Capítulo Três: Preparativos para um Baile Brega:
Tiago nunca pensou que sua relação com Lílian, se é que o inferno que os dois viviam poderia ser classificado como qualquer tipo de relacionamento, pudesse ficar pior. No entanto, piorou consideravelmente ao insuportável. E ele também nunca imaginara que fosse chatear-se com ela tanto, que preferiria não encarar-lhe nos olhos, ou evitar trocar-lhe palavras.
Contudo, Lílian não parecia assustada com a reação de Tiago, já que ela própria parecia ainda mais esforçada para diminuí-lo ao nada e esquecer sua existência. Ela parecia ter mais êxito. Lílian sentia-se conscientemente errada, tinha a nítida sensação de estar lançando-se no caminho errado e de que, no final, tudo daria errado. Entretanto, igualmente como fazia com a existência de Potter, ela ignorava.
O que houvera entre os dois, para que tudo chegasse àquele ponto, ninguém chegou a saber. Tiago pensava ter feito tudo errado, e tinha uma sensação péssima ao lembra-se dela. Então, preferia não tocar no assunto e continuar a mentira de que queria sair com Dian McCarthy. Entretanto, aquilo só o fazia sentir-se ainda pior. E, à sua volta, além de tudo que acontecia com Lílian, tudo parecia dar errado também.
E foi naquele final de tarde de sábado, que tudo piorou consideravelmente. Apesar dele próprio não considerar a hipótese de que era capaz de acabar com tudo, definitivamente. No entanto, ele não poderia se culpar, embora não fosse necessário ter presenciado alguma coisa.
Chovia torrencialmente. E, geralmente, nos dias de chuva, a biblioteca ficava apinhada de gente, que não necessariamente estudava ou entretia-se com livros, mas apenas estava lá. Tiago era uma dessas pessoas. E, como não havia mesas vazias, ele começou a andar vagarosamente por entre as diversas sessões úteis e inúteis do lugar. E não havia qualquer espaço que não tivesse, no mínimo, um pequeno grupo de alunos, mas não lembrou-se de quem talvez poderia encontrar, embora temesse tal encontro.
Lílian parecia feliz, alegre risonha, incoerente. Incoerente, especificamente, porque sorria e seu sorriso brilhava e esbanjava luz, enquanto as pessoas estavam desanimadas e a o céu era negro, a chuva era impiedosa e os trovões eram fortes e bravios. Entretanto, Lílian parecia muito bem ignorar tudo a sua volta, exceto a pessoa que a fazia sorrir de tal maneira, que estava a sua frente. Tiago os observou.
Pontas nunca encontrara em Remo essa capacidade de fazer as pessoas sentirem-se repentinamente bem, como a muito tempo não se sentiam. Tiago nunca conhecera aquele lado de Remo. A conversa dos dois pareciam tão interessante e envolvente, que Lílian sequer incomodou-se com o olhar inoportuno de Tiago. Ela desviou os olhos rapidamente, sem que Remo notasse e visse o amigo. Então, Potter retirou-se antes de que ele o fizesse.
Rapidamente, retirou-se da biblioteca. O Saguão de Entrada estava vazio. E frio. A chuva invadia a sala próxima à porta aberta, o chão estava encharcado, e o vento invadia o local, o frio cercava. Mas Tiago não deu-se conta. Na realidade, ele não importou-se. Afinal, o que mais importava?
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Os dias se passaram, e a tempestade que durou a semana inteira, foi desvanecendo-se enquanto o gelo substituía o verde na paisagem. Ainda não nevava, mas encontrava-se gelo sob a terra nos gramados facilmente, e o vento era cortante. Rapidamente, não havia mais folhas nas copas das árvores, a as atividades fora do castelo, ficavam cada vez mais insuportáveis. As mãos eram cobertas por luvas, e os casacos mais pesados retirados dos malões e jogados sobre o corpo. O alto inverno chegava. O Natal, estava à porta.
As visitas antes do Natal à Hogsmead foram-se. As garotas setimanistas compraram seus belos vestidos, enquanto os garotos aqueciam-se com cervejas amanteigadas nos bares da região. Ainda que a vigilância fosse maior, e o perigo, eminente, os alunos mais velhos estavam eufóricos com o baile de Natal de Despedida. Pois, certamente, para cada um deles, era ainda, mais especial do que qualquer outro baile que presenciara.
Lílian e Tiago fizeram os preparativos e as ornamentações da festa, obrigatoriamente, devido ao distintivo que carregavam. Portanto, totalmente contrariados e insatisfeitos, os dois reuniam-se na sala dos Monitores- Chefes e passavam horas discutindo, no sentido literal que a palavra significava para ambos ou para qualquer outra pessoa.
