Capítulo Dois: Desespero e Surpresa:

Quando Tiago conseguiu finalmente destinguir os berros de Lílian, ela já deveria estar longe, provavelmente. No entanto, ele foi incapaz de entendê- la, definitivamente. Não era fácil analisar a mente de Evans, ela era terrivelmente complexa e estranha. Como pôde soar quase doce, chamando-o para dizer alguma coisa e, num instante depois, gritar tão grosseiramente e sair enfurecida pelos corredores? Tiago balançou a cabeça num misto de descrença e desaprovação, e retirou-se da sala para o Salão Principal.

- Evans queria falar com você. O que ela queria? - Perguntou Andrômeda quando ele sentou-se ao seu lado.

- Não sei.

- Como não sabe? - Intrometeu-se Sirius, meio indignado.

- Ela começou a falar, ou melhor, a gaguejar alguma coisa. Aí, quando eu perguntei o que era, chamando-a de Lílian, ela foi toda grossa, gritando que eu deveria chamá-la de Evans. E saiu toda nervosinha depois. - Ele deu de ombros. Andrômeda estalou a língua em desaprovação e levantou-se para sentar ao lado de sua amiga da Corvinal.

- Você não sabe lidar com ela. - Reprovou Remo.

- Ah! Como não? O que eu fiz? - Questionou Potter indignado.

- Se ela veio falar alguma coisa pra você, gaguejando, - começou o lobisomem - ela não devia estar nada confortável dizendo o que quer que seja pra você. Certo? Então você não deveria ter feito pressão para que ela dissesse, devia ter esperado.

- Eu não ia raciocinar isso tudo em um minuto. - Ele respondeu mal- humorado.

- Porque você não sabe lidar com ela. Você não a entende. - Disse Remo novamente, servindo-se de suco.

- Nem ela própria se entende, pelo jeito. - Retrucou Sirius, com a boca cheia.

- Pode ser. Mas Tiago nunca vai conseguir sair com ela, sendo precipitado desse jeito. - Lupin argumentou.

- Lógico que eu vou conseguir! - Protestou Tiago, enquanto largava o garfo no prato com um estalo irritante. - Lógico!

- É, Tiago? Desde quando, por acaso, você tenta convencê-la a sair com você? - Perguntou Remo em tom zombeteiro, deixando Pontas desanimado, subitamente

- Desde o quarto ano, mais ou menos. - Respondeu Sirius em seu lugar, com um sorriso escarninho. - Se não antes.

- Viu? - disse Remo sorrindo com um ar superior. - Você não muda. Você ainda é uma criança.

- Ei, pera, ô grande adulto... - começou Tiago a protestar. - Eu não sou uma criança.

- Mas ela pensa isso de você, grande esperto. - Respondeu Remo, novamente com seu ar superior. Sirius olhou para Tiago com uma expressão como dizendo "Eu te avisei..."

- Acha, é? E o que eu fiz pra ela achar isso?

- Você não espera que eu saiba tudo também, né, Pontas? - Retrucou Lupin, impacientemente. - Ela apenas te acha infantil e esnobe.

- Ela já me informou que tem nojo de mim. - Comentou Potter, entediado.

- Por que você não procura outra garota? - Sugeriu Sirius.

- Eu ando fazendo isso. - Respondeu Tiago, com um leve remorso.

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Lílian desligou o chuveiro, alguns instantes depois. A água estava deliciosa, e o banho fora realmente relaxante; apesar de que ela própria não estava total à vontade. Sempre fora de costume remoer seus erros e mancadas. E, naquela vez não seria diferente, não mesmo. Afinal, ela realmente humilhava Potter? Então ela lhe cobrava as coisa, quando ela mesma não as fazia corretamente? Oh! Não era de propósito, certamente; nunca quisera humilhá-lo, apenas censura-lo.

No entanto, quando sua mente divagou ao fato que esclarecer com o próprio Tiago, se realmente sentia-se humilhado com suas censuras, Lílian gemeu baixinho e esforçou-se para parar de pensar no assunto. E quando assumiu para si mesmo, definitivamente, que estava errada, no instante seguinte, obrigou-se a ressaltar que não era perfeita e todos tinham seus erros. "Ele é Tiago Potter, para acabar de ferrar..." - Ela argumentou para si, com raiva.

Então definitivamente mal-humorada, novamente, ela começou a vestir sua roupa, com raiva, quando a conversa no dormitório feminino ao lado fez-se ouvir.

