Capítulo 2: O assalto
Harry acordou antes que seu alarme disparasse. Era o dia anterior à sua volta para o último ano em Hogwarts, o que significava que só moraria na casa dos Dursley mais algumas horas. Ele praticamente pulou da cama e se aprontou rapidamente para o trabalho. Terminaria de fazer suas malas quando voltasse.
Na sorveteira, Harry não continha sua alegria. Ele deu a vários clientes bolas extras de sorvete, e não cobrou nada de duas crianças por seu sorvete tamanho infantil. Até terminou algumas tarefas de Maddie enquanto ela descansava pois ele precisava gastar sua energia acumulada. O sr. Ftizwillian comentou que Harry estava muito mais animado que de costume.
E então aconteceu algo que mudou tudo.
Era aproximadamente duas da tarde e Harry estava limpando as mesas depois que os clientes do almoço começaram a diminuir. Havia uma senhora sentada no fundo da loja terminando seu sanduíche de queijo e uma mãe com seus dois filhos pequenos na mesa mais próxima à porta. Maddie estava atrás do balcão limpando o vidro com um pano molhado.
Quando estava terminando a última mesa, Harry ouviu o sino da porta tocar. Levantando os olhos, ele viu dois homens enormes entrarem. Eles estavam numa discussão calorosa. Um dos homens tinha um tapa-olho e estava vestido como se trabalhasse em uma construção. O outro usava calça jeans e uma camisa surrada que dizia "Londres é Horrível". Algo no braço esquerdo do homem logo chamou a atenção de Harry - ele tinha uma tatuagem que parecia uma cobra.
Eles foram até o balcão e olharam para Maddie. Harry nunca os vira antes, então assumiu que eles realmente entraram ali procurando algo para comer. Enquanto ela anotava os pedidos, o homem com o tapa-olho fez um gesto para o outro enquanto eles continuavam a discussão. Parecia que estavam brigando por causa de uma mulher. A discussão deles estava ficando mais quente até que o sr. Fitzwilliam saiu de sua sala e encarou os dois de braços cruzados. Harry colocou a bandeja de plástico que estava usando para recolher os pratos sobre a mesa, começando a ter uma sensação ruim sobre aonde essa discussão ia parar. O resto da loja estava em silêncio, as duas crianças se pendurando em sua mãe e olhando para os homens que discutiam. Harry e Maddie se entreolharam nervosos. A tensão na sorveteria era palpável.
"Vocês poderiam terminar essa discussão em outro lugar, por favor? Essa é minha loja e vocês estão incomodando meus clientes." o Sr. Fitzwilliam falou alto, tentando ser ouvido acima das vozes que discutiam.
O homem com a tatuagem olhou para o sr. Fitwilliam. "Por que você não vem aqui calar a gente, velhote?"
Isso não estava bom. Harry queria dizer para o sr. Fitzwilliam não sair detrás do balcão. Seus instintos lhe diziam que essa situação poderia ficar perigosa a qualquer segundo. Desejou profundamente estar com sua varinha. Poderia fazer um simples feitiço estonteante e eles nunca saberiam o que lhes atingiu. Claro que isso contava como uma situação de emergência e justificaria a quebra de uma das tantas regras do Ministério sobre o Mundo Trouxa.
Mas o sr. Fitzwilliam ou não se sentiu em perigo ou então não ligava, porque deu a volta no balcão e encarou os dois homens com os olhos estreitados. Os acontecimentos seguintes se deram em rápida sucessão.
O homem tatuado tirou uma faca e agarrou o sr. Fitzwilliam, segurando-o pela garganta. A senhora gritou e derrubou sua mesa. Os olhos do sr. Fitwilliam estavam cheios de medo e a mão de seu agressor tremia, segurando a faca.
"Não mexa um músculo, velhote." o homem do tapa-olho falou. Ele tirou algo de seu bolso e Harry viu que era um revolver. A mãe abafou um grito. Harry virou para ela. Ela tinha uma mão na boca e segurava seus filhos bem próximos. Os dois choravam.
A arma estava apontada para Maddie. "Me dê todo o dinheiro do caixa, docinho!". Tapa-olho falou com um sorriso cruel. Ele se virou rapidamente e apontou a arma para Harry e para os outros clientes. "Quero todos onde eu possa ver. Naquela parede! Vão!" Os clientes fizeram como ele mandou, assustados. Harry se juntou a eles, de olhos nos dois assaltantes. Ele queria fazer algo para impedir o assalto, mas sabia que reagir não era a melhor solução. A melhor estratégia era deixar eles levarem o dinheiro e manter todos o mais calmo possível.
A arma disparou com um alto "BANG!". O homem com a faca caiu no chão, levando o sr. Fitzwilliam junto. Alguém gritou. O sr. Fitzwilliam estava inconsciente no chão, coberto pelo corpo inerte do homem tatuado. "Tome isso seu, Nojento!" Tapa-olho disse. "Isso é o que ganha por me ferrar. Vou ficar com tudo!" o cheiro de pólvora enchia a loja e uma fumaça branca saía da arma. Harry queria correr para checar se o sr. Fitzwilliam estava bem, mas não queria alarmar o homem com tapa-olho.
"Passe pra cá, querida!" O homem com a arma disse à Maddie, apontando para ela. Ela entregou o dinheiro com a cara feia. Harry nunca a vira tão irritada ou tão determinada. Parecia que estava lutando para controlar sua raiva. Harry desejava desesperadamente que ela não tomasse nenhuma medida drástica.
Sirenes e luzes anunciaram a chegada da polícia. A situação que já não era boa tomou um rumo ainda pior. Tapa-Olho foi até a senhora, a segurou pela cintura e colocou a arma em sua cabeça. Ele a arrastou até a porta, abriu e gritou.
"Tenho várias pessoas aqui e vou matar uma por uma até que vocês me deixem sair daqui! Me ouviram? Vou matar todos se precisar!" A polícia não respondeu e Tapa-Olho entrou na sorveteria e jogou a senhora no chão, derrubando várias cadeiras.
Harry pensava rápido, tentando formular um plano para tirar todos dessa situação horripilante. Seus pensamentos se voltaram para Quadribol, como geralmente acontecia quando ele tentava achar uma saída para derrotar um inimigo. Como com o dragão que encontrara no quarto ano, tudo o que precisava fazer era desviar a atenção do homem, fazendo com que ele perdesse a concentração para que ele tivesse a oportunidade de tirar a arma do assaltante ou libertar os reféns com segurança. Talvez pudesse fingir alguma dor ou inventar outra distração. Uma idéia lhe atingiu como um raio.
