Narrado por: Omi
Não sei dizer por quanto tempo ficamos nos fitando. Muito, com certeza. Senti-me perdido, sendo olhado tão intensamente. Queria dizer algo, mas nada vinha a minha cabeça. Bom...pensei em começar com um "Oi", mas a coragem demorou a chegar...e quando finalmente achei que era a hora....:-Omi! O que está fazendo aí? -... Ken veio e me empurrou para dentro de casa. – O que você estava fazendo? Quem era aquele cara?
-(...) – Simplesmente fiquei mudo, ainda com a imagem do belo ser em minha mente. Sua pele lisa, sua boca tentadora que eu agora sonhava em beijar e seus olhos...Duas belas jóias de uma cor fascinante...
-Omi! -(...) – Finalmente acordei e percebi que ele me chamava, mas o que dizer? Não havia o que ser dito...Eu simplesmente não sabia quem era aquele homem.
– Eu...Eu não sei, Ken... – E também não sei o que ele pensou aquela hora, mas pela cara incrédula que fez, com certeza duvidou de minha sanidade mental...
- Como não sabe? Porque ficaram se encarando? – Lembro de ter meu corpo balançado pelos ombros de maneira rude, mas preocupada.
-Ken...eu não sei... – Minha voz saiu manhosa e arrastada, como se eu não quisesse falar sobre isso com ele...Pela primeira vez não me sentia a vontade de falar sobre meus sentimentos com meu melhor amigo. Me senti estranho, mas algo me dizia que era melhor assim. Livrei-me de suas mãos, que começavam a machucar meus ombros e subi as escadas, com ele me seguindo.
-Omi...me desculpe...mas eu fiquei nervoso...foi...estranho.... – Sorriu, tentando justificar todo aquele nervosismo.
-Não precisa desculpar-se...tudo bem Ken... – Sorri de volta, tentando controlar a vontade louca de ir até a janela e ver se o homem ruivo ainda estava lá...
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Durante o resto do dia não consegui me concentrar em absolutamente nada...Até me senti culpado por não dar a Ken a devida atenção...se bem que ele estava tão compenetrado no novo jogo de videogame que eu havia comprado, que nem deve ter sentido muito a minha falta.Fui à janela do meu quarto algumas vezes, me esticando para fora e tentando enxergar o magnífico ser daquela tarde. Até as dez horas da noite ele continuava lá, parado no mesmo lugar, sob a mesma árvore. Nossos olhos ficavam se encarando durante alguns instantes, até eu quebrar o contato visual, com medo que Ken percebesse. Mas nada disso adiantava, em menos de uma hora eu estava na janela novamente, "namorando à moda antiga", o apelido que dei a esses olhares sonhadores, como os das senhoritas antigas quando viam seu amado.Quando me deitei para dormir, fiquei olhando para o teto por algum tempo, esperando o sono chegar...mas ele não vinha! Vi Ken pegar no sono, se revirar, praticamente brigar com os cobertores e levantar-se para ir ao banheiro. Pelos meus cálculos, devo ter dormido lá pelas três horas da manhã.-
Novo dia...nublado.. Apesar disso, lembro de ter acordado com disposição, sentindo-me bem descansado...bem, só poderia ser, pois já passava do meio dia.-Omi!!! Ken! Levantem-se!! Vamos!!! – Minha mãe entrou no quarto, já abrindo a janela e deixando a pouca luminosidade que vinha da rua entrar. Era uma boa mãe...gostava muito dela, e ainda hoje sinto saudades...
-Bom dia, mãe!!! – Levantei num pulo só, dando um beijo estalado em sua bochecha rosada. Ken ainda se remexia preguiçosamente na cama quando minha mãe puxou-lhe as cobertas, provocando o riso de todos.
Nossa tarde transcorreu normalmente e eu me sentia mais aliviado por não pensar mais somente no homem ruivo...quer dizer, ainda pensava, e muito, mas pelo menos agora conseguia conversar decentemente.Perto das quatro horas da tarde, Ken teve que ir embora. Eu o acompanhei até a porta e fiquei encostado no batente, esperando meu amigo sumir de vista... Bem, agora era a hora: eu precisava ir para meu quarto e pensar calmamente naquela paixão platônica que havia me pegado da noite para o dia...e pior: eu nem conhecia meu amado!!!!Dei uma olhada ocasional para o parque, pensando no que fazer...e confesso a vocês, o que eu vi não ajudou em nada. Lá estava ele, magnífico e apaixonante, assim como na tarde anterior. Fiquei sem reação, minha respiração acelerando pelo nervosismo de tê-lo tão perto. Como todas as outras vezes, ficamos no encarando, esperando que o outro tomasse a iniciativa. O engraçado é que eu realmente pensava assim na hora. Nem cogitava que ele podia estar me olhando por me achar só um garoto estranho, que não parava de encará-lo...hehehe...que bom que não pensei assim.Senti o chão me faltar quando percebi que ele começou a caminhar em minha direção. Eram passos hesitantes, mas isso ficou guardado em algum lugar remoto de minha consciência. Quando a distância entre nós não era mais de um metro e meio, minhas bochechas já estavam queimando de vergonha, mas nada me fazia querer sair dali, por mais embaraçosa que fosse a situação. Senti o seu cheiro, um perfume cítrico, marcante e sensual...Sua voz soou como melodia:-...Você quer dar uma volta? – Uma voz forte e calma, que me fez delirar... Demorei a processar o que ele havia dito, mas quando me dei conta, fiquei completamente sem resposta. Nesse momento quase enxerguei um diabinho e um anjinho em meus ombros. Enquanto o primeiro dizia: "Deixe de ser idiota!! Não é a chance que você queria? Vá logo!!", o segundo rebatia: "Você nem o conhece! Pode ser perigoso!!!"...Bom...o primeiro ganhou de goleada. Fechei a porta e saímos para caminhar entre as árvores do parque lado a lado.
