Narrado por: Omi



Aquele dia estava ensolarado e bonito, diferentemente dos outros dias daquela semana. Lembro de ter pensado que o tempo deveria estar acompanhando meu humor, que nunca esteve tão bom.

Vesti o uniforme e desci as escadas correndo, pulando de dois em dois degraus. Encontrei minha mãe na cozinha, preparando um leite com chocolate, certamente para mim:

-Bom dia mãe!!!

-Bom dia! Que animação! O que aconteceu? – com certeza ela havia dito isso porque meu humor nunca era dos melhores logo pela manhã.

-Hãããããñnnn.... – Não sabia se devia contar... algo me dizia que ainda não era a hora... – Eu... só... só dormi bem! É isso!

-Hmmm... acho que isto tem a ver com alguma garota, certo? – O olhar malicioso que ela me lançou deixou minhas bochechas em fogo.

-MÃE!!! – o tom de reprovação em minha voz era claro.

-Ok, ok...- riu baixinho – quando você quiser contar, conte.

-Hn...

-... – Ela sorriu amavelmente para mim, o que me incentivou a fazer o mesmo. – Agora tome logo esta leite ou vai se atrasar para escola!

Acabei logo com tudo que ela havia feito para mim. Escovei os dentes e saí, não conseguindo evitar um olhar sonhador para o parque, no local onde Aya e eu havíamos trocado os primeiros beijos. Não pude me prender muito as lembranças, pois o relógio acusava que provavelmente chegaria atrasado se não me apresasse.

Corri a maior parte do caminho, querendo contar logo para Ken sobre minha felicidade.

Cheguei em frente aos portões da escola no momento em que o sinal soou, e entrei na sala praticamente apostando corrida com o professor, que entrou menos de cinco segundos depois. Atirei-me na cadeira, com a respiração descompassada e o coração acelerado.

-Parabéns! Essa foi por pouco! – Ken se virou para mim com um olhar reprovador, mas um sorriso sincero nos lábios.

-Hehe....AAAAAHH!!! EU TENHO QUE TE CONTAR UMA COISA! – durante minha exagerada empolgação, falei alto, chamando atenção de todos os colegas e do professor.

-Tsukiyono-san... acho que você pode e DEVE contar, o que quer que seja, depois da aula, a não ser que queiram conversar lá fora.

-Ops... desculpe professor.... – Baixei os olhos, enquanto minha mente xingou-o de todos os palavrões e coisas ruins que conhecia na época.

-"timo... – Me fitou com um olhar arrogante, que me dá nojo até hoje... acho que foi uma das únicas pessoas que realmente não me agradaram em vida...Pois bem!

Deixando minhas divagações de lado e voltando a história...

Tive que agüentar três períodos longos e fatídicos de física, que me pareceram passar ainda mais devagar por causa de minha ansiedade e impaciência.

Finalmente, depois do que me pareceu uma eternidade, o sinal salvador, indicando a hora do recreio, soou. Saí correndo, puxando um Ken atordoado pelo pulso.

-Nossa! Que pressa! Que foi? – Ele perguntou assim que sentamos nos degraus da escada onde costumávamos passar os intervalos.

-É que eu preciso te contar uma coisa!!!!

-Fala... estou ouvindo...É por causa dessa "coisa" que você está tão empolgado?

-Dá pra perceber?

-Lógico que sim! Eu te conheço!

-Ok...é o seguinte... - me ajeitei, preparando-me p/ descarregar um turbilhão de palavras, mas...

-Você está apaixonado.

-O.O"""'

-Não você sabe?

-Hehehehe...você é tão transparente!

-Hum... – fiz um beiço manhoso – eu queria contar!

-Isso não vem ao caso ".... quem é a sortuda?

-Hã? Sortuda? – Pela primeira vez havia dado conta que eu REALMENTE estava namorando um homem! Imediatamente comecei a suar frio, com medo da reação dele... afinal, eu era Gay!!!!!

-Omi? Que foi? Você não ia me contar?

-E-eu ia te contar que estou apaixonado, mas não por QUEM estou!

-Hey! Não me venha com essa! Pode ir falando! – Um dedo acusador foi apontado contra meu nariz.

-Mas é que...

-Nada de "mas"!

-(...) – Minhas faces estavam quentes e, com certeza, completamente vermelhas

-Faaaaaaaaaaaaaala... – o dedo balançou em frente de meu rosto. Eu simplesmente não podia esconder isso dele! Agora não havia mais volta!