"Hei!" Harry gritou. Tapa-olho virou a arma para ele.
"O que você quer, garoto?" ele falou. Harry olhou para a arma com os olhos arregalados.
"Você sabia que tem uma porta nos fundos? Eles podem usar para tentar entrar por lá." Harry disse calmamente, andando devagar até o homem, com as mãos bem a mostra para que não parecesse uma ameaça. "Ou talvez eles não saibam e você possa usá-la para sair daqui. Por que você e eu não vamos lá pra dar uma olhada?" Harry olhou rapidamente para Maddie tentando dizê-la silenciosamente para sair detrás do balcão e se juntar aos outros reféns. Quem ele queria enganar? Ela não tinha idéia do que ele queria dizer com todos aqueles movimentos com a cabeça e piscar de olhos. Ela deu os ombros, ainda com uma cara feia.
"Se você tentar qualquer coisa," tapa-Olho disse, "vou atirar em sua cabeça."
"Eu pareço tão idiota para você?" Harry respondeu, tentando não parecer muito nervoso. Seu corpo tremia e ele se lembrava constantemente que isso não era tão perigoso quanto Avada Kedrava. Pelo menos com uma arma ele teria uma chance de sobreviver se fosse baleado. Parte de sua mente lhe dizia que estava tentando algo idiota, mas ele olhou para a criança assustada atrás dele e isso lhe deu coragem para seguir em frente.
Ele foi à frente de tapa-olho. Quando estava dando a volta pra passar para trás do balcão, ele se jogou no chão, quase como se estivesse tentando a manobra Wronski. Com um movimento da perna de Harry, Tapa-Olho tropeçou e caiu de costas, a arma disparando e acertando o espelho atrás do balcão, bem longe de Maddie. O disparo da arma fez com que Tapa-Olho a largasse e Harry a tirou de seu alcance, lutando para levantar e sair de perto do assaltante antes que ele pudesse segurá-lo. O homem se sentou e segurou o tornozelo dele, fazendo com que ele caísse de cara no chão, quase quebrando o nariz. Harry engatinhou atrás da arma e a cobriu com seu corpo.
Tapa-Olho começou a chutá-lo nas costelas, tentando fazê-lo largar. Harry colocou a mão por baixo procurando a arma, desesperadamente desejando descobrir como usá-la se precisasse quando levantasse. Antes que tentasse se levantar, ouviu um grito e o som de algo duro batendo em ossos. Ele olhou pelos olhos entreabertos de dor. Maddie estava em pé ali, aparentemente tendo pulado pelo balcão. Pela posição, ela devia ter chutado Tapa-olho na cabeça. Ele estava cambaleando pra trás, as mãos cobrindo o rosto e sangue escorrendo entre seus dedos.
Tapa-Olho se virou e lançou um golpe na direção de Maddie. Ela desviou do golpe e deu uma joelhada no estômago dele. Levantado-se rápido, Harry esticou o braço e apontou a arma.
"Não se mexa!" ele gritou, a arma em sua mão balançando, mas apontada para o ladrão. "Eu não tenho medo de atirar! Não se mexa!" Tapa-Olho que estava dobrado segurando o estômago, se esticou e colocou as mãos na cabeça. Tudo terminou!
******
Harry bocejou enquanto o último detetive deixava a sorveteria. Foi uma longa tarde cheia de interrogatórios detalhados sobre a tentativa de assalto. Ele perdeu as contas de quantas vezes contou o que acontecera.
E não foi só a polícia que se interessou pelo acontecido na Doces Gostosos. Dezenas de repórteres apareceram tirando fotos e enfiando microfones na cara de todos.
Não que todos soubessem, mas Harry estava acostumado com o assédio da imprensa por causa de sua fama no mundo mágico, onde foi perseguido por eles inúmeras vezes. Ele fugia da atenção e tentava se esconder dos flashes que disparavam do lado de fora da sorveteria.
O sr. Fitzwillian, entretanto, não parecia ter a mesma opinião. Ele não parava de falar como Harry e Maddie salvaram o dia. Tinha voltado a si bem a tempo de testemunhar tudo o que acontecera depois que Harry derrubou o assaltante e não parava de comentar sobre a coragem e lealdade deles. Pelo tempo que passou nas entrevistas, o sr. Fitzwilliam devia ter contado o que aconteceu a todos membros da imprensa do mundo. Ele parecia fazer questão que todo universo soubesse dos heróis da Doces Gostosos.
Harry ainda estava maravilhado em como Maddie conseguira desarmar Tapa- Olho. Quando ele lhe perguntou, ela corou e deu os ombros.
"Aprendi aquilo em uma aula de aeróbica com boxe que tomei ano passado na escola. É um ótimo exercício. Mas nunca pensei de usar pra outra coisa que não fosse tonificar meus glúteos." Ela disse balançando a cabeça e parecendo admirada com a própria ousadia. "Eu provavelmente não devia ter feito aquilo. Já pensou se ele me acertasse? Eu ia ficar com uma cicatriz horrível!" Ela riu e voltou a limpar.
Neste instante, sr. Fitzwilliam fechou a porta e virou para eles. "Quero agradecer pelo que vocês dois fizeram," ele sorriu. "Por que vocês não vêm para meu novo clube e eu pago uns drinques pra gente comemorar? É seu último dia, não é Harry? Deixe eu lhe pagar algumas rodadas. Não precisamos deixar a loja aberta pro turno da noite."
"Desculpe, sr. Fitzwilliam, mas vou recusar. Eu não bebo." Harry respondeu.
"Vamos lá, Harry!" O sr. Fitzwilliam insistiu, indo até ele e lhe dando um tapa forte nas costas, fazendo-o engasgar. "Você só tem que voltar pra casa de seus tios daqui a três horas. Deixe-me agradecer! Você não tem que beber, só passar o tempo."
Harry não queria ser mal educado, então aceitou. Não precisou de muito pra convencer Maddie, mas ela não pareceu tão animada quanto Harry esperava. Ele achava que era porque ela quase não dormiu na noite anterior - tinha ficado nos clubes até às quatro da manhã.
Depois de uma rápida corrida de táxi, eles chegaram à porta do clube do sr. Fitzwilliam, o Deliciosas Gostosuras - aparentemente ele gostava da palvra gostosura. Harry podia ouvir a música alta vindo de dentro do prédio grande e cinza.A batida estava tão alta que parecia que seu coração batia junto com a música. Ele procurou por uma janela para ver o que estava acontecendo lá dentro, mas não achou nenhuma. Era meio constrangedor ficar no meio de pessoas que pareciam estar vestidas para ganhar um concurso de fantasias. O que eles estavam fazendo aqui a essa hora?
