Capítulo 04

Heero olhou para o céu, admirando as estrelas que iluminavam a noite. Sua mente sempre repassava a cena daquela tarde, à beira do lago com o discípulo do deus da morte.

(Flash-back)

- Acho que… - Duo finalmente conseguiu falar. - … acabei de quebrar a regra.
Heero olhou novamente para os olhos violetas, em busca de algum sinal de que ele estivesse interpretando mal as coisas, de que Duo não estava falando de si. Porém não achou nada além de um brilho quase febril, que ele via nos olhos de Quatre e Trowa quando estes estavam juntos. O japonês se aproximou do outro garoto, seus rostos separados por apenas alguns centímetros.
- Regras existem para serem quebradas, meu belo Shinigami.
Sem pensar duas vezes, Heero fechou a distância entre os dois, seus lábios tocando levemente os do americano, não mais que uma carícia, como o vento gelado que acaricia as folhas das árvores em uma noite de inverno. Duo estremeceu perante o beijo, partindo levemente seus lábios, querendo provar mais daquele doce pecado. O japonês aceitou o convite, aprofundando aquele beijo que era a perdição para o futuro Shinigami.

(Fim do Flash-back)

Duo havia ido embora logo a seguir, pois estava ficando tarde e Shinigami desconfiaria. Ele ficou de se encontrar novamente com Heero no dia seguinte, para que ambos esclarecessem tudo o que havia acontecido. Porém a única explicação era que os dois estavam apaixonados. Seria obra da Fada do Amor? Não... Ela estava ocupada demais para isso. Esse amor entre Duo e Heero aconteceria com ou sem a intervenção da fada. É uma daquelas coisas que ninguém pode mudar. Nem mesmo o mais temido dos deuses...
- ONDE ESTÁ A MALDITA FADA DO AMOR? – esbravejou um senhor, com uma aura negra, marchando para dentro do castelo real.
Algo de muito grave deveria ter acontecido para que o Deus da Morte deixasse o Monte Yami e invadisse o castelo daquela forma. Lyria assustou-se com o grito e correu para ver o que estava havendo.
- Estou aqui. O que houve? – a semi-felina perguntou ao entrar no salão principal.
- O que houve?!?! Você é muito cínica! Vou acabar com a sua imortalidade agora! – Shinigami estava furioso.
- Eu não sei do que está falando!
- Que história é essa de fazer o MEU discípulo apaixonar-se??? E por um mortal, ainda por cima!
- O quê?!?! Você ficou louco? Eu não fiz nada disso.
- Duo não quis me contar, mas eu sei que ele se apaixonou. Por aquele mortal amigo do Príncipe Hikari.
- Trowa Barton?
- NÃO! Heero Yuy. E a culpa é SUA! Você é uma inútil!
Lyria quase chorou. Como alguém poderia ter se apaixonado sem que ela tivesse feito nada? Isso era impossível, era ela quem tinha esse poder.
- Como isso pode ter acontecido, supremo Deus da Morte? Eu realmente não fiz nada! Fiquei cuidando do príncipe o dia inteiro.
- Isso não é problema meu. Agora Duo não poderá mais tornar-se meu sucessor. Tudo por sua culpa!
- O que está acontecendo por aqui? – Junn perguntou do alto da escada, irritada com tamanho barulho.
- Princesa Junn, essa inútil falhou em seu trabalho! – Shinigami apontou para a Fada do Amor. – Meu discípulo apaixonou-se.
- Por que você fez isso?
- Eu não fiz! É aí que está o problema. Eu não fiz nada e ele se apaixonou mesmo assim. – Lyria explicou-se.
- Isso quer dizer que você não se concentrou o suficiente em seu trabalho. Se estivesse prestando mais atenção, teria evitado isso. Vai ter que pagar por esse erro imperdoável.
- O que acontecerá comigo, alteza?
- Só não retiro sua imortalidade porque, apesar de tudo, você é fiel a mim e está me ajudando a preparar meu irmão para assumir o trono do reino. Também não tiro seus poderes, pois percebi que você tem algo em mente para Hikari. Quer que ele se case, não é? Sim, essa é uma boa idéia. Mas tem uma coisa que eu posso tirar.
- O quê?
- Suas asas.
- Minhas asas??? Mas, se eu perder as asas, então…
- Exatamente. De agora em diante, você passa a ser uma fada semi-suprema. Está sendo rebaixada, Lyria.
Dito isso, as asas da Fada do Amor sumiram, e sua aura passou a ser um lilás meio desbotado, indicando que ela havia perdido parte de sua força. Junn, mesmo sendo apenas uma criança, sabia muito bem como ser severa e justa quando era necessário. Daria uma ótima rainha.
Shinigami pareceu satisfeito e voltou ao Monte Yami. Iria tentar arrancar o amor de seu discípulo, e depois mataria o mortal que se atrevera a invadir o coração de Duo Maxwell, para que este não tivesse uma recaída. Seria a melhor coisa a se fazer.

Heero sabia que aquele beijo iria causar uma grande confusão, afinal Duo era o sucessor do Deus da Morte, e não poderia apaixonar-se. Ele ainda não sabia o porquê dessa regra. Porém o japonês estava disposto a enfrentar tudo e todos para ficar junto de seu recém-descoberto amor. Agora que ele não estava mais sentindo-se solitário, ninguém no universo iria ficar entre eles.
De repente, Heero lembrou-se de um sonho.

