Não... não podia.
-Por favor, reaja.-falou a menina tentando sacudi-lo de alguma forma.- Hanako está sendo duramente espancada e você nada faz... Que tipo de amor você sente por ela afinal.
A face de Hanako já estava lívida, ela estava desacordada e sofrendo por tudo. Não compreendia o motivo para aquilo, mas a cada tapa que Tao dava nela mais o seu ódio crescia...
Que tipo de amor você sente por ela afinal...
Tinha que salvá-la, naquele instante seu amor por Hanako era mais forte do que sua amizade por Tao. Por mais que estivesse confuso e transtornado tinha a absoluta certeza de que amava com todas as forças aquela menina...Tanto que aquela agressão parecia doer mais nele do que nela.
-Por favor, me solte...-implorou em vão Hanako quase desfalecida. Desistindo de lutar contra a violência daquele brutamonte.
Aquelas palavras distorcidas pela a violência que aquele ato era lhe dado serviu para acordá-lo. Aquele homem que agora covardemente espancava Hanako não era mais seu amigo, e sim seu inimigo íntimo, pois feria a mulher que amava mais do que toda sua existência...
Com os punhos fechados, Chang sentiu que a cada gemido de Hanako trazia mais dor a seu coração. Já não podia mais agüentar aquela cena sem revidar a favor de um ser tão inofensivo.
-Solte-a, Tao.-vociferou Chang com os punhos rígidos.
Os olhos de Chang pareciam uma parede fria e rígida de concreto, o ódio parecia transbordar dos poros do jovem, os lábios estavam tensos. Marien nunca esqueceria daquela expressão enquanto vivesse. Sabia que estava perto de ver dois irmãos se matarem. Aquele pensamento a deixou fria por dentro.
-Não se meta, Chang.-falou Tao se levantado.-Esse assunto só diz respeito a mim e a essa vagabunda.
-Enquanto eu estiver vivo, amigo, jamais o deixarei bater em Hanako.-falou cinicamente, não conseguindo olhar para o rosto amedrontado de seu grande amor.
-Ela merece...-falou levantado Hanako do chão, fazendo Hanako ficar entre seus braços enquanto retirava a faca e colocava no pescoço da menina.-Ela é uma vagabunda como a mãe...
-Solte-a Tao.-ameaçou Chang se aproximando.-Seja qual for sua discórdia com a família dela, Hanako não tem haver com isso.
Rindo em escárnios, Tao se afastou mais de Chang, quando aprofundava ainda mais a faca na garganta de Hanako. Estava desesperado, mas não deixaria isso transparecer...seja o que for seria capaz de matar se fosse preciso. Para salvar a vida de Hanako não mediria esforços em assassinar o próprio amigo.
-Você a ama não é verdade Chang.-falou zombeteiro.-A ama sem ter idéia de quem ela seja... E do que ela representa na vida de seu tio.
-Não me importa o que ela tenha feito no passado, Tao.-falou se surpreendendo com a sua calma.-Apenas quero que a solte.
-Não era para você está aqui.-falou nervoso puxando Hanako pelos os cabelos.-Planejei tudo nos mínimos detalhes, mas como sempre a idiota da Marta deve ter me deixado na mão.
-Marta está morta, Tao.-falou friamente.
-Como ela pode fazer isso... Aquela cadela, sempre soube que ela me deixaria na mão.
-Ela se suicidou, mas antes de morrer deixou bem claro que não era para confiar em você.
-Covarde.-disse sorrindo como um maluco.-Bem, mas esse sempre foi o estilo dela...
-Seja o que for, Tao.-disse tentando sorrir.-Pela a nossa amizade de tantos anos, solte Hanako... Ela nunca fez nada a você...
-Nunca fomos amigos, Chang.-disse passando a faca ameaçadoramente no rosto de Hanako.-Você sempre foi um vínculo entre mim e a sua família. Não irei soltar essa menina agora que estou tão próximo de fazer todos os Lis padecerem em minhas mãos...A primeira será a filha querida de Shoran.
Ele estava louco... Um dia confiara inteiramente naquele homem, mas agora confiava apenas em sua força e no seu amor por Hanako. Não tinha a mínima idéia do que ele falara era a verdade ou mentira. Mas naquele instante não era o momento para polemizar, agora tinha apenas que se concentrar em Hanako que padecia nas mãos daquele louco.
-Não vê como ela é bonita, irmãozinho.-falou segurando com força o rosto dela.-Sei que você está fascinado por esses olhos verdes, como o seu tio é apaixonado pela a mãe dela. Tanto que ambos foram capazes de tudo até mesmo de adultério para viver uma grande história de amor, que romântico não é mesmo?!
