CAPÍTULO 8:
Descobertas e Decisões.
Faltavam poucos minutos para o início do dia 25 de dezembro. As ruas da Cidade de Los Angeles estavam lotadas de gente, e o ruído combinado dos inúmeros fogos de artifícios, bem como os jingles natalinos, e os buzinaços dos veículos nas avenidas, davam o tom daquela noite.
Só que, destoando do espírito festivo desta época do ano, uma pessoa alta e forte andava em alta velocidade com o seu automóvel conversível cor "amarelo-pikachu", como se estivesse sem destino.
Apesar de ter sido uma noite agradável e até inesquecível em vários aspectos, o jovem Leon Orcot estava com o semblante carregado e angustiado, com uma sensação indizível a torturar e corroer a sua alma.
Justo agora que estava encontrando um rumo para a sua insossa vida particular, descobrindo uma nova força de viver e se apaixonando pela jovem ruiva chamada Naru Urashima - ex-Narusegawa - o Destino havia lhe pregado uma charada cruel e que fatalmente o levaria de novo ao caos e a incerteza dos conturbados primeiros tempos em que começou a trabalhar nos casos envolvendo a Pet Shop de Count D.
O primeiro impulso que teve após sair do apartamento da ruiva foi o de querer gritar, blasfemar e maldizer a esta cruel e invisível divindade que jogava com os sentimentos e vidas das pessoas... E o segundo impulso foi o de querer correr a toda velocidade para Chinatown para interrogar e cobrar explicações de Count D, mesmo que tivesse que apelar para a ignorância.
Somente o enigmático nobre chinês poderia ter uma ligação com a estranha silhueta que Leon jurou que viu, ao entrar naquele pequeno apartamento de 2 quartos no bairro de Westwood.
O apartamento de sua amada Naru. A pessoa que cativara o seu coração.
Foi somente por uma fração de segundo, mas este detalhe não escapou aos olhos treinados do policial. Ele não estava embriagado ou sonhando acordado para deixar-se confundir por qualquer besteira.
"Mas é claro, como pude ser tão idiota?", monologava o loiro consigo mesmo enquanto recordava os fatos recentes – enterrados no seu subconsciente devido ao stress acumulado dos últimos dias e da sobrecarga de trabalho por causa da recente guerra de gangues – ocorridos nos últimos meses.
Fazia pouco menos de 2 meses, mais precisamente naquela manhã em que apareceu no apartamento da Naru para levar aquele jovem nipônico que nunca tinha visto antes ao hospital. Depois, a tarde cinzenta e nublada aonde vira a jovem ruiva dando a última despedida ao seu amado naquele cemitério fora da cidade; Mais tarde, a missão para tentar – inutilmente – desvendar as circunstâncias misteriosas do assassinato do magnata Ferris. Até finalmente o seu pensamento e suas lembranças chegarem até a memória daquele reencontro casual com a jovem senhora Urashima poucos dias mais tarde.
Em plena Chinatown, se preparando para entrar na loja de Count D.
Tentando raciocinar o mais friamente possível – tanto quanto suas emoções conflitantes e conturbadas o permitiam – Leon chegara à conclusão de que Naru não estava andando naquele bairro apenas para ver as vitrines. Com tantos lugares para se visitar, o que ela tinha ido fazer na fatídica Pet Shop? Era muita coincidência para ser verdade!
E além do mais, depois que o loiro e a ruiva começaram a sair juntos e conversar mais freqüentemente ao telefone, ela nunca chegou a tocar naquele assunto e sequer mencionou quem seria o misterioso acompanhante que estava junto com ela com o rosto encoberto, na saída da loja do chinês.
A não ser que...
"Droga! Droga!!!" – Com um gesto de pura raiva, Leon dá um soco instintivo no painel de seu carro e quase se machuca. A verdade vem como um raio na sua mente consciente, tal como um facho de luz iluminando as trevas que cobriam os recônditos de sua alma.
Decerto, a sua amiga – e a esta altura do campeonato, quase namorada – na ânsia de preencher a sensação de perda provocada pela morte do marido, deve ter ouvido falar da fama da Pet Shop e com certeza, D teria oferecido algum de seus exóticos – e perigosos - espécimes para ela.
Leon sente o coração apertar e ser espremido até a última gota de sangue só de imaginar que destino negro estava reservado para uma garota que ele conhecia há muito pouco tempo, mas que estava conquistando o seu coração.