- Você não pensa?! O baile é daqui a duas semanas!! E o que você já fez para ajudar? - Lílian explodiu, quando Tiago chegou novamente atrasado para a reunião sobre o baile que acontecia dia sim, dia não.
- Eu venho aqui todos os dias de reunião escutar você levantar suas próprias teses sobre o baile, sem me consultar. Além de me insultar esporadicamente. - Tiago respondeu com raiva, levantando-se da cadeira.
- Você não ajuda também!
- Você não quer a minha ajuda. E você já deixou isso bem claro, Evans. - Ele suspirou, Lílian não respondeu. - Por que você não me dispensa de uma vez?
- Porque é sua obrigação ficar aqui, Potter. - Ela falou com raiva, enquanto folheava suas anotações sobre o baile.
- Eu não quero me responsabilizar por esse baile brega que você está organizando. - Lílian não gostou do comentário.
- Brega?! O que tem de brega no baile?! - Lílian gritou. Tiago murmurou um "TUDO" grosseiro e saiu da sala, enquanto os chamados de Lílian eram inúteis.
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- Você não tinha reunião com a Evans agora? - Perguntou Andrômeda, entre um bocejo, quando Tiago sentou-se ao seu lado num sofá da Sala Comunal.
- Tinha. Eu desisti disso. É melhor eu desistir do que escutar neguinho reclamando de um baile brega.
- Baile já é brega de natureza, Tiago. O que há de mal no que Evans está organizando? - Perguntou a garota, levantando-se e olhando-o com os olhos sonolentos.
- Ela quer um baile de máscaras. Isso já não brega o suficiente?? - Ele perguntou, frustrado. And riu.
- Ah, você é muito chato. Vai ser legal. Deixa pra lá, se não der certo, coloque a culpa nela. - Tiago sorriu, e Andrômeda entendeu rapidamente.
- Você acha que eu não vou fazer isso? Nêgo vai me chamar de gay com essa história... Fala sério... - Ele resmungou enquanto levantava-se e ia para o dormitório.
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- Sr. Potter, eu poderia falar com você, por alguns instantes? - Tiago virou-se rapidamente, enquanto Sirius e Remo, ao seu lado, abafavam o riso. Professora McGonagall dispensou os outros dois, deixando apenas Potter na sala vazia.
- Sim, senhora. - Minerva sentou-se em sua cadeira, convidando Tiago a sentar-se a sua frente, e ele o fez, desanimado e tentando imaginar o que a professora de Transfiguração queria com ele, ou supondo o que fizera de errado daquela vez.
- Bem, Potter, a Srta. Evans veio me procurar esta manhã, para dizer-me... - Tiago balançou a cabeça, em descrença. Então Evans já havia chegado àquele ponto?! - O que foi, Potter? - Tiago suspirou.
- A senhora não deveria dar ouvidos a ela. - McGonagall pareceu estranhamente complacente escutando Tiago reclamar avidamente sobre os ataques infantis, incoerentes e desnecessários de Lílian. Tiago parecia horrivelmente inflamado em relação à garota, que, pelo que ela sempre soube, desdenhava-o e humilhava-o quando ele vinha na melhor das intenções.
- Sim, eu entendo, Potter, de que você também está em seu direito. No entanto, o que venho tratar aqui, é sobre sua falta para com a organização do baile de vocês. - Potter apenas continuou a encará-la, enquanto McGonagall retirava seus óculos bifocais e o analisava mais profundamente. - A sua atitude, por mais que haja razões que a justifiquem de modo quase convincente, - Ela disse sorrindo. - está absolutamente errada.
- O que Lílian te disse? Eu tenho certeza de que posso retirar uma série de informações acrescentadas por ela por conveniência. - Ele resmungou enquanto tentava inutilmente ajeitar os seus cabelos, que caía-lhe no rosto. Minerva não agradou do comentário insinuante.
- Não creio que Lílian realmente tenha me falado qualquer coisa que seja fora da verdade para deixá-lo mal. Eu realmente não acredito nisso, Potter. - Ela levantou a mão, impedindo que Tiago fizesse qualquer outro comentário, interrompendo-a. - No entanto, eu também creio que seja justo ouvir os dois lados da história. - Ela acrescentou firmemente enquanto consultava seu enorme relógio de bolso. Então, ela pareceu querer apressar- se. - Não, Potter, me desculpe, mas na realidade eu não posso agora. Eu só preciso de sua palavra. - Ela disse secamente, levantando-se.
- Sobre o que, professora?
- Você deverá comparecer hoje à última reunião sobre o baile. E deverá ajudá-la no que for preciso. - Tiago pareceu indignado. Enquanto McGonagall dirigia-se para fora da sala, ainda falando, sem deixar que o garoto se manifestasse. - Eu saberei se você cumpriu a sua palavra, Potter. E, eu tenho certeza, você não gostará de não cumpri-la. Agora vá.
