-Bem vindo ao mundo dos vivos. – a voz cumprimentou quando Heero entrou na cozinha adjacente a sala de estar, olhando absorto para as malas em cima do sofá. Ainda tentava processar que a sua irmã adolescente tinha acabado de chegar do Japão para morar com ele. Sua irmã irritantemente adolescente. E, por um momento insano, ele tinha pensado que ela havia mudado. Afinal, quatro anos, desde a última vez que a vira, era muito tempo. Porém, depois da conversa que tivera assim que ela chegou, provou que ela não tinha mudado em nada. Virou-se para olhar dentro da cozinha e parou abruptamente em seus passos. Correção, ela tinha mudado, e muito. Enquanto estava na cama conversando com ela, ainda grogue de sono e com uma ressaca maldita, não pôde notar muito a jovem que estava lhe provocando. Agora, um banho e várias aspirinas depois, conseguia enxergar melhor a criatura que chamava de irmã.
Ela realmente havia mudado muito em quatro anos. Crescera, porém ainda era mais baixa do que ele no auge de seus 1.80 m de altura. Aquela garotinha magricela de quatorze anos, que voltava furiosa para casa pois os meninos sempre a provocavam a chamando de tábua, agora tinha curvas. Heero estreitou um pouco os olhos, muitas curvas por sinal. A mistura asiática-européia, o que explicava os olhos azuis, deu uma beleza exótica a Kohako assim como tinha dado a Heero. O homem suspirou. Sentia que teria muito trabalho, mas muito trabalho mesmo tentando afastar os urubus que eram os homens dessa cidade.
-Você ainda está aqui? – murmurou irritado, caminhando até a sua cafeteira e preparando seu mágico líquido negro.
-E continuarei aqui por um bom tempo nii-chan, até me formar… - e nisso ela estufou o peito para poder falar. -… em Harvard. – disse orgulhosa, tomando um gole do suco que tinha pegado na geladeira do irmão.
-Meus parabéns. – murmurou o homem, recostando-se na bancada da pia e a olhando atentamente, sentada à mesa.
-O que foi? – ela ergueu uma fina sobrancelha negra diante do olhar sério de Heero.
-Eu estava pensando… eu tinha comprado um presente pela sua admissão em Harvard… - a jovem pulou da cadeira, pondo-se de pé em frente a Heero, com os olhos azuis brilhando como os de uma criança no Natal.
-Você comprou um presente para mim? – perguntou com uma voz melodiosa.
-Sim… mas depois da sua brincadeira de mau gosto de agora pouco… eu estou começando a reconsiderar. – e virou-se para a cafeteira para poder se servir de um pouco de café.
-Eu retiro o que disse, cada sílaba. Posso ver o meu presente agora? Onegai. – falou em tom implorador e Heero deu um raro meio sorriso. Fazia anos que não ouvia ninguém falar em japonês consigo. E, embora o inglês da jovem fosse perfeito, ela ainda deixava escapar algumas coisas em sua língua de origem.
-Talvez. – voltou-se para ela, tomando um gole de seu café.
-Por favor… por favor… por favor… por favor… - segurou na camisa dele, começando a balançá-lo para frente e para trás, enquanto Heero tentava a todo custo manter seu café dentro de sua xícara.
-Ah, está bem. – finalmente cedeu e foi presenteado com mais um daqueles brilhantes sorrisos. Anos de tratamento dentário pareceu valer a pena, pensou o homem. –Me espere aqui. – ordenou, depositando a xícara sobre o balcão e sumindo pelo apartamento. Minutos depois retornou com um pacote bem embrulhado entre as mãos.
-Presente! – Kohako gritou extasiada, arrancando a caixa das mãos do irmão e pulando sobre o sofá, caindo rapidamente sobre as almofadas macias e começando a rasgar o papel colorido. O embrulho durou poucos segundos até que a caixa foi totalmente aberta e a jovem ofegou quando viu o presente. –Heero… - disse em um sussurro.
