* 2 *
Pela manhã Legolas acordou sentindo o calor do sol em seu rosto. Uma brisa suave sacudia levemente as folhas dos galhos acima do flat, permitindo que feixes da luz do sol oscilassem por sobre o tablado e adicionassem um toque de poesia naquele lugar que ele agora chamava de casa. Apoiando-se em um dos cotovelos o rapaz ergueu parte do corpo para verificar o que ocorria a sua volta. Tudo parecia realmente calmo como nunca fora. Ele mesmo, apesar dos ferimentos, estava se sentindo muito melhor.
Elrond não estava mais no flat. Provavelmente descera em busca de água ou suprimentos. Cenas do dia anterior foram povoando sua mente enquanto ele tentava se sentar,. De repente uma fisgada o fez voltar a posição inicial. O corte ainda estava aberto e o movimento brusco e inconsciente do príncipe fizera com que ele voltasse a sangrar. O jovem elfo franziu a testa observando a mancha que se formava por cima do curativo improvisado por seu curador e soltou um longo suspiro. Isso era realmente a última coisa que podia acontecer no momento. Como ele poderia agora convencer o amigo a deixá-lo ali? Um gemido escapou-lhe dos lábios quando ele impacientemente deixou-se cair de costas no tablado, inconformado com a situação em que estava. O mundo deu uma volta completa acima dele e sua visão se embaçou levemente. A dor o surpreendera e todo o sentimento de paz que ele sentira quando tinha acordado estava desaparecendo, sendo substituído por uma grande inquietação. Legolas suspirou fundo e puxou a túnica. Talvez Elrond não olhasse novamente para o ferimento. "É... e talvez não anoiteça hoje..." ele completou seu pensamento incrédulo.
Legolas respirou fundo três vezes e procurou se acalmar. Estava tentando se erguer novamente quando sentiu uma mão em seu peito impedindo-o de prosseguir. Ele nunca deixava de se surpreender com a sutileza dos movimentos de Elrond que já estava próximo dele. Realmente ele era a pessoa certa para se ter como amigo e nunca o contrário.
Ao olhar para o curador o jovem lembrou-se de todos os últimos momentos da noite anterior sentindo seu rosto queimar. Tantos anos ele já tinha vivido e ainda se sentia uma criança tola perto do Mestre.
Elrond sentou-se a seu lado e ergueu-lhe a cabeça oferecendo-lhe um pouco de água. Legolas recusou de forma cortes, pois sabia que o amigo só encontraria mais água fresca a quilômetros dali e eles deviam poupar a pouca que tinham. O outro elfo não alterou sua posição e o rapaz logo percebeu que não se tratava de um oferecimento e sim uma ordem. Ele sentia sede, isso era um fato, e só o oscilar daquela água fresca o entontecia de desejo.
"Beba em goles pequenos" instruiu o curador pressionando levemente o bocal do cantil nos lábios do rapaz. Legolas obedeceu e agradeceu em seguida tentando novamente se erguer sobre um dos cotovelos e sendo mais uma vez impedido por Elrond.
"Deixe-me primeiro trocar seu curativo" disse ele num tom amável "Eu não quis acordá-lo a pouco para fazê-lo".
O jovem estremeceu deixando uma das mãos cobrir a mancha vermelha instintivamente, mas, como ele bem sabia, isso não foi empecilho para o amigo que já segurava as ervas que precisava. Porém as feições do lorde elfo não se alteraram ao constatarem o estado do ferimento do rapaz. Ele apenas repetiu o mesmo procedimento do dia anterior e voltou a embalar a ferida.
"Sua cicatrização está demorando mais do que deveria estar, meu jovem amigo." A voz do sábio elfo transmitia uma certa preocupação. "O peso de seu coração já está se refletindo na sua capacidade de recuperação".Ele atestou por fim, depois de uma longa pausa.
Legolas mordeu levemente o lábio inferior enquanto administrava a própria dor e as palavras do mestre. Ele sabia bem aonde Elrond queria chegar com essa afirmação e era exatamente aonde ele menos queria estar no momento: envolto numa situação que o obrigaria a contar sua história desde o principio até o dia derradeiro.
