Resumo: nesse capítulo, vemos um dos piores dias da vida de Harry...
Harry Potter e a tábua de Transmora

Capítulo 3: O dia seguinte
Um milhão de perguntas enchiam a cabeça de Harry ao mesmo tempo: como ele tinha chegado ali? De quem era esse quarto? Por que ele não estava vestido? O que aconteceu depois que ele saiu da boate? Que horas eram?

Ele forçou o cérebro para tentar lembrar o que aconteceu na noite anterior. Não tinha memória alguma de como saiu do clube. A última coisa que lembrava era de ter tropeçado quando se levantou para ir ao banheiro. Não tinha idéia de como tinha acabado nessa situação, mas aqui estava ele. Ele esfregou os olhos por baixo dos óculos, tentando tirar a nuvem de seus pensamentos.

Ouviu barulhos vindo de fora do quarto. Parecia alguém remexendo em algo na cozinha. Ele podia sentir o cheiro familiar de café da manhã misturado ao perfume do quarto. Olhou o ambiente, avaliando as cobertas de seda preta, as cortinas beges e os móveis modernos. Antes que pudesse levantar para olhar mais, a porta começou a abrir. Ele se deitou rapidamente, fingindo que estava dormindo. Alguém entrou no quarto, uma voz certamente feminina cantarolando. Um som metálico ao lado de sua cabeça indicava que um prato fora colocado no criado mudo onde seus óculos estavam. Malditos óculos, ele ainda estava com eles! Sua tentativa de fingir que estava dormindo tinha que acabar e teria que acabar agora! Ele abriu os olhos e engasgou. Era Maddie.

"Bom dia, dorminhoco." ela disse gentil, sentando ao lado dele na cama. Ele puxou as cobertas mais para cima sobre o peito e moveu as pernas para longe dela. Ele não conseguiu evitar olhar para ela, seus olhos arregalados tanto de medo como de nervosismos. Os cabelos dela não estavam com o penteado de costume, mas sim soltos e um pouco bagunçados. Ela usava uma camisa branca e o que pareciam ceroulas. Harry checou rapidamente se não era as dele - não eram. Isso não impediu que ele corasse.

"O que estou fazendo aqui?" ele disse, com a voz apertada.

"Você teve uma noite e tanto." Maddie respondeu, esticando o braço e tirando o cabelo da testa dele com delicadeza. Ele se afastou, quase por reflexo. Ela franziu a testa. "Como está se sentindo?"

Harry apenas olhou para ela, um milhão de pensamentos passando por sua cabeça. Ele tinha dormido com ela? Tinha apenas desmaiado? Precisava saber o que acontecera.

Antes que ele pudesse perguntar, ela olhou para ele de um jeito muito gentil. "Eu fiz um café da manhã para você. Não sabia do que você gostava então fiz algumas coisas - ovos, salsicha, panquecas. Você deveria comer alguma coisa. Precisa recuperar as forças depois da aventura de ontem à noite." ela disse, sorrindo e com o olhar preocupado.

"Aventura?" ele perguntou, segurando a cabeça nas mãos. Até falar doía.

"É. Não se lembra?"

"Não, na verdade não." ele disse. Olhou para ela, seu estômago revirando e o coração batendo apressado.

"Você estava fora de controle!" ela disse devagar, a voz mais profunda que o de costume. Ela respirou profundamente, dando um largo sorriso. Era o mesmo sorriso que ela usara em tantos outros homens quando estava paquerando.

Ele pôde sentir seu rosto formar uma careta em reação ao que ela disse. O que ela queria dizer com aquilo? Por favor, Deus, ele pensou, não deixe que eu tenha dormido com ela, por favor.

"Por que está olhando assim para mim, Harry?" ela perguntou interrompendo seus pensamentos. Depois ela inspirou rapidamente e cobriu a boca com as mãos. "Ontem foi sua primeira vez, não foi?"

Harry sentiu seu estômago descer até o chão. Seu pior medo se confirmara. Tinha cometido o maior erro de sua vida e nem lembrava de tê-lo feito. Ele olhou para ela, tentando esconder o fato que ele queria gritar, brigar, morrer.

Tentando interpretar o silêncio dele, Maddie tirou as mãos da boca e cobriu a mão esquerda dele com a dela. Ela olhou atentamente para o rosto dele e quase sussurrou, "Bem, se esta foi sua primeira vez, estou feliz que estava com alguém que realmente podia cuidar de você. Você é mesmo incrível, Harry. Eu gostei muito do tempo que passamos juntos."

Ele não disse nada - a voz estava presa na garganta. Ele puxou a mão da dela e recuou ainda mais.

"Qual o problema?" ela disse, olhando preocupada para ele. "Você não se arrepende..."

"Maddie," Harry a interrompeu, "Eu não queria que as coisas saíssem do controle desse jeito. Eu não achei..." ele não terminou. Ele não podia dizer. Dizer faria as coisas ainda mais reais para ele e não sabia se agüentaria dizer essas palavras, muito menos pensar nelas. Ele sentiu lágrimas em seus olhos e olhou para o teto, tentando contê-las.

"Sei o que quer dizer," ela disse gentil. "Não precisa. Eu também me diverti ontem. Sinto que tenha que terminar. Vou voltar para América e você vai voltar para escola. Mas nunca te esquecerei, Harry. Pode ter certeza disso."

Harry prendeu a respiração numa tentativa de controlar suas emoções. Não tinha coragem de dizer que não lembrava nada da noite anterior nem que não sentia nada disso por ela. Ele se odiava pelo que tinha feito. Tudo o que queria fazer era sair dali e tentar esquecer essa experiência terrível. Ele sentiu uma onde repentina de náusea e segurou o estômago, se curvando de dor.

"Você vai ficar bem?" ela perguntou a ele se levantando de repente. "Por que não toma um pouco de suco de laranja? Isso vai te deixar melhor." Ela saiu do quarto rapidamente.

Harry jogou o lençol para o lado e levantou rápido. Isso lhe deu uma dor de cabeça que o deixou cambaleando e fez uma careta por causa de outra dor que ele não tinha notado antes. Ele passou o braço para tocar um ponto em sua omoplata direita que doía e coçava. Como ele tinha conseguido aquele arranhão? Tateando mais a área, ele encontrou outros dois arranhões que não estavam ali no dia anterior. Por um momento ficou confuso com isso, imaginando se tinha se envolvido em alguma briga além das outras atividades da noite anterior. Mas ele não pensou isso por muito tempo, lembrando de algo que Fred dissera no ano anterior a ele e Rony. Às vezes as mulheres arranhavam você em um momento de paixão enquanto você estava fazendo amor com elas. De acordo com Fred, isso indicava que elas estavam gostando muito. Essa evidência física do que ele tinha feito foi a gota d'água. Ele pegou um lixeiro que estava ao lado da escrivaninha e vomitou com vontade, esvaziando o estômago. Quando terminou, cambaleou pelo quarto, pegando cada peça de roupa e se vestindo o mais rápido possível em seu estado.

Sentia como se sua vida tivesse saído do controle. Ele se sentia tão mal que achava que ia morrer. Nunca tivera ressaca antes, e fez uma promessa a si mesmo que nunca mais teria uma. Mas não era isso que o incomodava. Ele tinha cometido o maior erro de sua vida e isso já estava fazendo-o sentir miserável.

Antes que Maddie voltasse para o quarto, ele saiu escondido pela porta e viu que estava no térreo do prédio. Desejando que ela não o visse, ele girou a maçaneta, abriu a porta devagar e saiu correndo. A ultima coisa que ouviu enquanto tropeçava pela calçada foi Maddie gritando por ele. "Espere, Harry! Volte!"

******

Harry andou pela plataforma nove e meio pela ultima vez como um aluno de Hogwarts. O sentimento de nostalgia que ele normalmente teria numa ocasião dessa foi trocado por sentimentos de culpa, desespero e tristeza profunda. Tinha acabado de perder sua virgindade com uma mulher que ele não amava e ao fazer isso ele tinha traído a pessoa mais importante de sua vida do jeito mais profundo.

Alem de se sentir devastado emocionalmente, ele estava se sentindo fisicamente doente. Sua cabeça estava latejando e ele sentia que podia vomitar de novo a qualquer instante. Isso seria suportável, não fosse pelo fato dele estar se sentindo extremamente tonto e estar tendo dificuldades para andar em linha reta. Somando tudo, era o pior dia de sua vida - e não estava nem perto do fim.