O porteiro se curvou para o sr. Fitzwilliam e eles entraram, para o desapontamento daqueles que estavam esperando na fila. Harry nunca estivera numa boate antes, então não sabia o que esperar. Enquanto entravam, seus sentidos logo foram inundados por esse lugar bizarro. Ele olhou para o sr. Fitzwilliam como se o estivesse vendo pela primeira vez.
Harry não acreditava no que acontecia em sua frente. A música estava tão alta que doía e ele queria cobrir os ouvidos para protegê-los. No entanto, ele manteve as mãos abaixadas; não queria ofender o sr. Fitzwilliam, especialmente porque ele foi muito legal durante todo o verão. O lugar estava lotado de gente, todas vestindo roupas pretas, muito apertadas, feitas de lycra, couro e metal. Todos olhavam esquisito para ele, encarando sua camisa branca e calça jeans - ele não se misturava muito na multidão. Enquanto eles se aproximavam do salão principal, seu olfato foi coberto pelo cheiro de suor, álcool e fumaça. Havia uma fumaça marrom na área do salão principal cheio de luzes que piscavam. Centenas de pessoas estavam na pista de dança se mexendo freneticamente com a música, num tumulto de braços, pernas e cabeças. Enquanto eles iam em direção a uma mesa , passando pelo movimento superativo, as pessoas se batiam nele e iam se espremendo para passar. Por um instante, Harry achou que tinha sido transportado para um bizarro mundo inferior.
Eles chegaram a uma mesa ocupada por cinco pessoas mais ou menos da idade de Maddie. Parecia que eles conheciam o sr. Fitzwilliam, porque o chamaram enquanto eles se aproximavam e disseram seu nome ao mesmo tempo quando ele chegou, "Fit-zie! Fit-zie! Fit-zie!"
O sr. Fitwilliam não era jovem. Na verdade, ele provavelmente tinha idade suficiente para ser pai de todas as pessoas na mesa, mas isso não parecia incomodá-los. Harry supôs que era o tipo de popularidade que se ganhava por ter uma boate. Enquanto se sentavam, uma das mulheres esfregou a cabeça careca de Fitzie como se fosse uma lâmpada mágica. Harry olhou para ela como se fosse doida. Olhando para Maddie, ele recebeu um olhar de apoio. Nenhum dos dois conhecia esse lado do sr. Fitzwilliam.
Fitzie apresentou Maddie e Harry à mesa. Os homens olhavam para Maddie e as mulheres piscavam para harry. O tempo que passaria ali seria interessante, Harry pensou, já tentando inventar uma desculpa para ir embora sem parecer ingrato ou mal-educado.
Fitzie pediu drinques para mesa. Quando a garçonete chegou, ela colocou quatro doses de uma bebida marrom na frente de cada pessoa da mesa, incluindo Harry. Ele olhou para Fitzie, imaginando o que ele planejara. Pensou que tinha deixado claro que não ia beber. Isso estava ficando mais desconfortável a cada segundo. Maddie deu os ombros e pegou um copo, virando sem pensar duas vezes. Todos na mesa fizeram o mesmo, largando o copo na mesa com força, quase se fosse uma competição de quem terminaria primeiro. Aparentemente, Harry não estava muito longe da verdade. Como ele foi informado pelo homem à direita de Maddie, o último a terminar a dose, tinha que tomar outra. Como ele não tinha tocado em nada à sua frente, Harry foi o último. Todos na mesa gritaram para ele tomar seus drinques e pediram mais um para ele.
No início, Harry se recusou a tomar uma gota. Ele tinha provado álcool em duas raras ocasiões e não se considerava um bebedor de jeito nenhum. Ele queria manter a mente sóbria pra fazer as malas mais tarde sem esquecer nada, então tentou sair educadamente do jogo.
A mesa não aceitou isso, e eles começaram a tirar sarro dele, oferecendo dinheiro. Quando uma das mulheres ofereceu muito dinheiro, Harry finalmente bebeu a dose - sem o pagamento - só para que eles parassem de insultá-lo. No que ele se meteu?
O álcool desceu queimando sua garganta e ele tossiu. A mesa começou a rir e Fitzie deu a ele a dose de punição.
"Certo!" Harry disse acima do barulho, segurando o copo transbordante em sua mão. "Vou beber esse e pronto. Tenho que ir logo pra casa." Depois disso, engoliu a segunda dose. Dessa vez não queimou tanto sua garganta, e o fez sentir-se quente por dentro. Não tinha o gosto tão ruim quanto o primeiro - provavelmente porque sua boca ainda estava dormente. Seu estômago roncou protestando, lembrando que ele não tinha comido nada no almoço ou no jantar por causa da confusão do assalto.
"Intervalo pra Cerveja!" Um dos homens da mesa gritou. Ele estava batendo o punho na mesa e fumando um cigarro. Imediatamente, a garçonete apareceu com quatro jarras de cerveja e copos. Uma caneca foi empurrada na frente de Harry. Ele olhou para caneca, imaginando o que fariam se ele se recusasse a beber. Ele percebeu que a não ser que saísse agora, ele poderia ficar tão bêbado que não conseguiria achar o caminho de volta.
"Sente, Harry!" Fitzie gritou, empurrando Harry de volta na cadeira pelo ombro quando ele tentou se levantar. "Não pode ir agora! A festa só está começando! Beba sua caneca!" Harry respirou ansioso e olhou pra Maddie. Ela estava olhando as pessoas na pista de dança, balançando a cabeça com a música.
"Eu realmente tenho que ir, sr. Fitz - quer dizer, Fitzie," Harry disse nervoso e tentou se levantar de novo. E de novo, Fitzie o empurrou na cadeira.
Harry decidiu tentar uma tática diferente. Talvez se ele ficasse ali e bebesse a cerveja bem devagar, ele poderia sair despercebido da mesa se o pessoal saísse para dançar. Ele precisava da ajuda de Maddie para que seu plano funcionasse.
"Hei, Maddie," Harry se aproximou e sussurrou pra ela.
Ela colocou a cabeça perto dele, os lábios dela praticamente tocando a orelha dele. "Você vai precisar falar no meu ouvido Harry. Não estou ouvindo nada do que está dizendo."
