CAPÍTULO 7:

DEZEMBRO.

Alguns dias depois do inesperado reencontro entre Naru e o Detetive Leon Orcot no parque, algo havia mudado na rotina destes dois corações solitários.

O impulsivo detetive loiro e a jovem ruiva já não eram mais meros conhecidos e este fato era evidente na forma como passaram a se comportar. Tanto a jovem que veio do distante Japão e o policial americano começaram a se conversar pelo telefone celular todos os dias.

Uma semana mais tarde, Leon passou a levar a estudante de Direito de carona para a Universidade ou para o colégio secundário aonde dava aulas, tanto na ida como na volta.

Já na segunda semana, Leon se ofereceu para ajudar a sua nova "amiga" a fazer compras e a levá-la na feira dos produtos japoneses em Little Tokyo, coisa que ela aceitou com prazer. Este contato constante ajudou Naru a gradativamente sair do seu estado de auto-isolamento e solidão crônicas em que se encontrava desde a morte de Keitarô.

Contudo, o esquentado policial do LAPD ainda se sentia meio constrangido e acanhado nestas ocasiões, já que não estava acostumado a sair com lindas garotas, ainda mais em público - e ficava particularmente envergonhado quando via pessoas cochichando ou reparando nele ao andar com a ruiva...

Era irônico o fato de que, antes de conhecer Count D, Leon não era nem um pouco simpatizante dos orientais.

Além de não saber distinguir um chinês de um japonês, o detetive de pavio curto achava os asiáticos artificiais, arrogantes, dissimulados e ostentando um sorriso de superioridade perante os americanos, como se zombassem da civilização ocidental e de seus valores.

Só que isto iria mudar gradativamente... A partir do momento em que ele visitara aquela Pet Shop misteriosa de Chinatown pela primeira vez, ao investigar as misteriosas mortes de um casal que tivera uma filha chamada Alice e a do astro de Hollywood chamado Robin Hendrix, há vários anos atrás, Leon passara - ainda que relutantemente - sentir-se misteriosamente atraído por uma civilização exótica e por uma cultura que já estava em seu auge séculos antes do seu próprio país existir.

Estes sentimentos antagônicos de repulsa e atração estavam sintetizados no complexo relacionamento que mantinha com o delicado e elegante jovem de cabelos negros, pele pálida, olhar penetrante - e sempre vestido com impressionantes túnicas das mais diversas cores e padrões - que dirigia a estranha Loja de Animais.

Contudo, o que intrigava Leon era a profundidade das idéias e observações de D sobre a complexa natureza dos desejos humanos. Apesar de aparentar ter menos de 25 anos de idade, o jovem nobre chinês possuía uma sabedoria que parecia atravessar séculos ou mesmo eras.

*****

O outono mal havia acabado e a estação do frio entrava em cena no Hemisfério Norte, marcando a sua presença pelas luzes natalinas, a corrida frenética às compras nas lojas e as festividades do ano que se iniciaria a seguir para os ocidentais.

Embora o Natal fosse uma época de descanso e lazer para a maioria das pessoas, algumas tinham que continuar trabalhando incessantemente mesmo durante o 25 de Dezembro: aeroviários, motoristas, caminhoneiros, médicos, enfermeiros, funcionários das empresas abastecedoras de energia, água e telefone - bem como todos os que tinham a dura tarefa de garantir a lei e a ordem 24 horas por dia e 365 dias por ano: Os policiais.

A véspera de Natal era um dia como qualquer outro no Departamento de Polícia de Los Angeles, embora a decoração interna estivesse mais alegre do que de costume - com árvores de natal repletas de mensagens otimistas, bonecos de renas e papais Noéis, luzes coloridas piscantes e plaquetas com as inscrições "Merry Christmas".

Já era tarde no escritório da Divisão de Homicídios do LAPD, e Leon estava profundamente cansado e entediado - mal disfarçando a ansiedade de encerrar o seu expediente o mais rápido possível.

Ele estava no momento acompanhando as notícias "online" das ocorrências policiais transmitidas pelos agentes que estavam em patrulha nas ruas do centro da cidade pelo terminal de seu computador. Ah, nada como a evolução da Internet e da Informática nos últimos anos! Se ao menos houvesse um meio de se prever quando e onde um crime ocorreria...

Felizmente, nada de realmente grave acontecera até o momento no Distrito Central da Cidade dos Anjos. Afora alguns acidentes de trânsito, bebedeiras e brigas de vizinhos como de costume, não havia nada de realmente preocupante.

Contudo, o quotidiano habitual deste Departamento nem sempre era tão pacífico como neste dia festivo. Na semana passada, a Cidade dos Anjos foi sacudida por uma guerra entre traficantes de armas integrante de uma gangue de imigrantes armênios e os membros da máfia das drogas na Zona Leste - tudo isto seguido de uma onda de violência nos bairros mais pobres da cidade, causando medo, caos e mortes.

Além de Leon e toda a Divisão de Homicídios, até a própria SWAT teve que ser acionada para conter a onda de violência crescente. Aqueles dias realmente foram estressantes e o policial loiro teve que estar no "meio do furacão" coletando informações, invadindo bocas de fumo e inferninhos com autorização judicial, interrogando suspeitos e dando apoio às unidades especiais da polícia - sempre voltando tarde da noite, para apenas voltar rapidamente ao serviço poucas horas mais tarde.

Enquanto mantinha um olho fixado nas notícias da cidade, com o outro, Orcot se deleitava numa das "janelas" do programa navegador da Internet do seu microcomputador mostrando sedutores corpos femininos com pouca ou nenhuma roupa e certos detalhes "impublicáveis" para menores de idade - todos provenientes de um site pornô "free".

A outra janela do navegador indicava os últimos resultados em andamento no noticiário esportivo, embora pela expressão fisionômica do policial ficasse claro que o seu time favorito estava perdendo, ou melhor, sendo massacrado impiedosamente pelos rivais.

Embora o temperamental Orcot não fosse muito fã do espírito consumista do final de ano - pura e simplesmente pela absoluta falta crônica de dinheiro - ele já havia comprado alguns mimos para suas irmãs mais novas e para o seu irmão caçula Chris, além de ter dado uma linda bolsa de couro para a sua colega de serviço Jill.

Contudo, havia outras pessoas que ele não havia esquecido.

Num canto de sua escrivaninha de trabalho estavam dois pacotes de presentes. Um deles era uma embalagem feita com papel brilhante vermelho com laços dourados e outro, uma caixa especial de papelão, que exalava um cheiro agradável de chocolate na sala, atraindo a curiosidade dos que lá passavam.

E certamente a observadora secretária Jill havia esboçado um meio-sorriso sutil ao ver os presentes, quando entrou na sala do seu colega. Ela estava trazendo uma pasta e um jornal debaixo do braço e percebera que Leon nem havia notado a sua presença - distraído que estava.