- Tudo bem, professora. Até mais. - Ele respondeu numa voz fria, enquanto saia da sala.
- Até mais, Potter.
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Lílian escutou batidas firmes à porta. Ela não conseguiu conter um suspiro cansado, prevendo o quão insuportável seria ter Potter, sinceramente inflamado em relação a ela, pela permanência indesejada naquela saleta de reuniões dos monitores. Levantou-se calmamente e abriu a porta para deparar- se com Tiago com uma aparência estranhamente conformada. Ele entrou, sem mal olhar-lhe nos olhos e sentou-se em sua cadeira, apoiando as mão na cabeça, esperando que ela dissesse alguma coisa.
- A professora McGonagall te...
- Sim. - Ele interrompeu seco. Lílian deu um muxoxo cansado quase desistindo de tentar levar uma conversa civilizada. Mesmo que não estivesse sendo fácil para ela tentar fazer aquilo.
- Escute bem, Potter. Escute muito bem. Preste bastante atenção no que eu vou te dizer. - Tiago apenas olhou-a friamente. - Não é fácil pra mim estar fazendo isso. Não é fácil pra mim prestar este papel ridículo e infantil que prestei com a professora McGonagall em relação a você. Foi com muito custo que me convenci a fazer o que eu fiz, tá bem? Eu não costumo fazer esse tipo de coisa.
- Ainda bem que você reconhece, Evans, o quão ridículo foi o que você fez. Você sabia muito bem que estava muito errada no modo como você comandava as coisas. Eu sou tão Monitor-Chefe quanto você. E eu acho que você chegou a saber disso, não é mesmo? - Lílian ainda o olhava e parecia entender o que ele dizia, por ela estava com os olhos baixos, ainda que uma expressão raivosa assumisse a sua face.
- Eu sei, Potter, eu sei muito bem disso. - Ela respondeu levantando os olhos subitamente cansados. - Eu mesma me convenci disso, aceitei e reconheci isso. E não foi nada fácil pra reconhecer esse erro, tudo bem? Principalmente pra MIM em relação a VOCÊ. - Tiago finalmente encarou-a nos olhos, esperando que ela continuasse. - Então, como eu poderia fazer o que eu tinha de fazer se você não estava aqui? Foi pra isso que eu pedi que você visse. Quando não há mais trabalho importante a fazer.
- O quê?!
- Isso mesmo. Eu só te chamei aqui porque eu TINHA que te falar isso para o bem da minha consciência. Eu passei essa semana toda tentando aceitar o meu erro. - Lílian parecia infeliz. O seu rosto estava vermelho e sua mãos suadas, o cabelo mal preso num rabo-de-cavalo, soltava-se em alguns fios. A sua expressão facial não parecia muito melhor, na realidade, já que seus olhos estavam esbugalhados e rosto contorcido numa raiva explosiva. Ela mesma parecia prestes a explodir. - E não foi fácil Não foi fácil! Eu estou odiando estar aqui, na frente da pessoa que eu menos gostaria de encarar para dizer que eu estou errada.
- Tudo bem, Evans, então eu posso ir embora? Eu tenho coisas mais importantes a fazer.
- Pode. A propósito, Potter, o baile não será mais brega, não será mais um baile de máscaras. - Lílian disse após um suspiro, enquanto escutava um "okay" e a porta sendo aberta e fechada em seguida.
Quando viu-se sozinha novamente ela não viu atrativos em ser humilde. Na realidade, ela estava sinceramente arrependida do que fizera. O que recebera, afinal? Um tom ainda mais grosseiro usado por Tiago na última frase. E então? Pelo menos, ela pensou enquanto afundava seu rosto nos joelhos onde estava apoiada, sua consciência estava limpa. Então estava tudo bem, ela sorriu, levantando-se e suspirando novamente, antes de pegar os cartazes sobre o baile, para distribuí-los no castelo.
E, se os Deuses lhe ajudassem, ela apenas não trocaria mais palavras com Tiago. Lílian rezou e temeu qualquer outro encontro com ele. Mesmo sabendo que seriam inevitáveis.
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Lílian passou a acreditar, desde então, que as coisas que você reza para que se dêem de certo modo, acabam saindo de modo contrário. Mesmo que seu desejo suplante a razão e que o acontecimento em si, acabe sendo abominável. No entanto, ela deveria saber, o destino é inexorável.
E, inexorável ou não, o destino a colocou na frente de Tiago muito mais vezes do que ela própria gostaria, ainda que tenha passado a aceitar ou a relevar mais tarde. Mesmo que ela quisesse, contudo, as coisas vão para o caminho certo, mesmo que não saibamos conduzi-las. E Lílian sorriria ao lembrar-se de tudo o que fez. Embora seu estado de espírito, naquele momento, não a fizesse capaz de sorrir, nem mesmo para quem ela quisesse.
