Solo apertou a alça de sua bolsa entre os dedos, soltando um longo suspiro e se olhando no reflexo da porta onde ficava a sede de sua fraternidade. Era hoje, hoje ele iria falar para ela. A conhecia há dois meses e durante esse tempo a garota foi penetrando cada vez mais fundo em seu coração, até que chegou um ponto em que o rapaz não conseguia mais se concentrar em nada, mesmo com ela estando longe.
-Pensando na morte da bezerra, Solo? – Mark, um amigo da fraternidade e seu colega de quarto, deu uns tapinhas nas costas dele, o acordando de seu transe.
-Eu vou dizer a ela hoje. – falou ao amigo, que arregalou um pouco os olhos.
-Boa sorte companheiro. – disse sinceramente, sabendo o quanto Solo arrastava um avião pela japonesinha que fazia jornalismo no complexo Durkheim.
-Obrigado. – murmurou o rapaz, sentindo as suas mãos ficarem frias. Com um longo suspiro, ele abriu a porta da casa e ganhou o campus, seguindo um caminho já definido. De hoje, isso ele sabia, não passava.
Kohako estava subindo as escadarias do campus, olhando com atenção as fotos que tinha tirado com a sua câmera. Havia algumas fotos mais artísticas, assim como muitas fotos divertidas. Maioria do pessoal da redação do Winner Press, algumas de Heero, que ela tinha conseguido tirar a muito custo, mas as que prevaleciam eram as de Solo com ela. Pausou a um canto do hall de entrada do prédio, olhando com mais atenção às fotos de Solo em suas mãos. O rapaz foi um dos primeiros amigos que fizera na América, e desde desse dia eles não viviam separados. Em pouco tempo tornaram-se melhores amigos um do outro, sempre compartilhando confidências e rindo ou chorando juntos.
Passou um dedo sobre os contornos do rosto de Solo, na foto. Ele era um rapaz bonito, assim como o irmão, mas não com uma beleza andrógina como Duo. Os olhos eram azuis como o céu perto do entardecer e os cabelos eram castanhos, beirando ao chocolate. A roupa branca que sempre usava realçava a pele levemente morena e o sorriso dele era encantador. Como não tinha percebido isso antes? Mentira, tinha percebido, mas evitava em pensar no assunto. Solo com certeza a via como uma amiga, e riria, ou ao menos ficaria surpreso, se soubesse da atração dela. Sim, ela estava atraída pelo rapaz, e descobrira isso há pouco tempo, mas se lembrava muito bem quando fora.
Era mais um dia chuvoso em Boston, e nesse dia ela tinha chegado atrasada e ainda por cima molhada dos pés a cabeça, na faculdade. Claro quê, pingando água por todos os lados, o professor não permitiria a sua entrada na sala de aula. Foi quando ela encontrou o amigo, que a olhou de maneira estranha quando a viu com as calças jeans pesando pela água e a camisa colando, quase transparente, ao corpo. A convidara a ir ao prédio de sua fraternidade para ela poder se secar e trocar de roupa. E, diferente da outra vez, ela não se sentiu uma palhaça usando as roupas de um homem. Pelo contrário, ao vestir as peças macias tudo o que lhe veio à cabeça era como Solo deveria ficar nelas, e se aquele era o cheiro dele nas roupas. E então foi aí que percebeu que o jovem lhe atraía.
-Kohako! – o chamado a tirou de seus pensamentos e ela virou-se para ver o rapaz com o qual estava divagando. Corou ao reparar que era Solo. Como ele reagiria se soubesse sobre o que ela estava pensando agora pouco?
-Olha! – a jovem estendeu o bolo de fotos. –Ficaram prontas ontem. Legais não? – Solo pegou as fotos e as olhou rapidamente, as devolvendo logo em seguida para a morena.
-Sim. – respondeu vago e Kohako estranhou, notando que ele parecia muito sério.
