-Cheguei! – Duo chamou, entrando na casa e jogando as suas chaves sobre o móvel ao lado da porta. –Alguma alma dentro desse pequeno antro? – perguntou divertido, abrindo a porta do armário que tinha ao lado da porta e jogando a sua jaqueta dentro dele, caminhando logo depois pelo corredor, já retirando seus sapatos e jogando a um canto perto da escada, indo para a sala e caindo no sofá macio, pegando o controle sobre as almofadas e ligando a tv.

-Chegou cedo hoje, heim? – Solo despontou da cozinha, já trazendo entre os dedos uma garrafa de cerveja e entregando ao irmão.

-Você é um anjo, já te falei que eu te adoro? – retrucou com um sorriso ao rapaz mais novo.

-Me adora agora, mas quando éramos mais novos vivia pegando no meu pé. – respondeu, sentando-se ao lado de Duo e, assim como o irmão, esticando as pernas sobre a mesinha de centro.

-Eu sempre disse à mamãe que eu preferia uma bicicleta a um irmão, agora agüenta.

-Mal agradecido, eu cansei de te tirar de encrencas, e você sabe por quê?

-Por que você me ama e me adora?

-Porque você um chantageador, isso sim.

-Ah, Solo, não venha com toda essa demonstração de amor e carinho para o meu lado, senão eu vou chorar. – e fingiu secar uma lágrima imaginária no canto do olho.

-Você não presta Duo. – Solo riu diante das brincadeiras do irmão.

-Mas o que você está fazendo em casa? – perguntou Duo, trocando os canais enquanto dava um gole em sua cerveja.

-Dei uma carona a uma conhecida até o Winner Press, e depois resolvi que já que era caminho, eu poderia dar uma passada para ver como vocês estão.

-Conhecida no Winner Press? – virou-se para o irmão mais novo. –Por acaso você está falando da Kk?

-Kk? Quem é Kk? – Solo fez-se de desentendido, voltando a sua atenção para a tv e tomando um gole de sua cerveja. Duo ao ver a expressão do irmão já adivinhara tudo. O rapaz tinha encontrado com a Kohako, e tinha caído nos encantos dele. Ele mesmo, se fosse hetero, também cairia nos encantos da japonesinha. Porque, para uma oriental, ela estava longe dos estereótipos que ele conhecia. E aqueles olhos azuis ainda matariam alguém, com certeza.

-Oras, quem é Kk. Morena, estatura mediana, bonita, cabelos negros, olhos encantadoramente azuis…

-Ah, deve ser a Kohako de quem você está falando.

-Ah, deve ser a Kohako de quem você está falando. – Duo caçoou. –Me diga, você deu o folheto, que eu pedi para você colocar no mural da faculdade, a ela assim que a viu, ou foi outra coisa?

-Para começo de conversa, eu nem cheguei a mencionar que tinha um irmão que trabalhava no WP, e ela viu o panfleto sozinha.

-Hum. – foi tudo o que o homem respondeu, voltando a sua atenção para a tv. Longos minutos de silêncio depois:

-E aí? Ela conseguiu o emprego? – Duo ainda permaneceu calado e Solo quase teve vontade de arrancar um por um os fios longos e castanhos do irmão, pois com certeza ele sabia que ele estava morrendo de curiosidade. Uma característica básica da família Maxwell. –Duo! – sacudiu o rapaz mais velho pela manga da camisa, e os olhos violetas voltaram-se da tv para Solo.

-Como? Desculpe, perguntou alguma coisa? – falou inocentemente.

-Argh! – Solo bufou, sacudindo a cabeça de um lado para o outro e fazendo seus cabelos castanhos, iguais ao do irmão mas consideravelmente mais curtos, ficarem rebeldes com o movimento. –Ela conseguiu o emprego?

-Ah, sim, conseguiu. É a minha nova fotógrafa. – respondeu Duo, dando outra golada em sua cerveja. Rapidamente o jovem estudante de medicina ficou sério.

-Duo… não vá metê-la nas suas encrencas, por favor. – pediu.

-Pelo amor de Deus, Solo, você conhece essa menina apenas há vinte e quatro horas e já gamou nela?

-Eu não gamei em ninguém. – respondeu indignado, ficando extremamente vermelho. –Eu apenas simpatizei com ela durante os momentos em que ficamos juntos.

-Sei, simpatizou. – tomou um último gole de sua bebida e jogou o controle da tv para Solo. –Papai está na oficina?

-Está sim.

-Então fica aí na sua terra da negação enquanto eu vou falar com ele. – e foi falar com o pai, deixando um Solo emburrado como uma criança de cinco anos, na sala.

-Eu não gamei nela.


