Harry Potter e a Tábula de Transmora
Capítulo 10 – O aniversário

Com adrenalina correndo em suas veias, Draco tentou explicar aos cinco Comensais da Morte que eles estavam muito enganados em sua escolha para vitima.

"Vocês sabem quem ela é?" ele falou sarcástico, olhando de rosto em rosto, os olhos estreitados de nojo. "Ela é a primeira opção deles, seus idiotas! Era pra vocês procurarem alternativas, no caso dela não poder ser usada. Esperem até meu pai descobrir, e vocês cinco vão desejar nunca terem nascido."

"M-m-mestre Malfoy," o mais baixo implorou, "por favor não nos entregue! Não sabíamos! Fizemos o que devíamos na estufa e encontramos quando saímos. Ela passou no teste de sangue-ruim, então íamos fazer o outro quando o senhor nos encontrou. Achamos que agradaríamos o amo se fizéssemos os dois na mesma noite."

"Vão pagar por esse erro," Draco disse direto, lutando para não demonstrar o quanto se zangara com o que vira.

Os agressores o olharam com medo. Normalmente, isso daria a Draco uma sensação prazerosa de poder, mas não hoje. Vê-los ferir Hermione o fez se sentir com nojo por estar associado com gente tão inferior quanto eles.

Dando um passo a frente, ele esticou a mão. "Vocês pegaram o pente e a varinha dela. Quero de volta," ele rosnou.

O homem de olhos azuis entregou os itens, sorrindo sordidamente para Draco. "Está agindo como se ela fosse sua namorada," ele disse. "Tem certeza que sabe quais são suas prioridades?"

"Saiam da minha frente," Draco disse friamente, "e eu posso considerar esquecer o que você disse."

Para alívio de Draco, eles aceitaram sua sugestão e foram embora. Ele os observou indo, se assegurando que eles deixaram o terreno.

Quando eles sumiram de sua vista, ele correu de volta para Hermione. Ele rapidamente decidiu se arriscar ser pego e a carregou para o escritório deles. Apesar do que acabara de ocorrer – e apesar de que agora seria muito mais difícil – ele ainda tinha que cumprir sua tarefa original. Só esperava, para o bem dela, que ele conseguisse completá-la.

Instantes depois, Draco olhava preocupado para o rosto dela enquanto a colocava no sofá da sala deles. Os olhos dela estavam meio abertos e ela parecia estar consciente, mas por pouco. Havia um enorme machucado se formando na bochecha dela. Se ficasse sem tratamento, ia inchar a ponto de atrapalhar a visão. Tirando a varinha, ele apontou para o olho roxo.

Hermione levantou as mãos, empurrando varinha. O feitiço saiu na direção errada e atingiu o sofá.

"O que raios está fazendo?" Draco perguntou enquanto ela lutava para sentar.

"Não me toque," ela disse fraca.

"Por favor, pare" Draco pediu, "você está fraca. Deite e eu vou tratar de seu machucado."

Hermione parou de se debater e abriu os olhos. "Por que devo confiar em voce?" ela perguntou. "Você é um deles."

"Quer ficar quieta um instante e me deixar te curar? Depois eu explico," Draco reclamou, tentando esconder o nervoso com o tom malvado da voz.

Hermione fez uma careta, apertando os olhos. "Harry... ala hospitalar," ela gemeu, "Madame Pomfrey..."

"Não," Draco respondeu. "Se eu te levar lá, vai ter que explicar o que estava fazendo lá fora. Vai ficar com grandes problemas, bem como seus queridos amigos. Pensando melhor, acho que eu devia mesmo levar você lá..."

"Não," Hermione sussurrou. "Você está certo. Preciso pensar," ela apoiou a cabeça pro lado e mordeu o lábio.

"Vai me deixar ajudar ou não?" Draco perguntou.

"Certo," ela concordou com a cabeça vagarosamente.

Ele fez o que pôde para curar os machucados, cortes e arranhões. Ela não era uma paciente muito cooperativa e ele quase preferia que ela estivesse inconsciente; deixaria a cura bem mais fácil. Quando Draco terminou, ajudou-a a levantar. Ela esfregou os olhos e passou a mão pelos cabelos. Pelo olhar dela, ainda estava com muita dor. Ele foi até a mesa para pegar algo que ia ajuda-la com o choque que logo iria sentir, se é que já não estava sentindo.

"Que inferno," ele praguejou, fechando com força a gaveta da mesa.

"Que foi?"

"Sem chocolate," ele disse, "e um pouco ajudaria você."

"Eu tenho em minha mesa," Hermione ofereceu, "segunda gaveta de cima pra baixo."

Na mesa de Hermione, Draco achou uma barra de chocolate ao leite da DedosdeMel. Tomava a gaveta quase por inteiro.

"Esperando o ataque de um Dementador?" ele brincou, segurando a barra e tirando um pedaço.

"nunca se está preparado demais," Hermione replicou, os olhos estreitados. Ela o observava como um falcão, de braços cruzados.

Draco sentou no sofá junto a ela e entregou o chocolate. "Coma tudo," ele instruiu. Ele tentou manter a expressão neutra, mas era difícil. Havia duas forças conflitantes dentro dele, uma tempestade furiosa ameaçando deixá-lo imobilizado se ele não tomasse cuidado.

Eles ficaram em silêncio enquanto Hermione comia o chocolate. Draco olhava para o tapete no chão na frente deles, revisando seu plano e reunindo coragem para realiza-lo. Essa era sua última chance. Ele fora tolo deixando as coisas irem tão longe, para agir tão de última hora. Agora ele tinha que lidar com elemento surpresa do ataque. Era isso o que dava adiar as coisas. Culpando-se pela idiotice, decidiu seguir com uma variação do plano original. Quando ele levantou os olhos e a olhou, percebeu que essa seria uma das coisas mais difíceis que teria que fazer.

"Por que está me olhando assim?" Hermione disse direta entre um pedaço de chocolate.

"Não é nada," Draco disse, voltando o olhar para o tapete.

"Quero algumas explicações, Draco, e quero agora," Hermione repreendeu, um pouco da velha chama presente em sua voz.

Draco não conseguiu evitar o sorriso ao ouvir o tom familiar. Essa era a Hermione Granger com quem ele costumava lidar. Ele sabia exatamente como tratá-la.

"O que quer dizer, Hermione?" ele replicou.

Hermione cruzou os braços e fez uma careta. Claramente, ela ainda sentia a dor da Maldição Cruciatus que os agressores colocaram sobre ela. Mesmo assim, ela parecia estar agüentando muito bem. Draco lutou contra um impulso de esticar a mão e secar os rastros de lágrimas. Ele se perguntou se ela percebeu que os cabelos estavam molhados e espetados para todas as direções, dando a ela um visual selvagem e atraente.

"Quem eram aqueles homens que me atacaram? Como eles te conheciam? O que você estava lá fora? Por que me ajudou?" ela disparou, a voz tremida.

"Começando do início," Draco disse sério. "Como está se sentindo?"

Hermione franziu a testa e olhou confusa para ele antes de responder, "Estarei muito melhor quando disser o que raios está acontecendo."

"Certo," Draco disse, "Mas você provavelmente não vai acreditar em mim."

"Experimente."

"Certo," Draco disse, se virando no sofá para encara-la melhor. "Não tenho idéia de quem eram aqueles homens que te atacaram. Mas eles pareciam me conhecer, o que me faz acreditar que eles podem fazer parte de uma facção dos Comensais da Morte que estão caçando e torturando nascidos trouxas. Não tenho idéia do porque fariam isso, além do fato de parecerem ser um bando de doidos."

"Continue," Hermione disse. Ela parecia estar respirando curto e com dor. Talvez eles tivessem quebrado algumas costelas também.

"Mandei a coruja para você e fiquei olhando do corujal enquanto ela voava sob o luar até a cabana de Hagrid para entregar meu bilhete. Quando não a vi sair imediatamente, ia até lá para tentar convencê-la pessoalmente. No caminho, a vi sendo atacada. Você sabe o resto."

Hermione se encostou no sofá. Ela parecia estar ponderando o que Draco dissera e ele imaginava o que mais ela ia perguntar. Hermione sempre tinha perguntas.

Ela estremeceu e apertou os braços em sua volta com mais força. Draco supôs que se não fosse pelo chocolate, ela estaria desmaiada agora por causa do choque.

"Então, você é um Comensal da Morte," Hermione sussurrou, olhando para o chão com nojo.

"Não sou um Comensal da Morte," Draco respondeu. Ele preferiu não revelar que tinha dado o primeiro passo para ser um Comensal da Morte, ou o fato que seu pai era um dos líderes. Ela não entenderia. Seu amor por Potter impediria que compreendesse o verdadeiro propósito por trás da obsessão de Voldermort com a morte. Agora não era a hora de ajudá-la a atravessar essa ponte. Agora era hora de completar sua missão. Agora era hora de salvar a vida dela, se ele tivesse coragem.