O mestre elfo por sua vez limitou-se a desembrulhar um grande pedaço de lembas que trouxera de Lothlorien e que havia conseguido salvar junto com o cantil de água que estavam próximos ao corpo de seu pobre animal, cruelmente abatido na batalha da véspera. Ele quebrou um pedaço e o colocou numa das mãos do amigo. O rapaz quis recusar, mas ele insistiu. Elrond ergueu-lhe o tronco devagar apoiando as costas do amigo contra seu peito para que ele pudesse comer.
"Você precisa recuperar as energias, jovem príncipe. Thranduil não me perdoaria se achasse que eu o deixei sem cuidados".
Ouvir aquele nome fez com que o corpo de Legolas estremecesse por completo. A última visão do pai que ele tinha na memória não era nem de perto a de alguém que se preocuparia com sua saúde.
Legolas deixou as mãos caírem por sobre o colo sem tocar no alimento. Fez-se um silêncio profundo no lugar. Elrond acariciou suavemente o antebraço do rapaz para despertar-lhe de seus pensamentos. Ele esperava que o amigo estivesse agora disposto a contar sua história.
Mas estava enganado. A última coisa que o jovem elfo queria naquele momento era falar do que tinha acontecido, muito pelo contrário. O que ele buscava desesperadamente era uma alternativa, uma saída que o ajudasse a, quem sabe, desfazer todos os seus deslizes anteriores. Ele se amaldiçoava por sua fraqueza da véspera, por ter sido ferido, por ter chorado, por deixar que Elrond pensasse que ele necessitava de ajuda.
Ele precisava pensar depressa.
Desencostando-se do curador e tentando ignorar a dor, Legolas moveu o corpo devagar para que eles ficassem frente a frente. Usando de toda a sua força de vontade ele encarou os olhos pacientes, porém preocupados do amigo. Um milhão de palavras, histórias fantásticas e idéias alucinadas passaram pela sua mente enquanto ele tentava arquitetar uma mentira que fosse agora convincente o bastante. Mas os olhos do sábio elfo pareciam acompanhar seus pensamentos como se os conhecesse a todos. Legolas sentiu sua respiração acelerar-se involuntariamente e seu coração pulsando a uma velocidade incrível.
"Como estão Elrohir, Elladan e Estel?" Ele deixou a pergunta escapar de seus lábios num suspiro. Precisava de mais tempo para pensar.
Os cantos dos lábios de Elrond se ergueram num leve sorriso, que Legolas não conseguiu saber se estava associado à lembrança dos filhos ou se refletia que o sábio elfo sabia exatamente o que o rapaz tentava fazer.
"Os gêmeos continuam suas patrulhas, precisando agora ir cada vez para mais longe, infelizmente". Iniciou o curador erguendo os olhos para admirar o céu. Legolas percebia que por trás deles havia uma grande tristeza. A cada dia os elfos tinham menos tempo para admirar as coisas belas, pois o perdiam caçando orcs e defendendo seus territórios de toda maldade que os espreitava. "Estel ainda auxilia os cavaleiros do norte. Há muito tempo não o vejo. Muito mesmo. Por esse motivo estou voltando para casa. Estava em Lothlorien visitando Arwen quando recebi um aviso de que ele viria passar alguns dias em casa novamente. Não imaginava encontrar um grupo de orcs nessa parte da floresta que sempre fora tão calma".
"Estel está em Rivendell?" Indagou Legolas com um sorriso. As recordações do amigo eram as melhores memórias que ele tinha.
Elrond alegrou-se com a mudança na expressão do rapaz. A amizade dos dois era um dos grandes prazeres do mestre elfo.
"Pelo que pude entender da mensagem que recebi, ele chegaria ontem à tarde".
