CAPÍTULO 12

Ataque na semi-escuridão

– Onde será que ele está, Harry? – sussurrou Hermione, que sentia o corpo tremer. – Eu estou com muito medo.

Harry não conseguiu articular nenhuma palavra. A escuridão era parcial, mas não se via nada muito além. E, no escuro, muitas surpresas desagradáveis poderiam ocorrer.

Rony encolhia-se o mais que podia. O suor pingava sobre sua testa e sua respiração era ofegante.

A tensão era imensa...

– AI! – berrou Harry, de repente, caindo no chão.

Rony e Hermione olharam para o amigo. Puderam distinguir uma lança enfiada na barriga do garoto. Com o pavor dominando cada parte do seu corpo, Rony levantou os olhos para a armadura. Alguém começava a tira-la. Só podia ser Michael Evans.

Hermione ainda estava debruçada sobre Harry, que urrava de dor. A região da barriga de Harry já estava úmida de sangue, e este começava a escorrer com mais intensidade a cada segundo, manchando-lhe as vestes.

Rony também se abaixou e começou a levantar Harry.

– O que iremos fazer? – perguntou Hermione, enquanto uma lágrima rolava pelo seu rosto. – E... como ele feriu o Harry?

– Hermione, não temos tempo para ficarmos parados aqui dando explicações – pediu Rony. – Olhe às suas costas.

Mione virou-se e viu a armadura que se movimentava. Com dificuldade, a pessoa que estava por dentro tirou a parte de cima e Mione pôde ver a sua cabeça.

O rosto estava coberto com uma máscara, que ela sabia que era usada nos carnavais de Veneza. Talvez fosse devido ao pânico, mas ela nunca tinha reparado o quanto assustadoras eram aquelas máscaras.

– Hermione me ajude! – pediu Rony.

Hermione, muito aflita, com os olhos grudados naquela máscara, aproximou-se do amigo. Só então virou a cabeça e pegou os pés de Harry, enquanto Rony o segurava pelos braços.

– Ele vai nos matar, Rony – chorava a garota. – Está quase tirando a armadura.

– A única coisa que temos que fazer é tirar o Harry daqui! – exclamou Rony, apavorado, olhando do amigo ensangüentado para Michael. – Nossos enigmas não batem com essa situação. Ele está aqui para matar o Harry.

– Então vamos logo – falou Hermione, e os dois começaram a andar com dificuldade.

Harry ainda gritava. Nunca havia sentido uma dor desse jeito. Sentia sua barriga ser rasgada e a ponta afiada e fria da lança dentro de sua carne. Sentia a morte chegando.

Rony olhou novamente na direção da armadura. Michael já a retirara por completo.

– Não! – berrou o garoto. – Hermione... Ele!

Com um esforço enorme, os dois tentavam correr o máximo que podiam, mas era em vão. Com Harry nos braços, não avançavam quase nada.

Hermione, de costas para o lado da armadura, arriscou-se a uma olhada. Michael se aproximava, a máscara medonha olhando fixamente para a direção de Harry.

– Ele vem muito rápido – murmurou Rony.

– Rony, pelo amor de Deus – implorou Hermione, olhando para trás e depois para o amigo. – Socorro, ele está chegando.

Michael se aproximou, empurrou Hermione, fazendo com que o corpo ferido de Harry despencasse no chão. Chegou até Rony, que ainda segurava Harry pelos braços, e deu um soco no garoto, que fez com que Rony caísse para trás e largasse o amigo.

Michael, sem dó nem piedade, retirou a lança da barriga de Harry de uma só vez. Harry gritou ainda mais. Harry, quase perdendo os sentidos de tanta dor, olhou para a máscara e a roupa preta de Michael.

Harry sentiu que ia morrer. A lança estava nas mãos do assassino, a ponta agora umidecida de vermelho, pronta a desferir um novo golpe.

Michael preparou-se para dar o golpe, segurando a lança com as duas mãos, e, na hora que ia abaixa-la na altura do peito de Harry foi arremessado para o lado por causa de Rony que, com o nariz ensangüentado, arremessou-se com toda a força que conseguiu acumular naquele momento.

A lança voou das mãos de Michael, caindo com estrépito perto de Hermione.

Rony estava em cima de Michael, e tentava, de todas as formas, retirar a máscara que cobria o rosto do criminoso.

– Eu vou descobrir quem é você, seu doido! – ralhou Rony. – Você vai mofar na prisão, seu cretino!

Michael conseguiu soltar os braços e empurrou Rony para longe. Levantou-se rapidamente e procurou na semi-escuridão por sua lança. Procurou-a, atento aos movimentos de Rony, que começava a se levantar. Olhou para Harry, cujo sangue parecia sair sem parar, e depois para Hermione. E encontrou a lança, mas esta estava segura nas mãos trêmulas de Hermione e apontada em sua direção.

– Nem... pense em se... mexer! – falou a garota, cuja voz era quase um sussurro.

Michael olhava para a lança. A tensão pairava no ar. Sentiu um movimento às suas costas e virou-se no momento que Rony vinha em sua direção para empurra-lo para a lança. Michael desviou-se rapidamente para o lado e, conseqüentemente, Rony caiu em cima da lança, que perfurou o seu ombro.