Hermione olhava para ele descrente, mas ele decidiu continuar, "O nome Malfoy invoca um certo nível respeito entre os Comensais da Morte. Talvez por isso eles soubessem quem sou. Francamente, eu não me importo. O que importava na hora era te tirar daquele inferno antes que eles te machucassem ainda mais."

Hermione pareceu confusa com a resposta dele. Vendo-a pensando, ele percebeu o quanto a admirava e se importava com ela. O que ele faria essa noite provavelmente salvaria a vida dela, mas também quebraria seu coração e a faria odiá-lo para sempre. Mas ele não tinha escolha. Se não agisse, ela morreria com certeza.

De repente, ela começou a soluçar e tremer com tanta força que Draco sentia pelo sofá. Ele nunca passara por algo assim antes. Isso o fez se sentir enjoado, mas nunca admitiria isso para ela nem para ninguém. Ela começou a respirar pesado, como se estivesse hiperventilando, e quando levantou os olhos, havia lagrimas frescas neles. Os lábios, olhos e nariz dela estavam vermelhos e inchados.

"O que foi?" Draco perguntou, tentando desesperado fazer com que ela parasse de chorar.

Hermione respirou mais calmamente como se estivesse tentando reunir as energias para dizer o que queria. Parecia que ela lutava para se manter composta, mas estava perdendo a batalha. Draco travou, sem saber o que fazer.

"Estou... estou... com... tanto medo," Hermione falou entre as lágrimas, a respiração curta e penosa, aparentemente dolorida. Ela então recomeçou a soluçar, enfiando o rosto nas mãos, os tremores ganhando mais velocidade.

"Está bem agora," Draco falou, num tom que ele esperava que fosse consolador. Ele não tinha pratica em consolar. Sarcástico, irônico, engraçado, mordaz, esperto – sem problema – mas suave, reconfortante e gentil, pra isso estava enferrujado.

"Eu devia ter lutado mais. Deixei que eles me dominassem," ela soluçou. "Draco, você me salvou. Não sei se algum dia vou conseguir agradecer o suficiente." Ela jogou os braços ao redor dele e enfiou a cabeça em seu ombro.

Draco a manteve perto dele, respondendo firme ao abraço. Usando sua experiência limitada com mulheres chorando, lembrou que abraçá-las às vezes ajudava. Seus pensamentos vagaram para uma noite na qual Lilá chorou depois de um encontro especialmente intenso e apaixonado. A única coisa que pareceu funcionar foi abraçá-la. Talvez uma tática similar ajudasse Hermione.

Abraçá-la assim era constrangedor, atraente e perturbador. Ele nunca tivera um contato tão extenso com ela. A única vez que estivera assim tão próximo dela foi quando estava sob efeito da Poção do Amor e ficou a centímetros de beija-la. Era bizarro, quase surreal, tê-la em seus braços.

Ela era uma das poucas mulheres que ele respeitava e admirava. Alguns anos atrás, achou que gostava dela, mas percebeu que seus sentimentos estavam mais para respeito e admiração. Eles construíram uma rivalidade divertida durante os anos. Por mais que ele tentasse odiá-la, não conseguia. Ao invés disso, ele se sentia atraído por ela, não romanticamente, mas de um jeito diferente que ele não entendia.

Era irônico. Seu sentimento chegou ao ápice mais ou menos na mesma noite que seu pai o visitou inesperadamente durante o quinto ano. Lúcio ordenara que Draco tomasse uma Poção do Amor que ele fizera para que pudesse ajudar Potter a curar a Maldição de Morgana. Depois que a cura foi bem sucedida, Draco foi encarregado de assegurar que Hermione se mantivesse virgem. Ela seria a escolhida para ajudar os Comensais da Morte a dominar a morte, mas devia se manter pura para que o feitiço funcionasse. Então Draco foi incumbido da tarefa de assegurar que Hermione não dormisse com ninguém. A garota que era sua paixonite agora era sua tarefa. Logo em seguida, a garota que era sua tarefa se transformou em sua rival. Agora ele encarava o fato de que sua rival havia se tornado a mulher que ele admirava e respeitava acima de todas as outras.

Draco apertou Hermione mais forte, pensando que essa talvez fosse a última vez que ela se permitiria ficar sozinha com ele. Tantos anos observando-a de perto diziam que se ele queria ter certeza que ela permaneceria pura, teria que fazer algo para que ela questionasse a dedicação e o amor que tinha pelo "garoto que sobreviveu". Havia duas táticas que ele podia tomar para alcançar seus objetivos e hoje era a última chance dele executar uma delas.

Hermione começou a secar as lágrimas com as mãos, uma ação simples que fez com que Draco voltasse bruscamente á realidade do momento.

Quando ela se afastou dele, parecia constrangida. "Desculpe, Draco," ela disse, a voz um pouco fraca.

"Por que? Você não fez nada," ele respondeu, olhando para ela preocupado. Ela ainda estava uma bagunça, e ele estava começando a se perguntar se deveria levá-la à ala hospitalar.

"Tenho certeza que não gostou de eu estar soluçando em cima de você. Garanto que não vai acontecer de novo," Hermione disse, a voz mais firme. Claramente, estava tentando colocar uma cara corajosa agora que se sentia mais controlada.

Draco não respondeu. Ficou olhando para ela, o conflito interior subindo de temperatura. Por um lado, ele sabia que se não fizesse nada, ela com certeza morreria. Seu pai lhe disse que isso aconteceria se eles tentassem o feitiço com ela e ela não fosse pura e seu pai nunca mentia. Por outro lado, se ele executasse seu plano, sabia que ela iria sofrer.

Draco franziu a testa, sem saber o que fazer.

"O que foi, Draco?" Hermione perguntou, interrompendo seus pensamentos. Essa era a oportunidade que ele precisava para aliviar sua consciência.

"Posso fazer uma pergunta?" ele disse.

Hermione enrugou a testa e olhou para ele. "Claro."

"O que você faria pra salvar a vida de alguém que você gosta?"

"Por que está me perguntando isso?" ela disse, olhando fixamente para ele.

"Responda a maldita pergunta," ele respondeu

Hermione contraiu os lábios. "Faria qualquer coisa," ela respondeu direta. "Era essa a resposta que procurava?"

"Qualquer coisa?" ele disse, levantando e andando de um lado para outro.

"Sim, qualquer coisa."

"Mesmo que significasse que te odiariam, ou que nunca teriam chance de serem amigos ou de cuidar um do outro ou...?" ele se interrompeu, passando as mãos pelos cabelos.

Hermione não respondeu. Seus olhos arregalados seguiam os movimentos dele pela sala.

"Vai ficar me olhando ou responder a pergunta?" Draco gritou, parando na frente dela.

Hermione levantou-se de repente, fazendo um careta por causa da dor que isso trouxe. Ela colocou as mãos na cintura e o olhou diretamente nos olhos.

"Eu já disse, se fosse alguém que amo ou com que me importo, faria qualquer coisa. Mesmo que significasse que nunca o veria de novo ou que me odiaria. A vida é algo que nunca pode se recuperar. Pergunte ao Harry, ele perdeu os pais e nunca vai tê-los de volta. Não suportaria saber que tive a oportunidade de salvar alguém e ela morreu porque não fiz nada. Não conseguiria me suportar.." ela disse, parando a voz e abaixando o olhar.

Por um instante que pareceu muito mais que isso, eles ficaram em silêncio. Hermione levantou os olhos e olhou para um ponto acima do ombro esquerdo de Draco, e ele ficou parado, hipnotizado pela expressão no rosto dela. Ele tinha esperança que ela não estivesse ouvindo a respiração rápida ou ver que ele tremia com uma energia nervosa e avassaladora.

"Isso responde a sua pergunta?" ela murmurou.

"Devia saber que diria isso," ele murmurou em resposta, sem conseguir segurar seu olhar longe dos lábios dela. Talvez agora fosse a hora de tentar. Algo dentro dele, provavelmente o orgulho Malfoy, o fazia querer tentar beijá-la da forma convencional primeiro. Era a melhor opção, a mais controlada.

"Draco," Hermione disse suavemente, "Deixe-me ajudá-lo. Se estiver com problemas, deixe-me ajudá-lo."

Ele quase disse sim. Ele quase desistiu. Mas aí tudo estaria perdido.

Ele tinha que agir agora, antes que mudasse de idéia.

"Obrigado, Hermione," ele disse, olhando-a nos olhos.

O sorriso que iluminou o rosto dele quando seus olhos se encontraram era verdadeiro, o que o surpreendeu. Ele de repente se sentiu muito atraído por ela e sabia que ela também sentira. Ela reagiu franzindo a testa e recuando um passo, mas ele se aproximou. Quando ela não recuou novamente, ele inclinou a cabeça para baixo, os olhos fixos nos lábios dela.

"O que está fazendo?" Hermione perguntou bruscamente, afastando o rosto.

"Nunca imaginou como seria?" ele sussurrou.

"Como se atreve a tentar me beijar, Malfoy!" ela gritou, usando as duas mãos para empurrá-lo.