-Algum problema, Solo? – o futuro médico piscou um pouco os olhos, abrindo e fechando os punhos como se pensando seriamente em dizer algo a ela. Por fim soltou um suspiro ruidoso por entre os dentes e resolveu quê, no mínimo, ou levaria uma bofetada ou uma risada por sua confissão.
-Eu queria lhe dizer uma coisa. – disse com a voz mais firme que encontrou e quase fraquejou quando viu aqueles olhos cobaltos, curiosos, sobre si. Nessa hora ele daria tudo para ter a cara de pau de Duo. Na verdade, ele tinha a cara de pau de Duo, apenas não sabia onde a tinha escondido.
-Fale, eu estou ouvindo. – respondeu, sempre com um sorriso, mas o coração estava martelando no peito.
-Eu não sou muito bom com as palavras. – murmurou, dando um riso nervoso, e retirando a franja castanha de sobre os olhos. –Imagina quando eu tiver que dar um diagnóstico a um paciente? Vai ser um desastre. – começou a balbuciar e Kohako percebeu que ele estava nervoso.
-Fale logo Solo, eu não tenho o dia todo. – falou, começando a perder um pouco de sua paciência diante da enrolação do rapaz.
-Vou fazer melhor do que isso, eu vou mostrar. – respondeu decidido e segurou no ante braço dela, a puxando de encontro ao seu corpo e esmagando os lábios rosados da garota com os seus. As fotos que estavam na mão de Kohako deslizaram de seus dedos, espalhando-se no chão, enquanto o moreno pedia passagem com a língua para a boca dela. Os dedos finos e longos de Solo tomaram uma mecha negra do cabelo e deslizaram por entre os fios, intoxicando-se com a textura e o cheiro. Kohako sentiu as pernas amolecerem e agarrou a parte da frente da blusa branca dele, apertando-se mais contra o tórax firme. Um braço envolveu a cintura esguia, a erguendo um pouco do chão, enquanto os lábios travavam uma batalha entre si. Quando se separaram, ambos estavam sem ar e com os rostos corados.
-Pronto. – falou Solo em um ofego. –Já disse. – Kohako piscou os olhos, afastando-se um pouco dele, ainda meio aturdida. Quando conseguiu reunir um pouco os seus pensamentos agachou-se, recolhendo as suas fotos e a sua bolsa, que também caíra no processo.
-Eu… - murmurou initeligentemente. -… preciso pensar. É… pensar. – e apontou debilmente para um lugar qualquer dentro do hall. –A gente… a gente se vê, Solo. – murmurou e correu para dentro do prédio, sumindo das vistas dele. Solo passou uma mão trêmula por sobre os lábios, dando um pequeno sorriso bobo. É, pensou, poderia ter sido pior.
Trowa soltou o ar por entre os lábios, fazendo a franja que caia sobre o seu olho balançar-se um pouco. Rolou a caneta entre os dedos de uma mão, enquanto a outra esfregava os olhos, tentando afastar um pouco o cansaço deles. O caso do senador era mais complicado do que parecia. Antes de se dedicar à política, o homem tinha uma pequena ficha na polícia, quando jovem, pelo mesmo motivo pelo qual ele estava sendo acusado agora. Mas claro quê, ao subir na vida, esse pequeno fato foi ocultado por influências poderosas para poder chegar ao senado. E isso poderia comprometer muito o caso. Não que uma loucura adolescente fosse relevante ao juiz, mas sim o fato de que quem fez essa loucura fosse o mesmo homem que em sua campanha pregou moralidade e união da família, pesaria e muito nesse julgamento.
