Agradecimentos / Thanks :

Beijos especiais pra Nay, Kistis, Taiza, Vanessa Reinehr, Mary, Rosa, Bettin.Agradecemos mais uma vez por terem lido e deixado Review, o que é mais uma vez, um diferencial que nos impulsiona positivamente para continuar essa fic!

Se Tudo Fosse Diferente - Capítulo Três

"Eles vêm através de vós mas, não de vós."

Khalil Gibran Khalil – 'O Profeta'

Marguerite saiu o mais rápido possível. Não queria que Verônica visse que de alguma forma seu interesse pelo menino havia sido despertado, mesmo que apenas por um instante. Um interesse cuja origem ela mesma desconhecia. Sorriu para si mesma. "Verônica está com muitos problemas para ficar rindo por aí com aquele macaquinho...".

Marguerite resolveu voltar para o seu quarto e deteve-se ao passar em frente ao espelho. "Você não está com ciúmes, está?". Questionou-se sorrindo, não acreditando em seus próprios pensamentos e balançando a cabeça. "Claro que não! No máximo... Inveja... Isso, inveja... Inveja de... Inveja de tomar banho em paz... Imagina, um macaquinho consegue e Marguerite Krux, não!" Torcendo o nariz, Marguerite ainda permaneceu algum tempo caminhando pelo quarto. Inquieta, sentou-se na cama. Olhou em direção à varanda, esperando ouvir algum barulho dos dois. "Será que alguém me viu? Está tudo tão silencioso...".

Vencida pela curiosidade a herdeira levantou-se indo até o quarto de Verônica onde, atenta, prestou atenção aos sons que vinham lá de dentro. "Hum... Do que eles tanto riem? Não tem importância, Marguerite, seja o que for que estiver acontecendo lá dentro, é pura idiotice... O que tem de engraçado em ver um macaquinho tomar banho ou dar banho em um?..."

Marguerite se assustou ao perceber que os dois estavam saindo e rapidamente fingiu voltar sua atenção para uma peça do artesanato Zanga pendurado em um dos troncos de fixação da casa da árvore no mesmo instante que Verônica saia com Thomy já vestido com um macacão azul curto e sem mangas que havia lhe pertencido quando tinha um pouco mais idade do que aparentava o menino levando-a a supor que Thomy crescia mais rápido. Usou um pedaço largo de tecido para fazer uma tipóia que amarrara em seus ombros e onde colocou Thomy de modo que o garoto pudesse ser carregado de modo firme e seguro, ainda que confortável e que ela pudesse ter os braços e mãos livres. E o garoto também pareceu gostar da posição em que estava. Podia olhar praticamente tudo a sua volta e olhar direto para Verônica que sempre correspondia a seus gracejos. "Passa logo, Verônica, anda!" pensou Marguerite olhando de rabo de olho. E como se Verônica ouvisse seus pensamentos, ela olhou para a herdeira rapidamente sem dizer nada e pegando uma sacola com alguns mantimentos desceu direto pelo elevador com o menino. "Hora de passear e encher a pancinha do macaquinho?" Pensou sarcasticamente. Tentando assegurar-se de que não estava sendo observada, Marguerite Krux olhou para trás dando um passo na direção oposta batendo em algo. Virou-se rapidamente para encontrando-se colada ao tórax de John Roxton que de braços cruzados observa-a com atenção. Ela desviou o olhar ao mesmo tempo em que dava um passo para trás. "Como sempre, você no meu caminho...".

"Precisa de ajuda, Marguerite?" perguntou Roxton quase irônico interrompendo os pensamentos dela.

"Preciso que saia da minha frente!... Não, não vou dizer isso, não...".

"Está passando bem, Marguerite? Nem me deu uma má resposta...".

"Estou bem, John" disse ela com um sorriso forçado "Obrigada por se preocupar. Agora, quer me dar licença?".

"Por que eu disse isso? Não tenho que lhe dar satisfações, John Roxton... Esse homem rude comigo... tão grosso, tão arrogante, tão forte... tão... Marguerite, você está delirando, talvez esteja doente sim...".

Com um discreto sorriso John a reverenciou como se faz a realeza. Marguerite o olhou como se fosse a própria, e empinando o nariz, seguiu para a sala.

Roxton acompanhou seus passos e ela percebeu, virando-se bruscamente e encarando o caçador. "O que você quer, John Roxton?".

"Na verdade tenho um serviço para você".

"Era só o que me faltava!" Ela olhou intrigada. "Fale logo...".

"Venha cá" respondeu ele pegando a herdeira pela mão e levando-a até o seu quarto. Marguerite lutava contra sua própria vontade, de vez em quando olhando para trás a procura de Verônica e Thomy.

