Corinna Gottschalk Yuy nem se prezou a responder a pergunta que estava estampada na face do filho e já foi entrando, sem cerimônia, pelo apartamento do mesmo, olhando a sua volta com uma certa apreciação. Da última vez que estivera no país, Heero ainda dividia um apartamento com três colegas de faculdade. Um cubículo que eles insistiam em chamar de casa. Estava orgulhosa em ver que o seu filho havia melhorado consideravelmente de vida.
-Mãe? – o homem balbuciou mais uma vez, como se a mulher que acabara de passar por ele fosse uma visão do outro mundo. Corinna postou-se no meio da sala de estar do moreno e cruzou os braços sob o peito, batendo com o bico do salto agulha no chão azulejado.
-Feche essa boca e essa porta, Heero, porque o que você está vendo aqui não é uma assombração. – a ordem penetrou rapidamente no cérebro do moreno, que fechou a porta com um estalo e voltou toda a sua atenção para a loira, com uma expressão de poucos amigos, parada no centro de sua sala. Corinna tinha uma mistura alemã com latina que deixava o seu gênio totalmente quente e que possibilitava ela controlar a mão de ferro a casa. Sendo casada com o mais velho dos sete filhos de Takashi Yuy, ela, junto com o marido, era a que tomava as rédeas da família desde que a matriarca partira, deixando o senhor Takashi sozinho, que passou a responsabilidade do clã para o filho mais velho Ichiro.
-Okaasan, o que a senhora está fazendo aqui?
-Depois de quatro anos sem ao menos mostrar as caras no Japão para visitar a sua mãe, e quando ela vem te ver a primeira coisa que você pergunta é: "o que eu estou fazendo aqui?". Eu te criei por dezoito anos e quando finalmente te tiro da barra da minha saia, você resolveu esquecer que a sua mãe existe?!
-Não é nada disso kaasan. – Heero tentou apaziguar as coisas. Ele poderia enfrentar até os piores casos nos tribunais, bater de frente com malucos e assassinos, mas a sua mãe, sozinha, amedrontaria até o mais temido serial killer.
-Mutter? – uma voz feminina soou da porta do corredor e Corinna virou-se para ver a sua caçula aparecer na sala. –Mamma! – Kohako gritou e correu, sendo envolvida pelo poderoso abraço da loira. –Mas eu não entendi… - falou a garota, saindo do abraço da mãe. –A senhora falou comigo ontem… eu pensei que iria ligar de novo, e não pegar o primeiro vôo para cá.
-Eu pensei bem sobre o que conversamos, e achei que o melhor seria vir diretamente para cá. Heero está precisando de uns puxões de orelha, coisa que eu devia ter lhe dado quando criança.
-Mas a senhora disse… - começou a se defender, mas ela o cortou secamente.
-Quieto junge! – ordenou e Heero obedeceu de imediato, caminhando resignado até o sofá e sentando-se nele com um suspiro longo.
-Kohako… - falou com uma voz derrotada. -… vá ver a panela que eu deixei no fogo. Okaasan e eu precisamos conversar. – o jovem rapidamente saiu da sala. Não queria estar lá quando sua mamma começasse a dar o sermão básico em Heero.
-E como estão o papai, o vovô e os meus tios?
-Todos ótimos, já que você está interessado. Mandaram presentes quando souberam que eu viria.
-Kaasan, por que a senhora está aqui? – disse em um tom contido, tendo uma vaga idéia do porquê ela deveria estar ali. Pelo que entendera, ela ligara e falara com Kohako, que deve ter contado os últimos acontecimentos a ela. E isso não seria nada bom.
-Eu ligo para desejar parabéns ao meu filho e saber como vão as coisas, e descubro que nem tudo parece tão bem quanto eu pensei. Primeiro Kohako vem chorar no meu ombro dizendo que você está monopolizando a vida dela…
-Eu só estou tentando…
-Não me interrompa junge! – ralhou e Heero afundou no sofá. Raras foram as vezes que levara um sermão da mãe, mas nunca eram prazerosas as vezes que isso acontecia. E sempre que estava brigando com ele, ela insistia em chamá-lo de junge, de garoto. Com certeza ela sabia o quanto isso o irritava. –Eu criei a Kohako, e você, muito bem para saberem agir com sabedoria nos momentos certos da vida. Se eu permiti que a sua irmã viesse estudar do outro lado do mundo, é porque sei que posso confiar nela. Que ela é madura o suficiente para poder viver sozinha.
