Olá. Aqui está o terceiro capítulo da minha estória. Gostaria de agradecer a quem está dedicando algum tempo a ela. Também gostaria de admitir algumas influências que recebi das maravilhosas Cassia e Sio ("Mellon Chonicles"), cujas angustiantes estórias em inglês sobre Legolas e Aragorn (sempre com um final feliz, como a minha, posso lhes garantir) me encantam.

Estou usando alguns termos em sindarin, segue a tradução:

Ada(r) : Papai (pai)

Mellon nîn: Meu amigo

Ion nîn: Meu filho

Mais uma vez obrigada e aqui está o capítulo 3.

* 3 *

Foi uma viagem longa e vagarosa. Elrond não quis forçar o passo do animal que estava levando mais peso do que era habitual. Mas seu coração estava feliz por ter conseguido trazer Legolas de volta consigo. Ele olhou mais uma vez o rapaz que dormia encostado em seu peito. O capuz cobria-lhe os fios dourados do cabelo e sua expressão parecia serena. Por diversos momentos durante a viagem ele havia balbuciado palavras em seu sono e pareceu agitado, obrigando Elrond a parar o animal para tentar acalmá-lo. O coração do jovem elfo ainda sentiria por muito tempo a dor daquelas experiências terríveis que ele enfrentara com tanta coragem, e esse era mais um motivo para que Elrond quisesse tê-lo por perto.

Já era entardecer quando ele finalmente viu os muros de Rivendell. De longe, na sacada de sua casa, ele pode distinguir uma figura de cabelos escuros que parecia olhar na direção deles e depois desaparecera. Não conseguiu perceber quem era, mas decerto era um dos gêmeos. Eles sempre tiveram esse instinto, como se adivinhassem a hora de sua chegada. Ele se lembrou de todas as vezes que voltara e os encontrara a sua espera na sacada.

Quando já estava próximo da entrada avistou três figuras que corriam em sua direção.

"Ada!" A voz de Elladan surgia de longe alegrando seu coração. Era bom ter os filhos em casa.

"Ada!" Dessa vez era Elrohir, já bem próximo. Ele sempre fora mais rápido que o irmão mais velho. "O senhor está bem? O que houve?"

Os dois se achegaram rapidamente, colocando as mãos no cavalo e observando o animal sem reconhecê-lo. Eles se entreolharam assustados e depois repararam na figura encapuzada que o pai conduzia a sua frente no cavalo.

Uma última voz foi ouvida. Era Estel. Os olhos de Elrond alegraram-se ao vê-lo depois de tanto tempo.

"Nossa," disse ele sem fôlego "estou perdendo a prática em acompanhar esses dois" Ele riu enfiando-se no meio dos irmãos para saudar o pai, mas sua fisionomia tornou-se séria ao ver o ar cansado do curador e perceber que ele não estava só.

"Ada, quem está com o senhor?" Ele perguntou tentando ver o rosto do estranho que estava voltado para o lado contrário ao deles.

Elrond sorriu e, encostando a cabeça próxima ao ouvido do estranho para que a resposta o acordasse, declarou:

"Alguém que arriscou sua vida para salvar a minha. E que vai ficar feliz em vê-los."

Como se despertado de um feitiço o corpo se mexeu e a cabeça escondida revelou o belo rosto de Legolas, que sorriu ao rever os amigos.

"Legolas!!" Gritaram os três em uníssono.

Estel sorriu largamente, mas depois se preocupou, erguendo de pronto as mãos para receber o amigo nos braços.

"Legolas, mellon nîn! Venha! Você está ferido? Deixe-me te ajudar."

"Estel..." Exclamou o elfo comovido, aceitando a ajuda para descer do cavalo "Meu coração se alegra ao vê-lo novamente..." sua voz estava tão fraca que Estel inquietou-se ainda mais.

Ao atingir o chão, as pernas de Legolas falharam e ele sentiu o mundo girar. Estava muito cansado. Estel não hesitou a tomar-lhe nos braços e carregá-lo para dentro, voltando-se apenas na porta para ver se os demais o acompanhariam. Lorde Elrond sorriu e fez sinal para que ele prosseguisse enquanto vinha atrás abraçado com os filhos e tentando responder as inúmeras perguntas que faziam.

Estel abriu a porta do quarto de hóspedes que sempre fora de Legolas com um chute e colocou o corpo do amigo sobre a cama, já inspecionando o curativo que Elrond tinha feito e olhando a sua volta em busca de uma faca para rompê-lo. Foi quando sentiu uma mão fria segurando a sua. Ele baixou os olhos e encontrou os do jovem príncipe.