Draco tentou manter um sorriso no rosto para esconder o desapontamento. Não ficou surpreso com a reação dela, mas isso significava que teria que usar o plano B, algo que queria evitar se pudesse. O pó de Maddie não tinha uma dosagem conhecida, o que o deixava nervoso.

"Sabe, quando começo a pensar que você pode ter um lado bom, você tenta se aproveitar de uma situação como essa e me lembra o canalha que você é," Hermione desprezou, recuando mais alguns passos.

"Você é quem perde," Draco disse, procurando em suas vestes pelos itens que recuperara dos Comensais da Morte. Era agora ou nunca. Era precisava agir rápido antes que fossem descobertos.

Ela ficou surpresa e aliviada ao ver sua varinha e seu pente quando ele os tirou do bolso.

"Aqui," ele disse, entregando-os, "Tenho certeza que quer chamar Harry."

"Não sei do que está falando," Hermione disse, tensa. "O que tem o Harry?" ela perguntou na hora em que arrumava o cabelo e ajeitava o pente no lugar.

Draco deu um sorriso exagerado. "Sou muito observador quando algo é importante," ele respondeu. Ela não replicou. Draco se deu parabéns por como seu truque funcionara bem. Ela dissera o nome de Harry exatamente quando colocava o pente no cabelo. Harry estaria a caminho.

Draco pegou uma mão de pó de dentro do saco em seu bolso e sentou no sofá ao lado de Hermione. Seu coração estava acelerado de nervoso enquanto relembrava a experiência com Lilá na noite anterior. Ele tentou três vezes antes de descobrir a melhor forma de usar a invenção especial de Maddie. Ficou maravilhado com como funcionava bem. Quando o pó foi soprado no rosto de Lilá, Draco descreveu o que ele queria que ela acreditasse que fizera. Parecia que quanto mais detalhes, melhor. Depois de acordada do transe com um simples Finite Incantantem, estava totalmente convencida que fizera o que ele dissera. Seria engraçado ver que tipo de confusão ela armaria com as memórias falsas.

Quando Hermione ia abrir a boca para falar alguma coisa, ele estendeu a mão na frente dela e soprou o pó em seu rosto. Os olhos de Hermione perderam o foco, do mesmo jeito que os de Lilá na noite anterior. Ela o olhava com uma expressão vazia. Draco se inclinou para frente sussurrou em seu ouvido, a culpa já o atormentando pelo que estava fazendo.

Ele precisava ser rápido. Potter estava a caminho. Quando chegasse, a cena precisava ser convincente.

******

Harry bateu na porta do escritório de Hermione, ainda tentando recuperar o fôlego. Tinha corrido do Salão Comunal da Grifinória onde estava esperando Hermione voltar. Ele já ia sair para procura-la pelo castelo, então o chamado dela trouxera um grande alívio.

Não houve resposta para suas batidas, então ele tentou novamente. Continuou sem resposta, então ele decidiu tentar a maçaneta. Trancada. Sua paciência já estava se esgotando, então ele tirou a varinha e usou Alohomora para destrancar a porta. Girou a maçaneta silenciosamente, ciente que se fosse pego fora da Grifinória a essa hora, perderia centenas de pontos da casa.

O que viu ficaria para sempre gravado em sua memória.

Iluminados pela luz da lareira da sala, sua amada e seu inimigo estavam dormindo juntos no sofá, num abraço muito íntimo. A cabeça de Hermione se apoiava no ombro de Draco, seu braço repousando sobre o peito nu dele. Ele estava com os braços em volta dela e a perna esquerda dela o cobria possessivamente. Ela parecia perfeitamente feliz e em paz.

Sem acreditar em seus olhos, Harry se aproximou. Isso estava errado. Talvez não fosse Hermione. Talvez a luz estivesse enganando seus olhos. Mas era Hermione. A blusa dela estava aberta, revelando o sutiã de renda que ele vira várias vezes. Ela estava usando o pente no cabelo. Harry quase vomitou quando viu a mão de Malfoy passar pelo corpo dela, ajustando a posição em que dormiam.

Sem suportar mais, Harry se aproximou ainda mais do casal adormecido.

"O que está acontecendo aqui?" Harry rosnou.

Os olhos de Draco se abriram, bem como os de Hermione. Draco olhou para Hermione e sorriu. Ele murmurou algo para ela que Harry não conseguiu ouvir.

"O que estou fazendo aqui?" Hermione perguntou. Ela praticamente pulou de cima de Malfoy, ficando em pé na frente do sofá e apertando a camisa, olhando para Harry.

"Eu ia fazer a mesma pergunta," Harry disse, lançando um olhar perfurante na direção de Draco.

"Que bom que apareceu, Potter," Draco respondeu, levantando do sofá e pegando sua camisa. "Antes tarde do que nunca, eu sempre d--"

Mas Draco não conseguiu terminar. Num piscar de olhos, Harry foi até ele, derrubando-o no chão. Enlouquecido pelo que vira, Harry esmurrou, sem se preocupar onde e com a força. Ele não ligava. Tudo o que sabia nesse momento era que ia fazer Draco pagar pelo que tinha feito. Hermione nunca tocaria Malfoy por vontade própria. Era obvio que ele dera uma poção do amor a ela ou a controlava com uma Imperius. Que canalha idiota!

"Pare, Harry! Pare!" Hermione gritou. Harry a sentiu segurando seus braços, tentando puxá-lo de Draco. "Fui atacada hoje e Draco me salvou," ela disse. Harry virou para oláa-la, chocado com a notícia. Foi distração suficiente para Draco aproveitar e dar um gancho no queixo dele. A dor encheu sua cabeça e Draco aproveitou a oportunidade para levantar.

Harry estava tonto, mas levantou assim mesmo. Encarando Malfoy, se preparava para começar um novo ataque quando sentiu as mãos de Hermione sobre ele. Olhou para ela e viu a expressão em seu rosto. Ela estava arrasada.

"Por favor saia, Draco," Hermione disse, sem olhar Harry nos olhos.

"Claro," veio a resposta do outro lado da sala. "Os heróis também precisam de descanso."

Quando a porta fechou atrás dele, Harry virou para Hermione.

"O que aconteceu?" perguntou, sua voz cheia de alarme e choque.

"Num minuto," ela respondeu, segurando a mão dele. "Venha sentar aqui. Quero dar uma olhada em seu queixo."

Harry notou vagamente a dor e o sangue resultantes do golpe bem dado de Malfoy, quando seguiu Hermione até o sofá. Tudo o que ele pensava era em checar se ela estava bem. Ela tirou a varinha e murmurou um feitiço para estancar o sangue.

Pela cara dela, o ataque fora muito sério. Mas por que ela estava tão calma agora? Como ela terminou agarrada com o Malfoy daquele jeito? Claramente, Malfoy tinha feito alguma coisa a ela; ele só precisava descobrir o que. Puxou a varinha, apontando para o lugar que absorveria a magia melhor, o coração.

"O que está fazendo, Harry?"

"Não se preocupe," Harry disse, "Acho que sei o que ele fez com você."

"Ele não fez nada comigo, Harry," Hermione disse, recostando no sofá e cruzando as mãos sobre o colo. "Quer dizer, nada que eu não deixei." As bochechas dela coraram.

"Finite Incantantem," Harry disse, apontando a varinha para ela. "Certo... e agora? Sente alguma coisa diferente?" ele lembrou que leu em algum lugar que se ela estivesse sob o efeito da Imperius isso a ajudaria sair dela.

Hermione balançou a cabeça negativamente, olhando triste para ele.

"Certo," Harry disse, olhando para ela sério, "Me diga então, quem você ama?"

"Você."

"Você sonha com beijos de quem?"

"Os seus."

"Essas não são as respostas certas, Hermione!" Harry disse, irritando-se. Se ela estivesse sob uma poção do amor, responderia "Malfoy" às duas perguntas. Isso significava que ela tinha ficado com ele por vontade própria? Não. Isso não podia ser verdade. Harry se recusou a pensar isso mais que um minuto. Ele olhou para Hermione, esperando que ela pudesse esclarecer essa situação.

"Harry, eu lamento." Ela sussurrou, lágrimas escorrendo de seus olhos.

"Lamenta por quê?" Harry perguntou, preocupado com qual seria a resposta. Pânico corria por suas veias quando ele percebeu o olhar no rosto dela. Isso não ia ser bom.

"Por beijar Draco. Por ter deixado que ele me tocasse e me beijasse e... eu traí você Harry. Sou uma pessoa terrível." Ela começou a soluçar. Harry colocou um braço ao redor dela e a puxou mais para perto, mas ela o empurrou.

"Você fez amor com ele?" Harry perguntou tentando desesperadamente conter as poderosas emoções remexendo dentro dele. Ele sentia como se fosse vomitar. Lágrimas roçavam os cantos de seus olhos e ele desviou o olhar.

"Não," Hermione soluçou, "mas só porque ele não quis. Não sei o que deu em mim, não podia me conter."