-Sozinha? A senhora a mandou vir morar comigo.
-Porque era muito mais prático. Mas se ela decidisse morar sozinha, aqui, eu não teria feito objeção. Kohako preferiu passar um tempo com você, até que se adaptasse.
-Como assim? Está querendo me dizer que isso é temporário? – Heero não estava gostando nada do que estava ouvindo.
-Pelo amor de Deus, Heero! A sua irmã já é uma moça. Irá fazer dezenove anos em breve. Você não espera realmente que ela viva aqui para sempre, espera? A outra coisa é que ela vai voltar na segunda a trabalhar na empresa onde ela conseguiu o emprego… - o moreno iria abrir a boca para protestar, mas um olhar de Corinna foi o suficiente para calá-lo. -… você goste ou não! Agora terceiro e o mais importante. – e esse era o medo de Heero. Sua irmã com certeza deve ter falado a ela sobre o Maxwell. –Que história é essa de você fazendo escândalo e beijando garotos no meio da sua festa, em frente a seus sócios, em frente aos superiores de Kohako?
-Eu… mãe… você não entende. Aquele idiota do Maxwell…
-Eu não te criei para soltar ofensas deliberadas as pessoas. Onde está a sua educação?
-A senhora também soltaria ofensas e perderia a sua boa educação se conhecesse aquele schwachsinnig! – gritou, erguendo-se bruscamente do sofá. Alemão? Heero estava xingando em alemão? Ah, agora sim Corinna estava extremamente curiosa e queria de todas as maneiras conhecer esse tal de Duo, do qual a sua filha falou. Nunca vira o sangue de seu filho ferver tanto por causa de uma pessoa. Talvez ele finalmente estivesse se curando das feridas em seu coração. Mesmo que a causa dessa cura fosse um outro homem.
-Filho, entendo que você esteja confuso… - falou em um tom mais calmo.
-Eu não estou confuso porra nenhuma! – Corinna arregalou os olhos, colocando as mãos sobre os quadris e batendo com mais força o bico do salto no chão, lançando um longo olhar duro para Heero. –Gomen kaasan. – disse em um murmúrio.
-Estou vendo que no momento não conseguirei nada conversando com você, pois você ainda está confuso sobre o que aconteceu na sexta passada. Mas não tem problema, teremos tempo, pois ficarei um tempo por aqui, até que as coisas se resolvam.
-Vai ficar por aqui? Mas e a nossa casa? E a nossa família? E o papai?
-Eles se virarão uns dias sem mim. E você é parte da família e precisa de uma orientação. Kohako também me disse que você está trabalhando até a estafa. E eu não quero receber um telefonema do outro lado do mundo, dizendo que meu filho de vinte anos teve um enfarto por exaustão. Senão, quem vai enfartar sou eu.
-Mas mamma… eu me sinto bem, e não estou trabalhando tanto assim… - uma mentira deslavada, mas precisava tirar a sua mãe de seu pé, rapidamente.
-Não está? Olhe para você, olhe como você está magro! O que vocês andam comendo por aqui? Anda deixando a sua irmã com fome Heero? – começou resmungando, indo em direção a cozinha. Heero a viu sumir pela porta e soltou mais um suspiro, passando a mão pelos cabelos. Esse final de semana, essa semana, e muitos outros dias, seriam bem longos daqui por diante.
Kohako observava a chuva cair intensamente através das grandes janelas da redação. Suas pernas balançavam para frente e para trás e ela brincava com uma caneta que tinha pegado na mesa onde estava sentada, entre os dedos.
-Oras… boa tarde. – Duo entrou em seu cubículo com um olhar cansado, retirando o casaco molhado e o depositando sobre uma das cadeiras que tinha no local. Rapidamente Kohako virou o olhar para ele mas permaneceu em silêncio, com a tensão palpável emanando no ar.
-Duo… - disse depois de minutos de quietude. –Eu sinto muito, muito mesmo. – falou em um murmurou e Duo jogou-se na cadeira, piscando intensamente para a garota sentada na frente dele.
-Sente pelo quê? – disse em um tom cansado.
-Bem… meu irmão. – os olhos violetas estreitaram-se.
-Kohako, eu te adoro como uma irmãzinha mais nova, mas agradeceria se você não me falasse da besta do seu irmão. – a jovem deixou até a ofensa passar em branco e deu um longo suspiro. –E além do mais, você não tem culpa de nada, você não fez nada. – "se você soubesse" pensou a garota. –Vamos colocar uma pedra nisso e assunto encerrado. Mas… eu pensei que você não voltaria mais aqui, depois do que aconteceu. Achei que ele a proibiria.
