A MEDALHA

Capítulo 1- Os Samurais

Os elfos observavam aquele estranho e pequeno grupo há algum tempo.

Eram homens, disto eles tinham certeza!

Eles eram tão pequenos quanto os anões, mas seus corpos eram esguios e delicados, assim como delicadas eram suas faces. Os cabelos eram negros e lisos presos num rabo de cavalo. A pele era muito branca, mas num tom diferente do branco rosado das damas elficas.

Suas roupas eram diferentes, as calças tinham pernas muito largas e pregueadas, faziam parecer que todos estavam usando saias. As camisas, de cores vivas, não possuíam botões ou laços para mantê-las fechadas, simplesmente as colocavam por dentro das calças. Eles usavam uma camisa branca por baixo da colorida. As mangas também eram largas.

Nos pés usavam meias brancas e calçavam delicadas sandálias.

Todos traziam presas na cintura duas espadas: uma longa, fina e levemente curvada e a outra curta e fina. Alguns traziam também grandes arcos e aljavas enfeitadas. Seus pertences eram carregados envoltos em tecidos coloridos. E seus cavalos enfeitados com franjas vermelhas.

Aquele que parecia o líder estava há horas sentado sobre os calcanhares em frente à fogueira com os olhos fechados.

Dois dos guerreiros treinavam com suas espadas, enquanto os outros observavam.

De repente o líder levantou-se num salto e ficou em posição de ataque, com as mãos na espada longa embainhada. Quase que imediatamente foi acompanhado pelo resto do bando.

Os elfos corriam em direção do grupo. Graças a seus aguçados sentidos eles já sabiam o que havia alertado o velho líder; Orcs!

Os orcs chegaram primeiro, para surpresa de todos, muitos caíram decapitados pelo rápido desembainhar das espadas.

Mas ainda restavam muitos, estes refeitos do espanto inicial, retomaram o ataque com maior voracidade.

Quando os elfos chegaram à batalha, ela estava ferrenha. As espadas dos humanos zuniam num rastro de luz cortando os orcs, espirrando sangue, fazendo parecer que uma chuva negra caia no campo de batalha.

O líder do grupo matava dois orcs com um único golpe de sua leve espada quando notou que um dos seus estava desarmado e caído no chão.

'Nadeshiko'! – gritou.

O orc estava prestes a cortar o humano ao meio com um enorme machado quando foi atingido por uma flecha entre os olhos. O pequeno humano ergueu as pernas girando sobre o próprio corpo e ficando em pé segundos antes do pesado orc cair no lugar exato onde ele estava.

O pequeno inclinou a cabeça para o capitão elfico em agradecimento, pegou a espada no chão, embainhou-a e correu numa velocidade surpreendente na direção do elfo, quando estava próximo do capitão desembainhou a espada e cortou a cabeça de um orc que tentava atacá-lo pelas costas.

Logo as terríveis criaturas bateram em retirada, cientes de sua derrota, os elfos passaram a alvejá-los com suas flechas. Os humanos com arcos, entre eles o pequeno chamado Nadeshiko, montaram seus cavalos e partiram a galope alvejando os orcs restantes enquanto os perseguiam.

Por fim não restava nenhum org com vida, humanos e elfos sujos e esgotados começaram o empilhar os corpo.

Um dos humanos retirou de suas roupas alguns pedaços de papéis com desenhos estranhos e um comprido colar de contas. Enrolou o colar na mão e com os papéis entre os dedos começou a recitar palavras estranhas, então jogou os papéis nas pilhas de cadáver e em seguida ateou fogo. Feito isso voltou a recitar palavras estranhas enquanto as piras queimavam.

Os elfos observavam a cena com evidente curiosidade.

"Ele é um sacerdote".- explicou Nadeshiko em língua comum – "Está lacrando os youkais para que seus espíritos não nos persigam!".

Os elfos ficaram surpresos por ela falar tão bem a língua comum.

"Onde você aprendeu a falar assim?" - perguntou o capitão.

"Depois eu explico". - sorriu- "Agora Mestre Shinobu deseja falar-lhes." - indicou o local onde o líder estava sentado sobre os calcanhares, logo atrás dele estavam os demais.

Quando os elfos se aproximaram, o líder se levantou e disse inclinando o corpo num ângulo de 90o. :

'Arigatô gazaimasu'!

Em seguida os outros fizeram o mesmo.