"Você está diferente" disse Legolas sorrindo. Sua voz ainda estava fraca.

Estel soltou uma risada.

"Estou mais velho".Ele declarou. "Mas você não parece muito bem também" Ele completou passando o dedo por sobre as olheiras que se formavam no rosto do elfo.

"A vida não tem sido gentil conosco".Respondeu o outro desviando o olhar para a porta. Elladan e Elrohir estavam entrando.

Estel quis questionar, mas sabia que isso poderia esperar. Os gêmeos sorriram e se atiraram cada qual num lado da cama, fazendo brincadeiras com o amigo louro e adiantando que tinham várias novidades comprometedoras sobre Estel para contar. O irmão caçula rolou os olhos e sorriu. Ele sabia que os dois iam começar com aquilo. Era um modo infalível de animar Legolas, contar-lhe todas as desventuras de seu amigo humano. Legolas sorriu e estendeu as duas mãos para os amigos que as receberam alegremente. O sorriso dos filhos de Elrond era um remédio milagroso e ele estava muito feliz em revê-los.

"Sentimos saudades, amigo." Disse Elladan um pouco comovido ao ver o estado enfraquecido do arqueiro de Mirkwood.

Legolas sorriu, mas de repente pareceu lembrar-se de algo muito importante.

"O que foi Legolas?" Estel perguntou intrigado.

Os gêmeos se entreolharam preocupados.

"Vocês não... sabem o que eu vi!" Ele iniciou tentando encontrar forças.

"O que?" Os três indagaram.

Legolas respirou fundo.

"Lorde Elrond... enfrentando quinze orcs... sozinho..."

"Valar!!" Exclamou Elladan despertando um riso involuntário no elfo louro que ainda tentava encontrar forças para continuar.

"Não..." Prosseguiu então o príncipe. "Vocês perderam a melhor cena de batalha que eu já vi...".

Os três voltaram a se olhar e só agora entenderam o que o amigo queria lhes dizer. Eles riram uns para os outros e chegaram bem perto do elfo para tentarem entender o resto. Aquilo muito os interessava.

"Conte! Conte! Ele ainda é tão bom?" Indagou Elrohir com um sorriso sarcástico.

Legolas rolou os olhos e sorriu abertamente tentando esconder a dor.

"Ele é o melhor! Nunca vi alguém assim... Eles tiveram que derrubar uma árvore sobre ele para tentar detê-lo".

"Elbereth!" Voltou a exclamar Elladan preocupado.

"Já chega disso!" Declarou Elrond que estava a porta já havia algum tempo. Ele tinha parado por uns minutos interessado em ver que rumo a conversa tomaria, mas já estava satisfeito com as tolices que ouvira. Em suas mãos trazia mais ervas e uma xícara.

Elladan correu em sua direção.

"O senhor está machucado, Ada?" Ele indagou preocupado olhando o pai da cabeça aos pés.

O curador sorriu com a preocupação do seu primogênito.

"Não, íon nîn. O seu amigo que está naquela cama engrandecendo minha batalha veio em meu auxílio e matou os sete orcs restantes sozinho me salvando de uma morte dolorosa".

"Oh!" Exclamaram Elrohir e Estel que estavam próximos de Legolas com sarcasmo. O elfo conhecia bem aquele tom dos amigos e sentiu o rosto queimar. Como saída fechou a cara e fingiu zangar-se com a brincadeira para disfarçar o constrangimento de ser elogiado pelo Elfo dos Elfos.

Mas os filhos de Elrond não o pouparam. Despejaram milhares de gracejos e perguntas tolas fazendo com que Legolas não conseguisse manter sua máscara e voltasse a rir segurando o ferimento com uma das mãos.

Elrond deu-lhes mais alguns minutos para infernizarem o pobre rapaz. Ele sabia que rir assim só traria dor ao jovem elfo, mas era muito bom, depois de toda a agonia pela qual havia visto Legolas passar, vê-lo sorrindo cercado por pessoas que o amavam muito.

"Basta, vocês três!" Ele disse por fim sendo prontamente atendido pelos filhos que fingiam obediência, mas escondiam um meio-sorriso. Legolas também tentava recuperar a seriedade, bem como Elrond. Mas em alguns instantes estavam todos rindo novamente.

O curador aproximou-se da cama e estendeu a xícara que trouxera para Estel que a aceitou olhando instintivamente para o conteúdo dela e depois para o amigo na cama.

"Parece que meu pai quer fazê-lo dormir para te poupar de nossos maus tratos." Ele declarou num grande sorriso colocando uma das mãos sob a cabeça do amigo para erguê-la o suficiente para que ele bebesse o sedativo.