Harry pousou os cotovelos sobre os joelhos e enfiou a cabeça nas mãos, enterrando os dedos nos cabelos embaraçados. Ele respirou fundo algumas vezes, tentando se acalmar, mas não resolveu. As palavras de Hermione doíam até a alma. Ele usou a palma das mãos para secar algumas lágrimas que escaparam enquanto Hermione corria a mão pelas suas costas dizendo, "Me desculpe." Ele não tinha a energia para fazê-la parar de passar a mão em suas costas, e perceber que, pela primeira vez depois de muito tempo, o toque de Hermione era algo que ele não queria, que o deixou enjoado.

"Agora, começando do princípio," Harry disse devagar, ainda de cabeça baixa. "Quero saber exatamente o que aconteceu."

Durante dez minutos, Hermione recontou exatamente o que acontecera depois que ela saiu sozinha da cabana de Hagrid. Harry ficou arrasado. Ele se culpava por não ter sido mais insistente em acompanha-la até o castelo. Claro que ela não o culpava, mas não importava. Ele fez uma promessa silenciosa que nunca deixaria algo assim acontecer de novo.

"Ele depois me trouxe até aqui e não pra enfermaria para evitar problemas, mas acho que mereço ter problemas," Hermione continuou, "Além disso, precisamos avisar aos outros alunos o que aconteceu. Não quero que mais ninguém passe por aquilo que passei."

"Só fico feliz que esteja bem," Harry disse e estava sendo sincero. Se as coisas fossem diferentes, ela a tomaria nos braços e a seguraria por quanto tempo ela quisesse. Mas havia algo entre eles que precisava ser resolvido.

"Harry?" Hermione perguntou, sua voz ainda anasalada por causa do choro, "Acho que você sabe o que isso significa." Ela olhou para ele como se fosse dizer que alguém morreu.

"O que?" foi tudo que conseguiu dizer.

"Não podemos mais ficar juntos."

O nó no estômago de Harry se apertou mais dolorosamente. Ele levantou e começou a caminhar de um lado para o outro. "Hermione, isso é..." Harry começou a dizer, mas ele o interrompeu, sua voz insistente.

"Apenas me escute," ela disse, "como sua amiga, não posso permitir que namore alguém como eu. Pelo amor de Merlin, eu acabei de te trair, com o Draco. Não posso permitir que isso continue. Não te mereço depois do que fiz."

"O que você pensa que fez," Harry lembrou, o pânico se adicionando às emoções que estava sentindo. Hermione estava tentando terminar com ele. Claramente ela não estava pensando direito. "Você estava em choque, Hermione. Como sabe que ele não colocou um feitiço em você, ou se aproveitou de seu estado fragilizado?"

"Mesmo que isso seja verdade," Hermione disse, "então devo ficar longe de você assim mesmo. Quem sabe o que posso fazer a você sob a influência de Draco, se ele realmente estiver me controlando hoje?"

"você nunca me machucaria," ele disse entre os dentes cerrados. "vou partir o Malfoy em mil pedacinhos quando encontrá-lo."

"Não, não vai, Harry. Você vai voltar para Torre da Grifinória. Não quero que seja expulso de Hogwarts porque eu fiz uma coisa idiota."

Harry olhou para sua melhor amiga, notando seus olhos vermelhos, seu rosto molhado de lágrimas e sua aparência desarrumada.

"Hermione..." Harry falou, ele limpou a garganta, tentando engolir o nó que se formara. "Não posso te deixar depois do que passou hoje."

"Não," ela murmurou sem levantar os olhos. "O que tenho que dizer para que me escute? Você precisa ficar longe de mim."

Harry olhou para ela. Havia outra pergunta que ele precisava fazer, mas estava com medo de qual seria a resposta. Se fosse diferente da que ela dera antes, iria arrasá-lo, deixando seu coração em mil pedaços espalhados no tapete da sala. Mas ele precisava perguntar. Ele precisava saber.

"Vou lhe fazer uma última pergunta, Hermione, depois vou sair como me pediu," ele disse, numa voz grave. "Você sente alguma coisa pelo Malfoy?"

"Não," Hermione respondeu suavemente. Depois de uma pequena pausa, ela completou, "É você, Harry. Sempre foi você. Eu te amo e é por isso que precisa sair."

Ele queria desesperadamente fazer tudo isso desaparecer. Esse era seu pior pesadelo, só que era mais real e mais doloroso do que podia imaginar. Sem saber o que pensar, Harry deixou Hermione sozinha no escritório, sem dizer mais nenhuma palavra. Ele precisava de um tempo sozinho para descobrir como se sentia. Essa devia ser uma das piores noites da sua vida.

******

Hermione demorou um pouco mais que o de costume para se arrumar na manhã seguinte. Foi uma longa noite, seus olhos inchados coçavam por causa do sono e do choro. Ela estava completamente arrasada, emocional, física e mentalmente.

Estava acabada pelo que fizera a Harry. Como ela podia ter beijado Draco? Ela ainda estava em choque por causa do ataque. O que ela poderia ter feito diferente para evitar os agressores ou ao menos ter escapado deles? Talvez estivesse enlouquecendo. Como geralmente fazia, ela se culpava.

Seu corpo doía do ataque. Apesar de Draco ter curado a maioria dos ferimentos, cortes e arranhões, algumas áreas ainda estavam sensíveis. Obviamente, correr hoje estava fora de questão.

Que ótima maneira de começar o décimo sétimo aniversário.

Na noite anterior – ou seria manhã ?- depois que Harry saiu, ela contatou a professora McGonagall pela lareira do escritório. Ela parecia chocada por ter sido acordada àquela hora mas se compôs rapidamente e ouviu intensamente o que Hermione contara sobre o ataque. Sem querer causar problemas para Rony, Harry ou Draco, Hermione não os mencionou exceto num pequeno deslize no qual quase disse o nome de Draco. Ela esperava que McGonagall não tivesse percebido.

A Professora ficou bastante descontente e preocupada. Ela dissera a Hermione o quanto se desapontara com ela, mas não insistiu muito. Havia problemas mais importantes. Ela precisava acordar Dumbledore para aumentar a segurança ao redor do castelo.

Hermione tentou renunciar ao cargo de Monitora chefe pelo que aconteceu. A professora se recusou a aceitar a renúncia. Antes de partir, ela disse que discutiria com Dumbledore mais tarde para determinar qual, se houvesse, seria a punição.

Estava estranhamente calmo quando Hermione desceu as escadas para o Salão Comunal. Quando ela ia formular uma teoria sobre o que poderia ter acontecido para causar esse silêncio, alcançou o último lance de escadas e foi recebida com uma explosão de barulho e cores.

"SUPRESA!" Gritaram os alunos da Grifinória.

"Feliz Aniversário!" gritou Colin Creevey, soprando uma corneta na cara dela. Sua cabeça gritou de dor.

Antes que Hermione pudesse dizer qualquer coisa, foi levada até uma cadeira decorada no meio do Salão Comunal e ganhou um coro alto de "Ela é uma boa companheira."

Mas ela não se sentia uma boa companheira. Essa música não podia ser mais inapropriada para ela, levando em conta o que fizera a Harry. Ela vasculhou o salão esperançosa, apesar de saber que ele não estaria lá. Encontrou Rony. Ele parecia preocupado. Ela não sabia como ia olhar para ele, e se perguntava o quanto Harry lhe contara. Talvez ele pudesse esperar. Sentando-se tensa, Hermione lutou contra as lágrimas e colocou uma expressão corajosa para seus colegas de casa.

Minutos depois, ela estava em frente a lareira, tomando pequenos goles de seu suco de abóbora e agradecendo a Colin pela festa, Eddie Blythe veio com uma cópia do profeta diário.

"Você devia ler seu horóscopo," ele disse sorrindo e entregando o jornal. "É importante prestar atenção nele hoje."

"Não acredito em horóscopos," Hermione disse, aceitando o jornal com hesitação. Ela queria sair dali. A magnitude do que ocorrera na noite anterior e o esforço de fazer uma cara de aniversariante estavam deixando-a enjoada.

Ao menos Rony estava distraído. Parecia que a notícia de seu rompimento com Meg se espalhara como fogo pela Grifinória. Alicia Silverlake, uma quintanista, estava se pendurando nele como vestes bem apertadas. Ele parecia irritado, e ansioso para escapar e conversar com Hermione.

Voltando sua atenção para Eddie, ela sabia pela expressão dele que os jornais ainda não tinham tomado conhecimento do ataque na noite anterior. Talvez Dumbledore planejasse deixar quieto.

Ela ia abrir na página da seção de horóscopos que Eddie deixara marcada para ela quando uma manchete chamou sua atenção.

Suposto roube em reserva de seminviso – preço da capa da invisibilidade dispara.

"Isso é estranho," Hermione ponderou, pensando se havia alguma relação com o que ocorrera com ela na noite anterior. Ela ia ler o resto do artigo quando sentiu alguém cutuca-la.

"Leu?" Edmundo perguntou, sorrindo entusiasmado.