-Saco. – murmurou, jogando a caneta sobre a mesa e inclinando-se na sua cadeira, a girando e pondo-se a olhar a paisagem que havia por entre as persianas de sua janela. Esticou as longas pernas e as apoiou no parapeito, fechando os olhos e estalando um pouco os músculos do pescoço. O que não daria por uma massagem no momento, ainda mais se essa fosse dada pelas mãos suaves de Quatre. Quatre… pensar no loirinho fazia todos os pêlos de seu corpo se arrepiarem. O herdeiro da fortuna Winner fora à primeira pessoa, em toda a sua vida, que o faz se sentir como estava se sentindo no momento. Como um adolescente a apaixonado. O jeito cativante do rapaz, os olhos azuis sempre doces, e aquele sorriso, escondiam muito do que Quatre realmente era. Um anjo, um pequeno anjinho mau. Um arrepio cruzou o seu corpo. Como dizia o ditado, os mais quietos e comportados sempre eram os piores. Sorriu um pouco, não que ele se queixasse, longe disso. Por outro lado, estava muito satisfeito.
-Hora da cesta? – uma voz suave murmurou perto de seu ouvido e Trowa abriu os olhos em um rompante, dando um pequeno salto em sua cadeira e virando essa bruscamente.
-Quatre? – perguntou surpreso ao ver o loiro na sua frente. Será que estava tendo alucinações de tanto que pensava nele?
-Esperava alguém por acaso? – perguntou com um pequeno sorriso matreiro.
-Não. Na verdade, estava pensando em você. – retribuiu o sorriso, puxando o jovem pela cintura e o colocando em pé entre as suas pernas e a sua mesa.
-Pensando em mim? – Quatre fez um ar de inocente, dando um relance para a porta fechada atrás dele. A secretária de Trowa não estava lá fora, o que o permitiu entrar direto no escritório do moreno e lhe fazer uma surpresa. Quanto tempo será que eles teriam de privacidade? –Coisas boas ou coisas ruins? – deu um olhar angelical ao homem, que sentiu rapidamente a excitação correr para o seu membro. Aquele olhar era viciante, além de muito enganador.
-Depende do ponto de vista. – Trowa disse em um grunhido, levantando-se rapidamente e clamando os lábios do loiro com os seus, deslizando sua mão pelo corpo esguio, enquanto friccionava o seu corpo no dele. Quatre soltou um gemido entre um beijo e outro, enterrando os dedos nas mechas castanhas do advogado. Quando se separaram em busca de ar, o árabe de um grande sorriso malicioso.
-Coisas más, coisas muito más, eu vejo. – o advogado gargalhou, olhando de Quatre para a mesa atrás deles, atulhada de papéis. O presidente do Winner Press seguiu o olhar do namorado, alargando ainda mais o seu sorriso. –Me daria a honra? – murmurou no ouvido de dele, dando uma mordida no lóbulo, que arrancou um gemido de Trowa.
-A honra é toda sua. – como uma criança que acabara de ganhar o presente que desejava, os olhos de Quatre brilharam quando ele voltou-se para a mesa e com um varrer de braço, jogou todas as pastas, papéis e canetas no chão, fazendo uma pequena zona no escritório. Trowa segurou nas coxas do loiro e o ergueu do chão, o sentando na mesa agora vazia, ao mesmo tempo em que desabotoava a camisa dele. Quatre beijava o rosto do moreno, desfazendo o nó da gravata e jogando essa longe, também desabotoando a camisa desse, a arrancando com força e a lançando em um canto qualquer. Quando conseguiu despir o advogado da cintura para cima, começou a atacar seu tórax, com beijos e lambidas que estava enlouquecendo o moreno.
-Trowa você está com aquele processo… - a porta do escritório se abriu em um rompante e três pessoas rapidamente congelaram em seus movimentos. Trowa instintivamente apertou o abraço em volta da cintura do loiro, o trazendo para mais perto de si, enquanto Quatre olhava com curiosidade e embaraço para o japonês que estava parado na porta, e ficando vermelho a cada segundo que passava. –Eu… vocês… eu… - Barton ergueu uma sobrancelha, esperando ele terminar a sentença e se segurando para não rir. Yuy estava corando, realmente corando, e isso era uma raridade.