Remo pareceu curioso em relação à recepção pouco calorosa de Lílian. Enquanto ela grudava um cartaz sobre o baile no quadro de avisos do Salão Principal, ele não tentou incomodá-la com perguntas, sobre o que ele já tinha um leve pressentimento do que era, ele apenas sorriu-lhe, ainda que não tenha recebido o cumprimento de volta.
- Olá, Remo. - Lílian disse em tom opaco, quando desceu do banco onde estava. - Desculpe não ter te cumprimentado direito, mas aquilo estava me dando uma surra! - Ela enfatizou enquanto ajeitava o cabelo, refazendo o rabo-de-cavalo.
- Você fica melhor de cabelo solto. - Ele observou sorrindo, enquanto os dois se dirigiam para o a mesa da Grifinória no Salão Principal. Evans olhou-o com os olhos verdes doces.
- Você acha? Eu sempre achei o contrário. - Ela disse, começando a desfazer o rabo-de-cavalo novamente.
- Não! Não precisa tirar. Na realidade, você fica bonita de qualquer jeito. - Lílian finalmente sorriu, lisonjeada.
- Não que eu realmente fique bonita de um jeito ou de outro, mas se você diz... - Remo desconsiderou a opinião dela com estalo da língua.
Os dois sentaram-se na mesa, que àquela hora, ainda cedo, estava parcialmente vazia. Lílian olhou para o seu prato e não sentiu-se tentada a sequer tocar na comida. O seu pensamento estava totalmente voltado para Tiago, afinal, o que ela faria quando ele chegasse à mesa? "Ora, você não fará nada!" Gritou uma voz dentro de sua cabeça, quando ela própria a sacudiu, pensando em se retirar rapidamente, ou simplesmente sair correndo, no sentido literal da expressão.
Sua mãe sempre lhe havia pregado a humildade que, de acordo com a sua religião, era uma virtude. Mas Lílian nunca sequer deixara que as suas palavras entrassem na sua cabeça. Então, ela pensou desanimada, se ela tivesse aprendido a engolir o seu orgulho antes, aquilo seria muito fácil. Na realidade, aquilo era sucessão interminável, já que se não fosse orgulhosa, nada disso teria acontecido e ela... Bem, para o começo de conversa, ela estaria beijando Tiago Potter até agora. Lílian sentiu seu rosto corar imediatamente, e descartou o pensamento enfadonho de sua mente, com um suspiro, fechando os olhos rapidamente, para recobrar suas rédeas mentais. No fundo, ela sempre soube que sua consciência era uma carruagem puxada por dois cavalos: pelo orgulho e pela razão, que raramente tomava as rédeas. Enquanto o orgulho estava sempre no comando.
Ela sorriu, abrindo os olhos novamente, e tentando espantar Tiago de sua mente. Mas, quando ela olhou para a entrada do Salão, ele simplesmente estava ali, parado praticamente do seu lado. Ela sentiu-se corar, e seu estômago afundou, quando todo o sangue do seu corpo parecia ter ido embora e voltado no segundo seguinte. Lílian soltou um gemido inconformado e, sem ao menos olhar ou lembrar-se de Remo, levantou-se da mesa.
Inevitavelmente, ela avaliou a situação, teria de passar ao lado do maldito Potter. Inevitável e infelizmente, na realidade. Então, andando a passos inseguros e com a cabeça baixa, ela dirigiu-se para a saída sem olhar para frente. Pôde sentir quando passou ao lado dele, Tiago olhou-a longamente, e os pêlos de sua nuca arrepiaram-se. E ela pôde escutar o que ele disse, ainda que tivesse sido rápido e baixo.
- Você ainda pode me encarar nos olhos, Evans. Você não fez nada de errado. - Lílian parou e encarou-o, finalmente, antes de responder.
- Eu sei que eu não fiz nada de errado, Potter. Ainda que eu tenha me arrependido o suficiente. - Tiago deu um sorriso estranho e colocou as mãos nos bolsos. E a expressão de Lílian suavizou-se.
- Você não deveria se arrepender. - Ele sorriu novamente, ajeitando os óculos. Lílian deu um sorriso debochado e balançou a cabeça com veemência.
- Nós sempre queremos recompensa, Potter. E o que eu ganhei com essa palhaçada toda? - Ele entendeu onde ela queria chegar.
- O que você esperava que eu fizesse, Evans?
- Nada. - Foi a resposta. Lílian saiu de seu campo de visão e Tiago deu de ombros.
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N/A: Bem, eu vou dizer mais uma vez, que eu realmente AMO receber reviews sobre meus capítulos! Espero q vcs tenham gostado desse cap.! E q eu não tenha demorado muito! Beijões!