- O que aconteceu, Seren? O que você estava falando? - Perguntou Dian, numa voz irritante.

- Eu estava contando para Lorena as novidades. - Respondeu a outra, em tom provocador e, sinceramente, parecendo regozijar-se com aquilo.

- O quê? Que Tiago Potter me chamou para sair? - Lílian presumiu que Seren assentira, e Dian recomeçou: - Oh! Nem me lembre disso. Ele está enchendo a minha paciência. Toda hora! - Ela riu de puro prazer.

- Evans ainda deve achar que ele corre atrás dela. - As três riram com o comentário de Lorena - Mas eu não ouso contar isso pra ela. Coitada. Parece que é a única coisa de interessante que acontece com ela! - E elas riram novamente.

Lílian sentiu seu sangue subir-lhe a cabeça. Então ele chamava Dian McCarthy para sair também? Então ele também era igualmente insistente? E Tiago chamar-lhe para sair era interessante? Aquela chatice? E ela era uma coitada? Não!

- Hahaha. No dia em que eu achar interessante que a besta do Potter me chame para sair, corte-me a cabeça e pode me xingar do que quiserem, por favor, pode ser até de Dian McCarthy! - Lílian disse numa voz alta, quando abriu a porta do banheiro, já vestida, encarando as suas três companheiras com deboche.

- É a única coisa mais emocionante que acontece na sua vidinha medíocre, Evans. - Respondeu Dian, inalterada. - E você deve achar o máximo. - Ela riu novamente. - Pra mim, querida, é apenas mais um.

- E o engraçado é que eles te encaram da mesmo forma, sua cadela. Mais uma. Você é sempre mais uma. - Lílian gritou, sozinha, quando as três se retiraram. Ela pegou um bibelô que enfeitava a cabeceira de Seren, e jogou- o contra a porta, fazendo-o despedaçar-se. Então, deu um grito súbito de raiva, ódio e descrença, quando a primeira lágrima desceu pelo seu rosto.

E deixou-se chorar agarrada ao travesseiro de Dian.

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- Você é corajoso. - Comentou Andrômeda para Tiago, quando estavam sozinhos na Sala Comunal da Grifinória, durante a madrugada.

- Não acho. Ela é bonita. - Argumentou Tiago, enquanto rabiscava suas anotações de Astronomia. - Essa lua aqui, como chama? - And olhou para o papel mal conservado apoiado no assento da cadeira e deu de ombros.

- Nem idéia. É de Júpiter? - Tiago assentiu e ela deu de ombros novamente. - Mas, voltando ao assunto, eu acho que você está mandando mal em vários sentidos.

- Por quê?

- Eu achei que você gostasse da Evans. - Ela disse, observando-o apagar os seus escritos, e rasgar o pergaminho em seguida.

- Eu gosto da Evans. Mas o que eu posso fazer? - Ele questionou desanimado.

- Lutar por ela. - Andrômeda respondeu com simplicidade, olhando-o com serenidade.

- Eu fiz isso durante 3 anos. Agora eu estou desertando. - Ele acrescentou, recostando a cabeça no colo da amiga.

- Eu nunca esperei ouvir isso de você.

- Nem eu.

- É? Você está agindo contra suas próprias convicções? - Tiago não respondeu. E após alguns instantes, ele perguntou:

- Por que você está tentando me convencer a não desistir da Lílian? Você nunca gostou dela.

- E o que eu tenho a ver com isso, afinal? Minha opinião não importa, Tiago. A sua, sim.

- Mas você está opinando mesmo assim. - Ele argumentou, levantando-se, e encarando-a.

- Eu sei que eu não vou te convencer - Ela esquivou-se. - Mas eu estou tentando fazer você enxergar.

- Enxergar o quê? A propósito, você sempre acaba me convencendo. - And sorriu.

- Lílian já sabe que você chamou Dian pra sair.

- É? Como você sabe? Como ela reagiu? - And sorriu novamente e viu que Tiago parecera subitamente preocupado.

- Ela chorou.

- Ela chorou? Como você sabe? Isso não faz sentido!

- Dian disse-lhe umas coisa, tipo que ela achava interessante você chamá-la para sair, porque na vida dela não acontece nada. - Tiago pareceu chocado - E Lílian respondeu que ela era mais uma na sua vida. Aí Seren, Dian e Lorena saíram do quarto e a Evans ficou lá chorando.

- Sério? Como você sabe?