-Quer alguma coisa Heero? – perguntou com uma voz calma e controlada, como se o fato de ele estar sem camisa, com a sua excitação sendo mostrada sob as calças de linho, com um loiro sentando sobre a sua mesa, parcialmente despido e com as calças jeans no meio das coxas, e entre as suas pernas, fosse algo que acontecesse todos os dias. Um evento banal.
-Eu… volto outra hora. – respondeu rapidamente, batendo a porta atrás de si e apoiando-se nela para poder se recuperar do choque. Em passos largos começou a caminhar de volta para o seu escritório, sendo apenas parado pela secretária de Trowa que estava retornando a sua mesa.
-Algum problema sr. Yuy? Parece-me um tanto… vermelho? Está doente? – perguntou e mulher de idade, sempre solicita, quando Heero passou por ela. O homem apenas sentiu o seu rosto esquentar mais quando ela lhe fez a pergunta, o fazendo lembrar do que acabara de testemunhar.
-Você… não entre no escritório do Barton no momento… ele está… está um pouco… ocupado. – disse em gaguejos, ganhando um aceno positivo da mulher, e seguiu o seu caminho, entrando na sua sala e fechando a porta com um clique, soltando o ar que estivera prendendo desde que saíra do escritório do amigo. Com o corpo entorpecido, caminhou até a sua cadeira e deixou-se cair nela, sentindo que os joelhos estavam fracos. A cena que ele tinha acabado de presenciar não o tinha deixado apenas chocado, mas também… excitado. Fechou os olhos, tentando organizar os pensamentos, mas esses foram perturbados quando a imagem de um americano, de longos cabelos e olhos violetas, apareceu na sua cabeça, interpretando junto com ele a mesma situação na qual ele tinha acabado de flagrar o Trowa. Isso apenas o deixou mais excitado ainda e fez seu coração bater mais rápido. Aquele idiota com trança estava não somente mexendo com os seus hormônios mas também com o seu coração. Será que era por isso que o desprezava tanto? Não estava preparado para tentar de novo? Será que estava… com medo?
Girou a cadeira, a inclinando e esfregando a sua tempôra com as pontas dos dedos. Estava começando a ganhar uma dor de cabeça por causa disso.
-Senhor Yuy? – a voz de Michele soou no viva-voz de seu telefone.
-Sim? – respondeu com um clique de botão.
-Sua mãe no telefone, senhor.
-Passe a ligação. – falou, pegando o aparelho do gancho e o colocando sobre a orelha. –Sim kaasan?- perguntou em um tom cansado de voz.
-Heero, você conhece o restaurante italiano da sétima avenida? – Corinna disparou rapidamente.
-Conheço, por quê?
-Nos encontre lá depois do trabalho, sim honig.
-Encontrar? Quem?
-Sua irmã e eu. Marcamos um jantar lá, para conhecer o novo namorado da Kohako. – Corinna esperou a explosão de seu filho diante da novidade, mas surpreendentemente Heero apenas soltou um pequeno "hn", que ela interpretou como um sim. –Então é um encontro, certo? – outro hn e Corinna balançou a cabeça de um lado para o outro do outro lado da linha, e depois desligou o telefone. Heero recolocou o aparelho no gancho e sentiu a sua dor de cabeça ficar mais forte. Era só o que lhe faltava, Kohako arrumara um namorado e ele teria que ir a um jantar, quando o que mais queria era ir para casa dormir. Tinha um senador no dia seguinte para defender.
-Eu preciso de umas férias. – murmurou e fechou os olhos e permitindo, pela primeira vez, que as imagens de um certo americano inundassem livremente a sua mente.
Kohako cruzou as pernas por debaixo de sua longa saia, brincando nervosamente com um pequeno fio solto do pulso de seu suéter azulado. Ao seu lado Corinna sentava-se inalterada, tomando com delicadeza um gole de seu vinho.
-Pare de mexer no suéter, vai acabar estragando a malha. – falou a loira, sem olhar para a jovem ao seu lado.