-Euestounamorandoohomemdoparque!

-O QUE? Mais devagar! Não entendi uma palavra do que você disse!

-Eu estou namorando ohomemdoparque!

-OMI! Calma! Não estou entendendo o fim!

-Eu-estou-namorando-o-homem-do-parque....

-Sério? Você tah namoran...PERAÍ! VOCÊ DISSE HOMEM?

-Si-sim... – Baixei a cabeça, esperando pelas críticas... elas estranhamente não vieram. Logo senti uma mão acariciando meus cabelos. Levantei o olhar.

-Nossa...Omi...caramba... eu definitivamente não esperava por essa! – Ele sorria, provavelmente ainda tentando se acostumar com a idéia.

-Ken...eu...

-Tudo bem, não precisa se explicar, se você está feliz assim, eu entendo. – o sorriso dele se alargou, me passando confiança. A ansiedade e o medo se foram de meu coração, e eu me senti leve. Nunca pensei que iria ser poupado de críticas e cinismos, mesmo por parte dele. "timo! Tinha que ser assim. Isso demonstrou o quanto ele era meu amigo.

-Mas...Omi... – Levantei a cabeça, esperando. – O que você vai dizer aos seus pais?

-Eu não pensei nisso...eles não precisam saber por enquanto! NÉÉÉ? – Olhei bem nos olhos dele, como se estivesse ameaçando-o...ele riu alto, mas no fundo sabia que aquela brincadeira tinha um pouco de verdade...

-Ok, Omi...eu não vou falar nada, não se preocupe. – Sua mão alcançou minha cabeça, deixando os fios loiros ainda mais despenteados.

-Hey!

-Tá bom, tá bom, eu paro...mas conta aí... – Nesta hora, Ken me deu uma ombrada leve, seus olhos cheios de malícia. – Quando você vai vê-lo de novo?

-Não sei, acho que hoje depois da aula... ele sempre está lá no parque... – Senti minhas bochechas quentes só de pensar naquela boca contra a minha.

-Ok! Então eu vou com você!

-QQUÊÊ?

-Eu-vou-com-você-! – ele falou com algumas pausas longas, querendo deixar bem clara sua idéia maluca.

-Não! Você não vai! Eu quero ficar sozinho com ele!

-Ah! Eu vou sim! Onde já se viu? Que tipo de amigo seria eu se não quisesse avaliar seus namorados, hein? Hein? – Colocou as mãos na cintura, querendo parecer imponente.

-Mas...

-Sem "mas"! – Um dedo acusador fora apontado para meu nariz. – Eu vou e ponto final! Nem que fique escondido...só quero vê-lo!

-O-ok....O.O"""

O resto da aula passou rápido, apesar de minha ansiedade para ver Aya...Queria mostrar para Ken o quanto eu estava certo em iniciar um relacionamento com ele...Bom...fazia pouco tempo, mas eu tinha certeza que era uma boa idéia. Então porque não confiar nos meus instintos? -Vamos Omi! Vamos! Senão ele não vai esperar por você!

-Tô indo! Tô indo! E ele vai esperar sim! Ele está sempre lá quando eu volto da escola! Bem...eu estava errado...Aquele dia ele não estava...Olhei desolado para os lados, procurando por qualquer sinal do meu amado ruivo...Nada...Nem uma pista...Nem um sinal...Nada...

-E aí, Omi? Cadê ele?

-Eu...eu...eu não sei, devia estar aqui! – Pensamentos horríveis começaram a encher minha mente...e se aquilo tudo, todas as palavras carinhosas tivessem sido somente brincadeira?...e se ele não me quisesse de verdade?...E se eu estivesse apaixonado por um canalha qualquer?...NÃO! Não! Não! Não! Ele gostava de mim! Eu sabia! Eu sentia!

-Omi! Omi...Não chore...Deve ter ocorrido algum imprevisto...-senti os braços confortantes de Ken ao meu redor...

-Huh? – Nem havia percebido que lágrimas quentes começaram a descer pela minha face. – É Ken...você deve estar certo...e talvez ele ainda venha....Vamos esperar...

-Vamos pra dentro da sua casa, Omi...Olharemos da janela, Ok? Já está ficando escuro e parece que vai chover de novo...

-Ok...Ok... De longe, protegido pelas sombras, um grande par de olhos raivosos espreitava os amigos...reconhecendo o inimigo, ou talvez....esperando o momento certo para atacar....

Continua...