- Eu estava deitada na minha cama, com a cortina fechada. Elas não me viram. - Tiago estalou a língua preocupado e arrependido.

- E vou dormir. Pense nisso. - Disse Black sorrindo.

- Isso não vai sair da minha cabeça - Ele garantiu enquanto apoiava a cabeça no encosto da poltrona e assistia Andrômeda desaparecer.

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Lílian acordou de repente. E viu-se encolhida na sua própria cama, com roupas desconfortáveis. Levantou-se, com os olhos inchados pelo choro e pela noite mal dormida, e caminhou-se sonolentamente para a Sala Comunal. Estava aparentemente vazia, por ser visivelmente cedo demais.

No entanto, quando Lílian aproximou-se de uma poltrona, logo à frente da lareira, ela surpreendeu-se ao ver um par de olhos castanho-claro encarando- a profundamente.

- O que você faz aqui, Potter? - Ela perguntou rispidamente, ainda de pé à sua frente.

- Eu não estava conseguindo dormir. - Ele deu ombros e permaneceu encarando- a durante algum tempo, e desviou os olhos depois.

- Hum. - Murmurou Evans com desinteresse aparente, sentando-se logo à sua frente.

- Eu não esperava te ver aqui agora. - Ele comentou casualmente.

- Nem eu. - Ela respondeu, seus olhos verdes faiscando. - Não esperava te ver sozinho. Afinal, onde está Dian McCarthy? - Ela disse em tom debochado.

- E o que ela tema a ver com isso? - Tiago perguntou inocentemente.

- O que ela tem a ver? Você deveria saber! - Lílian acusou.

- Não. Eu nunca deveria saber, porque jamais troquei mais que duas palavras com ela durante a minha vida inteira. O que ela tem a ver com isso, Evans?

- Não? - Ela sussurrou descrente. - Não? - Novamente sua voz soou rouca e baixa.

- Não. - Tiago respondeu firmemente.

- Ela... Ela disse que... você... chamou-a pra sair. - Ela gaguejou, soando desacreditada.

- Disse? - Ele reagiu com raiva. - O que ela disse?!

- Ora, Potter, que você chamou-a para sair. - Lílian respondeu recompondo- se. - O que não me surpreende, na realidade.

- Você não soou dessa forma quando veio aqui, perguntando por Dian. - Ele retrucou.

- Não para os seus ouvidos deficientes. - Ela assegurou-lhe. - Por que razão, afinal, eu não ficaria surpreendida de te ver com outra garota, Potter?

- Porque isso seria inusitado. - Lílian não retrucou. - Desde quando eu comecei a chamar para sair, Evans, eu não fiz o mesmo com qualquer outra. - Novamente ela não respondeu. - E, sim, você pareceu sinceramente surpreendida e desapontada com isso.

- Lógico que não! - Evans defendeu-se. Então, Tiago levantou-se, quando ela o fez e aproximou-se dela, enfurecido.

- É surpreendente o modo como você consegue mentir para si mesma. Mas você não me engana. - Lílian ficou sem reação quando ele ficou a milímetros dela, fazendo-a recorrer para longe, indo de costas à parede.

- Eu.. Eu não preciso enganar... ninguém... Muito menos você. - Ela gaguejou, encarando-lhe nos olhos castanhos.

Então, inesperadamente, Tiago soltou seus pulsos que estavam presos por suas mãos firmes. Novamente, Lílian não teve reação, continuando a encarar- lhe profundamente. E Tiago não afastou-se, assim como ela não desejou que ele o fizesse. Até que, mal ousando quebrar o contato visual, ele aproximou- se mais, levando uma das suas mãos aos cabelos da ruiva a sua frente, fazendo-a tremer em choque. E, sem esperar por mais qualquer possível reação dela, Tiago beijou-a.

Evans sentiu-se sinceramente surpresa com o efeito que aquilo provocou nela. Sentiu-se inevitavelmente bem com a sensação dos lábios de Tiago nos dela. Ele era delicado e gentil, ainda que seus movimentos com as mãos e o ritmo do beijo, parecessem sedentos, febris. Mesmo não admitindo, os de Lílian demonstravam a mesma sede e o mesmo desejo. E o beijo era passional. E maravilhoso.

