Heero sentou-se na cadeira atrás da mesa escritório que tinha no apartamento, já esperando a tempestade que passaria por aquela porta. Não esperou muito, pois logo uma morena com cabelos esvoaçantes passou pelo batente, fumegando como panela de pressão em fogo alto. Às vezes ele se perguntava como ambos poderiam ser irmãos. Enquanto ele era frio e controlado, Kohako era como um caldeirão sempre fervendo. Sempre apta a explodir.

-NÃO DÊ AS COSTAS PARA MIM HEERO YUY! – o grito ribombou pela casa, quase fazendo as paredes tremerem, e Heero sentiu a sua pouca paciência quase se esvaindo. Sempre soube que a jovem era um gênio difícil de se lidar, mas tinha desacostumado com as discussões que eles travavam.

-Eu disse que você não vai mais trabalhar lá e ponto final. – retrucou com uma voz controlada e isso foi à gota d'água para poder transbordar o copo. Já tinha ficado possesso pela manhã quando saiu daquela irritante coletiva de imprensa e viu a sua irmã quase sendo esmagada em meio a corpos e quase sendo pisoteada. Essa profissão era muito perigosa e na sua concepção não servia para a garota.

-Quem você pensa que é para me dizer o que fazer ou não? Você não é o meu pai! – gritou a jovem, debruçando-se sobre a mesa e apontando um dedo furioso no rosto de Heero. O homem levantou-se de supetão, dando um soco no móvel a sua frente que fez ele estalar em alguns pontos.

-Enquanto você estiver sob o meu teto, vai seguir as minhas regras e as minhas ordens. – os olhos azuis brilhavam em fúria contida, rivalizando com os da garota a sua frente.

-Mas nem que os porcos voem. Caso você tenha esquecido, eu não sou mais uma criança.

-MAS ESTÁ AGINDO E GRITANDO COMO UMA! – pela primeira vez em anos, Heero Yuy ergueu a voz para alguém, bufando e vermelho de raiva. –E VOCÊ VAI PEDIR DEMISSÃO DAQUELE EMPREGO, ISSO É UMA ORDEM! – os olhos de Kohako brilharam com lágrimas de raiva e ela começou a respirar pesadamente. Sempre soube, desde pequena, que Heero, apesar de nunca querer admitir ou demonstrar, era ciumento e possessivo. Cansara de ouvir Relena dizendo que o moreno quase matava com o olhar aqueles que ousavam dar um relance para a sua namorada. Agora, querer que ela se demita do melhor emprego que já teve em toda a sua vida só por causa de um incidente bobo já era demais. Não deixaria o homem controlar a sua vida assim, ele não tinha esse direito.

-VOCÊ É UM BOÇAL YUY! – gritou ao topo dos pulmões, com as lágrimas já rolando pelo rosto, e correu escritório afora para o seu quarto, batendo a porta desse fortemente quando entrou.

Heero deixou-se cair pesadamente em sua cadeira, soltando um longo suspiro e dando outro soco em cima da mesa.

-Que maravilha Yuy. – resmungou, passando uma mão trêmula pelos seus cabelos castanhos. –Você a fez chorar. – detestava isso, raramente foram às vezes que ele tinha feito Kohako chorar. E a coisa que mais quebrava Heero era essa situação. Não o fato de que as lágrimas eram de uma mulher, mas sim que eram de sua irmã. Com mulheres chorosas ele sabia lidar, apenas virava-lhe as costas e ia embora. Mas com a sua irmã era outra história. Cada vez que fazia os olhos azuis brilharem de tristeza, ele sentia um aperto no peito que o deixaria incomodado por muito tempo se ele não fizesse nada para mudar isso. Decidido, ergueu-se de sua cadeira e caminhou até a porta do quarto dela, parando em frente à madeira branca por alguns longos minutos, ouvindo através da porta os soluços que vinham de dentro do aposento.

-Kohako? – chamou suavemente, batendo na porta. Como o esperado, não obteve resposta. – Vamos Kohako, abra a porta. – Heero murmurou, encostando a sua testa na madeira e soltando outro suspiro. –Gomen imouto-chan. Vamos Kohako, abra essa porta. – sem nenhuma resposta ainda. Dentro do quarto, Kohako apenas olhava para a madeira branca, ouvindo os apelos de Heero, com lágrimas descendo pelos olhos e o rosto já vermelho de tanto chorar. Mas não iria ceder, mesmo que a voz suave e imploradora do outro lado da porta estivesse quase lhe convencendo a abri-la.

O japonês escorregou pela madeira lisa, sentando-se no chão atapetado e encostando-se contra a porta.

