Aproximou-se cautelosamente da divisória do cubículo, batendo de leve na parede de plástico. Os olhos violetas ergueram-se da tela do computador para a jovem na porta, retornando a tela novamente logo depois.

-Duo? – Kohako chamou, entrando no espaço onde o repórter trabalhava.

-Sim? – respondeu com uma voz distante. A garota puxou uma cadeira que estava ao lado do homem de trança e sentou-se perto dele.

-Eu queria pedir desculpas por ter discutido com você naquele dia. Mas é que… - ela pegou uma mecha negra solta do seu rabo de cavalo e começou a enrolar no dedo. -… eu sou assim mesmo, meio estourada, sabe? Ainda mais quando o assunto é o meu irmão. As pessoas costumam julgar Heero muito mal, e eu não gosto disso. – Duo virou a sua cadeira giratória para poder olhar melhor para a menina. Havia se apegado a ela no último mês, e poderia dizer que tinha criado um carinho fraternal pela garota, por isso achava que perdoaria todos os pitis dela com um grande sorriso no rosto, como sempre.

-Está tudo bem, acho que se o Solo fosse assim, o que graças a Deus ele não é, eu também reagiria assim se falassem mal dele. Sem contar que eu tenho uma boca enorme.

-Uma boca enorme mas bem bonitinha. – Kohako brincou e Duo deu um grande sorriso para ela. Realmente nunca conseguiria ficar irritado com essa garota. Ela era tão cheia de vida e radiante, não era a toa que Solo estava apaixonado por ela. Sim, ele sabia o que o seu irmão sentia pela menina, já estava cansando de ouvir o garoto falando e perguntando sobre ela cada vez que voltava para casa. Apenas não entendia como essa jovem tão vivaz poderia ser irmã daquele… daquele… daquele imbecil. Pensar em Heero Yuy apenas fazia o seu sangue ferver e, por mais que ele quisesse tirar aquele homem da cabeça, não conseguia esquecer aqueles olhos azuis brilhando em fúria quando o entrevistou. A aura de firmeza, sensualidade e segurança que ele passava era intoxicante. Porém, ao mesmo tempo lhe dava nos nervos. Nunca teve paciência com gente que se recusava a demonstrar qualquer tipo de sentimento, além do fato de que desde o momento que pôs os olhos em Yuy, sentiu uma grande antipatia por ele, apenas não entendia o porquê. Talvez fosse pelo fato de ele estar tentando livrar da prisão um bandido hipócrita, o tipo de pessoa que ele detestava.

-Escuta… - a garota arriscou mais uma cartada no que ela denominou "Operação Cupido". -… você ainda vai ao aniversário do Heero? – perguntou incerta. Havia dado o convite a Duo antes da entrevista, e ele tinha confirmado a presença. Mas agora, não tinha tanta certeza de que ele estivesse a fim de encontrar o seu irmão novamente.

-Eu não sei… eu…

-Por favor. – o olhar de filhote de cachorro abandonado que ela lançou foi demais para Duo. Será que esse olhar também conseguia quebrar as defesas do todo poderoso Yuy? Pensou o homem, quando se viu prestes a ceder quando já havia decidido a não ir mais a festa.

-Eu vou, okay? – e o sorriso compensou a sua mudança de decisão.

-Vai aonde? – Quatre parou em frente à entrada do cubículo, com uma edição recém saída da prensa, do jornal.

-A festa de aniversário do meu irmão. – respondeu Kohako.

-A festa de Heero Yuy? Sei…

-O que você quis dizer com esse "sei", Q? – Duo perguntou curioso. De uns dias para cá Quatre parecia ter visto o passarinho verde, de tão aéreo que estava. E o americano poderia jurar que havia o dedo de outra pessoa por detrás das atitudes do árabe. Quatre estava saindo com alguém, mas se recusava a dizer com quem.

-Nada… eu apenas fui convidado para a festa. Você vai querer uma carona, Duo, já que a sua moto está no conserto? Kohako, quer uma carona também? – falou, abrindo displicentemente o jornal e mudando de assunto com uma destreza tão grande que Duo chegou a pensar se Quatre não estava convivendo demais com ele, pois as suas manhas para escapar de roubadas o loirinho já estava aprendendo.

-Não mude de assunto, sr. Winner. Quem te convidou para a festa? – o jovem de trança virou-se para Kohako, que deu de ombros. Não era tão íntima assim do presidente do jornal para convidá-lo para uma festa familiar.

-Um amigo. Vai ou não vai querer a carona? – Quatre dobrou novamente o jornal, esperando pela resposta.