A mente de Legolas caminhava a mil. Ele sentia uma saudade incrível do companheiro e só a possibilidade de poder revê-lo já enchia seu coração de alegria. Os risos e as aventuras que compartilhavam quando mais jovens foram momentos inestimáveis na vida de ambos e fortaleceram uma amizade que todos, até mesmo seu pai, julgavam impossível em Mirkwood. Estel era mais que um irmão para Legolas. Era alguém a quem ele confiaria sua alma e por quem daria a vida sem hesitar.
"Vamos certamente encontrá-lo esperando-nos quando chegarmos em Rivendell". Completou Elrond tocando a mão na qual Legolas segurava ainda intacto o pedaço de Lembas. "Coma para que possamos partir. Você quer que eu separe algumas coisas que precisa levar?"
E a imagem feliz se desfez em poeira na mente do jovem elfo. Seu rosto se entristeceu mais profundamente do que antes. Tão envolvido estava com suas próprias recordações e esperanças que havia se esquecido da realidade amarga dos dias atuais. Baixando a cabeça ele soltou um suspiro amargo como quem desperta de um sonho bom.
Elrond segurou-lhe as mãos nas suas percebendo a mudança no rapaz, mas ele não ergueu o olhar. Colocando então dois dedos abaixo do queixo dele, o curador conduziu-o de modo suave a olhá-lo nos olhos novamente. Já passava da hora dele saber o que havia acontecido e até para um elfo a paciência chega a seus limites.
"Você parece ter uma história longa e triste para me contar, filho". Foram as palavras de incentivo que ele pode oferecer para mostrar ao príncipe que era chegada a hora dos esclarecimentos.
Legolas sentiu o coração apertar e passou a se odiar ainda mais ao perceber o quanto estava próximo de ter uma crise de choro novamente. Elrond moveu-se um pouco mais adiante e lhe segurou os ombros com as mãos. Legolas não desviava mais seu olhar dos do amigo como se estivessem presos por um feitiço. Ele devia contar a verdade, era o que aqueles olhos acinzentados lhe diziam, e parecia que essa era a saída que ele tanto buscava: contar a verdade fosse ela o quão dura fosse, ferisse a quem ferisse. A verdade devia ser soberana.
"Sou um exilado, meu senhor". Declarou ele amargamente. "Fui banido de meu reino e estou proibido de entrar em Mirkwood ou em qualquer outra cidade élfica".
Ele respirou fundo como se sentisse aliviado com a declaração.
"Por isso tenho que insistir que o senhor aceite meu cavalo e proceda como lhe pedi ontem". Finalizou o jovem recobrando seu orgulho e tentando afastar a fraqueza que sentia em seu espírito.
As sobrancelhas de Elrond formaram um profundo V e ele pendeu a cabeça para o lado como quem tenta entender. "Exilado?" Repetiu num reflexo. "Seu pai o exilou de seu reino?"
O silêncio do amigo foi a confirmação de que ele havia entendido bem o que lhe fora declarado. Mas Elrond não conseguia conceber tamanho absurdo. Era bem sabido que Thranduil sempre fora o mais exigente e austero dos elfos, e que seu filho era a vítima maior de seu radicalismo e perfeccionismo. O pobre rapaz parecia uma estátua em frente ao pai, dirigindo-lhe a palavra poucas vezes e nunca questionando suas decisões. Mas o rei sempre demonstrou, a sua própria maneira, que Legolas era a pessoa mais importante que ele tinha em sua vida.
Além de tudo Legolas era o elfo mais justo e responsável que Elrond conhecia. Várias vezes ele se surpreendeu invejando inconscientemente Thranduil pelo filho que tinha. Os gêmeos e Estel eram seu orgulho e sua vida, mas a altivez e a seriedade de Legolas para com tudo o que estava a sua volta eram qualidades raras para alguém tão jovem.
O mestre elfo sacudiu a cabeça intrigado. Legolas permanecia imóvel olhando o pedaço de pão em sua mão com respeito. Ainda não o havia provado e não parecia ter intenção de fazê-lo.
"Não recebi notícia de seu banimento em Rivendell." Elrond declarou.
"E não vai receber, meu senhor". Legolas respondeu tristemente. "Foi um pedido que fiz ao rei quando prometi acatar suas ordens e me refugiar na floresta".