Jill era uma jovem alta, magra, com cabelos castanhos cacheados quase sempre presos num prático coque, embora algumas tranças teimassem em fugir.

Apesar de seus óculos arredondados aparentassem dar a ela um ar aparentemente calmo, o seu olhar era bem insinuante e vivaz. E finalmente, a sua beleza era adornada por um nariz levemente arrebitado e uma boca bem feita e delineada, apesar dos lábios finos.

Formada em direito, a linda secretária da Divisão de Homicídios era sutil, bem educada e esperta, agindo mais com a cabeça ao invés da ação instintiva e impulsiva de seu parceiro. Extremamente bem informada, era ela quem municiava Orcot de informações vitais e pistas. Além disto, pouquíssimas coisas que ocorriam na enorme metrópole americana ficavam fora do seu conhecimento.

Embora Jill fosse a secretária da Divisão de Homicídios e se ocupasse mais das papeladas e relatórios, freqüentemente ela ajudava o impulsivo detetive a tentar resolver os seus casos, pelo fato dela ter trabalhado no Departamento de Medicina Legal e de exames legistas da Polícia de Los Angeles.

- Oi, Leon, ocupado como sempre? Alguma novidade no noticiário? - Pergunta ela ao passar pela escrivaninha do loiro, fingindo que não havia notado uma pequena "janela" aberta mostrando uma "popozuda" em posição nada recatada.

- Hummm... Ei? Epa! Jill?! O que faz aqui?! - Leon se assusta ao notar a presença da garota e desastradamente clica na "janela" do browser que estava ativada no site pornô. Mas, ao invés de fechá-la, acaba maximizando-a, mostrando irrefutavelmente toda a cena do "crime", no sofisticado monitor de 21 polegadas de tela plana.

- Assustei você, Leon? - Sorri Jill, mostrando-se compreensiva com os hábitos moralmente pouco saudáveis do seu parceiro. Porém, se o comandante-chefe do departamento estivesse por perto, Orcot não contaria com a mesma compreensão.

- Puxa! Nem notei a porta se abrindo!... Alguma novidade?

- Não, nada de novo sobre o Sol. Já concluímos o laudo da autópsia dos mortos da guerra de gangues, bem como os interrogatórios dos sobreviventes que foram presos. - Responde a eficiente secretária, entregando os relatórios que trazia consigo ao seu colega.

- E então? - Diz Leon apagando o seu cigarro num cinzeiro improvisado com um copinho descartável de café.

- Nenhuma prova substancial foi encontrada para descobrir quem foram os mandantes que iniciaram aquele massacre. Apenas alguns nomes, mas só de membros de baixo escalão das gangues envolvidas.

- Putz, era só o que faltava. Apesar de não ser a nossa jurisdição, o tiroteio daquele dia foi tanto que o Departamento da Zona Leste foi obrigado a pedir reforços... Qualquer dia destes vamos ter que chamar a Guarda Nacional, o Exército, o Super-Homem, o Capitão América e até os Vingadores! - Gesticulava exageradamente Leon, quase derrubando uma xícara de café que estava num dos cantos da mesa.

- Bem, pelo menos, neste caso sabemos o que estamos enfrentando. A polícia já concluiu o mapeamento das áreas de atuação dos bandos do crime organizado na Grande Los Angeles. - Responde Jill, pensando nos casos insolúveis que de tempos e tempos deixava o departamento sem ação.

- Sem falar que alguns distritos da Zona Oeste tem enfrentado uma onda de violência por parte de estudantes em colégios. E o pior é que não há um padrão definido, Antes este tipo de crime só ocorria entre alunos pobres de colégios públicos. Hoje, até riquinhos brancos, anglo-saxônicos e protestantes que estudam em colégios que cobram 30 mil dólares por ano fazem as suas loucuras! - Comenta Leon com evidente preocupação no seu tom de voz, além de um nível elevado de stress.

- Verdade... - Jill nota que Leon está visivelmente tenso e cansado, resultado da semana infernal que passara recentemente e decide evitar fazer qualquer brincadeira no momento.

- Porra! Não bastasse o problema das gangues que infestam os bairros, pelo menos uma vez por mês aparece algum garoto criado por irresponsáveis que resolve descontar sua raiva do mundo metendo bala nos colegas e professores! Quero saber como um cara pode ter coragem de criar um guri para que ele saia por aí com uma Magnum 357 ou uma submetralhadora Uzi na bolsa! - Esbraveja o policial, mostrando à sua parceira, os recortes recentes de notícias de jornais e sites de Internet sobre a onda de violência estudantil.

- Se bem que a campanha anti-violência escolar que a Divisão Anti-Gangues fez tem tido alguns resultados concretos.

- Perdoe-me Jill, não quis te ofender. Acho que eu estou ficando ranzinza, mas o mundo está virando de cabeça para baixo. Não sei se a culpa é da TV, da recessão que assola este nosso país, do 11 de Setembro, do Governo, dos pais, das igrejas, da sociedade ou de nós mesmos, mas as pessoas estão vivendo como se não houvesse um amanhã. - Desabafa Leon, acabando de tomar todo o conteúdo de sua xícara, num trago só, percebendo que mais uma vez se excedera.

- Leon...

- Só de pensar nisto, fico meio receoso de me casar e botar um ou dois guris neste mundão... Quando a gente é mais jovem, vivemos criticando e falando mal de nossos pais, só que depois que passamos dos trinta, a gente, sei lá, fica meio careta e passamos até imitar o comportamento deles, sem saber.

- Hummm... Já tem alguém em vista para pensar numa futura família? - Sorri a jovem secretária, colocando discretamente a sua mão direita no ombro do companheiro.

- Quem me dera se tivesse uma garota! Ahahah! Sei lá, acho que o meu karma é morrer solteirão, pé rapado, com uma baita barriga de chope e sem conhecer a princesa de meus sonhos... - Leon esboça um sorriso amarelo e passa a rir de si mesmo. Contudo, em seguida, ele muda de expressão e finaliza a sua frase com uma expressão de puro desânimo.

- Será? Hoje o pessoal do departamento estava comentando que um certo detetive arranjou uma linda pretendente a ser a futura Miss Orcot. - Comenta Jill sorrindo abertamente para Leon, esperando ver a reação dele.

- Putz! Tá brincando?... Só faltava esta! Não bastasse o que os colegas falaram do meu pobre carro quando o comprei, dizendo que tinha a mesma cor daquele ratinho elétrico que aparecia num desenho japa chamado pake... puke... poke-sei-lá-o-quê!? - Leon fica corado como um pimentão e instintivamente se levanta da sua cadeira, fazendo um barulho incômodo.

- Eu até duvidava, mas olha só o que apareceu na página da coluna social do principal jornal da cidade. - Jill sorri e mostra para Leon uma certa página de jornal que ela estava carregando debaixo do braço.