Tiago nunca pensou que sua relação com Lílian, se é que o inferno que os dois viviam poderia ser classificado como qualquer tipo de relacionamento, pudesse ficar pior. No entanto, piorou consideravelmente ao insuportável. E ele também nunca imaginara que fosse chatear-se com ela tanto, que preferiria não encarar-lhe nos olhos, ou evitar trocar-lhe palavras.
Contudo, Lílian não parecia assustada com a reação de Tiago, já que ela própria parecia ainda mais esforçada para diminuí-lo ao nada e esquecer sua existência. Ela parecia ter mais êxito. Lílian sentia-se conscientemente errada, tinha a nítida sensação de estar lançando-se no caminho errado e de que, no final, tudo daria errado. Entretanto, igualmente como fazia com a existência de Potter, ela ignorava.
O que houvera entre os dois, para que tudo chegasse àquele ponto, ninguém chegou a saber. Tiago pensava ter feito tudo errado, e tinha uma sensação péssima ao lembra-se dela. Então, preferia não tocar no assunto e continuar a mentira de que queria sair com Dian McCarthy. Entretanto, aquilo só o fazia sentir-se ainda pior. E, à sua volta, além de tudo que acontecia com Lílian, tudo parecia dar errado também.
E foi naquele final de tarde de sábado, que tudo piorou consideravelmente. Apesar dele próprio não considerar a hipótese de que era capaz de acabar com tudo, definitivamente. No entanto, ele não poderia se culpar, embora não fosse necessário ter presenciado alguma coisa.
Chovia torrencialmente. E, geralmente, nos dias de chuva, a biblioteca ficava apinhada de gente, que não necessariamente estudava ou entretia-se com livros, mas apenas estava lá. Tiago era uma dessas pessoas. E, como não havia mesas vazias, ele começou a andar vagarosamente por entre as diversas sessões úteis e inúteis do lugar. E não havia qualquer espaço que não tivesse, no mínimo, um pequeno grupo de alunos, mas não lembrou-se de quem talvez poderia encontrar, embora temesse tal encontro.
Lílian parecia feliz, alegre risonha, incoerente. Incoerente, especificamente, porque sorria e seu sorriso brilhava e esbanjava luz, enquanto as pessoas estavam desanimadas e a o céu era negro, a chuva era impiedosa e os trovões eram fortes e bravios. Entretanto, Lílian parecia muito bem ignorar tudo a sua volta, exceto a pessoa que a fazia sorrir de tal maneira, que estava a sua frente. Tiago os observou.
Pontas nunca encontrara em Remo essa capacidade de fazer as pessoas sentirem-se repentinamente bem, como a muito tempo não se sentiam. Tiago nunca conhecera aquele lado de Remo. A conversa dos dois pareciam tão interessante e envolvente, que Lílian sequer incomodou-se com o olhar inoportuno de Tiago. Ela desviou os olhos rapidamente, sem que Remo notasse e visse o amigo. Então, Potter retirou-se antes de que ele o fizesse.
Rapidamente, retirou-se da biblioteca. O Saguão de Entrada estava vazio. E frio. A chuva invadia a sala próxima à porta aberta, o chão estava encharcado, e o vento invadia o local, o frio cercava. Mas Tiago não deu-se conta. Na realidade, ele não importou-se. Afinal, o que mais importava?
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Os dias se passaram, e a tempestade que durou a semana inteira, foi desvanecendo-se enquanto o gelo substituía o verde na paisagem. Ainda não nevava, mas encontrava-se gelo sob a terra nos gramados facilmente, e o vento era cortante. Rapidamente, não havia mais folhas nas copas das árvores, a as atividades fora do castelo, ficavam cada vez mais insuportáveis. As mãos eram cobertas por luvas, e os casacos mais pesados retirados dos malões e jogados sobre o corpo. O alto inverno chegava. O Natal, estava à porta.
As visitas antes do Natal à Hogsmead foram-se. As garotas setimanistas compraram seus belos vestidos, enquanto os garotos aqueciam-se com cervejas amanteigadas nos bares da região. Ainda que a vigilância fosse maior, e o perigo, eminente, os alunos mais velhos estavam eufóricos com o baile de Natal de Despedida. Pois, certamente, para cada um deles, era ainda, mais especial do que qualquer outro baile que presenciara.
Lílian e Tiago fizeram os preparativos e as ornamentações da festa, obrigatoriamente, devido ao distintivo que carregavam. Portanto, totalmente contrariados e insatisfeitos, os dois reuniam-se na sala dos Monitores- Chefes e passavam horas discutindo, no sentido literal que a palavra significava para ambos ou para qualquer outra pessoa.