Hermione sorriu e abriu na página certa, Colin lendo por cima de seu ombro.

Feliz aniversário virginiano! Hoje é um dia marcante, pois o Sol está em Virgem, exatamente no mesmo lugar em que estava quando nasceu. É um ótimo para terminar as coisas e tentar novas experiências. Está um tempo ótimo para organizar aqueles pergaminhos. Também favorece a natureza e beleza do ar livre. Pegue um caminho para um jardim de ervas com sua nova paquera. A noite está ideal para um bom jantar em seu lugar favorito, com sua pessoa favorita. Deixe seus amigos partilharem de sua alegria e sucesso. Assegure-se de passar um bom dia, pois ele dá o ritmo para o ano à frente.

"Obrigada, Eddie," Hermione murmurou. Devolvendo o jornal a ele. Ela saiu apressada do Salão Comunal segurando a barriga e correu para o banheiro feminino.

*****

A primeira visita de Rony ao banheiro feminino da Grifinória foi recebida com o barulho de alguém vomitando. Sem precisar olhar por baixo da porta, ele sabia quem era. Ele conhecia Hermione o suficiente para identificar o choro que intercalava o vômito.

"Hermione?" ele falou, recuando da porta do boxe.

O rolo de papel higiênico foi girado no suporte e ela depois respondeu, "Rony? O que está fazendo aqui?"

"Procurando por você," ele respondeu e depois fez uma careta. Ela estava vomitando novamente.

"Precisa de ajuda?" ele perguntou, procurando por algum copo vazio para colocar água.

"Não, vou ficar bem. Espere um pouco," Hermione respondeu, parando para assoar o nariz antes de abrir a porta do boxe e sair. Seus olhos estavam vermelhos e havia pequenos vasos rompidos em seus interiores.

"Por favor não diga que é enjôo matinal", Rony brincou, "Acho que não suportaria isso."

Hermione olhou secamente para ele e rolou os olhos. "Você sabe muito bem que isso é impossível," ela respondeu, indo até a pia. "Obrigada por vim me procurar. Estou melhor agora. É melhor você ir."

"Tem certeza que está bem?"

"Acho que sim," ela sussurrou. Rony se aproximou para olhar melhor e viu o rosto dela refletido no espelho. Ela estava chorando.

Rony foi até e ela e a virou, apertando-a num forte abraço. Ela soluçava incontrolavelmente, se balançando tão forte que estava deixando-o tonto. Isso era quase tão ruim quando a noite que ela pensara que Harry a traíra. Um pensamento lhe ocorreu. Talvez as coisas não tivessem sido boas na noite anterior. Isso poderia explicar o sumiço de Harry e o estado de Hermione.

"Onde está Harry?" ele perguntou.

"Eu não sei," ela fungou, "Oh, Rony, fiz uma coisa terrível! Ele provavelmente está em algum lugar muito decepcionado comigo."

Ele se afastou um pouco dela. "O que você fez?"

"Eu beijei Draco ontem," Hermione disse. Rony balançou a cabeça, esperando tirar as teias de sua mente. Ele teve a impressão de ter ouvido Hermione dizer que beijara Draco. Ele olhou para ela vago, se perguntando se deveria pedir para ela repetir o que disse.

"Você me ouviu, Rony?" ela soluçou. "Harry nos encontrou juntos no sofá do nosso escritório. Foi tão horrível, Rony. Disse para ele ficar longe de mim porque acho que estou enlouquecendo. Nós terminamos. Acabou."

Rony ficou tenso e se afastou de Hermione, sem conseguir esconder o choque e o desgosto de rosto. Ele não se confiava para responder a essa revelação, porque ele sabia que se arrependeria do que ia falar. Ao invés disso, pensou em seu outro melhor amigo, imaginando onde ele poderia estar.

Tinha que achar Harry. Rony tinha assumido que ele passara a noite com Hermione, como ele não tinha voltado para o dormitório na noite anterior, mas parece que não tinha sido assim.

"Tenho que ir," Rony conseguiu resmungar antes de girar nos calcanhares e deixar Hermione sozinha no banheiro feminino, lágrimas silenciosas escorrendo por suas bochechas.

*****

Rony encontrou Harry na velha sala que freqüentava quando precisava de um tempo sozinho. Essa era a sala que guardara o Espelho de Ojesed no primeiro ano, então Harry a considerava um ótimo lugar para sentar e pensar. Ao menos ele era previsível. Rony sabia que ele estaria ou ali ou voando no campo de Quadribol.

Eles perderam o café da manhã, com Rony tentando convencê-lo o tempo todo que ele precisava ir para a aula, mesmo que isso significasse ver Hermione ou ter que se segurar para não bater em Malfoy.

O Professor Flitwick os parou na porta quando entravam na aula de Feitiços e os informou que precisavam ir ver o Professor Dumbledore imediatamente. Adivinhando que tinha algo a ver com a noite anterior, eles foram até a sala de Dumbledore em silêncio.

Quando chegaram à Gárgula, ela pulou e os deixou entrar. Pelo que Rony notara, ele e Harry foram os últimos a chegar.

Sentado atrás de sua mesa estava o Diretor, com uma expressão muito severa. À sua esquerda estava Professor Snape, seu familiar nariz de gancho apontado para cima em desgosto. Professora Mcgonagall estava à direita de Dumbledore, um pouco mais pálida e irritada que o de costume. Do outro lado da mesa havia quatro cadeiras, duas delas ocupadas. Hermione, que estava sentada de pernas cruzadas olhando para o chão, ocupava a mais próxima de Harry e Rony. A mais distante era onde Draco estava sentado, com uma expressão que parecia que ia ganhar o Campeonato de Casas de Hogwarts.

Rony viu Harry estreitar os olhos em fúria quando seus olhos pousaram sobre Malfoy.

"Vou sentar junto dele, Harry, você fica na cadeira junto de Hermione," Rony sussurrou pelo canto da boca quando eles partiram em direção das cadeiras.

Harry não disse nada. Apenas concordou com a cabeça, sua expressão mudando rapidamente quando olhou para Hermione.

Rony encarou Malfoy enquanto sentava. Harry contara que Malfoy salvara Hermione, e como os achara juntos no escritório. Sorte que Rony ainda se sentia sobrecarregado por seu rompimento com Meg. Se ele estivesse como de costume, ele amaldiçoaria Malfoy assim que o visse.

Quando tomaram seus lugares, Dumbledore limpou a garganta e começou, "Pedi que todos vocês viessem, bem como os diretores de suas casas porque soube que estavam fora de seus dormitórios, nos terrenos da escola ontem a noite, contra as regras. Normalmente, não cuidaria desse problema pessoalmente, teria deixado para os diretores das casas. Entretanto, considerando que todos arriscaram suas vidas e suas seguranças, sem se importarem com as regras deHhogwarts, achei necessário falar com vocês."

"Mas Professor," Draco interrompeu, "só estava fora do dormitório porque estava procurando por Hermione. Eu a encontrei e salvei do ataque; é realmente justo que eu seja punido? Não estava envolvido com o grupo que saiu da escola para beber na cabine de Hagrid."

Harry e Rony viraram as cabeças para olhar Malfoy, o rosto de Rony contorcido de puro ódio. Estava claro que Malfoy os entregara; Hermione nunca faria algo assim. Rony se lembrou do primeiro ano, quando Malfoy delatou Harry e Hermione por estarem ajudando Hagrid com Norberto.

"Por favor, me deixe terminar, Sr. Malfoy," Dumbledore disse severo.

Dumbledore parou e olhou para os quatro alunos a sua frente. O coração de Rony estava disparado e suas orelhas estavam tão quentes que ele achava que elas iam virar duas brasas ao lado de sua cabeça. Malfoy se virou na cadeira e piscou para Rony, que apertou os dentes e juntou toda sua força de vontade para não dar um murro na cara de fuinha de Draco.

"Devo admitir que fiquei chocado e desapontado com seus comportamentos, Srta. Granger e Sr. Malfoy. Vocês são monitora e monitor chefe. Vocês deveriam servir de exemplo para o corpo discente e mesmo assim preferiram quebrar regras importantes. Na minha opinião o que enfrentou ontem foi o suficiente para lembrar da importância de ficar em segurança dentro do castelo depois da hora. Se quebrarem mais regras, teremos que considerar a possibilidade de suspendermos vocês de suas atividades de monitora e monitor chefe."

"Com licença, Professor," Hermione disse desanimada. Dumbledore acenou com a cabeça. "Quero repetir meu pedido que me tire do cargo de monitora chefe. Não me sinto mais qualificada para a responsabilidade, devido a meu comportamento recente."

"Não faça isso, Hermione," Rony disse, sem conseguir se conter.

"Sr. Weasley," Dumbledore disse sem tirar os olhos de Hermione, "por favor, contenha seus comentários."

"Desculpe, Professor," Rony disse, olhando para Harry, que estava completamente acabado.

"Quanto a você, Srta. Granger," Dumbledore continuou, "Não aceito sua renúncia."