-Um amigo? – Duo franziu tanto as sobrancelhas que elas se tornaram uma única linha na testa dele. –Que amigo você e Heero Yuy poderiam ter em comum… AH! – deu um pequeno grito ao desvendar o mistério. –Quatre seu loiro safado, você anda saindo com aquele deus grego e não me disse nada? Que tipo de amigo você é? – Quatre teve a decência de corar diante das palavras de Duo.

-O que está havendo aqui? – Wufei aproximou-se da entrada do cubículo, curioso quando viu de sua sala Duo dar um grito e a pele sempre clara de Quatre ficar vermelha.

-Esse árabe traidor está saindo com o Trowa Barton. Eu lhe falei Fei-fei que ele estava vendo alguém. Aquele sorriso sonhador e olhar de peixe morto durante as reuniões de pauta queriam dizer alguma coisa. O cara 'tá tendo um encontro… e teve a cara de pau de esconder isso de mim.

-Não o culpo. – Wufei veio em defesa do amigo loiro. –Com certeza se ele contasse para você, toda Boston já estaria sabendo disso agora.

-Está me chamando de fofoqueiro, Chang? – Duo fez um biquinho indignado.

-Se a carapuça serviu. – os dois começaram uma disputa de olhares que só foi quebrada quando uma risada ecoou pelo local.

-Vocês três… vocês três são a maior comédia. – Kohako continuou rindo, apontando para os três. Em meio à risada conseguiu pescar algo dentro de sua bolsa e estendeu a Wufei. –Acho que se dois de vocês vão, não vejo porque o terceiro mosqueteiro não ir. – disse, entregando o convite da festa para o chinês.

-Está tentando arrumar uma promoção Yuy? – falou seriamente e a garota riu mais ainda.

-Deus me livre, estou feliz onde estou. Até porque, aí sim seria o cúmulo da prepotência. Bem, está convidado, e pode trazer quem o senhor quiser. – deu uma piscadela de olho para ele e depois voltou o olhar para Sally Po, editora de cidade, que conversava com um repórter no fim do corredor.

-Oras menina abusada, está andando muito com o Maxwell. – resmungou, voltando a sua sala pisando duro.

-Essa é a minha garota. – disse Duo, sorrindo e envolvendo os ombros dela em um meio abraço.


Quinze de outubro havia chegado com um tempo mais frio e anunciando um inverno próximo. Trowa caminhou corredor abaixo pela firma, já tendo dispensado metade dos funcionários nesse final de sexta feira. Sua missão era clara e encontrava-se no final do corredor. Tinha que arrancar Heero daquela sala e levá-lo a festa que o estava esperando em seu prédio.

-Heero… - já entrou no escritório, decidido, e sem bater. - … não me importa que você esteja resolvendo uma crise mundial, você hoje vai sair dessa empresa no horário normal, como toda pessoal normal. – declarou, já caminhando em direção ao homem e começando a desligar seu laptop. Heero estava começando a ensaiar um grunhido de insatisfação, mas Trowa já foi o puxando pelo braço e o fazendo se levantar, recolhendo a sua pasta e o seu paletó, os esmagando contra os braços do japonês.

-Barton… - ele ainda tentou protestar, mas o homem já o estava empurrando porta afora.

-Vá para casa, tome um banho, que eu acho que a Kohako já está te esperando.

-Me esperando? Às vezes, na sexta, ela chega depois do que eu. Como ela pode estar me esperando?

-Deus, Yuy, como você pode ter esquecido que dia é hoje?

-Que dia é hoje? – perguntou indiferente, colocando o paletó enquanto era arrastado para o elevador por Trowa.

-Vá para casa e descubra. – foi empurrado para dentro do elevador assim que as portas desse se abriram. –A gente se vê mais tarde. – tentou falar diante dessa frase estranha do amigo, mas as portas do elevador haviam se fechado novamente e as palavras morreram em sua garganta. Resignado, Heero esperou o elevador chegar até a garagem para poder ir embora.

-Finalmente! – foi a primeira coisa que ele ouviu quando chegou em casa. Kohako já foi caminhando até ele, tirando a pasta de suas mãos e o paletó de seus ombros, o empurrando com todas as suas forças em direção ao quarto. –Agora eu quero que você tome um banho, fique bem cheiroso e se vista, porque os convidados já devem estar chegando.

-Convidados? – Heero estacou no lugar, fazendo a garota chocar-se contra as costas largas dele. –Que convidados? – "Deus, Yuy, como você pode ter esquecido que dia é hoje?" as palavras de Trowa lhe voltaram à cabeça. Hoje era dia quinze… dia do seu aniversário. O homem gemeu. –Não me diga que você fez isso.

-Fiz o quê? – perguntou a jovem, entrando no quarto do irmão e caminhando até o banheiro, abrindo o chuveiro e medindo a temperatura da água com as pontas dos dedos.

-Você armou uma festa para mim. – resmungou, desfazendo o nó de sua gravata e começando a desabotoar a camisa.