- Deixe-me ver... PUTAQUEPARIU!

A foto colorida, tirada alguns dias atrás, não dava margem a dúvidas. Embora no primeiro plano mostrasse um sorridente casal da "high society" californiana - flagrado à noite num barzinho da moda - as fisionomias de Leon e de uma linda jovem ruiva bebendo cerveja numa mesinha logo atrás eram nitidamente reconhecíveis, sem precisar de uma ampliação fotográfica.

A jovem desconhecida - para os colegas de Leon - estava com um olhar lânguido e sensual, com a mão direita envolvendo sugestivamente o braço esquerdo do loiro.

E quanto a Orcot, o mesmo aparecia com a sua costumeira cara de tacho que fazia quando estava numa situação embaraçosa com pessoas do sexo oposto.

Esta havia sido a fofoca da semana no Departamento e somente Leon - totalmente alheio com qualquer coisa não ligada ao seu serviço - não havia percebido os fuxicos e sorrisos maliciosos dos colegas.

Primeiro, pelo fato de estar "naqueles dias", andando pela cidade a procura de pistas e informações sobre a recente guerra de gangues. E segundo, pelo fato dele ser muito pouco sutil e totalmente inábil para perceber este tipo de coisas vindo de mulheres, ainda por cima, lindíssimas.

- Jill, não! Não é o que você está pensando... E-ela... - Leon tenta desmentir, mas a sua expressão embaraçosa e o rosto coradíssimo o traem.

- O Nome dela é Naru Urashima, certo? Uma garota linda e muito inteligente, pelo visto: Primeira colocada no ranking nacional de estudantes do Japão em 1998, formada com láurea acadêmica na Universidade de Tokyo em 2004 e atualmente cursando um mestrado em Direito Internacional na UCLA... - Responde calmamente a sua colega, citando os fatos que lera com uma precisão incrível.

- Co-como sabe disto? - Gagueja Leon. Será que Jill possuía um sexto sentido como Count D tinha?

- Ué, não era você que estava lidando com o caso de um arqueólogo japonês que foi encontrado inconsciente e quase morto no apartamento que residia em Westwood no outono? Ontem estava arrumando os arquivos, quando dei de cara com o seu relatório final. O rosto dela me chamou a atenção e conferi com a do jornal. Suponho que era a ex-esposa do finado Keitarô Urashima...

- Sim, mas ela está... - Murmura Leon pensando em alguma desculpa para dizer à sua colega.

- Livre e desimpedida, não é? Este é um país livre e desde que se respeite as leis e a nossa constituição, nada impede que você... - Sorri maliciosamente a secretária, dando um tapinha de encorajamento no desanimado policial.

- Putz, tinha esquecido disto. É isto mesmo, Jill.

- Como tinha visto o nome dela e conferindo a foto do arquivo, juntei as peças que faltavam neste "pequeno" mistério.

- M-mas, como s-sabia d-dos fatos sobre a N-naru, Jill?

- Nada de especial. O Google é uma ótima fonte de referências nos dias de hoje... - Responde Jill dando de ombros e sorrindo sugestivamente.

- Quem me dera se a Internet pudesse servir para solucionar os casos que envolvessem a Loja de Animais de Count D... - Suspira Leon, lembrando da altíssima porcentagem de relatórios com o carimbo de "NÃO-ESCLARECIDO", envolvendo os ex-clientes da Pet Shop de Chinatown.

- Como ele tem passado? Vocês não se falam a algum tempo... - Pergunta Jill cordialmente. Ela mesmo tivera a oportunidade de conhecer e visitar D num dos casos anteriores de Leon.

- Você diz, desde aquele caso do finado magnata Ferris? Bem, faz semanas que não dou as caras em Chinatown... - Responde Leon, mostrando sinais de visível stress, só de se lembrar do caso do magnata da indústria vinícola recentemente morto.

- Caso resolva visitá-lo, mande minhas lembranças para ele e Q-Chan. Ah, e deseje-lhes um feliz natal! - Responde a secretária, com os seus lindos olhos expressivos brilhando de felicidade.

- Você é paranormal, por acaso? - Pergunta Leon com uma enorme gotona saindo atrás de sua cabeça.

- Hummm... E este cheiro agradável de bolo não serve de prova material? - Comenta Jill fazendo a cara mais inocente do mundo.

- Ok. Você venceu. Estava indo para lá... Mas juro que era por motivos profissionais! - Diz Orcot, visivelmente constrangido.

- Sei. Vou fingir que acredito nisto.

- Jill, Leon, vocês estão ainda aqui? - Uma voz grave se faz ouvir do lado de fora da sala e em seguida um homem moreno-escuro de feições latinas e trajando um terno formal entra na mesma.

- Sim, senhor.

- Hã? Oi, chefe...

- Tudo bem, tudo bem... Se quiserem, podem sair hoje mais cedo. O pessoal que vai ficar de plantão no Departamento acabou de chegar e creio que não há indícios de que irá estourar de novo aquela guerra de gangues... - Comenta o oficial superior de Jill e de Leon.

- Muito obrigado, chefe. - Agradece cortesmente a secretária.

- Bem, se é assim, acho que vou indo. Tenho que ainda visitar alguns amigos e... - Diz Leon se levantando de novo de seu lugar.

- Leon, não gostaria de passar o Natal em casa? Estou fazendo uma pequena festa com algumas amigas e... - Propõe a simpática secretária.

- Tudo bem, Jill, agradeço a gentileza, mas eu já tenho um lugar para ficar. Puxa, quase seis da tarde! Chefe, se me permite... - Comenta Orcot ao olhar o seu relógio e se levantando para ir embora.

- Leon, você vai passar na Loja de Count D em Chinatown? - Pergunta o seu superior, com um tom calmo, paternalista e quase benevolente.

- Bem... iria só ver como as coisas... - Leon fica de novo constrangido e tenta disfarçar para salvar as aparências, enquanto se dirige com passos incertos à saída do escritório. .

- Posso pedir um favor? - O veterano policial franze o cenho e pergunta a Leon com um tom de voz incrivelmente sério.

- Tudo bem. Posso. - Antes que abrisse a porta da sala, Leon se prepara, imaginando receber alguma repreensão ou bronca, já que isto era relativamente comum no seu serviço.

- Pode perguntar para ele se aquele raríssimo pingüim de águas tropicais que vi na semana passada ainda está à venda? - Sorri o chefe de Leon, como se fosse uma criança travessa implorando para seu pai comprar um bichinho de estimação.

- Tá! - Responde Leon, ao se preparar para sair, com uma gotona ainda maior na sua cabeça. "Putzgrila, era só o que faltava!"

- Leon, tome cuidado! Ah, caso mude de idéia, você sabe onde fica o meu apartamento! - Responde Jill, se preparando também para sair do escritório.

