Por Dana Norram
Após o jantar, Sirius não tinha mais dúvidas do motivo de James ter trocado a vida na cidade grande, por uma mulher como Lily. Além de bonita, ela era bastante atenciosa e uma excelente cozinheira. Foi apenas uma primeira impressão, mas já era o bastante, principalmente porquê ele nunca tinha simpatizado com namoradas anteriores de seu amigo.
Harry era sem dúvida um garoto incrível. Assim que perdeu a timidez começou a falar pelos cotovelos, fazer perguntas e mais perguntas sobre a capital, curioso com quase tudo que Sirius tinha em mãos, desde os óculos escuros até o aparelho celular. Sirius obviamente não lhe mostrou seu revólver, embora o garoto tenha perguntado dele.
"Deixei-o lá fora... na moto, Harry". Mentiu Sirius propositadamente, ao ouvir falar da moto, porém, a atenção de Harry pareceu acentuar-se ainda mais.
"Eu vi sua moto". Disse Harry com seus olhos verdes brilhando. "É enorme, Sirius... nunca vi uma tão grande!"
Sirius e James riram do entusiasmo do menino.
"Bem..." Comentou Lily que acabara de chegar com o chá. "Não que você veja muitas por aqui não é, Harry?"
"É..." Admitiu Harry, dando os ombros, repentinamente cabisbaixo. "Não há quase nada pra se ver de novo por aqui..."
Harry recusou a xícara de chá que a mãe lhe oferecera, mas pegou um bom pedaço de torta de limão e começou a comer sem cerimônia, tirando as raspas com impaciência, jogando-as de qualquer jeito sobre o pires. James e Lily trocaram sorrisos e Sirius sentiu-se um pouco excluído. Felizmente Harry logo continuou a conversa.
"Eu posso dar uma olhada nela depois, Sirius? E..." Ele pareceu hesitar por um segundo, então continuou. "Será que você me deixaria..."
"Se seus pais permitirem, claro que te levo para dar uma volta, Harry, sempre trago um capacete reserva..."
Harry virou a cabeça tão rapidamente para os pais, que seu pescoço estralou. Seus grandes olhos encararam-nos suplicantes.
"Posso pai... mãe? Por favor!" ele pediu juntando as mãos, sua torta de limão completamente abandonada.
Lily soltou uma risadinha e voltou-se para o marido. "Até isso ele puxou de você, James!"
Sirius ergueu as sobrancelhas.
"Eu praticamente implorei para que Lily se casasse comigo..." explicou James enchendo sua xícara distraidamente. "Quantas vezes você me recusou antes, Lily? Duas, três?"
Lily deu um sorriso bondoso por cima da própria xícara. "Na verdade foram quatorze, querido. Estávamos no assunto ainda ontem..."
Sirius e James riram com gosto.
"Ei!!! E eu?!!!" Exclamou Harry, querendo atenção. Lily cruzou os braços sobre o peito, mirando com severidade.
"Bem..." Disse a ruiva com uma expressão séria. "Se você não receber nenhuma convocação essa semana..."
"Mas foi culpa do Malfoy, mamãe! Ele fica xingando a família de Ron!"
"Se você se comportar na missa..." continuou Lily fingindo que não tinha ouvido uma palavra do filho.
"Mas eu me comporto!" Protestou o menino indignado.
"E se Sirius prometer ser cuidadoso... bem..." Ela deu uma piscadela para o marido e Sirius, que sorriram em resposta. "... Eu não vejo porquê não".
Harry deu um berro de felicidade e abraçou a mãe com força. Ela segurou-o e arfou ligeiramente quando tentou puxá-lo pro seu colo. "Como esse menino cresceu, James! Eu mal consigo segurá-lo!"
"Logo ele que segurará você, Lily". Disse James com brandura. "Mas já está tarde, e alguém aqui tem escola dominical amanhã não?"
Harry, agora sentando no colo da mãe e com os braços circundando seu pescoço, bocejou longamente. "Eu não estou com... ahhhhh... com... sono".
"Ah está sim!" Disse Lily dando um tapinha gentil no nariz do filho. "Venha, você tem que estar bem disposto para passear de moto, certo?" Ela se levantou. Harry deu um abraço no pai e apertou a mão de Sirius com força. O homem mais alto abaixou-se e sussurrou-lhe: "Amanhã então, Harry?"
Harry fez que 'sim' com a cabeça e saiu da sala acompanhado de Lily, que lhe conduziu corredor adentro. Logo eles ouviram o ranger das escadas e portas sendo abertas.
"Bom... agora..." James tomou um grande gole de chá e pousou a xícara sobre a mesinha de centro. "Podemos conversar direito".
Sirius endireitou-se na cadeira e olhou dentro dos olhos castanhos do amigo.
"Me diga com sinceridade Sirius, porque saberei se você estiver mentindo... O quê está acontecendo aqui? Não engulo metade do que aquele delegado idiota declarou para o Jornal local... você não estaria aqui se o caso não fosse grave".
Sirius deu um meio sorriso. Parecia que mais alguém ali não morria de amores por Severus Snape.
"A verdade, James... é que eu não sei. Todos me vêm com a mesma história e particularmente não me parece que tenha nada errado nela, a não ser quê..."
James arqueou tanto as sobrancelhas que elas quase se perderam sob sua bagunçada franja. "A não ser quê...?"
"A jovem foi brutalmente assassinada. E eu vi o local do crime, não há portas arrombadas, sequer as janelas foram forçadas. Sem falar que ninguém escutou coisa alguma! Não me parece nada que aconteceria num lugar desses... eu ainda preciso dar uma olhada no corpo, nos relatórios do legista, e entrevistar aquele Padre direito..."
