Nota da autora: Bom, eu realmente não sei qual a distância entre Hokkaido e Kyoto... Tentei procurar no Google Earth, mas não tinha (ou eu que não soube ver...) Mas eu imagino que seja longe, e que seja uma viagem longa. Vamos imaginar desta forma, ok?
Outra coisa que eu realmente não sei é como era um prostíbulo no Japão da Era Meiji. Tentei fazer uma descrição com poucos detalhes... Vamos deixar a imaginação funcionar aqui também, sim?
Novamente, obrigado a Kitty pelas dicas (e por tentar fazer um Aoshi menos OOC para mim!) e à Li, por revisar! Arigatô!
Disclaimer: Rurouni Kenshin não me pertence. Sem idéias engraçadas por hoje... Esse capítulo foi praticamente um Angst... Estou deprimida... :(
Escute seu coração
Foi apenas na manhã seguinte que as conseqüências de suas ações começaram a ser percebidas...
Aoshi passou a noite em claro, pensando em Misao. Ele havia refletido muito, e estava realmente convencido de que tinha sido melhor esconder seus sentimentos da jovem. Apenas esperava que ela o perdoasse um dia, e que não ficasse magoada com ele por muito tempo. Misao era uma garota explosiva, mas não costumava guardar rancores. Aoshi só não sabia até que ponto a havia magoado.
O dia amanheceu frio, mas a chuva diminuíra bastante. Aoshi decidiu que passaria o dia treinando. Assim, provavelmente só encontraria com Misao à noite. Estava saindo do Aioya quando escutou vozes sussurradas vindas da cozinha. O que, de fato, era estranho... Geralmente ninguém sussurrava no restaurante... Todos costumavam falar alto, bem alto. Aproximou-se da porta devagar, tentando ouvir quem conversava.
"Tem certeza, Okina-san?"
"Claro que tenho, Omasu! Eu conheço minha Misao. Este bilhete foi apenas para despistar. Provavelmente ela não quer se encontrada por enquanto."
Aoshi sentiu alguma coisa dentro de si se agitar à menção do nome de Misao. Algo estava errado. Bilhete? Não queria ser encontrada? Como assim? Ela estava dormindo no quarto do fim do corredor, não estava?
"O que aconteceu?" Perguntou Aoshi, abrindo a porta com violência e entrando na cozinha, antes mesmo que se desse conta do que estava fazendo.
Okina e Omasu viraram-se assustados com o barulho. Não tinham notado a presença de Aoshi. O jovem Okashira percebeu que Omasu ainda vestia seu yukata, e parecia extremamente pálida. Segurava um pequeno pedaço de papel amassado nas mãos.
"É a Misao, Aoshi. Ela partiu."
Aoshi sentiu como se uma pedra de gelo afundasse em seu estômago.
"Como assim, partiu? Quando? Para onde?"
"Esta madrugada, e deixou isto," Respondeu a jovem, entregando a Aoshi o pedaço de papel que segurava. Era um bilhete, aparentemente escrito às pressas.
'Estou partindo para um treinamento nas montanhas. Não se preocupem, vou ficar bem. Volto em algumas semanas. Misao.'
Aoshi devolveu o papel a Omasu.
"Por que ela partiu no meio da noite? Com aquela chuva toda? Ela comentou alguma coisa sobre esse treinamento com você, Aoshi-san?"
O jovem apenas balançou a cabeça negativamente. Um forte e doloroso sentimento de culpa enchendo seu peito. Misao havia fugido. Fugido dele.
Okina observava Aoshi com atenção. Havia algo de estranho com ele naquela manhã. Ele não parecia tão seguro de suas emoções, como sempre... Entrara de forma intempestiva na cozinha, e agora se mostrava tão preocupado com Misao...
"Omasu, por favor, deixe-me a sós com Aoshi."
A jovem ninja olhou intrigada para Okina, mas saiu sem fazer perguntas. Aoshi continuava de cabeça baixa, perdido em seus próprios pensamentos, corroído pela culpa.
"Essa não é a primeira vez que Misao faz isso, Aoshi." Começou Okina, andando até a cadeira mais próxima, e sentando-se. "Ela já fez isso uma vez, há alguns meses atrás... Por sua causa."
