Pela tua viver,
No silêncio do amor e da eventura
Nos teus lábios morrer!!!"
(Álvares de Azevedo)
8 Capítulo
Era engraçado a forma que estava sendo prensado na parede. Podia jurar que Enishi sentia algo por Kaoru, ou ele era um bom ator. O que não dava a ele o direito de pegá-lo pelo colarinho. Ali era um hospital, um lugar onde se devia ter um certo respeito, não era em hipótese alguma um ringue de lutas.
-Para o seu bem Enishi, me solte.-disse rangendo os dentes.
-Não vou te soltar enquanto não me disser o que você fez para a minha Kaoru.-disse em tom de apropriação, como se Kaoru já fosse dele... Talvez até já seria.
Aquele pensamento serviu para atiçar mais a raiva de Kenshin. No fundo repudiava Kaoru por ter se envolvido com Enishi... Não queria acreditar que uma menina tão inteligente e bonita tivesse caído nas garras daquele parasita. Não estava com ciúmes... Apenas não concebia ver Kaoru nos braços de qualquer homem, ainda mais com Enishi Yukishiro.
-A sua Kaoru está bem.-disse retirando as mãos imundas de Enishi de sua blusa.
Enishi tinha vontade de acabar com aquele homem a sua frente. Estava bem claro para ele que Kenshin tentara matar Kaoru. Pois a garota havia sido a única testemunha ocular da morte do pai... E na certa aquele homem ficara tão encurralado quando ouvira de sua própria boca que sabia que ele havia matado Makoto Shishio, que decidira apagar de vez a única testemunha viva do assassinato.
-Olha aqui Kenshin.-Enishi disse apontado o dedo para ele.-Se algo acontecer com Kaoru, você pode ter certeza de que o perseguirei até o inferno.
Aquela situação era hilária. Aliás, já tinha feito sua parte e nem mais ali devia estar. Não era nada de Kaoru... Era apenas um ex-namorado que matara o pai vilão da amada, e até agora pagava por isso. Devia seguir seu bom senso e sair dali antes que aquele hospital virasse um inferno de jornalistas.
-Suas ameaças não me assustam, Enishi.-Kenshin falou zombeteiro.
-Mas devia... Tomoe ficaria muito decepcionada ao descobrir quem realmente é, o homem com quem divide a cama todas as noites.-disse em tom ameaçador.
Kenshin por alguns segundos empalideceu. Não queria que Tomoe descobrisse uma vírgula sobre o seu passado... Não agora que ambos estavam tão bem juntos. Ele já não se sentia tão sozinho. Não queria ver nos olhos e nos lábios de Tomoe a mesma expressão que vira na face de Kaoru. Havia jurado não magoá-la jamais...
-Isso é uma ameaça?-perguntou Kenshin recuperando o sangue frio.
-Não, é o que vai acontecer.-disse sorrindo cinicamente.-Ou você acha que vou deixar minha mana ficar com você.
Enishi era um lunático. Não era ele o assassino ali, e sim aquele homem que tinha tanto ódio que estava cegando sua razão. O que ele ganharia contando aquilo para Tomoe? Já não bastava o que tinha feito Kaoru passar.
-Tomoe me ama, e jamais irá me abandonar...
-Não tenha tanta certeza disso, Kenshin.-ele falou sem tirar o sorriso cínico dos lábios.
Se ali não fosse um estabelecimento público certamente já teria virado um belo soco na cara daquele desgraçado. Ele acreditava que as pessoas eram um mero fantoche nas mãos dele, mas a verdade era bem mais profunda do que a manipulação.
-Enishi não devo nada a você, estou aqui porque encontrei Kaoru desmaiada no chão do camarim dela.-Kenshin falou a verdade.-Fiz meu papel e a trouxe até esse hospital... Sabe de uma coisa eu não sei o que estou fazendo aqui, pois como você mesmo me disse: eu não gosto da Kaoru.-concluiu pegando o casaco.-Agora se não se incomoda tenho mais o que fazer.
Tinha que sair dali antes que perdesse a razão e partisse para cima de Enishi. Se fosse seguir seu coração ficaria ali com ela, mas se fosse por sua razão já deveria estar longe dali. Estava cansado de tudo... Infelizmente o seu futuro não estava ligado àquela mulher, pois o destino sempre tramava para eles ficarem separados. O sinônimo de Kaoru em sua vida era confusão.
____
-Essa foi por pouco, Kaoru.- o velho médico da família ralhou com ela.-Quantas vezes não te falei que com úlcera não se brinca.
-Eu sei doutor... Mas é que hoje passei por tantas situações desagradáveis...
-A senhorita deve aprender a se controlar.-disse anotando alguma coisa na prancheta.-A sua úlcera teve a ponto de suporá.
Kaoru estremeceu ao ouvir aquelas palavras, seu maior temor se devia a esse fato. Ultimamente andava muito tensa e nervosa... Deveria tirar alguns dias de férias. Ficar em casa sem fazer nada. Certamente faria um bem enorme para sua saúde debilitada.
-Eu sei doutor...-disse abaixando a cabeça.
