Capítulo 2 - Uma razão para estar aqui
O tempo do lado de fora da janela não era dos melhores. Grandes nuvens cinzentas se juntavam no céu, enquanto algumas gotas de água salpicavam o vidro.
Gina estava sentada no sofá-cama, agora encostado à janela que ocupava quase a parede toda. Aquele tempo a deixava melancólica e triste. Com a testa encostada no vidro frio, ela batia a cordinha da persiana imitando o ritmo de uma canção que Carlinhos cantava para ela.
- Gina? - a porta da sala bateu.
- Quarto do bebê - ela respondeu elevando o tom da voz.
Draco apareceu no portal e abriu um sorriso ao vê-la.
- Como se sente? - ele se aproximou e depositou um beijo em seus lábios.
- Gorda - Gina fechou a cara e desviou o rosto para a janela.
- Pra mim está linda - ele a levantou e girou-a, envolvendo Gina em um abraço logo depois - Então, o que você acha de o executivo aqui levar a mãe mais linda do mundo pra jantar?
- Se o bebê mais lindo do mundo parar de chutar a mãe mais linda do mundo a todo o momento, eu topo. Ai, - ela soltou um gemido - ele está agitado...
- A minha presença causa isso nas pessoas, sabe... - Draco se abaixou, acariciando a barriga dela. O bebê já reconhecia a voz do loiro há bastante tempo. Depois de todas as noites em que ele ficara conversando com a barriga de Gina, e conseqüentemente não a deixara dormir direito, não se podia esperar por menos! - Não é mesmo, Victor?
- Ei! - Gina protestou - Quem disse que você iria escolher o nome?
Ele ergueu o rosto, um sorriso de vitória se formando em seus lábios, e se levantou.
- Opa, espera um minuto... Você por acaso está afirmando que é um menino? E, conseqüentemente, isso quer dizer que eu estou certo!? - ele arqueou as sobrancelhas.
- Eu não disse isso!
- É óbvio que disse! Estava subentendido nas suas palavras, meu amor, não tente negar!
- Draco, você quer parar de ser inconveniente e ficar quieto? - ela perdeu a paciência por estar sendo derrotada - E onde é que está a porcaria do meu elástico de cabelo?!
- Na sua mão, Gininha - ele deu um sorriso cínico, sabendo que aquilo a deixaria louca da vida.
A ruiva bufou alto e saiu a passos duros pelo corredor, a barriga um pouco difícil de equilibrar. Draco ainda soltou uma risadinha de escárnio antes de segui-la até o quarto de casal. Gina procurava algo na cômoda, atirando algumas coisas no chão e batendo as gavetas com força. Ele se aproximou em silêncio e a abraçou por trás, cruzando os dedos sobre sua barriga.
- Ei, calma - sussurrou - Não tem motivo pra você ficar assim. Pode fazer mal pra ele.
Gina fechou os olhos e soltou um suspiro, virando-se e abraçando-o. Draco apoiou o queixo na cabeça dela, sentindo o perfume suave que se desprendia dos cabelos ruivos.
- Eu queria que ele chegasse logo...
- Somos dois. Você não sabe o quanto é chato agüentar essas mudanças de humor repentinas... Ainda mais somadas ao seu apaixonante gênio explosivo - Draco relembrou as crises de H.I. (humor inconstante) pelas quais Gina vinha passando ultimamente: num momento ela era toda sorrisos, e no outro só faltava lhe botar para fora de casa.
- O que você tem contra mim hoje, hein? - ela olhou para ele com um sorriso indignado.
- Nada - ele beijou-a com vontade - Só gosto de infernizar mesmo... . . . .
Depois de uma hora, em que discutiram sobre a qual lugar iriam, finalmente entraram no ambiente iluminado por lanternas de papel colorido do restaurante japonês que Gina escolhera.
- Você pode até gostar de comida crua, mas eu não, Virgínia - Draco resmungou enquanto seguiam o garçom vestido de samurai até uma mesa.
- Eles não servem essencialmente comida crua aqui, Draco. Não sei porque você está tão mal-humorado - ela se sentou e sorriu ao ver que estavam ao lado de um pequeno lago cheio de carpas.
- Talvez por não ter podido escolher a comida que eu quero?