Aoshi levantou a cabeça devagar. Okina parecia estar querendo insinuar alguma coisa. Continuou em silêncio, esperando para ver onde aquela conversa ia chegar.
"Da primeira vez, ela também saiu de casa de repente, deixou um bilhete com uma desculpa esfarrapada, e partiu para Tokyo atrás de você. No caminho ela conheceu Battousai, e bem... Você sabe o final da história... E algo me diz, Aoshi, que essa segunda partida repentina de Misao também tem a ver com você. Estou errado?"
Aoshi encarou Okina nos olhos. O que ele estava tentando insinuar? Será que a velha raposa ouviu o que aconteceu na noite anterior? Ou estava apenas tentando arrancar dele alguma confissão?
"O que quer dizer com isso, Okina?"
"Oh, nada... Nada... Apenas achei que você poderia saber algo sobre esse sumiço repentino da minha menina. Mas vejo que estava enganado."
"Sim, você está enganado..." Mentiu Aoshi. Não queria que Okina sequer sonhasse com o verdadeiro motivo da fuga de Misao. "Mas você não vai fazer nada? Não vai mandar ninguém atrás dela?"
Okina riu.
"Mandar alguém atrás de Misao? Ela é uma ninja, Aoshi! Tão boa quanto eu ou você. Ela perceberia que está sendo seguida, e eu temeria pela saúde do espião. Não se preocupe. Ela deve voltar logo. Talvez apenas precise de um tempo sozinha para pensar. Provavelmente está confusa em relação a alguma coisa, e quer colocar os pensamentos em ordem. Misao já é adulta, mas nem sempre se comporta como uma. Não vamos nos preocupar agora, ela sabe se cuidar."
"Eu espero..." pensou Aoshi consigo mesmo.
ooooo
E o tempo passou. Dias, semanas, meses. Na manhã que Misao completou 2 meses fora de casa, Aoshi simplesmente não pode esperar mais, e ele mesmo enviou alguns de seus espiões atrás dela. Já haviam avisado Himura em Tokyo, pedindo para que ele entrasse em contato, caso Misao passasse por lá. Mas ele não tinha nenhuma notícia da jovem. Okina e os outros também já estavam ficando muito preocupados. A garota nunca tinha passado tanto tempo fora de casa, sem dar notícias.
Mas as buscas provaram-se inúteis. Aoshi era obrigado a admitir que Misao era mesmo uma excelente ninja. Conseguia camuflar sua presença e esconder-se como ninguém. Nenhum dos espiões foi capaz de localizá-la. Misao era rápida demais para eles. Quando conseguiam alguma pista sobre seu paradeiro, era sempre tarde demais, e ela já havia partido. Ela estava sempre um passo a frente deles.
Aoshi aos poucos estava sendo consumido por sua própria culpa e remorso. A ausência de notícias de Misao estava enlouquecendo-o. Já não tinha mais concentração para meditar, já não treinava mais. Passava os dias procurando por Misao, vagando por Kyoto, viajando até cidades próximas, segundo pistas do seu paradeiro. Sempre em vão. Claro que essa mudança de atitude não passou despercebida a todos no Aioya. Muitas vezes Okina o chamou para conversar, tentando arrancar dele o porquê de um comportamento cada vez mais taciturno, mas nunca conseguia mais do que respostas monossilábicas. Ninguém nunca imaginou que Aoshi ficaria tão infeliz com a partida de Misao.
Então, quando as esperanças de todos já estavam se esvaecendo, surgiu uma pista concreta do paradeiro da jovem. Um dos espiões finalmente havia localizado uma garota com a descrição parecida com a de Misao. Em Hokkaido.
"Eu não tenho bem certeza se era ela mesmo, Aoshi-san. A descrição confere, mas o cabelo... Estava curto, e não preso em uma trança" relatou o espião, sentado em frente a Aoshi e Okina.
"Bom, ela pode ter cortado o cabelo, isso é apenas um detalhe. O resto da descrição confere?"
"Sim Okina-san. Mas ela me pareceu..."
"Pareceu o que?" perguntou Okina, ansioso.
"Doente... Magra, pálida... E o lugar onde ela estava entrando..."
"Onde ela estava entrando?" Interrogou Aoshi, quando o rapaz hesitou novamente.
