Capítulo 6:
Date.
Era final de tarde e não tendo muita coisa para fazer, Naru resolveu fazer uma caminhada num dos parques da área central de Los Angeles. A jovem ruiva já estava começando a se recuperar do período depressivo em que esteve após a morte de Keitarô. Após o encontro providencial com Count D e ter ficado com "Kei-Kun", os remédios saíram da sua cabeceira, voltando para a caixinha e ela já conseguia passar a semana sem pensar em tomar um drinque. Naru também passou a cuidar mais de si mesma, mantendo o bom humor e melhorando o seu aspecto visual, numa prova de que o exterior também acompanhava o que se passava dentro de sua alma. Embora a sua vida agitada não encorajasse quaisquer traços de sedentarismo, a jovem viúva não pretendia perder a sua forma. Sempre que podia, arranjava um tempo para dar uma caminhada, andando de uma hora a uma hora e meia.. Quando seu falecido marido estava vivo, era ele quem a acompanhava nestes exercícios. Agora, ela até que tinha vontade de levar "Kei-Kun" para passear, mas morria de medo de transgredir as cláusulas do contato que Count D firmara com ela.
"- Antes, um aviso: Se porventura você falhar em cumprir estes termos, a loja não será legalmente responsável por qualquer problema que vier a ocorrer..." - Naru Urashima ainda se recordava do tom sério e do olhar algo melancólico do nobre chinês ao lhe fazer esta advertência, embora não entendesse direito o motivo que havia por trás das cláusulas.
Ela somente podia imaginar o motivo da primeira, que dizia que somente ela mesma podia cuidar do unicórnio, isto é, de Kei-Kun. Como era um espécime raro e altamente sensível e impressionável, Naru temia que o animal acabasse se apaixonando por qualquer outra pessoa que o tratasse bem, sentindo ciúmes só de pensar nisto. Não, nunca alguém jamais iria ver, tocar ou dirigir a palavra ao seu amado Kei-Kun. Ele seria somente dela e nunca mais! Pela primeira vez, Naru sentia que tinha o amor de alguém somente para si. Não era como o amor de sua mãe, que se foi quando ela era uma garotinha - do qual ela não se lembrava direito - e nem como o amor dividido do seu pai - que acabou conhecendo outra jovem que iria ser a mãe de sua meia-irmã Mei. E muito menos o amor de seu marido, que era obrigado a dar atenção a todas as garotas da Pensão: A sempre sorridente Mutsumi, a tímida Shinobu, a malandramente esperta Kitsune, a recatada Motoko, a exuberante Kaolla e mesmo a temperamental Sarah e a possessiva Kanako. Sim. Ele o amava mais do que todas as outras, só que tinha que dividir o seu escasso tempo tratando bem elas. Embora ela gostasse muito de suas amigas e de sua cunhada, Naru sentia uma pontada de possessividade com relação ao seu amado. Ela achava que de todas, era a que tinha mais direito a ser feliz com alguém, porque sempre sofrera com a dor das perdas - a de sua mãe, a sua, quando descobriu que seu pai tinha outra família - e sabia o quanto era terrível o medo de ficar sozinha. Embora soubesse que era muito bonita e cobiçada, um de seus maiores temores era o de casar com alguém que não a compreendesse. Riqueza, fama ou posição social pouco importavam para ela, embora tivesse expectativas e gostos muito exigentes. Antes de tudo, este parceiro ideal tinha que ser compreensivo. Naru encontrou primeiro este lado na figura do seu ex-tutor Noriyasu Seta. Porém, o seu sentimento ficou meio que bloqueado quando ele saiu de sua vida para estudar no exterior. Mal a jovem ruiva sabia que ele tinha outras duas paixões: Haruka, a filha da Vovó Hinata e a loira Cindy Mac Dougall, mãe da Sarah, mas inconscientemente, sabia que era areia demais para o seu pobre caminhão. Keitarô era diferente. Apesar dele ter alguns costumes e várias pequenas manias que a irritavam, ele nunca exigiu nada dela, aceitando-a como era. Só que da mesma forma que ele conseguiu conquistar o seu coração, ele acabou conquistando o coração de todas as suas amigas. Inclusive a sua primeira coleguinha de infância e a sua melhor amiga. E, enquanto ele estivesse vivo, Naru sabia intimamente que por maior que fosse a distância física, ela teria que conviver com este fato, sabendo que outras garotas o desejavam, como amigo e como namorado. De repente, o seu devaneio foi bruscamente interrompido. Ela sente alguém pôr a mão no ombro direito. Naru se arrepia toda e por um instante ela imagina coisas:
- Ei, por que não vai meter a mão na... Meu Deus! É você, Biff?
- Ora, minha linda Naru, não reconhece mais o seu colega de
classe? - Responde um rapaz na faixa de 24 anos de idade, de estatura
média para alta, forte, cabelos negros e um sorriso maroto. No
momento, ele trajava uma camiseta pólo de cor azul-clara, uma bermuda
de cor escura, meias brancas e um tênis Nike do tipo especial para
caminhadas.
"Biff" Stanley Jr. era estudante da mesma classe de pós-graduação da Naru na UCLA. Filho de prósperos empresários de Boston, ele era jovem, rico, bonito e inteligente. Diferentemente de outros alunos da Universidade - que eram obrigados a repartir dormitórios apertados ou viver em quitinetes - Biff morava numa agradável cobertura Duplex num bairro de classe alta e ia todos os dias à UCLA assistir às aulas dirigindo o seu Porsche conversível. O jovem Biff era conhecido por promover festas badaladas em seu apartamento, com comidas e bebidas finas, reunindo moças lindíssimas e rapazes que pareciam existir somente naqueles filmes de Hollywood. Contudo, por trás deste verniz brilhante, Biff escondia segredos escandalosos. Ainda quando ele era menor de idade, o filho de milionários acabou engravidando uma menina um ano mais velha do que ele, e seus pais tiveram vários problemas em abafar o escândalo. Após ter tido um caso rumoroso com uma linda e jovem professora do colégio aonde estudava, aos 17 anos, Biff foi mandado para a Califórnia estudar. Só que longe disto ser um problema, foi como que uma bênção para ele. Sem o olhar da conservadora sociedade bostoniana e da vigilância de seus pais, o playboy encontrou na Cidade dos Anjos o lugar ideal para dar vazão aos seus instintos. Freqüentemente ele usava o dinheiro que os seus pais mandavam para custear os estudos para gastá-lo com acompanhantes de luxo e festas de arromba em seu apartamento, regadas a uísque e cocaína. E alguns rumores não confirmados diziam que ele era bissexual. . Quando Naru foi estudar no mesmo curso de pós-graduação que ele, Biff decidiu que mais cedo ou mais tarde ela seria a próxima vítima de sua interminável lista de conquistas. Só que a ruiva parecia ser invulnerável às suas táticas, por ser desligada demais para sutilezas. Depois, o fato de Naru não freqüentar as festinhas de confraternização e as churrascadas da turma limitava as oportunidades de Biff assediá-la. Enquanto uma chance melhor não vinha, o filhinho de papai contentava-se em abordar outras garotas da faculdade e qualquer mulher que fosse minimamente compatível com o seu exigente padrão de beleza. Mas parecia que o destino havia sorrido para ele. Justo a encontrara quando ele estava fazendo o seu Cooper diário. E bem num momento em que havia relativamente pouca gente no parque e o que era melhor, nenhum conhecido da faculdade. Hora de atacar.
- Biff, ai, que susto!... O que você está fazendo aqui? -
Pergunta Naru, toda confusa.
- Ei, gatinha... Esta roupa combina com você... - Biff dá uma
cantada com a maior cara de sem-vergonha do mundo.
- Hã? - A jovem ruiva não entende direito a malícia da frase, bem
batida por sinal.
- Quase tanto como eu... - O filhinho de papai completa a cantada,
sussurando no ouvido da moça.
- Biff! Você está me deixando com vergonha!... - Naru estava
confusa porque nunca ninguém havia a tratado daquele jeito.
- Sabe que você fica bem bonita com as faces coradas? - Sem se
alterar, Biff continua com a sua ofensiva.
- Puxa, obrigado... - Responde Naru Urashima com um tom educado,
embora ela no fundo estivesse constrangida.
- Que tal andarmos um pouco? - Propõe o rapaz de cabelos negros
como se convidasse Naru a dar algumas voltas ao redor do parque.
- Aonde? - Ela se faz de desentendida.
- Ao caminho do seu coração... - Responde Biff na lata, enquanto
articula outro esquema safado em sua mente.
- Ai, Biff, você é bem engraçado, mas.. - A ruiva sorri meio sem
graça. .
- Mas... - Biff olha bem nos olhos de sua presa, ou melhor, de
Naru.
- Sou casada... E... - Naru abaixa o seu rosto, de pura vergonha.
- Mas não vejo a aliança em sua mão. - Espertamente Biff já havia
notado este detalhe dias antes. E mesmo que a ruiva tivesse a preciosa
aliança, nada impediria o de ter uma noite de puro prazer com ela.
Neste momento, Biff malandramente segura na mão de Naru, que fica assustada demais para reagir. Ele examina a mão macia e brinca com os dedos longos da ruiva.
- Quer ganhar uma aliança de mim? - Propõe o filhinho de papai,
sorrindo com uma certa malícia.
- Biff, seu bobo, eu já disse que... - Naru não sabe direito o que
fazer. Estava acostumada a lidar com amadores como o seu ex-marido e
os antigos colegas deste, Haitani e Shirai, mas não era páreo para um
mestre da boemia como Biff.
- Que pena, o brilho que reluz dos seus olhos me cegou a ponto de
não ver mais nada... A não ser a estrada que leva a ti.
Malandro consumado, Biff aproveita a chance e beija Naru na boca, de forma lasciva. A jovem estudante fica espantada e zangada, mas ela sente suas forças faltarem. O fato era que o seu Naru-Punch somente funcionava contra "sukebes" de baixa estirpe. Mas não para um degenerado completo do calibre de Biff Stanley Jr. Aproveitando-se daquele momento de fraqueza de sua presa, o predador humano metodicamente ataca-a, explorando com suas mãos cobiçosas o pescoço, os ombros, as costas e a coxas da pobre Naru. As pouquíssimas pessoas que passeavam pelo parque naquela hora nada fazem, cada um ficando na sua. Para muitos, tratava-se de um casal de namorados qualquer. Com muita dificuldade, ela consegue desvencilhar-se das carícias do mulherengo. Um arrepio corre sua espinha e ela fica imediatamente arrependida do seu ato impensado.
- Já chega, Biff... Eu tenho que voltar para a casa. - Responde
Naru sem ter coragem de olhar para o rosto de seu colega de curso. Ela
estava prestes a chorar.
- Ora, mas ainda é cedo, cara Naru. Que tal a gente dar mais uma
volta no parque? - Era evidente de que o sem-vergonha queria mais,
muito mais.
- É que... tenho ainda umas coisas para estudar. - Naru pensa na
primeira desculpa idiota do seu limitado repertório social para lidar
com situações deste tipo.
- Minha pequena Naru, sempre com os seus livros... Não gostaria de
conhecer as coisas boas da vida?... A gente pode passear e depois te
levo para jantar num Shopping em Beverly Hills... - Diz ele sorrindo
e se aproximando perigosamente do corpo da jovem viúva.
- Biff... por favor, eu estou falando sério... - Naru fala num tom
quase implorando. De fato, aquele não era o dia para um Naru-Punch. O
fato dela estar com mais idade, ter se casado e a recente perda de seu
marido haviam retirado boa parte de sua antiga agressividade.
- A vida existe para ser desfrutada do que tem de bom e do
melhor!... Podemos curtir a noite, dormirmos juntos e amanhã irmos à
praia de Malibu... - Biff se aproxima mais e começa a passar a mão nas
costas e nas coxas de Naru.
- Não... por favor... - As lágrimas começam a sair do seu rosto, o
que atiça mais o instinto animal do predador humano.
- Você não vai se arrepender, querida... - Biff abraça firmemente
a sua presa e começa a bolinar os seios de Naru, que fica totalmente
paralisada e com medo.
- Biff... não!
- Terá uma noite inesquecível. - A sua mão direita desce de forma
insinuante, arrepiando toda a coluna vertebral da moça, até chegar
nas nádegas.
- Não, não quero... Solte-me!.... - Finalmente Naru reage, só que
o tapa sai mais fraco do que o desejado e apenas serve para excitar
mais o instinto de macho do seu colega.
- Agora é tarde... Você me acendeu um fogo que somente os seus
beijos e carícias irão me aplacar. - Biff sorri maliciosamente e,
segurando firmemente Narusegawa, tenta beija-la à força.
- Não!... - Naru tenta escapar, mas sente que Biff é muito forte.
Ela começa a chorar como uma criança indefesa. A visão das lágrimas
cristalinas saindo de seus lindos olhos é um deleite para o mulherengo
estudante.
Ganhando coragem, Biff tenta enfiar uma de suas mãos por debaixo da minissaia da Naru para arrancar a sua calcinha. Naru imagina ser impossível o que estava acontecendo com ela. Todos os traumas de sua vida vieram à tona, impedindo-a de dar um belo soco nas fuças do safado... . Quando estava quase certo de que levaria a pobre Naru para a cama de um motel, Biff Stanley Jr. Sente alguém agarrando fortemente o seu braço, impedindo-o de continuar com suas safadezas.