-Eu tenho os meus métodos de persuasão. – e deu um sorriso misterioso ao lembrar-se do carão que Dona Corinna tinha passado em Heero. –Bem, estamos de bem então?
-Nunca estivemos de mal lindinha. – disse com um sorriso, olhando em volta da redação, que estava extremamente vazia. Metade dos jornalistas deveriam estar presos no trânsito, que estava caótico com aquele temporal. Sorte que ele tinha conseguido pegar a sua moto do conserto no dia anterior. Nada como a sua velha companheira para lhe ajudar a chegar no trabalho na hora.
-Duo! – Sally apareceu na porta de seu cubículo, com as faces coradas e ofegante. Passou os olhos sobre os dois jovens e deu um suspiro de alívio. –Você está com alguma coisa para agora? – perguntou em desespero. O rapaz prontamente se virou para o seu computador e abriu seus arquivos, verificando a sua pauta. Não havia nada no nome dele no momento.
-Não, por quê?
-Essa redação está uma loucura. Metade dos nossos repórteres estão presos no trânsito ou no metrô. Faltou luz em metade de Boston. Até Quatre resolveu bancar o repórter hoje e saiu às ruas para poder ajudar nas apurações, tudo para o jornal não parar. Os editores que conseguiram chegar estão fazendo o mesmo. Preciso que você me ajude. A editoria de cidade está um caos. Basta cair uma chuva que essa cidade pára. Preciso que alguém vá cobrir um deslizamento que houve em Quincy.
-Quincy? – Duo gemeu. –Com essa chuva? O lugar deve estar debaixo d'água.
-Eu sei, e eu sinto muito, mas é nossa função informar a situação.
-E como você espera que a gente chegue lá, Sally?
-Vão ter que ir com a sua moto, Duo, porque nesse caos os carros da empresa não estão conseguindo ir muito longe. Toma… - a loira deu uma câmera a Kohako, que voltou os olhos para Duo. A decisão de aceitar essa matéria era dele.
-Vamos embora baixinha, antes que percamos a coisa. – e levantou-se, trazendo seu casaco junto e a sua bolsa. Kohako apenas o seguiu, já se preparando para o pior. Se iriam cobrir alguma coisa debaixo dessa chuva, duvidava muito que voltariam secos para a redação.
-Aonde Duo foi? – Wufei apareceu, vendo o amigo sumir por detrás das portas do elevador.
-Foi cobrir uma matéria para mim. – Sally suspirou aliviada, finalmente tinha conseguido um repórter para o deslizamento.
-Está usando o meu melhor repórter para trabalhar para você? – o chinês fez uma carranca e a mulher rolou os olhos em frustração. Aí vinha bomba.
-Caso você não tenha reparado, andamos com falta de pessoas por aqui. E o que você está fazendo aqui? Precisamos de gente nas ruas. Metade da cidade está sem luz, hoje com certeza é dia da minha editoria, e você fica aqui no quente e sequinho? Até Quatre está lá fora trabalhando.
-Eu estou esperando o retorno de uma matéria. Não posso sair.
-É feito de açúcar Chang? – caçoou a mulher. –Vai derreter se molhar? Peça para transferirem a ligação para esse aparelhinho mágico que chamam de celular. Eu preciso de pessoas nas ruas.
-Se precisa tanto… - Wufei rebateu sarcástico, cruzando os braços sobre o peito. -… o que você ainda está fazendo aqui?
-Não seja por isso… eu também estou indo na companhia de luz para saber o que houve. Fique aqui no quente e sequinho, frouxo. – rebateu, dando meia volta e sumindo dentro do primeiro elevador que apareceu. Wufei soltou um rosnado, aquela mulher era muito abusada. Quem ela pensava que era para ficar lhe chamando de frouxo? –Roger! – uma cabeça ruiva surgiu detrás de uma mesa, diante do grito do chefe. –Qualquer ligação para mim transfira para o meu celular. – disse, e correu, vendo se ainda poderia alcançar aquela mulher atrevida e mostrar para ela que uma chuvinha a toa nunca iria lhe assustar.
-Eu acho que pisei em alguma coisa gosmenta. – resmungou Kohako, tentando transpassar a barreira de água que a rua formava, e que já estava batendo no meio de suas coxas. Duo e ela estavam atravessando a rua, tentando ir para o ponto mais alto, onde bombeiros e defesa civil tentavam tirar pessoas dos escombros das casas soterradas pelo deslizamento.