"Em um prostíbulo. Da pior espécie."
Okina deu um salto da cadeira.
"Você só pode estar brincando! Por que Misao estaria entrando em um prostíbulo?"
"Eu vou até lá." Falou Aoshi, levantando-se e saindo em direção à porta.
"Espere Aoshi! Você vai até Hokkaido? Agora?"
"Esta é a primeira pista concreta que temos de Misao desde que ela partiu, Okina. E isso já faz 11 meses. Eu não vou perdê-la desta vez". Respondeu o jovem, já do lado de fora.
ooooo
Alguns dias de viagem depois e Aoshi desembarcava em Hokkaido. O lugar era muito bonito e de certa forma diferente de Kyoto, mas o jovem Okashira não tinha tempo de apreciar as belezas locais. Não podia perder tempo. Queria chegar logo no tal prostíbulo que o espião mencionara. Tinha medo que Misao já tivesse partido novamente.
Um lado seu não conseguia acreditar que aquela pista estava correta. Não fazia sentido. O que Misao faria em um prostíbulo em Hokkaido? Porém, outro lado esperava ardentemente que desta vez ele tivesse finalmente encontrado a garota, e que sua busca tivesse terminado. Aoshi estava disposto a tudo para ter Misao de volta. Pediria perdão quantas vezes fossem necessárias, faria de tudo para que ela voltasse com ele. Não queria perdê-la novamente. Não depois que finalmente resolvera admitir para si mesmo que já não sabia viver sem ela, e que a amava tanto que já não estava mais suportando sua ausência.
Aoshi demorou algumas horas para encontrar o prostíbulo. A cidade era maior do que ele imaginara a princípio. A tarde já ia longe quando ele finalmente avistou a casa. Era exatamente como a descrição do espião. Uma casa grande, aparentemente uma hospedaria, mas sem nenhuma placa ou cartaz. As paredes precisando de uma boa pintura, os vidros das janelas com grossas camadas de sujeira, sequer permitiam ver o interior. A casa era a visão da decadência. Aoshi não conseguia imaginar o que Misao estaria fazendo ali, mas mesmo assim, entrou.
Um forte cheiro de sujeira, sakê e perfume barato invadiu-lhe as narinas no momento que ele entrou na casa. A "recepção" estava vazia. Aoshi, porém, escutou vozes abafadas vindas de trás de uma porta, no final da sala. Aparentemente a porta do corredor que levava aos quartos...
Alguns instantes depois, a porta se abriu e uma mulher apareceu. Aoshi podia apostar que era a dona do lugar. Tinha os cabelos grisalhos presos em um coque mal feito, e usava um kimono de cores escuras que já tinha visto dias melhores. Parecia afogueada e preocupada.
"Oh, me desculpe senhor, não o escutei entrar. Está aí há muito tempo? Alguma das meninas não veio atendê-lo?"
"Não, acabei de chegar. Estou procurando uma jovem..."
"Temos várias jovens aqui, senhor". Falou a mulher, forçando um sorriso. "Basta o senhor me dizer o que prefere..."
"Não, acho que a senhora não entendeu... Procuro por uma jovem em particular. Ela foi vista entrando aqui há alguns dias, seu nome é Makimachi Misao. Ela é baixa, magra, tem 17 anos, e estava vestindo uma roupa azul escuro."
Ao ouvir as palavras de Aoshi, a mulher arregalou os olhos, e ficou encarando-o como se estivesse vendo um fantasma. Diante da repentina falta de voz da mulher, Aoshi tornou a insistir.
"A senhora viu alguma jovem com essa descrição por aqui?"
"Por favor, o senhor desculpe minha indelicadeza... Mas por acaso seu nome é Aoshi?"
Aoshi sentiu o coração dar um salto. Estava no lugar certo.
"Sim, eu me chamo Aoshi. Shinomori Aoshi."
Estranhamente, os olhos da mulher se encheram de lágrimas. Neste momento o jovem teve a sensação de que alguma coisa estava errada.
"Então o senhor veio afinal! Não era apenas um delírio da febre! Oh, o senhor não imagina, ela chamou seu nome até o último minuto, falando coisas sem sentido sobre perdão, arrependimento e amor..."
O coração de Aoshi que há um instante atrás estava batendo acelerado, agora pareceu perder um compasso. O que esta mulher estava dizendo?