- Há muitas coisas nessa vida que nós não vamos poder escolher... - ela filosofou e Draco revirou os olhos.
- E por acaso é pedir demais um filé ao molho de vinho tinto? Eu acho que não, Gina - ele fechou a cara.
- Olha aqui, se você vai ficar com essa cara de bosta - ela falou baixo e sibilante, ignorando a expressão ofendida dele - é melhor a gente ir pra casa e comer macarrão instantâneo.
- Não fale comigo desse jeito - ele disse no mesmo tom que ela, talvez um pouco mais perigoso - Você está saindo dos limites!
- Quem não tem limites é você! Sempre tão preocupado com o seu próprio umbigo! Se não se tocou ainda, Draco, nós vamos ter um filho, e eu acho que ele merece de você mais do que egoísmo!
- Já chega, Virgínia! - ele se levantou, atraindo olhares de todo o restaurante.
- Eu digo o mesmo, Draco Malfoy - ela saiu da mesa, se dirigindo para a porta do restaurante.
Draco a seguiu com os olhos. No entanto, a cor se esvaiu de seu rosto no instante seguinte. Viu-a se apoiar em uma mesa, uma das mãos segurando a barriga, enquanto uma senhora a ajudava a ficar em pé.
- Ah, não. Não, não, não. Agora não - dizia enquanto corria por entre as mesas na direção dela - Gina! Gina, você está bem? - segurou-a.
- Eu não sei - ela disse com dificuldade e se abaixou em seguida, soltando um grito abafado - Draco, eu estou com medo.
- Calma, vai ficar tudo bem - ele tentou mostrar-se confiante, quando achava que estava tão ou mais desesperado que ela.
Draco adentrou o hospital com Gina nos braços. Ela soltava eventuais gemidos, contorcendo o rosto em caretas de dor.
- Draco, o bebê...
- Não vai acontecer nada com ele - olhava a sua volta, procurando uma enfermeira, quando avistou a cabeleira branca do médico de Gina no fim do corredor - Doutor Taylor!
- O que houve? - o homem se aproximou enquanto Draco a colocava sentada em uma cadeira e tirou o pulso de Gina.
- Acho que ela ficou muito nervosa - ele olhava do médico para a ruiva, tentando descobrir o que estava havendo pela expressão dele. Por Deus, se algo acontecesse seria tudo sua culpa!
- Muito bem, acho que seu bebê está chegando, Virgínia - o médico abriu um sorriso, ao que Draco teve vontade de soca-lo por estar tão calmo. Que grande merda! Sua mulher estava passando mal e aquele velho gagá apenas sorria!
- Tem alguma coisa errada, doutor? Tá doendo muito - ela apertou os olhos.
- Aparentemente não. Você apenas entrou em trabalho de parto, Virgínia. Bem, esse bebê não pode nascer aqui no corredor, não é? Mary, por favor, leve a senhora Malfoy para a sala 25.
Uma das enfermeiras da recepção trouxe uma cadeira de rodas e Draco colocou Gina nela. A ruiva abriu-lhe um sorriso.
- É agora.
- É, eu sei - ele se ajoelhou na altura dela e encarou nervosamente os olhos cor de chocolate - Desculpa, eu não deveria ter gritado com você. Eu... eu sou um idiota...
- Um idiota que eu amo - ela o cortou, espremendo o rosto em uma careta em seguida - Vai dar tudo certo, Draco.
Ele acenou com a cabeça, observando-a sumir pela curva do corredor.
- Merda, merda, merda - pôs-se a andar de um lado para o outro, extravasando seu nervosismo ao soltar o ar pela boca.
- Que é que você fez com ela, seu filho da mãe!? - uma voz soou às suas costas. Virando-se, Draco deu de cara com sete Weasley, mais Potter, mais Granger.
- Que diabos vocês estão fazendo aqui? - ele disse depois de praguejar baixo. Weasleys! Era só do que ele precisava!
- Somos a família dela, se você nunca se tocou, Malfoy - Percy disse com desagrado.
- Como ela estava, Draco? O que houve? Ainda falta um mês para o bebê nascer! - a senhora Weasley se aproximou dele, torcendo as mãos nervosamente.
- Eu acho que ela ficou um pouco nervosa.