E Lílian teve medo. Medo das sensações que percorriam o seu corpo. Medo de sua própria submissão aos apelos de Tiago e de sua influência sobre ela. Medo do que havia dentro dela mesma. Medo de ferir seu próprio orgulho. E, abruptamente, do mesmo modo em que havia começado, o beijo terminou. Lílian afastou-o, vendo-o ainda atordoado e a si mesma, e saiu esbaforida, murmurando inconscientemente:

- Não, não! - E, longe o bastante para que precisasse aumentar o tom de sua voz para que ele a escutasse, ela gritou: - Você nunca deveria ter feito isso! Nunca!

E sumiu, desaparecendo na escuridão do corredor que dava aos dormitórios.

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-O que é isso?

- Veja bem, a minha testa é quadrada? - Sirius olhou a prima estranhamente.

- É.

- Mesmo?! Oh! - Ela pareceu chocada.

- Sim. Veja bem... - Sirius respondeu fazendo o contorno da testa dela com o dedo indicador, num contorno retangular. - É, retangular. É quadrada.

- Nossa! - Ela disse jogando a cabeça para trás, tampando com as mãos o papel que estava nas suas mãos. - Isso tá errado.

- O que é isso? - Sirius perguntou sentando-se ao lado da prima, na mesa do salão principal. Andrômeda entregou-lhe o pergaminho.

- É um modo de ver suas características pessoais por meio de suas características físicas. Isso é absurdo!

- Testa quadrada? Fortes fantasias sexuais? - Sirius riu. Andrômeda arqueou as sobrancelhas.

- Veja bem, como eu disse, isso é um completo absurdo! - Ela respondeu encabulada.

- Eu não sei, hein? - Ele retrucou zombeteiramente insinuante. - Eu não esperava isso de você, priminha...

- Ora, cale a boca. - Ele disse, aborrecida. - Você diz isso porque tem a testa meio triangular.

- Testa triangular?!

- Hum... a sua não é redonda e nem quadrada. Então deve ser retangular.

- Aqui não tem uma definição de testa triangular.

- Então faça uma mistura de testa redonda e testa quadrada. Você preenche os dois quesitos. - Ela respondeu mal-humorada.

- A gente pula essa parte. - Ele leu alguma coisa no papel novamente. - A minha bunda é grande?

- Você não sabe, Sirius? Ou só quer uma confirmação? - Ele sorriu, esperando ela continuar. - Claro que é!

- Você já reparou nela, And? - Sirius riu.

- Já. Claro que já, né? - Ela riu e apertou as bochechas do primo.

- Assim você me decepciona, prima.

- As mulheres costumam reparar na bundas do homens. - Ela explicou e Sirius pareceu surpreso. - Vai ver é por isso que a Evans não olha por Tiago. - Os dois riram.

- Nada que me assuste. Ela anda procurando defeitos nele mais do que nunca. - Ele comentou.

- Ela gosta dele.

- Você acha? - Ele perguntou a prima, descrente.

- Eu tenho certeza! Só que ela não gosta de gostar dele. - And explicou pacientemente.

- Muito simples! - Sirius ironizou.

- Desde quando a Evans é uma garota simples? Ela costumava defender o Seboso, mesmo quando ele a chamava de sangue-ruim!

- Mas isso é simples de entender. - O garoto retrucou, olhando para o pergaminho nas suas mãos sem interesse.

- Eu sei. Ela apenas gosta de contrariar o Tiago. E isso é um meio de fazê- lo. - Ela disse, tomando-lhe o pergaminho e amassando-o.

- Ei! Não jogue isso fora!

- Por que não? - Ela perguntou, desamassando-o.

- Eu posso tentar entender as minhas pretendes dessa forma! - Ela riu.

- Tudo bem. Mas cuidado, é um verdadeiro blefe. - Ele deu de ombros.

- Voltando ao assunto, você não me explicou.

- Bem, não é complicado, na realidade. - Andrômeda disse enquanto acenava para sua amiga da Corvinal. - Ela não quer gostar dele. Então ela o despreza para parecer, e para provar para si mesma, que ele não vale a pena. Nem ela percebe que gosta dele. - Sirius sorriu agradavelmente, enquanto pegava uma bolacha e olhava para a prima.

- Coitada. Seria o mesmo se eu descobrisse que eu gosto da Andrômeda Black.

- Aí você agride. - Eles riram.

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N/A: Olá, gente. Bem, pra vcs que estão achando que o beijo aconteceu muito rápido, eu peço carinhosamente para que esperem pelo capítulo 3. Eu prometo não decepcionar vcs. Nhum.. pra quem perguntou, vai ter um pouquinho do Sirius e da Andrômeda, sim... Bem, é isso aí. O próximo cap. não demora! Beijos!