"Pode ser mais clara, por favor? A senhora conhece Misao? Esteve com ela?"
A mulher suspirou fundo, como que tentando afastar as lágrimas.
"Sim, sim... Ela esteve conosco... por favor, me acompanhe."
Caminhou em direção à porta, que levava ao corredor. Aoshi foi logo atrás dela.
"A menina apareceu aqui há vários dias. Pediu um lugar para ficar. Inicialmente achei que ela estivesse enganada, não somos uma hospedaria, como o senhor pode perceber. Mas ela me disse que não havia se enganado. Falou que nenhum outro lugar a aceitaria, principalmente quando percebessem sua... Doença..."
"Doença?" Repetiu Aoshi, incrédulo. Aquilo tudo lhe parecia irreal demais. Parecia que aquela velha mulher estava lhe falando sobre outra pessoa, não sobre Misao.
"Tuberculose. Era realmente visível. A pobre garota era pele e ossos. A princípio eu não quis deixá-la ficar, essa doença é muito contagiosa, e eu não queria que eu e minhas meninas ficássemos expostas... Mas algo nela me deu muita pena... Ela estava tão magrinha, e parecia tão cansada e infeliz, que eu lhe aluguei um quarto. Ela tinha dinheiro. A pobrezinha passava os dias deitada, nós lhe trazíamos comida, que ela mal tocava. Nos poucos momentos que conversei com ela, antes que começasse a ter muita febre, ela me disse que estava fugindo de casa. Disse que tinha família e amigos em Kyoto, mas que não tinha mais vontade de voltar para lá. Ela parecia ter perdido a vontade de viver, se é que o senhor me permite dizer o que penso... Essa doença com certeza é traiçoeira, mas a menina não parecia preocupada em ficar boa, ou em voltar para casa, para que cuidassem dela... Então, a três dias atrás, começou a febre. Nós até chamamos um médico, ele fez o que pode, mas a febre não cedeu. Ela já estava delirando, chamava seu nome, Shinomori-san, dizia-se arrependida... Dizia... Que o amava..."
Pararam diante a última porta do corredor. A senhora olhou para Aoshi intensamente.
"Eu sinto muito Shinomori-san. O senhor chegou tarde demais... Se tivesse vindo algumas horas atrás..." falou baixinho, com a voz embargada, abrindo a porta "Ainda a encontraria com vida."
Aoshi entrou no quarto devagar. Não podia acreditar no que tinha ouvido... Não podia acreditar no que seus olhos estavam vendo. Deitada sobre o futon, coberta dos pés a cabeça por um véu transparente, estava Misao.
Morta.
"Eu estava justamente indo providenciar um funeral, quando o senhor chegou... Mas vou deixar esta decisão a seu critério..."
"Por favor, eu gostaria de um minuto... A sós..." falou Aoshi em voz baixa.
A mulher saiu do quarto em silêncio. Apesar do rosto inexpressivo, ela podia imaginar que aquele rapaz estava sentindo muita dor... A dor da perda...
Aoshi esperou ela se afastar, e se aproximou do futon... Seu peito doía, uma dor maior do que qualquer outra que ele já havia sentido antes... Pensamentos desconexos passavam por sua cabeça... Lembranças de Misao quando criança, cenas de lutas, sua volta ao Aioya... Misao, sempre presente... O dia que ela partiu...
Sentou-se no chão, ao seu lado, e ergueu o véu que cobria seu rosto. Ali estava sua Misao. O rosto estava pálido, tinha olheira profundas... Como o espião dissera, seu cabelo estava curto agora... Aparentemente ela mesma o cortara. Os ossos do rosto estavam salientes, e ela parecia muito magra... E agora...
Morta.
Aoshi pegou sua mão fria e delicada entre as suas, e encostou de leve os lábios em seus dedos.
"Me perdoe Misao por ter chegado tão tarde..."
Vcs devem estar pensando: Tá, e cadê a volta no tempo? XD
Bom, o capítulo tava ficando grande demais, por isso ele só vai voltar no tempo no próximo! Que eu espero postar essa semana ainda! Vai ser mais fácil de fazer... Não gostei desse capítulo... Sou péssima descrevendo cenas tristes...