- Hã, o que você quer, babaca? - Ele se vira para o desconhecido
que lhe tocara, com uma expressão de raiva e desprezo, esquecendo-se
momentaneamente de sua etiqueta e origem rica.
- Você ouviu a moça. Solte-a ou vai se ver comigo! - Responde o
desconhecido trajando uma camiseta estampada com o personagem Lenny do
seriado South Park, uma calça de educação física, um par de meias azul-
escuras e tênis branco meio encardido, comprado numa loja de
departamentos..
- Leon! - Sussurra Naru entre lágrimas ao reconhecer o seu
salvador.
Para a sorte de Naru, era dia de folga do genioso oficial do LAPD. E ele estava justamente correndo naquele momento no parque quando viu o assédio do Biff sobre a sua já conhecida Naru. Para a sorte da jovem professora, ainda ele se recordava dela.
- Ah, é? E quem você pensa que é, seu herói de araque? Pois saiba
que tenho muita grana e meus pais... - Começa a falar o playboy
bostoniano, com uma entonação arrogante em sua voz., sem saber a
identidade de seu oponente.
- Sabe ler isto? - Leon não se deixa intimidar e imediatamente
saca a sua carteira de identificação e esfrega-o no rosto de Biff.
- Ah, então você é um tira? Mas eu não estava fazendo nada demais!
Foi ela que queria dar... - Biff parece não se intimidar com as
credenciais de Leon e mantém o seu olhar desafiador.
- É mentira! Ele... Ele é um tarado! - Finalmente Naru solta a sua
voz, descarregando a sua raiva.
- Mas, Naru? Mas você não queria ir para o motel junto comigo? -
Biff muda imediatamente de tática e cinicamente insinua como se ele
fosse namorado ou chegado dela!
- Não! Você é um sujo! Pervertido! Safado! Vá embora! Nunca mais
quero ver a sua cara imunda! - Com a presença de Leon, Naru Urashima
parece voltar a ser a Naru Narusegawa de sempre, dando três tapas bem
dados nas fuças do playboy.
- Ei Guri, pegue o seu traseiro e vá circulando antes que te
prenda por atentado violento ao pudor em local público e assédio
sexual. - Responde secamente Leon, afastando Biff antes que ele
pensasse em reagir contra os tapas de Naru.
- Vá à merda, tira!
Sem pensar nas conseqüências, Biff dá um giro súbito e tenta acertar um soco no rosto de Leon enquanto tenta aplicar o que aprendeu em suas aulas de karatê Shotokan nas horas vagas. Naru dá um grito de puro susto ao ver a cena de violência. Só que o playboy não sabe que o agente de polícia era bem mais treinado e preparado do que ele. Esquivando-se habilmente de um soco endereçado ao seu queixo, Leon contra-ataca e acerta três jabs rápidos no estõmago de Biff, que geme de dor. Ainda atordoado, nosso playboy tenta acertar um rápido pontapé na virilha de Leon, mas o policial aproveita o golpe para segurar o pé de Biff e derrubá-lo no chão. Ao todo, a ação durou menos do que cinco segundos.
- Seu tira podre! Você vai ver só! Eu contratar os melhores
advogados para te processar! Ninguém se mete com os Stanley de
Boston! E ainda vou comer a sua namoradinha! - Grita quase chorando, o
humilhado e derrotado filhinho de papai, antes de fugir do local, aos
tropeços e sem olhar para trás.
- Até mais, palhaço. - Diz secamente Leon sem se alterar.
- Oh! Foi horrível! Por favor, oficial, me leve longe deste
lugar! Não quero ver a cara daquele sujeito nunca mais! Eu... - Naru
se aproxima, abraçando Leon, quase aos prantos, extravasando o medo
que sentira quando estava sozinha.
- Está tudo bem senhorita, você está entre amigos.
Ajudando a pobre Naru em estado de choque, Leon Orcot leva-a até a saída do parque, no estacionamento do local. Naru chegou até a pensar em pegar um táxi e ir embora para casa, mas estava simplesmente à beira do pânico e não queria ficar sozinha. Quanto a pegar um coletivo lotado, nem pensar, ainda mais depois do ocorrido.
- Por favor, Leon, pode me acompanhar? É que... Estou com medo...
- Pergunta ela com a voz tímida.
- Quer que eu te leve ao seu apartamento?
- Não... Pode ser... Qualquer lugar... Preciso me recompor, Não
quero ficar sozinha.... - Implora a ruiva para o seu insuspeito
salvador.
Embora fosse contra o seu código de ética policial, ficava difícil negar um pedido de ajuda. Ainda bem que Leon estava à paisana e em seu dia de folga. Ele pede para Naru aguardar e em menos de um minuto traz o seu carro, um modelo japonês conversível de cor amarelo-claro. Após os dois terem montado e colocado os cintos de segurança, ambos saem do fatídico parque. Leon dirigia pelo caótico trânsito das ruas de Los Angeles como se conhecesse cada avenida e cada rua na palma de sua mão, apertando a esmo os botões de rádio/CD player para sintonizar em qualquer estação de rádio. No momento, ele tinha colocado o seu boné e os óculos escuros para dirigir. A sua pistola Beretta 92 estava no porta-luvas do veículo, pronta para uma eventual emergência junto com um pente extra totalmente carregado. Também no porta-luvas, estava uma arma de reserva, um revólver Smith & Wesson calibre 38 com cano curto. Naru tentava checar a sua maquilagem nervosamente no espelho. Ela estava usando também óculos escuros para que Leon não notasse a sua cara de choro. Ela sentia naquele momento medo, raiva e humilhação. E estava até arrependida de muitas vezes ter socado e chamado Keitarô de tarado no passado. E constatara da pior forma possível que ele não era tão pervertido assim. Agora, diante de um autêntico safado como Biff ela ficou paralisada e sem saber o que fazer. Se Leon não tivesse agido naquele momento, à esta hora ela estaria à mercê do pervertido.
Uma hora mais tarde, após terem andado em vários bairros de Los Angeles, para ajudar acalmar a ruiva, Leon e Naru decidem tomar um lanche num fast- food. Até para um cara meio tosco e grossão como Orcot concordava que a uma moça tão fina, inteligente e elegante como a Naru merecia coisa melhor. Só que ele nunca chegou a ter alguma namorada séria e fazia tempo que ele não estava por dentro dos locais da moda em sua própria cidade. Os poucos que ele conhecia eram inacessíveis ao seu poder aquisitivo. Ele jamais iria gastar uns cem dólares ou mais para comer e passar fome num restaurante de Beverly Hills, como costumava dizer. Embora Naru não estivesse com fome - devido o desastroso incidente no parque - ela tentava mastigar um X-salada com batatas fritas e beber um copo de suco de laranja meio aguado. Leon mastigava sem muita etiqueta um sanduíche de churrasquinho "à gaúcha" - embora de gaúcho o singular prato tivesse só o nome - com molho barbeque e bebia goles de um copo de Pepsi bem geladíssima. Ele estava pensando em falar qualquer coisa para quebrar o gelo, mas era evidente de que o policial não fazia o tipo galante, apesar de ser alto, forte e bonito - mesmo para os padrões de Naru. Embora tivesse mais ou menos a mesma idade do ex-tutor da Naru, o Professor Seta, Leon perecia ser mais jovem, com sua típica cara de rebelde sem causa. As suas roupas do dia a dia reforçavam esta aparência: Gostava de usar bonés de times de baseball, T-Shirts coloridas com estampas, jaquetas jeans sem mangas ou com mangas rasgadas, calças jeans sem grife e uma variedade de tênis comprados em liquidações. Quando ele era obrigado a se apresentar de maneira mais formal, usava um blazer largo e confortável, camisa esporte, calças compradas em lojas de departamentos e sapatos informais. Freqüentemente a cor das suas meias não combinavam com suas calças e o sapato. Leon odiava usar gravatas e apenas usava seu uniforme policial quando absolutamente necessário. A sua sorte era que por integrar a Divisão de Homicídios e investigar freqüentemente o submundo do crime, ele podia ficar à paisana, estando mais bem a vontade. Mas para a surpresa dele, é Naru que toma a iniciativa:
- Mais uma vez, muito obrigado por me salvar, senhor Leon... Eu
nunca podia imaginar que o Biff fosse capaz de... - Naru aproveita
para não apenas agradecer ao seu salvador como também conhecê-lo.
- Desencana, garota. Está tudo bem agora. Esqueça aquele babaca.
- Leon fita Naru com os seus penetrantes olhos azuis.
- Diga me uma coisa, por que escolheu a carreira de policial? Não
é algo perigoso?
- Bem, como poderia dizer, senhorita... - Leon tenta forçar sua
memória para lembrar o nome da ruiva.
- Naru. Naru Urashima.
- Minha história é a seguinte: nasci numa família grande, mas os
meus pais não tinham recursos para custear um colégio decente ou uma
faculdade... Desde cedo tive que trabalhar e quando atingi a
maioridade entrei para a Academia de Polícia... Como vê, nada digno de
figurar no "Esta é a Minha Vida". - Responde Leon um pouco
decepcionado com a sua autobiografia.
- Entendo... - Medita Naru lembrando-se de quando era mais jovem e
sonhava com uma pessoa que preenchesse os seus padrões elevadíssimos e
exigentes. Contudo, depois que ela casou-se com Keitarô, havia
começado a aprender que alta inteligência e um diploma numa
universidade famosa não era tudo.
- E você, pensa em seguir que carreira? - Um pouco mais relaxado,
o policial decide puxar conversa com a Naru, nem que fosse para ajudar
ela a sair daquele estado em que ficara.
- Bem... Formei-me em na Universidade de Tóquio e vim para cá
após o meu casamento para fazer um mestrado em Direito Internacional.
Enquanto isto, eu vou ganhando a vida lecionando como professora, num
colégio próximo ao lugar aonde moro. - Responde Naru, mais tranqüila.
- Putz... Você veio do Japão para vir parar neste fim de mundo?
Eu pensei que fosse daqui... Você fala muito bem, sem sotaque. - De
fato, o inglês de Naru havia se aprimorado bem depois dela ter
freqüentado um curso avançado pouco antes de se formar na Toudai.
- Puxa, obrigada. - Ela sorri, um pouco sem graça. .
- E você pensa em trabalhar num escritório de advocacia ou prestar
algum concurso público? - Leon pergunta, curioso.
- Bem, no momento penso em lecionar numa faculdade razoável caso
me forme... Não sei se me daria bem como advogada ou promotora... - De
fato, Naru tinha mais aptidão para ensinar os mais jovens e até
possuía uma didática boa.
- Acho que dá sim, você é bem inteligente... Não é que nem eu, que
já fui entregador de pizzas, office-boy e auxiliar de mercearia... -
Responde o loiro, achando que estava levando o maior fora de sua vida.
De fato, o seu resumo biográfico não encorajava nenhuma "patricinha" a
se aproximar dele.
- Senhor Leon, você gosta do que faz? - Indaga a ruiva, imaginando
quais os motivos que levaram o rapaz à sua frente decidir entrar numa
academia de polícia e exercer uma profissão arriscada.
- Sim, claro. Apesar dos riscos, eu não consigo me ver fazendo
outra coisa. - A voz de Leon sai desta vez convicta e sem receios.
- Eu... também gosto do que faço...- Responde Naru. Embora ela
gostasse do que fazia, ainda não tinha definido o seu futuro.
- Você pretende morar aqui assim que terminar o seu curso? - Leon
começa a "dar bandeira", mostrando certo interesse pela moça.
- Olha... ainda não sei. Cheguei a pensar em voltar para o Japão,
mas estou me acostumando por aqui... - A resposta de Naru é um tanto
quanto vaga. Somente depois que ela terminasse o curso iria decidir o
seu futuro.
- Como é a sua família? Você tem parentes por aqui?
- Bem... No Japão tenho o meu pai, minha irmã de criação e a mãe
dela... A minha mãe faleceu antes de completar três anos de idade...
Quase todos os meus parentes da parte de meus pais moram em Tóquio e
arredores. Alguns dos parentes da minha irmã de criação Mei moram no
Canadá, mas não sei aonde... - Os olhos de Naru parecem fitar o
infinito, em busca de lembranças do passado.
- Irmã de criação? Desculpe-me... - Leon não entendeu direito a
frase de sua interlocutora.
- Muito após mamãe ter falecido, papai acabou se casando com
outra... Mulher - Naru retifica a frase, com uma ponta de tristeza na
voz.
- Perdão... Acabei falando o que não devia... - Neste momento Leon
fez força para não soltar um palavrão amaldiçoando a sua gafe que
acabara de cometer.
- Não precisa se desculpar, senhor Leon. Já aconteceu... - Naru
toca com a mão direita o ombro de Leon, como se inconscientemente
estivesse procurando por apoio.
- Senhorita Naru... você é uma pessoa jovem, cheia de vida e
bastante inteligente... Tenho certeza que você vai dar a volta por
cima e se dar bem. - Leon detestava ser chamado de "senhor", pois não
se conformava em ter passado dos trinta.