"Certo." ele disse falando diretamente no ouvido dela dessa vez. "Preciso de sua ajuda pra sair daqui. O se. Fitzwilliam não quer deixar eu sair, mas eu realmente preciso ir."
Ela sorriu para ele e começou a rir. Isso não estava ajudando, ele pensou, irritado, sem saber o que ela achava tão engraçado. "O que você quer que eu faça?" ela perguntou.
"Você pode levar todos pra dançar - todo mundo da mesa? Daí eu posso escapar. Eu fico te devendo uma pro resto da vida!"
Ela deu um sorriso malicioso. "Não sei, Harry. Talvez ainda não esteja na hora de ir. Você pode ser assediado por mais repórteres. Eu vi quanto você gosta deles. Por que você não fica mais um pouco e nós dois saímos juntos? Podemos inventar uma desculpa que eles vão acreditar. Ooooh! Já sei - podemos dizer que vamos para meu apartamento para transar - eles nunca vão nos impedir de sair!"
Harry olhou para ela impaciente. Ela com certeza viu sua expressão porque logo completou, "Claro que não iríamos transar. Dã! Mas eles não têm que saber. Quem liga pra o que eles pensam? Você nunca vai ver essas pessoas de novo, vai?" ela se afastou da orelha dele e bebeu um gole de cerveja, sem desviar o olhar dele.
Harry respirou fundo e cruzou os braços antes de responder. "Certo. Esse vai ser o plano B. Mas podemos tentar o plano A? Aposto que consegue tirar todas essas pessoas daqui!Você está em seu território! Você provavelmente é dona de uma boate também pelo que te conheço." Harry estava torcendo que esses elogios a incentivassem a tentar o plano dele.
"Certo. Mas tenho quase certeza que o velho Fitzie ali não vai se persuadir." Ela respondeu. Ela colocou a bebida na mesa, abriu mais um botão da camisa, e se recostou mais para o homem sentado a seu lado, flertando.
"Hora de enlouquecer!" ele gritou, gesticulando para todo o grupo se levantar. Harry balançou a cabeça para o homem, que pareceu não se importar dele ficar de fora. Todos os outros na mesa pareceram interessados em se juntar a brincadeira. Harry olhou para Fitzie, torcendo para que ele também gostasse de dançar, mas ele não se levantou. Maddie se deixou levar para a pista de dança e deu a Harry um olhar de quem não pode fazer nada, dando os ombros.
"Você tem que terminar sua cerveja, Harry," Fitzie lhe disse. "Você não quer que eu pense que minha cerveja é ruim, não é?"
Sem saber mais o que fazer, Harry levantou a caneca devagar para tomar outro gole, mas parou antes que o copo tocasse sua boca. Fitzie tinha colocado a mão sobre a caneca e estava acotovelando Harry. "Mais uma rodada comigo, Harry!" ele disse, segurando uma dose com a mão e brindando. "Vamos lá, beba com o velhote!"
E depois desse drinque, Harry começou a se preocupar cada vez menos em voltar para a rua dos Alfeneiros.
*******
Harry não tinha idéia de que horas eram, nem se importava com isso. Levantou um copo para boca, derramando um pouco em sua camisa, uns cubos de gelo caindo em seu colo. A mesa estava vazia agora, exceto por ele e Fitzie. Todos tinham voltado da pista de dança depois de uns quinze minutos e jogaram mais uma rodada de quem-termina-primeiro. Dessa vez, Harry participou com mais ânimo. Pena que ele não era muito bom nisso. Perdeu as contas de quantos drinques tomou no tempo que estava ali, mas tinha impressão que foram muitos. Sua cabeça girava e ele se sentia muito bobo. Na última hora, ele rira de tudo que qualquer um dissesse. Até teve uma crise incontrolável de riso quando uma das mulheres da mesa contou como seu ratinho de estimação morrera. Sentia-se extremamente quente e viu que precisava se concentrar muito quando falava para não embolar as palavras. Essa coisa de boate era bem mais divertida do que pensava. Ele tomou outro gole e olhou para pista de dança.
Maddie estava lá com outro cara da mesa. Ela dançava como todos os outros, balançando seus ombros e quadris em movimentos circulares, jogando seus braços pra cima de vez em quando e jogando a cabeça pra frente e para trás. De repente, as luzes da pista mudaram de novo e Harry viu uma coisa que nunca vira antes. Ela parecia muito com Hermione. Com ele nunca percebeu isso? Com os cabelos nos ombros e o jeito de sorrir, ela poderia se passar como irmã gêmea! Enquanto ela dançava, ele se viu olhando fixamente pra ela, mas sonhando com Hermione. Como ele estava com saudades! Ele mal podia esperar por voltar a Hogwarts e encontrá-la no dia seguinte.
Hogwarts! Ele tinha que voltar! Precisava arrumar as malas! Ele quase esqueceu em seu estado alcoolizado que precisava voltar pra escola amanhã. Olhou para o relógio, mas não conseguiu ver as horas com seus olhos embargados. Ele olhou pra Fitzie.
"Que horas são?" ele gaguejou, esperando que Fitzie o entendesse.
"O que?" Fitzie disse. Harry balançou a cabeça. Ia apenas se levantar e sair. Tinha que ir ao banheiro mesmo. Ele ia pedir licença e ir embora - ou talvez procurar um táxi para levá-lo para casa.
Harry levantou da cadeira e deu um passo, depois tropeçou no próprio pé. A última coisa que Harry se lembrou daquela noite foi uma rápida olhada no carpete de listas vermelhas e roxas.
******
Harry acordou sentindo uma intensa dor na cabeça. No início, achou que fosse sua cicatriz, mas a dor não parecia vir dali, então ele colocou as mãos em volta da cabeça, pressionando seus dedos contra a pele, numa tentativa de fazer pressão para combater a dor. Não adiantou. Para piorar, ele estava enjoado e tonto. Assustado, percebeu que não estava vestindo nada. Ele se sentou de repente, fazendo o mundo ao seu redor girar.
Estava entrando em pânico enquanto olhava a sua volta. Ele não estava de óculos, então não podia ver mais que um borrão. Mas sabia que esse borrão não parecia nada com seu quarto na casa número quatro da rua dos Alfeneiros. Onde raios ele estava? Ele se inclinou e tateou a procura de seus óculos numa mesinha junto à cama. Ele os colocou e engasgou. Estava em um quarto estranho, numa cama estranha, sua roupa espalhada pelo chão. "Meu Deus!" ele disse, seu coração afundando enquanto ele investigava as evidências ao seu redor, "O que eu fiz?"
