Olá. Queria agradecer as reviews. Elas são muito importantes para mim, obrigada mesmo.

Desculpem pela demora. É que o site tem algo contra mim... fiquei dias tentando atualizar a página...

Como eu já disse... é uma "angst" então tem um pouco de sofrimento... mas baseado sempre em coisas que devem ser aprendidas... é o meu lema... nunca tortura por tortura...

Misao-dono - Obrigada pela linda review, mas estive lendo sua estória e acho que você é que tem muito o que me ensinar. J

Kagura Bakura  - você me perguntou se a minha fic o Legolas vai ter alguma relação amorosa. Não vai não, de nenhum tipo. Eu não me considero experiente o suficiente para esses tipos de fics... Os relacionamentos que você verá são a mais autêntica amizade como eu acho que deveria ser, sem as pessoas se envergonharem em mostrar que se preocupam umas com as outras. Obrigada pela review e por estar acompanhando, sua opinião é super importante. J

Lady-Liebe - Ainda está lendo? Quero sua opinião! J

MitraaQueria agradecer seu email aqui também! Obrigada! J

Eöl the dark elf – Obrigada pelo email. Suas opiniões são muito preciosas. J

Aqui vai o capítulo 4, espero que gostem.
           

4

Havia um som agradável de pássaros cantando ao longe e uma brisa suave entrava pela janela. Legolas abriu os olhos devagar e se sentiu inundado pela claridade do quarto e pelo ar delicioso de Rivendell. Estava na mesma cama que sempre usava em suas temporadas em Imladris, mas ainda custou um pouco a se lembrar do que acontecera. A última imagem que tinha na memória era a de Estel oferecendo-lhe o sedativo. Ele moveu o corpo devagar e sentiu que não doía tanto quanto antes, mas estava meio amarrado por várias ataduras. Lorde Elrond e seus filhos com certeza já tinham descoberto os outros ferimentos que ele havia ocultado.

O jovem príncipe respirou fundo o ar da manhã e procurou por companhia. Não acreditava que estivesse sozinho e estava certo. Num dos cantos, perto da sacada, um elfo delgado e com longos cabelos negros muito bem trançados lia um livro sentado em uma cadeira almofadada. Parecia muito interessado no que estava fazendo. Era um dos gêmeos, mas como sempre, Legolas não conseguia saber qual deles. Eles se vestiam e se penteavam de forma idêntica para dificultar ainda mais a distinção. Durante todos esses anos o amigo ainda não tinha conseguido encontrar nada que os diferenciasse a não ser pelo tom de voz de cada um, tom esse que eles conseguiam modificar ao bel prazer também, confundindo a todos com grande habilidade quando não queriam ser distinguidos. Ele não entendia como Estel, Arwen e Elrond nunca se confundiam.

Parou para pensar por uns instantes em alguma indicação que o levasse a descobrir qual dos dois seria. Olhou novamente o entretido elfo. Ele estava lendo, o que o fazia crer que se tratasse de Elladan, pois era quem compartilhava os interesses do pai. Já Elrohir se interessava mais por cavalos e expedições e só entrava na biblioteca de Elrond para consultar mapas e outros livros de geografia. Legolas resolveu arriscar.

"Elladan?" Sua voz saiu mais fraca do que ele esperava.

O elfo ergueu os olhos e sorriu. Parecia muito satisfeito em ver o amigo acordado. Fechou o livro e, trazendo-o consigo, veio sentar-se na cama na cabeceira oposta, ao lado dos pés de Legolas. Tirou os sapatos e cruzou as pernas por cima da cama sorrindo.

"Você nunca acerta".Disse ele.

Legolas soltou um longo suspiro e levou uma das mãos aos olhos, balançando a cabeça e sorrindo.

"Não é justo, Elrohir!".

Uma risada musical veio do outro enquanto ele reabria o livro apenas para colocar o marcador na página que estava segurando com os dedos e tornar a fechá-lo para depositá-lo ao seu lado sobre o colchão. Então se levantou e foi até a mesa lateral encher uma caneca com água sem calçar os sapatos. Com certeza o tom da voz do elfo de Mirkwood já indicava que ele estava com sede. Legolas não tirou os olhos da caneca até que estivesse próxima de suas mãos, mas Elrohir não o deixou segurá-la erguendo a cabeça do amigo com cuidado e pressionando a caneca suavemente contra os seus lábios secos e sem cor.

"Beba devagar, mellon nîn" Ele pediu.

Legolas tentou obedecer, mas sentia uma sede tamanha e queria saciá-la rapidamente. Elrohir afastou o recipiente um pouco dando ao amigo uma oportunidade para respirar, mas Legolas segurou as mãos dele e trouxe a caneca de volta aos lábios voltando a beber.