- Você não pensa?! O baile é daqui a duas semanas!! E o que você já fez para ajudar? - Lílian explodiu, quando Tiago chegou novamente atrasado para a reunião sobre o baile que acontecia dia sim, dia não.
- Eu venho aqui todos os dias de reunião escutar você levantar suas próprias teses sobre o baile, sem me consultar. Além de me insultar esporadicamente. - Tiago respondeu com raiva, levantando-se da cadeira.
- Você não ajuda também!
- Você não quer a minha ajuda. E você já deixou isso bem claro, Evans. - Ele suspirou, Lílian não respondeu. - Por que você não me dispensa de uma vez?
- Porque é sua obrigação ficar aqui, Potter. - Ela falou com raiva, enquanto folheava suas anotações sobre o baile.
- Eu não quero me responsabilizar por esse baile brega que você está organizando. - Lílian não gostou do comentário.
- Brega?! O que tem de brega no baile?! - Lílian gritou. Tiago murmurou um "TUDO" grosseiro e saiu da sala, enquanto os chamados de Lílian eram inúteis.
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- Você não tinha reunião com a Evans agora? - Perguntou Andrômeda, entre um bocejo, quando Tiago sentou-se ao seu lado num sofá da Sala Comunal.
- Tinha. Eu desisti disso. É melhor eu desistir do que escutar neguinho reclamando de um baile brega.
- Baile já é brega de natureza, Tiago. O que há de mal no que Evans está organizando? - Perguntou a garota, levantando-se e olhando-o com os olhos sonolentos.
- Ela quer um baile de máscaras. Isso já não brega o suficiente?? - Ele perguntou, frustrado. And riu.
- Ah, você é muito chato. Vai ser legal. Deixa pra lá, se não der certo, coloque a culpa nela. - Tiago sorriu, e Andrômeda entendeu rapidamente.
- Você acha que eu não vou fazer isso? Nêgo vai me chamar de gay com essa história... Fala sério... - Ele resmungou enquanto levantava-se e ia para o dormitório.
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- Sr. Potter, eu poderia falar com você, por alguns instantes? - Tiago virou-se rapidamente, enquanto Sirius e Remo, ao seu lado, abafavam o riso. Professora McGonagall dispensou os outros dois, deixando apenas Potter na sala vazia.
- Sim, senhora. - Minerva sentou-se em sua cadeira, convidando Tiago a sentar-se a sua frente, e ele o fez, desanimado e tentando imaginar o que a professora de Transfiguração queria com ele, ou supondo o que fizera de errado daquela vez.
- Bem, Potter, a Srta. Evans veio me procurar esta manhã, para dizer-me... - Tiago balançou a cabeça, em descrença. Então Evans já havia chegado àquele ponto?! - O que foi, Potter? - Tiago suspirou.
- A senhora não deveria dar ouvidos a ela. - McGonagall pareceu estranhamente complacente escutando Tiago reclamar avidamente sobre os ataques infantis, incoerentes e desnecessários de Lílian. Tiago parecia horrivelmente inflamado em relação à garota, que, pelo que ela sempre soube, desdenhava-o e humilhava-o quando ele vinha na melhor das intenções.
- Sim, eu entendo, Potter, de que você também está em seu direito. No entanto, o que venho tratar aqui, é sobre sua falta para com a organização do baile de vocês. - Potter apenas continuou a encará-la, enquanto McGonagall retirava seus óculos bifocais e o analisava mais profundamente. - A sua atitude, por mais que haja razões que a justifiquem de modo quase convincente, - Ela disse sorrindo. - está absolutamente errada.
- O que Lílian te disse? Eu tenho certeza de que posso retirar uma série de informações acrescentadas por ela por conveniência. - Ele resmungou enquanto tentava inutilmente ajeitar os seus cabelos, que caía-lhe no rosto. Minerva não agradou do comentário insinuante.
- Não creio que Lílian realmente tenha me falado qualquer coisa que seja fora da verdade para deixá-lo mal. Eu realmente não acredito nisso, Potter. - Ela levantou a mão, impedindo que Tiago fizesse qualquer outro comentário, interrompendo-a. - No entanto, eu também creio que seja justo ouvir os dois lados da história. - Ela acrescentou firmemente enquanto consultava seu enorme relógio de bolso. Então, ela pareceu querer apressar- se. - Não, Potter, me desculpe, mas na realidade eu não posso agora. Eu só preciso de sua palavra. - Ela disse secamente, levantando-se.
- Sobre o que, professora?
- Você deverá comparecer hoje à última reunião sobre o baile. E deverá ajudá-la no que for preciso. - Tiago pareceu indignado. Enquanto McGonagall dirigia-se para fora da sala, ainda falando, sem deixar que o garoto se manifestasse. - Eu saberei se você cumpriu a sua palavra, Potter. E, eu tenho certeza, você não gostará de não cumpri-la. Agora vá.