Com horror, ele se recorda dos primeiros casos que teve de desvendar na misteriosa loja de Count D e constata que a grande maioria dos clientes do aristocrata chinês teve uma morte trágica ou passou por uma situação dolorosa, envolvendo a perda de algo muito importante para elas – um amor, um ente querido, um parente, etc.
Mesmo aqueles que sobreviveram às estas bizarras experiências tiveram que passar por lições que marcariam o resto de suas vidas.
Não! Nem em sonhos ele poderia permitir que Naru sofresse as conseqüências trágicas daquelas cláusulas ambíguas presentes nos contratos de D.
Era evidente que o chinês sabia de tudo e que não mencionou este detalhe na última vez que o policial visitou a Pet Shop – coincidentemente naquele final de tarde de véspera de Natal.
Leon estremecia de temor e de fúria só de pensar caso a Naru se machucasse seriamente ou fosse morta por um daqueles seres. Ele jamais perdoaria a si mesmo e a D caso a garota tivesse o horrível destino de outros clientes.
O policial do LAPD se recorda de que, nos primeiros tempos, estava firmemente convicto de que Count D devia vender drogas ou estar envolvido com alguma máfia para que tantas mortes e desaparecimentos ocorressem. E tentara de todos os modos encontrar evidências que comprovassem esta tese, que se provou equivocada.
Aos poucos, ele foi adentrando num misterioso mundo: Inacessível e inatingível para seu limitado conhecimento das incertezas da mente e da alma humanas.
Um mundo de amores não resolvidos, de carmas, destinos entrelaçados e de segredos, que eram revelados pelo enigmático aristocrata de modos delicados, mente sutil e suas criaturas quase humanas.
Em verdade, D não matava e muito menos tampouco induzia as pessoas a terem aqueles tristes destinos através dos seres que vendia. Eram os próprios clientes que escolhiam errar e sofrer pelas suas escolhas, devido a seus pecados e ambições pessoais.
Com o tempo, Leon e D começaram a ficar amigos e - em mais de uma ocasião - o nobre chinês ajudou o temperamental loiro a resolver vários mistérios. Aos poucos, e de forma gradativa, o policial da cidade dos anjos começou a descobrir uma realidade espiritual bem diferente daquela que vivia – materialista e sem muitas perspectivas.
Só que tudo isto não servia - naquele momento - de consolo para aquela sensação de tormenta que sentia por dentro. Não, não era azia e nem tinha relação com a comida feita pela Naru. Era algo que ele não conseguia definir direito.
Seria medo de ver Naru infringir qualquer uma das cláusulas do suposto contrato firmado com D e pagar por seus erros? De ele mesmo ter que assistir a este desfecho sinistro sem poder fazer nada que pudesse impedi-lo? Ou... seria amor e o medo de ficar sem esta presença confortante que lhe trazia paz e serenidade à sua vida caótica?
A única coisa que ele sabia ao certo é que - cedo ou tarde - teria que conversar com aqueles dois. Count D e Naru. E abrir o jogo com ambos. Do contrário, ele jamais poderia voltar a encarar a si mesmo, ainda mais se alguma coisa especialmente grave acontecesse e fizesse "aquela pessoa" sofrer.
- "Mas... como? Como irei me abrir sobre algo tão sério com ela, se nem sou sequer namorado e começamos a sair juntos há menos de três semanas?" - Pensa Leon enquanto que no último instante o seu carro consegue desviar de um caminhão de lixo que estava cometendo uma barbeiragem.
De fato, ele nunca foi muito bom de conversa, a não ser para interrogar elementos de submundo e arrancar informações de meliantes. A última paquera que tivera – há vários anos atrás – disse que ele era tão sutil quanto um mamute se equilibrando na corda bamba.
É não havia outro jeito. Ele teria que descobrir tudo o que D sabia primeiro antes de falar com a ruiva. Só que antes de tomar alguma iniciativa precipitada, um lampejo de bom senso percorre o seu cérebro repleto de indagações conflitantes e a sua mão esquerda tateia em busca do seu aparelho celular.
Relembrando mentalmente um número o qual raramente ligava, Leon liga o pequeno aparelhinho e aguarda uns instantes antes de ouvir uma voz conhecida.