Harry acordou antes que seu alarme disparasse. Era o dia anterior à sua volta para o último ano em Hogwarts, o que significava que só moraria na casa dos Dursley mais algumas horas. Ele praticamente pulou da cama e se aprontou rapidamente para o trabalho. Terminaria de fazer suas malas quando voltasse.
Na sorveteira, Harry não continha sua alegria. Ele deu a vários clientes bolas extras de sorvete, e não cobrou nada de duas crianças por seu sorvete tamanho infantil. Até terminou algumas tarefas de Maddie enquanto ela descansava pois ele precisava gastar sua energia acumulada. O sr. Ftizwillian comentou que Harry estava muito mais animado que de costume.
E então aconteceu algo que mudou tudo.
Era aproximadamente duas da tarde e Harry estava limpando as mesas depois que os clientes do almoço começaram a diminuir. Havia uma senhora sentada no fundo da loja terminando seu sanduíche de queijo e uma mãe com seus dois filhos pequenos na mesa mais próxima à porta. Maddie estava atrás do balcão limpando o vidro com um pano molhado.
Quando estava terminando a última mesa, Harry ouviu o sino da porta tocar. Levantando os olhos, ele viu dois homens enormes entrarem. Eles estavam numa discussão calorosa. Um dos homens tinha um tapa-olho e estava vestido como se trabalhasse em uma construção. O outro usava calça jeans e uma camisa surrada que dizia "Londres é Horrível". Algo no braço esquerdo do homem logo chamou a atenção de Harry - ele tinha uma tatuagem que parecia uma cobra.
Eles foram até o balcão e olharam para Maddie. Harry nunca os vira antes, então assumiu que eles realmente entraram ali procurando algo para comer. Enquanto ela anotava os pedidos, o homem com o tapa-olho fez um gesto para o outro enquanto eles continuavam a discussão. Parecia que estavam brigando por causa de uma mulher. A discussão deles estava ficando mais quente até que o sr. Fitzwilliam saiu de sua sala e encarou os dois de braços cruzados. Harry colocou a bandeja de plástico que estava usando para recolher os pratos sobre a mesa, começando a ter uma sensação ruim sobre aonde essa discussão ia parar. O resto da loja estava em silêncio, as duas crianças se pendurando em sua mãe e olhando para os homens que discutiam. Harry e Maddie se entreolharam nervosos. A tensão na sorveteria era palpável.
"Vocês poderiam terminar essa discussão em outro lugar, por favor? Essa é minha loja e vocês estão incomodando meus clientes." o Sr. Fitzwilliam falou alto, tentando ser ouvido acima das vozes que discutiam.
O homem com a tatuagem olhou para o sr. Fitwilliam. "Por que você não vem aqui calar a gente, velhote?"
Isso não estava bom. Harry queria dizer para o sr. Fitzwilliam não sair detrás do balcão. Seus instintos lhe diziam que essa situação poderia ficar perigosa a qualquer segundo. Desejou profundamente estar com sua varinha. Poderia fazer um simples feitiço estonteante e eles nunca saberiam o que lhes atingiu. Claro que isso contava como uma situação de emergência e justificaria a quebra de uma das tantas regras do Ministério sobre o Mundo Trouxa.
Mas o sr. Fitzwilliam ou não se sentiu em perigo ou então não ligava, porque deu a volta no balcão e encarou os dois homens com os olhos estreitados. Os acontecimentos seguintes se deram em rápida sucessão.
O homem tatuado tirou uma faca e agarrou o sr. Fitzwilliam, segurando-o pela garganta. A senhora gritou e derrubou sua mesa. Os olhos do sr. Fitwilliam estavam cheios de medo e a mão de seu agressor tremia, segurando a faca.
"Não mexa um músculo, velhote." o homem do tapa-olho falou. Ele tirou algo de seu bolso e Harry viu que era um revolver. A mãe abafou um grito. Harry virou para ela. Ela tinha uma mão na boca e segurava seus filhos bem próximos. Os dois choravam.
A arma estava apontada para Maddie. "Me dê todo o dinheiro do caixa, docinho!". Tapa-olho falou com um sorriso cruel. Ele se virou rapidamente e apontou a arma para Harry e para os outros clientes. "Quero todos onde eu possa ver. Naquela parede! Vão!" Os clientes fizeram como ele mandou, assustados. Harry se juntou a eles, de olhos nos dois assaltantes. Ele queria fazer algo para impedir o assalto, mas sabia que reagir não era a melhor solução. A melhor estratégia era deixar eles levarem o dinheiro e manter todos o mais calmo possível.
A arma disparou com um alto "BANG!". O homem com a faca caiu no chão, levando o sr. Fitzwilliam junto. Alguém gritou. O sr. Fitzwilliam estava inconsciente no chão, coberto pelo corpo inerte do homem tatuado. "Tome isso seu, Nojento!" Tapa-olho disse. "Isso é o que ganha por me ferrar. Vou ficar com tudo!" o cheiro de pólvora enchia a loja e uma fumaça branca saía da arma. Harry queria correr para checar se o sr. Fitzwilliam estava bem, mas não queria alarmar o homem com tapa-olho.
"Passe pra cá, querida!" O homem com a arma disse à Maddie, apontando para ela. Ela entregou o dinheiro com a cara feia. Harry nunca a vira tão irritada ou tão determinada. Parecia que estava lutando para controlar sua raiva. Harry desejava desesperadamente que ela não tomasse nenhuma medida drástica.
Sirenes e luzes anunciaram a chegada da polícia. A situação que já não era boa tomou um rumo ainda pior. Tapa-Olho foi até a senhora, a segurou pela cintura e colocou a arma em sua cabeça. Ele a arrastou até a porta, abriu e gritou.
"Tenho várias pessoas aqui e vou matar uma por uma até que vocês me deixem sair daqui! Me ouviram? Vou matar todos se precisar!" A polícia não respondeu e Tapa-Olho entrou na sorveteria e jogou a senhora no chão, derrubando várias cadeiras.
Harry pensava rápido, tentando formular um plano para tirar todos dessa situação horripilante. Seus pensamentos se voltaram para Quadribol, como geralmente acontecia quando ele tentava achar uma saída para derrotar um inimigo. Como com o dragão que encontrara no quarto ano, tudo o que precisava fazer era desviar a atenção do homem, fazendo com que ele perdesse a concentração para que ele tivesse a oportunidade de tirar a arma do assaltante ou libertar os reféns com segurança. Talvez pudesse fingir alguma dor ou inventar outra distração. Uma idéia lhe atingiu como um raio.