-Acho que você ainda se interessa por isso, estou certo? E mamãe me escreveu dizendo que a sua estava muito velha, que estava pensando em lhe dar uma de presente por ter passado para Harvard, mas eu disse a ela que faria isso. Como presente de boas vindas também.
-É… perfeita. – disse, retirando a NIKON de dentro da caixa e a olhando com adoração. Passou a alça da câmera sobre o pescoço, a elevando a altura dos olhos para poder observar através da lente. –Eu estava querendo uma dessa mesmo. Obrigada nii-chan.
-Que bom que gostou. – falou, dando um pequeno sorriso diante do entusiasmo da garota. Desde pequena ela sempre adorou fotografia e tornou isso mais que um hobby. Em Shizuoka, onde eles moravam, ela era bem conhecida por sempre andar com uma câmera na mão para cima e para baixo, tirando fotos de tudo e todos. Chegou até a ter um emprego de verão no jornal local como fotógrafa. E isso a levou estar aqui hoje, em Harvard, estudando jornalismo. Pois, além de ser boa com as imagens ela também sabia ser boa com as palavras. Heero não poderia ver a sua irmã em outra profissão que não fosse essa.
-E o que faremos hoje? – Kohako abaixou a câmera e mirou o irmão de maneira sorridente.
-Como?
-Bem, eu estava pensando em ir a Cambridge para dar uma olhada onde eu vou estudar. Pensei que você poderia ir comigo, já que conhece bem o local. – alargou ainda mais o sorriso. Heero também havia estudado em Harvard e fora a pessoa que organizara todos os seus documentos em relação à universidade, o que permitiu a jovem apenas pegar um avião despreocupada, dois dias antes das aulas começarem.
-Eu não posso. – disse o homem, erguendo-se da cadeira onde estava. –Tenho uma pilha de processos me esperando e por isso não vou poder te acompanhar…
-Mas…
-Olha… eu tenho um mapa do campus se você quiser dar uma olhada. E segunda eu vou te levar lá mesmo, então eu te apresento tudo na hora. Não vai ser difícil se encontrar. Sem contar que você deve estar cansada com essa mudança brusca de fuso horário.
-Bem… mas mesmo assim. Trabalhar no sábado Heero? Não acha que é um pouco demais? Creio que nem o presidente trabalha no sábado. – o homem apenas lançou um longo olhar para ela. –Ah, é mesmo, eu esqueci. O presidente não é o sócio majoritário da Yuy-Barton e Associados, a empresa de advocacia mais famosa da cidade. Eu esqueci desse detalhe. Você deve saber que a mamãe e a vovó ficam espalhando para todas as nossas vizinhas que o querido Heero delas é um grande advogado, não sabe? – comentou sarcástica. –Chega a ser nojento o jeito com que elas babam. Gente de cidade pequena é fogo.
-Bem… - retrucou, recolhendo as malas dela. -… o seu quarto é aquela porta a direita, no corredor. Vou levar as suas malas para lá. Fique… à vontade.
-Okay. – respondeu, voltando a sua atenção para a câmera em suas mãos enquanto Heero sumia novamente apartamento adentro.
Era quase como se fosse uma tocaia, Duo pensou enquanto seus olhos dançavam por detrás dos óculos escuros, observando o movimento intenso do outro lado da rua, dentro do furgão abafado. O verão estava em sua metade e parecia ser o mais quente dos últimos anos. Suas garrafas d'água mal tocavam as suas mãos e já ficavam quentes. Sua jaqueta há muito tempo fora descartada para algum lugar escuro da cabine do carro enquanto sua trança pendia em seu ombro ao mesmo tempo em que suor escorria por sua testa.
-Maxwell. – Oliver chamou, entrando no carro do lado do motorista e batendo a porta rapidamente, entregando mais uma garrafa de água a Duo, que a abriu e entornou o conteúdo garganta abaixo.
-Diga?