Nadeshiko chamou a atenção dos elfos tocando no braço do capitão:

"Eles disseram 'muito obrigado'! – inclinou o corpo em 90o. dizendo- Arigatô gozaimasu!".

Ela ergueu o corpo e sorriu:

"Mestre Shinobu ficaria honrado se nobres guerreiros youkais aceitassem permanecer neste acampamento em nossa humilde presença".– dizendo essas palavras ela ajoelhou encostou a testa sobre as mãos espalmadas no chão e permaneceu assim.

Legolas piscou algumas vezes, constrangido com a atitude da menina e olhou para Angrod que estava na mesma situação .

Como a menina não se movia, Legolas abaixou em frente a ela e tocou seu ombro:

"Seria uma honra dividirmos o acampamento com tão valorosos guerreiros".

Quando ele terminou de dizer essas palavras, ela finalmente deixou aquela estranha posição com um sorriso iluminando seu delicado rosto:

'Hai'! – desse levantando- 'Shitsurei shimasu'!- juntou-se aos seus .

Angrod e Legolas afastaram-se dos humanos para conversar:

"Que grupo exótico"!- comentou Angrod.

Angrod apoiou a mão no ombro do amigo:

"Quando ela se prostrou eu fique sem saber o que fazer".- disse Legolas.

"Pela alegria que ela demonstrou arrisco dizer que você agiu de maneira perfeita"!

&&&

Nadeshiko ajoelhou ao lado do pai e curvou a cabeça:

'Esses gentis youkais consideram uma honra dividir o acampamento conosco, senhor meu pai.'

O velho samurai coçava o queixo vagarosamente de olhos fechados.

Kenji, o mais alto e forte entre os japoneses curvou-se humildemente para o sansei :

'Seriam esses os youkais que aqueles bárbaros temiam'?

Sansei Shinobu parou de coçar o queixo e olhou o samurai mais novo nos olhos:

'Tudo indica que sim. Segundo aqueles bárbaros os youkais tinham cabelos longos, orelhas pontudas, pele clara que brilhava no escuro e eram belos à vista. A descrição me parece exata'.

'Os bárbaros disseram que esses youkai eram muito perigosos'- comentou Shuit

'E o que eles fizeram depois'?- perguntou o sansei.

'E se pedíssemos ajuda a eles'- perguntou timidamente Dan

'Baka! Ofereça seu pescoço para eles cortarem'!- ralhou Keitaro.

'Desculpe a ousadia, mas eu concordo com Dan, por que não conhecer a versão deles'?- ponderou Yamazaki .

'Qual a sua opinião Kai? Você ainda não opinou'.- sansei Shinobu perguntou.

'Eles foram os primeiros que encontramos em nossa longa jornada. Não faz sentido abrir mão de uma oportunidade como essa levados por histórias que nem sabemos se são reais ou não'.

Todos se calaram cada qual analisando as palavras do companheiro.

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O acampamento já estava montado, as piras fúnebres dos orcs estavam quase extintas.

Um observador de fora, poderia achar a cena engraçada. De um lado do acampamento os humanos tentando parecer indiferentes, cuidando de seus feridos, polindo suas espadas. Mas o olhar sempre se voltava para onde estavam os elfos, que agiam da mesma forma.

Nadeshiko era uma observadora de dentro e não estava achando nada engraçado. Decidiu fazer aquilo que sabia melhor.

Pegou uma das trouxas e foi até a fogueira e começou a trabalhar.

Um elfo que estava próximo esticou o pescoço movido pela curiosidade, a garota sorriu para ele e continuou a trabalhar.

Logo um aroma irresistível espalhou-se pelo ar despertando o interesse de todos.

Nadeshiko serviu a aromática bebida, com a ajuda do elfo curioso, a todos.

"Mestre youkai seria uma honra se o senhor aceitasse tomar o chá na companhia de mestre Shinobu."- Nadeshiko convidou.

Legolas olhou para Angrod que acenou a cabeça :

'Essa humana é bem esperta!'- comentou enquanto ele e Legolas seguiam Nadeshiko até o velho líder.

Shinobu estava sentado na mesma posição de sempre, os elfos sentaram-se diante dele na mesma posição.

Nadeshiko serviu o chá para os três e sentou-se ao lado de seu líder.

Shinobu começou a falar baixo e pausadamente numa língua completamente desconhecida dos elfos, conforme ele falava Nadeshiko traduzia:

"Somos japoneses vindos de terras muito distantes...eu sou Shinobu ...esta minha filha Nadeshiko, única que fala bem língua desta honrável terra."