– Rony, não! – gritou Mione, largando a lança no mesmo momento, fazendo com que o amigo caísse com a arma atravessada no corpo.

Hermione foi acudir o garoto, se esquecendo completamente da presença de Michael. Quando levantou os olhos marejados de lágrimas, para ver como Harry estava, Hermione percebeu que o assassino havia ido embora.

Os archotes acenderam novamente. A claridade ofuscou os olhos da garota. Enxugando os olhos, Hermione viu que, na claridade, a cena se tornava ainda mais brutal do que na semi-escuridão.

A garota levantou-se do chão gelado, e segurou os corpos dos amigos pelos braços.

– Vamos, temos que ir buscar ajuda – disse Mione. – Antes que seja tarde.

Mal terminou a frase e escutou passos vindo pelo corredor. Hermione não conseguiu conter o grito de pânico:

– NÃO! PELO AMOR DE DEUS! NOS DEIXE EM PAZ!

– O que está acontecendo?

Hermione se tranqüilizou ao ouvir aquela voz. A Professora Minerva McGonagall acabava de chegar. Ao seu redor, cerca de doze alunos curiosos.

– Professora – começou Hermione em súplica. – Nos ajude.

– Meu Deus! Mas o que...? Ah desculpe-me, não é o momento para perguntas. Eles estão perdendo muito sangue. Devem ir para a enfermaria com urgência.

E, pela segunda vez naquele dia, Hermione via duas macas sendo conjuradas. Os corpos levitaram até elas, que, ao comando da professora, saíram rapidamente em grande velocidade.

A Professora Minerva continuava a olhar o chão manchado de vermelho. Os alunos mais corajosos também olhavam, com os olhos arregalados, a marca da carnificina.

– Bem, mocinha – começou a professora, depois do instante de hesitação – queira me acompanhar. O Professor Dumbledore precisa saber tudo o que aconteceu aqui.

Hermione, ainda em estado de choque e com as lágrimas saltando, andou até a professora. Quando se aproximava, um dos alunos gritou:

– Olha! O que é aquele M.E.?

Hermione virou a cabeça. Na parede, ao lado da armadura caída onde Michael se escondera, haviam as duas letras escritas em sangue. Abaixo, um círculo, também feito em sangue, com um X no meio e com figuras mal feitas ao redor.


Úrsula estava saindo do Salão Principal quando viu uma estranha movimentação de alunos aos cochichos.

– Olá, Hubbard! – cumprimentou Draco.

– Eu já disse que temos que ser discretos! – ralhou Úrsula, falando pelo canto da boca e disfarçando. – Vamos até o jardim.

Úrsula saiu primeiro, atenta. Depois foi a vez de Draco, também alheio às pessoas ao redor. Quando chegou no jardim, encontrou Úrsula num canto escuro.

– Já sabe da última? – perguntou Malfoy, rindo.

– Não... O que houve?

– O Potter e o Weasley foram atacados agora há pouco – zombou ele. – Ah, ah...

Malfoy parou de rir ao ver que o rosto de Úrsula ficou pálido, tão pálido que ele pôde enxergar bem, mesmo na escuridão.

Draco se sobressaltou com o aperto da menina, que segurou seu ombro com força, a voz tremendo:

– O Rony foi ferido? – murmurou ela. – O Rony?

– Ah, claro, desculpe, eu esqueci que você é apaixonada pelo pobre Wealsey! – falou Draco com desprezo.

– Ele está bem? Diga! Como ele está?

– Calma garota! Ele está bem. Só foi ferido no ombro.

– Só? Coitado... Deve estar sofrendo tanto...

Draco a observou por um momento. A voz da garota exprimia sinais de loucura, de um amor doentio, obsessivo.

– Mas... ele vai ficar bom, não vai?

– Claro que vai! Madame Pomfrey fará uns bons curativos.

Úrsula suspirou de alívio.

– Quem se ferrou mesmo foi o Potter – falou Draco, dando uma gargalhada. – Levou um golpe de lança bem na barriga.

– E a Granger? Ela morreu? Diga que sim! Diga!

Úrsula olhava Draco com o coração aos pulos.

– Não, sinto muito lhe informar isso – falou Draco. – Aliás, ela foi a única sem ferimento algum.

De repente, a expressão da garota mudou novamente. Agora, ela estava sorrindo, mas da forma cruel que Draco já conhecia.

– Ela não teve nenhum ferimento? – disse com voz sinistra.

– Nenhum – confirmou o garoto, erguendo as sobrancelhas. – Mas pensei que você odiaria isso!

– Não, querido Malfoy – sibilou ela. – Isso vem em meu favor. Se meus próximos planos não derem certo, irei usar um de ouro... E o fato dela não ter ferimento vai me ajudar muito! Muito mesmo!

A risada fria de Úrsula provocou um calafrio em Malfoy, fazendo o garoto ter um ligeiro arrepio de medo.