-Deve ter sido lama. – retrucou Duo, ensopado dos pés a cabeça, como a jovem, e também tentando abrir caminho por entre as águas.
O lugar estava um caos só, como ele previra. Pessoas tentavam salvar móveis e pertences pessoais à medida que a água ia subindo, tentando sair rapidamente daquela área de risco. Pick-ups tentavam abrir caminho pelas corredeiras, para poder homens levarem as suas famílias a salvo para lugares mais secos. Bombeiros e voluntários corriam de cima para baixo, levando feridos para ambulâncias e ajudando a escavar os escombros. Crianças choravam no meio da rua, mães tentavam salvar seus filhos. Um verdadeiro inferno molhado.
-Duo! – Kohako gritou quando pisou em algo e deslizou, quase afundando nas águas. Duo, em um movimento rápido, segurou no pulso da garota e a puxou com força, fazendo ambos alcançarem mais rapidamente o alto da rua, onde estava seco e os homens trabalhavam no meio da rua.
-Precisamos de uma barricada para impedir que a água suba mais! – o chefe dos bombeiros gritou em meio à confusão.
-Desentupidores! – alguém da defesa civil clamou. Precisavam desentupir os bueiros para poder a água escorrer. Senão, além de deslizamento teriam uma enchente para poder resolver.
-Como é que vamos conseguir alguma coisa no meio desse caos? – perguntou Kohako, com as mãos trêmulas e os dentes batendo pelo frio. Até seus ossos estavam molhados com essa chuva.
-Você bate as fotos. – ordenou Duo, vestindo o seu casaco nela, que era mais impermeável, e esfregando as mãos da garota com as suas para poder aquecê-la. –Eu vou ver o que posso fazer. Já fiz isso antes. Você vai ficar legal sem mim? – perguntou preocupado.
-Qualquer coisa eu grito. – respondeu, desvencilhando-se do americano e indo para onde estava ocorrendo um resgate. Duo virou-se e caminhou para um outro ponto da tragédia. Seria um pouco complicado entrevistar alguém no meio daquela confusão. O jeito era pegar todos os detalhes para poder descrever depois o que estava ocorrendo.
-Duo! – Quinze, chefe dos bombeiros e antigo conhecido de Duo, aproximou-se do rapaz. –Veio ver o inferno em que estamos?
-Sim. – respondeu o jovem, dando um aperto de mão forte no homem mais velho. –O que realmente aconteceu, Quinze?
-O que você acha que aconteceu? As empresas construtoras desmatando deliberadamente áreas florestais para poder construir mansões. Isso daqui foi uma irresponsabilidade. As raízes das árvores eram o que segurava a terra. À medida que foram retiradas, a terra ficou desprotegida. Com chuvas e neve, foi corroendo o solo. Mais dia ou menos dia isso iria acontecer.
-E a Defesa Civil não alertou os moradores? Não avisou que isso estava se tornando uma área de risco?
-Claro que avisamos. Mas você acha que esse bando de gente quer abandonar a casa mesmo correndo risco de vida? O problema do ser humano é que ele é muito materialista. E aqui está o resultado. – o homem suspirou, com a chuva batendo fortemente sobre a roupa amarelada dele. –Duo, eu adoraria dar uma entrevista a você, companheiro, para ver se esse povo toma mais consciência e nos ouçam quando dizemos que quando é preciso se mudar, é para se mudar, mas como você vê a coisa anda feia por aqui, e não sabemos quanto tempo vai levar.
-Pelo menos a cota de atingidos, você tem?
-Dez feridos, dois mortos, vinte desaparecidos, onze famílias desabrigadas. Uma barricada! – gritou novamente o homem, notando com temor que a água estava subindo cada vez mais, mesmo com a defesa civil desentupindo os bueiros. –Onde é o sistema de escoação dessa rua? O problema pode estar lá. – gritou para o chefe da defesa civil.
-Já mandamos homens para lá, mas não estamos tendo retorno. – respondeu o homem, quando de repente mais caos se instaurou. Pessoas começaram a correr e gritos foram dados.
-Está deslizando, está deslizando! – Quinze olhou a massa de lama e pedras descendo e segurou Duo pelo braço, o afastando do local. Instintivamente o americano procurou por Kohako, que também estava se afastando com um grupo de bombeiros. Assim que a lama parou de escorrer, o homem soltou um suspiro. –O garoto. – murmurou desolado.