- Alô, Jill? Você está no apartamento? A gente poderia conversar um pouquinho? É urgente! É uma questão de vida ou morte que só você pode me ajudar! Daqui a uma meia hora? Ok... Eu passo no seu apê neste horário. Ah, e feliz Natal! Até. – Disse Leon, finalizando com um sorriso melancólico e amargo.
Pelo visto, seria uma noite de Natal totalmente diferente das que ele havia vivido até então.
Naquele mesmo instante, a jovem Naru se preparava para repousar. O dia seguinte seria cheio e só restavam poucas horas de descanso. Ainda com o seu vestido de festa e o gorro de Papai Noel na cabeça, ela apanha a figura do pequeno Kei-kun - que estava completamente adormecido – em seus braços e decide levá-lo no seu quarto.
Embora o pequeno ser mitológico tivesse o seu próprio aposento, na verdade, era Naru que precisava de companhia.
Em que pese o fato dela ter ficado muito contente por ter visto e reencontrado o jovem policial de quem ela começou a gostar de verdade nesta noite natalina, a jovem ruiva estava se sentindo novamente carente e confusa por dentro.
Mais do que ninguém, ela queria se abrir com Leon, contar o que se passou com ela nestes últimos dois meses, revelar o seu coração e a sua alma para ele. Só que inconscientemente a jovem Naru também morria de medo de quebrar inconscientemente alguma cláusula do contrato firmado com D – que lhe garantia a posse do unicórnio – e de perder Kei-kun mais cedo ou mais tarde.
Era sofrimento demais para uma pessoa só. Primeiro o horror de ver Keitarô caído e com o nariz sangrando no chão. A correria para tentar salvar a vida, a ajuda oferecida por aquele policial – Leon – que ela nunca tinha visto antes, o desespero no hospital, a amarga sensação de impotência diante da tragédia anunciada pelos médicos.
Depois, a dor da perda irreparável e o dilaceramento da alma na hora de se despedir de seu grande amor.
Em seguida, a depressão, o álcool e os remédios.
Sem falar naquele incidente daquela noite de sexta-feira que ainda latejava na sua mente e que de tempos em tempos a fazia sentir a pior das pecadoras, uma pervertida impenitente, apesar de ter agido mais por carência que por luxúria.
Como a vida podia ser tão cruel assim?
Se não tivesse descoberto uma razão de viver, ela já teria feito alguma besteira ou ficado irreversivelmente neurótica.
E a sua razão de viver estava em seus braços: Kei-kun. O pequeno e dócil anjo que a fez sair daquele estado de depressão e voltar a sorrir para a vida. Ela sentia-se profundamente grata ao misterioso Count D por ter-lhe dado esta segunda chance de reconstruir a sua vida e o seu relacionamento com o finado marido como ele deveria ter sido.
Ao colocar delicadamente o corpo adormecido do pequeno unicórnio em sua cama de casal, Naru nota que a fisionomia do unicórnio em forma humana lembrava muito a de Keitarô, ainda que fosse mais jovem, lembrando mais a de um menino de 12 anos do que de um adulto.
Aqueles traços simples e meigos pareciam para ela, ao mesmo tempo misteriosos e familiares - despertando lembranças de um passado perdido, praticamente esquecido no seu inconsciente. De tempos passados aonde ela não se precisava preocupar com a vida, e era pura e inocente... como uma criança. Será que?
Embora a sua mente não conseguisse recordar de tudo, o seu coração ainda guardava aquela deliciosa sensação. Era aquele mesmo sentimento. Aquele mesmo gostar. Aquele mesmo amor.
Sim, desde aquele primeiro encontro, quando tinha menos de 3 anos de idade, ela sempre gostou daquele menino de olhar puro e sonhador que brincava com a sua amiguinha chamada Mu-chan. Só que a mudança inesperada e as circunstâncias da vida fizeram com que perdessem o contato com ambos.
Seria carma? Seria destino? Ela sabia que Keitarô se fora, mas de alguma forma, Kei-kun aparecera na vida para preencher aquele enorme vazio na sua vida e reconfortá-la.
Contudo, nesta noite de Natal, Naru passou a descobrir um novo sentimento. Algo desconhecido, inesperado e inquietante para ela.
O sentimento de ter o seu coração dividido, coisa que nunca acontecera antes.
Acariciando os cabelos negros de Kei-Kun, ela relembra os momentos vividos há poucas horas atrás...