- Tá bom! - Responde Leon sem olhar para trás, como se estivesse com pressa.

- Pobre rapaz, ele tem estado meio estressado nestas últimas semanas, Jill. De fato, a guerra de quadrilhas que estourou na Zona Leste tem pesado em nossas cabeças. Ouvi dizer que o comandante do Distrito Leste e o chefe de operações da Divisão de Narcóticos foram substituídos... - Comenta o chefe, com um tom compreensivo e paternal.

- Pois é, realmente o crime não tem feriado e nem dia santo em seu calendário. - Responde Jill, se preparando para vestir o seu casaco, pois fazia frio.

- Ah, a propósito, é verdade que Leon arranjou uma cara metade? - Sorri o oficial comandante, se lembrando dos comentários dos seus homens durante a semana.

- Bem, tenho escutado alguns comentários dos agentes, mas acho que se trate apenas de uma paquera.

- É, realmente ele está precisando. Assim como você, Jill. Sabe, uma garota jovem e que tem uma vida toda pela frente, precisa pensar no futuro e...

- Heh, tudo bem, chefe. Eu sei disto. Apenas não surgiu a pessoa certa na minha vida. - Sorri Jill constrangida. Apesar de ser jovem e bonita, ela, assim como Leon, nunca pensara em algo mais sério envolvendo sua vida sentimental.

- Mas não vá deixar para mais tarde. Dizem que a Oportunidade é uma deusa apenas com cabelos na parte da frente. Quando ela passa em nossas vidas, temos que agarrá-la de frente, com unhas e dentes!

- Obrigada pelo conselho. Eu vou pensar nisto. - Sorri a linda secretária.

- Ah, e te desejo um feliz Natal, Jill!

- Obrigada, chefe....

Assim que o corpulento oficial se retira do escritório, Jill olha para a pasta do caso Urashima, contempla a foto da garota ruiva chamada Naru e suspira:

- "Leon, tome cuidado para não ferir o coração da sua menina e o seu..."

*****

A estação do Inverno marcava um certo período de baixa no movimento da loja de Count D, como em qualquer outra loja de animais - já que muitos de seus clientes viajavam nas férias ou resolviam gastar nas compras de Natal.

Contudo, as encomendas "especiais" que ele recebia de políticos e celebridades eram mais do que o suficiente para manter a sua Pet Shop livre de preocupações materiais.

Naquela tarde fria e acinzentada...

- Cara, eu ouvi falar que você tem o poder de vender qualquer criatura capaz de realizar qualquer coisa que a gente quiser! E não vou sar daqui até conseguir o que eu quero, custe o que custar! - Dizia uma voz juvenil irritantemente alta e visivelmente ansiosa.

- O que deseja, senhor? - Responde cortesmente D, procurando não se mostrar irritado com a flagrante descortesia do freguês.

- Eu quero... Qualquer ser, deste mundo ou dos infernos, que seja capaz de seduzir uma garota pra mim e que possa fazê-la totalmente submissa aos meus desejos! - Dizia o dono da voz, que mostrava evidentemente que conhecia a fama daquele lugar cheio de mistérios.

- Sinto muito, mas a nossa casa não trabalha com magia negra ou coisas semelhantes. E depois a política desta loja é de não vender qualquer animal que possa causar deliberadamente danos físicos ou morais a terceiros.

- Como é? Deixe de ser tonto, homem! Não andei por Chinatown inteira para voltar de mãos vazias! E não adianta me enrolar porque meio mundo desta cidade sabe que você... - Ao se ver contrariado, o jovem começa a ficar nervoso e a gesticular muito.

- Infelizmente, meu jovem, eu não tenho como realizar o seu pedido.

- O quê você disse??? Que não tem como... ! - Ao ouvir a recusa, ele fica incrédulo e pálido como cera.

- Exatamente. Não tenho como realizar o que você me pede.

- Sabe com quem está falando? Eu sou Biff Stanley Jr., do clã Stanley de Boston! Se você me vender qualquer um de seus bichos milagrosos para me ajudar a conseguir o que eu preciso, os meus velhos te farão um homem rico! Minha família é proprietária de várias indústrias e... - Diz arrogantemente o estudante universitário, o mesmo que havia tentado seduzir Naru num passeio pelo parque e que foi humilhado por Leon, que aparecera a tempo de salvar a moça.

- Já disse. Por favor, não insista.

- Espera aí, D! Eu também preciso de outra coisa para me livrar duma fria que me meti! Você tem que me ajudar! - Desta vez, ele muda de estratégia e seu tom de voz sai carregado de certa angústia e apelo.

- O que é?

- Eu... sou estudante da UCLA e na semana passada, eu entrei de bobeira num rolo no campus por ter seduzido uma funcionária da Universidade... Sou inocente! Eu juro que fui na onda da menina e... - Diz Biff, tomando o cuidado de omitir certos detalhes, entre eles o fato de estar bêbado no momento e de ter sido apanhado em flagrante dentro do recinto no campus, no horário do experiente.

- Agora está sendo ameaçado de suspensão ou expulsão pelo regimento disciplinar do campus, certo?

- É... é isto, cara! Você tem que me ajudar para me livrar deste rolo! J-juro que não foi por mal e... - Biff está claramente tenso e sem saber o que fazer direito, já que era a primeira vez que ele tinha que responder por seus atos irresponsáveis.

- Acho melhor você poupar o seu precioso dinheiro comigo e tentar contratar um excelente advogado, além de um psicoterapeuta. - Responde D sem ao menos olhar para o arrogante jovem bostoniano.

- O Quê?... - A indagação sai de sua garganta, num tom misto de incredulidade, surpresa e raiva.

- Sugiro firmemente que o meu jovem mestre dê uma passada na feira local deste bairro às quintas de madrugada e comprar uma dose da Erva Xien'Sun... Dizem que o chá feito com suas folhas maceradas é ótimo para aplacar o desejo sexual desordenado, além de tonificar os vasos cerebrais! - Responde D, mostrando um sorriso sutilmente irônico, enquanto volta a se sentar numa poltrona, se preparando para tomar o seu chá.

- Eu não preciso de uma $#@$@#$ destas, Seu...

O jovem Biff se prepara para agredir Count D, que apenas calmamente toma o seu chá, ignorando o intento hostil.

Q-Chan guincha nervosamente, batendo as suas asas freneticamente. Contudo, antes que pense em fazer algo, o filhinho de papai que veio da Costa Leste sente uma pesada mão tocar no seu ombro direito - forte e ameaçadora para dissuadi-lo de fazer bobagens.

Biff se volta, e fica incrédulo ao ver o que parece ser um segurança da loja: Um homem negro, medindo aproximadamente pouco mais de 2 metros de altura. A desconhecida figura estava trajando um uniforme de vigilante e a musculatura de seu corpo era de dar inveja a um Mike Tyson da vida.