Quando ele voltou do apartamento de Maddie de táxi, ele foi repreendido pelo taxista sobre os perigos de beber com tão pouca idade. Ao entrar pela porta da casa numero 4 da rua dos Alfeneiros, foi recebido por reclamações dos Dursley. Eles estavam com raiva por ele ter vindo tão tarde para casa e por ter se metido na tentativa de roubo da Doces Gostosos. Tio Valter jogou o jornal da manhã em cima dele enquanto ele arrumava o malão.

Nada disso importava porque ele estava muito aborrecido com o que fizera. Não conseguia parar de duelar com o fato dele ter traído a mulher que amava, fazendo sexo com outra que não amava. Estava ansioso em dividir com Hermione algo que nunca planejara dividir com outra pessoa. Só faltavam dezoito dias até o aniversário dela quando eles planejavam consumar a relação. Harry freqüentemente imaginava como seria maravilhoso fazer amor com ela, como eles fariam essa viagem íntima juntos, com amor e ternura. E tudo isso foi arruinado por seu erro idiota.

Sua mente trabalhava em círculos, obcecado em como contar para ela. Nunca houve dúvida se ele contaria ou não. Alem do fato dele não agüentar esconder algo assim dela, sabia que não precisaria dizer nada para ela descobrir. Ela saberia. Ela saberia assim que o visse. Provavelmente acabaria tudo assim que ele contasse. Pensou amargamente que era o que merecia. Como ele podia ter feito isso com ela? Meses e meses de espera e espera e ele desperdiçou tudo por causa da bebida. Que desperdício!

Olhando ao redor da plataforma, ele esperava que as coisas parecessem diferentes agora que ele não era mais virgem, mas não estavam. O mundo continuava a girar, apesar dos acontecimentos da noite anterior.

Ele foi até o trem, muitos alunos e seus pais o cumprimentaram. Era impressionante quantas pessoas ele conheceu nesses seis anos de Hogwarts. Foram mesmo todos esses anos desde a primeira vez que ele andou pela plataforma e se preocupou se teria amigos? Ele respondeu aos cumprimentos tão animado quanto podia no estado em que se encontrava. Foi recebido com um entusiasmo particular por seus companheiros de time de quadribol. Ele era o capitão do time da Grifinória e podia sentir pelo jeito que eles o cumprimentaram o quanto estavam animados com essa temporada.

Mas Harry não conseguia pensar em quadribol no momento. Seus pensamentos giravam na sua cabeça latejante como um ciclone gira em uma tempestade. No centro da tempestade tinha o problema de como ele ia contar a Hermione. Não queria perdê-la por causa desse erro idiota. Ele se sentia tão sem poder sobre a situação que mal notou que tinha chegado ao compartimento de costume no trem. Ele viu um rosto novo sentado lá.

"Hum, oi" disse o garoto do canto do compartimento. Ele parecia nervoso e assustado. Seu cabelo loiro estava em pé atrás e ele balançava o pé num ritmo neurótico.

"Olá." Harry disse, lutando com força contra sua dor de cabeça e sorrindo gentil para ele. "Primeiro ano?"

"Sim, senhor." o garoto respondeu respeitosamente. Depois ele falou tímido e nervoso, "Está bem se eu sentar aqui? Eu não sei onde sentar, sabe, não conheço ninguém e estou meio nervoso. Se esse for seu compartimento, posso sair."

"Não, não saia. Sinta-se à vontade. Eu sou Harry." Ele ofereceu a mão ao garoto que apertou, sorrindo. Harry colocou seu malão no maleiro, e sentou- se em frente ao menino. O garoto apenas olhava para ele como se estivesse fascinado.

"Então, qual seu nome?" Harry perguntou tentando conversar e esfregando suas têmporas doloridas. Alem do desejo de fazer o primeiroanista se sentir bem vindo, ele também esperava que uma conversa pudesse distraí-lo de quão terrível estava se sentindo, mesmo que fosse só por um tempo.

"É Edward, Edward Blythe. Meus amigos me chamam de Eddie." ele falou a Harry.

"Bem, prazer em conhecê-lo, Eddie." Harry respondeu, depois olhou pela janela. Onde estavam Rony e Hermione? Hermione geralmente era a primeira a chegar. Desde que ela se tornou monitora no quinto ano, sempre os encontrava no compartimento que eles dividiam e depois ia sentar com os outros monitores na frente do trem durante a primeira meia hora da viagem. A maioria dos monitores ficava lá a viagem inteira, mas ela preferia passar a maior parte do tempo com Harry e Rony, contando as novidades. A meia hora com os monitores era gasta em conversas concentradas sobre os desafios de liderança no ano que chegava.

Rony geralmente chegava na mesma hora que Harry, por isso estava surpreso dele ainda não ter aparecido. Ele se perguntou o que estava detendo seus dois amigos. Olhou para Eddie, que estava olhando diretamente para a testa dele.

"Harry, não quero ser rude. Mas você é o Harry Potter, não é?" Eddie disse, os olhos arregalados de fascinação, ainda fixos na testa de Harry.

Harry sorriu apesar de sua ressaca. "Sim, eu sou Harry Potter. Quer ver a cicatriz?" ele partiu o cabelo e se inclinou para frente.

"Uau!" Eddie disse, surpreendendo Harry. Ele falou do mesmo jeito que Rony quando eles se conheceram no trem. Essa memória que invadiu os pensamentos de Harry o fez sentir feliz e triste ao mesmo tempo. Ele também teria arriscado sua amizade com Rony por causa de seu erro? Pela milésima vez aquele dia, desejou poder voltar no tempo e reviver o dia anterior.

A porta do compartimento se abriu e Harry e Eddie se viraram para olhar. Era Rony.

"Ei! Tem lugar para mim?" Ele sorriu para Harry, depois se virou para Eddie. "Oi, eu sou Rony." Eddie se levantou e apertou a mão, voltando depois para seu lugar e olhando para os dois.

"Rony!" Harry se levantou e logo desejou que não tivesse feito isso, porque se sentiu tonto e sem foco. Ele sentou-se rapidamente. Rony olhou para ele de lado, desconfiado, lembrando assustadoramente a Sra. Weasley quando ela ia dar uma bronca em Jorge e Fred.

"O que há com você?" Rony disse com um sorriso zombeteiro. "Você está positivamente patético."

"Estou de ressaca." Harry disse com o lado da boca, esperando que Eddie não ouvisse.

"Ha!" Rony gritou divertido, fazendo Harry colocar a cabeça entre as mãos.

"Ugh, Rony. Por favor não grite. Cabeça. Dor."

"Desculpe amigo. Jorge diz que ressacas são horríveis, principalmente numa viagem. Não sabia que você bebia. Parece que fez muitas coisas novas esse verão, né?"

"O que?" Harry engasgou, levantando a cabeça e olhando para Rony descrente. "O que quer dizer com isso?"

Rony recuou um pouco, olhando espantado para Harry. "Nada, além de você nunca ter tido um emprego antes, nunca ter andado de ônibus, e nunca tinha feito amigos fora de Hogwarts. O que mais achou que fosse?"

Harry suspirou. Ele precisava contar a Rony e poderia ser agora. Ele olhou para Eddie que ainda olhava para eles enquanto Rony guardava seu malão.

"Ei, Eddie, você se importa de dar uma volta pelo trem um pouco?" Harry perguntou. "Rony e eu temos uma coisa privada pra conversar e você iria se entediar."

"Claro, Harry. Assim vou poder conhecer outros alunos do primeiro ano." ele respondeu.

"É assim que se fala Eddie. Cuidado com o pessoal que está dois compartimentos depois da gente, eles não pareciam gente boa," Rony disse, dando tapinhas nas costas de Eddie enquanto ele saía.

Quando a porta do compartimento se fechou, Harry olhou rapidamente pela janela para checar Hermione de novo. Ele estava começando a se preocupar com o atraso dela. O trem sairia em alguns minutos. Ele virou para Rony que tinha sentado na frente dele e parecia muito preocupado.

"O que está havendo?" Rony disse, ouvindo intensamente.

Harry passou a mão pelos cabelos, tentando encontrar o melhor jeito de contar o Rony o que precisava. "Eu cometi um grande um erro ontem à noite." ele disse finalmente.