- Puxa, obrigada... e o senhor, oficial...
- O Senhor está no céu. Chame-me de Leon, apenas. - Ele sorri. Se
fosse outra pessoa, talvez ele tivesse dado uma bronca.
- Tudo bem, Leon... Você me parece ser bem simpático, apesar das
dificuldades de sua profissão.. - Comenta a ruiva. .
- Como assim? Desculpe, não entendi...
- Eu pensava que todos os policiais americanos eram meio durões e
com aquele jeito... - De fato, a imagem que a japonesa tinha a
respeito dos tiras dos Estados Unidos estava moldada pelo que vira nos
filmes e seriados daquele país.
- Ah, sim, eu entendi. É, de fato, os filmes de Hollywood mostram
este lado... Bem, mas eu não sou nenhum Clint Eastwood ou Mel
Gibson... - Sorri Leon, se apressando a corrigir este estereótipo.
- Ah, mas em termos de beleza e simpatia, você não perde para
nenhum deles... - Elogia Naru, começando a reparar que o policial não
era de se jogar fora. Ela nunca chegou a se interessar por
estrangeiros, mas sempre tinha uma primeira vez.
- É mesmo, ah, ah... Quem me dera se as garotas me elogiassem
desta forma... - Sorri Leon imaginando o que Naru acharia se soubesse
que ele nunca conseguiu ficar com uma garota por mais de duas semanas.
- Leon, você tem alguém na sua vida? - Pergunta Naru, meio receosa
de Leon ter namorada ou algo a mais.
- Alguém? Deixe-me ver... O meu pai já é falecido, bem como mamãe.
Tenho três irmãs abaixo de mim e o caçula, o Cristopher... - Leon
responde, imaginando que ela tinha perguntado a respeito de sua
família.
- Não... eu quis me referir... a uma pessoa especial... - Corrige
a ruiva sorrindo para ele.
- Uma... Esposa ou namorada...? - Leon fica embaraçado ao imaginar
o significado do termo "especial".
- Isto. - Responde laconicamente a ruiva. Agora ficara tudo claro.
- Bem, não. Nunca levei muita sorte para namoros e depois que
comecei a trabalhar no LAPD, não consegui arranjar tempo para
pensar... - Coçando a cabeça, Leon fica embaraçado. Era a primeira vez
que uma pessoa quase que desconhecida para ele perguntava isto. E ele
nunca foi muito bom de pensar mais do que 5 minutos em seus
sentimentos.
- Talvez ainda não tenha aparecido a garota certa para você... -
Comenta em voz baixa e quase sussurrante a ruiva.
- Quem me dera, senhorita Urashima... - Suspira Leon, lembrando-se
finalmente do sobrenome de casada da Naru.
- Por favor, me chame de Naru... Sabe, você me lembra muito um
tutor que eu tive. - Os olhos de Naru ganham um novo ânimo e até sua
disposição muda para melhor.
- Tutor? - Leon pergunta, intrigado.
- O nome dele era Noriyasu Seta. Ele era estudante universitário e
me deu algumas aulas de reforço quando comecei a estudar para o
vestibular... E foi esta pessoa que deu uma força para o meu falecido
marido arrumar um emprego nos Estados Unidos... - Mesmo após passados
vários anos, Naru ainda admirava Seta-san, como o chamava. Pena que no
enterro de Keitarô, ela não tivera muito tempo para conversar com ele,
de tão abalada que estava.
- Como ele era?
- Bem... Ele é forte, bonito e tem um ar ao mesmo tempo
determinado e sonhador... como você... - Sorri Naru. De fato, Leon
tinha quase a mesma altura e o mesmo porte físico dele. O policial de
fato não tinha um olhar tão sonhador, mas como a ruiva estava
melhorando de disposição, fez esta "licença poética".
- Puxa, obrigado...
- Posso te fazer uma pergunta? - Naru começa a se animar mais,
esquecendo do trauma que passara. De fato, ela se sentia protegida
perto deste rapaz.
- Tudo bem, esteja à vontade.
- Quantos anos você tem, Leon? - Sorri a ruiva como se fosse uma
adolescente. Mas de fato ela estava curiosa, pois Leon aparentava ter
menos idade do que realmente tinha.
- Eh... Quantos anos você me daria, Naru? - O rosto do policial
ficou subitamente vermelho.
- Hummm... Acho que você deve ter uns vinte e sete para vinte e
oito anos... Mas com um jeitinho de no máximo vinte e quatro anos...
- Putzgrila! Quem me dera se tivesse esta idade!.. Estou com
trinta e três anos... - Leon fica assustado diante do que Naru acabou
de dizer. Ele era tão moleque assim?
- Trinta e três? Puxa... É quase da idade do professor Seta...
Você realmente parece ser bem mais jovem...
Leon e Naru conversam durante mais meia hora, mesmo após terem comido - ainda que forçadamente - o lanche. Embora a conversa tenha ficado mais animada e descontraída, os dois evitam falar muito de assuntos mais íntimos. Da parte de Leon, porque ele sabia que Naru tinha passado pelo trauma da morte do marido e do incidente do parque. E da parte da jovem viúva, por ser ainda a primeira vez que conversava com uma pessoa até então desconhecida para ela, ainda que sentisse protegida e segura com ele por perto. Contudo, Naru acabou se simpatizando com o jovem oficial de polícia. De certa maneira ele lembrava as mesmas qualidades que encontrara no seu ex- tutor Seta, embora Leon não tivesse aquele ar desligado e distraído que caracterizava o arqueólogo, mentor de seu falecido marido e atualmente casado com Haruka, a tia de Keitarô. Normalmente, ela nunca tomou a iniciativa de puxar a conversa com pessoas do sexo oposto, devido à sua personalidade e mesmo o seu relacionamento com Keitarô começou de forma insólita. Contudo, algo ou alguma coisa fez com que ela se abrisse com Leon e não apenas pelo fato dele tê-la salvado das safadezas de Biff. O policial loiro lhe inspirava confiança e proteção, da mesma forma que o seu antigo tutor. Além disto, ele era bonito, bem conservado e atraente fisicamente. Ironicamente, esta foi a conversa mais longa que Leon teve em sua desastrada vida amorosa. De temperamento estourado e com a língua meio solta, a maioria dos seus casos terminava tão rapidamente como começava. A única pessoa que ele conhecera que sabia lidar com suas manias era a secretária Jill, do Departamento de Polícia. Só que ela nunca deu muita corda para ele, mantendo um relacionamento amistoso, mas estritamente profissional. Talvez pelo fato de ter se sentido um pouco atraído pela beleza de Naru desde o primeiro encontro que tiveram ou simplesmente com medo de passar vergonha diante de uma moça linda e mais inteligente e culta do que ele, Leon até que se esforçou como pôde para não fazer feio. Quem o conhecesse e presenciasse aquela cena, diria que se tratava de outra pessoa, sem muito a ver com o policial esquentado que estava na linha de frente da investigação de homicídios que ocorriam na área central de Los Angeles.
Eram por volta das sete e meia da noite, quando o policial e a pós- graduanda de Direito saíram da lanchonete. Após uma curta e rápida passagem no posto de gasolina para reabastecer o carro, Leon e Naru deram mais algumas voltas, ao som de músicas retrô estilo anos 80 - tocadas numa emissora FM meio brega. A pedido da ruiva, Leon a levou para conhecer alguns bairros que ela nunca tinha tido oportunidade de conhecer por falta de tempo. Vários bairros da Cidade dos Anjos eram imensos e a cidade era grande demais para se andar de um ponto a outro sem usar um veículo qualquer. Após o falecimento do marido, a van que ele usava ficara na garagem, por ela não ter carteira de habilitação. O tom nostálgico das músicas e as próprias circunstâncias de tão insólito encontro fizeram despertar algo adormecido na mente inconsciente da jovem Naru. Um certo sentimento de solidão e de carência que parecia estar abafado na sua mente. Certo, a companhia de "Kei-Kun", o misterioso unicórnio adquirido na loja de animais de Count D, ela preenchera o vazio da morte do seu marido, superando a dor da perda e a depressão que ela sentia. Só que ainda assim, Naru era uma pessoa solitária e sem raízes. Longe de casa, de sua família e das suas amigas, ela ainda não se sentia à vontade em Los Angeles. E talvez em nenhuma outra cidade ou local do mundo, fosse grande ou pequena, humilde ou sofisticada. Nestes meses todos, ela não fizera amizade com ninguém, seja com os colegas de classe do seu curso - com os quais somente se reunia para estudar e fazerem trabalhos - ou seja com os outros professores do colégio secundário aonde lecionava... Ironicamente, a pessoa que estava ao seu lado - um até então anônimo "tira" que atendera a sua chamada 911 ao ver seu marido caído no chão naquela fatídica manhã - era a pessoa mais próxima dela na Cidade dos Anjos. Enquanto Leon prestava mais atenção nas barbeiragens dos carros que passavam pelas avenidas que compunham aquela grande cidade, Naru olhava para o seu rosto concentrado e impassível, totalmente embevecida por aquelas baladas românticas que já estiveram na moda há quase vinte anos atrás. Por um momento, ela fecha os seus olhos e deixa as letras daquelas músicas - que falavam de amores impossíveis, sentimentos, traições e dor - se misturarem aos recônditos cantos de seu coração. Sim, era preciso acordar para a vida, sair do confinamento ao qual ela havia inconscientemente imposto para si mesma e voltar a viver como nunca fizera antes... . Havia uma parte dela mesma que não conseguia compreender e muito menos aceitar. Aquela Naru eternamente carente e infeliz, que tinha acessos de ciúmes irracionais alternados com momentos de medo e incertezas. Ela chegou a lutar consigo mesma durante sua juventude e ainda depois do casamento, parecia que não tinha conseguido reunir os estilhaços de sua alma que perduravam mesmo após a morte de sua mãe, causados pelo medo permanente da solidão e de ficar sem amigos. Durante anos, ela sempre esperara que alguém sempre aparecesse na vida dela, como foram os casos de Mutsumi, Keitarô, Kitsune e das outras garotas da pensão. Só que a dura convivência numa cidade estranha para ela e a morte de seu marido ensinaram-lhe duras lições. O misterioso Count D dera-lhe uma nova chance de reconquistar o que havia sido perdido.. E cabia a ela reconstruir a sua vida a partir dos escombros... Totalmente dominada pelo clima daquelas circunstâncias misteriosas deste reencontro inesperado e pelas músicas que o rádio-CD do carro de Leon tocava - Naru, de forma tímida e quase envergonhada, deixa a sua mão esquerda, que estava livre, tocar na mão direita de Leon, que estava ocupada em trocar as marchas do conversível de origem japonesa, de cor "amarelo-pikachu" - como maldosamente foi apelidado o carro do policial pelos seus colegas de departamento, numa alusão à cor do carro e a invasão de animes japoneses nos canais de TV paga. Ela nunca havia feito algo parecido em sua vida. Mas, havia sempre uma primeira vez para tudo. E depois, ela tinha que se sentir confortada, protegida, amparada... Leon somente percebe o toque daquela mão ao mesmo tempo delicada e forte quando foi tarde demais. Ele ficou imediatamente ruborizado, só que se não gostou, pelo menos não se manifestou contra. Quem na realidade estava com o interior conflitando e lutando consigo mesmo naquela hora era ele e não ela. Era muita areia para o seu caminhãozinho. Em hipótese alguma, Leon chegou a pensar em segundas intenções... Embora achasse a ruiva bonita demais para a imagem que ele tinha das japonesas. O seu primeiro contato com a Naru foi nas piores circunstâncias possíveis e poderia ter sido qualquer um para atender aquele chamado "911". E ele nunca imaginou topar com a jovem de volta naquele dia em que o oficial detetive foi à Chinatown, na Loja de Count D, para falar do caso do milionário Ferris, misteriosamente assassinado. Contudo, nunca em sua vida, Leon chegou a guardar tanto tempo em sua mente a imagem de uma garota como Naru. Os seus namoricos anteriores sempre foram frustrantes e estava claro que jamais iria conseguir tirar uma casquinha que fosse da linda Jill, a secretária do seu chefe no Departamento. Certo quea garota de cabelos escuros encaracolados e de óculos era compreensiva, perspicaz e adorava conversar com ele, só que ela nunca foi de encorajá-lo para vôos mais ousados. E para piorar as coisas, o pouco tempo livre que Leon Orcot tinha à disposição, ele usava-o para conversar com Count D, seja tentando obter pistas para casos insolúveis que ocorriam por toda Los Angeles, ou para pedir conselhos a seus problemas pessoais. O relacionamento entre o rústico policial e aquela sofisticada misteriosa figura aristocrática era algo difícil de entender e rumores maliciosos começavam a surgir nos corredores do Departamento de Homicídios, dada a crescente freqüência das visitas a Chinatown. Embora o oficial investigador e o misterioso vendedor freqüentemente discutissem e discordassem em vários pontos de vista, ambos estavam ligados por laços difíceis de romper e que não eram compreensíveis pela simplória mente do policial. Seria karma? Seria destino?
Quando Leon se deu conta, já havia se passado quase uma hora e a jovem que estava a seu lado não havia pedido em nenhum momento para interromper o passeio e pedir para ser levada para casa. E para piorar, a cabeça da garota ruiva estava aninhada em seu ombro, estando ela bem à vontade.