O mimado estudante reprime um resmungo e desiste, por hora, de seus intentos agressivos. Não bastasse a humilhação que sofreu quando enfrentou aquele policialzinho que apareceu do nada quando estava quase conseguindo fazer a gostosa da Naru ceder aos seus desejos, ele percebeu que seria besteira encarar o brutamontes uniformizado.

Fingindo não estar abalado, o playboy se levanta dando um sorrisinho besta e com passos incertos, dirige-se à porta de saída e lança um último olhar arrogante a Count D e o seu anônimo segurança.

- Tá bom, cara!... Mas não pense que desisti fácil desta! Os Stanley de Boston sempre conseguem o que querem e ainda você irá ouvir falar muito de mim, ouviu?

- Passar bem, meu bom jovem. - Diz D, com um leve sorriso de expressão indecifrável.

O playboy nada responde e sai, batendo a porta ricamente ornamentada com um forte ruído. Frustrado e a um passo de explodir de raiva, ele vai subindo a escadaria que liga a loja à rua com passos rápidos e furiosos.

Na saída, ele esbarra com uma figura que estava acabando de entrar, carregando um pacote. O choque é inevitável e por pouco o visitante não deixa cair o pacote misterioso.

- Ei, olha por onde anda! - Diz o dono do pacote, claramente irritado.

- Ah, vai te catar, seu banana!

Biff resmunga outro palavrão incompreensível e vai caminhando sem pedir desculpas. Por causa de sua raiva e da frustração em não ter conseguido o que queria, ele não tinha reparado que havia trombado com o mesmo policial que tinha salvo Naru de suas garras naquele final de tarde no parque.

O policial Leon Orcot, Detetive do departamento de Homicídios do Departamento de Polícia de Los Angeles.

O loiro ficou claramente irritado com a trombada, só que no momento estava mais preocupado em ver se o conteúdo do pacote não sofreu maiores danos do que ir atrás do adolescente mal-educado para tirar satisfações.

Após uma rápida examinada, ele - como de costume - desce a escadaria que liga a bizarra Pet Shop e o seu mundo de sonhos à realidade material do mundo exterior.

- Kyuuu? - Guincha de forma interrogativa Q-Chan, o misterioso ser que morava com D, enquanto voava com suas asas de morcego.

O tilintar delicado de sinos colocados na cortina do hall de entrada anuncia a chegada do novo visitante.

- Oh, seja bem vindo à minha humilde loja, detetive. - Diz o jovem chinês, em tom cordial e amistoso, apesar de ter passado maus bocados com o cliente anterior.

- Olá D, eu trouxe um presentinho antecipado de Na... Ei, Epa!

Leon acaba de atravessar a delicada cortina de seda com motivos chineses e fica assustado ao ver um enorme vulto de uma pantera negra que estava repousando aos pés do nobre chinês. O felino nota a presença do policial e o encara silenciosamente com os seus olhos brilhantes e ameaçadores.

- Está tudo bem. Rajiv, você pode voltar aos seus aposentos. O detetive Leon é um velho amigo nosso. Muito obrigado pela sua proteção, meu bom amigo.

Ronronando para seu mestre como se fosse um gato crescido, a enorme pantera negra se levanta e recebe uma carícia em sua cabeça pelas delicadas mãos de D. E em seguida, com passos silenciosos, ela desaparece por uma das portas do corredor que liga aos diferentes setores da loja de animais.

- Hummm, medida de segurança? - Pergunta o policial da Cidade dos Anjos, visivelmente desconfiado, já que o chinês nunca foi de deixar os seus bichos à solta, ainda mais os felinos de grande porte.

- Raramente necessito disto, caro detetive, mas infelizmente um cliente em potencial estava... Um tanto quanto muito nervoso. - Responde D no seu jeito tipicamente sutil e vago.

- Kyu, Kyu, Kyu. - Q-Chan voa ao redor de Leon como que para importuná-lo. Embora ele fosse normalmente amistoso e cortês com a maioria dos clientes de D, por motivos vários, o singular animalzinho não ia com a cara do estourado policial.

- Eu sempre disse para você instalar um alarme em sua loja, mas imagino que confie mais em seus animais. - Comenta Leon, enquanto tenta afastar Q-Chan com as mãos.

- Ah, sim... Perdoe-me a minha indelicadeza, detetive. Não gostaria de fazer um rápido lanche com a gente? Hoje pelo visto, o nosso movimento vai ser um pouco fraco... - Propõe Count D, sorrindo discretamente, ao sentir um aroma do mais legítimo cacau brasileiro com seus sentidos super-apurados.

- Sempre na sua loja é a hora do chá! - Responde Leon com o seu costumeiro sarcasmo, embora no instante seguinte, ele faça uma expressão meio envergonhada e resolva mudar para um tom de voz mais condizente com o espírito natalino - Bem, D... Como disse, trouxe o seu presentinho de Natal, só que infelizmente o babaca que você atendeu acabou esbarrando comigo lá fora e receio que tenha amassado um canto da embalagem.

- Vamos ver... Oh, meu caro Detetive! Você se deu o trabalho de comprar este delicioso bolo de natal da confeitaria da Madame X? Oh...Delicioso! Maravilhoso! Sim, Sim! Não sei como te agradecer! - Exclama o nobre chinês num estado de quase êxtase, denunciando o seu fraco por coisas doces e deliciosas.

- Errr... foi mal, D. Como vê, um canto da caixa ficou amassado e acabou estragando dois dos suspiros que guarneciam... - Comenta Orcot, meio envergonhado, sabendo que D era muito criterioso quanto à apresentação visual dos quitutes que apreciava.

- Não, não! Você não teve culpa... Agora, sente-se e relaxe-se que eu vou preparar um chá para nós dois. Eu sei que os meus padrões são um pouco exigentes, mas seria um autêntico crime desprezar esta delícia só por causa de dois suspiros!

- Kyuuuu? - Sorri Q-Chan, flutuando de um canto para outro.

- "Cara esquisito, sô!"

Os minutos passam velozmente e enquanto Leon fica trocando olhares implicantes com Q-Chan, o elegante chinês retorna com uma bandeja contendo uma chaleira de porcelana trabalhada, xícaras diversas, um prato com salada de frutas e alguns biscoitos artesanais - um outro presente oferecido por um de seus clientes de costume.

D serve primeiro o seu temperamental visitante e em seguida pega delicadamente uma xícara, enchendo-a com um delicioso chá, cujo perfume convidava os presentes à meditação.

*****

Final de tarde. Num singelo apartamento de dois quartos localizado num condomínio residencial perto de Westwood, uma figura pensativa e levemente melancólica olhava para o movimento da rua através da janela da sala.