Os olhos de Rony se arregalaram e ele sorriu, dando um soco no braço de Harry. "O que é? A ressaca? Não se preocupe! Todos têm uma, uma vez na vida. Aposto que é sua primeira, não é? Pelo que ouvi, depois ficam melhores. Fred e Jorge desenvolveram uma pílula que previne ressaca ano passado. O único problema é que quando você toma uma, fica cheirando a alga o dia todo. Era nojento. Eu preferiria uma ressaca a ficar cheirando daquele jeito, mas eu nunca tive uma, então não posso dizer o que é pior. Acho que existe um feitiço para se livrar delas, mas não sei como fazer. Desculpe, amigo." Harry apenas olhou enquanto Rony falava sem parar, esperando pacientemente que ele terminasse. Depois ele balançou a cabeça.

"Não Rony, não é a ressaca - apesar de desejar que ela desaparecesse. É muito pior que isso. Muito pior." Harry quase sussurrou, olhando para Rony, tentando manter a compostura. A gravidade da situação estava começando a pressionar mais que antes. Era quase como se o ato de contar a Rony o que acontecera estivesse deixando as coisas ainda mais reais. Se era tão difícil dizer a Rony, ele não conseguia imaginar como seria difícil dizer a Hermione.

Rony estava olhando para ele na expectativa, sem falar nada sobre o esclarecimento de Harry. Harry respirou fundo e contou tudo a Rony.

Minutos depois, Rony estava de pé, andando de um lado para outro no compartimento, o rosto vermelho.

"Como pode ter tanta certeza, Harry? Você não lembra de nada. Acho difícil de acreditar que você não lembraria disso."

"Vamos dizer que havia muitas evidências pelo quarto e no que ela disse. Pelo amor de Merlim, Rony. Eu tenho arranhões nas minhas costas para provar."

Rony arregalou os olhos. Ele pareceu se convencer.

"Droga, Harry! Tudo tem que acontecer com você, não é? Por que raios você bebeu? Que engano terrível! Esse vai ser o fim pra você e Hermione! Você me ouviu? O fim. Ela não vai aceitar isso de jeito nenhum! Quando você faz uma coisa errada, você realmente faz uma coisa errada, não é?"

Harry apensas olhou enquanto seu amigo caminha de um lado para outro na sua frente. Fazendo perguntas retóricas. Depois de alguns minutos, Rony sentou na frente dele, as mãos na cabeça, do mesmo jeito que Harry. Houve um momento de silêncio antes que ele falasse de novo, dessa vez mais calmo.

"Harry? Tem uma coisa que você devia ter perguntado a Maddie e não perguntou."

Harry tirou a cabeça das mãos e sentou-se direito. "O que?"

"Vocês usaram alguma proteção?"

O rosto de Harry ficou vermelho. Ele nem pensou sobre isso! Como ele pôde ser tão irresponsável? Ele não tinha como entrar em contato com ela pra ter certeza. Esse pesadelo ficava cada vez pior. Harry ficou sentado com cara de bobo.

"Você me ouviu, Harry? Você precisa saber. Acredite em mim, nós Weasley somos muito cuidadosos com essas coisas, por causa da nossa família grande e tudo. Às vezes tenho medo de engravidar Meg só por beijá-la. E se nós algum dia fizermos isso mesmo, vou usar três tipos de proteção diferentes, só pra ter certeza - um feitiço, uma poção e uma camisinha trouxa."

Harry colocou a cabeça nas mãos novamente, bagunçando seu cabelo. "Não tenho idéia se usamos alguma coisa, Rony. Pelo que sei, ela estava tão bêbada quanto eu. Eu acho que ela deve ter usado alguma coisa; parecia bastante experiente nesse departamento - ela costumava me contar tudo sobre suas conquistas, mas nunca prestei muita atenção. Nunca pensei que fosse ser uma delas."

Rony balançou a cabeça, seu olhar perdido em algum lugar fora do trem. "Isso é horrível. Eu sinto por você. Sinto mesmo." Ele olhou pra Harry com pena. Eles ficaram sentados em silêncio, ouvindo os alunos embarcando no trem.

"Então, como foi?" Rony disse depois de alguns momentos.

"Eu te disse, Rony. Eu não lembro," Harry disse impaciente.

"Cara, você realmente se deu mal nessa," Rony disse, balançando a cabeça. "Alem de ter perdido a virgindade para uma mulher que não amava, nem lembra como foi! Isso é o que se pode chamar de desapontador"

Harry apenas balançou a cabeça. Não tinha lhe ocorrido de se sentir desapontado. Não tinha espaço pra esse sentimento. Ele estava sobrecarregado de sentimentos como vergonha, culpa, tristeza, ansiedade e desprezo. Ele quase sentia como se uma parte dele tivesse morrido.

Nesse instante, a porta do compartimento se abriu e o trem entrou em movimento. Os dois olharam ao mesmo tempo para Hermione em pé na porta do compartimento sorrindo. Rony e Harry se entreolharam preocupados antes de se levantar.

"Harry! Rony!" Ela gritou, dando um abraço nos dois ao mesmo tempo. "Desculpe não ter vindo aqui antes. Pais e alunos ficavam me parando pra fazer perguntas. Acho que foi anunciado que fui escolhida monitora-chefe. Não sabia que as pessoas faziam tanto barulho por isso." Ela sentou e sorriu para eles. Por um momento, os dois ficaram em pé olhando para ela receosos. Harry sentou-se e Rony fez o mesmo, olhando ansioso para ele. Hermione ficou preocupada por causa dessa troca de olhares.

"O que há com vocês dois? Parece que alguém morreu." ela disse, um pouco de preocupação em sua voz.

Rony olhou para Harry, tentando não parecer óbvio, mas falhando. Harry respondeu com um olhar que dizia que ainda não estava pronto. Rony pareceu entender pois se recostou no banco, as mãos atrás da cabeça, despreocupado. Ele olhou para Hermione e sorriu.

"Nada, Hermione. Estávamos apenas preocupados com você, só isso. Não é, Harry?"

"É, sentimos sua falta, amor." ele disse enquanto ela se recostava mais nele. Ele rezava para que ela não notasse agora. Ele precisava de um pouco mais de tempo para descobrir como ia contar a ela. Ele tinha que fazer isso logo - ela ficaria com mais raiva ainda se ele esperasse muito. Ele engoliu a seco.

Ela sorriu para ele, seus olhos desviando para os lábios dele por um segundo. Ele sabia que ela queria beijá-lo mas estava se segurando porque Rony estava ali. Ficou grato por isso - se ele a beijasse antes de contar a verdade, se sentiria ainda mais culpado.

"Bem, tenho uma coisa para mostrar aos dois!" ela disse, seus olhos brilhando de animação.

"O que?" eles perguntaram

Ela procurou algo na mochila que estava pendurada em seu ombro e puxou um jornal, segurando para que eles vissem. Era o London Times. Ela dobrara em uma página com uma grande foto no canto superior direito - era uma foto de Harry e Maddie. Harry parecia estar tentando cobrir o rosto e Maddie estava sorrindo diretamente para câmera. Rony engasgou enquanto Harry lia a legenda: "Os heróis da Doces Gostosos: Maddie Smith e Harry Potter. Essa dupla dinâmica salvou o dia, de acordo com o dono da sorveteria Melvin Fitzwilliam."

Rony apenas olhou para foto chocado, sem palavras. Harry olhou para Hermione, tentando adivinhar o que ela pensava.

"Bem?" ela disse sorrindo. "Tem alguma coisa que quer me contar, sr. Potter?" ela lançou um olhar penetrante para ele.

"Bem, eu hã, eu" Harry gaguejou. Ele não ia contar a ela assim, não podia. Teria que esperar até que estivessem sozinhos. E então talvez ele pudesse abraçá-la e beijá-la e tentar convencê-la a perdoá-lo. Ele faria qualquer coisa para compensar esse erro. Enfrentaria Voldemort cem vezes se isso significasse que ela ficaria com ele.

"Não seja tão humilde, Harry! Deveria estar orgulhoso! Quando meu pai me mostrou isso, eu gritei de alegria e quase morri de medo. Estou tão feliz que não tenha se machucado. Isso é o mais importante." Ela disse. Ela olhou bem dentro de seus olhos. Ele olhou de volta nos dela, concentrando no quanto a amava e torcendo que ela visse isso pelo jeito que a olhava.