- Naru... - Você quer que te leve ao seu apartamento? - Pergunta
acanhadíssimo Leon, com sua típica cara de tacho quando se vê falando
ou fazendo algo inconveniente...
- Hã, Leon, que horas são? - Naru estava começando a sonhar de
olhos abertos, de tão absorvida pelo clima romântico-retrô das
músicas.
- Já passou de 8 e meia da noite... - Leon olha preocupado para o
relógio do painel do automóvel e constata, decepcionado, que perdeu
mais uma vez o horário do seu seriado favorito.
- Puxa, era para ter passado na UCLA reunir-me com o meu
orientador de tese.... - Naru também constata que perdeu o horário
para mais um compromisso.
- Quer que eu te leve lá?
- Não, Não! Bem... deixa para lá. Depois do que aconteceu no
parque, eu não iria ter qualquer disposição... Se acontecer alguma
coisa, eu invento uma desculpa amanhã... - Responde um pouco
constrangida a ruiva.
- Bem, acho que ficar em casa assistindo TV é bem melhor do que
passear de carro com um cara como eu... Vou... - Leon comenta,
melancólico.
- Leon, por favor, não diga isto... Você é um rapaz até legal... -
Tenta elogiar Naru. E o que era pior para ele, o elogio era sincero.
- Assim você me deixa envaidecido... Senho.. quer dizer.. Naru. -
Leon quase engasga tentando evitar chamar sua jovem acompanhante de
senhorita, um formalismo que adquirira ainda nos tempos da Academia de
Polícia.
- Leon, posso te pedir um favor?- Olha, suplicante a jovem
professora.
- Tudo bem...
- A gente poderia parar num barzinho? - Totalmente dominada pelo
clima romântico, Naru resolve fazer algo que nunca tentara antes com
ninguém, mesmo com Keitarô.
- ???
Em alguns minutos, Leon e sua inusitada acompanhante se dirigem à um típico barzinho para jovens. O local estava animado e com muita gente bonita, a maioria, de classe média. Na realidade, Leon conhecia uma infinidade de bares e pubs, aos quais ia para obter informações em seu trabalho de investigador, só que eram aquele tipo de estabelecimento que nem em sonhos ele teria coragem de levar uma moça bonita e respeitável. Desta vez, Naru não quis parar num lugar apenas para se recompor do trauma que tivera com o assédio do desgraçado do Biff naquele final de tarde. Ela queria quebrar o gelo e conhecer um pouco melhor o rapaz loiro e alto que tinha sido o seu anjo da guarda do dia e que não era mais um total desconhecido para ela. Certo, ela estava com o coração um pouco apertado pelo fato de ter deixado Kei-kun esperando por ela. Tadinho... iria estar com aquela fome quando chegasse. Se bem que ele estava acostumado a esperá-la chegar tarde durante os dias de semana. E hoje ela iria voltar mais cedo, já que não passaria na UCLA. Os dois ficaram conversando durante mais de quarenta minutos: Ela falando um pouco de seu passado e de sua vida na época da Pensão Hinata e tentando conhecer um pouco mais de seu interlocutor. . Nas três primeiras latas de cerveja, Leon até que fez força para se manter discreto, mas a partir da quarta latinha, Naru começou a conhecê-lo como era na intimidade. Ela nem ficou apavorada ou escandalizada diante do jeito meio tosco dele e de certas gírias que ele usava, mas até ficou contente pelo fato de estar com um homem de verdade e não com um banana como aquele verme do Biff. No início, até que os dois se comportaram, mas a partir da quinta latinha de cerveja, pareciam mais dois namorados e não dois estranhos, conversando sobre intimidades e flertando. Os toques, os sorrisos e as passadas de mão no cabelo alheio se tornaram mais constantes. Para piorar, na "saideira", Naru tomou uma dose de "cuba- libre" - coisa que quase nunca fizera quando jovem - e Leon fez o mesmo com um uísque com soda duplo. Só que ao sair do bar, o oficial investigador do LAPD percebera a burrada que fizera. O investigador também se deixou levar pelo clima e havia entrado na onda da ruiva. Agora o remédio seria rezar para que nenhum guarda de trânsito o parasse naquela noite. Embora ele tivesse uma boa resistência contra os efeitos do álcool, estava claro que ele não iria passar pelo teste do bafômetro. No caminho de volta, Leon fez o possível para não cometer nenhuma barbeiragem, embora Naru estivesse diferente daquela garota que vivia distribuindo Naru-Punchs ao Keitarô por supostos atos pervertidos no passado. Numa curiosa inversão de papéis, a ruiva trocava olhares suspeitos com o acanhado policial, enquanto a sua mão esquerda estava mais ousada. Ele quase perde a concentração quando sente aqueles dedos de toque envolvente tocarem numa certa área estratégica do corpo masculino.
- Leon... - Pergunta Naru com um tom manhoso na voz
- O que foi, Naru? - Leon por pouco não comete uma barbeiragem.
- Posso conhecer o teu apartamento?... - A jovem professora estava
totalmente dominado pelo clima da balada e sentindo-se carente por
dentro.
- Hã? - Ele se faz de desentendido. Quase nunca nenhuma garota
perguntou isto para ele, ainda mais no primeiro encontro.
- Onde você mora? - A voz da ruiva saía insinuante e cheia de
segundas intenções.
- Bem.. Eu moro em Downtown... mas... não ficaria muito tarde
para você? E depois... Ele não é essas coisas... - O policial loiro
hesita, por temer fazer alguma bobagem do qual ambos viessem a se
arrepender mais tarde.
- Ah, Leon... Não ligo para isto... O meu apartamento onde moro,
como você viu naquela vez, é bem simples também. - Embora fosse uma
pessoa de gostos exigentes, no fundo, Naru nunca se importou para
demonstrações de riqueza, tendo dispensado mais de um filhinho de
papai.
- Bem... Vamos deixar para outro dia... É que ele está meio
bagunçado e... - Por "bagunçado", Leon temia que Naru ficasse chocada
com os inúmeros pôsteres pornográficos que enfeitavam sua sala e seu
quarto, bem como as pilhas e pilhas de revistas hardcore (Hustler e
similares), os DVD e fitas de vídeo com capas imorais e a bagunça
crônica que era sua cozinha - pratos sujos na pia, talheres em
desordem, caixas usadas de pizzas e lasanhas, além de uma geladeira
lotada de "junk food" e latinhas de cerveja.
- Que é isto... Eu posso arrumar tudo para você e... - A ruiva já
não media tanto as conseqüências.
- Naru, até eu gostaria, mas acabei me de lembrar que a minha irmã
vem me visitar hoje a noite, junto com o Chris, o meu caçula... Deixa
para outro dia...- Leon estava morrendo de vergonha de mentir, mas
seria ainda pior falar a verdade, diante da possibilidade de Naru
ficar chocada com o seu desmazelo.
- Ah... tudo bem. Mas vou te cobrar... - Responde meio contrariada
a bela estudante e professora, não totalmente convencida. Será que
Leon tinha algum caso com alguma menina do qual ela não sabia?
- Eh... Pode me indicar onde fica exatamente o seu apartamento?
Naru - tentando esforçar a sua mente ao máximo - dá algumas referências. Como só tinha ido lá uma única vez, Leon não se recordava do trajeto. Depois de algumas tentativas frustradas, a dupla chega ao estacionamento do condomínio aonde Naru residia por volta das Dez e Quarenta e Cinco da Noite. O pior havia passado, mas a desastrada dupla iria pagar caro na manhã seguinte. Devido à mistura alcoólica que fizeram no barzinho, a cabeça de Leon latejava e Naru não sentia as pontas dos seus dedos das mãos e dos pés. Se não arranjassem qualquer meio "milagroso" caseiro, ambos teriam uma bela ressaca na manhã seguinte. Embora estivesse vestida de maneira informal, Naru ainda estava muito bonita e desejável. Após ter se recuperado da depressão que possuía há semanas atrás, ela passou a se cuidar mais de si mesma e parou de abusar do excesso de remédios e da rotina estressante que seguia todos os dias. Tomando emprestado um casaco de Leon que estava no carro - estava começando a fazer frio e não tinha levado nenhum agasalho - a jovem professora e o policial se despedem na garagem, em frente ao elevador. Pouco antes, os dois haviam trocado os números de seus celulares, bem como os horários aonde poderiam ser encontrados. Nada mal para um encontro meramente casual.
- Naru, eu preciso ir andando... Agradeço muito... pela gentileza
e espero que se cuide...
- Ah, Leon, foi um prazer te conhecido... Valeu muito ter te
conhecido... E, mais uma vez, muito obrigado por ter me salvado...
- Que nada, foi apenas o meu dever...
Neste momento, Naru sente uma vontade de convidar Leon para... entrar no seu apartamento para tomar mais um drinque e quem sabe.... Só que imediatamente as palavras do contrato firmado com Count D surgem em sua mente, e ela se lembra do seu amado Kei-kun.... Não... não seria prudente arriscar... Depois, ela ainda ia ter todo o tempo do mundo para conhecer melhor o policial loiro. A ruiva percebe que o policial está meio que acanhado, e se equilibrando nas pontas dos dedos, se despede dele abraçando-o e dando um selinho no lado do seu rosto.
- Tchau, Leon, se cuida.
- O mesmo digo eu,... gati... ops. Naru. Até mais. - Leon fica
encabulado ao perceber que estava falando demais e fica vermelho. Naru
percebe e deixa escapar uma risadinha.
Ela aguarda uns instantes e somente entra no elevador quando o carro de Leon sai da garagem, indo em direção ao centro da cidade. Com uma pontada de tristeza na alma, ela entra no mesmo e em seguida está no seu apartamento. Com um pouco de dificuldades, ela encontra a chave certa e abre a porta.
- Kei-Kun, sou eu. Cheguei!
Kei-Kun, que estava placidamente sentado na sala de estar, esperando por sua dona, vem direto para abraçá-la. Só que desta vez hesita um pouco. É perceptível no seu olhar uma ligeira expressão de medo e susto ao constatar que a aura de sua dona estava mesclada de sentimentos e emoções conflitantes, além de estar embotada, entorpecida. Timidamente, ele se aproxima, e abraça a sua mestra, como se fosse o verdadeiro Keitarô.
- Mamãe?...
- Está tudo bem, querido.... Não se preocupe porque vou fritar uns
dorayakis daqui a pouco para você. - Naru retribui o abraço de forma
terna, enquanto acaricia aqueles cabelos negros brilhantes e sedosos.
O efeito do álcool estava começando a passar e ela estava recobrando a
lucidez, só que o cheiro era ainda forte o bastante para assustar o
puro ser.
Ela não percebe um tênue filete de lágrimas escorrendo do olho esquerdo do pequeno Kei-kun, que parece estar preocupado com o seu estado. Enquanto isto, a quilômetros dali:
- Kyuuuu? - A figura de um coelho voador guincha de forma estranha
ao seu mestre, que está recostado num elegante divã, lendo um antigo
pergaminho chinês.
- Não se preocupe, Q-Chan, daqui a pouco iremos descansar...
Amanhã teremos um dia cheio pela frente. - Comenta o proprietário do
singular mascote, vestido com uma túnica verde-jade com detalhes
dourados.
Ao terminar de ler o pergaminho - que parecia estar muito bem conservado, apesar de ter centenas de séculos, D se levanta de forma lânguida, e - acompanhado de Q-chan, empoleirado em seu ombro direito - se retira aos seus aposentos.
- Leon, cuidado com os seus sentimentos... - Murmura de forma vaga
e misteriosa D, antes de entrar no seu quarto. Os seus olhos estavam
tristes e como que estivesse tentando vasculhar um futuro que ainda
não aconteceu.
Q-Chan abaixa a cabeça sem nada dizer.
Notas Complementares deste capítulo:
LAPD: Departamento de Polícia de Los Angeles. A sua área de atuação é dividida em vários distritos. O Distrito central, ao qual Leon pertence, possui cerca de 400 membros.
UCLA: Universidade de California-Los Angeles. Uma das mais famosas do mundo e famosa por seus cursos de pós-graduação. Fica no bairro de Westwood e o tamanho de seu Campus equivale ao de uma pequena cidade;
Sukebê: Pervertido;
Beverly Hills: Famoso bairro de Los Angeles, conhecido por ser habitado por pessoas da alta sociedade e celebridades de Hollywood. O custo de vida existente neste bairro chega a ser altíssimo a ponto de uma camiseta comprada num shopping custar mais de 200 dólares;
Chris Orcott: Irmão mais novo de Leon e cerca de dez anos mais novo do que ele. Aparece apenas no mangá do Pet Shop of Horrors.
Jill: No OVA, ela é a bonita assistente de Leon, acompanhando-o em suas perícias e fornecendo informações. No mangá, ela é secretária do Departamento de Homicídios, no qual o esquentado policial trabalha. Aparentemente ela não dá muita bola para ele. O curioso é que tanto Jill como Leon são nomes dos personagens do game "Resident Evil" da Capcom que foi lançado anos mais tarde. Coincidência ou homenagem?