Elrond não sentia seu espírito tão impaciente há séculos. Aquele mistério todo o estava exaurindo até as últimas forças. Ele segurou o rosto de Legolas subitamente com as duas mãos e o fez encará-lo novamente.
"E o que alguém como você, criança, pode ter feito de tão grave para seu pai? Diga-me para que eu possa encontrar um pouco de nexo em toda essa insensatez!".
Legolas não respondeu. Era a segunda vez que Elrond o chamava de criança e era exatamente como ele estava se sentindo naquele momento. Ele não estava mais numa idade que propiciasse tal tratamento, mas ele gostava de ouvir Elrond chamá-lo assim, pois era como o lorde elfo tratava seus filhos e, ouvi-lo dirigir-se a ele da mesma forma, fazia com que se sentisse importante para aquele nobre elfo a quem ele muito admirava. No fundo Legolas temia que, ao contar sua história, esse respeito entre eles desaparecesse.
Elrond não moveu suas mãos do rosto do príncipe e nem tirou seus olhos dele. Mais do que nunca ele esperava por uma resposta e Legolas sabia disso. Seus olhos encheram-se novamente de lágrimas, pois ele percebeu que não havia como escapar do relato doloroso dos últimos acontecimentos. Ele não queria chorar. Estava usando de todas as suas forças para conter-se, mas o cenário todo a sua volta de repente parecia parado, como se a vida toda estivesse esperando uma atitude dele e ele não tivesse forças para isso.
"Peço misericórdia, meu senhor".Implorou o príncipe sem desviar os olhos que haviam se transformado em duas poças claras. "Não me obrigue a contar-lhe".
O coração de Elrond apertou-se tanto em seu peito que parecia doer. De repente ele sentiu um desejo enorme de simplesmente tomar aquele rapaz nos braços e o levar para casa sem mais questionamentos. Que importava o que ele tivesse feito. Ele o amava como a um filho e não havia nada que pudesse mudar isso.
"Apenas me diga, menino. Você se julga culpado da acusação que sofreu?"
"Não posso julgar as decisões do rei Thranduil, Lorde Elrond."
A resposta quase automática do rapaz indignou ainda mais o curador. A devoção de Legolas para com o pai era tocante e uma prova ainda maior de que ele era incapaz de um ato digno de tal punição. O que doía mais no coração de Elrond era o fato de Legolas chamar Thranduil pelo título ao invés de pai.
"Legolas" Elrond impacientou-se. "Eu é que agora peço sua misericórdia. Pois meu coração sofre e só será aliviado desse peso quando eu souber a verdade exatamente como ela é. Eu sei que vai fazê-lo sofrer contar-me, mas é justo que me seja dado o direito de analisar a questão e desenvolver meu próprio julgamento sobre a mesma".
Ao dizer isso Elrond libertou o rosto do rapaz da força de suas mãos, fazendo-as deslizar suavemente pelos ombros e pelos braços do rapaz até alcançarem as mãos do príncipe e segurá-las novamente com firmeza. As mãos de Elrond tinham o poder de cura e ao fazer esse movimento o mestre elfo tinha a intenção de transmitir ao rapaz a confiança que ele precisava naquele momento.
Legolas tomou fôlego e segurou as lágrimas. *Falar... Era apenas isso...* Ele pensou *Falar... Deixar as palavras fazerem seu papel maligno ou benigno... Esquecer o medo*
"Um dia, em uma patrulha, encontramos um grupo..." o rapaz hesitou por alguns instantes.
"Um grupo?" Indagou Elrond.
"Um grupo de humanos." Respondeu o rapaz engolindo a saliva com dificuldade.
"Sim?" Incentivou o outro.
"Haviam enfrentado um ataque feroz e um deles estava muito ferido... então eu os levei para o palácio, para que recebessem tratamento".Legolas desviou o olhar, mas Elrond apertou suas mãos suavemente e ele voltou a encará-lo. "Meu pa..., o Rei Thranduil, não gostou da idéia, mas eu insisti, pois eles precisavam de ajuda. Ele relutou, mas aceitou... Pode não parecer, meu senhor, mas ele tem um bom coração".