-Você tem certeza de que quer que eu faça isso? – perguntou o loiro, incerto, virando-se no banco e catando uma câmera que tinha dentro do carro, voltando-se rapidamente e observando o equipamento em suas mãos.
-Até me arrumarem um fotógrafo, tenho que me virar com o que tenho. E no momento, companheiro, eu só tenho você. – virou-se, dando um sorriso para ele.
-Mas uma foto? Não é mais fácil você procurar dentro da sede do partido por essas provas? Precisa mesmo de foto?
-E você acha que se realmente houver mutreta na situação eles vão me deixar simplesmente observar o orçamento da campanha? E além do mais, eu já fiz isso.
-E então?
-Pode muito bem ser patrocinadores a mais que eles conseguiram. Nada prova que a criatura que está bancando a campanha do Senador Kelly seja o chefe do tráfico da cidade.
-E em que nós ficarmos parados aqui derretendo nesse calor pode nos ajudar?
-Minha fonte…
-Aquela velha gagá que mora nesse prédio velho e caído. – cortou Oliver, observando longamente o prédio. –Que aliás seria uma boa matéria, não acha? O descaso do serviço publico em relação à manutenção dos prédios de moradias populares.
-Se você acha interessante, fale com Sally. Ela é da editoria de cidade… - começou, mas subitamente calou-se, inclinando-se no banco e observando com olhos atentos as duas pessoas que estavam saindo do prédio. –São eles! – quase deu um grito de vitória quando viu o candidato a Senador e o chefe do tráfico de Boston saírem do prédio onde, segundo a sua fonte, eles costumavam se encontrar para poder acertar os gastos da campanha. –Vamos lá Oliver meu caro, faça o seu trabalho.
-Duo… você tem certeza?
-Você me disse que tinha feito curso de fotografia.
-Por duas semanas, larguei por falta de tempo. – o homem soltou um pequeno grunhido, arrancando a câmera da mão do motorista. Não deveria ser tão difícil assim. Afinal, ele tivera aulas de fotografia na faculdade, mas a essa altura do campeonato já esquecera metade do que aprendeu. Não tocava em uma câmera profissional desde que se formou.
-Okay, não vai ser por falta de foto que eu vou ficar sem matéria. – e displicente debruçou-se sobre Oliver, ajeitando a câmera e a apoiando na janela do carro. –Isso, só mais um pouquinho. – murmurou entre dentes enquanto os dois homens paravam ao lado do carro do candidato. Deu um clique e rapidamente pegou uma foto, deu outro clique e conseguiu outra. Quando o os dois homens deram um aperto de mão, Duo quase soltou um grito triunfal, e clicou novamente. –Tudo que eu precisava. Com os documentos que eu consegui e essas fotos, com certeza ele não vai conseguir vaga nem para presidente da associação de moradores de seu bairro. – falou com um sorriso malicioso, o sorriso de Shinigami. E foi com esse sorriso que Duo conseguira a sua fama. Repórter enxerido, era o que muitos consideravam, conseguia revelar a mentira tão perfeita que muitos acreditavam ser verdade. Já ajudara várias pessoas, assim como destruíra a vidas de outras, e geralmente essas outras pertencentes ao alto escalão da hierarquia social. O Deus da Morte, capaz de trazer a desgraça com um simples digitar no computador.
-Quero ver Wufei não aceitar essa agora. Vamos embora Oliver, tenho uma matéria para escrever. – disse sorridente e o garoto ligou o carro, sumindo pela esquina rapidamente.
Kohako ajeitou novamente a sua blusa, respirando profundamente para poder acalmar o seu coração. Primeiro dia de aula sempre era o mais excitante de todos os dias, ainda mais se você estava em um país totalmente diferente, com uma cultura diferente. Olhou por cima do ombro e percebeu que o carro de Heero já havia sumido. O homem era viciado em trabalho, por Deus. Sempre soube que o seu irmão era o cúmulo do perfeccionismo. Sempre exigente aos extremos consigo mesmo, sempre querendo o melhor, nunca demonstrando muitas emoções, fato que ficou mais acentuado depois que Relena o largou, e às vezes ela sempre brincava com ele o chamando de O Soldado Perfeito. Balançou a cabeça para poder se esquecer disso e entrou no prédio.