-Kaoru, eu como seu médico tenho que informar que a próxima crise será fatal.-ele falou triste colocando a mãos sobre a dela.-Ou você muda sua vida, ou você só tem mais seis meses de vida.
Kaoru sentiu o mundo escurecer a sua volta. Ela sentia apenas seis meses de vida... Seus olhos arderam. Mas tinha que se manter calma, no fundo sabia que lhe restava poucos anos de vida. Não era novidade nenhuma.
-Doutor seja mais claro?-perguntou com a voz embargada.
Doutor Sun transpirava. Tinha nada mais nada menos do que 35 anos de carreira, e nunca havia sido tão difícil dar uma notícia ruim como estava para dar para aquela jovem agora. A parede do estômago dela havia sido muito afetada com o sangramento da úlcera... Além de seu sistema nervoso estar todo deteriorado. O que era incrivelmente triste... Ela era apenas uma jovem, e só tinha pouco tempo de vida. A vida era ingrata, só um milagre manteria aquela jovem viva.
-A sua úlcera é incomum.... Posso dizer que só existe vinte casos iguais ao seu no país, e cinqüenta em todo o mundo.-ele pausou colocando a prancheta na mesa ao lado.-Geralmente as pessoas que tem essa doença não podem passar por grandes abalos emocionais, pois com o tempo o sistema nervoso se "auto-suicida", e as paredes do estômago ficam afetadas...
-Então eu só tenho seis meses de vida?-perguntou não segurando as lágrimas que já transbordava pela a face.
-Temo que sim, Kaoru.-disse abraçando-a .-Sabe que a considero como uma filha para mim... Eu amo muito sua mãe, e você e suas irmãs são de grande importância para mim... E quero ajudá-la nesse momento tão complicado de sua vida.
Kaoru não disse nada, apenas chorou. Naquele momento tinha a mais absoluta certeza de que ainda era cedo demais para ela morrer, mas tinha que se conformar. Embora temesse demais o seu destino... Não por ela, e sim por sua família. O que seria de Misao e de sua mãe sem ela? Não queria nem pensar... Tinha que ser forte, muito forte, pois o que estava por vir não seria fácil para ninguém.
-E-Eu só peço uma coisa, Sun.-disse se distanciando dele limpando as lágrimas.-N-Não conte para ninguém... Eu não quero ver minha família sofrer mais do que vem sofrendo durante esse anos... Sem meu pai.
Sun sorriu. Entendia muito bem a reação de Kaoru... Aquela menina era demasiadamente forte, e jamais se daria por vencida. E era por isso que admirava Kaoru, uma jovem determinada que assumira a família depois da morte trágica e mal explicada de Shishio. Admirava o amor que mantinha a família unida... Sem Kaoru certamente a vida dos Kamiya seria muito triste. Admitia também que sem a força de Kaoru, Karen não havia conseguido sobreviver.
-Por favor, Sun... Não conte nada para ninguém.-ela implorou beijando sua mão.
-Mas...
-Por favor, não agüentaria ver minha mãe chorar novamente.-disse sentindo as lágrimas aflorarem os olhos.-Eu não quero que mais ninguém sofra...
-Está certo então, Kaoru.-concordou acenando levemente com a cabeça.-Mas já vou avisando que não vou mentir.
-Só o seu silêncio já me satisfaz.-disse fechando os olhos.-Eu preciso descansar...
-Entendo...-disse dando um beijo na cabeça dela.-Só vou te dar alta quando sua pressão se normalizar.
Concordando com a cabeça escutou ele lhe passar uma lista de calmante e anestesiado para as dores e prováveis crises de nervoso que teria. Só de pensar no que a esperava já sentia seus músculos retesar-se.Não estava preparada para a morte... Ainda era jovem, tinha uma carreira pela frente. Não tinha que morrer, não era necessária a sua morte.
Agora que estava sozinha pode dar vazão a sua tristeza. Agarrando o travesseiro chorou como a muito tempo não chorava. Naquele momento sabia que tinha que mudar sua vida... Tinha que transformar os poucos meses que lhe restavam nos melhores de sua vida. Para isso iria pedir demissão da rádio... Seria dificil, mas já não tinha condições de trabalhar. Afinal lhe restava poucos meses de vida...
***
Misao se culpava por ter sido tão dura com a irmã. Sabia e reconhecia o esforço que Kaoru havia feito por ela... Não fora justo com sua irmã. Não passava de uma mal agradecida. A sua irmã havia se sacrificado pelo o bem estar dela... E agora estava ali naquele maldito hospital. Se tivesse sido compreensiva, e entendido o lado superprotetor da irmã, ela há essa hora estaria em casa e não ali...
-Quem a socorreu, Enishi.-Karen perguntou nervosa.
Por alguns segundos Enishi hesitou, mas achou por bem falar a verdade. Pois mais cedo ou mais tarde ela iria saber da verdade pela a boca da própria Kaoru. E não seria bom para ele, afinal queria conquistar a confiança de Karen.
-Kenshin Himura.-disse em tom um tanto sarcástico.
Karen sentiu o mundo parar. Então era aquele motivo de sua filha estar no hospital... Kenshin havia voltado. Não sabia se sentia feliz, ou mais preocupada. Kaoru odiava aquele menino. E em pensar que um dia ela chegou a amá-lo...