- Correção: VOCÊ a deixou tão nervosa que o meu sobrinho vai nascer prematuro - Rony ergueu o tom de voz.
- Poupe-me do seu dramalhão, Weasley - Draco praticamente cuspiu - Não me faça perder a pouca paciência que eu tenho.
- Bem, acho que o mais sensato é sentar e esperar - ele não deu atenção ao que Granger estava falando. Só conseguia pensar em Gina e em seu filho.
- É bom se acalmar, cunhadinho - Jorge quebrou o silêncio que só era interrompido pelos passos de Draco no corredor.
- Já pensou se você tiver um colapso nervoso bem aqui no meio do corredor? - o outro gêmeo completou.
- Pois eu não duvido nada de que ele realmente causou um colapso nervoso na Gina - Rony não fez a menor questão de falar baixo - Aliás, quem garante que ele não bateu nela?
Tudo aconteceu rápido demais. Em um instante, Rony olhava desafiadoramente para Draco, enquanto Hermione o mandava calar a boca. No outro, tinha sido arremessado no chão, a boca sangrando.
- NUNCA MAIS REPITA ISSO, SEU DESGRAÇADO! - Draco gritou com tanto ódio que seria capaz de matar o ruivo ali mesmo se Potter não estivesse no caminho - Eu nunca tocaria em um fio de cabelo da Gina, entendeu?! NUNCA!
O corredor do hospital entrou em um festival de gritos, palavrões e pontapés, no qual Draco tentava se desvencilhar de Harry e Fred, Jorge e Percy imobilizavam Rony, a senhora Weasley gritava e Hermione pedia calma.
- JÁ CHEGA! - o senhor Weasley entrou no meio da confusão, fazendo com que todos se calassem - Parem de se comportar como moleques pelo menos hoje! - ele olhou duramente para Draco e Rony. Não lembrava nem de longe o senhor bondoso e sorridente que era na maioria das vezes - Gina está passando por um momento difícil, não é hora de piorar as coisas!
Draco se soltou de Harry, empurrando-o longe, e foi na direção contrária a que os Weasley estavam, não se importando em esperar para ver as expressões daquela família de loucos.
Seu sangue fervia nas veias. Tinha vontade de quebrar alguma coisa, de preferência a cara daquele retardado. Chegou ao fim do corredor a passos duros e virou à esquerda, tentando se acalmar ao encostar-se à parede. Como Gina estava? O que estava acontecendo lá dentro? Por quê essa demora?
- Senhor Malfoy? - uma voz feminina o trouxe de volta.
- O que houve com a minha mulher? Ela está bem, não está? E o bebê?
- Ela está bem, senhor - a moça (que ele reconheceu como a que levara Gina na cadeira) tentou reprimir o riso diante do nervosismo dele - E seu filho pode chegar a qualquer momento. O doutor me mandou perguntar se o senhor quer assistir ao parto.
Draco não pestanejou antes de seguir a enfermeira pelo corredor.
A sala 25 era toda iluminada, cheia de instrumentos que ele não tinha a mínima idéia do que eram. Mas pouco importava também. Tinha finalmente avistado Gina.
Correu imediatamente para ela.
- Oi - a ruiva sorriu, tirando os cabelos vermelhos que grudavam em seu rosto. Por mais que quisesse, Draco não conseguiu retribuir ao sorriso. Apenas acenou com a cabeça.
- Bem, lá vamos nós - doutor Taylor entrou na sala. Mesmo que o velho senhor estivesse usando uma máscara sobre a boca, Draco constatou irritado que ele sorria. No entanto, voltou sua atenção para Gina quando ela ofegou com dificuldade.
- Senhor Malfoy, quero que apóie as costas de Virgínia.
Ele rapidamente passou o braço esquerdo pelos ombros da ruiva.
- Empurre quando eu pedir, Virgínia. Um... dois... agora.
Draco prendeu a respiração. Sentiu a mão quente e suada de Gina apertar com força a sua direita. Ela gritou. Tentou pensar em um jeito de ajudar, mas não havia nada. Preferiria sentir toda a dor pela qual ela estava passando agora a vê-la sofrer.
Perdeu a conta de quantas vezes o médico mandara Gina empurrar e quantas vezes nada acontecera. Ele suava frio, o desespero começando a tomar conta de si.