Chang sentiu o coração parar de bater ao visualizar o rosto sofrido dela. Não tinha idéia do que ela estava sofrendo, mas sabia que jamais ela iria esquecer daquela humilhação. Mesmo que ela fosse sua prima, nada os impediriam de ficarem juntos.
-É realmente uma pena ver tão belo exemplar da beleza feminina morta, mas o que posso fazer...
Perdendo a paciência, Chang se arriscou. Já não suportava mais aquela humilhação. Salvaria Hanako mesmo que isso lhe custasse à vida. Em um gesto impensado desarmou Tao livrando assim Hanako dos braços mortais daquele homem. Apenas pode ver a menina caindo nos braços de Marien.
-Não compreendo os seus motivos, e não quero nem compreender Tao.-vociferou ele.-Mas de uma coisa você tem razão... Eu amo essa garota, amo e jamais o deixarei tocar nela... eu seria capaz de matá-lo.
Tao não via escapatória para aquele momento. Só tinha um caminho matar ou matar Chang, embora nunca realmente tenha existido um sentimento qualquer por aquele jovem, não podia deixar de pensar que ele era seu irmão. Talvez tudo tivesse sido diferente se eles fossem criados juntos. No fundo Chang sempre representara a ele um jovem que ele deveria ter sido, e isso só o deixava mais rancoroso e bravo consigo mesmo. Teria que matar Chang para continuar com os seus planos... e em pensar que fora por causa daquela vadia que aquele combate acontecia tão prematuramente.
-O que uma criança recém-saída da barra da saia da mamãe pode fazer comigo?- disse sarcástico.-Me poupe Chang.
-Você me menospreza, Tao.-rebateu segurando o cabo do objeto cortante com força.-Não pense que isso me afeta, sei muito bem do que é capaz, mas jamais deixarei que um homem de sua condição física volte a espancar uma dama com tamanha crueldade.
-Chang, você não puxou em nada seu pai ou a sua canonizável mãe.-falou sorrindo como um louco.-Aliás, se não fosse pelo o fato de Shoran ser seu tio e ter o criado, poderia até mesmo pensar que ele é seu pai.-suspirando continuou.-Realmente as coisas não mudam e eu sei que tanto você como aquela vadia ali tem o mesmo sangue... Já pensou os dois apaixonados cometendo um incesto sem saber, que história de amor trágica é essa.
-Cala-te.-falou Chang perdendo um último resquício da calma que possuía.- Você não sabe o que fala. E jamais ouse falar de Hanako com esse tom chulo e indecente.
-Chang você não percebe que não vale a pena brigar por um ser inútil como ela . -afirmou olhando para Hanako com um certo nojo.-Essa menina deve morrer para o seu bem...Não vê que ela e a mãe dela...
-Antes de você fazer algo com ela eu te mato, maldito.
Dito isso Chang desferiu um soco certeiro no lado esquerdo do rosto de Tao. O soco foi tão forte que a faca resvalou no rosto de Tao causando um abundante sangramento.
-Não me importa quem seja Hanako, mas sei o que vejo nos olhos dela... E no momento a única coisa que vejo é uma menina assustada e inocente que como eu não entende nada o que está acontecendo.
Revoltado, Tao partiu para cima de Chang. Os corpos se embolaram no chão, Chang desviava dos socos do irmão com agilidade, mas sabia que não era páreo a força física de Tao. Logo sabia que entregaria os pontos, mas não podia. Tinha que proteger Hanako de tudo antes que fosse tarde demais. Quando Chang ia novamente esmurrá-lo, Tao segurou seus pulsos e num movimento ágil socou o menino que sangrou copiosamente. Foi nesse momento que Chang percebeu que Tao se levantava com a faca novamente em mãos.
Ambos estavam frente a frente agora. O ódio e o amor que ambos sentiam um pelo o outro já não mais existia, agora o que restara era apenas o rancor e o fato de querer que tudo aquilo terminasse da forma mais doída para ambos.
-Um dia eu o respeitei, meu irmão.-Chang falou olhando profundamente nos olhos negros do amigo.-Mas agora o que sinto por você é apenas um vazio, que nunca será preenchido por nada.
Tao transtornado se jogou em direção a Chang, a fim de dar o golpe certeiro. Para ele aquele indivíduo a sua frente já não era seu irmão... Já não tinha o mesmo sangue que ele. Era um indigente que se punha a sua frente impedindo que sua vingança fosse concretizada. Sabia que pagaria um preço alto por aquele ato, mas teria uma eternidade para se arrepender... Já que sua vida já não valia mais a pena. Viver era um simples ato de respirar.