-Sim… e pode desfazer essa cara porque você vai. E eu não convidei muita gente… até porque você anda meio pobre de amigos nessa cidade. Algumas pessoas do escritório que Trowa me disse que você era mais chegado, alguns amigos meus, e nada mais.

-Amigos seus… - murmurou distraído, desfazendo a fivela do cinto, até que de repente ele parou no meio do ato. –Você não me convidou aquele idiota do Maxwell, convidou?

-Eu espero… - ela já se virou totalmente séria para ele, pendurando o paletó em um cabide e o colocando no armário. -… que os dois meninos se comportem e ajam de acordo com a idade que tem.

-Se aquele idiota não abrir a boca, acho que sobreviveremos essa noite. – retrucou, tirando o cinto com força e o lançando longe, caminhando até o banheiro e fechando a porta atrás de si. Kohako ouviu uns barulhos vindos do banheiro e depois de cinco minutos resolveu entrar no local.

-Eu estou falando sério Heero. – Heero deu um pulo ao ouvir a voz da garota tão perto.

-Kohako! Não vê que eu estou no banho? – ralhou por detrás da porta do boxe.

-E daí? Não dá para ver nada através desse vidro. E mesmo se desse, você não tem nada aí que eu já não tenha visto antes. – disse dando de ombros, recolhendo a calça que estava em cima da pia. Em um rompante a porta de vidro se abriu e Heero puxou uma toalha para se cobrir da cintura para baixo, olhando chocado para a irmã, que o olhava confusa. –O que foi? – perguntou diante da ação repentina dele.

-Que… que história é essa de que eu não tenho nada que você já não tenha visto antes? – ela espalmou a mão no peito molhado do homem e o empurrou de volta para dentro do boxe, fechando a porta de vidro rapidamente.

-Termine o seu banho Heero. – comandou, saindo as pressas do banheiro, sem responder a pergunta do moreno, o que o deixou com uma pulga atrás da orelha por um bom tempo.


-Finalmente resolveu nos dar a graça de sua presença. – Trowa sorriu, cumprimentando o amigo quando esse entrou no salão enfeitado. Os cabelos do japonês ainda estavam molhados pelo banho e ele usava uma camisa de linho negra dentro de uma calça jeans desbotada que se aderia a todas as curvas de suas pernas. Casual, mas ao mesmo tempo chique.

-Você ainda me paga por ter me metido nessa. – murmurou o moreno, apertando a mão do amigo e sócio.

-Oras, Heero, você mesmo uma vez me disse que ninguém conseguia resistir aos charmes de Kohako quando ela queria alguma coisa. E eu não pude dizer não a ela quando ela veio a mim propondo a idéia da festa, mesmo sabendo que você não gosta.

-Eu já disse para você virar esse olho gordo para outro lugar que não seja a minha irmã.

-Mas eu já virei meu caro. – disse com um sorriso malicioso, que rapidamente foi substituído por um mais genuíno quando um loiro aproximou-se deles. –Heero, esse é Quatre Winner. Quatre, Heero Yuy.

-Muito prazer sr. Yuy. – disse Quatre polidamente, estendendo uma mão a ele. –E feliz aniversário.

-Obrigado sr. Winner.

-Por favor, - falou com um sorriso. –me chame de Quatre.

-Se vocês me dão licença… - Heero começou. -… eu vou falar com os outros convidados. – e afastou-se dos dois homens, indo rodar pelo salão para ver quem estava lá. Sua secretária em companhia do noivo, que faltava babar sobre ela, com um certo olhar de veneração. Ah, se o homem soubesse o que ele já tinha feito a aquela mulher, aquele olhar morreria rapidinho. Tinha alguns de seus associados na festa, outros desconhecidos que deveriam ser amigos de Kohako. A própria a um canto conversando com aquele garoto do cinema e, para o seu pesadelo, lá estava ele, conversando com um rapaz chinês, totalmente alheio a sua presença. O ficou fitando por um bom tempo, começando pelas pernas delgadas e desenhadas pelas calças negras de couro, o tórax definido e aparecendo por debaixo da blusa quase transparente, os braços trabalhados que eram flexionados à medida que ele gesticulava e aqueles longos cabelos trançados. Novamente a atração o abateu e Heero sentiu raiva de si mesmo, desviando o olhar no momento em que os olhos violetas viraram-se em sua direção. Talvez fosse melhor beber algo. E algo forte.