Roxton abriu uma caixa de madeira.

"Esses são tecidos que peguei nas coisas da expedição. Você vai fazer alguns lençóis e roupinhas para o bebê".

"Como você se atreve a me dar ordens? E para que um macaco precisaria de roupas?".

"Olha a má-criação, menina Marguerite..." disse Roxton com o dedo apontado para ela como um pai censurando o filho.

"Preste atenção. Não estou dando a mínima para o que você está pensando. E não estou pedindo...".

"Roxton..." Ela interrompe. "Hoje não, tá?".

Marguerite saiu do quarto quando ouviu o caçador retrucar rapidamente. "Tem certeza?".

"Certeza de que não estou a fim de jogar conversa fora com você hoje? Sim, tenho total e plena certeza!". Deu um sorrisinho que o deixou queimando de raiva. Mas decidindo não fazer o jogo dela e mostrar quem estava dando as cartas por ali ele falou:

"O café está acabando. Então ou você costura ou não vou torrar mais nenhum grão de café...".

"Challenger ou Malone podem torrar os grãos...".

"... É, acho que eles poderiam torrar os grãos sim... SE soubessem onde estão...".

"O que você fez? "assustou-se ela.

"Eu escondi. E daqui por diante, só haverá café na casa da árvore quando e se eu quiser e eu digo que, enquanto você não costurar, srta. Marguerite Krux, nada de café para você..." Calmamente John completou o que queria dizer à herdeira, que agora era quem estava furiosa.

"O que é isso, chantagem? Tortura?". Marguerite perguntou agressiva incomodada com expressão calma de Roxton.

"Pode chamar do que quiser...".

"Challenger não vai gostar nada de saber que você está no ajudando Verônica e o macaquinho...".

Roxton avançou colocando o dedo na cara de Marguerite, e firmemente prosseguiu. "É Thomy... E se você contar a alguém sobre isso, vai ficar sem café também. Apenas costure e me entregue as peças. Do resto, cuido eu". O caçador saiu, deixando Marguerite mais irritada ainda. "Droga, tudo por causa deste macaco imbecil!".

Desde que tomara para si a responsabilidade do menino, Verônica tentava lembrar-se do que havia observado na criação das crianças de outras tribos, especialmente das Amazonas e dos Zangas com quem tivera maior contato além de suas próprias lembranças e de como seus pais a educavam. Decidiu que criar uma rotina diária ajudaria a tornar tudo mais fácil e eficiente. Nos primeiros dois dias havia se desgastado muito tentando atender o menino da melhor forma possível e isso a fez perceber que se não mudasse a forma de conduzir a situação, breve não conseguiria mais cuidar do bebê. E nessa rotina havia incluído um passeio no meio da tarde onde aproveitando o calor estendia uma toalha grande à sombra de uma árvore e ficavam ali os dois ali brincando. Ao mesmo tempo era um dos momentos em que permaneciam longe dos olhares curiosos dos moradores da casa da árvore. Ela sabia que em breve teria que saber mais a respeito de Thomy para poder decidir quais as necessidades dele, mas queria adiar esse momento. Além do mais, o que a princípio deveria ter sido apenas o salvamento de alguém que precisava de ajuda, tomava proporções cada vez maiores e inesperadas.

Os guardas corriam atrás da menina que esperta conhecia todos as ruas da cidade. Escondia-se com facilidade quando queria, até o dia em que foi pega e arrastada pelas ruas sendo puxada pelo braço, ainda que tentando resistir. Cometera o erro de querer andar entre as pessoas mais ricas e refinadas de Londres e alguém tão fora dos padrões como ela, jamais seria bem recebida por eles. "Bando de aristocratas, que todos ardam no inferno!" Pensava a jovem se escondendo em um beco, olhando ao mesmo tempo uma festa requintada do outro lado do quarteirão. "Algum dia ainda serei um deles... Juro por meus pais..." Ela parou "Se algum dia eu os tive. Bem Marguerite... Você conseguiu... Cercada de riquezas e jóias reluzentes que poderia fazer um cego enxergar, meu Deus! Estou entre eles, mas não me sinto um deles... por mais que este vestido caro, este chapéu lindo, e minhas jóias também brilhantes, não sou e nunca serei um deles... Não quero ser...".