-A senhora tem certeza de que ele não gritou, xingou, ou algo parecido? – perguntou, referindo-se quando a sua mãe lhe disse o modo como Heero recebeu a notícia de seu namoro.
-Não. – respondeu Corinna pela enésima vez
-A senhora… chegou a dizer e ele quem era o meu namorado? – perguntou incerta, mordendo a unha do dedão. A mulher lançou um olhar longo a filha, que retirou o dedo da boca.
-Não.
-Então está explicado. Será que devo comprar um derruba leão na farmácia mais próxima quando ele for re-apresentado ao Solo e… principalmente ao Duo?
-Deixe que do seu irmão cuido eu. Por falar nele, olha ele vindo ali.- e indicou com a cabeça o homem que serpenteava as mesas para poder chegar até elas.
-Desculpe a demora. – disse, puxando uma cadeira ao lado da mãe e lhe dando um suave beijo no rosto.
-Na verdade você está adiantado. Os nossos convidados ainda não chegaram. – falou a loira enquanto o garçom vinha atender o pedido de Heero.
-Namorado, hum? – falou o moreno quando o garçom se retirou e Kohako enrolou uma mecha negra do cabelo entre os dedos, um sinal claro de que estava nervosa.
-Pois é… aconteceu assim de repente. Mas ele é um sujeito legal.
-Por que não me disse antes que estava namorando? – perguntou o advogado, tomando um gole de seu vinho quando esse foi servido.
-Eu iria dizer, na verdade nós não começamos a namorar a muito tempo. Eu contei ontem para mamãe e ela já pediu esse jantar. Você conhece à senhora Yuy. – falou como se a mencionada não estivesse ali.
-Sim. E como é esse garoto? Eu o conheço? Algum colega de faculdade ou do… trabalho?
-Faculdade. – Kohako apressou-se a dizer e sentiu o coração vir à boca quando viu Solo e a família aparecer na porta do restaurante. –Ah… - disse incerta, agradecendo o fato de que Heero estava de costas para a entrada do lugar. -… Eles chegaram. – levantou-se para poder receber os três homens e a mulher que se aproximavam da mesa. Assim que Solo a alcançou, deu um suave beijo na bochecha dela. Corinna também se ergueu, sendo seguida pelo filho, que se virou para ver quem era o seu novo cunhado. Franziu intensamente as sobrancelhas quando viu quem era, e recebeu uma cutucada discreta da mãe, nas costelas, como sinal para ele se comportar.
-Senhor Maxwell. – disse, estendendo a mão para David, que a recebeu em um cumprimento.
-Essa é minha esposa. – apresentou Giovanna para ela, que cumprimentou a mulher com um aperto de mão. –Meus filhos, Solo e Duo.
-O jovem senhor Duo eu já tive o prazer de conhecer. – Duo abriu um grande sorriso e segurou na mão de Corinna, dando um leve beijo nas costas da mão dela. A mulher retribuiu o sorriso, gostando ainda mais daquele jovem, e ignorando o pequeno grunhido que Heero soltou ao seu lado.
-Encantado em vê-la novamente senhora Yuy. – disse Duo, lançando um olhar divertido a um Heero emburrado ao seu lado, que se sentou rapidamente de volta a sua cadeira depois de dar um cumprimento relâmpago a todos, ignorando Duo deliberadamente.
-Eu sei que foi um pouco inusitado esse convite para jantar, sr. Maxwell, mas não é todo dia que a minha pequena Kohako arruma um namorado. Geralmente o que ela tem são pequenos casos. – Kohako arregalou os olhos e virou-se chocada para a mãe. Eles não precisavam saber disso, saber que ela poderia ser pior do que Heero, em relação a relacionamentos. Claro que no caso dela era tudo apenas diversão, pois queria curtir a vida em vez de ficar esperando feito uma tonta o que as suas amigas chamavam de príncipe encantado.