(Continua)
COMENTÁRIOS:
Atendendo a pedidos, estou colocando o preview da primeira cena do capítulo 8 da Fanfic "Despedida". Ela está em processo de revisão e falta pouco para fechar o capítulo.
Esta fic tem uma importancia toda especial para mim, já que foi a primeira a ficar conhecida entre os leitores, assim dizer, apesar de Love Hina e de Pet Shop of Horrors não serem séries exatamente populares.
Comecei a esboçar o inédito capítulo 8 em março, mas o grosso do capítulo foi feito em Abril, a partir da 2a quinzena, numa época em que apesar de estar contente com a perspectiva de mudança de cidade e de um novo emprego, estava muito preocupado por causa de uma série de acontecimentos que afetaram a minha vida pessoal.
Este trecho, bem como os outros, reflete de certa forma o meu estado de espírito.
Se tivesse escrito "despedida" no período que vai de Abril a Junho deste ano, com certeza teria saído uma obra mais contundente e trágica. Pessoalmente, teria prolongado o período de "luto" da Naru, tê-la feito sofrer mais do que sofreu e feito ela ficar obcecada com o Kei-kun.
Da mesma forma, a aproximação dela com o policial Leon teria sido muito mais difícil do que o descrito na fic e mais conturbada... possívelmente nem teria sido uma atração e sim uma fuga da realidade.
Dedico este capítulo ao Lexas (o responsável por fazer me interessar por fanfics de Love Hina), à Mandora (por ter lido e comentado o beta do beta numa época em que estava sem saber o que continuar) e para a Patrícia (pensou que ia me esquecer de você, querida? Este capítulo tem um pouco da sua "marca").
Agradeço também aos comentários das colegas Wishmistress e Dark Neherenia, além de todos os leitores que prestigiaram esta fic.
Assim que resolver um "n" que surgiu na parte final do capítulo 8, vou ver se consigo publicá-lo nos sites aonde estão postados esta fanfiction.
Reviews e comentários, please!!! Ou jogo o resto do rascunho dos capítulos remanescente desta fic no fundo do Vale das Esperanças Perdidas, lacrando-a com a Chave do Esquecimento! (Sim, eu sei também ser mau!)
Ja Matta Ne!
Calerom.
Descobertas e Decisões.
Faltavam poucos minutos para o início do dia 25 de dezembro. As ruas da Cidade de Los Angeles estavam lotadas de gente, e o ruído combinado dos inúmeros fogos de artifícios, bem como os jingles natalinos, e os buzinaços dos veículos nas avenidas, davam o tom daquela noite.
Só que, destoando do espírito festivo desta época do ano, uma pessoa alta e forte andava em alta velocidade com o seu automóvel conversível cor "amarelo-pikachu", como se estivesse sem destino.
Apesar de ter sido uma noite agradável e até inesquecível em vários aspectos, o jovem Leon Orcot estava com o semblante carregado e angustiado, com uma sensação indizível a torturar e corroer a sua alma.
Justo agora que estava encontrando um rumo para a sua insossa vida particular, descobrindo uma nova força de viver e se apaixonando pela jovem ruiva chamada Naru Urashima - ex-Narusegawa - o Destino havia lhe pregado uma charada cruel e que fatalmente o levaria de novo ao caos e a incerteza dos conturbados primeiros tempos em que começou a trabalhar nos casos envolvendo a Pet Shop de Count D.
O primeiro impulso que teve após sair do apartamento da ruiva foi o de querer gritar, blasfemar e maldizer a esta cruel e invisível divindade que jogava com os sentimentos e vidas das pessoas... E o segundo impulso foi o de querer correr a toda velocidade para Chinatown para interrogar e cobrar explicações de Count D, mesmo que tivesse que apelar para a ignorância.
Somente o enigmático nobre chinês poderia ter uma ligação com a estranha silhueta que Leon jurou que viu, ao entrar naquele pequeno apartamento de 2 quartos no bairro de Westwood.
O apartamento de sua amada Naru. A pessoa que cativara o seu coração.
Foi somente por uma fração de segundo, mas este detalhe não escapou aos olhos treinados do policial. Ele não estava embriagado ou sonhando acordado para deixar-se confundir por qualquer besteira.
"Mas é claro, como pude ser tão idiota?", monologava o loiro consigo mesmo enquanto recordava os fatos recentes – enterrados no seu subconsciente devido ao stress acumulado dos últimos dias e da sobrecarga de trabalho por causa da recente guerra de gangues – ocorridos nos últimos meses.