Dumbledore olhou para Harry e Rony. "Sr. Potter e Sr. Weasley, os dois estão em alto nível de alerta. Se quebrar mais alguma regra, Sr. Potter, vai ser proibido de jogar Quadribol. Se quebrar mais alguma regra, Sr. Weasley, não permitiremos que participe do torneio de xadrez. Ficou claro?" Dumbledore se inclinou para frente e perguntou.

"Sim, Professor."

Dumbledore olhou desapontado para todos eles, o que esfriou a raiva de Rony.

"Agora quero que a Srta. Granger e o Sr. Malfoy fiquem aqui. Sr. Potter, Sr, Weasley, vocês podem ir," o diretor disse.

Harry e Rony levantaram e saíram da sala, Rony fechando a porta atrás deles.

"Que inferno," Rony disse, enquanto voltavam para a sala de Feitiços.

Harry não disse nada, provavelmente porque estava muito chateado para falar. Eles continuaram pelo corredor em silêncio, Rony formulando planos de como se vingar de Malfoy.

O dia só piorou depois disso. Harry e Hermione não estavam se falando. Rony não sabia como lidar com esse fenômeno estranho. Geralmente quando havia alguma discussão entre os três, Rony estava envolvido e era ou Harry ou Hermione que bancava o pacificador.

Apesar de não ter havido uma discussão, de verdade, para Harry e Hermione não se falarem, Rony ainda sentia como tivesse que ser o mediador e fazê-los conversar sobre o que acontecera.

Além disso tudo, Rony ainda estava muito abalado por causa de seu rompimento com Meg. Ele não a vira desde que tudo acontecera e estava adiando o momento inevitável do encontro entre eles. Parecia que os dois estavam fazendo o possível para se evitar, já que nas rotinas normais eles se encontravam pelo menos quatro vezes ao dia e ele ainda não a vira. Segunda em Herbologia seria inevitável, e era a primeira vez que ele tinha certeza que a encontraria. Ele se perguntou se devia passar logo por isso e tentar encontrá-la durante o fim de semana, mas ele não tinha idéia do que diria ou do que realmente queria. Ele estava assustado com o quanto o rompimento o afetara.

Mas também, ele não tinha certeza se teria tempo pra procurar Meg. Tinha a impressão que talvez passasse o fim de semana tentando ajudar Harry e Hermione a consertar as coisas, se é que isso era possível depois do que Hermione fizera.

Seus dois amigos estavam completamente arrasados.

O cabelo de Hermione estava embaraçado e ela parecia não ter dormido um minuto. Quando Rony se aproximou dela no fim da aula de feitiços, ela pediu que ele cuidasse de Harry e ficasse longe dela. Rony obedeceu ao pedido simplesmente porque não queria aborrecê-la ainda mais do que ela já parecia estar.

Desde a conversa quando eles perderam o café da manhã, Harry não respondeu mais nenhuma sílaba para as tentativas de Rony de conversar. Seus cabelos negros estavam ainda mais bagunçados e parecia que ele tinha enfiado as vestes sem tomar banho ou prestar atenção a sua aparência.

Rony não viu Harry sair da cama de manhã e ele faltou à corrida. Depois da conversa de manhã, Rony supôs que Harry passara a noite sozinho na antiga sala de Feitiços ou lendo no Salão Comunal.

Aconteceu algo à tarde que pôs dúvidas em sua suposição. Foi logo após a aula de Feitiços. Rony e Harry estavam andando pelo corredor.

"Ei, Harry! Espere por mim!" chamou Lilá Brown. Sua voz estridente era inconfundível, e Harry e Rony viraram simultaneamente e a viram correndo na direção deles, um largo sorriso em seu rosto.

"O que você quer, Lilá?" Rony perguntou, depois que Harry não disse nada. Lilá parou na frente de Harry e agiu como se Rony nem estivesse ali. Acostumado com esse tratamento vindo de Lilá, Rony deu os ombros e ia virar para ir embora, quando Harry sinalizou que ele devia ficar. Cruzou os braços esperando para ver o que Lilá queria.

"Podemos conversar a sós?" ela perguntou a Harry, apoiando-se no peito dos pés.

Harry fez que não com a cabeça. "O quer que tenha pra me dizer, Rony pode ouvir também," ele respondeu, a voz estranha, provavelmente pela falta de uso.

"Certo," Lilá sussurrou, olhando feio para Rony um momento e depois se encostou em Harry. Harry levantou as sobrancelhas. Lilá passou a língua pelo lábio inferior dela e sorriu para ele de um jeito bem sugestivo. Harry recuou um passo.

"O que você quer?" Harry perguntou olhando para ela como se fosse louca.

"Só quero agradecer pela noite de ontem," ela respondeu. "Foi maravilhoso, incrível... como você se rendeu e deixou que eu mostrasse tudo... oh, Harry."

Rony não acreditava no que ouvia. Ele olhou de Harry para Lilá, tentando descobrir o que estava acontecendo. Harry parecia estar em choque e Lilá parecia pronta para atacá-lo, bem ali. Algo precisava ser dito.

"Do que está falando, Lilá? Esse é Harry e não Draco. Acho que você é a primeira garota a confundi-los... ou melhor.... talvez a segunda," Rony disse, fazendo careta para sua escorregada.

Harry olhou feio pra ele e ele decidiu se calar.

"Então, o que me diz, Harry?" Lilá sussurrou, avançando sobre ele. "Mesma hora, mesmo lugar que ontem? Tem tanta coisa que ainda quero mostrar a você."

Harry estava recuando enquanto ela avançava, mas agora suas costas estavam contra a parede. Rony olhou ao redor, imaginando quantos alunos estavam assistindo.

"Não tenho idéia do que está falando, Lilá. Talvez estivesse sonhando," Harry disse impaciente. "Por que não vai procurar Draco? Tenho certeza que ele gostaria desse tipo de... atenção." Harry cruzara os braços e olhava Lilá com um olhar equilibrado e muito frio.

"Não tente fingir que a noite de ontem não aconteceu," Lilá disse piscando. "Ah! E você devia saber que Draco terminou comigo quando confessei que estávamos juntos. Ele não gosta de dividir. Mas com certeza foi melhor assim. Ele era ótimo na cama, mas não tão bom quanto você."

"Você está louca, Lilá. Não estava com você ontem a noite. Talvez devesse te levar para ala hospitalar," Harry disse de olhos arregalados agora e seu tom mais preocupado que irritado.

"Sim, por que não faz isso?" Lilá disse, flertando. "Conheço um ótimo armário de vassouras..."

"Pensando melhor," Harry disse tirando-a do caminho, "vá sozinha." Ele ficou junto a Rony, os dois olhando para ela como se tivesse seis cabeças.

"Tente negar," ela disse, "mas eu e você sabemos a verdade." Depois disso ela foi até Harry que estava grudado no lugar como uma estátua. Ela ficou na ponta dos pés e antes que Harry pudesse impedir, ela lhe deu um beijo no lado do pescoço.

Os dois a olharam enquanto partia, olhando para trás sedutivamente para Harry. Foi o suficiente para fazer Rony se sentir ainda pior do que já estava.

Harry virou para ele, alarmado. "Espero que acredite em mim, Rony. Não estava com ela ontem, você acredita em mim, não é?" ele perguntou.

"Claro que acredito em você," Rony disse hesitante. "E você tem certeza? Você não fez nada idiota como se embebedar, fez?"

"Não, Rony. Não bebi nada. Fiquei sentado a noite toda, pensando," Harry respondeu. Eles retomaram o caminho pelo corredor.

"Claro que foi isso que fez," Rony disse sorrindo. "Não se preocupe com Lilá. Ela provavelmente se empolgou com aquela história de Adivinhação de novo."

"Mas ela não podia ter escolhido hora melhor," Harry disse irônico. "Eu não tenho um álibi."

"Bem lembrado. Queria saber o que ela quer," Rony disse.

Eles subiram pelas escadas e Rony foi atingindo por um raio de inspiração. "Talvez Malfoy tenha armado isso com ela!" ele disse, subindo as escadas rápido para acompanhar Harry.

"Não, não pode ser Malfoy. Ele nunca concordaria em deixar Lilá dizer que eu sou melhor de cama que ele," Harry respondeu direto.

Pensando mais tarde nesse comentário, Rony percebeu que se eles não estivessem tão chateados, teriam rido muito com ele.

*****

Gina se arrepiou enquanto andava pela biblioteca. Estava muito deserta, o que não era uma surpresa. A maioria dos alunos passava a tarde de sexta longe dos deveres e conversando com os amigos. Ela apertou a capa mais perto de si. O sol da tarde que brilhava gentilmente através da janela quase extinguia o frio do outono que entrava no castelo. Talvez ela não estivesse com tanto frio se não estivesse tão preocupada.

O irmão dela, Hermione e Harry estavam muito estanhos hoje. Além da preocupação com eles, Dumbledore anunciara durante o almoço que ocorrera outro ataque; dessa vez um estudante fora atacado dentro dos terrenos de Hogwarts; algo estava acontecendo e Gina achava que Draco estava envolvido.