*Realmente não é a impressão que ele passa* pensou Elrond. Doía ver Legolas tentando preservar a imagem do pai apesar da situação em que se encontrava no momento dever-se exatamente a uma atitude dele.
"Eu sei".Declarou Elrond ignorando seus sentimentos. "Continue, filho."
"Eles ficaram no palácio... Receberam tratamento e estavam se recuperando..." Legolas parou subitamente como se tivesse atingido o ponto crítico da história e não conseguisse continuar. Respirou fundo de novo, mas simplesmente não encontrava as palavras em seu coração.
Elrond voltou a apertar-lhe as mãos levemente.
"Fale, meu amigo. Vai se sentir melhor depois".
O jovem balançou a cabeça em sinal positivo. Ele estava tentando. Estava tentando com todas as suas forças continuar.
"Mas eles traíram a nossa confiança, tentaram roubar o palácio e..." sua voz enfraqueceu "e mataram dois de nossos criados covardemente".
Elrond fechou os olhos, amargurado. Aquela história era mais triste do que ele julgava ser.
"Mas certamente seu pai não atribuiu a culpa a você por isso".Sugeriu o mestre.
Uma lágrima deslizou pelo rosto do jovem elfo enquanto ele tentava conter suas emoções.
"Não".Disse ele por fim. "Mas ficamos muito tristes, pois aqueles criados eram nossos amigos desde que eu era um bebê. Eles nos conheciam tão bem que poderiam oferecer-nos água sem que sequer nos déssemos conta de que tínhamos sede".
Outras lágrimas começaram a cair pelo rosto do príncipe. Ele tentou soltar as mãos das de Elrond para detê-las, mas o curador segurou-as mais firmemente.
"Deixe-as cair, filho".Ele pediu "Vão te ajudar a deixar esse mal sair de seu coração".
Mas o ar de Legolas parecia não compartilhar da opinião de seu mestre.
"E o que aconteceu aos homens?" Indagou Elrond tentando voltar ao relato.
"Foram presos nas masmorras".
"E depois?".
"Eu os libertei e eles fugiram".
O rosto de Elrond perdeu subitamente a cor. Ele esperava tudo menos aquela confissão. Seus olhos intrigados exigiam de Legolas uma explicação imediata para aquilo.
"Eles eram pobres, meu senhor".Havia um desespero na voz dele agora. "Vislumbraram-se com o palácio. Roubaram comida e roupas e mataram os criados para se defenderem. Iam ser mortos... Havia apenas um homem com forças para lutar, os demais eram velhos, mulheres e crianças. O rei tinha ordenado a execução de todos... Eu podia ter libertado os outros e ter mantido o homem que havia matado meus amigos... mas ele era o único capaz de proteger o grupo... Eles imploraram por piedade..."
Num súbito movimento Legolas, libertando suas mãos, as levou até o rosto cobrindo-o como se estivesse envergonhado.
"Eu sabia o que estava fazendo" ele continuou entre soluços. "Eu mereço o castigo por ter traído meu povo... Meu pa... O rei disse que alguém como eu nunca poderia governar... e que não poderia ter relação nenhuma com a pessoa dele... Que eu era um fraco... incapaz de tomar uma atitude correta... que eu..."
Ele abanava a cabeça com força agora segurando o rosto nas mãos. Elrond tentou segurá-lo, mas ele afastou-se do toque colocando uma mão sobre o ferimento como se tivesse sentido uma fisgada com o movimento brusco, mas mantendo a outra sobre os olhos.
"Legolas" Elrond segurou-o quando viu que ele pretendia levantar-se. "Paz criança"
"Não, meu senhor." Retorquiu o rapaz quase gritando. "Eu não mereço seu afeto. O rei tem razão... eu sou incapaz de governar ou tomar decisões... eu sou inútil...".