-Kk, esse lado seu eu não conhecia. – Duo brincou, com uma expressão maliciosa no rosto. –Com certeza eu poderei esperar um relacionamento quente entre você e meu irmão. Porque Solo pode parecer um sujeito calmo e tranqüilo, mas ele ainda é um Maxwell.
-Duo! – Solo sibilou entre os dentes, advertindo o irmão para manter os podres que eles aprontaram juntos apenas entre eles.
-Estão envergonhados? Mas é nossa função, como família, importunar o novo casalzinho. – Duo provocou mais ainda, até que Kohako virou-se para ele com um brilho feral nos olhos.
-Quieto Maxwell, senão eu corto fora o que você tem de mais precioso. – instintivamente Duo olhou para debaixo da mesa, mais exatamente para entre as suas pernas, e depois voltou os olhos largos para a garota que a ameaçava.
-Eu estava me referindo a sua trança, mas também posso cortar isso se for preciso. – disse divertida e todos na mesa riram, menos Heero. Um certo silêncio imperou por alguns segundos e conversas paralelas começaram a surgir. A atenção de Corinna voltou-se para David e Giovanna, que falavam animados sobre o namoro de seus filhos. Duo e Kohako colocavam conversas sobre o trabalho em dia e Solo sentiu-se intimidado diante do olhar firme de Heero.
-E então… Maxwell. – falou o nome como se fosse algo amargo em sua língua e Solo teve que disfarçar um tremor. Sabia que isso aconteceria, e estava pronto para qualquer disparo vindo do japonês. Afinal, como o mesmo o chamara, ele era um Maxwell, e os homens de sua família nunca recuavam diante de um desafio. –O que você afinal faz da vida?
-Eu estudo Medicina, em Harvard. – Heero grunhiu por detrás de sua taça de vinho. Medicina era uma profissão conceituada, se você soubesse fazer seu nome, sem contar que Harvard tinha o melhor curso do país, e o mais disputado. Um ponto para o moleque. Mas ele iria achar um defeito nele antes desse jantar terminar.
-Medicina… sei. E quais são as suas notas?
-Entre os primeiro da turma. – respondeu presunçoso, sabendo o que o homem estava fazendo. Queria testá-lo, e ele iria passar nessa prova, Heero gostando ou não.
-E quais são as suas intenções com a minha irmã? – a voz de Heero, que antes estava quase em um sussurro, ergueu-se uma oitava, atraindo a atenção de Duo e Kohako, ao seu lado, enquanto seus pais ainda continuavam a conversar alheios a sua volta.
-As melhores, senhor Yuy, pode ter certeza. – Kohako e Duo voltaram a sua conversa, mas com os ouvidos atentos a Heero e Solo.
-Sei… e como você pretende sustentar a minha irmã se isso se tornar uma coisa séria? Kohako foi criada, apesar de não parecer, dentro do luxo, sempre tendo as melhores coisas desde que era pequena. Garanto que uma mudança brusca no seu padrão de vida poderia destruir um relacionamento.
-Para começar, sr. Yuy, nosso relacionamento ainda é muito recente para a gente estar pensando tão a frente assim. Sem contar que somos muito novos para poder nos comprometer desse modo.
-Então você não está tão interessado assim na minha irmã, se pretende descartá-la tão cedo.
-Está distorcendo as minhas palavras, pois não foi isso que eu disse. – retrucou Solo, tentando ao máximo conter a sua raiva. Apreciava a preocupação de Heero com Kohako, mas o homem estava exagerando. Ao seu lado, Duo encerrou a conversa e voltou toda a sua atenção para Heero e o irmão, pronto para intervir se fosse preciso.
-Para mim foi exatamente o que você disse. Se quiser a minha sincera opinião…
-Coisa que ele não quer. – Duo intrometeu-se, sendo mirado por um par frio de olhos azuis.
-Não se meta baka. – o jovem repórter deu um pequeno rosnado, fechando a mão em um punho sob a mesa. –Se quer a minha sincera opinião, você não serve para a minha irmã. Ela é muito melhor do que isso, ela é muito melhor do que você!
