Narrador: OmiA tarde estava chuvosa e fria...Tudo o que queria naquele momento era ir logo para casa, não agüentava mais a voz monótona daquele professor de história...Eu era um bom aluno, mas não estava com paciência para isso naquele momento...A única coisa que queria era um cobertor quentinho e os biscoitos de chocolate que minha mãe costumava fazer naquela época do ano.
O sinal tocou de repente, fazendo meu corpo sobressaltar-se de susto. Amaldiçoei mentalmente aquele troço, porque diabos tinha que ser tão alto? Rapidamente peguei meus materiais e os joguei dentro da mochila sem nenhum cuidado, ainda pensando em ir direto para casa.
Senti um tapinha amigável em minhas costas e logo um habitual sorriso iluminou meu rosto: Era Ken, na época, meu melhor amigo (Lain: sim, sim, eu deixei o Ken alguns anos mais novo...). Assim que terminei de arrumar minhas tudo, ele me puxou pelo braço, apressando-me: - Vamos logo Omi! Vai começar a chover!
- Calma!!! – Ele foi me puxando, abrindo caminho entre a multidão que se amontoava nos portões de ferro da escola.
-Finalmente... – Paramos de correr quando já estávamos livres da grande massa de pessoas apertadas embaixo da proteção contra a chuva. Olhamos para o céu quase ao mesmo tempo, quando um trovão iluminou tudo a sua volta.
-Iiiiiiiiihhhhhhhhh...acho que vai chover mais... –Ken comentou. – É melhor irmos logo! – Sorriu para mim e devolvi o sorriso...Estava sempre sorrindo, costumava ser uma pessoa agradável e de fácil convivência. Não que eu não sorria hoje em dia, mas eles se tornaram um pouco mais raros...Vocês sabem, né?...A melancolia normal de um ser das trevas...Bom, mas voltando à história.Andamos juntos até onde nossos caminhos se separavam, sempre rindo e conversando sobre banalidades, como de costume. Minha casa ficava no topo de uma ladeira, a dele antes da subida, à direita.
-Ok, Omi! Nos vemos amanhã! – Ken acenou e começou a andar em direção a sua casa. Eu fiquei olhando ele se afastar e logo me surgiu uma idéia:
-Ken!! Ken!! Espere um pouco!!! – Lembro de ter dado uns pulinhos de empolgação por meus próprios pensamentos. Vi ele se virar e focar seus olhos chocolate em mim (ou serão verdes? Não sei...cada pessoa diz uma coisa), esperando:
-Quer dormir lá em casa? – Então o vi sorrir...Um lindo sorriso de que hoje sinto falta, um sorriso de confiança e amizade verdadeira, que hoje só vejo em Aya...Eu definitivamente sinto falta dele...Pois bem. Acredito que Ken não tenha pensado duas vezes antes de aceitar, pois logo começou a subir a ladeira rapidamente, me desafiando para uma corrida.
-EI! Ken! Não vale! Você começou antes!!! – Subi, tentando conciliar a respiração ofegante com os gritos e falas... É claro que ele chegou bem antes...
Quando alcancei minha casa, apoiei as mãos nos joelhos, com um sorriso no rosto, balançando negativamente a cabeça: "Definitivamente estou fora de forma...". Olhei para meu amigo, que estava sendo gentilmente recebido por minha mãe e me olhava com um olhar vitorioso e sem-vergonha.Fitei o céu novamente, assim como fiz em frente à escola, tentando encontrar algum resquício de luz do sol...Sem chance, ele estava completamente escondido...Abaixei o olhar para o parque que existia em frente a minha casa...No momento não tinha idéia por que o fiz, afinal aquele lugar nunca havia me chamado atenção, mas hoje eu sei...Foi ali que eu o vi pela primeira vez...Um homem de uma beleza sobrenatural estava encostado em uma das árvores, com o rosto voltado para o céu e os olhos fechados. Fiquei encantado...Sua pele era lisa e perfeita, de uma cor fascinante, branca como a neve; e parecia tão macia...Isso contrastava com seus longos e brilhantes cabelos cor de sangue, cuidadosamente presos em uma trança trabalhada. Ele vestia um blusão de gola alta, um calça e um sobretudo, todas as peças negras...Aquelas roupas caiam maravilhosamente bem sobre seu corpo esguio e longo, completando o maravilhoso conjunto...Estava absolutamente imóvel, não duvidaria se me dissessem que não respirava...Parecia uma estátua esculpida com esmero pelas mãos de um artista talentoso. Ele parecia tão calmo...mas uma aura de melancolia o rodeava, o que o deixava ainda mais fascinante, misterioso e perigosamente belo...Não sei por quanto tempo fiquei fitando seu corpo, deixando minha mente vagar por meus pensamentos mais íntimos e ocultos, pensando em loucuras que nem sabia de onde havia tirado. Pensei em como queria sentir sua boca sobre a minha...Aqueles lábios rosados e finos eram a tentação...Decedi me mover, desviar meu olhar, pois meus próprios pensamentos estavam me assustando...Ele era um estranho! E ainda por cima, homem! Quando ia dar as costas aquele ser magnífico, ele percebeu que estava sendo observado...Então meu plano foi por água abaixo...Quando suas pálpebras se abriram e seus olhos fitaram os meus, fiquei impossibilitado de qualquer movimento, por menor que fosse...Tinha medo que, ao me mover, aquela visão dos deuses desapareceria...Seus olhos eram como duas grandes e brilhantes ametistas, de uma cor viva e nunca vista antes. Foi a visão mais bonita de minha vida, lembro até hoje. Aquelas orbes hipnóticas ficaram me encarando com a mesma adoração que eu as encarei. Senti meu coração bater mais forte, ameaçando sair pela boca. Minha pernas fraquejaram e comecei a suar:Estava apaixonado.
Continua...