-Vai ficar com essa cara por toda a eternidade? – Kohako sentou-se na mesinha da sala, pegando uma das caixas da comida chinesa que Heero havia encomendado. –Desculpe se eu esqueci de ligar, mas é que eu estava meio ocupada… tentando conseguir um emprego. – e afastou os pés do irmão, que estavam sobre a mesa, sentando-se entre as pernas dele. Heero a ignorou completamente, inclinando um pouco a cabeça para ver o noticiário na tv. –Vamos nii-chan… - falou com a voz melodiosa, colocando um rolinho primavera na boca.

-Você está me atrapalhando. – Heero retrucou com uma voz grossa, não elevando um tom diante da insistência da garota. Não queria admitir, morreria antes de admitir que Trowa estava certo, que ele era super protetor. Mas o que poderia se esperar? Ainda lembrava quando tinha dez anos e sua mãe lhe viera com a notícia de que ele ganharia uma irmã. Ainda se lembrava, como se fosse ontem, seu pai o levando ao hospital e ele vendo, enrolada em cobertas, aquela coisinha miúda sendo protegida pelos braços de sua mãe. Das brigas que arrumara com quem fazia a sua irmãzinha chorar. Dos meninos que assustava, cada vez que ia ao Japão visitar a família, com um olhar gelado quando eles provocavam a sua irmã, das vezes que acordou no meio da noite com o choro de Kohako e ia sorrateiramente ao quarto dela e começava a lhe contar histórias fantásticas sobre soldados, robôs gigantes e guerras espaciais, somente para ela dormir. E da primeira vez que ela o chamou de nii-chan.

-Heero… - ela disse séria e olhos frios voltaram-se para a face da garota. -… suki da. – aquelas duas palavras foram o suficiente para desarmar Heero. Com um suspiro, o homem inclinou-se sobre o corpo e depositou a caixinha na mesa, ao lado dela. Recolheu as pernas e cruzou os braços sobre os joelhos.

-Você estraga toda a minha reputação, sabia disso? – falou extremamente sério, a encarando profundamente. Kohako apenas endireitou-se um pouco e franziu o cenho. Que reputação? –De advogado frio e sem coração. Sabe o que dizem sobre mim? – respondeu a pergunta muda dela, fazendo uma outra pergunta em seguida e a jovem deu uma negativa com a cabeça. –De que eu sou o único doador vivo de coração. – falou sem emoção nenhuma e a garota gargalhou.

-Você só pode estar brincando. Então essas pessoas que dizem isso não conhecem o Heero que eu conheço. – retrucou com um sorriso, afagando os cabelos castanhos e rebeldes, que ainda estavam molhados pelo banho. Com certeza mulheres morreriam por toda Boston apenas para ter um pouco dessa proximidade que Kohako estava tendo. Outra característica do sisudo advogado Yuy era que ele detestava muito contato humano.

-Imagine o que falariam de mim quando soubessem que eu cedo a todos os caprichos de uma menina cada vez que ela faz um beicinho? Perderia todos os meus clientes. – afirmou seriamente e Kohako riu mais ainda, aproximando-se dele para cochichar algo em seu ouvido.

-Seu segredo está guardado comigo, pode deixar. Mas e aí? – voltou a sua posição original, puxando as pernas do irmão para colocá-las em cima da mesa. –Andou malhando nii-chan? – comentou casualmente, observando as pernas bem torneadas, com pêlos claros, e as coxas sendo destacadas pelo spandex negro que usava. As roupas caseiras de Heero, spandex ou short de algodão, e camisas regatas, geralmente verdes. Seu irmão era um homem bonito, e não era a toa que mulheres era o que não faltava na vida dele.

-Nani?

-Esqueça, não era sobre isso que eu queria falar. – deu de ombros, abrindo um sorriso novamente cegante. –Não vai me perguntar como fui na minha tentativa de conseguir um emprego?

-Para quê? Do jeito que você chegou saltitante, acho que já sei a resposta.

-E está totalmente certo. A vaga é minha. E irei trabalhar ao lado de Adônis.

-O nome do repórter com quem vai trabalhar é Adônis? Já estão à base do primeiro nome? – perguntou desconfiado.

-Não tolinho. O homem com quem eu vou trabalhar é um Adônis. Corpo esguio, pele clara, mas não como cera e sim com um tom levemente bronzeado, longos cabelos castanhos brilhantes, um sorriso lindo, um rosto perfeito, um corpo perfeito, nem muito magro mas nem muito musculoso, uns olhos maravilhosos, uma bunda perfeita… – começou a relatar sonhadora e Heero soltou um pequeno rosnado.

-Você vai trabalhar com um homem? – disparou, como se isso fosse um pecado mortal, com as faces já vermelhas de conter a raiva.