Fazia pouco menos de 2 meses, mais precisamente naquela manhã em que apareceu no apartamento da Naru para levar aquele jovem nipônico que nunca tinha visto antes ao hospital. Depois, a tarde cinzenta e nublada aonde vira a jovem ruiva dando a última despedida ao seu amado naquele cemitério fora da cidade; Mais tarde, a missão para tentar – inutilmente – desvendar as circunstâncias misteriosas do assassinato do magnata Ferris. Até finalmente o seu pensamento e suas lembranças chegarem até a memória daquele reencontro casual com a jovem senhora Urashima poucos dias mais tarde.
Em plena Chinatown, se preparando para entrar na loja de Count D.
Tentando raciocinar o mais friamente possível – tanto quanto suas emoções conflitantes e conturbadas o permitiam – Leon chegara à conclusão de que Naru não estava andando naquele bairro apenas para ver as vitrines. Com tantos lugares para se visitar, o que ela tinha ido fazer na fatídica Pet Shop? Era muita coincidência para ser verdade!
E além do mais, depois que o loiro e a ruiva começaram a sair juntos e conversar mais freqüentemente ao telefone, ela nunca chegou a tocar naquele assunto e sequer mencionou quem seria o misterioso acompanhante que estava junto com ela com o rosto encoberto, na saída da loja do chinês.
A não ser que...
"Droga! Droga!!!" – Com um gesto de pura raiva, Leon dá um soco instintivo no painel de seu carro e quase se machuca. A verdade vem como um raio na sua mente consciente, tal como um facho de luz iluminando as trevas que cobriam os recônditos de sua alma.
Decerto, a sua amiga – e a esta altura do campeonato, quase namorada – na ânsia de preencher a sensação de perda provocada pela morte do marido, deve ter ouvido falar da fama da Pet Shop e com certeza, D teria oferecido algum de seus exóticos – e perigosos - espécimes para ela.
Leon sente o coração apertar e ser espremido até a última gota de sangue só de imaginar que destino negro estava reservado para uma garota que ele conhecia há muito pouco tempo, mas que estava conquistando o seu coração.
Com horror, ele se recorda dos primeiros casos que teve de desvendar na misteriosa loja de Count D e constata que a grande maioria dos clientes do aristocrata chinês teve uma morte trágica ou passou por uma situação dolorosa, envolvendo a perda de algo muito importante para elas – um amor, um ente querido, um parente, etc.
Mesmo aqueles que sobreviveram às estas bizarras experiências tiveram que passar por lições que marcariam o resto de suas vidas.
Não! Nem em sonhos ele poderia permitir que Naru sofresse as conseqüências trágicas daquelas cláusulas ambíguas presentes nos contratos de D.
Era evidente que o chinês sabia de tudo e que não mencionou este detalhe na última vez que o policial visitou a Pet Shop – coincidentemente naquele final de tarde de véspera de Natal.
Leon estremecia de temor e de fúria só de pensar caso a Naru se machucasse seriamente ou fosse morta por um daqueles seres. Ele jamais perdoaria a si mesmo e a D caso a garota tivesse o horrível destino de outros clientes.
O policial do LAPD se recorda de que, nos primeiros tempos, estava firmemente convicto de que Count D devia vender drogas ou estar envolvido com alguma máfia para que tantas mortes e desaparecimentos ocorressem. E tentara de todos os modos encontrar evidências que comprovassem esta tese, que se provou equivocada.
Aos poucos, ele foi adentrando num misterioso mundo: Inacessível e inatingível para seu limitado conhecimento das incertezas da mente e da alma humanas.
Um mundo de amores não resolvidos, de carmas, destinos entrelaçados e de segredos, que eram revelados pelo enigmático aristocrata de modos delicados, mente sutil e suas criaturas quase humanas.
Em verdade, D não matava e muito menos tampouco induzia as pessoas a terem aqueles tristes destinos através dos seres que vendia. Eram os próprios clientes que escolhiam errar e sofrer pelas suas escolhas, devido a seus pecados e ambições pessoais.
Com o tempo, Leon e D começaram a ficar amigos e - em mais de uma ocasião - o nobre chinês ajudou o temperamental loiro a resolver vários mistérios. Aos poucos, e de forma gradativa, o policial da cidade dos anjos começou a descobrir uma realidade espiritual bem diferente daquela que vivia – materialista e sem muitas perspectivas.