Escrito por: Calerom Data: 26/10/2003 myamauchi1969@yahoo.com.br
Era final de tarde e não tendo muita coisa para fazer, Naru resolveu fazer uma caminhada num dos parques da área central de Los Angeles. A jovem ruiva já estava começando a se recuperar do período depressivo em que esteve após a morte de Keitarô. Após o encontro providencial com Count D e ter ficado com "Kei-Kun", os remédios saíram da sua cabeceira, voltando para a caixinha e ela já conseguia passar a semana sem pensar em tomar um drinque. Naru também passou a cuidar mais de si mesma, mantendo o bom humor e melhorando o seu aspecto visual, numa prova de que o exterior também acompanhava o que se passava dentro de sua alma. Embora a sua vida agitada não encorajasse quaisquer traços de sedentarismo, a jovem viúva não pretendia perder a sua forma. Sempre que podia, arranjava um tempo para dar uma caminhada, andando de uma hora a uma hora e meia.. Quando seu falecido marido estava vivo, era ele quem a acompanhava nestes exercícios. Agora, ela até que tinha vontade de levar "Kei-Kun" para passear, mas morria de medo de transgredir as cláusulas do contato que Count D firmara com ela.
"- Antes, um aviso: Se porventura você falhar em cumprir estes termos, a loja não será legalmente responsável por qualquer problema que vier a ocorrer..." - Naru Urashima ainda se recordava do tom sério e do olhar algo melancólico do nobre chinês ao lhe fazer esta advertência, embora não entendesse direito o motivo que havia por trás das cláusulas.
Ela somente podia imaginar o motivo da primeira, que dizia que somente ela mesma podia cuidar do unicórnio, isto é, de Kei-Kun. Como era um espécime raro e altamente sensível e impressionável, Naru temia que o animal acabasse se apaixonando por qualquer outra pessoa que o tratasse bem, sentindo ciúmes só de pensar nisto. Não, nunca alguém jamais iria ver, tocar ou dirigir a palavra ao seu amado Kei-Kun. Ele seria somente dela e nunca mais! Pela primeira vez, Naru sentia que tinha o amor de alguém somente para si. Não era como o amor de sua mãe, que se foi quando ela era uma garotinha - do qual ela não se lembrava direito - e nem como o amor dividido do seu pai - que acabou conhecendo outra jovem que iria ser a mãe de sua meia-irmã Mei. E muito menos o amor de seu marido, que era obrigado a dar atenção a todas as garotas da Pensão: A sempre sorridente Mutsumi, a tímida Shinobu, a malandramente esperta Kitsune, a recatada Motoko, a exuberante Kaolla e mesmo a temperamental Sarah e a possessiva Kanako. Sim. Ele o amava mais do que todas as outras, só que tinha que dividir o seu escasso tempo tratando bem elas. Embora ela gostasse muito de suas amigas e de sua cunhada, Naru sentia uma pontada de possessividade com relação ao seu amado. Ela achava que de todas, era a que tinha mais direito a ser feliz com alguém, porque sempre sofrera com a dor das perdas - a de sua mãe, a sua, quando descobriu que seu pai tinha outra família - e sabia o quanto era terrível o medo de ficar sozinha. Embora soubesse que era muito bonita e cobiçada, um de seus maiores temores era o de casar com alguém que não a compreendesse. Riqueza, fama ou posição social pouco importavam para ela, embora tivesse expectativas e gostos muito exigentes. Antes de tudo, este parceiro ideal tinha que ser compreensivo. Naru encontrou primeiro este lado na figura do seu ex-tutor Noriyasu Seta. Porém, o seu sentimento ficou meio que bloqueado quando ele saiu de sua vida para estudar no exterior. Mal a jovem ruiva sabia que ele tinha outras duas paixões: Haruka, a filha da Vovó Hinata e a loira Cindy Mac Dougall, mãe da Sarah, mas inconscientemente, sabia que era areia demais para o seu pobre caminhão. Keitarô era diferente. Apesar dele ter alguns costumes e várias pequenas manias que a irritavam, ele nunca exigiu nada dela, aceitando-a como era. Só que da mesma forma que ele conseguiu conquistar o seu coração, ele acabou conquistando o coração de todas as suas amigas. Inclusive a sua primeira coleguinha de infância e a sua melhor amiga. E, enquanto ele estivesse vivo, Naru sabia intimamente que por maior que fosse a distância física, ela teria que conviver com este fato, sabendo que outras garotas o desejavam, como amigo e como namorado. De repente, o seu devaneio foi bruscamente interrompido. Ela sente alguém pôr a mão no ombro direito. Naru se arrepia toda e por um instante ela imagina coisas:
- Ei, por que não vai meter a mão na... Meu Deus! É você, Biff?
- Ora, minha linda Naru, não reconhece mais o seu colega de
classe? - Responde um rapaz na faixa de 24 anos de idade, de estatura
média para alta, forte, cabelos negros e um sorriso maroto. No
momento, ele trajava uma camiseta pólo de cor azul-clara, uma bermuda
de cor escura, meias brancas e um tênis Nike do tipo especial para
caminhadas.
"Biff" Stanley Jr. era estudante da mesma classe de pós-graduação da Naru na UCLA. Filho de prósperos empresários de Boston, ele era jovem, rico, bonito e inteligente. Diferentemente de outros alunos da Universidade - que eram obrigados a repartir dormitórios apertados ou viver em quitinetes - Biff morava numa agradável cobertura Duplex num bairro de classe alta e ia todos os dias à UCLA assistir às aulas dirigindo o seu Porsche conversível. O jovem Biff era conhecido por promover festas badaladas em seu apartamento, com comidas e bebidas finas, reunindo moças lindíssimas e rapazes que pareciam existir somente naqueles filmes de Hollywood. Contudo, por trás deste verniz brilhante, Biff escondia segredos escandalosos. Ainda quando ele era menor de idade, o filho de milionários acabou engravidando uma menina um ano mais velha do que ele, e seus pais tiveram vários problemas em abafar o escândalo. Após ter tido um caso rumoroso com uma linda e jovem professora do colégio aonde estudava, aos 17 anos, Biff foi mandado para a Califórnia estudar. Só que longe disto ser um problema, foi como que uma bênção para ele. Sem o olhar da conservadora sociedade bostoniana e da vigilância de seus pais, o playboy encontrou na Cidade dos Anjos o lugar ideal para dar vazão aos seus instintos. Freqüentemente ele usava o dinheiro que os seus pais mandavam para custear os estudos para gastá-lo com acompanhantes de luxo e festas de arromba em seu apartamento, regadas a uísque e cocaína. E alguns rumores não confirmados diziam que ele era bissexual. . Quando Naru foi estudar no mesmo curso de pós-graduação que ele, Biff decidiu que mais cedo ou mais tarde ela seria a próxima vítima de sua interminável lista de conquistas. Só que a ruiva parecia ser invulnerável às suas táticas, por ser desligada demais para sutilezas. Depois, o fato de Naru não freqüentar as festinhas de confraternização e as churrascadas da turma limitava as oportunidades de Biff assediá-la. Enquanto uma chance melhor não vinha, o filhinho de papai contentava-se em abordar outras garotas da faculdade e qualquer mulher que fosse minimamente compatível com o seu exigente padrão de beleza. Mas parecia que o destino havia sorrido para ele. Justo a encontrara quando ele estava fazendo o seu Cooper diário. E bem num momento em que havia relativamente pouca gente no parque e o que era melhor, nenhum conhecido da faculdade. Hora de atacar.
- Biff, ai, que susto!... O que você está fazendo aqui? -
Pergunta Naru, toda confusa.
- Ei, gatinha... Esta roupa combina com você... - Biff dá uma
cantada com a maior cara de sem-vergonha do mundo.
- Hã? - A jovem ruiva não entende direito a malícia da frase, bem
batida por sinal.
- Quase tanto como eu... - O filhinho de papai completa a cantada,
sussurando no ouvido da moça.
- Biff! Você está me deixando com vergonha!... - Naru estava
confusa porque nunca ninguém havia a tratado daquele jeito.
- Sabe que você fica bem bonita com as faces coradas? - Sem se
alterar, Biff continua com a sua ofensiva.
- Puxa, obrigado... - Responde Naru Urashima com um tom educado,
embora ela no fundo estivesse constrangida.
- Que tal andarmos um pouco? - Propõe o rapaz de cabelos negros
como se convidasse Naru a dar algumas voltas ao redor do parque.
- Aonde? - Ela se faz de desentendida.
- Ao caminho do seu coração... - Responde Biff na lata, enquanto
articula outro esquema safado em sua mente.
- Ai, Biff, você é bem engraçado, mas.. - A ruiva sorri meio sem
graça. .
- Mas... - Biff olha bem nos olhos de sua presa, ou melhor, de
Naru.
- Sou casada... E... - Naru abaixa o seu rosto, de pura vergonha.
- Mas não vejo a aliança em sua mão. - Espertamente Biff já havia
notado este detalhe dias antes. E mesmo que a ruiva tivesse a preciosa
aliança, nada impediria o de ter uma noite de puro prazer com ela.
Neste momento, Biff malandramente segura na mão de Naru, que fica assustada demais para reagir. Ele examina a mão macia e brinca com os dedos longos da ruiva.
- Quer ganhar uma aliança de mim? - Propõe o filhinho de papai,
sorrindo com uma certa malícia.
- Biff, seu bobo, eu já disse que... - Naru não sabe direito o que
fazer. Estava acostumada a lidar com amadores como o seu ex-marido e
os antigos colegas deste, Haitani e Shirai, mas não era páreo para um
mestre da boemia como Biff.
- Que pena, o brilho que reluz dos seus olhos me cegou a ponto de
não ver mais nada... A não ser a estrada que leva a ti.
Malandro consumado, Biff aproveita a chance e beija Naru na boca, de forma lasciva. A jovem estudante fica espantada e zangada, mas ela sente suas forças faltarem. O fato era que o seu Naru-Punch somente funcionava contra "sukebes" de baixa estirpe. Mas não para um degenerado completo do calibre de Biff Stanley Jr. Aproveitando-se daquele momento de fraqueza de sua presa, o predador humano metodicamente ataca-a, explorando com suas mãos cobiçosas o pescoço, os ombros, as costas e a coxas da pobre Naru. As pouquíssimas pessoas que passeavam pelo parque naquela hora nada fazem, cada um ficando na sua. Para muitos, tratava-se de um casal de namorados qualquer. Com muita dificuldade, ela consegue desvencilhar-se das carícias do mulherengo. Um arrepio corre sua espinha e ela fica imediatamente arrependida do seu ato impensado.
- Já chega, Biff... Eu tenho que voltar para a casa. - Responde
Naru sem ter coragem de olhar para o rosto de seu colega de curso. Ela
estava prestes a chorar.
- Ora, mas ainda é cedo, cara Naru. Que tal a gente dar mais uma
volta no parque? - Era evidente de que o sem-vergonha queria mais,
muito mais.
- É que... tenho ainda umas coisas para estudar. - Naru pensa na
primeira desculpa idiota do seu limitado repertório social para lidar
com situações deste tipo.
- Minha pequena Naru, sempre com os seus livros... Não gostaria de
conhecer as coisas boas da vida?... A gente pode passear e depois te
levo para jantar num Shopping em Beverly Hills... - Diz ele sorrindo
e se aproximando perigosamente do corpo da jovem viúva.
- Biff... por favor, eu estou falando sério... - Naru fala num tom
quase implorando. De fato, aquele não era o dia para um Naru-Punch. O
fato dela estar com mais idade, ter se casado e a recente perda de seu
marido haviam retirado boa parte de sua antiga agressividade.
- A vida existe para ser desfrutada do que tem de bom e do
melhor!... Podemos curtir a noite, dormirmos juntos e amanhã irmos à
praia de Malibu... - Biff se aproxima mais e começa a passar a mão nas
costas e nas coxas de Naru.
- Não... por favor... - As lágrimas começam a sair do seu rosto, o
que atiça mais o instinto animal do predador humano.
- Você não vai se arrepender, querida... - Biff abraça firmemente
a sua presa e começa a bolinar os seios de Naru, que fica totalmente
paralisada e com medo.
- Biff... não!
- Terá uma noite inesquecível. - A sua mão direita desce de forma
insinuante, arrepiando toda a coluna vertebral da moça, até chegar
nas nádegas.
- Não, não quero... Solte-me!.... - Finalmente Naru reage, só que
o tapa sai mais fraco do que o desejado e apenas serve para excitar
mais o instinto de macho do seu colega.
- Agora é tarde... Você me acendeu um fogo que somente os seus
beijos e carícias irão me aplacar. - Biff sorri maliciosamente e,
segurando firmemente Narusegawa, tenta beija-la à força.
- Não!... - Naru tenta escapar, mas sente que Biff é muito forte.
Ela começa a chorar como uma criança indefesa. A visão das lágrimas
cristalinas saindo de seus lindos olhos é um deleite para o mulherengo
estudante.
Ganhando coragem, Biff tenta enfiar uma de suas mãos por debaixo da minissaia da Naru para arrancar a sua calcinha. Naru imagina ser impossível o que estava acontecendo com ela. Todos os traumas de sua vida vieram à tona, impedindo-a de dar um belo soco nas fuças do safado... . Quando estava quase certo de que levaria a pobre Naru para a cama de um motel, Biff Stanley Jr. Sente alguém agarrando fortemente o seu braço, impedindo-o de continuar com suas safadezas.