"Não diga uma tolice dessas"
"O senhor não sabe da história toda..." Os olhos do rapaz agora tinham uma mistura de ira e aflição. Elrond calou-se e franziu a testa esperando pelo desfecho do relato infeliz. "Alguns de meus amigos quando souberam do meu exílio decidiram me acompanhar... Eles... eram fiéis a mim..." Legolas riu sarcasticamente, como se isso fosse uma atitude realmente estúpida para alguém cometer. "Vivíamos juntos nessas matas pensando em nosso futuro incerto. Fomos atacados, feridos... várias vezes... Não tínhamos quase suprimentos e nossas armas precisavam de reparos. Até que um dia..." Ele soltou um grande soluço e voltou a balançar a cabeça como se alguma imagem o assombrasse e ele quisesse fazê-la ir embora. Elrond não conseguia mais colocar as mãos nele sem ser repelido. "Um dia fomos feitos prisioneiros e eles, ao torturarem um dos meus, descobriram minha identidade... Vieram até mim para que eu revelasse a entrada secreta de Mirkwood que somente a família real conhece... Eu não podia dar-lhes essa informação... Então eles começaram a torturar meus amigos..." sua voz tremia agora ainda mais "na minha frente para me fazer mudar de idéia... Meus companheiros me imploraram que eu cedesse... diziam que o rei não merecia mais devoção...".
Legolas parou para respirar um pouco. Enlaçou os braços contra si mesmo como quem sente frio. Elrond queria tocá-lo, mas temia piorar o estado delicado do rapaz.
"Eu não podia..." ele repetiu "Dois deles morreram...".
"Eu sinto muito, criança." Elrond disse de coração
Legolas ergueu a cabeça e voltou a encontrar os olhos do amigo. Contrariando o que ele esperava, não viu repreensão ou ira neles, mas sim compaixão e afeto. Falar sobre o assunto não o tinha ajudado como Elrond esperava que fosse acontecer. Só havia feito que crescesse um desespero maior no coração do rapaz.
"O que houve depois?" Indagou o curador incerto se deveria insistir mais naquele relato.
Os olhos do jovem pareciam de cristal naquele momento. Um brilho estranho os dominou.
"Nós conseguimos escapar..." ele revelou num tom frio e distante, como se estivesse num transe. "Os que restaram de nós..."
"E onde estão seus amigos?"
Legolas soltou os braços como se algo lhe tivesse sido tirado e ele estivesse sem forças para lutar.
"Se foram... não me perdoaram... como o rei não me perdoou..." Ele riu um riso triste "Parece que a história se repetiu... outras mortes de inocentes por minha culpa..." Ele passou as mãos pelos cabelos nervosamente. "Foram para as terras imortais".
E assim terminava a história mais angustiante que Elrond tinha ouvido desde muito tempo. Tão sábio e poderoso que o julgavam e ele não conseguia encontrar as palavras certas para confortar o rapaz naquele momento. Hesitantemente ele ergueu uma das mãos e tocou o joelho do jovem elfo. Legolas levantou a cabeça e ofereceu-lhe o olhar mais triste que ele já tinha visto. O curador baixou os olhos e de repente percebeu que a ferida do rapaz estava ensopada de sangue. Os movimentos dele decerto a haviam aumentado.
"Está sangrando" ele declarou segurando o jovem e fazendo-o deitar-se contra a vontade. Legolas quis objetar, mas o movimento de Elrond foi tão brusco e repentino que ele não teve tempo.
Quando o curandeiro ia abrir novamente o curativo Legolas segurou-lhe as mãos. Elrond lançou-lhe um olhar inquisidor.
"Não perca tempo comigo, senhor".O rapaz explicou com uma voz fraca. Estava exausto devido a toda a experiência que revivera há pouco. "É melhor assim".
Elrond libertou as mãos, Legolas tentou impedi-lo novamente, mas sentia-se sem forças.
"Não vou deixá-lo, filho".Elrond disse firmemente. "E não ouse fazê-lo" Ele completou. Embora o tom sugerisse uma brincadeira Elrond estava falando muito sério. Temia que agora que Legolas tinha se esvaziado de toda aquela história triste, não tivesse sobrado nada de si e ele começasse a definhar e se deixasse levar pela escuridão.