- Tudo bem, professora. Até mais. - Ele respondeu numa voz fria, enquanto saia da sala.
- Até mais, Potter.
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Lílian escutou batidas firmes à porta. Ela não conseguiu conter um suspiro cansado, prevendo o quão insuportável seria ter Potter, sinceramente inflamado em relação a ela, pela permanência indesejada naquela saleta de reuniões dos monitores. Levantou-se calmamente e abriu a porta para deparar- se com Tiago com uma aparência estranhamente conformada. Ele entrou, sem mal olhar-lhe nos olhos e sentou-se em sua cadeira, apoiando as mão na cabeça, esperando que ela dissesse alguma coisa.
- A professora McGonagall te...
- Sim. - Ele interrompeu seco. Lílian deu um muxoxo cansado quase desistindo de tentar levar uma conversa civilizada. Mesmo que não estivesse sendo fácil para ela tentar fazer aquilo.
- Escute bem, Potter. Escute muito bem. Preste bastante atenção no que eu vou te dizer. - Tiago apenas olhou-a friamente. - Não é fácil pra mim estar fazendo isso. Não é fácil pra mim prestar este papel ridículo e infantil que prestei com a professora McGonagall em relação a você. Foi com muito custo que me convenci a fazer o que eu fiz, tá bem? Eu não costumo fazer esse tipo de coisa.
- Ainda bem que você reconhece, Evans, o quão ridículo foi o que você fez. Você sabia muito bem que estava muito errada no modo como você comandava as coisas. Eu sou tão Monitor-Chefe quanto você. E eu acho que você chegou a saber disso, não é mesmo? - Lílian ainda o olhava e parecia entender o que ele dizia, por ela estava com os olhos baixos, ainda que uma expressão raivosa assumisse a sua face.
- Eu sei, Potter, eu sei muito bem disso. - Ela respondeu levantando os olhos subitamente cansados. - Eu mesma me convenci disso, aceitei e reconheci isso. E não foi nada fácil pra reconhecer esse erro, tudo bem? Principalmente pra MIM em relação a VOCÊ. - Tiago finalmente encarou-a nos olhos, esperando que ela continuasse. - Então, como eu poderia fazer o que eu tinha de fazer se você não estava aqui? Foi pra isso que eu pedi que você visse. Quando não há mais trabalho importante a fazer.
- O quê?!
- Isso mesmo. Eu só te chamei aqui porque eu TINHA que te falar isso para o bem da minha consciência. Eu passei essa semana toda tentando aceitar o meu erro. - Lílian parecia infeliz. O seu rosto estava vermelho e sua mãos suadas, o cabelo mal preso num rabo-de-cavalo, soltava-se em alguns fios. A sua expressão facial não parecia muito melhor, na realidade, já que seus olhos estavam esbugalhados e rosto contorcido numa raiva explosiva. Ela mesma parecia prestes a explodir. - E não foi fácil Não foi fácil! Eu estou odiando estar aqui, na frente da pessoa que eu menos gostaria de encarar para dizer que eu estou errada.
- Tudo bem, Evans, então eu posso ir embora? Eu tenho coisas mais importantes a fazer.
- Pode. A propósito, Potter, o baile não será mais brega, não será mais um baile de máscaras. - Lílian disse após um suspiro, enquanto escutava um "okay" e a porta sendo aberta e fechada em seguida.
Quando viu-se sozinha novamente ela não viu atrativos em ser humilde. Na realidade, ela estava sinceramente arrependida do que fizera. O que recebera, afinal? Um tom ainda mais grosseiro usado por Tiago na última frase. E então? Pelo menos, ela pensou enquanto afundava seu rosto nos joelhos onde estava apoiada, sua consciência estava limpa. Então estava tudo bem, ela sorriu, levantando-se e suspirando novamente, antes de pegar os cartazes sobre o baile, para distribuí-los no castelo.
E, se os Deuses lhe ajudassem, ela apenas não trocaria mais palavras com Tiago. Lílian rezou e temeu qualquer outro encontro com ele. Mesmo sabendo que seriam inevitáveis.
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Lílian passou a acreditar, desde então, que as coisas que você reza para que se dêem de certo modo, acabam saindo de modo contrário. Mesmo que seu desejo suplante a razão e que o acontecimento em si, acabe sendo abominável. No entanto, ela deveria saber, o destino é inexorável.
E, inexorável ou não, o destino a colocou na frente de Tiago muito mais vezes do que ela própria gostaria, ainda que tenha passado a aceitar ou a relevar mais tarde. Mesmo que ela quisesse, contudo, as coisas vão para o caminho certo, mesmo que não saibamos conduzi-las. E Lílian sorriria ao lembrar-se de tudo o que fez. Embora seu estado de espírito, naquele momento, não a fizesse capaz de sorrir, nem mesmo para quem ela quisesse.