-Que garoto? – perguntou Duo, já com medo da resposta, enquanto Kohako se aproximava dele.
-Não consigo tirar mais fotos com essa chuva. Isso vai destruir o filme. – comentou a jovem, guardando a câmera na bolsa impermeável.
-Estávamos tentando tirar um garoto dos escombros. Com essa, nem saberemos se ele ainda está vivo. – murmurou o homem, passando as mãos pelos cabelos molhados.
-Precisa de ajuda? – Duo ofereceu, olhando longamente para Kohako, que deu um aceno positivo de cabeça para ele.
-Se vocês estiverem dispostos. Estamos precisando de voluntários. Luiz! – gritou e um dos bombeiros virou-se para ele. –Arrume capas para esses dois, eles vão nos ajudar. – e afastou-se para poder voltar ao trabalho.
Corinna entrou no saguão do prédio, com o seu terninho negro de finas listras brancas impecável e sem uma gota de água. Caminhou até a recepção e parou em frente ao balcão, onde atrás estava escrito Winner Press em grandes letras de bronze, presas na parede. Esse deveria ser o local. Estava curiosa para saber onde a filha estava trabalhando. Gostava da idéia de seus filhos estarem crescendo tão bem na vida, sozinhos e sem a influência dos pais. E esse foi um dos motivos que ela permitiu que eles viessem para o outro lado do mundo. Se tivessem ficado no Japão, o nome Yuy iria influenciar muito nas escolhas de seus filhos. Poderosos empresários, a família Yuy era bem influente, e isso permitia algumas regalias. Suas cunhadas até poderiam querer que seus filhos tivessem tudo na mão, mas ela não. Ela teve que lutar para conseguir tudo o que quis na vida. Trabalhar duro para satisfazer suas vontades. Toda a pequena fortuna pessoal que conseguiu, antes de se casar com Ichiro, foi com muito suor. E assim iria querer para os seus filhos. Por mais que os amasse, não seria os prendendo na barra de sua saia que eles iriam crescer a amadurecer. Ou seja, trocando em miúdos, como boa mãe coruja ela estava extremamente orgulhosa dos progressos que Heero e Kohako estavam fazendo na América.
Parou em frente ao balcão e viu que não havia ninguém lá para lhe dar informação alguma. Como poderia achar a sua filha nesse prédio enorme? Olhou a sua volta, procurando alguém que pudesse lhe informar alguma coisa, quando viu um rapaz loiro entrar pela porta de vidro, molhado dos pés a cabeça, e com uma aparência extremamente cansada. Deveria ser um repórter voltando do trabalho, pois a cidade estava uma zona por causa da chuva. Ela ao menos tinha levado duas horas no trânsito para poder chegar aqui. Se não fosse persistente, com certeza teria desistido da idéia no meio do caminho.
-Com licença meu jovem? – chamou e o loiro parou.
-Sim, em que posso ajudá-la? – perguntou, com um sorriso gentil, embora todos os músculos de seu corpo estivessem doendo. Tinha andado metade da cidade de cima para baixo a pé, porque não tinha como tentar se deslocar de carro para algum lugar com esse trânsito.
-Estou procurando uma jovem. O nome dela é Kohako Yuy, soube que ela trabalha aqui. – mais um sorriso cansado em direção a ela.
-Se ela não estiver na redação, deve ter saído para cobrir alguma matéria. Se a senhora quiser subir e esperar. – falou polidamente, caminhando até os elevadores e deixando uma trilha de água pelo caminho.
-Obrigada pela ajuda rapaz. – respondeu Corinna, entrando no elevador. –Qual é o seu nome? – perguntou para o jovem que tentava minimizar a quantidade de água que estava em sua jaqueta de couro.
-Quatre Winner. – respondeu displicente, tirando a jaqueta de vez e dando um suspiro ao ver que seu jeans e camiseta estavam aderindo a sua pele. Sem contar o tênis que estava fazendo um barulho estranho cada vez que ele andava. Sua mãe teria um troço quando ele chegasse em casa desse jeito.
-Winner… - Corinna murmurou o nome. –Parente por acaso dos donos do jornal? – perguntou, virando-se para o loiro que em vão tentava diminuir o volume de água nas mechas douradas. –Se não trocar de roupa logo pode se resfriar, querido.
-Detesto chuva. Sou do povo do deserto, odeio coisa muito molhada. – resmungou e a mulher deu um pequeno sorriso. O jovem era uma graça, resmungando e com as bochechas rosadas daquela maneira. –Oh! – o rapaz finalmente havia percebido, em meio as suas lamúrias, que a mulher ao seu lado havia lhe feito uma pergunta. –Sou o presidente do jornal. – respondeu como se fosse o cargo mais chulo da empresa.
