Narrado por: Aya
Fiquei furioso ao ver o sangue escorrendo das faces de meu amado, sua pureza profanada por Vittorio de um jeito violento, inverdades gritadas aos ouvidos anestesiados pela dor...Nem percebi quando saí debaixo da cama, colocando todas as forças de meus músculos no tapa que estalou o rosto branco do garoto vampiro. Tenho certeza que se não fosse pela condição de imortalidade que eu havia lhe concedido, sua cabeça voaria, bateria na parede, quebrando o crânio no processo, e cairia no chão, um baque surdo que eu esqueceria com o tempo.Ele gritou, cachos negros como a noite se deslocando rapidamente e tapando seu rosto. Elevou uma mão pálida até o ponto abusado que latejava em sua bochecha, me olhando com olhos arregalados...Tenho certeza que o fez, apesar de minha atenção estar naquele momento focada unicamente no meu menino, jogado no chão e sangrando como se realmente não passasse de comida.Sei que meu olhar suavizou-se nesse momento...Ele mesmo me disse depois sobre a fúria se esvaindo de repente e ternura se alojando em minhas íris ametista...Não lembro muito bem o que se seguiu, só tenho certeza que Vittorio deixou o quarto e eu carreguei Omi até a cama macia, que ainda mantinha vestígios da nossa paixão...Não sabia o que faria quando ele acordasse, afinal, fora espancado na casa do namorado, uma pessoa em que ele confiava plenamente.Meu cérebro funcionava a mil naquele momento, um turbilhão de emoções me varrendo e me deixando ainda mais confuso sobre o que fazer...se meu coração batesse, tenho certeza que nessa hora estaria ainda mais rápido que minha massa cinzenta...Meu único pensamento era limpar aquele sangue que o manchava...a última coisa que eu queria ver no mundo era sua vida marcada por aquele líquido maldito. Eu não precisava de mais sangue manchando as minhas mãos, mas era assim que eu me sentia. Culpava-me por Vittorio...Eu devia ter cuidado melhor dessa criança...Sempre tão doce, mas tão terrivelmente mimada em vida que não perdera a mania de ter tudo em mãos nem duzentos anos depois de sua morte.Busquei algodão e um anti-séptico que eu tinha no banheiro...bom, a única serventia que aquelas coisas tinham para mim era limpar eventuais ferimentos de Athra...Ele era um gato valente, mas muito caseiro pra entrar em brigas. Ele tentava, mas sempre acabava sobre o balcão do banheiro com anti-séptico manchando seu pelo.Bem, mas voltando ao ponto, eu havia pegado o medicamento para limpar os cortes finos no rosto de Omi. E assim o fiz, sempre cuidando para passar também um pouco de minha saliva assim que o ferimento estivesse limpo. Era quase estranho ver o corte se fechar parcialmente em um humano, mas eu sabia que eu podia simplesmente fazer isso até mesmo no gato e os ferimentos se fechariam instantaneamente, assim como acontece comigo. Mas resolvi somente não deixar as marcas tão abertas, querendo vê-las cicatrizar logo...eu sabia que o loiro tinha consciência dos cortes, não era uma boa curá-lo totalmente...Além do mais, eu tinha inveja dele...Inveja de ouvir seu coração bater, inveja da cor de sua pele, do sangue pulsando sob ela e, é claro, inveja de sua impotência contra a morte.Tão perdido que estava em meus próprios pensamentos, tentando botá- los em ordem, que demorei alguns segundos para perceber dois grandes olhos abertos, refletindo a luz cândida das velas à nossa volta...Mas dúvida e medo eram tudo que se via nas íris azuis. Sua boca rosa moveu-se, eu sabia o que viria a seguir....
- Aya...? – Ele tentou capturar meus olhos com os seus, mas eu não tive coragem. Não queria encarar a realidade...Eu sabia que aquele dia chegaria...mas...não tão cedo...eu não estava pronto.
- Shhhhhhh...Vai ficar tudo bem...Tudo bem... – Ouvi minha voz ecoar, parecendo trêmula aos meus ouvidos. A verdade era que eu estava tremendo por dentro, cada órgão de meu corpo morto doendo ao encarar a dura realidade...Eu pensei que voltaria a ser solitário.