-Não faça essa cara tão feliz Hee-chan. – Kohako provocou, dando pequenos tapinhas nas coxas firmes do irmão. –Ele é lindo, sim, mas não faz meu tipo. Quero dizer, faz meu tipo, eu apenas não faço o tipo dele, se é que você me entende. – e deu uma piscadela para o moreno na sua frente.

-Isso não quer dizer nada. – Heero murmurou, mesmo que tenha entendido o que ela entoou nas entrelinhas. Ser gay não queria dizer muita coisa. Com certeza, antes de definir a sua sexualidade, o sujeito pode ter tido as suas experiências com mulheres, e Kohako era uma menina bonita, ingênua…

-Pode parar por aí, que não sou tão otária assim. – cortou os pensamentos dele, como se soubesse exatamente o que passava em sua mente. –Além do mais o Duo não parece ser do tipo…

-Duo? Que espécie de nome é esse? – interrompeu a garota, fazendo uma grande carranca. –Que idiota teria o nome de Duo?

-Que idiota teria o nome de Heero? – respondeu a jovem, irritada, levantando-se bruscamente e chutando uma perna de Heero, para poder abrir caminho, e sentou-se na cadeira do outro lado da sala. Está certo que não conhecia Duo há muito tempo, mas simpatizara com ele, e Heero não tinha o direito de zombar do primeiro amigo que fizera na cidade.

-Sei, não me interessa se ele parece ser do tipo ou não, apenas fique atenta perto desse sujeito. – resmungou o homem mas Kohako fingiu não ouvir, voltando a sua atenção para a televisão.


Deu um peteleco na folha intrusa que resolveu cair sobre a figura da anatomia humana, onde ele tentava de todos os modos desvendar cada osso que estava presente aos seus olhos. Soltou um suspiro e fechou o livro com um baque. Não suportava estrutura óssea, mas tinha que estudá-las, se queria ser pediatra. E o que mais criança arrumava era osso quebrado. Depositou o livro no colo e esticou o corpo sobre o banco, jogando a cabeça para trás e fechando os olhos, aproveitando o sol fraco de final de verão. O vento balançou os seus cabelos castanhos e uma sombra bloqueou os raios solares que batiam em seu rosto. Solo abriu um dos olhos azuis, mirando a jovem que estava parada atrás de si, rapidamente pôs-se alerta e sentou-se direito no banco.

-Bom dia Solo. – Kohako deu a volta no banco e sentou-se ao lado dele, olhando com curiosidade o livro que estava no colo do rapaz. –Esqueleto humano? Já estudando? O semestre mal começou.

-Devia saber que fazer medicina é viver sempre grudado com os livros.

-É, eu sei. Profissão interessante, mas eu não tenho estômago nem paciência para isso. – sorriu para ele e o rapaz sentiu um estranho calor lhe subir pelas suas bochechas.

-E então… - começou, abaixando o rosto e voltando o olhar para a capa gasta de seu livro, tentando esconder o rubor. -… soube que você conseguiu o emprego na Winner Press. – Kohako piscou confusa para ele, como ele ficou sabendo disso?

-Como soube? Eu estava vindo agora mesmo te contar.

-Meu irmão me disse.

-Seu irmão? – piscou mais ainda, sentando-se de lado no banco para poder olhar melhor para o rosto do rapaz, que tinha conseguido finalmente fazer o rubor sumir para poder olhar para ela. –Maxwell… - murmurou sob a respiração, aproximando seu rosto um pouco do de Solo. Os olhos eram parecidos, assim como alguns traços e os cabelos, então isso só poderia significar uma coisa:

-Você é irmão do Duo. Ele me disse que tinha um irmão fazendo medicina em Harvard. Deve ser você.

-É, sou eu. – Solo sorriu um pouco, Duo e sua eterna boca grande. Com certeza deve ter contado metade da vida deles para a garota. –Mas e então? – perguntou, virando novamente o rosto para poder fugir do olhar intenso daqueles orbes azuis.

-Então o quê? – Kohako sentou-se novamente de frente no banco, esticando suas longas pernas que hoje não eram escondidas por uma calça comprida. Solo não conseguiu desviar os olhos do movimento lânguido que ela fez, como um gato se espreguiçando, e ficou petrificado com aquele par de pernas a vista de qualquer um. –Solo? – a jovem chamou quando percebeu que o rapaz ficou meio aéreo.

-O quê? – balbuciou confuso, virando a cabeça num estalo quando percebeu o que estava fazendo.

-E então o quê? – ela repetiu a pergunta, olhando estranhamente para o garoto ao seu lado.

-Hã? Ah! Ah sim! Como foi o seu primeiro dia de trabalho? – perguntou, dando profundas inspiradas de ar para acalmar seu coração e outra parte de sua anatomia que ficou rapidamente desperta com os movimentos da garota. Como deveria ser correr as mãos por aquelas pernas? "Pare Solo! Agora!" comandou-se, antes que um desastre acontecesse dentro de suas calças brancas.