"Hei!" Harry gritou. Tapa-olho virou a arma para ele.
"O que você quer, garoto?" ele falou. Harry olhou para a arma com os olhos arregalados.
"Você sabia que tem uma porta nos fundos? Eles podem usar para tentar entrar por lá." Harry disse calmamente, andando devagar até o homem, com as mãos bem a mostra para que não parecesse uma ameaça. "Ou talvez eles não saibam e você possa usá-la para sair daqui. Por que você e eu não vamos lá pra dar uma olhada?" Harry olhou rapidamente para Maddie tentando dizê-la silenciosamente para sair detrás do balcão e se juntar aos outros reféns. Quem ele queria enganar? Ela não tinha idéia do que ele queria dizer com todos aqueles movimentos com a cabeça e piscar de olhos. Ela deu os ombros, ainda com uma cara feia.
"Se você tentar qualquer coisa," tapa-Olho disse, "vou atirar em sua cabeça."
"Eu pareço tão idiota para você?" Harry respondeu, tentando não parecer muito nervoso. Seu corpo tremia e ele se lembrava constantemente que isso não era tão perigoso quanto Avada Kedrava. Pelo menos com uma arma ele teria uma chance de sobreviver se fosse baleado. Parte de sua mente lhe dizia que estava tentando algo idiota, mas ele olhou para a criança assustada atrás dele e isso lhe deu coragem para seguir em frente.
Ele foi à frente de tapa-olho. Quando estava dando a volta pra passar para trás do balcão, ele se jogou no chão, quase como se estivesse tentando a manobra Wronski. Com um movimento da perna de Harry, Tapa-Olho tropeçou e caiu de costas, a arma disparando e acertando o espelho atrás do balcão, bem longe de Maddie. O disparo da arma fez com que Tapa-Olho a largasse e Harry a tirou de seu alcance, lutando para levantar e sair de perto do assaltante antes que ele pudesse segurá-lo. O homem se sentou e segurou o tornozelo dele, fazendo com que ele caísse de cara no chão, quase quebrando o nariz. Harry engatinhou atrás da arma e a cobriu com seu corpo.
Tapa-Olho começou a chutá-lo nas costelas, tentando fazê-lo largar. Harry colocou a mão por baixo procurando a arma, desesperadamente desejando descobrir como usá-la se precisasse quando levantasse. Antes que tentasse se levantar, ouviu um grito e o som de algo duro batendo em ossos. Ele olhou pelos olhos entreabertos de dor. Maddie estava em pé ali, aparentemente tendo pulado pelo balcão. Pela posição, ela devia ter chutado Tapa-olho na cabeça. Ele estava cambaleando pra trás, as mãos cobrindo o rosto e sangue escorrendo entre seus dedos.
Tapa-Olho se virou e lançou um golpe na direção de Maddie. Ela desviou do golpe e deu uma joelhada no estômago dele. Levantado-se rápido, Harry esticou o braço e apontou a arma.
"Não se mexa!" ele gritou, a arma em sua mão balançando, mas apontada para o ladrão. "Eu não tenho medo de atirar! Não se mexa!" Tapa-Olho que estava dobrado segurando o estômago, se esticou e colocou as mãos na cabeça. Tudo terminou!
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Harry bocejou enquanto o último detetive deixava a sorveteria. Foi uma longa tarde cheia de interrogatórios detalhados sobre a tentativa de assalto. Ele perdeu as contas de quantas vezes contou o que acontecera.
E não foi só a polícia que se interessou pelo acontecido na Doces Gostosos. Dezenas de repórteres apareceram tirando fotos e enfiando microfones na cara de todos.
Não que todos soubessem, mas Harry estava acostumado com o assédio da imprensa por causa de sua fama no mundo mágico, onde foi perseguido por eles inúmeras vezes. Ele fugia da atenção e tentava se esconder dos flashes que disparavam do lado de fora da sorveteria.
O sr. Fitzwillian, entretanto, não parecia ter a mesma opinião. Ele não parava de falar como Harry e Maddie salvaram o dia. Tinha voltado a si bem a tempo de testemunhar tudo o que acontecera depois que Harry derrubou o assaltante e não parava de comentar sobre a coragem e lealdade deles. Pelo tempo que passou nas entrevistas, o sr. Fitzwilliam devia ter contado o que aconteceu a todos membros da imprensa do mundo. Ele parecia fazer questão que todo universo soubesse dos heróis da Doces Gostosos.
Harry ainda estava maravilhado em como Maddie conseguira desarmar Tapa- Olho. Quando ele lhe perguntou, ela corou e deu os ombros.
"Aprendi aquilo em uma aula de aeróbica com boxe que tomei ano passado na escola. É um ótimo exercício. Mas nunca pensei de usar pra outra coisa que não fosse tonificar meus glúteos." Ela disse balançando a cabeça e parecendo admirada com a própria ousadia. "Eu provavelmente não devia ter feito aquilo. Já pensou se ele me acertasse? Eu ia ficar com uma cicatriz horrível!" Ela riu e voltou a limpar.
Neste instante, sr. Fitzwilliam fechou a porta e virou para eles. "Quero agradecer pelo que vocês dois fizeram," ele sorriu. "Por que vocês não vêm para meu novo clube e eu pago uns drinques pra gente comemorar? É seu último dia, não é Harry? Deixe eu lhe pagar algumas rodadas. Não precisamos deixar a loja aberta pro turno da noite."
"Desculpe, sr. Fitzwilliam, mas vou recusar. Eu não bebo." Harry respondeu.
"Vamos lá, Harry!" O sr. Fitzwilliam insistiu, indo até ele e lhe dando um tapa forte nas costas, fazendo-o engasgar. "Você só tem que voltar pra casa de seus tios daqui a três horas. Deixe-me agradecer! Você não tem que beber, só passar o tempo."
Harry não queria ser mal educado, então aceitou. Não precisou de muito pra convencer Maddie, mas ela não pareceu tão animada quanto Harry esperava. Ele achava que era porque ela quase não dormiu na noite anterior - tinha ficado nos clubes até às quatro da manhã.
Depois de uma rápida corrida de táxi, eles chegaram à porta do clube do sr. Fitzwilliam, o Deliciosas Gostosuras - aparentemente ele gostava da palvra gostosura. Harry podia ouvir a música alta vindo de dentro do prédio grande e cinza.A batida estava tão alta que parecia que seu coração batia junto com a música. Ele procurou por uma janela para ver o que estava acontecendo lá dentro, mas não achou nenhuma. Era meio constrangedor ficar no meio de pessoas que pareciam estar vestidas para ganhar um concurso de fantasias. O que eles estavam fazendo aqui a essa hora?