-Me parece tão novo para reger esse jornal todo. E… - iria dizer que ele parecia suave para poder controlar tantas pessoas. Mas se ele estava no cargo, com certeza deveria ser muito bom.
-As pessoas tendem a pensar isso mesmo, já me acostumei. – sorriu para ela e a porta do elevador abriu-se no décimo andar, onde ficava a redação. –Se a senhora me der licença. – disse, saindo do elevador e sendo acompanhado pela mulher. Assim que as portas desse se fecharam, as luzes do prédio começaram a piscar, até que tudo se apagou.
-Isso só pode ser sacanagem comigo! – alguém gritou ao fundo da grande sala onde ficavam os cubículos dos repórteres. –Eu estava no meio de uma matéria. – e um palavrão soou no local. Pessoas riram, mas outras também estavam resmungando pela queda de luz.
-Os geradores deverão se ativar em segundos. – Quatre falou, sobrepondo-se a confusão e todos ficaram em silêncio. Como previsto pelo loiro, os geradores começaram a funcionar e a energia retornou ao prédio. –Bem, a senhora, se quiser esperar pela Kohako, pode esperar naquela mesa ali. – disse apontando para um cubículo onde na entrada estava escrito: D. Maxwell.
-Obrigada meu rapaz. – falou, observando ele sumir no fim do corredor, ainda pingando água para todos os lados. Caminhou até a mesa indicada, sentando-se na cadeira que lá estava e pondo-se a esperar. Meia hora depois, as portas dos elevadores novamente se abriram e um Duo com lama dos pés a cabeça apareceu no andar.
-Maxwell, andou brincando com os porcos? – alguém caçoou ao fundo do local ao ver o rapaz. Duo virou-se em direção a voz e viu Wufei, também molhado, rindo dele.
-Andou correndo pelos esgotos Chang? – rebateu sarcástico.
-Na verdade ele quis provar que era homem o suficiente para poder brincar na chuva e veio atrás de mim em uma matéria. Mas não se engane, a água é porque ele levou um banho de um carro. – Sally dedurou e Wufei ficou vermelho, resmungando uma coisa ou outra sob a respiração. Duo riu e voltou para a sua saleta, dando um suspiro ao entrar, mal notando a mulher que lá estava.
-Eu preciso de um banho quente. – murmurou, retirando a jaqueta jeans e a jogando sobre o armário de arquivos. Seus cabelos estavam um caos, sua pele mais morena e melada por causa da lama. Suas roupas estavam colando e seu corpo doía em todos os lugares. Mas, ao menos, eles conseguiram tirar a criança viva dos escombros. Talvez fosse bom no dia seguinte dar uma passada no hospital para saber o estado do garoto, daria uma boa suíte.
-Olá. – Corinna chamou ao ver aquele jovem de beleza exótica entrar no cubículo. Então aquele era o famigerado Duo? Interessante. Talvez isso explicava o fascínio de seu filho sobre ele. Porém, beleza não era tudo. Precisava saber como era o caráter desse rapaz.
-Olá? – Duo falou, olhando com curiosidade a mulher que estava sentada em sua cadeira. –A senhora precisa de algo?
-Estou procurando Kohako Yuy. Um rapazinho me disse que eu poderia encontrá-la por aqui.
-Oh, sim. Kohako foi até o laboratório deixar o filme que ela tirou. Já deve estar subindo.
-Quem deve estar subindo? – a mencionada entrou no espaço, que estava ficando pequeno com três pessoas. Estava em um estado igual ou pior que Duo, pingando lama por todo o chão.
-Essa senhora está procurando por você. – indicou o americano e a garota virou-se para ver quem a procurava.
-Mãe? – falou com uma sobrancelha erguida. –O que a senhora está fazendo aqui?
-Mãe? – Duo repetiu olhando a mulher, que agora tinha se levantado, de cima a baixo. Agora sim sabia de onde vinha toda a maravilhosa genética dos irmãos Yuy. E sentiu um choque quando se viu avaliado intensamente por olhos cobaltos iguais aos do homem que ele estava tentando veemente esquecer.
suíte = não, não é um grande quarto. Em jornalismo, suíte é o que chamamos de "matéria do dia seguinte", é a continuação de uma matéria que saiu no jornal do dia anterior, contendo mais complementos sobre o assunto.