- Hã, o que você quer, babaca? - Ele se vira para o desconhecido
que lhe tocara, com uma expressão de raiva e desprezo, esquecendo-se
momentaneamente de sua etiqueta e origem rica.
- Você ouviu a moça. Solte-a ou vai se ver comigo! - Responde o
desconhecido trajando uma camiseta estampada com o personagem Lenny do
seriado South Park, uma calça de educação física, um par de meias azul-
escuras e tênis branco meio encardido, comprado numa loja de
departamentos..
- Leon! - Sussurra Naru entre lágrimas ao reconhecer o seu
salvador.
Para a sorte de Naru, era dia de folga do genioso oficial do LAPD. E ele estava justamente correndo naquele momento no parque quando viu o assédio do Biff sobre a sua já conhecida Naru. Para a sorte da jovem professora, ainda ele se recordava dela.
- Ah, é? E quem você pensa que é, seu herói de araque? Pois saiba
que tenho muita grana e meus pais... - Começa a falar o playboy
bostoniano, com uma entonação arrogante em sua voz., sem saber a
identidade de seu oponente.
- Sabe ler isto? - Leon não se deixa intimidar e imediatamente
saca a sua carteira de identificação e esfrega-o no rosto de Biff.
- Ah, então você é um tira? Mas eu não estava fazendo nada demais!
Foi ela que queria dar... - Biff parece não se intimidar com as
credenciais de Leon e mantém o seu olhar desafiador.
- É mentira! Ele... Ele é um tarado! - Finalmente Naru solta a sua
voz, descarregando a sua raiva.
- Mas, Naru? Mas você não queria ir para o motel junto comigo? -
Biff muda imediatamente de tática e cinicamente insinua como se ele
fosse namorado ou chegado dela!
- Não! Você é um sujo! Pervertido! Safado! Vá embora! Nunca mais
quero ver a sua cara imunda! - Com a presença de Leon, Naru Urashima
parece voltar a ser a Naru Narusegawa de sempre, dando três tapas bem
dados nas fuças do playboy.
- Ei Guri, pegue o seu traseiro e vá circulando antes que te
prenda por atentado violento ao pudor em local público e assédio
sexual. - Responde secamente Leon, afastando Biff antes que ele
pensasse em reagir contra os tapas de Naru.
- Vá à merda, tira!
Sem pensar nas conseqüências, Biff dá um giro súbito e tenta acertar um soco no rosto de Leon enquanto tenta aplicar o que aprendeu em suas aulas de karatê Shotokan nas horas vagas. Naru dá um grito de puro susto ao ver a cena de violência. Só que o playboy não sabe que o agente de polícia era bem mais treinado e preparado do que ele. Esquivando-se habilmente de um soco endereçado ao seu queixo, Leon contra-ataca e acerta três jabs rápidos no estõmago de Biff, que geme de dor. Ainda atordoado, nosso playboy tenta acertar um rápido pontapé na virilha de Leon, mas o policial aproveita o golpe para segurar o pé de Biff e derrubá-lo no chão. Ao todo, a ação durou menos do que cinco segundos.
- Seu tira podre! Você vai ver só! Eu contratar os melhores
advogados para te processar! Ninguém se mete com os Stanley de
Boston! E ainda vou comer a sua namoradinha! - Grita quase chorando, o
humilhado e derrotado filhinho de papai, antes de fugir do local, aos
tropeços e sem olhar para trás.
- Até mais, palhaço. - Diz secamente Leon sem se alterar.
- Oh! Foi horrível! Por favor, oficial, me leve longe deste
lugar! Não quero ver a cara daquele sujeito nunca mais! Eu... - Naru
se aproxima, abraçando Leon, quase aos prantos, extravasando o medo
que sentira quando estava sozinha.
- Está tudo bem senhorita, você está entre amigos.
Ajudando a pobre Naru em estado de choque, Leon Orcot leva-a até a saída do parque, no estacionamento do local. Naru chegou até a pensar em pegar um táxi e ir embora para casa, mas estava simplesmente à beira do pânico e não queria ficar sozinha. Quanto a pegar um coletivo lotado, nem pensar, ainda mais depois do ocorrido.
- Por favor, Leon, pode me acompanhar? É que... Estou com medo...
- Pergunta ela com a voz tímida.
- Quer que eu te leve ao seu apartamento?
- Não... Pode ser... Qualquer lugar... Preciso me recompor, Não
quero ficar sozinha.... - Implora a ruiva para o seu insuspeito
salvador.
Embora fosse contra o seu código de ética policial, ficava difícil negar um pedido de ajuda. Ainda bem que Leon estava à paisana e em seu dia de folga. Ele pede para Naru aguardar e em menos de um minuto traz o seu carro, um modelo japonês conversível de cor amarelo-claro. Após os dois terem montado e colocado os cintos de segurança, ambos saem do fatídico parque. Leon dirigia pelo caótico trânsito das ruas de Los Angeles como se conhecesse cada avenida e cada rua na palma de sua mão, apertando a esmo os botões de rádio/CD player para sintonizar em qualquer estação de rádio. No momento, ele tinha colocado o seu boné e os óculos escuros para dirigir. A sua pistola Beretta 92 estava no porta-luvas do veículo, pronta para uma eventual emergência junto com um pente extra totalmente carregado. Também no porta-luvas, estava uma arma de reserva, um revólver Smith & Wesson calibre 38 com cano curto. Naru tentava checar a sua maquilagem nervosamente no espelho. Ela estava usando também óculos escuros para que Leon não notasse a sua cara de choro. Ela sentia naquele momento medo, raiva e humilhação. E estava até arrependida de muitas vezes ter socado e chamado Keitarô de tarado no passado. E constatara da pior forma possível que ele não era tão pervertido assim. Agora, diante de um autêntico safado como Biff ela ficou paralisada e sem saber o que fazer. Se Leon não tivesse agido naquele momento, à esta hora ela estaria à mercê do pervertido.
Uma hora mais tarde, após terem andado em vários bairros de Los Angeles, para ajudar acalmar a ruiva, Leon e Naru decidem tomar um lanche num fast- food. Até para um cara meio tosco e grossão como Orcot concordava que a uma moça tão fina, inteligente e elegante como a Naru merecia coisa melhor. Só que ele nunca chegou a ter alguma namorada séria e fazia tempo que ele não estava por dentro dos locais da moda em sua própria cidade. Os poucos que ele conhecia eram inacessíveis ao seu poder aquisitivo. Ele jamais iria gastar uns cem dólares ou mais para comer e passar fome num restaurante de Beverly Hills, como costumava dizer. Embora Naru não estivesse com fome - devido o desastroso incidente no parque - ela tentava mastigar um X-salada com batatas fritas e beber um copo de suco de laranja meio aguado. Leon mastigava sem muita etiqueta um sanduíche de churrasquinho "à gaúcha" - embora de gaúcho o singular prato tivesse só o nome - com molho barbeque e bebia goles de um copo de Pepsi bem geladíssima. Ele estava pensando em falar qualquer coisa para quebrar o gelo, mas era evidente de que o policial não fazia o tipo galante, apesar de ser alto, forte e bonito - mesmo para os padrões de Naru. Embora tivesse mais ou menos a mesma idade do ex-tutor da Naru, o Professor Seta, Leon perecia ser mais jovem, com sua típica cara de rebelde sem causa. As suas roupas do dia a dia reforçavam esta aparência: Gostava de usar bonés de times de baseball, T-Shirts coloridas com estampas, jaquetas jeans sem mangas ou com mangas rasgadas, calças jeans sem grife e uma variedade de tênis comprados em liquidações. Quando ele era obrigado a se apresentar de maneira mais formal, usava um blazer largo e confortável, camisa esporte, calças compradas em lojas de departamentos e sapatos informais. Freqüentemente a cor das suas meias não combinavam com suas calças e o sapato. Leon odiava usar gravatas e apenas usava seu uniforme policial quando absolutamente necessário. A sua sorte era que por integrar a Divisão de Homicídios e investigar freqüentemente o submundo do crime, ele podia ficar à paisana, estando mais bem a vontade. Mas para a surpresa dele, é Naru que toma a iniciativa:
- Mais uma vez, muito obrigado por me salvar, senhor Leon... Eu
nunca podia imaginar que o Biff fosse capaz de... - Naru aproveita
para não apenas agradecer ao seu salvador como também conhecê-lo.
- Desencana, garota. Está tudo bem agora. Esqueça aquele babaca.
- Leon fita Naru com os seus penetrantes olhos azuis.
- Diga me uma coisa, por que escolheu a carreira de policial? Não
é algo perigoso?
- Bem, como poderia dizer, senhorita... - Leon tenta forçar sua
memória para lembrar o nome da ruiva.
- Naru. Naru Urashima.
- Minha história é a seguinte: nasci numa família grande, mas os
meus pais não tinham recursos para custear um colégio decente ou uma
faculdade... Desde cedo tive que trabalhar e quando atingi a
maioridade entrei para a Academia de Polícia... Como vê, nada digno de
figurar no "Esta é a Minha Vida". - Responde Leon um pouco
decepcionado com a sua autobiografia.
- Entendo... - Medita Naru lembrando-se de quando era mais jovem e
sonhava com uma pessoa que preenchesse os seus padrões elevadíssimos e
exigentes. Contudo, depois que ela casou-se com Keitarô, havia
começado a aprender que alta inteligência e um diploma numa
universidade famosa não era tudo.
- E você, pensa em seguir que carreira? - Um pouco mais relaxado,
o policial decide puxar conversa com a Naru, nem que fosse para ajudar
ela a sair daquele estado em que ficara.
- Bem... Formei-me em na Universidade de Tóquio e vim para cá
após o meu casamento para fazer um mestrado em Direito Internacional.
Enquanto isto, eu vou ganhando a vida lecionando como professora, num
colégio próximo ao lugar aonde moro. - Responde Naru, mais tranqüila.
- Putz... Você veio do Japão para vir parar neste fim de mundo?
Eu pensei que fosse daqui... Você fala muito bem, sem sotaque. - De
fato, o inglês de Naru havia se aprimorado bem depois dela ter
freqüentado um curso avançado pouco antes de se formar na Toudai.
- Puxa, obrigada. - Ela sorri, um pouco sem graça. .
- E você pensa em trabalhar num escritório de advocacia ou prestar
algum concurso público? - Leon pergunta, curioso.
- Bem, no momento penso em lecionar numa faculdade razoável caso
me forme... Não sei se me daria bem como advogada ou promotora... - De
fato, Naru tinha mais aptidão para ensinar os mais jovens e até
possuía uma didática boa.
- Acho que dá sim, você é bem inteligente... Não é que nem eu, que
já fui entregador de pizzas, office-boy e auxiliar de mercearia... -
Responde o loiro, achando que estava levando o maior fora de sua vida.
De fato, o seu resumo biográfico não encorajava nenhuma "patricinha" a
se aproximar dele.
- Senhor Leon, você gosta do que faz? - Indaga a ruiva, imaginando
quais os motivos que levaram o rapaz à sua frente decidir entrar numa
academia de polícia e exercer uma profissão arriscada.
- Sim, claro. Apesar dos riscos, eu não consigo me ver fazendo
outra coisa. - A voz de Leon sai desta vez convicta e sem receios.
- Eu... também gosto do que faço...- Responde Naru. Embora ela
gostasse do que fazia, ainda não tinha definido o seu futuro.
- Você pretende morar aqui assim que terminar o seu curso? - Leon
começa a "dar bandeira", mostrando certo interesse pela moça.
- Olha... ainda não sei. Cheguei a pensar em voltar para o Japão,
mas estou me acostumando por aqui... - A resposta de Naru é um tanto
quanto vaga. Somente depois que ela terminasse o curso iria decidir o
seu futuro.
- Como é a sua família? Você tem parentes por aqui?
- Bem... No Japão tenho o meu pai, minha irmã de criação e a mãe
dela... A minha mãe faleceu antes de completar três anos de idade...
Quase todos os meus parentes da parte de meus pais moram em Tóquio e
arredores. Alguns dos parentes da minha irmã de criação Mei moram no
Canadá, mas não sei aonde... - Os olhos de Naru parecem fitar o
infinito, em busca de lembranças do passado.
- Irmã de criação? Desculpe-me... - Leon não entendeu direito a
frase de sua interlocutora.
- Muito após mamãe ter falecido, papai acabou se casando com
outra... Mulher - Naru retifica a frase, com uma ponta de tristeza na
voz.
- Perdão... Acabei falando o que não devia... - Neste momento Leon
fez força para não soltar um palavrão amaldiçoando a sua gafe que
acabara de cometer.
- Não precisa se desculpar, senhor Leon. Já aconteceu... - Naru
toca com a mão direita o ombro de Leon, como se inconscientemente
estivesse procurando por apoio.
- Senhorita Naru... você é uma pessoa jovem, cheia de vida e
bastante inteligente... Tenho certeza que você vai dar a volta por
cima e se dar bem. - Leon detestava ser chamado de "senhor", pois não
se conformava em ter passado dos trinta.