"Jamais, jamais..." Sussurrou Marguerite acordando sobressaltada. Aquele sonho a perseguira por boa parte da vida, mas há muito isso não acontecia. Por que agora? Levantou-se e repentinamente deu-se conta de que tudo estava estranhamente quieto como a muito não acontecia. Foi até o quarto de Verônica e olhando por uma fresta constatou que a loira e o garoto dormiam profundamente. Seguiu para a cozinha onde se sentou à mesa bebendo um pouco de água. Lembrou do sonho e pensou em Thomy com amargura. "É para isso que você serve, garotinho? Para trazer lembranças que eu enterrei há muito tempo? Será que somos tão parecidos assim?" uma lágrima caiu lentamente pelo seu rosto. "Não, não somos. A duras penas deixei essa parte da minha vida para trás e você não vai trazê-la de volta... nem você e nem ninguém".

Pela manhã Roxton estava terminando de abotoar a camisa quando foi surpreendido por uma irritada Marguerite invadindo seu quarto com as peças de roupa prontas que ela jogou em seu colo.

"Pronto. Era isso que você queria 'My Lorde'?".

Roxton abriu as peças observando-as com cuidado.

"Muito bem... Mas...".

"... Mas o que?" ela irritou-se ainda mais..

Ele conferiu com olhar crítico uma vez mais o trabalho feito pela herdeira, que virou-se furiosa começando a sair.

"Hum..." Resmundou Roxton fazendo com que ela voltasse para trás desconfiada.

"Hum o que?". Como ele nada disse ela se irritou ainda mais "Esse "hum" aí é bom ou ruim?".

"Depende... olha aqui.............. essa bainha não está bem feita.... essa outra costura não está bem acabada...." – mentiu Roxton sabendo que a habilidade de Marguerite era inquestionável, mesmo que ela fizesse com má vontade.

"HÁ HÁ!" Ela bateu duas palmas colocando as mãos na cintura em seguida. John continuou calmamente.

"Marguerite... não são roupas para você, são roupas para um bebê... mais carinho e vê se bota algum desenho ou algum bordado aí... e bem feito... senão volta tudo outra vez...e nada de café".

Grunhindo Marguerite pegou todas as peças e saiu batendo o pé, mas antes de sumir das vistas de Roxton, ela ainda olhou para ele como se pedisse piedade. Mas John manteve sua postura e balançou a cabeça negativamente. Ela rodou os olhos e saiu batendo o pé outra vez, mais agora quase chorando com ódio daquele homem.

E assim que Marguerite sumiu de suas vistas, Roxton riu, e muito.

O bebê resmungou e Verônica voltou à realidade. "Já vou preparar seu leitinho, amorzinho...". Sorriu e foi em direção à cozinha. Por um instante observou a criança em seu colo, sentado em sua cintura. Ele sorriu parecendo ter entendido o que ela havia dito e a jovem retribuiu. "Obrigado por esperar pequeno!".

Colocou o leite da cabra que misturou com um pouco de água em uma vasilha no fogo. Puxou uma cadeira e sentou-se embalando o menino em seu colo.

O bebê começou a ficar impaciente. "O que foi, Thomy? O seu leitinho já vai ficar pronto...você está com cólicas outra vez?". Como se procurasse alguma coisa não parava com o rostinho, e as mãozinhas. De repente ele pareceu se acalmar um pouco quando repousou as pequeninas mãos no seio da jovem.O rosto de Thomy, agora procurava sob a blusa de couro, seu alimento. Inicialmente ela não reagiu, e depois pensou que o cheiro do leite aguçara a fome de Thomy. Mas logo viu que o bebê estava mesmo era procurando seu seio para se alimentar.

Foi então que ela se desesperou. "Thomy, não posso te oferecer nada daqui...". Os olhos cheios d'água olhavam para a criança que ameaçava chorar também. Verônica o afastou de si, abraçando-o com carinho. As lágrimas não puderam ser contidas, nem as delas e nem as do bebê, que pareceu entender o que ela havia dito.

"Juro que eu faria qualquer coisa para que você se alimentasse de mim... daria minha vida por você, pequenino... Mas... eu não posso te dar mais que carinho e abrigo...".As lágrimas desciam livremente, e ela se sentiu mais inútil do que nunca.

Não tentava fazer o bebê parar de chorar, o choro dele era um lamento, era um choro diferente, como se o bebê pressentisse que aquela não era a sua mãe verdadeira.

"Verônica! Que cheiro é esse?" Roxton chegou farejando algo diferente na cozinha.

Com os olhos vermelhos ela, olhou para John lembrando-se finalmente do leite, já derramado. Fez menção de levantar mas Roxton a impediu colocando gentilmente a mão em seu ombro. Sorrindo ele percebeu seu rosto ainda molhado pelas lágrimas. "Agora não adianta chorar pelo leito derramado..." Os dois sorriram como se nada estivesse acontecendo. Jogando água o caçador apagou o fogo olhando para Verônica que lhe agradecia com o olhar para abaixar a cabeça em seguida. Alguém a vira fraquejar e ela não estava acostumada a isso

John abaixou-se diante dela e com carinho, colocou o dedo sob seu queixo erguendo sua cabeça..