-Eu sei que eu fui estúpido, me desculpe. Mas é que às vezes eu não vejo direito o que eu estou fazendo. Tente entender imouto-chan, quando você nasceu eu já tinha dez anos, já tinha consciência das coisas. Para mim você sempre será aquele bebezinho que eu via sendo embalado pelos braços da mamãe, não importa o quanto você cresça. Vamos, abra a porta. – silêncio por um tempo. -Sabia que fui eu que escolhi o seu nome? Quando mamãe voltou para casa depois de ter alta do hospital, com você nos braços, ela sentou comigo no quarto e me deu você para segurar e disse: "Heero, essa é sua irmãzinha, quero que cuide bem dela. Agora… como você acha que devemos chamá-la?". E então eu lembrei do nome Kohako, que eu tinha visto em um anime. – do outro lado da porta a jovem deu um pequeno sorriso. Sua mãe vivia lhe contando essa história para aliviar a situação cada vez que ela discutia com Heero. –E da canção de ninar que eu cantava para você quando você acordava chorando no meio da noite? Como ela era mesmo? "Yoru no sora ni matataku, tooi kin no hoshi. Yuube yume de miageta, kotori to onaji iro. Nemurenu yoru ni, hitori utau uta. Wataru kaze to issho ni, omoi wo nosete tobu yo. " – dentro do quarto Kohako soltou uma pequena risada ao ouvir o irmão cantando. Ele tinha uma voz suave e grossa, um pouco anasalada, diferente daquela que ele tinha quando criança. Mas ouvi-lo cantando essa canção infantil era divertido. Decidida, ela levantou-se da cama e caminhou a até porta, a abrindo e dando as costas ao homem. Heero caiu deitado no chão assim que a porta se abriu e olhou por entre a franja a jovem sentada na cama. Rapidamente levantou-se e caminhou até ela.

-Isso não quer dizer que eu perdoei você. Ainda estou muito chateada com a sua atitude ignorante. – o homem suspirou, limpando com as pontas dos dedos as lágrimas que marcavam o rosto dela.

-Eu sei, e eu sinto muito. Eu faço qualquer coisa para me redimir. – disse com a voz mais emocional que alguém já ouvira sair da boca dele.

-Qualquer coisa? – Kohako o olhou longamente e Heero sentiu que tinha falado a frase errada no momento. Porém, tudo para vê-la sorrir novamente, pensou.

-Qualquer coisa. – reiterou.

-Bem… sabe o que é… é que você é o advogado de defesa do senador Kelly…

-E? – aí vinha bomba.

-E o Duo gostaria muito de entrevistar você. Ele até conseguiu uma entrevista com o Trowa, mas acontece que você é o advogado principal. Por favor Hee-chan, não custa nada, por mim. – outro suspiro, dessa vez mais ruidoso. Olhou fundo nos olhos azuis semelhantes aos seus, ainda vendo uma ponta de tristeza na íris cobalto. Tudo para vê-la sorrir.

-Está bem. Mande ele me ligar para poder marcar a entrevista. – disse resignado e conseguiu o seu intento, pois um sorriso enorme apareceu no rosto da garota.

-Arigatou nii-chan! – deu um grito e o abraçou fortemente, derrubando ambos sobre a cama. –Suki da! – murmurou no ouvido dele e Heero deu um pequeno sorriso. Agüentaria uma entrevista chata, tudo para ver Kohako feliz.


-Olá! – veio o cumprimento entusiasmado e um arrastar de cadeira. Solo virou-se de suas anotações para a jovem que sentava ao seu lado. Nas últimas semanas eles pareciam ter se tornado mais íntimos, o que levava o rapaz a afirmar com garantia de que agora eles eram amigos.

-Tão animada, o que houve? – fechou o seu caderno, sabendo que na companhia de Kohako não conseguiria se concentrar nos estudos. Não que a garota falasse muito, mas só de olhar para ela toda a sua atenção aos livros ia para o espaço. Ela era uma distração… uma maravilhosa distração com um belo par de pernas. "Sinal vermelho Solo! Freie e retorne." disse a si mesmo quando seus pensamentos começaram a divergir para lugares nada puros.

-Bem, hoje parece que vai ser e entrevista do Duo com o Heero, e eu estou doida para saber como vai ser.

-Mas você não vai estar lá para bater uma foto? Quero dizer, você e Duo não se desgrudam.

-Bem, eu vou caso Duo queira uma foto, mas eu duvido muito que o Heero permita. Ele é muito chato com esse negócio de fotografia, não se acha fotogênico. Bobagem na minha opinião. Heero causaria inveja até o mais famoso modelo internacional.

-Você parece gostar muito do seu irmão. – Solo comentou, apoiando a cabeça em uma mão e observando o modo como ela sempre parecia estar brilhando de alegria.