Só que tudo isto não servia - naquele momento - de consolo para aquela sensação de tormenta que sentia por dentro. Não, não era azia e nem tinha relação com a comida feita pela Naru. Era algo que ele não conseguia definir direito.
Seria medo de ver Naru infringir qualquer uma das cláusulas do suposto contrato firmado com D e pagar por seus erros? De ele mesmo ter que assistir a este desfecho sinistro sem poder fazer nada que pudesse impedi-lo? Ou... seria amor e o medo de ficar sem esta presença confortante que lhe trazia paz e serenidade à sua vida caótica?
A única coisa que ele sabia ao certo é que - cedo ou tarde - teria que conversar com aqueles dois. Count D e Naru. E abrir o jogo com ambos. Do contrário, ele jamais poderia voltar a encarar a si mesmo, ainda mais se alguma coisa especialmente grave acontecesse e fizesse "aquela pessoa" sofrer.
- "Mas... como? Como irei me abrir sobre algo tão sério com ela, se nem sou sequer namorado e começamos a sair juntos há menos de três semanas?" - Pensa Leon enquanto que no último instante o seu carro consegue desviar de um caminhão de lixo que estava cometendo uma barbeiragem.
De fato, ele nunca foi muito bom de conversa, a não ser para interrogar elementos de submundo e arrancar informações de meliantes. A última paquera que tivera – há vários anos atrás – disse que ele era tão sutil quanto um mamute se equilibrando na corda bamba.
É não havia outro jeito. Ele teria que descobrir tudo o que D sabia primeiro antes de falar com a ruiva. Só que antes de tomar alguma iniciativa precipitada, um lampejo de bom senso percorre o seu cérebro repleto de indagações conflitantes e a sua mão esquerda tateia em busca do seu aparelho celular.
Relembrando mentalmente um número o qual raramente ligava, Leon liga o pequeno aparelhinho e aguarda uns instantes antes de ouvir uma voz conhecida.
- Alô, Jill? Você está no apartamento? A gente poderia conversar um pouquinho? É urgente! É uma questão de vida ou morte que só você pode me ajudar! Daqui a uma meia hora? Ok... Eu passo no seu apê neste horário. Ah, e feliz Natal! Até. – Disse Leon, finalizando com um sorriso melancólico e amargo.
Pelo visto, seria uma noite de Natal totalmente diferente das que ele havia vivido até então.
Naquele mesmo instante, a jovem Naru se preparava para repousar. O dia seguinte seria cheio e só restavam poucas horas de descanso. Ainda com o seu vestido de festa e o gorro de Papai Noel na cabeça, ela apanha a figura do pequeno Kei-kun - que estava completamente adormecido – em seus braços e decide levá-lo no seu quarto.
Embora o pequeno ser mitológico tivesse o seu próprio aposento, na verdade, era Naru que precisava de companhia.
Em que pese o fato dela ter ficado muito contente por ter visto e reencontrado o jovem policial de quem ela começou a gostar de verdade nesta noite natalina, a jovem ruiva estava se sentindo novamente carente e confusa por dentro.
Mais do que ninguém, ela queria se abrir com Leon, contar o que se passou com ela nestes últimos dois meses, revelar o seu coração e a sua alma para ele. Só que inconscientemente a jovem Naru também morria de medo de quebrar inconscientemente alguma cláusula do contrato firmado com D – que lhe garantia a posse do unicórnio – e de perder Kei-kun mais cedo ou mais tarde.
Era sofrimento demais para uma pessoa só. Primeiro o horror de ver Keitarô caído e com o nariz sangrando no chão. A correria para tentar salvar a vida, a ajuda oferecida por aquele policial – Leon – que ela nunca tinha visto antes, o desespero no hospital, a amarga sensação de impotência diante da tragédia anunciada pelos médicos.
Depois, a dor da perda irreparável e o dilaceramento da alma na hora de se despedir de seu grande amor.
Em seguida, a depressão, o álcool e os remédios.
Sem falar naquele incidente daquela noite de sexta-feira que ainda latejava na sua mente e que de tempos em tempos a fazia sentir a pior das pecadoras, uma pervertida impenitente, apesar de ter agido mais por carência que por luxúria.
Como a vida podia ser tão cruel assim?