"Você está quieto, Rony," Hermione virou para olhá-lo. "Pensei que fosse perguntar por que a foto não está se mexendo ou coisa assim. É um jornal trouxa. Bem diferente, não é?"

Rony sentou rápido. "É, bem, muito interessante. Harry me contou o que aconteceu antes de você chegar. Impressionante." Rony mentia tão mal, Harry pensou.

Depois Hermione olhou para Harry com mais cuidado, virando a cabeça para um lado de um jeito meio insistente. O coração dele começou a bater mais rápido quando percebeu o que estava acontecendo. Ela estava notando! Alarmes disparam em sua cabeça. A qualquer segundo agora ela saberia. Maldita estupidez!

"Harry? Tem algo errado? Está se sentindo bem?" ela perguntou.

"Na verdade, não estou me sentindo muito bem," ele admitiu, "Eu bebi demais ontem de noite e estou me sentindo mal por causa disso." Ele olhou para ela nervoso, imaginando como ela reagiria a isso.

"Por que você bebeu?"

"O sr. Fitzwilliam nos levou pra sair como agradecimento pelo que fizemos na sorveteria. Ele tem uma boate e nos levou para lá."

"Nós quem?" ela perguntou arregalando os olhos.

"Maddie e eu."

"Ah. Então ele te levou para boate e você ficou bêbado. Pensei que você evitasse fazer essas coisas estúpidas Harry. Foi sua primeira vez, não foi?" ela perguntou. Ele respirou rápido como se ela o tivesse apunhalado no coração. Se ela soubesse, ele pensou. Olhou para Rony que fingia estar cochilando.

"Sim. Eu nunca tinha ficado bêbado daquele jeito antes." disse a ela, esfregando as têmporas e olhando arrependido. "E não acho que vou fazer de novo - uma coisa idiota, idiota. É só que ele fez parecer que se eu não bebesse ele se sentiria insultado. Eu não queria insultá-lo depois de como ele me tratou esse verão. Então eu tomei uns dois copos. Antes de perceber o que estava acontecendo, estava no meio de um jogo da bebida idiota e mal podia falar sem enrolar a língua." parou para ver a reação dela.

Ela tinha um olhar muito preocupado e sua testa estava enrugada como se estivesse resolvendo um problema difícil de Aritmancia. Depois ela sussurrou para ele. "Harry você devia ter mais cuidado. Imagine o que podia ter acontecido. Prometa que não vai mais fazer nada tão estúpido de novo."

"Prometo."

"Agora espere um pouco, sei um bom feitiço para te livrar dessa ressaca horrível." ela tirou a varinha e apontou para ele.

"Deborachos." ela disse, e Harry instantaneamente sentiu a ressaca desaparecer.

"Isso foi incrível, Hermione. Eu preciso aprender mais desse negócio de feitiços médicos." ele disse, sorrindo para ela. Ela realmente era maravilhosa. Como podia ter feito uma coisa tão horrível com ela? Sentiu como se sua vida estivesse fora de controle e como se ele fosse perder tudo. Olhou para suas mãos, a escuridão preenchendo sua mente. Melhor agora que nunca, ele pensou.

Mas antes que ele pudesse começar, ele ouviu a porta do compartimento se abrir. Ele viu que era Eddie. Ele estava com um garoto do terceiro ano chamado Nate Wood, o irmão mais novo de Olívio Wood, que era o goleiro do time da Grifinória. Nate estava muito animado e vinha na direção de Harry. Estava claro que o garoto procurava por ele.

"Ei, Harry, Hermione, Rony." ele disse sorrindo.

"Oi, Nate." Hermione disse calorosamente.

"Hei, Nate," disse Rony, depois abriu um olho e olhou para ele. "Como vai nosso goleiro? Praticou durante o verão?" Rony parou de fingir que dormia.

"Treinei todos os dias." ele disse com entusiasmo olhando entre Rony e Harry.

"Você não precisava treinar todo dia." Harry disse, notando que Hermione recostou em seu lugar e estava procurando algum livro na mochila para ler. Ela acertou ao imaginar que Nate tinha vindo falar de quadribol e que seria difícil se livrar dele.

"Vamos terminar essa conversa mais tarde, certo?" Harry murmurou para ela.

Ela sorriu para ele, um expressão preocupada em seu rosto, o livro fechado no colo. "Claro, Harry. Acho que vou dar uma volta pelo trem para checar as coisas. Eu volto depois."

Ela se levantou e pediu licença. "Tarefas de monitora-chefe. Volto daqui a pouco." Harry a viu sair desejando poder seguí-la, puxá-la para um compartimento vazio e conversar, mas isso seria quase impossível no trem lotado. Teria que esperar até que pudesse ficar sozinho com ela no castelo, talvez antes do banquete de boas vindas.

******

Hermione andava pelo corredor, olhando pelas janelas para checar os alunos reunidos em seus compartimentos. Tudo parecia em ordem. A maioria estava animada, conversando sobre o que fizeram durante o verão.

Quando ela ia virar pra voltar para seu compartimento, ouviu a voz de Malfoy ecoando no corredor estreito. Não tinha chegado até a frente do trem porque ficou lá logo quando embarcou, passando meia hora, conversando com os monitores sobre os planos do ano que chegava.

Enquanto ela ia até a porta entre aberta de onde a voz de Malfoy vinha, começou a entender o que ele estava dizendo.

"Não sei como vou conseguir dividir uma sala com aquela sague-ruim. Acho que é um dos sacrifícios que vou ter que fazer como monitor-chefe. Pena que não foi Pansy ou Lilá a escolhida para posição - poderíamos usar a sala para transar ao invés de fazer coisas chatas como preencher relatórios."

Risos ecoaram do compartimento. Hermione não reagiu ao que Malfoy disse porque estava ocupada ouvindo intensamente. Queria ter certeza que ouviu cada palavra que aquele canalha estava dizendo.

"Já posso até ouvir." Malfoy disse, ainda sorrindo maliciosamente. Depois mudou a voz uma que, sem dúvidas, era uma imitação da dela. "Malfoy, temos que somar os pontos da casa para o jantar hoje. Malfoy, temos que dar bom exemplo. Malfoy, temos que intensificar nossa vigilância, tem muitos alunos saindo escondidos para Hogsmeade. Malfoy, nosso relatório da semana é para..."

As bochechas de Hermione ficaram vermelhas. Ela se sentiu com sete anos de novo e Billy Watson estava zombando porque ela ser tão autoritária. Ele a imitou em frente de toda sala, fazendo todos rir - e fazendo Hermione correr para o banheiro das meninas com o rosto cheio de lágrimas.

Ela entrou no compartimento com a varinha em punho, parando Malfoy no meio da frase. Ela se concentrou com raiva em seu rosto chocado, sem nem notar os monitores que saíram correndo do compartimento. Sentiu uma pequena sensação de satisfação ao notar como eles pareciam temê-la. Bom. Agora ela tinha que lidar com ele.

"Ouvi o que estava falando de mim." ela disse firme, sua varinha a quinze centímetros da cara dele.

Ele arregalou os olhos e ficou mais pálido que o de costume, mas desafiador. Ele se levantou e olhou para ela. Ela desejou internamente que ele não fosse tão alto.

"E daí, Granger. O que vai fazer sobre isso?" ele respondeu, cruzando os braços. Estreitou os olhos cinzas e seus lábios se curvaram em um sorriso maldoso. Ele parecia se divertir com a situação.

"Eu não vou deixar você zombar da minha cara para os outros monitores, vai tirar minha autoridade." ela disse irritada, tentando não soar do mesmo jeito que ele a imitara alguns minutos antes.

"Eu posso fazer e dizer o que quiser. Não tenho que pedir sua autorização." ele disse, sua voz grave e maldosa.

Hermione apenas o encarou, seu rosto cheio de fúria. Tantas coisas que ela queria dizer passavam por sua cabeça que ela ficou rendida, temporariamente sem palavras - um fato raro para ele. Ela se distraiu um momento e abaixou um pouco a varinha.

Malfoy agiu rápido. Ele segurou a varinha dela e a girou, de forma que ela ficou de costas pra ele. Ele riu enquanto ela lutava pra se livrar. Os braços dele estavam ao seu redor, segurando os cotovelos dela junto ao corpo.

"Não vou deixar você me amaldiçoar como no quarto ano." ele disse. Com os dentes cerrados. "Levou dois dias pra tirar todas aquelas marcas." Ela pisou no pé dele com o máximo de força que conseguiu.