-Eu sei que Heero e eu às vezes nos bicamos, mas eu adoro ele. Ele quase me criou. Quando meus pais tinham que sair ou ficavam muito ocupados com o trabalho, era ele que sempre cuidava de mim. Eu nunca tive babá, sabia disso? Ele era que ficava de olho em mim. Heero nunca foi o tipo de adolescente de baladas e essas coisas, às vezes me surpreendo como ele arrumou uma namorada. Eu até achava meio estranho que ele preferia passar noites de sexta feira cuidando de mim do que saindo com os amigos.

-Acho que Duo e eu somos mais ou menos assim. Ainda mais depois que nossos pais se separaram, Duo se tornou super protetor, não queria que eu sofresse com nada.

-Duo é um cara legal. Heero é um cara legal, embora não goste de demonstrar. E é por isso que eu acho que esses dois são perfeitos um para o outro. – Solo riu. Ela ainda insistia com essa idéia de juntar Duo com o Heero.

-Kohako, isso é maluquice… - o rapaz ficou sério repentinamente. -… alguém pode acabar se machucando nessa história.

-Bem… eu tenho a sensação de que aconteça o que acontecer, tudo vai dar certo.

-Intuição feminina?

-Acho que sim.

-Você não existe, Kohako. – o rapaz sorriu diante da persistência dela.

-E você me ama por isso. – a garota brincou, afagando os cabelos castanhos dele. "Você não poderia estar mais certa." pensou Solo. –Mas não é apenas por isso que eu estou animada.

-Então?

-Outubro está chegando e assim como o aniversário do meu irmão. Eu estava pensando em dar uma festa para ele. Já até falei com o sindico do prédio para poder reservar o salão de festas. E eu queria te convidar. – ela estendeu a ele um pequeno cartão.

-Quinze de outubro… Rua Welltshire n° 320, Boston. Do jeito que você fala, pensei que o seu irmão não gostasse de festas.

-E ele não gosta, mas você não acha que eu iria deixar o aniversário dele passar em branco assim, acha? Mas diga, você vai? Eu estou convidando com duas semanas de antecedência.

-Claro que eu vou. – respondeu, guardando o envelope na bolsa.

-Que bom!

-Mas… só por curiosidade, quando é o seu aniversário?

-Dia primeiro de dezembro, por quê? Está pensando em me dar um presente? – disse divertida.

-Quem sabe. – foi tudo o que Solo respondeu.


-E então? Seu irmão vai demorar muito? – Duo perguntou, ajeitando o gravador sobre a mesa de Heero e verificando seu bloco de notas e as canetas.

-A secretária dele disse que ele estava em uma reunião com os sócios, mas que logo voltaria. Duo… - a jovem começou incerta. -… eu sei que você gosta de ir direto ao ponto, sem rodeios e sem duplos sentidos, mas cuidado com o que você pergunta ao Heero. Acredite, tê-lo como inimigo não é o mesmo que os outros que você tem.

-Você acha que eu não posso com o seu irmão? – perguntou o americano de maneira séria.

-Eu estou apenas prevenindo para depois você não ganhar um olho roxo.

-Olho roxo? Kohako, a fama de Yuy não me faz crer que ele seria capaz de perder a sua paciência a ponto de dar um olho roxo a alguém. – Kohako apenas ergueu as sobrancelhas, não comentando muito sobre esse fato, e desviou o olhar do de Duo. –Ele já deu um olho roxo a alguém?

-E uns hematomas, uns ossos quebrados, um trauma… e o sujeito nunca mais foi visto em Shizuoka.

-Mas por que ele fez isso? – perguntou curiosíssimo. Heero Yuy tinha a fama de nunca perder a paciência, mesmo sob as maiores provocações. O que o levaria a bater em um sujeito dessa maneira?

-Ele estava molestando a minha irmã. Preciso de outro motivo? – a voz sem emoções soou na porta da sala e ambos os ocupantes viraram-se para observar o recém chegado. Heero fechou a porta atrás de si, caminhando lentamente até a sua mesa. Seu terno negro com listras finas estava impecável, assim como a sua gravata azul escura sobre a blusa de linho branca. A face estava sem nenhuma expressão e os cabelos castanhos se rebelavam no topo da cabeça.

-Super protetor… - Duo murmurou sob a respiração, rabiscando algo em seu bloco. –Podemos começar sr. Yuy? – perguntou, puxando a cadeira em frente a mesa de Heero e sentando-se.

-Sim. – Heero murmurou, sentando-se em seu lugar. Quanto mais cedo aquilo começasse, mais cedo iria acabar.

-Muito bem. Primeiro de tudo, sr Yuy, uma curiosidade. Por que aceitou o caso do senador Kelly? Todos conhecem a reputação da Yuy-Barton e Associados, e todas as acusações em relação o senador parecem ser verdadeiras. Isso não daria o caso como perdido?

-Aqui não jogamos para perder, sr. Maxwell. Sem contar que a minha única função é defender o senador Kelly, não julgá-lo. E é isso o que eu farei.