-Temos que agradecer a esse moço...
-Não será preciso, Karen.-Ensishi falou decidido a fazer de tudo para nunca mais Kaoru ou alguém da família dela olhasse para o roqueiro.-Eu já dei uma quantia de dinheiro a ele.
Kenshin havia aceitado o "agradecimento". Nunca pensara que aquele menino tivesse se transformado em um mercenário. Bem, o tempo mudava bastante as pessoas. Tinha um exemplo na própria casa.
-E os médicos? Já deram algum parecer sobre o estado da minha filha?-ela perguntou aflita.
-Não...Mas vou procurar saber...
Karen viu o moço se distanciar. Talvez Enishi fosse a melhor solução para sua filha... Durante anos alimentara a ilusão de sua filha voltar com Kenshin, mas agora tinha certeza de que seria melhor para Kaoru ficar longe daquele cantor. Tinha que admitir que Kenshin não havia sido o homem certo para Kaoru.
***
Kenshin olhava para o telefone. Sua vontade era ligar para o hospital e saber como Kaoru estava... Tirar por vez aquela sensação horrível de seu coração. Queria poder acreditar que nada de ruim iria acontecer com ela, mas algo lhe dizia que o estado dela não era nada bom. Quando a achara desmaiada tivera a nítida impressão de que o estado dela era bastante crítico, o que estava o deixando nervoso. Devia estar feliz por estar longe de Kaoru, mas estava sentindo ao contrário. Queria ficar lá ao lado dela... E aquela simples constatação o deixava maluco.
-Como está Kaoru, Kenshin?-Júlia perguntou sentando ao lado dele.
Estava ambos sentados sobre o sofá do apartamento que a banda ocupava no principal hotel da cidade. Os outros meninos não estavam, deveriam estar em alguma festa, ou visitando alguns amigos. Ela havia encontrado Kenshin ali sozinho... olhando fixamente para o aparelho celular. No fundo sabia que a razão para tanta preocupação era o estado de saúde de Kaoru... Kenshin não escondia que no fundo ainda se importava com a jovem, e isso a deixava bastante otimista. Adoraria ver os dois juntos, mesmo que aquilo fosse um pensamento utópico.
-Não sei, saí de lá sem notícias dela.-ele respondeu com a cabeça baixa.
-Como você a encontrou, Kenshin?
Mais uma pessoa estava pensando que ele tentara matar Kaoru. Será que ninguém entendia que ele seria incapz de matar a mulher que mais amou na vida? Será que era tão dificil de entender que não era um monstro, e que se havia tirado a vida de Shishio foi para sua proteção.
-Ela contou sobre Shishio...?-ele perguntou desconfiado.
-Sim...-Júlia respondeu olhando-o nos olhos.-Mas não o julgo, pois sei como era Makoto Shishio...
Kenshin sorriu, todo mundo sabia quem era Makoto Shishio menos Kaoru. Não podia julgá-la por isso, pois Shishio era pai dela.
-Ela estava desmaiada no chão.-ele relatou com calma.-Assim que a encontrei a levei de pronto para o hospital...
-E ligou para mim.-ela falou sorrindo.
-Foi apenas isso que aconteceu.
-Por que não está lá com ela?
De repente a expressão de Kenshin voltou a endurecer, como se lembrasse de algo desagradável.
-Enishi... Ele me colocou no meu devido lugar.
"Desgraçado..." ela pensou. Enishi sempre era uma pedra no caminho de todos. Inclusive no de Kenshin.
-Está preocupado com ela?
-Claro.-ele falou triste.-Ainda mais que nunca vi Kaoru daquele jeito.
Talvez fosse melhor ela fazer uma visita à amiga. Além do mais, poderia alertá-la o perigo que Enishi representava a ela... E falar também sobre Kenshin. Não será castigo nenhum para ela aproximar aquelas duas almas um tanto cabeça dura.
-Eu vou fazer uma visitinha a ela, não quer vim junto?-Julia perguntou perspicaz.
Kenshin por um momento teve uma imensa vontade de acompanhá-la, mas repensou e percebeu que seria um pouco desagradável a presença dele ali. Poderia fazer uma visita mais tarde, mas agora seria impossível... Queria evitar a todo custo se encontrar com Enishi.
-Não...-disse andando até o quarto.-Além do mais tenho que esperar Tomoe... Estou preocupado com ela.
Era apenas um desculpa esfarrapada para mostrar de vez que não se importava nem um pouco com Kaoru. Sabia que Júlia o conhecia melhor do ninguém. Mas no momento queria ter apenas um tempo para pensar.
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Olá pessoal!!!!! Espero que estejam gostando desse capítulo. Nada me daria mais satisfação em saber sua opinião. Só queria pedir desculpas pela minha demora em posta, mas é que fiquei mqio sem vontade de fazer isso.
Beijos para Li que revisou esse capítulo para mim. Pra Letícia que me ajudou muito. E a Carol Malfoy, Juli-Chan, Luisa e a minha querida amiga Carol.
Bjs!!!!!
Anna