Remo pareceu curioso em relação à recepção pouco calorosa de Lílian. Enquanto ela grudava um cartaz sobre o baile no quadro de avisos do Salão Principal, ele não tentou incomodá-la com perguntas, sobre o que ele já tinha um leve pressentimento do que era, ele apenas sorriu-lhe, ainda que não tenha recebido o cumprimento de volta.
- Olá, Remo. - Lílian disse em tom opaco, quando desceu do banco onde estava. - Desculpe não ter te cumprimentado direito, mas aquilo estava me dando uma surra! - Ela enfatizou enquanto ajeitava o cabelo, refazendo o rabo-de-cavalo.
- Você fica melhor de cabelo solto. - Ele observou sorrindo, enquanto os dois se dirigiam para o a mesa da Grifinória no Salão Principal. Evans olhou-o com os olhos verdes doces.
- Você acha? Eu sempre achei o contrário. - Ela disse, começando a desfazer o rabo-de-cavalo novamente.
- Não! Não precisa tirar. Na realidade, você fica bonita de qualquer jeito. - Lílian finalmente sorriu, lisonjeada.
- Não que eu realmente fique bonita de um jeito ou de outro, mas se você diz... - Remo desconsiderou a opinião dela com estalo da língua.
Os dois sentaram-se na mesa, que àquela hora, ainda cedo, estava parcialmente vazia. Lílian olhou para o seu prato e não sentiu-se tentada a sequer tocar na comida. O seu pensamento estava totalmente voltado para Tiago, afinal, o que ela faria quando ele chegasse à mesa? "Ora, você não fará nada!" Gritou uma voz dentro de sua cabeça, quando ela própria a sacudiu, pensando em se retirar rapidamente, ou simplesmente sair correndo, no sentido literal da expressão.
Sua mãe sempre lhe havia pregado a humildade que, de acordo com a sua religião, era uma virtude. Mas Lílian nunca sequer deixara que as suas palavras entrassem na sua cabeça. Então, ela pensou desanimada, se ela tivesse aprendido a engolir o seu orgulho antes, aquilo seria muito fácil. Na realidade, aquilo era sucessão interminável, já que se não fosse orgulhosa, nada disso teria acontecido e ela... Bem, para o começo de conversa, ela estaria beijando Tiago Potter até agora. Lílian sentiu seu rosto corar imediatamente, e descartou o pensamento enfadonho de sua mente, com um suspiro, fechando os olhos rapidamente, para recobrar suas rédeas mentais. No fundo, ela sempre soube que sua consciência era uma carruagem puxada por dois cavalos: pelo orgulho e pela razão, que raramente tomava as rédeas. Enquanto o orgulho estava sempre no comando.
Ela sorriu, abrindo os olhos novamente, e tentando espantar Tiago de sua mente. Mas, quando ela olhou para a entrada do Salão, ele simplesmente estava ali, parado praticamente do seu lado. Ela sentiu-se corar, e seu estômago afundou, quando todo o sangue do seu corpo parecia ter ido embora e voltado no segundo seguinte. Lílian soltou um gemido inconformado e, sem ao menos olhar ou lembrar-se de Remo, levantou-se da mesa.
Inevitavelmente, ela avaliou a situação, teria de passar ao lado do maldito Potter. Inevitável e infelizmente, na realidade. Então, andando a passos inseguros e com a cabeça baixa, ela dirigiu-se para a saída sem olhar para frente. Pôde sentir quando passou ao lado dele, Tiago olhou-a longamente, e os pêlos de sua nuca arrepiaram-se. E ela pôde escutar o que ele disse, ainda que tivesse sido rápido e baixo.
- Você ainda pode me encarar nos olhos, Evans. Você não fez nada de errado. - Lílian parou e encarou-o, finalmente, antes de responder.
- Eu sei que eu não fiz nada de errado, Potter. Ainda que eu tenha me arrependido o suficiente. - Tiago deu um sorriso estranho e colocou as mãos nos bolsos. E a expressão de Lílian suavizou-se.
- Você não deveria se arrepender. - Ele sorriu novamente, ajeitando os óculos. Lílian deu um sorriso debochado e balançou a cabeça com veemência.
- Nós sempre queremos recompensa, Potter. E o que eu ganhei com essa palhaçada toda? - Ele entendeu onde ela queria chegar.
- O que você esperava que eu fizesse, Evans?
- Nada. - Foi a resposta. Lílian saiu de seu campo de visão e Tiago deu de ombros.
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N/A: Bem, eu vou dizer mais uma vez, que eu realmente AMO receber reviews sobre meus capítulos! Espero q vcs tenham gostado desse cap.! E q eu não tenha demorado muito! Beijões!