-E o senhor já tem idéia de que argumentos irá usar na sua defesa?

-Isso é confidencial.

-O senhor está próximo ao senador, sabe como ele está reagindo a essas acusações? Sabe se ele realmente é usuários de drogas?

-Sou apenas o advogado, não o assessor.

-O senhor não acha que esse caso pode causar uma má imagem a sua firma?

-Não.

-Por que não?

-Já disse que eu não julgo nada.

-As suas disputas com o promotor Marquise são famosas. Aceitou esse caso por rixa pessoal ou por profissionalismo mesmo.

-Profissionalismo. Eu não tenho nenhuma rixa pessoal com o promotor Marquise. – Duo fez uma pausa, anotando alguma coisa em seu bloco.

-Mas sabe-se que essa disputa de vocês dois começou depois que você dormiu com a mulher do promotor, a sra. Lucrezia Noin-Marquise.

-Heero! – Kohako gritou a um canto da sala. Sabia que o seu irmão era mulherengo, mas isso era demais.

-O que aconteceu entre Noin e eu, sr. Maxwell, creio que não é dá sua conta.

-Mas é o que todos dizem. Dentro dos tribunais a frieza em pessoa, fora deles o maior mulherengo de Boston, que já despedaçou dezenas de corações.

-Está falando como se a cada semana eu dormisse com uma.

-E isso não é verdade? – uma veia começou a latejar na testa de Heero e Duo quase riu. Pedra de gelo uma ova. Aquele homem apenas era controlado demais. Poderia ser lindo de morrer, um deus grego, como ele atestou assim que pôs os olhos nele quando ele entrou na sala. Mas tinha uma personalidade muito complexa para alguém aparentemente tão jovem.

Heero finalmente lembrou-se porque não gostava de repórteres. Eles eram intrometidos, falavam demais e faziam perguntas inconvenientes. Levantou-se de sua cadeira e abriu a porta, indicando a saída da sala.

-Acho que essa entrevista terminou, sr. Maxwell.

-O senhor não respondeu a minha pergunta, Sr. Yuy. – Duo levantou-se também, recolhendo o seu gravador de sobre a mesa.

-Para começo de conversa, o que eu tive com Noin foi muito antes de ela conhecer o Marquise. Segundo, a minha vida pessoal, amorosa e sexual não é da sua conta. Terceiro, a entrevista está encerrada. Retire-se antes que eu mande chamar os seguranças.

-Só mais uma pergunta, sr. Yuy. – Duo falou quase na porta e viu claramente Heero apertar a maçaneta como se ela fosse a única coisa que o impedia de explodir em fúria.

-Com o Juiz Khushrenada no caso, acha mesmo que vai conseguir provar que o seu cliente é inocente, mesmo com todas as evidências contra ele?

-Evidências essas que você plantou, sr. Maxwell.

-Eu apenas mostrei ao povo a verdade sobre o candidato que pregava tanto sobre moralidade nesse país.

-Isso não serei eu a dizer, mas sim o Juiz. Porém, como falei antes, aqui não jogamos para perder. Creio que a sua hora acabou sr. Maxwell.

-Muito obrigado pela entrevista sr. Yuy. – disse Duo com sarcasmo, saindo da sala. Kohako ainda ficou mais alguns minutos, dando um suspiro desolado. Isso não tinha sido bom, eles quase se pegaram no meio da sala. Caminhando até a porta, ela passou pelo irmão, dando um olhar apologético a ele, e saiu. O moreno finalmente soltou o ar que estava há tempos prendendo, voltando a sua mesa e sentando-se pesadamente em sua cadeira. O que havia lhe irritado naquele americano não fora as perguntas impertinentes, mas sim o olhar dele sobre si cada vez que perguntava. Aqueles olhos azul-violeta pareciam querer desvendá-lo, sem contar no impacto que o americano havia lhe causado. Já achara outros homens bonitos, apreciava a beleza tanto masculina quanto feminina, mas esse tal de Duo Maxwell, na boa e velha gíria, era de parar o trânsito. E o fato de ter se sentido atraído por um homem era o que estava lhe incomodando. Ainda mais um homem tão irritante quanto esse. E, em uma coisa ele tinha que dar razão a Kohako, ela, realmente, estava trabalhando em parceria com Adônis


N.A: O trecho da música que Heero cantou foi de "Yoru no Uta" - Canção da Noite - do anime Sakura Card Captors. A tradução do trecho está aí embaixo.

Tradução: No céu da noite elas brilham, as distantes estrelas douradas. A mesma cor de um pequeno pássaro, que apareceu em meus sonhos noite passada. Nesta noite insone, eu canto esta canção sozinho. Junto com os ventos que sopram, eu me perco em meus pensamentos.