O porteiro se curvou para o sr. Fitzwilliam e eles entraram, para o desapontamento daqueles que estavam esperando na fila. Harry nunca estivera numa boate antes, então não sabia o que esperar. Enquanto entravam, seus sentidos logo foram inundados por esse lugar bizarro. Ele olhou para o sr. Fitzwilliam como se o estivesse vendo pela primeira vez.
Harry não acreditava no que acontecia em sua frente. A música estava tão alta que doía e ele queria cobrir os ouvidos para protegê-los. No entanto, ele manteve as mãos abaixadas; não queria ofender o sr. Fitzwilliam, especialmente porque ele foi muito legal durante todo o verão. O lugar estava lotado de gente, todas vestindo roupas pretas, muito apertadas, feitas de lycra, couro e metal. Todos olhavam esquisito para ele, encarando sua camisa branca e calça jeans - ele não se misturava muito na multidão. Enquanto eles se aproximavam do salão principal, seu olfato foi coberto pelo cheiro de suor, álcool e fumaça. Havia uma fumaça marrom na área do salão principal cheio de luzes que piscavam. Centenas de pessoas estavam na pista de dança se mexendo freneticamente com a música, num tumulto de braços, pernas e cabeças. Enquanto eles iam em direção a uma mesa , passando pelo movimento superativo, as pessoas se batiam nele e iam se espremendo para passar. Por um instante, Harry achou que tinha sido transportado para um bizarro mundo inferior.
Eles chegaram a uma mesa ocupada por cinco pessoas mais ou menos da idade de Maddie. Parecia que eles conheciam o sr. Fitzwilliam, porque o chamaram enquanto eles se aproximavam e disseram seu nome ao mesmo tempo quando ele chegou, "Fit-zie! Fit-zie! Fit-zie!"
O sr. Fitwilliam não era jovem. Na verdade, ele provavelmente tinha idade suficiente para ser pai de todas as pessoas na mesa, mas isso não parecia incomodá-los. Harry supôs que era o tipo de popularidade que se ganhava por ter uma boate. Enquanto se sentavam, uma das mulheres esfregou a cabeça careca de Fitzie como se fosse uma lâmpada mágica. Harry olhou para ela como se fosse doida. Olhando para Maddie, ele recebeu um olhar de apoio. Nenhum dos dois conhecia esse lado do sr. Fitzwilliam.
Fitzie apresentou Maddie e Harry à mesa. Os homens olhavam para Maddie e as mulheres piscavam para harry. O tempo que passaria ali seria interessante, Harry pensou, já tentando inventar uma desculpa para ir embora sem parecer ingrato ou mal-educado.
Fitzie pediu drinques para mesa. Quando a garçonete chegou, ela colocou quatro doses de uma bebida marrom na frente de cada pessoa da mesa, incluindo Harry. Ele olhou para Fitzie, imaginando o que ele planejara. Pensou que tinha deixado claro que não ia beber. Isso estava ficando mais desconfortável a cada segundo. Maddie deu os ombros e pegou um copo, virando sem pensar duas vezes. Todos na mesa fizeram o mesmo, largando o copo na mesa com força, quase se fosse uma competição de quem terminaria primeiro. Aparentemente, Harry não estava muito longe da verdade. Como ele foi informado pelo homem à direita de Maddie, o último a terminar a dose, tinha que tomar outra. Como ele não tinha tocado em nada à sua frente, Harry foi o último. Todos na mesa gritaram para ele tomar seus drinques e pediram mais um para ele.
No início, Harry se recusou a tomar uma gota. Ele tinha provado álcool em duas raras ocasiões e não se considerava um bebedor de jeito nenhum. Ele queria manter a mente sóbria pra fazer as malas mais tarde sem esquecer nada, então tentou sair educadamente do jogo.
A mesa não aceitou isso, e eles começaram a tirar sarro dele, oferecendo dinheiro. Quando uma das mulheres ofereceu muito dinheiro, Harry finalmente bebeu a dose - sem o pagamento - só para que eles parassem de insultá-lo. No que ele se meteu?
O álcool desceu queimando sua garganta e ele tossiu. A mesa começou a rir e Fitzie deu a ele a dose de punição.
"Certo!" Harry disse acima do barulho, segurando o copo transbordante em sua mão. "Vou beber esse e pronto. Tenho que ir logo pra casa." Depois disso, engoliu a segunda dose. Dessa vez não queimou tanto sua garganta, e o fez sentir-se quente por dentro. Não tinha o gosto tão ruim quanto o primeiro - provavelmente porque sua boca ainda estava dormente. Seu estômago roncou protestando, lembrando que ele não tinha comido nada no almoço ou no jantar por causa da confusão do assalto.
"Intervalo pra Cerveja!" Um dos homens da mesa gritou. Ele estava batendo o punho na mesa e fumando um cigarro. Imediatamente, a garçonete apareceu com quatro jarras de cerveja e copos. Uma caneca foi empurrada na frente de Harry. Ele olhou para caneca, imaginando o que fariam se ele se recusasse a beber. Ele percebeu que a não ser que saísse agora, ele poderia ficar tão bêbado que não conseguiria achar o caminho de volta.
"Sente, Harry!" Fitzie gritou, empurrando Harry de volta na cadeira pelo ombro quando ele tentou se levantar. "Não pode ir agora! A festa só está começando! Beba sua caneca!" Harry respirou ansioso e olhou pra Maddie. Ela estava olhando as pessoas na pista de dança, balançando a cabeça com a música.
"Eu realmente tenho que ir, sr. Fitz - quer dizer, Fitzie," Harry disse nervoso e tentou se levantar de novo. E de novo, Fitzie o empurrou na cadeira.
Harry decidiu tentar uma tática diferente. Talvez se ele ficasse ali e bebesse a cerveja bem devagar, ele poderia sair despercebido da mesa se o pessoal saísse para dançar. Ele precisava da ajuda de Maddie para que seu plano funcionasse.
"Hei, Maddie," Harry se aproximou e sussurrou pra ela.
Ela colocou a cabeça perto dele, os lábios dela praticamente tocando a orelha dele. "Você vai precisar falar no meu ouvido Harry. Não estou ouvindo nada do que está dizendo."