Para Naru, seria um momento particularmente doloroso e difícil. Embora ela tivesse começando a superar o trauma da dor e da perda recentes, a época de Natal era um momento cheio de carga emocional que trazia à tona emoções reprimidas e lembranças há muito tempo esquecidas.

Saudosa, ela se lembrava do Natal de 1998, um dos primeiros que passou com a turma da Pensão Hinata. Naquela ocasião, Keitarô - que mal havia acabado de assumir o cargo de gerente do estabelecimento - havia tentado fugir de lá por causa de um péssimo resultado que havia tirado num simulado de cursinho para o exame preparatório da Universidade que pretendia fazer o vestibular, a Toudai.

No Natal seguinte, a dupla estava tentando mais uma vez tentar entrar na Universidade, desta vez com a presença da sua antiga amiga de infância Mutsumi Otohime. Naquela noite de 24 de dezembro, Naru havia flagrado Mutsumi beijando Keitarô num parquinho e - por muito pouco - ela não havia tomado a decisão de desistir de tentar alguma coisa com ele, deixando-o para sua colega.

A solidão atual da jovem estudante somente se comparava com a véspera de Natal de 2000, quando que Keitarô estava longe, fazendo um programa de intercâmbio com o seu ex-tutor Noriyasu Seta, justamente no Oeste dos Estados Unidos.

Entre vagas recordações, ela se lembrava que estava triste e deprimida por dentro, apesar das brincadeiras da turma - especialmente das suas amigas Kitsune, Mutsumi, Sarah e da Kaolla - e da animação da festa, movimentada e cheia de bebidas e iguarias diversas.

De lá para cá, todos os outros natais - incluindo o do ano passado - Naru havia podido compartilhar com Keitarô sem grandes incidentes - exceto, talvez, por um ou outro acidente pervertido da parte dele - o que a deixava momentaneamente irritada, causando os incidentes de costume. Mas logo isto passava por causa das trocas de presentes, das canções natalinas e da ceia comemorativa.

Reprimindo uma discreta lágrima que insistia em sair de seu olho direito, Naru se recordava do Natal anterior que passou com o seu marido, estando já casada - aquele que seria o último que passariam juntos nesta vida.

[Flashback]

- Keitarô, sua anta! Você tem coragem de me dar ISTO para uma moça como eu? - Esbravejava Narusegawa atirando um pacote aberto na cabeça de seu atrapalhado marido. Dentro do mesmo havia um conjunto de lingerie descaradamente erótico, com rendas, cinta-liga e aberturas "estrategicamente colocadas".

- IIIIKHHH! Perdão! Perdão! Na-Narusegawa! E-eu devo ter trocado o-os presentes. E-era para este pacote ter sido entregue na festa do amigo secreto com o Haitani e o Shirai! - Tentava se defender o pobre rapaz, enquanto corria da fúria de sua linda esposa, que queria esganá-lo.

- Quantas vezes eu já disse para não me chamar pelo meu sobrenome? Sou casada contigo! E mesmo que fosse um engano, você não toma jeito! Nem acredito que você tenha tido coragem de comprar um treco imoral numa data tão bonita! - Naru continuava zangada, embora momentaneamente tivesse desistido de perseguir Keitarô, resolvendo dar-lhe um de seus sermões que fazia quando ele cometia algum erro fenomenal.

- De-desculpe-me, acho que você tem razão... E-eu sou m-mesmo uma anta! - Diz o rapaz, envergonhado e arrependido de ter comprado aquele traje para tirar um sarro de seus ex-colegas na festa de amigo secreto.

Apesar de continuar sendo o garoto distraído e desajeitado de sempre, a convivência com os veteranos da faculdade e as mudanças pela qual passara haviam deixado Keitarô Urashima um pouco mais vivido e ligeiramente mais malandro.

- Keitarô! Não... - Naru subitamente muda de reação e percebe que o seu ex-parceiro de estudos estava demonstrando sinceridade no que dizia, além de ter percebido que poderia tê-lo magoado.

- Vo-você me perdoa?

- Ai, querido, me desculpe! Admito que fiquei de novo nervosa, como sempre... Mas, quero fazer uma trégua até o Ano Novo... Não vamos brigar mais. Gostaria que o ano que vem a gente começasse com o pé direito. - Responde Naru, fazendo força para mostrar um sorriso e esquecer do incidente.

- Naru, eu preciso conversar uma coisa com você, amor. Sei que a data é meio imprópria para isto, mas como a gente se encontra pouco por causa de nossos trabalhos...

- Tudo bem, pode falar, Keitarô. - Responde a jovem estudante formada, com uma ponta de curiosidade e dúvida.

- Você sabe que a nossa situação não está muito fácil financeiramente. Eu fiz alguns contatos e não sei se você aceitaria, mas estava pensando da gente ir pros Estados Unidos e ficar lá por um ou dois anos. Existe um programa de intercâmbio universitário e estou pretendendo pegar uma bolsa remunerada para estudar as tribos indígenas do Deserto do Oeste daquele país. - Responde Keitarô fazendo força para não gaguejar ou deixar mal explicada alguma coisa.

- De novo? Mal a gente se casou e você voltou a pensar numa coisa destas? Até parece que você gosta mais daquelas relíquias antigas do que de mim! - Responde Naru, em um tom de voz irritado, voltando a ficar nervosa de novo.

- Mas, Naru... É só temporariamente...

- Aliás, senhor Keitarô Urashima, o que é que a Califórnia tem que o Japão não tem? Não está querendo me trocar por uma loira escultural de olhos azuis, dando uma de gostoso pra cima das meninas de lá, não é? - A jovem esposa volta à ofensiva, desta vez apelando para os brios masculinos de seu amado.

- Não, não é isto, Naru... E é só por pouco tempo, eu juro! Se conseguir esta bolsa, depois pretendo voltar para o Japão, fazer um doutorado e arranjar um emprego decente na Universidade. Daí, a nossa vida poderá ser mais tranqüila financeiramente... - Responde Urashima, temendo que a sua última chance de progredir na vida estivesse indo por água abaixo, embora estivesse sinceramente pensando na felicidade de Naru.

- Keitarô... - A jovem ruiva escuta atentamente a explicação do seu marido e aos poucos, a face dura e emburrada dá lugar a uma expressão mista de ternura, ansiedade e tristeza.

- Naru, o quê?

- Por favor, não me deixe só! E-eu sofri muito quando você foi com o Seta-san naquela vez para a América! Tive que me entregar à Toudai e no meu serviço para não lembrar da saudade e da dor de saber que você estava longe de mim!... - Naru começa a se emocionar e finalmente abre o jogo para o seu amado, abraçando-o fortemente.

- Naru, não chore... - Keitarô também se emociona e abraça a sua amada. Ambos choram com os rostos colados, estando de joelhos no assoalho do pequeno apartamento por algum tempo.