"Eu sou Legolas e este é Angrod, nesta patrulha somos os únicos que dominam a língua comum".

"Língua comum"?- estranhou a humana.

"Sim."-explicou Legolas-"Estamos falando a língua comum, que é falada pela maioria dos povos daqui, mas meu povo fala sindarin"".

Enquanto Legolas falava Nadeshiko traduzia para seu pai.

"Como você aprendeu a língua comum?" - Legolas nunca esquecia uma pergunta sem resposta.

Nadeshiko pediu permissão para o pai, diante do consentimento ela iniciou a narrativa:

"Há muito tempo homens de suas terras foram até nosso amado imperador pedir ajuda. Eles ficaram muito tempo no império, contavam freqüentemente histórias de grande terror sobre youkai de cabelos longos, orelhas pontudas que brilhavam com luz própria. -ela lançou um olhar significativo para os elfos -Disseram que esses youkais queimavam suas casas e plantações, matavam suas mulheres e crianças, devoravam seus animais"...

Angrod estava visivelmente indignado, Legolas controlava-se com muito custo, ele queria ouvir o resto da história.

"O imperador é um homem de grande sabedoria, profundo conhecedor da natureza humana"!- a admiração pelo imperador era evidente.

"Esses homens não caíram nas graças do imperador que negou ajuda e convidou-os a saírem de suas terras".

"Dias depois,"-ela continuou-"os homens voltaram acompanhados de youkais de sangue negro. Atacaram muitas aldeias, até que os samurais do imperador eliminaram todos, inclusive os humanos traidores".

Ela parou por um instante para verificar o impacto de suas palavras:

"Em sua imensa sabedoria o honorável imperador selecionou um grupo de bravos para investigar a verdade". –sorriu- "Mestre Shinobu, respeitado Samurai; mestre Shinji"- apontou para o homem que ainda estava perto das piras- sacerdote de grande poder; Keitarô, Shuit e Kenji , samurais de renome; Yamazaki, Kay e Dan, arqueiros habilidosos e Nadeshiko, filha única de mestre Shinobu, arqueira, samurai e conhecedora da língua comum.-sorriu orgulhosa - "foi com esses homens que aprendi a falar a língua comum".

Angrod achou graça na menina.

"Como vocês podem ter certeza que não somos como aqueles homens disseram"?

Nadeshiko traduziu a pergunta para o pai, que sorriu e falou com sotaque carregado em língua comum:

"O inimigo de meu inimigo é meu amigo!"

"Como nós podemos confiar em vocês"? – perguntou Angrod

"O inimigo de meu inimigo é meu amigo"!-reafirmou Nadeshiko piscando para o elfo desconfiado.

Nesse momento o sacerdote se aproximou e começou a falar:

'O fato é que temos um inimigo em comum'!- disse ele em sua língua enquanto Nadeshiko traduzia – 'Meu povo precisa de maiores informações para combatê-los com mais eficiência caso eles decidam atacar-nos novamente'.

Legolas analisou a situação. Aqueles humanos eram diferentes de todos que ele já havia conhecido. Mesmo não entendendo a língua deles Legolas podia sentir a verdade que emanava do líder e do sacerdote.

O elfo levantou acompanhado por seu companheiro:

"Com licença, por favor".- disse fazendo uma reverência .

Os dois elfos afastaram-se uma boa distancia para conversar em particular.

'O que você achou dos humanos'?-perguntou Legolas.

'São guerreiros habilidosos ...'-tentou parecer serio-'Você viu aqueles arqueiros'?!-cedendo à empolgação.

Legolas riu do jeito do amigo.

'Não faça assim! Eu sei que você esta tão empolgado quanto eu'!- fazendo cara de ofendido.

'Eu admito! Eles são fascinantes'.-sorriu.

Legolas olhou para o líder dos humanos conversando com a filha:

'Estou pensando em levá-los até Mirkwood'.

'Você acha prudente'?-perguntou Angrod arregalando os olhos-'Pode ser arriscado! E se eles estiverem mentindo? Você estaria disposto a arriscar Mirkwood e acima de tudo arriscar o Rei'?

'Minha intuição diz que posso confiar neles'.-afirmou Legolas-'E eles pediram ajuda não pediram'?

Angrod sorriu, essa era uma das características que ele mais gostava no príncipe, ele nunca negava auxílio a ninguém.

Os elfos conversaram por algum tempo depois Angrod foi comunicar a decisão do capitão aos humanos.

Continua..