"Ai!" ele girou, mas continuou a segurá-la.

"Me solta!" ela gritou, ainda lutando para se libertar.

"Não tão rápido." ele sussurrou no ouvido dela, fazendo seu sangue gelar. "Tenho que ter certeza que você não vai me amaldiçoar."

Com grande esforço, ele abriu a mão de Hermione, tirando a varinha dela. Ele a soltou. Ela se virou, o coração batendo rápido, lutando pra não gritar de raiva e frustração.

"Me devolva minha varinha, Malfoy. Agora. Isso não é jeito de começar nosso ano como Monitor e monitora chefes." ela disse com raiva.

"Não até que você prometa que não vai me amaldiçoar." ele disse, segurando a varinha acima da cabeça para que ela não pudesse alcançar.

Sem querer prolongar essa discussão, ela não tentou pegar a varinha. Pelo que ela conhecia dele, ele provavelmente acharia divertido. Era melhor sair dali e voltar para o pessoal.

"Certo." ela disse, fumegando, "Certo! Eu prometo não te amaldiçoar. Agora me devolva minha varinha!"

Ele sorriu para ela e devolveu bem devagar. "Tome cuidado, Granger. Não devia sair apontando essa coisa para cara das pessoas, a não ser que possa cumprir suas ameaças." Isso a fez respirar com raiva, o que ele ignorou. Depois ele começou a fingir que ela não estava lá, sentando e tirando um livro para ler. Ela saiu sem dizer mais nada, colocando um feitiço congelante na porta do compartimento. Isso ia mostrar a ele, ela pensou. Voltou a seu compartimento, desejando que Dumbledore não tivesse feito uma escolha tão idiota para monitor-chefe.

******

Rony entrou no Salão Principal procurando por Megan na mesa da Lufa-lufa. Ele sentiu saudades dela no verão e esperava poder convencê-la que eles deviam voltar a namorar. Eles tinham acabado no penúltimo dia de aula porque ela estava com medo das coisas entre eles terem ficado muito sérias e ela precisava do verão para pensar sobre isso. Rony a acusou de querer sair com outras pessoas. Isso levou a uma discussão calorosa na qual ele disse coisas que não queria. Ele tinha esperança que o verão tivesse sido tempo suficiente para ela esfriar e decidir que realmente queria ficar com ele. Ele logo descobriria, se conseguisse encontrá-la.

Ele e Harry pegaram os lugares mais perto da mesa dos professores na frente do salão. Eles tiveram o cuidado de deixar espaço suficiente para os novos alunos que se juntariam a eles durante a cerimônia de escolha das casas.

"Queria saber o que McGonagall quer com Hermione." Harry disse, parecendo muito triste.

"Acho que Dumbledore queria falar com ela antes da cerimônia. Lembro de Gui ter dido alguma coisa sobre isso." Rony respondeu, ainda procurando por Megan na mesa da Lufa-lufa.

O irmão de Rony, Gui fora monitor-chefe quando estava em Hogwarts. Ele agora era um quebrador de feitiços para o banco de Gringotes. Quando Harry conheceu Gui dois anos antes, ficou surpreso com sua aparência. Harry esperava que esse ex-monitor chefe de Hogwarts parecesse mais com o outro irmão de Rony, Percy - sério e conservador. Além da semelhança familiar, ele era o oposto de Percy, com um jeito bem largado e um gosto muito mais liberal nas roupas.

"Aposto que está certo, Rony. Também não estou vendo Malfoy." Harry disse, olhando para a mesa da Sonserina.

A imagem de um cabelo castanho na altura dos ombros chamou a atenção de Rony. Megan tinha cortado o cabelo? A bruxa virou e realmente era ela. Ela estava ainda mais bonita do que Rony lembrava. Mas havia algo diferente nela, e não era o cabelo. Rony não sabia direito o que era, mas não importava. Ele levantou e foi até a mesa.

Ele foi de mansinho para trás dela, colocando as mãos sobre seus olhos, brincando.

"Adivinha quem é." ele disse, disfarçando a voz. As bruxas sentadas perto de Megan olharam estranhas para ele. Ele as ignorou e se concentrou em Megan.

"Ernie!" ela gritou feliz, e virou-se com um largo sorriso no rosto. Quando ela viu que era Rony, ficou séria.

"Ernie?" Rony disse, sentindo o sangue começar a ferver. "Por que pensou que fosse ele?" Raiva e ciúmes se juntavam dentro dele. Ele abriu a boca e começou a ofegar. Olhou implorando para ela, esperando que ela tivesse uma explicação.

"Rony, eu ia te dizer assim que tivesse chance. Vamos conversar depois da cerimônia, certo?" Megan disse com urgência, parecendo arrependida. Rony notou alguns alunos da Lufa-lufa olhando com pena para ele. Ele recuou e quase correu para a proteção familiar da mesa da Grifinória.

****

"Ora, veja quem o Grindlow trouxe..." Hermione disse sarcástica enquanto entrava na sala de Dumbledore ao ver Malfoy sentado lá. A mão direita dele estava enfaixada e ele ficou surpreso ao vê-la.

"Ótimo, é a monitora-chefe," ele disse num tom igualmente irônico, "A monitora-chefe que não mantém a palavra, melhor dizendo." ele apertou a mão enfaixada.

"Qual o problema com sua mão, Malfoy, colocou onde não devia?" Hermione replicou.

"Não, na verdade, ficou grudada na porta do compartimento quando tentei sair. Acho que uma certa bruxa decidiu quebrar a palavra e congelar a porta por vingança de eu ter tirado a varinha dela. Mas eu não estou citando nomes. Eu, ao menos, tenho um pouco de honra." Malfoy respondeu, olhando-a nos olhos.

"Eu não sei do que está falando, Malfoy. Eu mantive minha palavra." Hermione disse, cruzando os braços e encarando-o nos olhos com firmeza.

"Não manteve, não!" ele exclamou.

"Você devia ser mais preciso em como faz suas perguntas, Malfoy. Você me pediu pra prometer que não ia amaldiçoar você. O feitiço do congelamento não é uma maldição. Da última vez que olhei, era um feitiço."

Malfoy sussurrou algo que pareceu "Droga", Hermione quase gargalhou. Harry lhe contara como no quinto ano Malfoy o enganara usando uma técnica similar. Ela adorava poder usar isso contra ele.

"O que será que está atrasando o velho." Malfoy disse depois de alguns minutos de silêncio enquanto eles esperavam. Ele levantou e começou a olhar a sala de Dumbledore, examinando vários itens que chamaram sua atenção. Ele parou pra olhar o vidro que continha a espada antiga de Godric Gryffindor que Harry puxara do chapéu seletor no segundo ano.

"Provavelmente alguma coisa a ver com manutenção do castelo se não me engano. Ele gosta de dar um discurso de início de ano para os elfos- domésticos e o resto do pessoal." Hermione disse o mais neutro possível, sem levantar os olhos. Ela ainda estava aborrecida por seus conflitos com Malfoy mas estava dando duro para separar a conduta profissional de seus sentimentos pessoais. Ela o odiava, mas sabia que teria que praticar trabalhar com ele se quisesse ter um ano de sucesso como monitora e monitor chefes.

"É uma espada impressionante. Já viu isso?" ele perguntou, quase apertando o nariz contra o vidro. Ele não parecia zangado como antes, o que a deixou um pouco aliviada. Era preciso muita energia para brigar com ele.

"Aposto que o Potter nunca tocou em algo tão valioso na vida antes, exceto sua preciosa Hermione, claro." Malfoy disse, desviando os olhos da espada para ela, um sorriso maldoso nos lábios. Hermione se esquentou de novo.

"Quer por favor me poupar de seus comentários mal educados? Se vamos trabalhar juntos, não pode ficar me insultando assim." Hermione disse esquentada, encarando-o. ela sabia que ele só estava dizendo isso para chateá-la. Por mais que tentasse, não conseguia segurar as repostas para os insultos dele.

"Mas eu não estava te insultando, estava?" Malfoy respondeu, dando os ombros e virando para espada. "Eu disse que você era mais valiosa que essa espada cravada com jóias, o que tem de insultante nisso? A maioria das bruxas juraria que é um elogio."

Hermione fez um som de impaciência misturada com nojo, cruzou os braços e olhou direto pra frente para a cadeira de Dumbledore. Malfoy deu a volta para ficar na frente dela, recostou-se na mesa de Dumbledore e cruzou os braços como ele. Hermione olhou através dele.