Legolas objetou virando o rosto.

"Não me faça fazer uma cena." Ameaçou Estel sorrindo. Apesar da situação crítica ele gostou muito de poder repetir a brincadeira que eles sempre faziam um com o outro as inúmeras vezes em que uma situação daquelas se deu naquele mesmo quarto.

O elfo riu também se lembrando da frase. Mas voltou-se sério para o amigo e olhou-o nos olhos.

Estel sentiu seu coração doer com aquele olhar. Estava claro que Legolas havia passado por alguma experiência muito dolorosa ultimamente e isso estava corroendo seu espírito devagar. Ele esperava que, conversando mais tarde com Elrond, conseguisse as respostas que ele tanto precisava escutar.

"Beba, mellon nîn." Pediu então num tom amável. "Vai ficar mais fácil cuidar da ferida assim. E você precisa descansar."

Legolas segurou a mão de Estel e respirou fundo. Estava mesmo muito cansado. Apesar da dor, sentia que poderia dormir ali até mesmo sem o medicamento. Por muitas noites ele tinha tentado dormir, mas não conseguira, sempre perseguido por todas aquelas imagens obscuras do passado.

"Eu bebo." Ele concordou. "Com uma condição"

Estel olhou para o pai e os irmãos intrigado e depois voltou a encarar o amigo.

"Qual?" Indagou o humano.

"Que você não fique na minha cabeceira enquanto eu me recupero."

Legolas nem havia terminado a sentença e Estel já balançava a cabeça negativamente. Ele não sairia dali até que o amigo estivesse pronto para sair da cama por si só. Sempre fora assim e sempre seria. Não havia porquê para ser feito diferente dessa vez.

"Estel!" Irritou-se Legolas tentando elevar o tom de sua voz. "Nós não somos mais jovens que passam o dia caçando e jogando".Dizendo isso o elfo encarou os olhos claros do amigo mais uma vez. Havia cansaço neles. A vida de Estel não era mais a mesma desde que ele havia descoberto seu destino e decidira que era tempo de colocá-lo em prática. "Você também está cansado."

Estel desviou o olhar e fingiu aborrecimento, embora se sentisse tocado pela preocupação do outro. Era inacreditável como em poucos minutos parecia que Legolas já sabia tudo o que se passava em seu coração.

"Não me peça para sair de perto de você, mellon nîn".Ele insistiu.

O elfo contorceu-se na cama tentando achar uma posição melhor e suspirou. Sabia que não seria fácil convencer o amigo a fazer algo que ele nunca tinha feito antes. Num ato extremo então, ele buscou o olhar de Elladan como quem pede auxílio. O elfo de cabelos escuros entendeu prontamente o que lhe era pedido e durante alguns instantes pareceu meditar em busca de uma solução.

"Vamos fazer um acordo." Disse ele por fim com um sorriso nos lábios. Estel lançou-lhe um olhar precavido que deixava bem claro a sua indisposição em aceitar qualquer das sugestões de Elladan. Mas o irmão mais velho não se intimidou. "Você fica com Legolas durante o dia e eu e Elrohir revezamos as noites, certo? O azar vai ser todo seu, pois vai perder as belezas da primavera de Rivendell."

Estel não gostou da idéia, nem da ironia do irmão. Afinal já era noite e ele teria que deixar o amigo com um dos gêmeos. É claro que confiava neles, mas queria simplesmente estar próximo do elfo querido a quem ele não via há tanto tempo.

"Parece razoável" Declarou Elrond sorrindo também.

"É sim!" Concordou Elrohir num tom provocador. "As crianças têm que dormir a noite, sabe."

Ele mal teve tempo de terminar sua provocação e já estava no chão derrubado pelo irmão mais novo.

"Elrohir! Estel!" Gritaram zangados Elrond e Elladan enquanto os dois irmãos simulavam uma briga no chão. Legolas voltou a rir segurando o ferimento e fazendo algumas caretas de dor.

"Parem com isso imediatamente antes que eu coloque vocês dois para fora e os proíba de saírem de seus quartos por uma semana." Ameaçou Elrond tentando conter o riso.

Estel já estava com a cabeça de Elrohir envolta por seu braço esquerdo quando ouviu as ameaças do pai. Ele então soltou o irmão com relutância, não esquecendo de dar-lhe mais um pequeno empurrão antes de levantar-se e tomar seu lugar ao lado de Legolas mais uma vez. Elrohir ergueu-se graciosamente, ajeitando a túnica e lançando um sorriso para o pai que se limitou a abanar a cabeça em sinal de desaprovação, mas depois lhe oferecer um breve sorriso. Elrohir era a alegria da casa e Elrond, apesar de todos os conflitos que ele causava, não queria vê-lo mudado em aspecto nenhum.