-Não, não faça isso Tao...-a voz desesperada de Kaho surgiu do nada fazendo ele parar.-Não mate seu único irmão.
Chang estacou e viu a expressão mortificada de todos. Menos a de Tao que sorria cinicamente, como se aquelas palavras não lhe fossem nenhuma surpresa. Talvez não fosse realmente... Mas tudo aquilo o assustava.
Mas ao se aproximar recebeu um chute no estômago o que o obrigou ajoelhar no chão. A faca lentamente caiu no chão... Então sentiu que seus olhos vertiam água. Depois de muito tempo chorava. Não por Chang, mas sim por ele e no monstro que ele havia se transformado.
Balançando a cabeça vagarosamente, Tao se rendeu.
-Vivi durante anos em uma ilusão... Passei anos tramando uma vingança.- disse sorrindo pegando sorrateiramente a faca que jazia a seu lado.-Fiz muitas coisas erradas, mas não me arrependo de nada que fiz. Odiei-te Chang...Odiei-te por ter ficado com tudo o que era meu, mas sei que estava errado, pois você é tão filho de Chao como eu. Mas jamais perdoarei aquele homem ou a sua mãe que de uma certa forma fizeram eu cometer todos esses crimes.-tossindo olhou pela a última vez a face pálida e chocada de Chang.- Acho que a loucura tomou meu corpo... Já não há mais nada a fazer aqui, não é mesmo?
Chang gritou, mas já era tarde demais Tao havia se suicidado. Havia enterrado a faca ensangüentada no peito. Hanako fechou os olhos e se pôs a chorar, todos ali Marien e Kaho se ajoelharam aterrorizadas com aquele momento...Era tudo inesperado. Como um jovem forte e inteligente como Tao pode se arredar por um caminho tão tumultuoso como aquele.
Tao caiu nos braços de Chang e suspirando tirou forças para dizer sua última frase.
-Chegou o fim... Eu desisti de viver, agora só me resta ir para o lado de quem sempre amei e nunca me abandonou.-com os olhos brilhando falou.-Adeus Chang, e não chore por mim, pois nunca pude te amar, irmão.-em seguida morreu.
Hanako aterrorizada com tudo se desvencilhou dos braços da amiga, e dirigiu- se para perto de Chang, e em seguida o abraçou. Com a alma atormentada ele olhou para ela em desespero. Agora tinha a mais absoluta certeza de que Chang amava Tao como um irmão mesmo sem saber que tinham laços de sangues.
-Acabou meu amor.-sussurrou beijando a testa dele.-Agora só nos resta orar para a alma dele.
Chang com a cabeça do irmão entre as pernas, apenas ouviu o seu próprio pranto acompanhado pelos abraços doloridos e compassivos de Hanako. Naquele instante tudo se apagou na sua frente e o choro foi o único ruído que se escutou quando o sol já nascia no horizonte.
Olá pessoal!!!!!
Esse foi o penúltimo capítulo. O que acharam?
Bem, matei Tao por um motivo óbvio... Ele era o antagonista, mas do que Yukito até. Esperava dá um final digno a ele e consegui.
O próximo capítulo será mais leve... Bem, será o ponto de vista de Sakura, e como tudo finalmente terminou. A única coisa que posso adiantar é o fato de que Yukito morrerá, mas será bem longe de Sakura.
Desculpa pelo o capítulo longo e cansativo, mas o final é assim mesmo.
Queria agradecer imensamente a duas pessoas maravilhosas, que senão fosse por elas essa fic não estaria no ar: admirável e melhor revisora do mundo a Li e a doce Duda, que me deu a idéia de Tao "atacar" Hanako.
Também quero agradecer a todos que me enviaram reviews durante toda a fic(ainda não é uma despedida...vou deixar isso pro final...rsrs),e a Lan Ayath, Miaka, Anaisa, Warina-Kinomoto, Carol, Rafinha Himura Li, Laine e a M. Sheldon. Muito obrigada mesma meninas...Fico tão emocionada quando leio a s reviews...Então não se esqueçam de mim.
Propraganda da Anna!!!
Por favor!!!!Não deixam de ler duas fic's de minha autoria...que "O brilho da estrela" e "Doce Paixão". Please,please...
Ah, é qualquer coisa é só dá uma passadinha no blog:
Até a próxima!!!!!
Beijos!!!!
Anna