- Aya...por que....na janela....o que está acontecendo....? – Ele me tocou então, segurou minha mão a meio caminho de seu rosto, olhando-me direta e profundamente nos olhos. - O que aconteceu?...Eu quero a verdade...e quem era aquele cara?....Aya... - O medo aumentou quando ele sentou-se, sua face sempre tão feliz , dessa vez dura e séria....E eu não me movi um milímetro sequer, sem querer pôr em palavras toda a verdade suja e assustadora.
-Aya...por favor...Pare com isso. – uma mão tocou minha face, nesse momento mais fria do que nunca...eu não devia ter feito o que fiz então...se pudesse reviver, o faria diferente com certeza.
Ergui minhas próprias mãos absurdamente brancas, tomando a dele, quente, em minhas palmas...Olhei para ela, tão macia, tão...cheia de vida. Em minha cabeça, eu tinha certezas sobre a solidão obscura que me esperava, sobre as matanças e gargantas cruelmente devoradas. Eu viraria um animal se tudo acontecesse como minha mente dizia. Mas...eu simplesmente tinha que contar pra ele. Não poderia tentar inventar uma história trouxa sobre alergia aos raios do sol quando ele simplesmente poderia tropeçar em algum caixão por aí.
Pisquei algumas vezes, ainda acariciando sua mão e tentando tomar coragem....ele me respeitou, sabendo que o assunto era ainda mais sério do que lhe pareceu a princípio. Quando minha voz finalmente conseguiu deixar minha garganta, ela soava cansada e completamente vencida.
-Omi...antes de mais nada eu quero que você saiba que eu te amo... – Ele não fez nenhum movimento quanto a isso, disposto a ficar quieto até o fim da história – E...eu venho guardando um segredo de você, algo muito, muito sério...ainda mais sério do que você pode imaginar...e- Ele me interrompeu então, sua voz tão baixa e machucada quanto a minha:
- Você está me traindo com aquele homem?
- Deus, Omi, não! NÃO! – Segurei os ombros dele, tentando passar toda a certeza que era necessária...
-Então....? – Seu olhar foi pousar em seu próprio colo, mas ele não tirou sua mão de entre as minhas.
-Aquele é Vittorio...ele é...digamos que ele seja meu "enteado"... – Parei sua pergunta erguendo uma mão, pedindo para continuar. – Eu o criei a um filho...O problema é que ele não me vê como um pai...e...você não vai acreditar, mas isso é bem normal. – Parei seu protesto indignado novamente. – Omi...Isso é normal porque eu não sou um pai para ele...sou um mestre, alguém que ele tem q respeitar e aprende a amar mesmo que não seja amado de volta.
- O que você quer dizer? Do jeito que você fala ele parece seu escravo... – Deixei-o falar dessa vez.
- Ele não é meu escravo...mas me deve obediência por toda a sua existência. Todos nós temos mestres...Todos da minha espécie...E eu não sou diferente. O nome do meu mestre eh Yohji e- Fui interrompido novamente, sua mão escapulindo de entre as minhas e o corpo quente começando a se afastar.
-O que você está falando Aya? De onde você veio? Que história é essa? – Se meu coração batesse ele teria se apertado...
- Omi...eu...você quer mesmo saber de onde eu vim? Eu nasci em Tokyo mesmo, mas viajei todo o mundo e conheci Vittorio na França...isso em 1800... – Pronto, eu havia dito metade da verdade, mas ele não pareceu pegar de cara...abriu um sorrisinho nervoso, apertando os lençóis contra si:
-A-Aya, pare de brincar, isso foi há uns duzentos anos atrás... – Ele estava realmente começando a se assustar com toda essa conversa, sei que na época simplesmente não fazia sentido dentro daquela cabecinha loira.
- Eu sei... – Baixei meu próprio olhar - E não estou mentindo...Nasci bem antes disso, já tinha eu mesmo mais de duzentos anos quando o conheci. Sentia necessidade de companhia e por isso o fiz juntar-se a mim nessa vida longa e atormentada... Omi...a verdade é que... – Eu o fitei então, olhinhos aguados e assustados, mãos presas aos lençóis como se deles dependesse sua vida...mas eu não podia mais esperar, era a hora...arregacei os lábios quase maldosamente, mas não podia evitar o jeito sinistro com que isso acontecia sempre que tinha q fazer minhas presas ficarem mais a mostra. Como um animal furioso, uma cobra, até mesmo um barulho característico e animalesco deixou minha garganta...e então senti meus dentes tomando forma, ficando mais afiados e pontudos...não só os caninos, como todos da frente, apesar de mais sutilmente, prontos para furarem a carne tenra do primeiro desavisado...