Estel segurou a mão de Legolas novamente. As feições do elfo estavam tristes.

"Por favor, Estel".Pediu ele com a voz mais fraca.

O amigo não respondeu.

"São só ferimentos leves." Assegurou-lhe o rapaz. "Parecem feios quando se olha, mas vão melhorar muito rapidamente. Você conhece o poder de recuperação de um elfo. Sabe que não precisa se preocupar".

Mas, sem que ninguém percebesse, as palavras de Legolas fizeram as feições de Elrond ficarem mais sérias.

Estel abanava a cabeça, inconformado. Não havia escolha senão aceitar as condições do amigo, gostasse ele ou não daquilo.

"Certo." Ele declarou finalmente segurando a cabeça do amigo e oferecendo-lhe a xícara de novo . "Agora beba."

Legolas ainda voltou os olhos para Elladan e Elrohir antes de fazê-lo e recebeu sorrisos e acenos de cabeça confirmando que tudo sairia como ele havia pedido. Então olhou novamente para o amigo e sorriu. Os olhos de Estel brilharam como se quisesse chorar, mas ele limitou-se a aproximar mais a xícara dos lábios do elfo e observar enquanto o outro bebia o sedativo em pequenos goles com receio. Legolas adormeceu antes mesmo de Estel trazer-lhe a cabeça para a posição inicial no travesseiro. Os olhos fechados indicavam o estado do elfo de Mirkwood e consternaram os presentes que o amavam. Todos sentiram muito em ver que, diferente das noites tranqüilas nas quais os elfos sempre dormem com os olhos abertos, a dor e o sofrimento estavam impossibilitando que Legolas fizesse o mesmo.

Elrond permaneceu parado onde estava. Em pé diante da cama ele questionava as palavras que ouvira. Os filhos olhavam-no intrigados sobre o por quê do mestre curador não ter começado ainda a tratar da ferida exposta do jovem elfo, agora que o mesmo já estava adormecido.

"O que foi, Ada?" indagou Estel preocupado.

Elrond olhou para os três e depois novamente para o elfo na cama.

"Tirem a roupa dele." Ele pediu finalmente. "Tirem tudo."

Os três se entreolharam intrigadíssimos e voltaram a encarar o pai em busca de uma resposta, enquanto o mesmo tinha se movido para a mesa de canto para manipular suas ervas, de costas para os rapazes.

"Não entendo." Declarou Estel. Ele nunca conseguia guardar um questionamento para si como faziam os irmãos.

Elrond suspirou enquanto mexia algumas ervas numa tigela grande, adicionando a elas um estranho líquido amarelo.

"Eu só tratei de uma ferida, crianças." Ele declarou.

Os filhos do mestre custaram alguns instantes a entender aonde o pai queria chegar, mas então se lembraram das palavras de Legolas. *São só ferimentos leves.* Ele certamente estava escondendo os outros ferimentos do curador como sempre fazia e acabou denunciando-se ao tentar convencer Estel de que tudo estava bem. No mesmo instante os três começaram o trabalho de remoção das vestimentas do elfo da floresta e aterrorizaram-se ao verem o estado do corpo do rapaz. Inúmeros hematomas coloriam sua pele e outras escoriações e cortes maiores surgiam a cada peça de roupa removida. Cortes a faca, queimaduras de vários tamanhos. Sem dúvida o amigo havia sido torturado cruelmente. Os olhos de Estel encheram-se de lágrimas quando finalmente ele encarou o corpo exposto do amigo sobre a cama. Havia poucos lugares intactos nele. Era inacreditável como ele tinha conseguido agüentar tamanho sofrimento. Elrohir pousou uma das mãos no ombro do caçula amigavelmente e os três ficaram alguns instantes sem ação olhando para aquela cena cruel.

Elrond sentindo o frio mortal do silêncio que imperava no quarto voltou-se para verificar se os filhos haviam terminado. Até ele surpreendeu-se ao se deparar com a imagem desoladora do lugar. O mestre elfo fechou os olhos e colocou a mistura por sobre a mesa, respirando fundo para conter sua revolta. Depois deu alguns passos e pousou as mãos por sobre os ombros de Estel e Elladan que estavam lado a lado imóveis como estátuas sem vida.

"Vamos precisar da banheira." Declarou o curador. "E de mais ervas."