"Sabe, Granger, você podia se soltar mais, ou vai ser um longo ano. Eu na verdade sou bem charmoso depois que você me conhece melhor. Estou até disposto a esquecer o fato que você não tem sangue puro." Malfoy falou, mexendo a cabeça para baixo e pro lado tentando fazê-la olhar para ele.

Hermione apertou os lábios. Antes que pudesse responder, a porta da sala abriu e Dumbledore entrou. Malfoy sentou numa das cadeiras em frente à mesa enquanto ele vinha até os dois.

"Lamento muito tê-los fazer esperar. Tivemos um pequeno problema com Pirraça. Ele estava se divertido tirando as cobertas de todas as camas dos alunos. Rir é bom, mas não às custas de uma boa noite de sono ." ele disse, sentando em sua cadeira e dando um sorriso caloroso para os dois.

"Estou muito satisfeita por estar aqui, Professor - " Hermione começou, mas Malfoy a interrompeu.

"Fico feliz por ter escolhido um aluno da Sonserina como monitor-chefe, Professor. Não vai se arrepender. Vou manter esses alunos na linha, vai ver."

Hermione olhou irritada pra ele, depois olhou rapidamente para Dumbledore, esperando que ele não tivesse notado. Mas aparentemente ele notou, pois olhava de um para o outro preocupado, como se eles fossem um casal discutindo.

"Hermione, Draco, quero que ouçam com atenção porque isso é muito importante. Eu os escolhi para monitora e monitor chefe porque são os dois melhores alunos para o cargo. Vocês provaram que academicamente são ótimos por suas notas excelentes. Demonstraram ótima liderança quando eram monitores. Não tenho dúvidas que possuem capacidade e motivações para terem muito sucesso esse ano." Ele parou por um momento e se recostou na cadeira, esfregando o queixo e olhando para os dois.

"Um conselho que dou é não deixar sua lealdade e interesses interferirem com suas obrigações. É verdade que vocês ainda pertencem a uma casa e lá sempre vai estar sua família. Mas agora todos os alunos de Hogwarts podem contar com vocês, independente da casa, independente do ano, independente de crenças. Os alunos vão olhar pra vocês como modelos de como agir, então ajam como puderem para demonstrar a cooperação e justiça da qual sei que vocês são capazes. Para o beneficio de vocês e da escola, vocês devem considerar bastante deixar de lado o histórico de rivalidades e trabalhar juntos como um time. Não ficaria surprese se vocês ficarem conhecidos como os melhores monitores chefes dos últimos vinte anos."

Ele se inclinou para frente em sua cadeira e observou os dois intensamente. Nenhum dos dois disse nada. Hermione pensava em como ia ser difícil trabalhar com Malfoy. Pelo silêncio, ela supôs que ele estava pensando a mesma coisa dela.

Sentada ali com os braços cruzados, relaxada em sua cadeira, ocorreu de repente a Hermione que esse era seu primeiro obstáculo como monitora chefe. Na verdade, essa podia ser a tarefa mais difícil dela durante todo ano. Agora era a hora de provar a ela e a todos que estava pronta para o desafio. Ela se endireitou, descruzou os braços, e colocou uma expressão de dignidade no rosto. Virando para Malfoy, ela ofereceu a mão.

"Estou esperando para trabalhar com você, Draco." ela disse o mais gentil que pode, percebendo que essa provavelmente era a primeira vez que o chamava pelo primeiro nome.

Ele descruzou os braços e olhou para ela por um segundo, seus olhos diretamente nos dela. Por um momento ela pensou ver um brilho de arrependimento, mas se foi antes que ela pudesse tirar mais conclusões. Ele apertou sua mão.

"Acho que vamos formar um time de sucesso, Hermione." ele disse, sorrindo para ela e soltando a mão dela um pouco devagar demais. Os dois se voltaram para Dumbledore como se esperando sua aprovação. Ele apenas se recostou na cadeira, olhando gentil para os dois e brincava com os polegares.

Hermione não conseguiu conter o pensamento de que esse seria um ano muito longo.

******

Rony estava irritado com alguma coisa. O rosto dele estava todo vermelho e ele sentou na frente de Harry e colocou a cabeça nas mãos.

"Rony, qual o problema?" Harry perguntou, apesar de já ter uma idéia da resposta. Devia ter algo a ver com Megan.

"É Meg." ele murmurou, "Ela está namorando o MacMillan. Pelo menos eu acho. Ela não confirmou, mas estava praticamente escrito na testa dela. Canalha!"

Harry não sabia o que dizer. Ele sabia que Megan e Rony tinham terminado antes das férias de verão, mas achava que era mais um de seus términos - temporário e feito no calor do momento. Talvez dessa vez tenha sido um pouco mais que isso.

"Por que não fala com ela depois da festa?" Harry sugeriu. Neste instante, Hermione chegou, sentando ao lado de Harry e apertando o joelho dele. Harry quase pulou de susto. Ele olhou para ela, a culpa subindo pelo seu peito dolorosamente. Ele pensou num momento em contá-la ali mesmo, naquele instante, para não passar nem mais um segundo sem que ela soubesse. Isso estava matando-o.

"Ei, lindo." ela sussurrou em seu ouvido, fazendo-o sentir-se ainda pior. Ela olhou para Rony. "O que há com ele?"

"Megan." Harry disse sem olhar para ela. O estômago dele agora parecia ter vida própria.

"O que aconteceu, Rony?" Hermione perguntou gentilmente. Harry observou enquanto ela tentava tirar a cabeça das mãos dele. Ele finalmente olhou para ela, o rosto marcado onde ele havia enfiado as unhas.

"O que vou fazer, Hermione? Meg está namorando Ernie MacMillan. Sinto como se ela tivesse me traído! Eu pensei que ela se importasse. Ela até me disse que me amava uma vez. Será que não significou nada?" Rony disse com o coração partido. Harry sentiu um choque em seu corpo ao ouvir a palavra "traído". Por que Rony escolheu essa palavra? Sempre se podia contar com Rony pra, sem querer, deixar uma situação ruim ainda pior.

"Oh, Rony. Eu lamento." Hermione disse reconfortante. "Mas não saia dizendo que ela está te traindo, não é pra ficar tão chateado. Você terminou com ela antes das férias começarem, então falando tecnicamente, ela podia namorar quem quisesse - não que você tenha que ficar feliz com isso. Olhe desse jeito, poderia ser pior. E se vocês tivessem namorando e você descobrisse algo assim? Isso seria muito pior, Rony. Muito, muito pior."

De repente, percebendo o que fizera a Harry, Rony lançou um rápido olhar de desculpas ao amigo que Hermione não viu. Harry apenas ficou sentado remoendo sua miséria. Ele estava tão infeliz, que saiu da conversa por uns momentos. Quando retornou, Rony ainda falava do incidente com Megan.

"Ela não precisa me dar uma razão!" Rony disse a Hermione, com raiva. "Ela está namorando aquele idiota ao invés de mim! O motivo está bem claro! Ela prefere ficar com ele! Ela o ama!" Ele parou um instante antes de murmurar. "Eu a odeio. Eu a odeio e nunca mais vou falar com ela!"

Hermione e Harry trocaram olhares preocupados. Essa era a primeira vez que ele dizia que odiava Megan. Mesmo depois da grande briga no fim do ano, ele nunca disse nada disso. Apesar do que acabara de dizer, estava na cara que ele não sentia aquilo de verdade. Harry podia ver isso no rosto dele.

Harry olhou para mesa da Lufa-lufa, procurando por Megan. Ele logo a encontrou apesar de seu cabelo estar um pouco mais curto. Ela estava observando Rony, uma expressão desanimada. Pelo que parecia, ela estava tão infeliz quanto ele no momento. Talvez ainda houvesse uma chance consertar as coisas se Rony ainda quisesse falar com ela.

"Não olhe agora, Rony." Harry sussurrou em ar conspiratório, "Mas Megan está olhando pra você nesse momento. Ela parece bem chateada. Talvez a situação não seja como você acha."

Rony ficou tenso. Ele abriu a boca pra falar alguma coisa, mas antes que o fizesse, a porta do Salão principal se abriu. A cerimônia de seleção ia começar.