"Certo." ele disse falando diretamente no ouvido dela dessa vez. "Preciso de sua ajuda pra sair daqui. O se. Fitzwilliam não quer deixar eu sair, mas eu realmente preciso ir."
Ela sorriu para ele e começou a rir. Isso não estava ajudando, ele pensou, irritado, sem saber o que ela achava tão engraçado. "O que você quer que eu faça?" ela perguntou.
"Você pode levar todos pra dançar - todo mundo da mesa? Daí eu posso escapar. Eu fico te devendo uma pro resto da vida!"
Ela deu um sorriso malicioso. "Não sei, Harry. Talvez ainda não esteja na hora de ir. Você pode ser assediado por mais repórteres. Eu vi quanto você gosta deles. Por que você não fica mais um pouco e nós dois saímos juntos? Podemos inventar uma desculpa que eles vão acreditar. Ooooh! Já sei - podemos dizer que vamos para meu apartamento para transar - eles nunca vão nos impedir de sair!"
Harry olhou para ela impaciente. Ela com certeza viu sua expressão porque logo completou, "Claro que não iríamos transar. Dã! Mas eles não têm que saber. Quem liga pra o que eles pensam? Você nunca vai ver essas pessoas de novo, vai?" ela se afastou da orelha dele e bebeu um gole de cerveja, sem desviar o olhar dele.
Harry respirou fundo e cruzou os braços antes de responder. "Certo. Esse vai ser o plano B. Mas podemos tentar o plano A? Aposto que consegue tirar todas essas pessoas daqui!Você está em seu território! Você provavelmente é dona de uma boate também pelo que te conheço." Harry estava torcendo que esses elogios a incentivassem a tentar o plano dele.
"Certo. Mas tenho quase certeza que o velho Fitzie ali não vai se persuadir." Ela respondeu. Ela colocou a bebida na mesa, abriu mais um botão da camisa, e se recostou mais para o homem sentado a seu lado, flertando.
"Hora de enlouquecer!" ele gritou, gesticulando para todo o grupo se levantar. Harry balançou a cabeça para o homem, que pareceu não se importar dele ficar de fora. Todos os outros na mesa pareceram interessados em se juntar a brincadeira. Harry olhou para Fitzie, torcendo para que ele também gostasse de dançar, mas ele não se levantou. Maddie se deixou levar para a pista de dança e deu a Harry um olhar de quem não pode fazer nada, dando os ombros.
"Você tem que terminar sua cerveja, Harry," Fitzie lhe disse. "Você não quer que eu pense que minha cerveja é ruim, não é?"
Sem saber mais o que fazer, Harry levantou a caneca devagar para tomar outro gole, mas parou antes que o copo tocasse sua boca. Fitzie tinha colocado a mão sobre a caneca e estava acotovelando Harry. "Mais uma rodada comigo, Harry!" ele disse, segurando uma dose com a mão e brindando. "Vamos lá, beba com o velhote!"
E depois desse drinque, Harry começou a se preocupar cada vez menos em voltar para a rua dos Alfeneiros.
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Harry não tinha idéia de que horas eram, nem se importava com isso. Levantou um copo para boca, derramando um pouco em sua camisa, uns cubos de gelo caindo em seu colo. A mesa estava vazia agora, exceto por ele e Fitzie. Todos tinham voltado da pista de dança depois de uns quinze minutos e jogaram mais uma rodada de quem-termina-primeiro. Dessa vez, Harry participou com mais ânimo. Pena que ele não era muito bom nisso. Perdeu as contas de quantos drinques tomou no tempo que estava ali, mas tinha impressão que foram muitos. Sua cabeça girava e ele se sentia muito bobo. Na última hora, ele rira de tudo que qualquer um dissesse. Até teve uma crise incontrolável de riso quando uma das mulheres da mesa contou como seu ratinho de estimação morrera. Sentia-se extremamente quente e viu que precisava se concentrar muito quando falava para não embolar as palavras. Essa coisa de boate era bem mais divertida do que pensava. Ele tomou outro gole e olhou para pista de dança.
Maddie estava lá com outro cara da mesa. Ela dançava como todos os outros, balançando seus ombros e quadris em movimentos circulares, jogando seus braços pra cima de vez em quando e jogando a cabeça pra frente e para trás. De repente, as luzes da pista mudaram de novo e Harry viu uma coisa que nunca vira antes. Ela parecia muito com Hermione. Com ele nunca percebeu isso? Com os cabelos nos ombros e o jeito de sorrir, ela poderia se passar como irmã gêmea! Enquanto ela dançava, ele se viu olhando fixamente pra ela, mas sonhando com Hermione. Como ele estava com saudades! Ele mal podia esperar por voltar a Hogwarts e encontrá-la no dia seguinte.
Hogwarts! Ele tinha que voltar! Precisava arrumar as malas! Ele quase esqueceu em seu estado alcoolizado que precisava voltar pra escola amanhã. Olhou para o relógio, mas não conseguiu ver as horas com seus olhos embargados. Ele olhou pra Fitzie.
"Que horas são?" ele gaguejou, esperando que Fitzie o entendesse.
"O que?" Fitzie disse. Harry balançou a cabeça. Ia apenas se levantar e sair. Tinha que ir ao banheiro mesmo. Ele ia pedir licença e ir embora - ou talvez procurar um táxi para levá-lo para casa.
Harry levantou da cadeira e deu um passo, depois tropeçou no próprio pé. A última coisa que Harry se lembrou daquela noite foi uma rápida olhada no carpete de listas vermelhas e roxas.
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Harry acordou sentindo uma intensa dor na cabeça. No início, achou que fosse sua cicatriz, mas a dor não parecia vir dali, então ele colocou as mãos em volta da cabeça, pressionando seus dedos contra a pele, numa tentativa de fazer pressão para combater a dor. Não adiantou. Para piorar, ele estava enjoado e tonto. Assustado, percebeu que não estava vestindo nada. Ele se sentou de repente, fazendo o mundo ao seu redor girar.
Estava entrando em pânico enquanto olhava a sua volta. Ele não estava de óculos, então não podia ver mais que um borrão. Mas sabia que esse borrão não parecia nada com seu quarto na casa número quatro da rua dos Alfeneiros. Onde raios ele estava? Ele se inclinou e tateou a procura de seus óculos numa mesinha junto à cama. Ele os colocou e engasgou. Estava em um quarto estranho, numa cama estranha, sua roupa espalhada pelo chão. "Meu Deus!" ele disse, seu coração afundando enquanto ele investigava as evidências ao seu redor, "O que eu fiz?"