(Flash-back)

Heero não enxergava nada, só um vulto brilhante ao longe. Aos poucos o vulto foi se aproximando, e tornando-se mais visível. Era um garoto. Sim, um garoto. Lindo, de longa trança e olhos violetas, e estava vindo em sua direção. Heero estendeu sua mão para tocá-lo, mas ainda não o alcançava.
- Quem é você? – o japonês perguntou.
- Eu? – o belo garoto sorriu. – Sou o desejo.
Agora os dois estavam a apenas alguns centímetros de distância. Heero podia sentir o calor vindo do corpo à sua frente. O dono dos olhos violetas tocou levemente a testa do japonês com sua mão, e desapareceu logo em seguida, deixando uma pequena folha de papel em seu lugar. Heero pegou o papel, nele havia escrito, em letras vermelho-sangue: "Procure por mim. Estarei esperando você, em algum lugar. Duo Maxwell"

(Fim do flash-back)

Esse nome ficou ecoando em sua mente nos últimos segundos do sonho. Assim que acordou, Heero não se lembrava de mais nada. Agora tudo voltara à sua mente, todos os detalhes mínimos daquele sonho enigmático. Isso explicava o fato de ele sentir-se estranho ao ouvir o nome Duo Maxwell, quando estava conversando com Brad, o guardião do portal. Heero não tinha mais dúvidas, Duo estava em seu destino, e ninguém mudaria isso.

Quatre e Trowa, agora usando roupas estilo século XVIII, haviam dado uma escapadinha do castelo para ficarem a sós. Eles estavam deitados em um dos inúmeros jardins do reino, o Jardim da Paixão. Tinha esse nome porque era um jardim só de rosas vermelhas, daquelas cor-de-sangue mesmo. O loirinho olhava para o céu, admirando as constelações formadas pelas estrelas, enquanto Trowa estava de lado, com a cabeça apoiada em uma das mãos, admirando a beleza de seu namorado. Eles nunca haviam ido além de beijos e abraços, nunca haviam feito amor. Mas o latino sabia que Quatre ainda não estava preparado, e esperaria o tempo necessário.
- Trowa? – Quatre se virou, fitando o rosto do moreno.
- Sim, Quatre?
- Eu te amo.
Trowa sorriu e depositou um leve beijo nos lábios delicados de seu amado.
- Também te amo, meu anjo.
- Mais do que qualquer coisa?
- Mais do que a minha própria vida.
Os olhos azuis encheram-se de lágrimas. Não restava mais sombra de dúvida, era com Trowa que Quatre queria passar o resto de sua vida. O loirinho se atirou nos braços do moreno, abraçando-o forte, como se sua vida dependesse daquilo.
- Oh, Trowa, eu te amo demais. Não quero esperar nem mais um minuto.
- O que você está tentando dizer?
- Eu quero você.
- Aqui?
- Aqui e agora.
- Tem certeza?
- Nunca estive tão certo em toda a minha vida.
Os olhos de esmeralda fitaram o rosto do loiro por um momento, em busca de algum sinal de dúvida, mas encontrou somente amor, e desejo. Quatre beijou Trowa, dessa vez com mais fúria e paixão.

Kayla assistia a tudo do alto de um morro. Os dois garotos estavam tão distraídos que não percebiam sua aura branca destacando-se na escuridão da noite. Ela não conseguia acreditar que o Príncipe Hikari e o mortal eram… namorados. Como isso era possível? Lyria não havia feito os dois se apaixonarem, com certeza, pois ela havia contado que desejava ver o príncipe casando-se com Kayla. Ao perceber o que estava para acontecer, a Fada da Luz voou o mais rápido possível até o Jardim da Paixão, para impedir.
- Alteza! Pare!!! – Kayla parou a dois metros de distância do casal, respirando pesadamente para recuperar seu fôlego.
- Kayla?!?! – Quatre ficou vermelho.
- O que está fazendo aqui? – Trowa perguntou, visivelmente irritado.
- Não faça isso, Príncipe Hikari. Não se entregue a um mortal.
- Quem é você pra dar ordens a ele? – o latino elevou seu tom de voz.
- Eu nunca daria ordens a ele. Estou apenas aconselhando. Alteza, se você entregar-se a um mortal, perderá para sempre sua imortalidade e passará a ser um deles. Não poderá mais governar o Myth Kingdom. Nós precisamos de você aqui. – Kayla terminou de falar, com lágrimas nos olhos, e voou de volta para o castelo, sem esperar uma resposta.
Trowa não podia acreditar no que aquela garota havia dito. Quatre perderia sua imortalidade se fizesse amor com ele? Agora com certeza o árabe voltaria atrás com sua decisão.
- Trowa?
- …
- Eu… Me desculpe. Não posso fazer nada… agora. Eu quero, e muito, mas… as pessoas aqui precisam de mim e… Eu tenho que pensar, tenho que ver qual é a melhor decisão.
- Eu entendo, Quatre. – Trowa suspirou. – Não precisa se desculpar, a culpa não é sua.
- Você está triste?
- Se eu disser que não, estarei mentindo. Mas eu saberei esperar e respeitar sua decisão. Não se preocupe.
Quatre fechou os olhos e deixou uma lágrima escapar. Por que isso tinha que acontecer justamente com ele? Era responsabilidade demais, o loiro não sabia se conseguiria suportar ficar longe de Trowa. "Oh, Deus, me ajude…"

Comentários da autora: Não taquem pedras em mim, eu sei que demorei demais pra postar esse capítulo! Queria agradecer a todas as pessoas que deixaram reviews, muito obrigada mesmo, vocês não sabem o quanto eu fico feliz de saber que a minha fic não está ruim! Nhai… o que será que vai acontecer com o Q-sama e o Tro-san??? –com vontade de esganar a maldita Fada da Luz-

Beijinhos,
Sayuri