-Heero, acho que quem decide isso sou eu. – Kohako sibilou para o irmão. Começava a considerar que Heero precisava de um tratamento, ele andava muito estressado ultimamente, como se estivesse em uma eterna tpm.
-Você ainda é muito nova para saber o que é certo ou errado. Tanto, que escolheu esse pequeno protótipo fracassado de médico para namorado. – rebateu o homem, irritado.
-Opa! Peraí! – Duo ergueu a voz, já perdendo a sua curta paciência, e não somente atraindo a atenção de seus pais como também das pessoas próximas a sua mesa. –Vê lá como fala do meu irmão. Fique sabendo que ele será um excelente médico. Talvez ele até o ajude a conseguir um coração! – rebateu com sarcasmo, o que fez as bochechas de Heero ficarem vermelhas de raiva.
-Com certeza, no mesmo dia em que ele te conseguir um cérebro.
-Escuta aqui seu advogado almofadinhas… - o americano ergueu-se, trazendo Heero consigo pelo colarinho. -… Qual é o seu problema comigo, heim? Eu gostaria muito de saber o que foi que eu lhe fiz. Porque com certeza isso vai muito além daquela entrevista. – rosnou, o puxando para mais perto de si, fazendo os seus corpos friccionarem e um arrepio descer pela espinha do jornalista, obrigando Duo a suprimir um gemido de prazer, e viu a íris cobalto escurecer numa mistura de raiva e… luxuria? Heero estapeou a mão do jovem trançado para longe de seu colarinho, rivalizando o olhar furioso do americano e tentando afastar as sensações que aquele contado brusco e inesperado causou.
-É que pessoas ignorantes e idiotas me enervam, apenas isso. E eu não vou permitir que a minha irmã se misture com a sua escória. – falou em um tom frio, totalmente oposto ao calor que estava sentindo em seu corpo com a proximidade do homem de trança.
-Escória? – Duo olhou para baixo, deu uma inspirada profunda de ar, como se ponderasse o que fazer a seguir. Rapidamente David ergueu-se, já esperando pelo pior.
-Duo… - tentou persuadir o seu filho, mas foi tarde demais, o punho cruzou o ar e acertou em cheio a bochecha de Heero, que recuou uns dois passos com o impacto. Quando o assunto era família, Duo virava uma fera se ofendiam aqueles que ele amava, ainda mais se fosse o seu irmãozinho. Em reflexo, o japonês socou o americano na boca do estômago, atraindo ainda mais atenção das pessoas dentro do restaurante.
-Heero! Pare já com isso! – Kohako tentou segurar o irmão, mas esse, com um puxão brusco de braço, desvencilhou-se dela. A garota perdeu o balanço e só não caiu no chão porque Solo a segurou. Os dois homens estavam prestes a continuar a briga quando David veio por detrás de Duo e deu uma chave de braço nele, conseguindo segurar o filho. Dona Corinna bateu o salto, enfurecida, e segurou sem cerimônia na orelha de Heero, como se ele fosse um garoto travesso.
-HEERO GOTTSCHALK YUY! – e começou a arrastá-lo pela orelha restaurante afora, ora resmungando em alemão, ora resmungando em japonês. Quem ficou para trás apenas observou estarrecido a cena, vendo aquele homem se render tão facilmente a uma mulher que parecia ser tão frágil.
-Sua mãe… - começou Solo, virando-se para a namorada em seus braços. -… consegue meter mais medo do que o seu irmão.
-É, mas ela não tem a esquerda dele. – Duo murmurou, envolvendo a barriga com um braço e sentando-se na cadeira mais próxima. –O show acabou! – gritou para os outros clientes do restaurante. –Podem voltar aos seus jantares e deixar para fofocar em casa! – disse mal humorado por Yuy ter estragado uma noite divertida, e pelo hematoma que estaria em sua barriga no dia seguinte. Mas aquele advogado iria pagar, ah se iria.