- Puxa, obrigada... e o senhor, oficial...
- O Senhor está no céu. Chame-me de Leon, apenas. - Ele sorri. Se
fosse outra pessoa, talvez ele tivesse dado uma bronca.
- Tudo bem, Leon... Você me parece ser bem simpático, apesar das
dificuldades de sua profissão.. - Comenta a ruiva. .
- Como assim? Desculpe, não entendi...
- Eu pensava que todos os policiais americanos eram meio durões e
com aquele jeito... - De fato, a imagem que a japonesa tinha a
respeito dos tiras dos Estados Unidos estava moldada pelo que vira nos
filmes e seriados daquele país.
- Ah, sim, eu entendi. É, de fato, os filmes de Hollywood mostram
este lado... Bem, mas eu não sou nenhum Clint Eastwood ou Mel
Gibson... - Sorri Leon, se apressando a corrigir este estereótipo.
- Ah, mas em termos de beleza e simpatia, você não perde para
nenhum deles... - Elogia Naru, começando a reparar que o policial não
era de se jogar fora. Ela nunca chegou a se interessar por
estrangeiros, mas sempre tinha uma primeira vez.
- É mesmo, ah, ah... Quem me dera se as garotas me elogiassem
desta forma... - Sorri Leon imaginando o que Naru acharia se soubesse
que ele nunca conseguiu ficar com uma garota por mais de duas semanas.
- Leon, você tem alguém na sua vida? - Pergunta Naru, meio receosa
de Leon ter namorada ou algo a mais.
- Alguém? Deixe-me ver... O meu pai já é falecido, bem como mamãe.
Tenho três irmãs abaixo de mim e o caçula, o Cristopher... - Leon
responde, imaginando que ela tinha perguntado a respeito de sua
família.
- Não... eu quis me referir... a uma pessoa especial... - Corrige
a ruiva sorrindo para ele.
- Uma... Esposa ou namorada...? - Leon fica embaraçado ao imaginar
o significado do termo "especial".
- Isto. - Responde laconicamente a ruiva. Agora ficara tudo claro.
- Bem, não. Nunca levei muita sorte para namoros e depois que
comecei a trabalhar no LAPD, não consegui arranjar tempo para
pensar... - Coçando a cabeça, Leon fica embaraçado. Era a primeira vez
que uma pessoa quase que desconhecida para ele perguntava isto. E ele
nunca foi muito bom de pensar mais do que 5 minutos em seus
sentimentos.
- Talvez ainda não tenha aparecido a garota certa para você... -
Comenta em voz baixa e quase sussurrante a ruiva.
- Quem me dera, senhorita Urashima... - Suspira Leon, lembrando-se
finalmente do sobrenome de casada da Naru.
- Por favor, me chame de Naru... Sabe, você me lembra muito um
tutor que eu tive. - Os olhos de Naru ganham um novo ânimo e até sua
disposição muda para melhor.
- Tutor? - Leon pergunta, intrigado.
- O nome dele era Noriyasu Seta. Ele era estudante universitário e
me deu algumas aulas de reforço quando comecei a estudar para o
vestibular... E foi esta pessoa que deu uma força para o meu falecido
marido arrumar um emprego nos Estados Unidos... - Mesmo após passados
vários anos, Naru ainda admirava Seta-san, como o chamava. Pena que no
enterro de Keitarô, ela não tivera muito tempo para conversar com ele,
de tão abalada que estava.
- Como ele era?
- Bem... Ele é forte, bonito e tem um ar ao mesmo tempo
determinado e sonhador... como você... - Sorri Naru. De fato, Leon
tinha quase a mesma altura e o mesmo porte físico dele. O policial de
fato não tinha um olhar tão sonhador, mas como a ruiva estava
melhorando de disposição, fez esta "licença poética".
- Puxa, obrigado...
- Posso te fazer uma pergunta? - Naru começa a se animar mais,
esquecendo do trauma que passara. De fato, ela se sentia protegida
perto deste rapaz.
- Tudo bem, esteja à vontade.
- Quantos anos você tem, Leon? - Sorri a ruiva como se fosse uma
adolescente. Mas de fato ela estava curiosa, pois Leon aparentava ter
menos idade do que realmente tinha.
- Eh... Quantos anos você me daria, Naru? - O rosto do policial
ficou subitamente vermelho.
- Hummm... Acho que você deve ter uns vinte e sete para vinte e
oito anos... Mas com um jeitinho de no máximo vinte e quatro anos...
- Putzgrila! Quem me dera se tivesse esta idade!.. Estou com
trinta e três anos... - Leon fica assustado diante do que Naru acabou
de dizer. Ele era tão moleque assim?
- Trinta e três? Puxa... É quase da idade do professor Seta...
Você realmente parece ser bem mais jovem...
Leon e Naru conversam durante mais meia hora, mesmo após terem comido - ainda que forçadamente - o lanche. Embora a conversa tenha ficado mais animada e descontraída, os dois evitam falar muito de assuntos mais íntimos. Da parte de Leon, porque ele sabia que Naru tinha passado pelo trauma da morte do marido e do incidente do parque. E da parte da jovem viúva, por ser ainda a primeira vez que conversava com uma pessoa até então desconhecida para ela, ainda que sentisse protegida e segura com ele por perto. Contudo, Naru acabou se simpatizando com o jovem oficial de polícia. De certa maneira ele lembrava as mesmas qualidades que encontrara no seu ex- tutor Seta, embora Leon não tivesse aquele ar desligado e distraído que caracterizava o arqueólogo, mentor de seu falecido marido e atualmente casado com Haruka, a tia de Keitarô. Normalmente, ela nunca tomou a iniciativa de puxar a conversa com pessoas do sexo oposto, devido à sua personalidade e mesmo o seu relacionamento com Keitarô começou de forma insólita. Contudo, algo ou alguma coisa fez com que ela se abrisse com Leon e não apenas pelo fato dele tê-la salvado das safadezas de Biff. O policial loiro lhe inspirava confiança e proteção, da mesma forma que o seu antigo tutor. Além disto, ele era bonito, bem conservado e atraente fisicamente. Ironicamente, esta foi a conversa mais longa que Leon teve em sua desastrada vida amorosa. De temperamento estourado e com a língua meio solta, a maioria dos seus casos terminava tão rapidamente como começava. A única pessoa que ele conhecera que sabia lidar com suas manias era a secretária Jill, do Departamento de Polícia. Só que ela nunca deu muita corda para ele, mantendo um relacionamento amistoso, mas estritamente profissional. Talvez pelo fato de ter se sentido um pouco atraído pela beleza de Naru desde o primeiro encontro que tiveram ou simplesmente com medo de passar vergonha diante de uma moça linda e mais inteligente e culta do que ele, Leon até que se esforçou como pôde para não fazer feio. Quem o conhecesse e presenciasse aquela cena, diria que se tratava de outra pessoa, sem muito a ver com o policial esquentado que estava na linha de frente da investigação de homicídios que ocorriam na área central de Los Angeles.
Eram por volta das sete e meia da noite, quando o policial e a pós- graduanda de Direito saíram da lanchonete. Após uma curta e rápida passagem no posto de gasolina para reabastecer o carro, Leon e Naru deram mais algumas voltas, ao som de músicas retrô estilo anos 80 - tocadas numa emissora FM meio brega. A pedido da ruiva, Leon a levou para conhecer alguns bairros que ela nunca tinha tido oportunidade de conhecer por falta de tempo. Vários bairros da Cidade dos Anjos eram imensos e a cidade era grande demais para se andar de um ponto a outro sem usar um veículo qualquer. Após o falecimento do marido, a van que ele usava ficara na garagem, por ela não ter carteira de habilitação. O tom nostálgico das músicas e as próprias circunstâncias de tão insólito encontro fizeram despertar algo adormecido na mente inconsciente da jovem Naru. Um certo sentimento de solidão e de carência que parecia estar abafado na sua mente. Certo, a companhia de "Kei-Kun", o misterioso unicórnio adquirido na loja de animais de Count D, ela preenchera o vazio da morte do seu marido, superando a dor da perda e a depressão que ela sentia. Só que ainda assim, Naru era uma pessoa solitária e sem raízes. Longe de casa, de sua família e das suas amigas, ela ainda não se sentia à vontade em Los Angeles. E talvez em nenhuma outra cidade ou local do mundo, fosse grande ou pequena, humilde ou sofisticada. Nestes meses todos, ela não fizera amizade com ninguém, seja com os colegas de classe do seu curso - com os quais somente se reunia para estudar e fazerem trabalhos - ou seja com os outros professores do colégio secundário aonde lecionava... Ironicamente, a pessoa que estava ao seu lado - um até então anônimo "tira" que atendera a sua chamada 911 ao ver seu marido caído no chão naquela fatídica manhã - era a pessoa mais próxima dela na Cidade dos Anjos. Enquanto Leon prestava mais atenção nas barbeiragens dos carros que passavam pelas avenidas que compunham aquela grande cidade, Naru olhava para o seu rosto concentrado e impassível, totalmente embevecida por aquelas baladas românticas que já estiveram na moda há quase vinte anos atrás. Por um momento, ela fecha os seus olhos e deixa as letras daquelas músicas - que falavam de amores impossíveis, sentimentos, traições e dor - se misturarem aos recônditos cantos de seu coração. Sim, era preciso acordar para a vida, sair do confinamento ao qual ela havia inconscientemente imposto para si mesma e voltar a viver como nunca fizera antes... . Havia uma parte dela mesma que não conseguia compreender e muito menos aceitar. Aquela Naru eternamente carente e infeliz, que tinha acessos de ciúmes irracionais alternados com momentos de medo e incertezas. Ela chegou a lutar consigo mesma durante sua juventude e ainda depois do casamento, parecia que não tinha conseguido reunir os estilhaços de sua alma que perduravam mesmo após a morte de sua mãe, causados pelo medo permanente da solidão e de ficar sem amigos. Durante anos, ela sempre esperara que alguém sempre aparecesse na vida dela, como foram os casos de Mutsumi, Keitarô, Kitsune e das outras garotas da pensão. Só que a dura convivência numa cidade estranha para ela e a morte de seu marido ensinaram-lhe duras lições. O misterioso Count D dera-lhe uma nova chance de reconquistar o que havia sido perdido.. E cabia a ela reconstruir a sua vida a partir dos escombros... Totalmente dominada pelo clima daquelas circunstâncias misteriosas deste reencontro inesperado e pelas músicas que o rádio-CD do carro de Leon tocava - Naru, de forma tímida e quase envergonhada, deixa a sua mão esquerda, que estava livre, tocar na mão direita de Leon, que estava ocupada em trocar as marchas do conversível de origem japonesa, de cor "amarelo-pikachu" - como maldosamente foi apelidado o carro do policial pelos seus colegas de departamento, numa alusão à cor do carro e a invasão de animes japoneses nos canais de TV paga. Ela nunca havia feito algo parecido em sua vida. Mas, havia sempre uma primeira vez para tudo. E depois, ela tinha que se sentir confortada, protegida, amparada... Leon somente percebe o toque daquela mão ao mesmo tempo delicada e forte quando foi tarde demais. Ele ficou imediatamente ruborizado, só que se não gostou, pelo menos não se manifestou contra. Quem na realidade estava com o interior conflitando e lutando consigo mesmo naquela hora era ele e não ela. Era muita areia para o seu caminhãozinho. Em hipótese alguma, Leon chegou a pensar em segundas intenções... Embora achasse a ruiva bonita demais para a imagem que ele tinha das japonesas. O seu primeiro contato com a Naru foi nas piores circunstâncias possíveis e poderia ter sido qualquer um para atender aquele chamado "911". E ele nunca imaginou topar com a jovem de volta naquele dia em que o oficial detetive foi à Chinatown, na Loja de Count D, para falar do caso do milionário Ferris, misteriosamente assassinado. Contudo, nunca em sua vida, Leon chegou a guardar tanto tempo em sua mente a imagem de uma garota como Naru. Os seus namoricos anteriores sempre foram frustrantes e estava claro que jamais iria conseguir tirar uma casquinha que fosse da linda Jill, a secretária do seu chefe no Departamento. Certo quea garota de cabelos escuros encaracolados e de óculos era compreensiva, perspicaz e adorava conversar com ele, só que ela nunca foi de encorajá-lo para vôos mais ousados. E para piorar as coisas, o pouco tempo livre que Leon Orcot tinha à disposição, ele usava-o para conversar com Count D, seja tentando obter pistas para casos insolúveis que ocorriam por toda Los Angeles, ou para pedir conselhos a seus problemas pessoais. O relacionamento entre o rústico policial e aquela sofisticada misteriosa figura aristocrática era algo difícil de entender e rumores maliciosos começavam a surgir nos corredores do Departamento de Homicídios, dada a crescente freqüência das visitas a Chinatown. Embora o oficial investigador e o misterioso vendedor freqüentemente discutissem e discordassem em vários pontos de vista, ambos estavam ligados por laços difíceis de romper e que não eram compreensíveis pela simplória mente do policial. Seria karma? Seria destino?
Quando Leon se deu conta, já havia se passado quase uma hora e a jovem que estava a seu lado não havia pedido em nenhum momento para interromper o passeio e pedir para ser levada para casa. E para piorar, a cabeça da garota ruiva estava aninhada em seu ombro, estando ela bem à vontade.