- E-eu confesso que também fiquei preocupada... O salário que estou ganhando aqui não é o suficiente para te ajudar nas despesas! E a-ainda e-eu não t-terminei um curso para aprimorar o meu inglês q-que está pesando no seu orçamento! - Reprimindo os soluços, finalmente a jovem ruiva revela a sua verdadeira opinião a respeito da idéia do seu marido.

- Naru, não queria te fazer sofrer... Sei que a nossa situação está difícil, não queria que fosse deste jeito... - Diz Keitarô acariciando o rosto de sua jovem esposa.

- Sei que você está fazendo aquilo que gosta e fi-fico orgulhosa disto... amor! E eu quero lutar com você... Não te falei ainda, mas pretendo fazer um teste pra ver se pego uma bolsa de estudos numa Universidade Americana! Se você quiser, eu juro que te acompanho, nem que seja até nos confins do mundo! - Diz Naru, com uma resolução incomum para a sua personalidade habitual.

- Amor... eu.... - Keitarô fica sem saber o que falar, com os olhos marejados de lágrimas.

- Sabe, estou cansada de sentir me sozinha... de ter medo... Eu te achava um fracote e um banana há anos atrás, mas hoje sinto que você estava lutando por seus sonhos, e que poucos tiveram esta determinação que você tem! - Desabafa a jovem professora, abraçando fortemente o ex-gerente da pensão que fez parte da sua vida por muito tempo.

- Naruse...

- Keitarô! Prometa-me!

- Sim... Pode falar...

- Não me deixe só!... Eu quero te acompanhar aonde você for... Nem que isto seja a última coisa que eu faça na minha vida!

- Naru... E-eu prometo! Estarei sempre... ao teu lado.... - Promete o atrapalhado rapaz arqueólogo à sua companheira de todos os momentos..

- Querido... - Sussurra Naru, com a sua voz fortemente emocionada pela sensação de estar junto com a pessoa que mais amava no mundo.

- Sim?

- Beije-me...

[Fim do Flashback)

"Ma-mãe?" Com uma voz infantil e delicada, Kei-Kun, ou melhor, o unicórnio branco que Naru adquirira na Pet Shop de Count D interrompe o devaneio de sua mestra, ou melhor, de sua mãe adotiva.

Embora ele soubesse o nome de sua mestra, Naru o acostumara a chamá-la de mãe. Ainda como conseqüência do desastroso episódio que tivera com o unicórnio pouco antes de reencontrar Leon. Sentindo-se ainda culpada pelo incidente - que lembrava para ela um incesto - ela decidira adotar uma atitude cautelosa a respeito.

Com o rosto úmido de lágrimas, Naru esboça um sorriso e abraça ternamente Kei-Kun. Apesar de saber no fundo que Keitarô não estava fisicamente presente, a jovem ruiva sentia-se confortada, fortalecida e consolada pela companhia do ser que era a imagem e semelhança de seu ex-marido.

- Oh, Kei-Kun, você está com fome? - diz Naru, olhando com ternura ao seu companheiro e protegido.

Timidamente e com uma delicadeza fora do normal, o unicórnio acena negativamente. Ele já havia comido alguns doces japoneses durante aquela tarde fria e estava satisfeito.

Na sua pureza e inocência, o mitológico ser em forma de gente estava ao mesmo tempo surpreso e admirado com a decoração da singela árvore de natal, decorada com algumas luzes e raros cartões que Naru havia recebido - entre eles, um de seus colegas do curso de mestrado da UCLA, um das garotas da pensão Hinata e outro de sua família - bem como a mesa da sala de jantar, enfeitada com uma imaculada toalha branca.

Para economizar tempo, a jovem viúva já havia encomendado o peru de natal, um bolo de confeitaria, alguns salgadinhos e dentro da geladeira estava o champanhe num balde metálico cheio de cubos de gelo para este fim. Só que, mantendo fiel às suas tradições do seu país, ela fizera alguns pratos típicos, como alguns sushis e um pratinho de sashimi.

- Ma-mãe? - Pergunta Kei-Kun balbuciando com certa dificuldade e timidez, mas cujos olhos denotavam uma vivacidade e inteligência incomuns.

- Sim querido? Pode falar... - Diz a sua jovem mestra com ternura, acariciando os cabelos negros penteados do pequeno ser.

- Ma-mãe gosta de Kei-Kun?

- É claro que eu gosto! Você é o meu pequeno anjo que veio alegrar minha vida! - Sorri a ruiva, dando um rápido beijo na face direita do unicórnio..

- O que é... Natal? - Pergunta o puro ser, lembrando-se das propagandas que vira na televisão recentemente.

- Ai, como posso dizer? Natal é uma festa que lembra o nascimento do Filho de Deus chamado Jesus... - Diz Naru, após pensar um pouco, tentando se esforçar para falar coisas aparentemente simples, mas profundas.

- E o que é Festa?

- Bem... festa é um dia especial aonde as pessoas ficam mais contentes e preparam coisas gostosas para comer e passar o dia. - Responde a ruiva enquanto termina de ajeitar uma estrela estilizada na ponta do pinheirinho de Natal.

- Kei-Kun queria dar... presente para ma-mãe. Mas não tenho... - Responde o pequeno companheiro de Naru, um pouco triste por ter visto pessoas trocando presentes na televisão e não poder fazer o mesmo com a sua mestra.

- Não diga isto, meu anjo. Você é o meu maior presente! Vá lavar o seu rostinho e se trocar, porque daqui a pouco a gente vai jantar, querido! - Responde a jovem viúva, ao mesmo tempo surpresa e comovida pela inocência de Kei-Kun.

- Sim, ma-mãe...

Enquanto com passos rápidos e ágeis o pequeno e puro ser se dirige ao banheiro, Naru termina de dar uma olhada e se prepara para servir a mesa. Seria um Natal diferente dos anteriores, mas ela estava pelo menos começando a se sentir em paz consigo mesma. E a companhia de Kei-Kun a ajudaria trazer um sentido para esta noite de festividades aparentemente solitária, bem como a sua vida.

Subitamente a campainha toca. Quem seria?

Naru hesita um pouco. Ela não estava esperando visitas neste dia, já que não tinha convidado colegas ou amigos, seja na escola ou no curso de pós-graduação.

A jovem professora havia pensado em convidar Leon para a ceia há dias atrás, só que infelizmente não o havia localizado a tempo. Depois, pensava ela, era provável que ele passasse a festa na casa dos pais ou das irmãs dele.

Naru estava sentindo um pouco a ausência de seu "amigo", que estava há pelo menos uma semana sem falar com ela, mas estava ciente que ele estava muito ocupado - ao ver as notícias sobre a guerra de gangues na Cidade dos Anjos nos programas vespertinos. De modo que ela não chegou a insistir para importuná-lo ao telefone, embora tivesse deixado um recado na caixa de mensagens.