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No começo de nosso passeio, o silêncio foi um pequeno empecilho, mas ele foi quebrado quando o ruivo perguntou meu nome...Respondi e perguntei o dele...Aya...Aya... Um nome tipicamente feminino, mas que combinava maravilhosamente bem com aquele lindo homem...Andamos por muito tempo, conversando e rindo á toa, enfim, nos tornando mais íntimos...Em nenhum momento citamos os olhares que trocávamos à distância, e na maioria do tempo falamos sobre coisas banais...Antes deste dia, eu jamais imaginei que um passeio no parque em um dia nublado podia ser tão divertido.Uma hora depois havíamos contornado quase todo o parque, e já enxergávamos a minha casa novamente...Lembro que não queria que acabasse ainda. Queria passar mais tempo com ele!!! Bem...tanto pensei que acabei não cuidando por onde andava...pisei no barro e escorreguei. Fechei os olhos, já esperando uma queda feia e vergonhosa, mas ela não veio. Senti uma mão segurar a minha e sorri...era ele...eu tinha certeza. Quando abri os olhos, só tive confirmado o que já sabia...-Você está bem? – Seu rosto era preocupado...preocupado comigo...me achei a pessoa mais sortuda do mundo.
-Estou ótimo. – Me endireitei e abri um sorriso ainda mais luminoso quando percebi que ele não tinha a intenção de soltar a minha mão...Ele olhou para as nossas mãos entrelaçadas e depois para meu rosto e sorriu...um lindo sorriso de satisfação...Andamos de mãos dadas até a árvore em frente a minha casa...Sua mão era maior que a minha... era tão bom andar assim...pertinho dele...me passava tanta segurança.
Paramos quando era hora de nos separarmos, mas não o fizemos...simplesmente ficamos nos olhando, apreciando a presença um do outro...parecia que namorávamos a tempos, mas na verdade, nunca tínhamos nem ao menos nos beijado!!!!! Bom...isso não durou muito, pois durante esse devaneio, senti seus lábios sobre os meus...eram frios, mas aconchegantes. Separei meus próprios lábios e fechei os olhos sem pensar duas vezes, deixando-o me guiar para o mundo de delícias que era ser beijado por sua boca...Foi o meu primeiro beijo de verdade, o primeiro por amor...Minhas pernas ficaram bambas e eu me abracei ele, sendo envolvido por seus braços fortes...Seu corpo me passou uma sensação estranha...Ele era frio como seus lábios, não parecia ter o calor de um humano normal, mas naquele momento, em que nossas línguas e lábios dançavam juntos, parecia o lugar mais aconchegante em que já estive...Eu não conseguia acreditar que estava sendo beijado por aqueles lábios finos e sedutores que tanto desejei...O beijo só foi cortado quando o ar se fez necessário, mas continuamos abraçados:-Eu preciso ir pra casa...Minha mãe deve estar louca comigo... – Minha voz saiu sussurrada e meu sorriso transmitia a felicidade que habitava meu coração. Com uma das mãos, brinquei com o botão de seu casaco negro, tentando não ficar muito envergonhado e nem sair por aí pulando de felicidade como um maluco.
-Tudo bem...Podemos nos ver amanhã? – Seus olhos brilhavam espetacularmente, sua voz era rouca e um sorriso discreto passou por seus lábios. Seus dedos carinhosos passeavam entre minhas mechas loiras, roçando levemente na nuca e me provocando arrepios.
-Claro... – O carinho que ele fazia em minhas costas era tão gostoso...relaxante...fechei os olhos e o abracei mais forte. Ele interpretou isso como mais uma chance para me roubar um beijo...e o fez...Foi um longo e profundo beijo...mas foi só o primeiro de muitos outros, pois ficamos ali nos beijando por um longo período...Quando finalmente nos separamos, antes de entrar em casa, fiz a pergunta que martelava em minha cabeça desde que seus lábios tocaram os meus pela primeira vez...
-Que tipo de relação nós temos? – Minha voz saiu baixa e hesitante, pois a possibilidade de ouvir a resposta que eu não queria era pequena, mas mesmo assim existia:
-Por mim...estamos namorando... Sorri e o beijei de novo...uma pequena lágrima de felicidade escorreu de meu olho esquerdo, sendo seca pelos lábios dele, que beijaram todo o meu rosto. Fui até a porta de casa:
-Boa noite...
-Boa noite... – Eu havia visto! Eu tinha certeza que havia visto o mesmo sorriso bobo e apaixonado no rosto dele quando se despediu de mim... Entrei em casa e me larguei no sofá...então era isso – um sorriso cruzou minha face. – Estávamos namorando.
Continua...