Hermione acabara de adentrar a sala do Professor Dumbledore. Os quadros nas paredes a olhavam, curiosos. O diretor estava sentado diante de sua mesa. A professora Minerva empurrou Mione para a sua frente e falou ao diretor:

– Houve mais uma morte – disse a professora, sem olhar nos olhos do diretor. – Digo... Não foi uma morte, ainda, mas... Acredito que uma das vítimas... Não vai resistir.

– E quem foi, Minerva? Algum dos nossos?

– Não dessa vez não foi nenhum professor... Foi um aluno, e lamento dizer que esse aluno, Alvo, era o Harry Potter.

Mione pôde notar o estremecimento que percorreu o corpo do diretor. Porém, como se não quisesse demonstrar, ele manteve a expressão séria e finalmente a olhou.

– E você, Srta. Granger?

Hermione não encontrou forças para responder. Minerva, vendo que o estado de choque ainda dominava a jovem, respondeu por ela:

– Ela é amiga do Potter e do Weasley, o outro ferido, mas que, graças a Deus, foi ferido somente no ombro. Ela estava com eles na hora do atentado e foi a única que não foi ferida.

Dumbledore virou-se novamente para a menina:

– Então... Eu sei que deve ter sido muito difícil pra você tudo o que ocorreu, mas... Preciso que converse francamente comigo.

Finalmente, Mione criou coragem e olhou o diretor, que tinha os olhos cintilando atrás dos óculos de meia-lua, dando forças para que ela falasse tudo o que sabia. Tinha plena confiança no grandioso bruxo que estava em sua frente.

– Eu acho que não tenho mais o que fazer aqui – falou a professora, com simplicidade, ao ver que Hermione iria começar a relatar o que ocorrera. – Com licença.

Hermione aguardou ouvir a porta se fechando. Aí, começou a contar tudo o que aconteceu depois que ela, Harry e Rony saíram da sala comunal. Porém, tomou a máxima cautela para que nunca tocasse no nome de Michael Evans, tratando o assassino com palavras como "criminoso". Também não contou que ela segurava a lança que ferira Rony.

Ao fim, Hermione já estava com os olhos molhados novamente e o corpo tremendo da cabeça aos pés.

– E isso foi tudo – finalizou entre soluços.

Dumbledore a observou atentamente durante alguns minutos.

– Por que acha que a pessoa que tentou matar seus amigos não lhe machucou?

Hermione pensou antes de responder. Não tinha certeza se devia contar ao diretor o que ela e seus amigos sabiam sobre Michael Evans. Por outro lado, não era necessário falar tudo... O diretor sabia da lista negra enviada por Michael, ele mesmo lera para as prováveis vítimas...

– Bom... – hesitou por um momento. – O senhor sabe da lista que o assassino escreveu, não sabe?

O diretor confirmou com a cabeça.

– Acho que ele quer seguir tudo o que escreveu ali. Acredito que ele queria realmente apenas matar o Harry, não o Rony.

– E como o Weasley foi ferido? Você me disse que o assassino feriu Rony com a lança...

– Não, não foi ele que machucou o Rony... Foi um acidente – murmurou Hermione. – Foi tudo minha culpa, na verdade...

– Como assim?

– Eu tinha pegado a lança do chão para ameaçar o assassino, para que ele deixasse o Harry em paz, mas... Quando Rony ia empurrá-lo para a lança, ele desviou e ela feriu o Rony.

– Então vocês tentaram matar o assassino?

– Precisávamos feri-lo pelo menos, para descobrirmos quem era e para salvar o Harry também... Professor, eu e meus amigos estamos ameaçados!

– Entendo, eu entendo – disse Dumbledore com a voz calma. – Para sobrevivermos somos capazes de tudo. O ser humano tem um senso de sobrevivência natural.

– Desculpe por não ter lhe contado antes sobre essa história da lança... Tive medo.

– Não, tudo bem... Fique tranqüila. Sei como está se sentindo.

Os dois ficaram se olhando por alguns momentos. Mione esboçou um sorriso para o diretor.

– Pode ir, Srta. Granger – despediu-se o diretor. – Que tal você ir dar uma olhada em como estão os seus amigos?

– Obrigado por me ouvir – falou a garota. – Mas, por favor... Não comente com ninguém o que aconteceu. Já estou me sentindo péssima por estar segurando a lança na hora em que ela feriu o Rony...

– Pode deixar, não contarei para ninguém. Mas não se sinta culpada pelo ferimento de seu amigo. Foi um acidente. Ele sabe disso.

Hermione sorriu e saiu da sala do diretor. Ao sair, correu desesperadamente até a ala hospitalar, sem nem olhar para os lados.

Quando chegou na ala hospitalar, ia entrando quando foi barrada por Madame Pomfrey.

– Por favor, eu preciso falar com os meus amigos...

– Os garotos feridos? Ah, querida, eu sinto muito, mas você poderá falar apenas com um deles... Somente com o garoto ruivo.

– Mas... e o outro? – perguntou Mione, se apavorando. – O que aconteceu com o outro garoto? O Harry?

Madame Pomfrey deu um longo suspiro e baixou os olhos.

– Por favor, Madame Pomfrey... Diga-me! O que aconteceu com Harry? O que? O que?