Capítulo 16:

COMPREENDER E PERDOAR

Os corredores e escadas de Hogwarts não tinham a menor graça. Não havia mais as risadas dele, nem sua companhia agradável. Não havia o conforto do calor do corpo dele perto do seu, indo onde ela fosse. Gina sentia-se completamente sozinha em meio à multidão de alunos que ia e vinha, conversando animados sobre matérias novas ou algum detalhe da vida do castelo. A volta às aulas foi um martírio maior do que a ruiva poderia ter imaginado em seus sonhos mais pessimistas.

Não que ela fosse deixada de lado. Harry Potter costumava cumprir suas promessas, e ele havia prometido não deixá-la sozinha. Acompanhava-a a maior parte do tempo. Gina apreciou bastante o esforço do rapaz, especialmente porque constatou que gostava muito dele. Harry era cuidadoso com ela, gentil e atento, falando na hora certa e calando quando era preciso. Seu sorriso, que se estendia aos olhos verdes, certamente fora o responsável por manter a sanidade da ruiva intacta.

Porém, ela sentia que faltava algo. Em todas as conversas e discussões com o moreno, havia um vazio que ele jamais conseguia preencher. E Gina sabia bem o que era. Harry, depois de um primeiro conhecimento, era um irmão. Companheiro, agradável, mas Gina não conseguia vê-lo como homem, não conseguia vê-lo como Alex.

O toque de Harry não lhe causava as pequenas explosões que um simples olhar de Alex provocava. Ela não desejava que Harry ficasse observando-a longamente, guardando as curvas do rosto dela e, o mais importante, nos olhos verdes de Harry ela não via o amor e o desejo, a tristeza e a angústia que vislumbrava em Alex.

O que Gina mais sentia falta eram os olhos de Alex. Mas, desde a enorme burrada que havia feito, poucas pessoas os viram.

- Vocês acham que ele está doente? – cochichou um garoto ao seu lado, curvando-se para os amigos que partilhavam a mesma mesa na aula de Poções.

- Definitivamente, alguma coisa aconteceu. – concordou a garotinha miúda que descascava pinhões.

- Ouvi dizer que a Profa. Lake brigou feio com ele. – outro garoto informou.

- Ela tem autoridade para isso? – o primeiro garoto perguntou, apontando para a frente da masmorra. - Quero dizer, eu nunca vi um professor agir dessa maneira... Nem mesmo Snape.

Janeiro já estava terminando e os quintanistas deviam estar se preparando com afinco para os NOM's, trocando receitas de poções e praticando feitiços. No canto mais afastado da masmorra, a ruiva escutava o burburinho em volta: em todas as mesas o assunto era o monitor da Corvinal.

Todos haviam se habituado ao Alex sorridente e prestativo. Não estavam preparados para o rapaz de rosto contraído e murmurante que encontraram depois do feriado de Natal. Alex continuava ajudando durante as aulas do Prof. Snape, continuava prestativo, embora não houvesse nem sombra de sorriso em seus lábios. E ele não encarava Virgínia. Ela, claro, evitava chamá-lo, mas ele vinha naturalmente na direção dela, observava seus procedimentos e corrigia-os aos sussurros, mas não levantava os olhos para vê-la.

Geralmente ela respeitava a decisão do amigo, entretanto, chegara ao seu limite quando vira lágrimas caindo silenciosas dos olhos dele quando abaixou-se para limpar seu caldeirão.

- Alex. – chamou, num murmúrio inseguro.

Ele calou-se subitamente. Gina percebeu que os lábios do garoto tremiam.

- Alex... – engoliu em seco. – Converse comigo... Por favor, fale qualquer coisa, me xingue, até bata em mim, mas... droga... – respirou. – Eu preciso de você.

Num movimento lento, o rosto pálido do loiro subiu. Pareceu a Gina que ele fazia um esforço enorme quando parou os olhos sem encará-la e sinalizar que sim. Buscou um pedaço de pergaminho e escreveu:

SALA DE ASTRONOMIA. HOJE A NOITE.

E afastou-se. Pela primeira vez em semanas, Gina sorriu sinceramente.

Ela subia cautelosamente a escadaria. Ao menor ruído, atirava-se contra a parede e tapava a respiração ofegante com a mão.

"Por Merlin, como é difícil esconder-se nesse castelo!... E como é escuro..."

Levava uma cesta com sanduíches e uma jarra de suco de abóbora.

"E ele fez o favor de não aparecer para jantar... Sianna pode ter desconfiado..."

Contudo, ela notou, a professora conversava animadamente com Remo Lupin e pareceu não notar a ausência do filho.

A maçaneta fez um pequeno ruído ao ser girada. A sala estava iluminada pelo brilho anormal das estrelas. Gina acostumou a visão e notou uma figura sentada no meio do cômodo. A figura ergueu-se à entrada dela e a ruiva sorriu, fechando a porta, indo rápido em direção a ele.

- Talvez você estivesse com fome. – mostrou a comida, antes de parar bem perto dele.

Um arrepio quente percorreu suas costas ao sentir o cheiro de Alex novamente. Ele a observava atentamente e Gina entendeu o que ele queria. Pousou o prato e a jarra ao lado e abriu os braços, apertando-o forte.

O rapaz retribuiu o gesto, trazendo-a para bem perto, sentindo cada centímetro dela junto a ele.

Gina podia sentir a respiração dele em seus cabelos, o coração dele ecoando o seu, as lágrimas mornas de Alex em seu rosto.