"Por favor, meu senhor" Foi a resposta que recebeu.
Elrond ignorou o pedido do rapaz e muniu o ferimento com mais ervas voltando a embalá-lo. Precisava levar Legolas dali o quanto antes. Olhando por sobre o tablado ele viu que Ohtar, por sorte, estava comendo algumas folhas verde-garrafa logo abaixo. *Bom cavalo* pensou *não saia daí*. O curador jogou o manto em suas costas e depois ajudou Legolas a sentar-se. O rapaz olhou confuso para o amigo ao vê-lo também colocando seu manto em suas costas.
"Precisamos ir agora, menino. Ou não chegaremos em Rivendell antes do anoitecer. Você precisa de cuidado e de uma cama para dormir."
Legolas se desesperou ao ouvir as palavras do mestre.
"Não!" Ele gritou tentando afastar as mãos de Elrond que ainda prendiam seu manto. "O senhor não entende? Eu não posso ir a Rivendell."
"Não fui comunicado." Ele declarou calmamente.
"Por um pedido meu!"
"Que seja."
Ele não parecia ter mudado de idéia.
"Senhor, eu não posso ir... eu prometi..."
"Você não vai a Rivendell, Legolas. Você vai ser LEVADO para lá. Se seu pai me consultar eu direi que o encontrei desacordado e o trouxe para lá. Que você queria ir embora e eu não permiti."
Legolas balançava a cabeça negativamente. A idéia parecia razoável se o lugar não fosse Rivendell e se o elfo não fosse Lorde Elrond, por quem seu pai não tinha a menor afinidade.
"Ele não vai acreditar."
"Isso é um problema para ser resolvido depois. Você acha que consegue se levantar?" Elrond indagou olhando para o chão abaixo do flat. "É uma descida difícil até nosso amigo Ohtar."
O jovem elfo agitava-se confuso. Ele não conseguia dissuadir o mestre daquela loucura e não tinha forças para impedi-lo. Elrond sentiu que o pânico tomava conta do rapaz e, depositando uma mão em seu ombro, sorriu.
"Vai dar tudo certo. Confie em mim."
Legolas quis se acalmar, mas não conseguia. Estava apavorado só em se lembrar das ameaças do pai. Ele segurou o braço de Elrond com força trazendo a atenção do curador de volta para si.
"Meu pa... O rei... Ele disse que se me encontrasse em Rivendell não questionaria o porquê... Meu senhor..." havia um desespero incontrolável na voz do elfo agora. "Ele disse que se soubesse que eu estava lá... eu veria pela primeira vez uma guerra entre dois reinos élficos..."
A fisionomia de Elrond não se alterou. Ele conhecia as ameaças de Thranduil muito bem.
"Vamos torcer então para que ele não descubra." Ele riu em tom de brincadeira. Queria afastar o ar preocupado do jovem amigo.
Mas Legolas não acompanhou o humor do curador.
"Senhor... Por favor... Eu não valho o preço... Eu..."
Ao ouvir essas palavras o ar de Elrond se alterou com se ele tivesse sido apunhalado. Ele então ergueu as mãos e segurou novamente o rosto do rapaz como fizera antes.
"Escute e escute bem, meu jovem".Sua voz nunca tivera um tom tão sério "Eu tenho por você o mesmo amor que tenho por meus filhos e eles te querem como a um irmão. E por qualquer um de meus filhos eu pediria que Rivendell enfrentasse não só Mirkwood, mas a Terra Media inteira".
Elrond sentiu o corpo todo do rapaz tremer sob o seu toque e o calor deixar sua pele. Lágrimas rolaram dos olhos claros e o curador não as deixava mais seguir seu caminho enxugando-as com as pontas dos dedos.
"Eu não sou digno..." a voz do rapaz era apenas um murmúrio agora. "Muitos já morreram por minha causa... por minha estupidez."
