Narrado por: Aya

Estava feliz, definitivamente feliz, como não me sentia a décadas. Aquele garoto teve o poder de dar razão para minha existência em pouco mais de uma hora. Emiti um sorriso largo e luminoso...e logo comecei a rir como um maluco...um maluco apaixonado. Nunca havia sentido nada assim, era bom...muito bom.

Abri os braços e girei meu corpo algumas vezes, praticamente dançando na grama do parque. Qualquer um que tivesse me visto naquela hora com certeza iria me achar um louco desvairado e ligaria para o hospício imediatamente, mas, talvez pelo tempo tão feio, não havia ninguém nas ruas...Só eu e minha felicidade.

Atirei-me embaixo de um salgueiro e fiquei contemplando lua com uma sorriso imbecil no rosto...o pior é que eu sabia que era um sorriso imbecil, mas simplesmente não conseguia desfazê-lo. Desisti de trazer minha seriedade de volta tão cedo, estava me sentindo bem daquele jeito...

-AAAAAAYYYYYYYAAAAAA!!!!! – Não...Não!!!! Não podia acreditar que havia esquecido dele!!! pude esquecer que disse que esperaria ali? Droga! Devia ter ido embora logo depois de me despedir de Omi.

- Oi Vittorio... – Lembro de ter dado o sorriso mais amarelo de toda a minha existência...Sabia que era um pouco de maldade, mas não conseguia deixar de me irritar com ele. Era barulhento, bagunceiro e infantil, nem parecia um vampiro de 219 anos!

-A-yan! Já achei a presa perfeita para você! Vamos! Te levarei até lá!!!!

-Não, Vittorio, não...Não quero comer mais nada.

-Mas... – Vi sua cara desolada. Pelo tempo que levou, deve ter escolhido a presa realmente a dedo. Seus lábios carnudos e pálidos se torceram em um biquinho manhoso. – Mas...Porque pediu que eu fosse procurar uma presa se não a queria?

-Na hora eu queria, mas agora não quero mais... – Meu jeito carrancudo havia voltado. Hoje sinto por tê-lo tratado assim...Tavez se eu o tivesse tratado bem desde o começo essa confusão não tivesse acontecido.

-Ok...Deixa pra lá... – Não demonstrou, mas ficou magoado, tenho certeza. Ficamos descansando embaixo do salgueiro e eu quase podia ouvir os pensamentos dele me amaldiçoando.

Toda aquela manha durou por pouco tempo...Queria que tivesse durado mais, pois possivelmente ele não viria tentar me beijar se ainda estivesse chateado... Mas como sempre, ele tentou... Foi só eu me levantar e dar alguns passos para sentir seus braços ao redor de meu corpo e sua boca tentando capturar a minha. Virei o rosto, mas sabia que ele não desistiria assim tão fácil. Abraçou-me com mais força, escondendo o rosto em meu peito e pedindo carinho como um gato manhoso. Algumas horas atrás eu deixaria minhas mãos escorregarem pelas ondas negras de seus cabelos, e em meus melhores dias, lhe concederia alguns beijos na boca ou quem sabe até fossemos para cama, mas não dessa vez, não depois do que aconteceu. Eu estava apaixonado agora, e seu abraço já não me parecia mais nem um pouco atrativo, nem ao menos para uma noite de sexo.

Deixei meus braços inertes ao lado do corpo, esperando que ele se afastasse.

-A-yan...o que foi? – Levantou seus olhos brilhantes para mim, tentando adivinhar porque fora privado do único carinho que eu nunca lhe recusei.

-Não me chame assim...

-Aya... – Aproximou-se de meu rosto, tentando me beijar novamente. Coloquei os dedos em seus lábios.

– Não, Vittorio. Você sabe que não existe mais nada entre nós. Vivemos juntos somente porque nos é conveniente na hora das despesas e coisas deste tipo... – Isso foi um pouco cruel de minha parte, admito, mas precisava fazê-lo entender!

-Mas...Aya...

-...E além do mais, conheci uma pessoa... – Ele se afastou de mim no mesmo instante, suas íris refletiam revolta, ciúmes e incredulidade.

-Você o quê?... – Sua voz era somente um sussurro, como se temesse que se o falasse alto demais, se tornaria a mais dura realidade.

-Conheci outra pessoa...Estamos namorando... – Era melhor contar a verdade de uma vez e tentar dar um jeito em tudo.

-...Não é possível...Isso é verdade? – Emitiu um sorriso triste, achando que eu estava somente brincando com ele, mas ainda sim com medo da resposta. Somente balancei a cabeça, em uma afirmativa muda. Esperava que ele entendesse, e pelo jeito tudo estava correndo como o esperado, bem...pelo menos até aquele instante... -...Quem é? Conheço esse vampiro? – Me olhou desconfiado, com certeza já bolando mil e um planos mirabolantes contra o desgraçado que ousou me roubar dele.

-Não... – E aí foi que cometi o erro...foi onde toda a confusão realmente começou - ...Ele é humano e...

-O QUÊ? – Me interrompeu bruscamente, segurando meus ombros e me balançando com força. - Você está namorando um humano? Eu não posso acreditar! A que ponto você chegou? Qualquer vampirinho de quinta categoria é melhor que um humano!!! Existem tantos te pode querer ficar com um humano?????!!!! ELES SÃO APENAS COMIDA! – Vittorio gritava descontroladamente, para quem quisesse ouvir.

PLAFT!!!!

Nem vi quando minha mão foi de encontro a seu rosto, só percebi a grande marca vermelha em sua bochecha..Mas não me arrependo; nunca pensei em humanos apenas como comida, pra dizer a verdade, sempre tive inveja deles...Eles podiam morrer, não eram condenados a essa "vida" de tormentos que um vampiro leva...Mas Vittorio não era assim, pensava diferente, se sentia superior aos humanos...Para ele, eram só carne viva e pulsante, necessária para nossa sobrevivência.

-Aya... – Seus olhos estavam marejados e ele definitivamente não queria acreditar no que estava acontecendo.

-Eu estou namorando, estou apaixonado e ele é humano... – minha voz tremia de raiva e estava perigosamente calma...a intensidade de meus sentimentos estava me apavorando... – E se você vier a conhecê-lo...quero que o trate bem, entendeu?

-S-sim... – abaixou os olhos, mas, em seu atrevimento, não deixou de fazer uma pergunta, carregada de ironia e crueldade:

-Posso saber como vai lhe dar com a situação quando lhe for perguntado porque você não aparece de dia?

-... – Não havia pensado nisso ainda, mas não estava em condições mentais de fazê-lo naquele momento. – Vamos para casa Vittorio. A resposta dessa pergunta é somente de meu interesse e da outra parte envolvida... você não tem nada a ver com isso.

Senti a raiva emanando por todos os poros daquele vampiro moreno...Ele estava muito certeza muitos pereceriam esta noite... Era melhor ficar de olho nele por um tempo, não queria que nada de mau acontecesse a Omi ou a seus entes queridos... Talvez fosse melhor chamar meu mestre para ajudar-me a controlá-lo...

Definitivamente não queria que Vittorio descobrisse a identidade de meu namorado...Aquele vampiro, que aos olhos de outro parecia tão inofensivo, podia ser perigoso...MUITO perigoso...

Continua...