Harry observou atentamente enquanto os alunos do primeiro ano eram escolhidos para suas casas. Eddie Blythe do trem acabou na Grifinória, o que fez Harry aplaudir com mais entusiasmo. Ele gostava de Eddie e achava que ele seria uma boa adição para casa. Era estranho assistir o que provavelmente seria a última cerimônia de seleção que veria. Ele não pode evitar lembrar sua própria seleção e de como ele estava nervoso. Ainda o impressionava o quanto ele tinha mudado em apenas alguns anos.

Ele olhou para Hermione, que estava sentada a sua direita. Os olhos dela se encheram de lágrimas enquanto assistia os primeiranistas experimentando o chapéu velho. Harry sabia o que estava passando pela cabeça dela, quase como se pudesse ler seus pensamentos. Ela estava pensando no quanto estava feliz de ter sido escolhida para Grifinória. Ela dissera a Harry que pensava que iria para Corvinal porque gostava muito de estudar. Ela também dissera que queria ficar na mesma casa que ele e Rony porque já tinha gostado deles desde quando os vira no trem. Estranho como as coisas acontecem, Harry pensou.

Em instantes, ele partiria seu coração. E então talvez ela desejasse nunca tê-lo conhecido. Por um momento, ele também desejou isso. Isso machucava demais, e ele não via nenhum jeito de parar com a dor por muito tempo. Depois percebeu como esse pensamento foi tolo. Ele sabia que estava melhor conhecendo Hermione. Na verdade, ele provavelmente não estaria vivo não fosse por ela. E era assim que ele retribuía - traindo ela! Ele começou a se sentir mal de novo e pensou em como ela ficaria decepcionada quando ele contasse.

A cerimônia de Seleção terminou e todo o Salão Principal aplaudiu. O hino da escola foi cantado, cada pessoa escolhendo o ritmo em que ia cantar a letra. Quando isso terminou, Dumbledore se levantou para fazer alguns anúncios. O barulho cessou e todos os olhos pousaram sobre ele.

"Bem vindos todos, bem vindos. Parabéns aos alunos do primeiro por suas casas. Vocês vieram a Hogwarts durante uma época animada. Na verdade, esse vai ser um ano animado para todos nós. Mas antes de falar sobre isso, quero falar sobre o novo mestre de defesa contra a arte das trevas. Eu deveria apresentar Mestre Monroe esta noite, mas infelizmente, houve um atraso e isso só será feito amanhã durante as aulas. Os alunos do sétimo ano vão ser os primeiros a ter a aula de Defesa contra Arte das Trevas com Mestre Monroe, que vem com ótimas recomendações da Professora McGonagall e do ex- professor Moody."

"Monroe estava entre os melhores alunos de sua classe em Hogwarts e recebeu as mais altas honras no Centro de Excelência de Aurores. Como Auror em atividade, tem bastante fama por caçar e capturar fugitivos da lei. Tenho certeza que vão dar as boas vindas a esse novo membro docente amanhã."

Hermione sussurrou para Harry e Rony entusiasmada, "Uau, um Auror em atividade de verdade ensinando Defesa Contra Artes das Trevas! Isso vai ser interessante. Mal posso esperar para perguntar sobre o Centro de Excelência de Aurores. Ouvi falar que eles têm ótimas técnicas em feitiços."

"É aposto que ele é bem durão. Imagine como tem que ser para se especializar em caça e captura. Isso vai ser tão legal! Contanto que ele não coloque uma maldição Império na gente como o Moody falso fez no quarto ano. Acho que nunca voltei a ser o mesmo." Rony disse também entusiasmado.

Harry não conseguia reunir energia suficiente para se animar com nada. Ele estava se sentindo sugado pela prisão emocional em que ele se jogou. estava ocupado agarrado às barras e desesperado tentando encontrar a chave. Ele assentiu com a cabeça e continuou a olhar Dumbledore.

"... e agora, tenho outras notícias ótimas. Esse ano, pela primeira vez em mais de um século, Hogwarts vai sediar o milésimo segundo Torneio Anual de Xadrez do Clube Mágico de Campo e Castelo. Esse clube foi fundado dois mil anos atrás por um grupo de nobres bruxos que queriam concentrar suas energias em estudar o xadrez de bruxo. Desde então, tornou-se um dos clubes sociais de mais prestígio no Mundo Mágico. A aceitação de novos membros foi encerrada há centenas de anos. Em anos anteriores, a competição era restrita a seus membros somente, mas estou feliz em anunciar que eles terminaram essa tradição com o torneio desse ano. Percebendo que precisam mostrar camaradagem a todos nós que lutamos contra as forças negras, eles concordaram em sediar o torneio em Hogwarts e permitir que um aluno de cada casa participe. Vai haver competições organizadas pelos monitores chefes para selecionar um representante de cada casa pra participar do torneio. As finais não serão abertas ao público, mas eles concordaram em convidar os docentes, bem como rifar vinte convites para que todos alunos tenham chance de comparecer. O lucro vai pra o Hospital St. Mugos para Males Mágicos. Para os possíveis participantes do torneio, desejo boa sorte! Isso é tudo. Aproveitem o banquete."

Enquanto seus pratos se enchiam com uma variedade magnífica da comida mais suculenta imaginável, Rony começou a falar sobre o torneio de xadrez. Claro que ele ia participar. Todos sabiam como ele jogava bem. Muitos alunos da Grifinória viraram para olhar para ele, chamando o nome dele e dizendo que iam apostar nele. Rony sorria com a boca cheia de purê e molho. Harry ficou feliz que ao menos ele pôde esquecer seus problemas e aproveitar o banquete e a discussão sobre o torneio. Harry, entretanto, estava se sentindo tão mal, que mal comeu.

Hermione notou e perguntou sobre isso. Ele disse que queria dizer depois do jantar, se fosse bom pra ela. Ela disse que teria que ser depois da reunião com os monitores na qual iam acertar algumas coisas para o primeiro dia da escola. Harry desejou que isso não demorasse muito. Ele achava que ia explodir se não contasse logo.

**********

"Harry," ele ouviu uma ecoando em sua cabeça, "Harry."

Ele levantou da cama onde estava deitado. Tinha caído nela no instante que voltou da conversa que teve com Rony no salão comunal depois do banquete. Ainda estava muito decepcionado; não tinha energia nem pra colocar o pijama. Ele tirou a varinha e murmurou o feitiço localizador do pente. Saiu do quarto, seguindo a direção que apontava. Levou consigo sua capa da invisibilidade, para o caso de ter que entrar escondido na parte do dormitório feminino para vê-la.

Quando ficou claro que teria que sair do salão comunal para encontrá-la, ele checou o salão para ter certeza que ninguém estava olhando e colocou a capa, saindo pelo buraco do retrato.

A varinha o guiou por vários corredores e três escadarias acima, até que ele chegou a uma porta de madeira. Ele nunca passara por essa porta em todos os anos que estivera em Hogwarts. Ele bateu, imaginando se Hermione estaria sozinha quando respondesses.

Em menos de um segundo, a porta se abriu e ele entrou. Estava completamente escuro e ele não podia ver nada. A porta se fechou atrás dele, e ele se virou rapidamente, surpreso. Seu coração disparou e ele começou a ter uma sensação de que algo ruim ia acontecer. Ele estava enganado.

"Lumosara," ele ouviu a voz de Hermione murmurar. Num segundo, o cômodo estava iluminado por dezenas de velas espalhadas no que parecia ser uma pequena biblioteca.

"Surpresa!" Hermione disse, colocando os braços ao redor de Harry. "Queria lhe mostrar minha nova sala. É o escritório especial do monitor e monitora chefes. Gostou?" ela perguntou, e depois olhou ao redor, como se tentando ver com ele pela primeira vez.

Harry estava muito ansioso sobre o que precisava dizer a Hermione para se animar com a nova sala dela. Ele olhou rápido e notou que havia duas mesas grandes, varias estantes, um sofá, e duas cadeiras com o emblema de Hogwarts. Elas estavam em frente a uma lareira, fazendo uma bela decoração. Um tapete oriental antigo cobria o chão de madeira. Na verdade, era uma sala muito bem decorada que qualquer aluno invejaria. Pena que ela dividiria com Malfoy.

"É muito bonito, Hermione." Harry conseguiu falar com sua tristeza. Ela mudou de expressão.

"O que foi, Harry? Tem alguma coisa te incomodando há um tempo e eu preciso saber o que é. Por favor me diga."