- Naru... - Você quer que te leve ao seu apartamento? - Pergunta
acanhadíssimo Leon, com sua típica cara de tacho quando se vê falando
ou fazendo algo inconveniente...
- Hã, Leon, que horas são? - Naru estava começando a sonhar de
olhos abertos, de tão absorvida pelo clima romântico-retrô das
músicas.
- Já passou de 8 e meia da noite... - Leon olha preocupado para o
relógio do painel do automóvel e constata, decepcionado, que perdeu
mais uma vez o horário do seu seriado favorito.
- Puxa, era para ter passado na UCLA reunir-me com o meu
orientador de tese.... - Naru também constata que perdeu o horário
para mais um compromisso.
- Quer que eu te leve lá?
- Não, Não! Bem... deixa para lá. Depois do que aconteceu no
parque, eu não iria ter qualquer disposição... Se acontecer alguma
coisa, eu invento uma desculpa amanhã... - Responde um pouco
constrangida a ruiva.
- Bem, acho que ficar em casa assistindo TV é bem melhor do que
passear de carro com um cara como eu... Vou... - Leon comenta,
melancólico.
- Leon, por favor, não diga isto... Você é um rapaz até legal... -
Tenta elogiar Naru. E o que era pior para ele, o elogio era sincero.
- Assim você me deixa envaidecido... Senho.. quer dizer.. Naru. -
Leon quase engasga tentando evitar chamar sua jovem acompanhante de
senhorita, um formalismo que adquirira ainda nos tempos da Academia de
Polícia.
- Leon, posso te pedir um favor?- Olha, suplicante a jovem
professora.
- Tudo bem...
- A gente poderia parar num barzinho? - Totalmente dominada pelo
clima romântico, Naru resolve fazer algo que nunca tentara antes com
ninguém, mesmo com Keitarô.
- ???
Em alguns minutos, Leon e sua inusitada acompanhante se dirigem à um típico barzinho para jovens. O local estava animado e com muita gente bonita, a maioria, de classe média. Na realidade, Leon conhecia uma infinidade de bares e pubs, aos quais ia para obter informações em seu trabalho de investigador, só que eram aquele tipo de estabelecimento que nem em sonhos ele teria coragem de levar uma moça bonita e respeitável. Desta vez, Naru não quis parar num lugar apenas para se recompor do trauma que tivera com o assédio do desgraçado do Biff naquele final de tarde. Ela queria quebrar o gelo e conhecer um pouco melhor o rapaz loiro e alto que tinha sido o seu anjo da guarda do dia e que não era mais um total desconhecido para ela. Certo, ela estava com o coração um pouco apertado pelo fato de ter deixado Kei-kun esperando por ela. Tadinho... iria estar com aquela fome quando chegasse. Se bem que ele estava acostumado a esperá-la chegar tarde durante os dias de semana. E hoje ela iria voltar mais cedo, já que não passaria na UCLA. Os dois ficaram conversando durante mais de quarenta minutos: Ela falando um pouco de seu passado e de sua vida na época da Pensão Hinata e tentando conhecer um pouco mais de seu interlocutor. . Nas três primeiras latas de cerveja, Leon até que fez força para se manter discreto, mas a partir da quarta latinha, Naru começou a conhecê-lo como era na intimidade. Ela nem ficou apavorada ou escandalizada diante do jeito meio tosco dele e de certas gírias que ele usava, mas até ficou contente pelo fato de estar com um homem de verdade e não com um banana como aquele verme do Biff. No início, até que os dois se comportaram, mas a partir da quinta latinha de cerveja, pareciam mais dois namorados e não dois estranhos, conversando sobre intimidades e flertando. Os toques, os sorrisos e as passadas de mão no cabelo alheio se tornaram mais constantes. Para piorar, na "saideira", Naru tomou uma dose de "cuba- libre" - coisa que quase nunca fizera quando jovem - e Leon fez o mesmo com um uísque com soda duplo. Só que ao sair do bar, o oficial investigador do LAPD percebera a burrada que fizera. O investigador também se deixou levar pelo clima e havia entrado na onda da ruiva. Agora o remédio seria rezar para que nenhum guarda de trânsito o parasse naquela noite. Embora ele tivesse uma boa resistência contra os efeitos do álcool, estava claro que ele não iria passar pelo teste do bafômetro. No caminho de volta, Leon fez o possível para não cometer nenhuma barbeiragem, embora Naru estivesse diferente daquela garota que vivia distribuindo Naru-Punchs ao Keitarô por supostos atos pervertidos no passado. Numa curiosa inversão de papéis, a ruiva trocava olhares suspeitos com o acanhado policial, enquanto a sua mão esquerda estava mais ousada. Ele quase perde a concentração quando sente aqueles dedos de toque envolvente tocarem numa certa área estratégica do corpo masculino.
- Leon... - Pergunta Naru com um tom manhoso na voz
- O que foi, Naru? - Leon por pouco não comete uma barbeiragem.
- Posso conhecer o teu apartamento?... - A jovem professora estava
totalmente dominado pelo clima da balada e sentindo-se carente por
dentro.
- Hã? - Ele se faz de desentendido. Quase nunca nenhuma garota
perguntou isto para ele, ainda mais no primeiro encontro.
- Onde você mora? - A voz da ruiva saía insinuante e cheia de
segundas intenções.
- Bem.. Eu moro em Downtown... mas... não ficaria muito tarde
para você? E depois... Ele não é essas coisas... - O policial loiro
hesita, por temer fazer alguma bobagem do qual ambos viessem a se
arrepender mais tarde.
- Ah, Leon... Não ligo para isto... O meu apartamento onde moro,
como você viu naquela vez, é bem simples também. - Embora fosse uma
pessoa de gostos exigentes, no fundo, Naru nunca se importou para
demonstrações de riqueza, tendo dispensado mais de um filhinho de
papai.
- Bem... Vamos deixar para outro dia... É que ele está meio
bagunçado e... - Por "bagunçado", Leon temia que Naru ficasse chocada
com os inúmeros pôsteres pornográficos que enfeitavam sua sala e seu
quarto, bem como as pilhas e pilhas de revistas hardcore (Hustler e
similares), os DVD e fitas de vídeo com capas imorais e a bagunça
crônica que era sua cozinha - pratos sujos na pia, talheres em
desordem, caixas usadas de pizzas e lasanhas, além de uma geladeira
lotada de "junk food" e latinhas de cerveja.
- Que é isto... Eu posso arrumar tudo para você e... - A ruiva já
não media tanto as conseqüências.
- Naru, até eu gostaria, mas acabei me de lembrar que a minha irmã
vem me visitar hoje a noite, junto com o Chris, o meu caçula... Deixa
para outro dia...- Leon estava morrendo de vergonha de mentir, mas
seria ainda pior falar a verdade, diante da possibilidade de Naru
ficar chocada com o seu desmazelo.
- Ah... tudo bem. Mas vou te cobrar... - Responde meio contrariada
a bela estudante e professora, não totalmente convencida. Será que
Leon tinha algum caso com alguma menina do qual ela não sabia?
- Eh... Pode me indicar onde fica exatamente o seu apartamento?
Naru - tentando esforçar a sua mente ao máximo - dá algumas referências. Como só tinha ido lá uma única vez, Leon não se recordava do trajeto. Depois de algumas tentativas frustradas, a dupla chega ao estacionamento do condomínio aonde Naru residia por volta das Dez e Quarenta e Cinco da Noite. O pior havia passado, mas a desastrada dupla iria pagar caro na manhã seguinte. Devido à mistura alcoólica que fizeram no barzinho, a cabeça de Leon latejava e Naru não sentia as pontas dos seus dedos das mãos e dos pés. Se não arranjassem qualquer meio "milagroso" caseiro, ambos teriam uma bela ressaca na manhã seguinte. Embora estivesse vestida de maneira informal, Naru ainda estava muito bonita e desejável. Após ter se recuperado da depressão que possuía há semanas atrás, ela passou a se cuidar mais de si mesma e parou de abusar do excesso de remédios e da rotina estressante que seguia todos os dias. Tomando emprestado um casaco de Leon que estava no carro - estava começando a fazer frio e não tinha levado nenhum agasalho - a jovem professora e o policial se despedem na garagem, em frente ao elevador. Pouco antes, os dois haviam trocado os números de seus celulares, bem como os horários aonde poderiam ser encontrados. Nada mal para um encontro meramente casual.
- Naru, eu preciso ir andando... Agradeço muito... pela gentileza
e espero que se cuide...
- Ah, Leon, foi um prazer te conhecido... Valeu muito ter te
conhecido... E, mais uma vez, muito obrigado por ter me salvado...
- Que nada, foi apenas o meu dever...
Neste momento, Naru sente uma vontade de convidar Leon para... entrar no seu apartamento para tomar mais um drinque e quem sabe.... Só que imediatamente as palavras do contrato firmado com Count D surgem em sua mente, e ela se lembra do seu amado Kei-kun.... Não... não seria prudente arriscar... Depois, ela ainda ia ter todo o tempo do mundo para conhecer melhor o policial loiro. A ruiva percebe que o policial está meio que acanhado, e se equilibrando nas pontas dos dedos, se despede dele abraçando-o e dando um selinho no lado do seu rosto.
- Tchau, Leon, se cuida.
- O mesmo digo eu,... gati... ops. Naru. Até mais. - Leon fica
encabulado ao perceber que estava falando demais e fica vermelho. Naru
percebe e deixa escapar uma risadinha.
Ela aguarda uns instantes e somente entra no elevador quando o carro de Leon sai da garagem, indo em direção ao centro da cidade. Com uma pontada de tristeza na alma, ela entra no mesmo e em seguida está no seu apartamento. Com um pouco de dificuldades, ela encontra a chave certa e abre a porta.
- Kei-Kun, sou eu. Cheguei!
Kei-Kun, que estava placidamente sentado na sala de estar, esperando por sua dona, vem direto para abraçá-la. Só que desta vez hesita um pouco. É perceptível no seu olhar uma ligeira expressão de medo e susto ao constatar que a aura de sua dona estava mesclada de sentimentos e emoções conflitantes, além de estar embotada, entorpecida. Timidamente, ele se aproxima, e abraça a sua mestra, como se fosse o verdadeiro Keitarô.
- Mamãe?...
- Está tudo bem, querido.... Não se preocupe porque vou fritar uns
dorayakis daqui a pouco para você. - Naru retribui o abraço de forma
terna, enquanto acaricia aqueles cabelos negros brilhantes e sedosos.
O efeito do álcool estava começando a passar e ela estava recobrando a
lucidez, só que o cheiro era ainda forte o bastante para assustar o
puro ser.
Ela não percebe um tênue filete de lágrimas escorrendo do olho esquerdo do pequeno Kei-kun, que parece estar preocupado com o seu estado. Enquanto isto, a quilômetros dali:
- Kyuuuu? - A figura de um coelho voador guincha de forma estranha
ao seu mestre, que está recostado num elegante divã, lendo um antigo
pergaminho chinês.
- Não se preocupe, Q-Chan, daqui a pouco iremos descansar...
Amanhã teremos um dia cheio pela frente. - Comenta o proprietário do
singular mascote, vestido com uma túnica verde-jade com detalhes
dourados.
Ao terminar de ler o pergaminho - que parecia estar muito bem conservado, apesar de ter centenas de séculos, D se levanta de forma lânguida, e - acompanhado de Q-chan, empoleirado em seu ombro direito - se retira aos seus aposentos.
- Leon, cuidado com os seus sentimentos... - Murmura de forma vaga
e misteriosa D, antes de entrar no seu quarto. Os seus olhos estavam
tristes e como que estivesse tentando vasculhar um futuro que ainda
não aconteceu.
Q-Chan abaixa a cabeça sem nada dizer.
Notas Complementares deste capítulo:
LAPD: Departamento de Polícia de Los Angeles. A sua área de atuação é dividida em vários distritos. O Distrito central, ao qual Leon pertence, possui cerca de 400 membros.
UCLA: Universidade de California-Los Angeles. Uma das mais famosas do mundo e famosa por seus cursos de pós-graduação. Fica no bairro de Westwood e o tamanho de seu Campus equivale ao de uma pequena cidade;
Sukebê: Pervertido;
Beverly Hills: Famoso bairro de Los Angeles, conhecido por ser habitado por pessoas da alta sociedade e celebridades de Hollywood. O custo de vida existente neste bairro chega a ser altíssimo a ponto de uma camiseta comprada num shopping custar mais de 200 dólares;
Chris Orcott: Irmão mais novo de Leon e cerca de dez anos mais novo do que ele. Aparece apenas no mangá do Pet Shop of Horrors.
Jill: No OVA, ela é a bonita assistente de Leon, acompanhando-o em suas perícias e fornecendo informações. No mangá, ela é secretária do Departamento de Homicídios, no qual o esquentado policial trabalha. Aparentemente ela não dá muita bola para ele. O curioso é que tanto Jill como Leon são nomes dos personagens do game "Resident Evil" da Capcom que foi lançado anos mais tarde. Coincidência ou homenagem?
Escrito por: Calerom Data: 26/10/2003 myamauchi1969@yahoo.com.br