Ela parou e olhou as costas da cadeira de couro em frente da janela da paisagem. Seu estômago se contorceu quando ela percebeu que ele realmente estava ali. Era impossível não notar o contraste dos cabelos loiros platinados com o contorno da cadeira.

Antes que perdesse a coragem, Gina marchou para frente da cadeira e ficou cara a cara com ele. Ele tirou os olhos do livro, a sobrancelha direita levantada.

"O que quer, Weasley?" ele perguntou, a irritação evidente em sua voz.

Gina cruzou os braços e contou até cinco tentando se acalmar. Não funcionou. "Onde raios estava hoje de manhã?" ela rosnou, seus olhos castanhos perfurando a testa dele quando ele voltou a ler o livro.

Draco fechou o livro com força e se ajeitou na cadeira antes de lançar um olhar frio para Gina. "Estava indisposto," ele respondeu. Seus olhos cinzas estavam cansados e sem vida.

Gina olhou furiosa para ele. "indisposto?" ela repetiu para ele. "O que isso quer dizer?"

"Dicionário Aurélio, na letra 'I' se precisar procurar," Draco caçoou, apontando para referida seção da biblioteca.

"Você sabe muito bem que não foi isso que quis dizer," Gina sibilou, olhando-o nos olhos para enfatizar o quando estava irritada.

Draco levantou de repente, surpreendo-a. ela recuou. Ele estava muito próximo. Sorrindo diabolicamente, ele foi até ela, parando quando eles estavam quase se tocando. Completamente perdida, Gina olhou para baixo, a cabeça dela se curvando quando olhou para o chão. A cabeça dela roçou levemente no peito dele e ela levantou os olhos rapidamente, o contato fazendo uma estranha sensação de leveza correr por ela.

"O que está fazendo?" Draco perguntou, sua voz estranhamente sufocada e ansiosa. Agora era a vez dele de recuar.

"Nada," Gina respondeu, esfregando sua testa onde havia tocado-o. Ela não queria admitir que tocá-lo, por mais leve que fosse o toque, causara qualquer sensação desse tipo. Antes de poder completar o pensamento, estreitou os olhos ao notar a cena estranha. Draco estava se afastando dela como se ela fosse um Hipogrifo enlouquecido.

"O que você quer, Gina?" ele perguntou, sem tirar os olhos dela. Ele estava contra a poltrona agora, os joelhos dele dobrando ao fazer contato com o assento.

Agora era a vez de Gina de sorrir diabolicamente e aproximar-se dele. Ela também podia entrar nesse jogo, e estava ficando boa nele. Era a oportunidade perfeita para aproveitar a vantagem inesperada e descobrir o que estava errado.

Quanto mais perto ela chegava, mais nervoso Draco agia. Ele foi para trás da cadeira. Lá ele ficou, de braços cruzados, seus olhos arregalados. Gina nunca vira Draco agir tão estranho. Ela relaxou os braços e riu um pouco com a cena de Draco usando uma cadeira para se proteger dela.

"Vá embora, Gina," ele disse mais como uma ordem do que como um pedido.

"Não, acho que não vou," ela respondeu. "Tem algo que quero e não vou embora até que tenha."

"O que você poderia querer?" Draco perguntou, olhando impaciente para ela, a expressão de medo agora longe do rosto dele.

"Algumas respostas," Gina respondeu, sem perder nenhum segundo. "Quero saber o que há com você. Quero saber por que perdeu a corrida matinal. Quero saber por que tem andando tão distraído. E quero saber agora."

"Você é uma bruxinha insistente, não é mesmo?" Draco disse, um pouco de admiração em sua voz.

"Posso ser insistente quando quero," Gina respondeu. Ele a olhava de um jeito que a fazia sentir como se fosse perder a coragem. Talvez isso não tivesse sido uma boa idéia.

"Estou surpreso que queira falar comigo," ele disse. "Você já deve ter ouvido as notícias."

"Que notícias?"

"Deixa pra lá," respondeu, colocando as mãos nos bolsos. Ele virou e começou a andar mais para dentro da biblioteca. Ela o olhava confusa pela súbita partida. Quase gritou por ele, mas ele então parou e virou para olhá-la.

"Bem, você vem ou não?" Draco perguntou. Sua cabeça estava torta para um lado e sua expressão ilegível.

Gina se apressou para acompanhá-lo, imaginando aonde ele a levava. A saída era para o outro lado.

Eles pararam em frente a uma lareira antiga de mármore que tinha moldura de madeira esculpida perfeitamente. Era numa parte remota da biblioteca, bem atrás de estantes altas cheias de materiais com referências para como fazer poções avançadas. Gina raramente passava tempo nessa seção. Era mais os sétimo-anistas trabalhando em pesquisas independentes com Snape que tinham razões para ficar ali. Draco provavelmente passava muitas horas entre essas estantes.

"Bem o que está esperando," Draco falou. "Entre."

Gina olhou confusa para ele. "Entrar? Na lareira?"

Draco fez um som de impaciência. "Sim."

"Não," Gina respondeu com veemência. "Não tem fogo nenhum aí, então pra que?"

"Certo," Draco disse. "Vou primeiro então. Mas tem que me prometer que vai seguir."

"Não vou prometer nada!" Gina respondeu, Draco balançou a cabeça e se abaixou, entrando na lareira.

Com a maioria das lareiras de Hogwarts, foi construída para abrigar bruxos. Draco ficava em pé confortavelmente lá dentro. Ele se inclinou e ofereceu a mão a Gina para ajudá-la a entrar. Ela recusou ajuda; ajeitou sua capa e entrou sozinha.

Quando entrou, notou que a lareira era alta o suficiente para acomodá-los, mas não era larga o suficiente para que ficassem a uma distância confortável. Outra coisa que percebeu foi que as cabeças deles não podiam ser vistas. Qualquer um que passasse por ali, os veria apenas dos ombros para baixo. Isso não era bom. Idéias de boatos malucos que podia causar se alguém reconhecesse as roupas deles passaram pela cabeça dela. Ficou tensa com a idéia e decidiu que o melhor era sair dali. Gina se inclinou novamente.

"O que pensa que está fazendo?" Draco perguntou, segurando seu braço.

"Acho que devo ir," ela respondeu, tentando soltar-se dele. Ela só conseguiu jogar os braços dos dois contra a parede de tijolos da lareira. Os dois praguejaram de dor.

"Você nunca esteve aqui antes, não é?" Draco perguntou, esfregando um ponto no braço dele. "Acho que nunca namorou alguém da Sonserina."

"Não, nunca," Gina disse. "E também não planejo fazê-lo."

"Certo," Draco disse, parecendo não muito convencido. "Bem, acho que devo contar desse lugarzinho aconchegante, mas antes de fazer isso, preciso pedir que se segure um pouco."

"Por que?" Gina perguntou.

"Confie em mim."

Antes que pudesse dizer que não confiava nele, sentiu como se estivesse girando. A lareira estava rodando. Eles estavam se movendo na direção anti-horária , a luz e o tapete da biblioteca desaparecendo rapidamente. Estava totalmente escuro quando eles pararam e ela podia ouvir o eco de vozes e água pingando. Algo nesse lugar parecia familiar, mas ela não sabia exatamente o que era.

"Onde raios estamos?" ela perguntou, tremendo na escuridão fria.

"Me pergunto se é a primeira pessoa da Grifinória a ver isso," a voz de Draco veio do meio da escuridão.

"Não consigo ver nada," Gina respondeu. Ela estava começando a se sentir um pouco claustrofóbica.

"A escuridão faz parte do visual," ele sussurrou, "as garotas gostam quando as trazemos para lugares assustadores como esse. Elas querem ser abraçadas. Fica mais fácil beija-las quando se está segurando-as bem perto. Meu primeiro beijo foi aqui... ah, quantas lembranças."

"Isso é nojento," Gina respondeu, sentindo suas bochechas esquentarem. Ela se perguntou se foi por isso que ele a trouxera ali.

"Claro, provavelmente estou quebrando todas as regras entre as casas trazendo você aqui," Draco falou, ignorando o que ela havia dito. "Sabe, nós só devíamos trazer sonserinos para cá."

"Então por que me trouxe?" Gina perguntou. "Não vou deixar você me beijar."

Ele riu com gosto. "Não vou tentar beijá-la, Gina. Te trouxe aqui porque precisamos de um lugar tranqüilo para conversar e esse era o local mais próximo."

"Ah."

"Falando nisso, vamos acabar logo com o assunto," ele disse, um pouco amargurado. "Quero que pare de me importunar com perguntas. Não vou te dizer nada, então quero que pare."

"Você me trouxe aqui só para me dizer isso?" Gina se esquentou. "Vamos, Draco. Qual é? Acho difícil de acreditar que você não pudesse me dizer isso na biblioteca."