A voz de Harry estava presa na garganta. Como ele ia dizer isso? Ele ficou ensaiando em sua mente durante o dia inteiro, mas agora que estava cara a cara com ela, parecia impossível dizer alguma coisa. Ele olhou parar ela, seus olhos queimando.

Ela sorriu para ele meiga, "Aposto que sei o que é," ela disse numa voz cantante. Ela ficou na ponta dos pés e o beijou.

Por um segundo, Harry pensou em afastá-la. Não devia deixá-la fazer isso. Ela ia ficar com tanta raiva por beijá-lo quando descobrisse o que ele fizera. Depois seu corpo tomou conta e disse que ele devia dar um último beijo. Só um último beijo antes que ela ficasse com raiva dele. Só um último beijo antes que confessasse seu erro. Só um último beijo antes de quebrar seu coração.

Harry não acreditava em como reagiu intensamente ao beijo dela. Era como se fosse um prisioneiro ao qual foi dado uma última refeição antes da execução. Instantaneamente se sentiu desesperado fora de controle. Ele começou a beijá-la muito rápido, seus lábios pressionando cada vez mais firmes contra os dela. Ela suspirou e aprofundou o beijo com a língua. Isso foi mais que o suficiente para ele. Antes que percebesse, estava desfazendo a o nó da gravata dela e abrindo a blusa dela, beijando o pescoço dela e um pouco mais embaixo. Ele estava ofegante e tremendo. Ele percebeu que se não parasse logo, passaria do ponto de onde não pararia. Ele a agarraria e faria amor com ela bem ali na mesa - com ou sem maldição.

Quando abriu os olhos para olhá-la, percebeu que tinha fazer algo para parar isso. Ele tinha que contar o que acontecera. Com grande esforço, se afastou dela, deixando-a muito confusa.

"O que foi?" ela sussurrou.

"Hermione, não podemos fazer isso. Tenho que te dizer uma coisa muito importante." O coração dele revirava no peito pela combinação de efeitos do beijo e da ansiedade do que estava por vir.

Hermione consertou a gola da camisa e segurou as mãos dele nas dela. Ela o levou até as duas cadeiras em frente à lareira. Ela sentou numa cadeira e ele sentou na outra. Ela olhou esperando para ele, limpando a garganta.

"Estou pronta para ouvir o que quer que tenha a dizer, Harry. Não fique tão triste. Tenho certeza que vai ficar tudo bem." ela disse doce, lançando um olhar de segurança para ele. Ela acendeu a fogueira com um feitiço. Harry piscou rápido, tentando não perder o controle de suas emoções.

"Você se lembra que disse que fiquei bêbado ontem à noite?"

"Sim."

"Bem, tem mais coisa."

"Continue." ela disse, remexendo em seu assento, apoiando o queixo sobre uma mão.

"Bem, não sei como dizer isso, então vou contar o que aconteceu. Eu desmaiei por causa da quantidade de bebida." ele olhou para ela, tentando ignorar a reação de desaprovação.

Ela sorriu, "Harry, é só isso? Você está se torturando por causa disso?"

Ele olhou para, mexendo nervoso na costura da calça.

"Tenho que admitir que fiquei bastante chocada ao saber que você pode ser tão irresponsável quanto à bebida, mas não estou com raiva de você." ela disse com voz firme. "Todos cometemos erros. Aposto que não vai fazer isso de novo tão cedo. Você estava bem acabado no trem." Ela olhou bem séria para ele.

"Não, Hermione. Não é só isso. Uma coisa aconteceu ontem. Eu não lembro dela, mas tenho quase certeza que aconteceu e eu lamento muito." Com isso, a expressão dela mudou de séria para preocupada. Ele continuou, sentindo a garganta apertar.

"Acho que dormi com Maddie ontem." ele disse baixo, de cabeça baixa, os olhos fixos nas mãos seu colo.

"O que quer dizer com dormiu com ela?" Hermione disso num tom descrente. "Quer dizer que dividiu uma cama com ela?"

"Não, Hermione. Quero dizer que dormi com ela. Acho que fiz sexo com ela. Eu não lembro, mas tenho quase certeza que aconteceu."

O queixo de Hermione estava caído e as lágrimas escorriam de seus olhos. "Você não pode dizer isso, Harry! Com certeza que não! Como pôde fazer algo assim? Não é possível! Me diga que está brincando! Me diga agora, ou eu vou ficar com raiva de verdade!" Ela levantou da cadeira. Ele nunca a vira assim tão chateada. Ele também se levantou, indo na direção dela. Ela recuou e suas lágrimas se transformaram em soluços. Ela usava uma mão para secar os olhos, a outra posicionada em sua frente para detê-lo.

"Não estou mentindo, Hermione. É verdade. Eu vi evidências de... bem, não preciso explicar como sei, mas sei." Ele disse numa voz grave e gentil. "Tudo o que posso dizer é que lamento. Me sinto horrível por isso. Nunca vou me perdoar." Ele olhou para ela e seu coração se partiu em dois. Os olhos e nariz dela estavam vermelhos e ela estava chorando histericamente. Ela tirou um lenço do bolso e assoou o nariz.

Ela olhou para ele, e ele sabia que ela estava recuperando o fôlego. "Você a ama?" ela conseguiu falar e depois começou a chorar de novo. Ela sentou na cadeira e se apoiou no braço, as mãos cobrindo o rosto molhado.

"Claro que não." Harry respondeu, a voz cheia de emoção. Ele sentiu lágrimas no canto dos olhos. Ele apertou os lábios e contraiu o abdome para que elas fossem embora. "Eu te amo Hermione - ninguém mais. Você. Sempre foi você. Sempre será você. Tem que acreditar em mim."

Ela parou de chorar de repente e olhou para ele. Ela estava horrível. O rosto estava todo molhado, com algumas mechas de cabelo grudadas. Tudo em seu rosto parecia inchado de chorar. Mas ela ainda estava bonita a seus olhos - mesmo chorando, ele a achava linda.

"Se você me ama, como pôde fazer isso comigo?" ela perguntou, uma ponta de raiva evidente entre as lágrimas.

"Eu não queria fazer isso," ele disse frustrado. "Eu nem me lembro. Estava tão bêbado, que devia estar fora de mim. Essa é a única explicação que consigo achar. Não sinto absolutamente nada por ela. Na verdade, lembro de ter pensado que ela era muito parecida com você quando a olhei dançar naquela noite." Harry disse, se inspirando. "Talvez tenha feito por isso. Talvez tenha pensado que era você por causa da bebida. Isso pode explicar!" ele ficou surpreso por não ter pensado nisso antes.

"Você estava olhando ela dançar?" Hermione disse histérica, lágrimas ainda caindo. "Então você devia estar atraído por ela. Deve sentir alguma coisa por ela. Diga a verdade, Harry, você a acha atraente? Preciso saber. Me diga."

Harry desejava que ela não tivesse perguntado isso. Ele sabia a resposta que tinha que dar, e isso provavelmente a afastaria dele para sempre. Ele não ia mentir, mas ela não ia gostar nada da resposta dele.

"Vou dizer a verdade, mas antes, você tem que saber que o que vou dizer não interfere em nada do que sinto por você - " Harry começou.

"Diga logo!" Hermione gritou. "Você a acha atraente? É uma pergunta simples, Harry! Sim ou não?"

"Sim." Harry respondeu muito baixo.

"O que? Acho que não ouvi?" Hermione perguntou insistente.

"Eu disse, 'Sim, eu acho Maddie atraente'. Mas isso não significa nada! Qualquer homem com sangue nas veias é atraído por ela! Não é uma pergunta justa!"

"Ah, está preocupado com justiça, Harry? Você devia se preocupar mais com justiça!" Hermione disse irritada. Ela abaixou a cabeça de novo e começou a chorar.

"Não acredito que fez isso, Harry. Isso deve ser a pior coisa que alguém já me fez." Hermione gritou, a voz abafada pelas mãos.

"Eu lamento, Hermione. Muito, lamento muito." Harry disse gentil, indo até ela e colocando uma mão tremula sobre seu ombro. Ela tirou a mão.

"Entendo se não quiser mais ficar comigo." ele completou, desejando desesperado por algum tipo de milagre. Ele rezou pra que ela achasse um jeito de perdoá-lo.

Hermione inspirou e expirou algumas vezes antes de olhar para ele. Harry sabia a resposta antes dela falar. A expressão dela dizia tudo o que ele precisava saber.
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