Os orbes azuis olhavam tudo a sua volta com extremo interesse, gravando cada detalhe em sua mente, e um sorriso a cada segundo alargava-se em seu rosto. Era um sonho realizado. Além de ter conseguido entrar em uma faculdade de renome no mundo, havia conseguido se livrar de sua família. Deu uma risadinha baixa em relação a isso. Conseguir uma vaga em uma faculdade fora do Japão foi à prioridade dela quando estava terminando o colegial. O fato de ter conseguido entrar em Harvard havia sido conseqüência. Porque, se ainda estivesse em seu país, nesse momento a sua família iria estar enchendo a sua paciência lhe dizendo que o que ela realmente precisava era de um bom casamento, e não de uma carreira. Apesar de o Japão ser uma potência capitalista, isso não mudava o fato de que algumas famílias ainda eram muito tradicionais e conservadoras. E isso incluía a família Yuy. Sua mãe, uma alemã de nascença mas que tinha se mudado para o Japão com os pais quando tinha dez anos, lhe cansara de contar o martírio que havia sido a família permitir que ela e seu pai se casassem. E a mulher fora a primeira a lhe dar apoio quando ela decidiu sair do país.
Continuou a caminhar, absorvendo cada pedaço daquele campus, quando passou por um rapaz no corredor que estava pregando algo em um mural de recados. Parou ao lado dele e pôs-se a observar os vários panfletos presos no quadro.
-Procurando uma vaga? – o rapaz perguntou, depois que terminara de pregar o último panfleto.
-Eu não sei. – disse vagamente. Não seria muita prepotência querer algum emprego ou estágio, tendo acabado de chegar na faculdade? Além do mais, com certeza as empresas ou lugares que ofereciam a vaga estavam procurando por alguém mais experiente.
-Você é nova por aqui? – perguntou o jovem, mirando seus olhos azuis na garota.
-Como você soube?
-Eu tenho o orgulho de dizer que conheço quase todo mundo desse campus. Faço parte da Irmandade Delta K. – e estendeu a mão para ela. –Solo Maxwell. – apresentou-se, com um grande sorriso no rosto jovem.
-Kohako Yuy. – respondeu a garota, recebendo a mão dele em cumprimento.
-E então, Kohako… é oriental não é? Quero dizer, o seu nome, ele é oriental.
-Sim, sou japonesa. – respondeu displicente e voltou seus olhos para os anúncios no mural, até que percebeu que Solo não parava de olhá-la. –O que foi?
-Difícil de acreditar. Você não tem características japonesas.
-Minha mãe é alemã.
-Entendo. Mas e aí? Vai se candidatar a alguma vaga.
-Não seria prepotência minha? Eu acabei de chegar, e nem tive a minha primeira aula. Com certeza estão procurando alguém mais experiente.
-Nem tanto assim… até porque muitas das ofertas são coisas totalmente fora do ramo dos alunos. Atendente de lanchonete, vendedora de loja de cosméticos. Coisas para quem quer uma grana extra.
-Entendo… - murmurou, correndo os seus olhos sobre o quadro, até que algo prendeu a sua atenção. –Hei! – disse animada, arrancando o aviso que Solo tinha acabado de colocar no quadro. –Procura-se fotógrafo profissional… Winner Press. – Solo deu um assobio baixo.
-Winner Press… só tem os melhores, desde que Quatre Winner, filho do dono, assumiu a presidência. Tornou-se o mais famoso jornal do estado.
-Bem, serei então um pouco prepotente. O emprego com certeza será meu. – sorriu, acenando o panfleto. Essa seria uma ótima maneira de estrear a sua NIKON.