"Por favor,... Não conte a ninguém que me viu... eu confio em você, Roxton...". A voz magoada e entrecortada partiu o coração do homem. As lágrimas dançavam nas pálpebras da jovem que pedia, quase implorava por sigilo. John nunca tinha visto sua amiga tão frágil. Na verdade não sabia que ela podia ser frágil.

"Pode confiar em mim... você sabe...".

Um sorriso tímido nasceu nos lábios de Verônica. "Obrigada...".

"Verônica, você tem que sorrir, apesar de tudo que está acontecendo... Lembre-se que tudo que a mãe sente, passa para o bebê... e não quer que Thomy sinta tristeza, quer?".

Verônica surpreendeu-se. "Mãe?".

"Há várias formas de ser uma mãe, há várias pessoas que são mais do que mães... Sabe disso... Você está se saindo muito bem, não duvide. Sua atitude foi digna, corajosa e muito humana. Sua mãe teria orgulho de você."

Os olhos de Verônica umedeceram-se diante da lembrança da mãe. "Acha mesmo, Roxton?"

"Não tenho dúvidas."

Verônica suspirou. Olhou para o bebê agora quietinho em seu colo. Quase cerrando os olhos com sono, e ele já tinha se acostumado ao cheiro. Verônica percebia agora porque estava agitado.

"Viu como está mais calminho agora?" John cochichou. "Não disse que você se acalmando ele também se acalma...".

Ela sorriu e passou carinhosamente a mão na cabecinha de Thomy, que acabara de fechar completamente os olhos.

"Acho que ele não vai querer o leite agora..." Ela disse um pouco mais animada.

John sorriu e antes de se levantar, deu um terno beijo na testa da jovem, que fechou os olhos, aliviada por ter um amigo como ele por perto.

Ao ouvir o barulho do elevador Verônica enxugou rapidamente o rosto ainda molhado, enquanto Roxton pegava a caneca de leite suja no fogão.

Challenger e Malone desceram do elevador carregando alguns pássaros abatidos na caçada.

"Bela caçada, rapazes" – sorriu Roxton ajudando Challenger com as aves que foram colocadas em uma bacia vazia. – "Vou achar Marguerite e ver se ela quer fazer companhia a esse velho caçador em um passeio." – disse isso e saiu.

"Boa tarde, Verônica" disse Challenger formalmente. Desde que o menino se tornara morador da casa da árvore eles não trocavam mais do que poucas e constrangidas palavras. Ambos sabiam que teriam que discutir seus pontos de vista, mas nenhum deles estava preparado e antecipar isso só iria magoá-los ainda mais.

"Boa tarde, Challenger...".

"Vou estar em meu laboratório..." o cientista saiu sem olhar para o garoto, e nem para ela.

. "Como você está?" Malone sentou-se ao lado dela com uma preocupação que Verônica sabia ser genuína e sincera.

"Estou bem, Ned...".

"Eu queria conversar uma coisa com você" Verônica olhou surpresa para o rapaz, que falava em tom baixo.

"Eu sei que não tenho lhe dado o apoio que você precisa, merece e espera de mim, mas..." Verônica interrompeu.

"Eu não espero nada de ninguém, Ned, nunca esperei...". Ele percebeu o tom de angústia em sua voz.

"Sei que não. Só que eu não sei como lidar com essa situação... Eu realmente gosto muito de você, mas é tudo tão diferente e estranho que não sei como devo agir... E é justamente por gostar tanto de você que não quero tomar alguma posição na qual você sinta que não estou confortável... Prefiro não me aproximar de você, enquanto tiver qualquer dúvida sobre o que sinto em relação ao Thomy. Não seria justo... E não quero cometer os mesmos erros que Challenger cometeu...".

Verônica passou a mão carinhosamente pelo rosto bem barbeado do rapaz que fechou os olhos. Queria abraçá-la e beija-la naquele instante. Verônica beijou-lhe levemente os lábios por segundos que lhe pareceram intermináveis.

"Vou esperar você decidir, Ned... Seja o que for...". Afagando seu rosto mais uma vez ela sorriu para ele, e levantou-se com cuidado, indo para o seu quarto repousar Thomy no berço.

Sozinho Ned Malone dirigiu-se a sacada. Com um olhar distante observou a noite escura do platô e começou a escrever no diário:

"Vim como observador mas nunca poderia imaginar ver-me tão envolvido emocionalmente com aquilo que deveria retratar. Mas antes que eu tome qualquer decisão que envolva outra pessoa tenho que resolver as coisas dentro de mim mesmo..."

CONTINUA...