Uma hora depois um Heero entediado encontrava-se em um canto do salão, quase sendo escondido por uma grossa pilastra de concreto, ao lado da mesa do bufe, olhando tudo a sua volta com cansaço. Já havia falado com todo mundo, mas a maioria dos convidados trouxera companhia para poder conversar, sem contar que diálogos realmente não eram com ele. Trowa estava a um canto, babando visivelmente sobre aquele tal de Quatre Winner. Kohako vez ou outra vinha falar com ele, mas rapidamente voltava para o lado de Solo, sempre sob o seu olhar atento, o que o fez levar umas três cotoveladas de Trowa nas costelas: "pare de segurar a vela da sua irm", ele dissera. No fim, sua única opção de distração foi aquela que ele queria mais esquecer. O americano de trança.

Os olhos azul cobalto acompanharam os movimentos do corpo esguio quando esse veio em direção a mesa do bufe. Duo parou em frente a uma disposição de garrafas de bebidas, decidindo-se qual delas iria pedir ao garçom, quando notou uma silhueta ali perto. Virou o rosto e deu um pequeno sorriso malicioso ao ver o homem quase escondido por detrás da pilastra. Uma pessoa racional teria apenas dado as costas e ignorado esse fato aparentemente normal, mas Duo, às vezes, não era nada racional, e tirar o controle daquele iceberg parecia uma tentação. Ele era um desafio muito maior do que Wufei, sem contar quê, ele tinha que admitir, o japonês ficava irresistivelmente sexy quando furioso.

-Pensando sobre a vida? – Duo aproximou-se dele como um gato pronto para dar o bote.

-Cai fora Maxwell. – foi à resposta curta e seca do japonês.

-Realmente, é a idade baixando ou a sua mãe te amamentou com suco de limão? Cara, você é azedo. Às vezes me impressiono como a Kohako pode ser a sua irmã.

-Acho que a genética é algo muito complicado para eu tentar explicar para você garoto. – retrucou seco, depositando o copo vazio de bebida sobre a bandeja do primeiro garçom que passou.

-Ainda ofendido porque eu disse que você pegou a mulher do Marquise? Eu investiguei Yuy, e você tem a fama de ser o maior galinha da cidade.

-Escuta, você não tem limites não? Não sabe diferenciar o pessoal do profissional? Sem contar que a minha vida não lhe interessa em nada.

-Vida? Que vida? Pensei que você não tivesse uma vida. – Heero voltou-se para ele, os olhos faiscando diante do atrevimento daquele jornalista fuleiro.

-Você já parou para pensar que eu posso te processar por causa dessa sua língua ferina? Você ainda vai parar na cadeia por ser tão intrometido, americano idiota.

-Epa! Ofensa não! Olha o baixo nível. Sem contar que você não seria o primeiro nem o último a me fazer essa ameaça. E não adianta fazer essa cara feia, Sr Heero "Iceberg" Yuy, porque isso não me assusta em nada.

-Pois deveria, porque nesse momento eu queria que você sumisse daqui, repórter fuleiro. Devo ter derrubado a minha irmã do berço, porque eu não sei onde ela estava com a cabeça para convidar você. Aliás… - ele apontou um dedo trêmulo para onde Kohako estava. -… poderia mandar o imbecil do seu irmão parar de babar sobre a minha Kohako?

-Escuta aqui… - Duo apontou um dedo na cara de Heero. -… eu engulo as ofensas, mas outra coisa diferente é você sair falando mal assim do Solo. Você não o conhece, você não me conhece! – gritou.

Entrementes, as pessoas da festa já estavam começando a serem atraídas para a pequena discussão que estava a um canto do salão. Alarmados, Kohako e Solo se dirigiram para lá, tentando apaziguar os ânimos.

-Duo…

-Heero… - chamaram os dois jovens.

-Não se metam nisso! – foi a resposta dos dois homens.

-Olha só quem fala. – Heero rebateu. Era impressionante como só a presença daquele americano poderia tirar todo o seu auto-controle. –Você não mediu esforços para criar pré-conceitos sobre mim. Porque acha que eu não me validaria desse mesmo direito com você?

-Não criei pré-conceitos, Yuy, apenas disse a verdade.

-Esse é o seu grande problema… ESSA SUA BOCA GRANDE SEMPRE QUERENDO DIZER A VERDADE! – Kohako ficou pálida diante do grito e olhou com desespero para Solo. Para Heero gritar, é porque ele já tinha pulado da beirada do abismo.

-O PROBLEMA É QUE SE A VERDADE D"I, É PORQUE VOCÊ NÃO PASSA DE UM POBRE IGNORANTE DENTRO DE UM MUNDO DE ILUS'ES. EGOÍSTA E HIP"CRITA! – aquilo foi à gota d'água e todos prenderam a respiração quando Heero segurou o braço de Duo e o puxou bruscamente de encontro ao seu corpo. Trowa, Solo, Wufei e Quatre estavam prontos para dar um passo à frente e impedir o pior quando algo inesperado aconteceu.

-ACHO QUE S" EXISTE UM MEIO DE CALAR ESSA SUA BOCA GRANDE! - e Heero o beijou.