- Não consigo! - Gina recostou-se nele, lágrimas rolando pelo rosto avermelhado - Eu não consigo!
- Vamos lá, só mais um pouco - o doutor olhou para ela.
- Não... dá - ela soluçou - Eu tô com tanto medo!
- Gina... Gina, por favor, olha pra mim - ele pegou o rosto dela entre as mãos e encarou os olhos rasos de água - Eu não tenho a mínima idéia do que você está sentindo, e sei que está cansada, mas seja forte. É o nosso filho, meu amor. Seja forte por ele. Eu sei que você é.
- Tá, eu vou tentar - ela soluçou de novo e fechou os olhos com força. Draco encostou sua testa perto do ouvido de Gina, sussurrando que tudo ficaria bem. O grito da ruiva foi seguido por um choro estridente.
- É um lindo menino! - o doutor Taylor envolveu o bebê em um pano verde e caminhou com ele até uma mesa próxima. Draco deixou que a enfermeira cuidasse de Gina e saiu nos calcanhares do médico.
- Ele está bem?
- Sim, está. Só com um pouco menos de peso do que seria esperado, mas é muito forte.
Observou o senhor limpar o rostinho sujo de sangue com um pedaço de algodão e virar o menino, examinando-o. Mas qual foi a sua surpresa quando o doutor pegou o bebê novamente e o colocou em seus braços.
- Segure a cabecinha assim e sustente as costas com o braço. Isso. Não é tão difícil, é? - Draco encarou os olhos vivamente azuis do homem, agradecendo-o silenciosamente - Parabéns, senhor Malfoy, Virgínia. Espero que sejam muito felizes com esse rapagão - ele saiu da sala.
Voltou sua atenção para o bebê. Draco observou com calma o rostinho rosado, os olhos que não tinham uma cor definida, as mãozinhas pequenas e perfeitas que seguravam seu dedo. Então era ele... seu filho... seu e de Gina.
- Ei, o filho não é só seu - a voz cansada dela entrou em seus ouvidos. Ele olhou para a ruiva e caminhou até a cama, deixando que ela pegasse o bebê.
- Ele não é lindo?
- É... tem o nariz empinado como o seu - ela roçou o próprio nariz no do menino.
- E o mesmo desenho das suas sobrancelhas - Draco riscou o indicador pelo supercílio quase invisível do bebê.
Ficaram em silêncio, observando e sendo observados por seu filho.
- Olá, Victorio...
- Ei! Quem disse que você escolheria o nome?
- Eu disse!
- Tá bom, sua Weasley teimosa. Mas eu ainda insisto no Victor - ele ergueu as sobrancelhas.
- Victor Weasley Malfoy... é, soa bem.
- Por Deus, só sendo um dia muito especial como esse para você concordar comigo! Viu só, Victor? Você chegou fazendo milagres! - ele sorriu para o bebê, antes de beijar Gina.
- Obrigada... - ela sussurrou.
- Por quê?
- Por estar aqui comigo... e por ter me dado ele.
Draco ia responder, mas a porta se abriu e dezenas de balões coloridos invadiram a sala, juntamente com sete Weasley, mais Potter, mais Granger.
- Por nada, meu amor. . . . .
N/A: Capítulo gigantesco!!! Gente, desculpe a demora, mas é que as minhas idéias são meio temperamentais (só aparecem quando querem "). Eu achei que já tinha terminado a fic, mas minha mente insana está me fazendo escrever um terceiro capítulo. Só não sei quando vou terminá-lo, porque as minhas aulas começam na segunda e eu tenho que dar um pouco mais de atenção ao meu namorado. Eu gostei muito do jeito que descrevi o nenê. Tava de saco cheio daquele negócio de "olhos azuis e cabelos vermelhos" ou "olhos castanhos e cabelos platinados". Já encheu as paciências! Mas eu vou ter que pensar sobre isso agora pro terceiro capítulo, porque o Victor vai estar um pouquinho maior e... oops, tô começando a falar demais! É melhor eu parar. Ah, como sempre, quero agradecer do fundo do meu coraçãozinho grifinório à minha maninha Natasha, que betou e deu pulinhos quando o nenê nasceu (isso foi cômico, hehehehe). Beijos, Ná!!!! E milhares de beijos pra todos vocês!!!!!!