"Droga," Draco disse, "Você descobriu meu plano! Na verdade queria trazer você aqui para seduzi-la, mas agora você me tirou do jogo. Você é tão esperta, Virginia!"

"Meu nome é Gina!" ela praticamente gritou. Só duas pessoas a chamavam de Virginia, o médico dela e Tom Riddle. Isso a assombrava. Num segundo, ela percebeu porque esse lugar era familiar para ela. Ele a lembrava assustadoramente da Câmara Secreta. O pensamento lhe deu frio na espinha.

"Me conte, Gina," Draco perguntou, se aproximando dela na escuridão. "Já se achou em um lugar onde não sabia como tinha chegado? Já tomou decisões racionais para mais tarde pensar nelas e se perguntar como elas te levaram até onde estava?"

"Sim," Gina sussurrou. "Sim, já." Ela olhou para o vazio. Os sentimentos trazidos pelo lugar, combinados com o rumo repentino da conversa estavam dominando-a. A dormência familiar estava se aproximando. Era como se Tom estivesse de volta.

Draco pousou suas mãos sobre os ombros dela, mandando ondas de calor por dentro dela. A dormência estava sendo substituída por uma intensa vontade de beijá-la. Confusa pelo que estava acontecendo, Gina congelou.

"Já fiz coisas terríveis," Draco sussurrou no ouvido dela, o aperto de suas mãos nos ombros dela firme, mas não doloroso. "às vezes não há outro caminho. Às vezes não temos escolha."

"Sei como é não ter escolha," Gina disse, a voz tremendo. "Também fiz coisas terríveis."

"Está falando do que aconteceu no seu primeiro ano?" Draco perguntou, a voz mais quente.

"Sim," ela murmurou. Por alguma razão inexplicável, ela sentia como se pudesse contar qualquer coisa a ele. Era como se ela sempre o conhecesse e sempre o conheceria. Ela colocou as mãos sobre as dele e o ouviu engasgar.

"Me conte, Gina. Me conte o que aconteceu," Draco sussurrou, sua voz trêmula, a respiração curta.

Antes que pudesse se conter, ela lhe contou tudo. Ao invés de rir nas partes em que mencionara sua paixonite por Harry, sua obsessão por Tom, ele ouviu em silêncio. No meio de sua narrativa, ele tomou as mãos dela nas dele e as apertou, transmitindo segurança. Para surpresa dela, esse simples gesto lhe deu a coragem para continuar.

Era a primeira vez que ela contava a alguém essa versão de sua experiência no primeiro ano. Quando contava a história das outras vezes, ela se limitou aos fatos, deixando de fora como se sentira. Mas essa não era a versão da história que ele precisava ouvir. De alguma forma, ela sabia que ele precisava ouvir tudo.

Quando ela terminou, eles ficaram em silêncio alguns segundos. Ela sentiu as mãos de Draco emoldurando seu rosto, seu polegar secando lágrimas que ela não percebera que caíram. Se ele tentasse beijá-la nesse instante, ela não resistiria.

Mas ele só disse, "Lamento. Lamento por tudo."

Algo no jeito que ele disse essas simples palavras fez Gina desabar. Tanta coisa ficou presa dentro dela como um resultado da Câmara Secreta. Suas desculpas pareceram um bálsamo na pele calejada da alma dela. Só meses depois ela percebeu que ele lamentava muito mais que a experiência dela na Câmara Secreta.

Congelando e queimando ao mesmo tempo, Gina prendeu a respiração, pensando se tinha controle suficiente para se mexer ou dizer ou alguma coisa.

Felizmente, Draco agiu primeiro. Ele lentamente tirou as mãos do rosto dela e limpou a garganta. A atração que ela sentia por ele diminuiu, mas não desapareceu.

"Tenho que ir," ele sussurrou. "Espere."

"Certo," Gina sussurrou em resposta. Agindo puramente por impulso, ela esticou a mão e segurou o braço dele, fechando os olhos.

Depois de uma rápida sensação de giro, os sons familiares e o calor da biblioteca retornaram. Gina abriu os olhos e se encontrou olhando diretamente nos de Draco. Sentindo-se tão confusa quanto ele parecia estar, ela largou o braço dele quando ela sentiu que ele tentava soltá-lo.

"O que quer que esteja acontecendo aqui só vai trazer dor," ele disse olhando para seus sapatos. "Precisa ficar fora disso," antes que ela pudesse responder, ele se abaixou e saiu da lareira, deixando-a sozinha.

Gina fez o mesmo que ele e o observou indo embora. Mexendo nervosa em seus cabelos, tomou uma decisão. Ela nunca se colocaria numa posição onde permitiria que Draco Malfoy dissesse a última palavra.

*****

Harry entrou na cama naquela noite sentindo como se fosse ser esmagado pelo peso de tudo o que ocorrera se não fizesse alguma coisa. Deitado na cama, olhando para a escuridão, Harry ouviu para checar se Rony estava acordado.

"Rony?" Harry sussurrou, alto o suficiente para ele ouvir.

"Sim?" Rony respondeu depois de uma pequena pausa. Pelo tom de voz, Harry sabia que ele ainda não estava dormindo.

"Estou preocupado com Hermione," Harry disse a ele. Ele ouviu Rony virando na cama.

"Eu também," Rony respondeu.

"De algum jeito, vou conseguir voltar pra ela. Só preciso saber como," Harry sussurrou.

"Ela consegue ser tão teimosa," Rony depois de uma curta pausa. "Você tem que dar um tempo."

Harry pensou em silêncio antes de replicar, "Vou fazer o que for preciso," ele murmurou.

"Ela diria a mesma coisa," Rony sussurrou.

"Só tenho que tirar a imagem dela com o Malfoy de minha cabeça," Harry disse.

"Feitiço de Memória, talvez?"

"Não. Não quero arriscar alguém bagunçando tudo."

"Bem lembrado," Rony sussurrou, bocejando.

"Amanhã. Preciso de sua ajuda para formular um plano para recuperar Hermione," Harry disse, sentindo uma determinação repentina.

"Claro que ajudarei, principalmente se o plano envolver meter a mão na cara de Malfoy," Rony sibilou.

Harry riu. "É engraçado. Sinto como se todos os planos que formulamos envolvem meter a mão naquela cara de fuinha dele, mas de alguma forma nuca fazemos isso."

"Porque ele é um covarde inútil e escorregadio, só por isso," Rony disse alto. Neville roncou e virou na cama.

"Com ou sem Malfoy, vou recuperar Hermione. Nem ele, nem ninguém vai ficar no meu caminho," Harry declarou. Fazia bem dizer isso em voz alta.

"È assim que se fala," Rony disso no meio de outro bocejo. Harry o ouviu virar na cama novamente.

Alguns minutos passaram e Harry pensou no que falaram. Outro pensamento lhe ocorreu.

"Rony?"

Rony fez um som, que Harry tomou como uma indicação que ele estava escutando.

"Também precisamos de um plano para lhe ajudar a recuperar a Megan. Você não mencionou nada hoje, provavelmente por tudo que aconteceu, mas sei que ainda pensa nisso."

"Sim, penso," Rony respondeu. A voz dele estava arranhada e muito baixa.

"Você a quer de volta, não é?"

Houve uma longa pausa antes de Rony responder. "Eu a quero de volta, mas tenho medo do que isso possa significar."

"Hã?"

"Se eu voltar com Megan, e conseguirmos ultrapassar nossos problemas, vou acabar casando com ela, Harry. Isso me assusta mais que qualquer coisa. Não tenho certeza se consigo lidar com isso agora."

"Rony, temos dezessete anos. Casamento é algo mais para o futuro. Se preocupar com isso não vai te levar a lugar nenhum. Pelo amor de Merlin, nem sabemos onde estaremos daqui a um ano, quanto mais no resto de nossas vidas."

"Você não pensa nisso?" Rony perguntou. Harry sabia pelo tom da voz dele que ele estava extremamente curioso.

"Claro que penso sobre isso. Aposto que Hermione já tem os nomes de nossos filhos planejados. Ou pelo menos tinha..." Harry disse, interrompendo quando lembrou que ele e Hermione não estavam mais juntos.

Harry lutou contra a coceira no canto dos olhos quando continuou. "O que importa, Rony, é que mesmo pensando em casamento um dia, não tenho medo. Vai acontecer quando for a hora e nem um segundo antes. Por que ter medo? É perda de tempo na minha opinião."

"Eu realmente sinto saudades de Meg."

Harry fechou os punhos. "Isso é um saco! Tudo isso!" Harry sussurrou. "Amanhã, depois da partida de quadribol, vamos formar um plano para conquistar Hermione e Megan de volta."

"Concordo," Rony respondeu sonolento. "Agora durma um pouco. Você não quer deixar Malfoy em vantagem amanhã."

Harry ficou de bruços e tentou dormir, pensamentos de como reconquistar Hermione inundando sua mente. Naquela noite, ele teve um sonho em que apanhava maçãs com sua esposa e filhos. Ele não podia ver seus rostos, mas as crianças riam e sua mulher o beijava sob uma macieira.