- Senti sua falta. – murmurou no ouvido dele, beijando sua bochecha.

Alex afastou-se para olhá-la.

- Eu estava pronto para desistir.

- Pois eu tenho outros planos. – ela sorriu, secando o rosto dele. Alex tomou suas mãos e beijou-as.

- Pode ser perigoso. – os olhos dele jamais deixavam os dela.

- Você sabe em que Casa eu estou, Alex?... Enfrento quem for para ficar com você... Ei, é um sorriso que estou vendo?!... Pela Deusa, você fica bem quando sorri! – exclamou, corando em seguida. "De onde veio isso?"

Ele riu de verdade.

- Você está falando como minha mãe.

- Nós vamos falar com ela, Alex. – falou, séria. - É um absurdo continuarmos assim.

- Tem certeza? – ela acenou. – Agora?

- Não. Estive pensando em pedir ajuda. Você gosta de chá em saquinhos?

Era madrugada quando a porta da sala do Prof. Lupin foi arranhada por batidas tímidas, quase imperceptíveis. Ficaram esperando, torcendo para que ele ouvisse, e que não ficasse com raiva por incomodá-lo.

Bateram novamente, mais forte. Desta vez ouviram barulhos de alguém levantando-se e passos arrastados.

"Lumus", ouviram uma voz rouca perto da porta e a cara amassada do professor apareceu por uma fresta.

- Aconteceu alguma coisa? – perguntou, preocupado por vê-los ali.

- Não, senhor. – a ruiva começou, insegura. – Desculpe incomodá-lo tão tarde, professor... talvez devêssemos...

- Nós podemos voltar uma outra hora. – Alex disse, puxando Gina para longe da porta. Parou ao ouvir outro ruído no quarto. Lupin virou o rosto para dentro e franziu a testa.

- É urgente? – perguntou, voltando a olhá-los.

- Não, - Gina disse, sentindo a mão de Alex apertar a sua. - na verdade não é tão urgente, embora...

- Esperem um minuto. – pediu o homem e fechou a porta. Os dois garotos olharam-se.

- Não foi uma boa idéia, Gina. – Alex sussurrou. - Acho que estamos atrapalhando...

- É, eu acho que não mesmo... Que tal se formos embor... – a porta abriu-se novamente.

- Entrem, por favor. – a voz gentil de Lupin interrompeu.

Estancaram enquanto o professor fechava a porta. Os olhos de Sianna fitavam escuros os dois. O homem passou por eles, indo para a escrivaninha. Por um momento constrangedor eles ficaram calados, olhando de um para o outro. A mão de Alex apertava a de Gina como nunca.

- Você se atreveu. – a voz baixa de Sianna quebrou o silêncio. – Mesmo com a minha proibição.

- Senhora...

- Não existe explicação. – Sianna ergueu a mão para fazê-lo calar. – Você é jurado ao serviço da Deusa.

- Ainda não fiz os votos, Senhora. – a voz dele saiu decidida. – E não vejo motivo para obedecer, neste caso.

- Não lhe peço entendimento, apenas obediência.

- Sianna, talvez... – Lupin interveio.

- Fique fora disso, Remo. – ela disse, ríspida. – Por favor, não torne mais difícil. – ela pediu, buscando o rosto dele. Gina sentiu que ela suplicava.

- Sianna, existem assuntos sobre os quais seria sensato analisar sob outro prisma. – Lupin disse suavemente, tocando o braço dela. – Vamos ouvir o que eles têm a dizer.

A mulher virou o corpo para ele.

- Seu filho pede que você o ouça como mãe, não como a Senhora do Lago. – apontou para Alex. – E ele merece.

Sianna fechou os olhos e eles viram seus ombros tremerem com um suspiro profundo. Remo segurou seus ombros e sussurrou em seu ouvido.

Alex olhou para Gina e sorriu. A ruiva sorriu de volta.

- Eu me lembro, Alex. – a voz de Sianna atraiu-os. Remo segurava a mão dela. – Me lembro de você pequeno, perguntando por seu pai. – ela sorriu, e Gina pôde ver a luminosidade que emanava dela. – Depois você descobriu que os filhos de Avalon não têm pais. – Gina viu a garganta de Alex mover-se com dificuldade. Sua mão suava. – Acho que não compreendia o amor porque ele não tinha vindo a mim. Até você chegar. Então, todo o meu amor foi para você.

Gina sentia-o tremer. Assistiu as lágrimas formarem-se nos olhos que nem piscavam.

- E eu quis uma vida perfeita para você, meu menino. – a voz dela estava embargada. - Mas você cresceu e se foi, e eu tive outras tarefas... Nunca deixei de pensar em você, filho... Todas as noites eu pedia à Deusa que me mostrasse o caminho...

Gina engoliu em seco.

- Jamais quis a sua tristeza, filho... – Sianna caminhou para o lado do rapaz. – E não a quero agora... Você acredita em mim? – ela ergueu a mão para tocar o rosto dele. – Você pode me ensinar a não interferir...? – sussurrou.

Num impulso, Alex virou-se para ela e abraçou-a. Gina mexeu as mãos, nervosa. Procurou pela sala, encontrando Lupin olhando-a. Discretamente, foi para o lado do professor.

- Como o senhor conseguiu? – perguntou baixinho.

- Tática de lobo. – ele sorriu enigmático, colocando as mãos no bolso, muito satisfeito consigo mesmo.