Quando reabri os olhos, o instinto sádico de minha besta liberta quase tomou conta, indo fazer-me procurar alvo vivo e pulsante para morder, decepar, arrancar e sugar o líquido quente q escorreria até a ultima gota. Mas o travei assim que olhei para Omi. O menino, meu menino, estava assustado, muito assustado. Era claro em seus olhos molhados o pavor...eu ouvia os gritos presos em sua garganta, o pedido por socorro...
- Omi, por favor, não se apavore, eu não posso evitar, eu... – estendi uma mão para tocá-lo, mas fui violentamente repelido enquanto ele se apertava ainda mais contra a cabeceira da cama, como se querendo entrar nela.
-Não me toque! Não me toque! -Omi... – retraí meus dentes, pensando que a face humana talvez merecesse mais confiança, pensando que ele me ouviria...mesmo assim: -NÃO! Não fale comigo! Seu monstro...seu...seu.... – Ele começou a chorar compulsivamente nesse ponto, apertando-se cada vez mais contra si mesmo... – Você...você não é humano... – Quase não era possível entendê-lo entre os soluços...mas ele levantou a cabeça, fitando-me nos olhos. – Aya...o que você é....?
- Eu... – Nossa! essa foi a época de minha pós-vida que eu mais me odiei... – Eu sou...um vampiro.
Eu vi sua face torcer-se em horror, seu rosto afundando-se em suas mãos enquanto o choro ficava mais forte...
-O que você quer comigo? Você me usou! Você... – Ele me fitou nos olhos... – Você se alimenta de gente, não é? – Tenho certeza que ele estava tentando lembrar-se dos contos de vampiro que havia lido pelo modo como seus olhos se viraram para a direita. – Você...pretendia se alimentar de mim, não é? De todas as formas...e...agora que você conseguiu a primeira, você ia realmente me morder, não estou certo?
Senti vontade de sacudi-lo novamente....
- NÃO! OMI! Eu te amo, nunca menti sobre isso, eu nunca te morderia! nunca faria mal nenhum a você! – Estendi minhas mãos, tentando tocá-lo...era definitivamente ora de uma sacudidela. Mas meus dedos nunca chegaram a ele. Omi levantou-se rápido, fugindo de mim, me olhando com desgosto.
-Não me toque! Nunca mais me toque! –procurou em volta, catando suas roupas do chão e vestindo-as sem nunca tirar o olho de minha forma perplexa que estava sentada na cama – Nunca, entendeu? Melhor, nunca mais me olhe! Por que eu acreditaria em você, que já me mentiu uma vez?... – Ele começou a falar mais baixo, um pouco mais q um sussurro... – Me deixe ir embora se você me ama como diz...e nunca mais me procure...nunca mais apareça no parque em frente a minha casa... – Ele virou-se de costas para mim, quase um voto de confiança quando se tem um vampiro em casa... – Somos muito diferentes,não posso agüentar o medo pelo meu próprio pescoço e saber que meu namorado anda triturando gargantas por aí...acabou...adeus...
E com essas palavras ele saiu correndo, deixando-me pra trás atordoado...eu sabia que ia acontecer, mas não pude evitar de ficar triste com o fato. Lágrimas de sangue escorriam pelo meu rosto quando fechei a porta do meu quarto para ter um pouco de privacidade em minha miséria...de perto da janela. ouvi o portão velho e descascado se abrindo...e, dois segundos depois ele fechou-se, deixando ir embora o meu único amor...o amor que eu pensei que eu nunca poderia recuperar....
CONTINUA....
as pessoas olham p/ a esquerda quando estão inventando algo e para a direita quando estão se lembrando....eh uma boa pra pegar mentirosos quando vc percebe q a pessoa estah pensando D
COMENTEEEEM...ou fiquem curiosos u.u sem comentários, sem capítulos novos, deal?
