"Não perguntes por quem os sinos dobram : eles dobram por ti "Ernest Hemingway.
Capítulo I - Vermelho e Dourado
Mais uma vez os dedos, de forma automática, fizeram o gesto que já tinha se transformado em sua vida : stop, rew, play...
( The end, is is the end )
Virou-se doloridamente na cama, e forçou seus olhos injetados em direção à janela : um sol madrugador e tímido - mas persistente - insistia em querer entrar em sua vida.
De mau humor esticou o braço e puxou com força as cortinas, que por muito pouco não se despregaram de vez do bandô já tão maltratado, rasgando-se ainda mais ...
Nada invadiria sua dor. Nada o faria reviver.
(Beautiful friend, the end )
Continuando com o movimento do braço, alcançou a garrafa sobre o criado-mudo, para - mais uma vez - ter certeza que também esta estava vazia. Como tantas vezes arremessou-a em direção à parede, para vê-la - um dos seus únicos prazeres, ultimamente - quebrando-se em mil pedaços. Mas dessa vez a natureza (morta?) reagiu : a garrafa espatifou-se e um caco de vidro voltou em sua direção, cortando seriamente sua mão.
Mas nem mesmo isso o deixou mais interessado. Aliás, por bons minutos pensou seriamente no bem que faria a todos se deixasse todo o seu "precioso" sangue esvair por ali.
(This is the end )
Piscou algumas vezes os olhos, rindo-se interiormente de tal situação : tão "poderoso", tão "importante", ia ser morto por um caco de vidro de uma garrafa de bebida barata...e trouxa. Quem diria...bela morte para si.
Devia realmente ficar quieto, e deixar tudo acontecer : apenas uma vez na vida não se mover, não fazer nada, e rejeitar esse maldito instinto de sobrevivência que sussurrava insistentemente para que fechasse com urgência o grave ferimento.
Depois do que tinha acontecido, isso podia esperar. Aliás, tudo podia esperar.
Ficou olhando com estranha paciência e muita curiosidade os desenhos que seu sangue fazia ao cair ao chão : de gotas esparsas até uma poça consistente,ele começou a desenhar no imundo chão algo que nem ele mesmo sabia o que seria.
A única coisa que sabia é que com certeza saberia quando estivesse pronto.
...Stop. Rew. Play...
A música um pouco mais distante que o normal, mas sua pulsação lenta e quase mórbida ia a cada vez mais tornando-se um rugido em seus ouvidos. Logo, era só pulso e mais nada : nem o barulho matinal dos trouxas começando seu dia - que insistiam em invadir seu refúgio, mesmo de cortinas tão cerradas - era mais ouvido : só ouvia o pulsar, e muito distantemente a música.E a letra.
Quase sonho, quase sono...
(My only friend, the end )
Lenta, porem inexoravelmente, o dia ia se iniciando, e o sol insistente tinha conseguido finalmente enfrentar a barreira da cortina - tão sofrida, tão alquebrada... - , e derramava-se, dourado, sobre o quarto esquálido, banhando e aquecendo de igual forma o homem e sua dor.
(Of our elaborate plans, the end)
Lembrou-se, então do desenho que queria fazer, e forçou os olhos doloridos na poça vermelha que estava ao lado da cama. Ainda não via nada de significativo, só sangue estúpido e idiota...era melhor prosseguir. Apertou com força a mão para sangrar mais e mais rápido, e observou surpreso : através da luz do sol, seu sangue estava vermelho e dourado.
Vermelho e dourado.
(Of everything that stands, the end )
Saindo então desse transe, tentou se virar rapidamente e pegar sua varinha, mas não fez isso : moveu-se com lentidão estudada (pois até agora não tinha percebido, mas estava estranhamente zonzo demais), e lembrando-se dos ensinamentos que tão bem tivera, deixou seu braço ferido na mesma posição (é, realmente tinha esperado demais),esticou a mão e pegou sua varinha,fechando o ferimento de vez, conjurando uma atadura mal feita e disforme (mesmo nessa hora, riu-se interiormente : tudo que ele fazia ultimamente ficava sempre tão disforme...) para então cair exangue em um sono sem sonhos.
(No safety or surprise, the end)
Acordou com o dia alto, num quarto quente como o inferno - como se isso realmente existisse, e fosse pior do que sobrara de sua vida - ouvindo um barulho contínuo e ritmado de minúsculos pés marchando,e o cheiro acre de sangue coagulado invadindo suas narinas. Virou-se do outro lado, e o pensamento de um banho bailou em sua mente : como se apenas água conseguisse lavar sua alma...Melhor ficar como estava.
Então lembrou-se do desenho, e curioso virou-se na cama.
A poça de sangue não mais era visível,e sim um monte de ratos que banqueteavam-se daquela macabra refeição inesperada (nobre refeição, diga-se de passagem) .Enojado e de mau humor ele levantou-se, ainda meio tonto, e lançou sem remorso um feitiço que desintegrou instantaneamente todos os ratos... para revelar seu destino, afinal. Tinha de voltar, e agora.
( I'll never look into your eyes...again )