"O Padre Lupin?" interrompeu James com uma expressão mais amena, porém atenta. "Que ele tem a ver com essa história toda?"
Sirius soltou muxoxo desgostoso. Até tu James?
"Parece que foi o primeiro a encostar no corpo, mas já que tocou no assunto..." Ele novamente se endireitou na cadeira e ergueu o dedo indicador. "O que toda essa cidade vê naquele bendito Padre? Te juro, James... estive com ele e não vi nada de extraordinário!"
James sorriu rapidamente.
"Ainda com esse preconceito hein, Sirius? Você não muda... bem..." Ele suspirou pesadamente. "Se quer mesmo saber, o Padre Lupin é pura e simplesmente uma pessoa boníssima, atenciosa e paciente. Nunca vi alguém gostar tanto do que faz quanto ele, sabe? Está sempre sorrindo e disposto a ajudar, no que quer que seja... O Padre Lupin veio para cá apenas há um ano e meio, se não me engano, mas posso te garantir que foi o melhor pároco que tivemos. Sequer me lembro o nome do anterior".
Sirius revirou os olhos. Havia escutado as mesmíssimas palavras do Prefeito ainda aquela manhã. Deve ser implicância - disse para si- O homem nunca me fez nada, afinal das contas...
"Então você já esteve com ele". disse James. "Que tal lhe pareceu?"
"Hum..." Sirius coçou a barba por fazer rapidamente. "É o que já disse... nada de mais. Só achei-o bem cansado se quer saber, e olhe que não é velho, se bobear... deve ter bem a nossa idade".
"E tem". Disse James de repente.
"Quê?! Como sabe?" Indagou Sirius com um olhar desconfiado.
"Lily". Disse James simplesmente, indicando o andar de cima com um breve aceno. "Ela está sempre ajudando na Igreja, sabe, quando o movimento fica fraco por aqui. Ela gosta de levar Harry para lá, Lily diz que o Padre Lupin o adora..."
Sirius tamborilou os dedos sobre o encosto da cadeira. "Vocês do interior se apegam a cada coisa..." Disse olhando para James. "Mas isso não vem ao caso, na verdade, não quero falar sobre isso... o que estou para lhe perguntar a horas é... por que sumiu depois que se casou? Eu sequer sabia que morava nesta cidade!"
James sorriu como se pedisse desculpas.
"É meu caro amigo... temos muito que conversar..."
Com um último sinal da cruz, o Padre Lupin retirou seu rosário, deixando-o em sua modesta mesinha de cabeceira, então apagou o candeeiro e deitou-se.
Não sentia sono algum, sua mente na verdade encontrava-se bastante desperta. O Padre não conseguia parar de pensar no encontro que tivera mais cedo, naquele mesmo dia, com Sirius Black, o investigador da cidade grande. Era um homem bastante esperto e enérgico, mas talvez um pouco impressionado - Lupin pensou com um pequeno sorriso, ao lembrar-se do ocorrido frente ao altar.
Até aquele dia, tinha sido relativamente fácil contornar os acontecimentos seguidos a morte de Angelina Johnson, até mesmo o interrogatório com o delegado Snape. O homem tinha faro para o perigo, mas provavelmente não possuía imaginação o suficiente para reconhecê-lo.
Lupin perguntava-se intimamente como deixara a criatura escapar de seu controle naquela noite, sempre tinha sido tão cuidadoso afinal! E na manhã seguinte... era incrível como tudo estava bem... nem parecia que uma coisa daquelas havia acontecido. Como se lamentara por aquilo! Uma pessoa tão boa quanto Angelina... não merecia morrer assim! Que pecados ele tinha cometido para ser responsável por um crime desta barbárie? Claro... se anos antes tivesse sido mais cuidado... mas era uma simples criança, como podia se defender daquilo tudo?!
Pensara não uma, nem duas, mas inúmeras vezes em abandonar Hogsmeade, mas claro que não poderia fazer isso. Atrairia todas as suspeitas para si, e se descobrissem... se desconfiassem... não queria nem imaginar! Precisava deixar as coisas esfriarem para então deixar a cidade. Poderia então se isolar e pedir perdão por seus pecados longe de inocentes...
O homem suspirou e na penumbra de seu quarto, olhou para cima. No zinco do telhado havia minúsculos furos, e por eles a pálida luz da lua entrava, salpicando o lugar de pequenas estrelas. Era tão bonito e ao mesmo tempo tão cruel.
O quê faria agora? - o Padre Lupin pensava com as mãos sobre o peito, que se erguia a cada nova tragada de ar.
Deixaria tudo como está? - Afinal se o delegado Snape não tinha conseguido resolver um terço daquele mistério, como poderia um homem que mal o conhecia ter sucesso? Era improvável, claro... mas... mas mesmo assim... havia algo em Sirius Black que lhe chamara a atenção... ele parecia decidido, estranhamente decidido... e homens decididos eram muito difíceis de demover.
Teria de tentar, do contrário acabaria encarcerado para o resto de seus dias... ou talvez... a missa de amanhã seria a última que ele rezaria em sua vida.
Fique calmo Remus J. Lupin... você vai sair dessa... não foi sua culpa...
"Não... definitivamente não foi minha culpa". O Padre Lupin murmurou, virando o corpo de lado e cerrando os olhos, decidido a dormir.
Continua...
Esta fanfic me pertence e eu vou azarar aquele que se meter a besta de copiá-la, ao ainda, postá-la em algum lugar sem minha prévia autorização. Gostou? Quer colocar no seu site? Blog? Fórum? Me mande um e-mail (dananorram@yahoo.com.br), não há motivo para eu negá-lo a você! >_ Plágio é crime.
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