"Eu ouvi sua história, permita-me dar-lhe minha modesta opinião. Muitos morreram devido a maldade do mundo, Legolas. E muitos outros foram poupados devido ao seu bom coração. Você não decidiu quem morreria. Mas quando pode ajudar a quem tinha uma possibilidade de viver você sacrificou tudo. Sacrificou sua relação com seu pai, sacrificou sua amizade. E agora está aqui tentando sacrificar-se novamente por outros a quem ama. Mas eu não vou permitir. Você sabe que eu posso levá-lo com ou sem seu consentimento. A única decisão que deve tomar e se pretende fazer com que minha missão seja mais fácil ou mais difícil".
Legolas soltou um grande suspiro e Elrond libertou novamente seu rosto de seu toque. Eles se olharam por alguns momentos. O jovem elfo se sentia dividido. Estava amargurado, mas novamente cheio de esperanças. Uma esperança que ele não queria ter, da qual não se julgava merecedor. Mas seu coração desejava muito voltar a Rivendell, queria sentir como era estar lá com aqueles a quem considerava sua segunda família. Era tudo o que ele queria. Mas temia pelo preço que pagaria. Ultimamente ele pagara muito caro por decisões que havia tomado.
Elrond olhou a sua volta e reparou no pedaço de lembas que ainda não tinha sido provado pelo rapaz. Legolas o havia deixado abandonado por sobre o cantil de água.
"Tenho medo" o rapaz declarou despertando o mestre de seus pensamentos.
O curador entregou-lhe novamente o pedaço de pão e sorriu.
"Coma dessa vez".Disse ele calmamente "E me deixe assegurar o destino de seus próximos dias. Eu lhe garanto que não haverá dor e sofrimento no seu caminho, meu filho. Confie em mim".
Legolas quis sorrir, mas seus olhos encheram-se novamente de lágrimas. Ele não acreditava que fosse chorar mais uma vez, estava irritado em pensar em como simplesmente tinha perdido o controle de si. Baixou a cabeça, envergonhado. Elrond ergueu-a novamente com a ponta dos dedos por sob o queixo do rapaz.
"O que houve?" Ele indagou.
"Estou me sentindo a pior das criaturas".Sua voz ainda estava muito fraca, quase inaudível até para os ouvidos élficos do lorde. "Não entendo por que o senhor insiste em levar um problema como eu para sua casa... Só tenho feito desapontar e envergonhar os que estão a minha volta".
Elrond encostou-se mais perto do amigo e puxou-o para descansar a cabeça em seu peito por alguns instantes.
"Você só desaponta e envergonha àqueles que não compreendem que o mundo precisa se preocupar com outros problemas além da guerra. Problemas que também são graves. Seu pai se engana quando diz que você não pode liderar. Eu digo que se todos os líderes da Terra Média tivessem seu coração e sua coragem nenhum elfo jamais daria um passo sequer em direção aos portos cinzentos".
Legolas comoveu-se com as palavras amigas do curador. Seu coração amava Elrond e sua família como se eles fossem do seu próprio sangue. Durante muitos anos ele quis ouvir palavras de afeto daquele elfo que ele considerava como um pai. Era uma pena que elas viessem agora em momentos tão difíceis. Ou talvez aqueles fossem os momentos certos para que elas fossem proferidas. Pensando nisso o rapaz apenas abraçou o mestre e voltou a sentar-se mordiscando um pedaço do pão élfico para a alegria do lorde.
"Prometa que vamos fazer o possível para que ele não saiba, por favor" Ele pediu com os olhos baixos, brincando com o pedaço de pão entre os dedos.
"Eu prometo".
"E prometa que vai me deixar ir quando eu estiver bem".Dessa vez Legolas cravou os olhos azuis nos do mestre esperando a resposta.
Elrond sorriu inesperadamente.
"Quando eu julgar que você está bem" ele declarou.
Legolas balançou a cabeça, inconformado, mas sorriu, comendo o último pedaço do pão e levantando-se auxiliado pelo curador.
Estavam prontos para ir.
CONTINUA