Aqueles foram dias terríveis e a professora orava todas as noites, pedindo ao Senhor que protegesse Leon e o conservasse vivo diante daquela verdadeira guerra.

Embora nunca tivesse sido muito religiosa, Naru começara aos poucos a redescobrir um Deus maior do que a vã teoria humana e a pensar sobre sua espiritualidade, a partir do momento em que despertou em sua alma uma nova razão de viver, decidindo não se entregar aos remédios e à bebida, como fizera após a perda de seu amado.

Era perfeitamente compreensível que Leon estivesse esgotado, estressado ou até mesmo em serviço, e que talvez fosse preferível o jovem policial passar o Natal sem pressões ou insistências de sua parte.

Ainda era cedo para se pensar em algo... Mais forte, embora o seu coração desejasse reencontrar com ele o mais rápido possível.

Por outro lado, havia o medo de que tivesse que fazer uma escolha, difícil e dolorosa. Entre a companhia fiel e certa de Kei-Kun e um relacionamento incerto, só que mais concreto com Leon.

A jovem professora receava que - mesmo que fosse por pouco tempo - isto acabasse se constituindo numa infração do estranho contrato firmado com Count D, apesar de uma parte de seu coração desejar ver e tocar o atraente detetive.

Por outro lado, o seu relacionamento com o Unicórnio estava se modificando aos poucos. Ela não o via tanto como substituto de Keitarô, mas como se inconscientemente tivesse a chance e a oportunidade de redimir de seu passado, dando mais atenção e carinho a alguém que era a imagem e a semelhança daquele que poderia ter sido Keitarô Urashima.

De certa forma, aos poucos ela estava cuidando de si mesma ao tratar do pequeno Kei-Kun, deixando cicatrizar as feridas e os mal-entendidos não resolvidos da época em que conhecera Keitarô.

Naru Urashima não tinha mais aquela quase paranóia de ficar praticamente isolada no apartamento, já que aos poucos estava conseguindo conciliar a sua agitada vida acadêmica e profissional com a sua necessidade íntima de companhia e afeto, representada pela misteriosa criatura que D lhe dera.

Depois, Kei-Kun era obediente o suficiente para ficar escondido no seu quarto, já que vez ou outra, Naru era obrigada a aturar visitas incômodas de vizinhos idosos, colegas de faculdade convidando-a para passear e irritantes vendedores de seguros. Nunca ninguém havia desconfiado de nada e no que dependesse dela, iria continuar assim.

- Já vai. Vou abrir a porta. - Diz Naru, enquanto preguiçosamente se dirige à entrada do apartamento. Ao mesmo tempo, ela dá uma olhada preocupada e sussurra ao seu pequeno unicórnio de estimação: "Kei-Kun, pode esperar-me no quarto enquanto a mamãe atende a visita?".

- "Está bem ma-mãe." - Obedece Kei-Kun, desistindo de ir ao banheiro e indo para o quarto que costumava dormir.

Satisfeita por ter um companheiro obediente e leal, Naru se dirige à porta, antes que o visitante resolva apertar de novo a campainha. Com seus dedos longos e finos, ela destranca a fechadura da porta do apartamento e dá um passo para trás, se esforçando para se mostrar simpática.

- Olá, feliz Natal! Que surpresa agradável...!

- Oi, desculpe-me pelo atraso e pela cara de pau...

- Leon, é você?!

Naru fica surpresa ao ver a figura do seu protetor, amigo e... algo a mais. Ela não sabia se o cumprimentava, pedia para entrar ou se chorava.

O policial loiro estava usando no momento uma jaqueta de couro, uma camiseta de mangas compridas, calça de lã cor cáqui e tênis de caminhada. Ele segurava um pacote esplendidamente embrulhado, além de trazer debaixo do braço uma sacola contendo algo provavelmente comestível.

Leon havia estado até a poucos instantes na Pet Shop de D, conversando e trocando impressões com ele sobre alguns rumores e somente uma olhada ocasional do seu relógio o alertou para seu próximo compromisso. Para piorar - mesmo conhecendo todos os atalhos e caminhos mais curtos para o bairro aonde Naru morava - ele não contava com o caos do trânsito de Los Angeles nesta época do ano.

A sua primeira reação foi de alegria por ver a sua amiga ruiva contente e com saúde. Só que no instante seguinte, a expressão do rosto de Leon muda para surpresa e espanto.

Embora Naru estivesse bem à sua frente, era possível ver uma sombra saindo de um dos quartos do apartamento - que estava iluminado por uma fraca luz de lâmpada e pelas velas espalhadas nos cômodos. Mesmo assim, os olhos treinados do policial distinguiam uma estranha silhueta que era projetada como uma daquelas sombras de Teatro Chinês.

A de um estranho cavalo com um chifre pontudo na testa.

Nota do Autor:

Peço desculpas aos leitores pela demora em atualizar este capítulo - quase 3 meses!

Ao contrário da tensão e inquietude dos capítulos anteriores, procurei colocar um pouco mais de humor e de situações do quotidiano de Leon e Naru, lembrando um pouco o espírito do Love Hina.

A fanfic prossegue no capítulo 8 que deve sair no final de fevereiro para começo de março (se o micro não der pau ;-) ), contando o início de uma reviravolta que marcará a fic, bem como o desdobramento do caso Biff.

Meus agradecimentos aos leitores que tem prestigiado esta fic, tanto no AFAS como na Webfanfics e na Fanfiction.net, bem como no fórum do Kdanimes, aonde "Despedida" tem sido bem acolhida.

Em especial, agradeço à Rogue, Wishmistress e Chii Motosuwa pelo incentivo, comentários e apoio recebidos. Também agradeço ao colega Alleran pelas oportunas sugestões e comentários a respeito da trama.

Rogue: Este capítulo não teria surgido se não fosse por sua sugestão de meses atrás. Muito obrigado pelo incentivo que tem me dado nesta fic e nos artigos.

Wishmistress: Sim, você descobriu o pequeno segredo envolvendo a trama da fic. Realmente Count D não é um ser humano (embora pareça ser) e ele tem mais poderes que o OVA sugere.

Chii: Obrigado por você ter lido esta fic. E agradeço pela observação que me fez no MSN dias atrás. Sim, os seres da loja de animais de D assumem a forma da pessoa mais querida pelos seus donos, embora não mudem de aparência caso a pessoa se apaixone por outra (como o caso de Naru com Leon). De qualquer forma, no manga apenas algumas pessoas conseguem ver os animais como eles realmente são (Chris, o irmão caçula de Leon era uma destas pessoas).

Alleran, você soube como poucos ir direto na "moral da história" da fic. Espero que este capítulo seja do seu agrado, assim como dos leitores. E é claro que o nosso amigo Biff vai aparecer em grande estilo nos capítulos finais...

Escrito por: Calerom.

Versão Final: 13 de Fevereiro de 2004.

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