Se não tivesse descoberto uma razão de viver, ela já teria feito alguma besteira ou ficado irreversivelmente neurótica.
E a sua razão de viver estava em seus braços: Kei-kun. O pequeno e dócil anjo que a fez sair daquele estado de depressão e voltar a sorrir para a vida. Ela sentia-se profundamente grata ao misterioso Count D por ter-lhe dado esta segunda chance de reconstruir a sua vida e o seu relacionamento com o finado marido como ele deveria ter sido.
Ao colocar delicadamente o corpo adormecido do pequeno unicórnio em sua cama de casal, Naru nota que a fisionomia do unicórnio em forma humana lembrava muito a de Keitarô, ainda que fosse mais jovem, lembrando mais a de um menino de 12 anos do que de um adulto.
Aqueles traços simples e meigos pareciam para ela, ao mesmo tempo misteriosos e familiares - despertando lembranças de um passado perdido, praticamente esquecido no seu inconsciente. De tempos passados aonde ela não se precisava preocupar com a vida, e era pura e inocente... como uma criança. Será que?
Embora a sua mente não conseguisse recordar de tudo, o seu coração ainda guardava aquela deliciosa sensação. Era aquele mesmo sentimento. Aquele mesmo gostar. Aquele mesmo amor.
Sim, desde aquele primeiro encontro, quando tinha menos de 3 anos de idade, ela sempre gostou daquele menino de olhar puro e sonhador que brincava com a sua amiguinha chamada Mu-chan. Só que a mudança inesperada e as circunstâncias da vida fizeram com que perdessem o contato com ambos.
Seria carma? Seria destino? Ela sabia que Keitarô se fora, mas de alguma forma, Kei-kun aparecera na vida para preencher aquele enorme vazio na sua vida e reconfortá-la.
Contudo, nesta noite de Natal, Naru passou a descobrir um novo sentimento. Algo desconhecido, inesperado e inquietante para ela.
O sentimento de ter o seu coração dividido, coisa que nunca acontecera antes.
Acariciando os cabelos negros de Kei-Kun, ela relembra os momentos vividos há poucas horas atrás...
(Continua)
COMENTÁRIOS:
Atendendo a pedidos, estou colocando o preview da primeira cena do capítulo 8 da Fanfic "Despedida". Ela está em processo de revisão e falta pouco para fechar o capítulo.
Esta fic tem uma importancia toda especial para mim, já que foi a primeira a ficar conhecida entre os leitores, assim dizer, apesar de Love Hina e de Pet Shop of Horrors não serem séries exatamente populares.
Comecei a esboçar o inédito capítulo 8 em março, mas o grosso do capítulo foi feito em Abril, a partir da 2a quinzena, numa época em que apesar de estar contente com a perspectiva de mudança de cidade e de um novo emprego, estava muito preocupado por causa de uma série de acontecimentos que afetaram a minha vida pessoal.
Este trecho, bem como os outros, reflete de certa forma o meu estado de espírito.
Se tivesse escrito "despedida" no período que vai de Abril a Junho deste ano, com certeza teria saído uma obra mais contundente e trágica. Pessoalmente, teria prolongado o período de "luto" da Naru, tê-la feito sofrer mais do que sofreu e feito ela ficar obcecada com o Kei-kun.
Da mesma forma, a aproximação dela com o policial Leon teria sido muito mais difícil do que o descrito na fic e mais conturbada... possívelmente nem teria sido uma atração e sim uma fuga da realidade.
Dedico este capítulo ao Lexas (o responsável por fazer me interessar por fanfics de Love Hina), à Mandora (por ter lido e comentado o beta do beta numa época em que estava sem saber o que continuar) e para a Patrícia (pensou que ia me esquecer de você, querida? Este capítulo tem um pouco da sua "marca").
Agradeço também aos comentários das colegas Wishmistress e Dark Neherenia, além de todos os leitores que prestigiaram esta fic.
Assim que resolver um "n" que surgiu na parte final do capítulo 8, vou ver se consigo publicá-lo nos sites aonde estão postados esta fanfiction.
Reviews e comentários, please!!! Ou jogo o resto do rascunho dos capítulos remanescente desta fic no fundo do Vale das Esperanças Perdidas, lacrando-a com a Chave do Esquecimento! (Sim, eu sei também ser mau!)
Ja Matta Ne!
Calerom.