-Foi muito divertido. O seu irmão é uma comédia, eu ri muito com ele. – e ela começou a relatar o seu dia com Duo, enumerando as milhares de qualidades que o homem tinha. Solo ouvia a história dela, seu coração se comprimindo cada vez mais dentro de seu peito. Parecia que Kohako, como a maioria das garotas, tinha caído nos encantos de Duo e sofreria, assim como as outras garotas, quando descobrisse a verdade sobre o seu irmão. Nesse ponto, ele ficava com inveja de Duo, ele sempre conseguia conquistar as mulheres, e homens também, com apenas um sorriso. E conseguira conquistar a garota que ele estava afim.

"Afim? Você nem a conhece direito e já está gostando dela?" perguntou-se em pensamento, observando com extremo interesse os lábios cheios e rosados falarem e falarem.

-Solo? Você está me ouvindo? – Kohako interrompeu o seu relato, olhando curiosa para a expressão estranha e calada do jovem.

-Hã? Sim, claro que estou. – respondeu rapidamente.

-Você sempre fica aéreo assim?

-Não… não, eu estava meio que perdido em pensamentos.

-Olha, se eu estiver atrapalhando eu volto outra hora, se você preferir. – falou, recolhendo a sua bolsa e preparando-se para se levantar.

-Não! – Solo segurou no pulso dela, a fazendo sentar-se novamente. –Eu juro que vou prestar atenção agora. O que era mesmo que você estava dizendo? – a japonesa sentou-se novamente no banco, olhando por uns segundos para Solo, depois abriu um grande sorriso que fez o coração do americano dar um salto e quase vir à garganta.

-Eu tava perguntando qual é o tipo de pessoa que o seu irmão gosta. – algo frio pareceu escorrer para o estômago do estudante, assim que a frase saiu daqueles lábios tentadores.

-Tipo?… Eu… - será que seria bom estourar logo o balão de felicidade dela? Contar que Duo não jogava nesse time? Talvez assim, desiludida, ela pudesse se interessar nele. –Olha, Kohako, eu tenho que ser sincero com você. O Duo, bem, o Duo não joga nesse time, entende? – esperou uma expressão surpresa, ou ao menos uma desapontada, mas não esperou o sorriso que surgiu no rosto dela.

-Eu sei tolinho, ele me disse. Eu estava perguntando… - e nisso ela abaixou o tom de voz, aproximando-se dele e Solo pôde sentir o cheiro bom que ela emanava.-… que tipo de homem ele gosta.

-Ah… bem… por que quer saber? – perguntou, extremamente curioso.

-Bem… é que… eu tenho um irmão… e eu acho que ele está precisando de um Duo na sua vida, entende? Hee-chan é muito sério, e ainda é tão jovem. Quero dizer, certo que ele já está chegando aos trinta, mas mesmo assim ele é jovem, saudável, bonito… ser carrancudo daquele jeito não vai lhe fazer bem. Às vezes eu tenho vontade de matar a Relena, sabe? Meu irmão já era sério antes, mas quando queria sabia se soltar. Depois que a Relena o deixou, ele se fechou em uma concha. Quero o meu nii-chan de volta, entende?

-E você acha que juntando o seu irmão com o meu irmão, a coisa vai melhorar para o seu.

-Sim.

-Kohako, pelo que você me disse, seu irmão é hetero. Eu acho meio difícil isso acontecer. Sem contar que eles dois parecem que estão em uma mesma situação. Duo não está a fim de compromissos no momento. Ele namorou um cara por uns três anos, mas ele terminou tudo com Duo para poder ir trabalhar na França. E olha que para mim a coisa parecia bem séria. Duo ficou com o coração despedaçado, e acho que ainda está se curando. Não se engane tanto com os sorrisos que ele dá gratuitamente. Às vezes muitos daqueles sorrisos são para esconder a dor que ele possa estar sentindo.

-E aí é que está. Eu acho que eles são perfeitos um para o outro.

-Quando foi que você entrou no curso: "seja um cupido"? – falou e a garota riu.

-Você é uma gracinha, Solo, realmente é. – respondeu e deu um beijo estalado na bochecha dele, o que fez o coração do garoto dar outro pulo. –Bem, eu vou indo. Minha aula começa daqui a dois minutos. A gente se fala depois, okay? – Solo apenas deu um assentimento com a cabeça, ainda zonzo diante do beijo. Era estranho como a garota, diferente de outras que já conhecera, conseguia afetar todos os seus sentidos. Kohako deu um aceno de despedida e partiu, propiciando ao jovem americano uma bela visão dos seus quadris balançando a medida em que ela ia andando.

-Um dia ela ainda me mata. – suspirou, dando um sorriso bobo e reabrindo o seu livro.