"Devagar!" Instruiu o elfo sorrindo. "Você está sem nada no estômago. Não vai enchê-lo apenas com água para depois se sentir mal."

Relutantemente Legolas soltou as mãos dele e sorriu concordando. Ainda estava com sede, mas devia dar um tempo para que o corpo assimilasse a água que já tinha bebido.

O filho de Elrond retornou até a mesa para depositar a caneca no lugar. Antes de voltar a aproximar-se ele parou alguns instantes para observar Legolas em seu leito. O elfo louro havia voltado o olhar para a sacada observando a paisagem. Parecia estar se lembrando de alguma experiência ruim, pois seus olhos estavam distantes e os lábios semi-abertos pareciam estar reprimindo um soluço. Elrohir lembrou-se da história triste que Elrond tinha contado a ele e seus irmãos naquela mesma noite da chegada de Legolas, enquanto eles banhavam o corpo torturado do rapaz. Naquela noite, ignorando ao pedido do príncipe, todos os quatro haviam passado em vigília, trocando olhares silenciosos sem conseguirem dormir ou fazer qualquer outra coisa para se distraírem, a não ser esperar e lamentar pelos momentos infelizes que o querido elfo de Mirkwood tinha passado. Ele não queria que o amigo ficasse amargurando pensamentos tão tristes mais, não enquanto ele estivesse a seu lado.

"Está com fome?" Perguntou despertando o paciente de seus pensamentos.

Legolas olhou-o num sobressalto e balançou a cabeça negativamente com um sorriso leve. Elrohir aproximou-se e voltou a sentar-se no mesmo lugar, cruzando novamente as pernas por cima do colchão e retomando o livro que abandonara.

"Quem sabe umas frutas ou um pouco de queijo?" Ele disse voltando os olhos para as páginas com grande curiosidade. Estava fazendo isso propositalmente para atrair a atenção do amigo para o que estava lendo.

E funcionou.

"Que livro é esse que atraí tanto a sua atenção?" Legolas indagou tentando erguer-se.

O outro sorriu maliciosamente, num movimento leve e gracioso colocou-se de joelhos e, engatinhando na cama, foi ajudar o amigo a erguer-se um pouco colocando os travesseiros que estavam soltos, por baixo das costas e da cabeça do rapaz. Legolas o olhava intrigado com um meio riso. Conhecia aquele ar do elfo de Rivendell. Ele só sorria assim quando tinha feito mais uma de suas façanhas, normalmente coisas que o pai e os irmãos abominariam ou condenariam até o fim dos tempos.

Elrohir sentou-se ao seu lado dessa vez e esticou-se para apanhar o livro, mostrando sua capa para o príncipe.

A visão de Legolas estava meio embaçada, talvez pela desnutrição ou pela perda de sangue, ele não sabia. Por isso não conseguiu ler as letras douradas por mais que forçasse os olhos. Desiludido limitou-se a passar as pontas dos dedos nelas e lançar um olhar inquisidor ao amigo.

O ar do elfo moreno tornou-se mais maldoso, como uma criança pronta para fazer a travessura de sua vida. Se Legolas não o conhecesse bem e soubesse que ele era incapaz de um ato que prejudicasse quem quer que fosse, teria a impressão que ele tinha alguma espécie de explosivo por sob o manto.

"Não consigo ler, amigo." Ele declarou notando que o outro não havia percebido sua dificuldade em decifrar o misterioso título. "O que diz aí?"

Elrohir pendeu a cabeça para o lado tentando entender, depois voltou a capa para si para observar as letras intrigado e tornou a mostrá-la em seguida para o amigo.

"Não consegue ler letras desse tamanho?" Ele duvidou.

Legolas baixou os olhos para as dobras do lençol e começou a deslizar seus dedos sobre elas como se apreciasse os bordados que sentia sob o toque. Na verdade tentava disfarçar que as palavras do amigo o tinham feito sentir-se envergonhado. Elrohir logo percebeu isso e abandonou seu ar de brincadeira tocando o rosto do outro elfo com a palma de uma das mãos. Sua pele estava fria. Legolas não o encarou, apenas voltou a olhar a capa do livro tentando distinguir as letras.

"Não consegue ler?" Ele repetiu a questão agora sem tirar a mão do rosto do amigo e curvando a cabeça para atrair sua atenção.

Legolas ergueu os olhos azuis e apertou um pouco o maxilar nervoso.

"Está sentindo dor?" Elrohir subitamente colocou-se de joelhos de novo e olhou o outro dentro dos olhos, abandonando o livro na cama. O príncipe alcançou o volume de letras douradas, mas para sua surpresa percebeu que não tinha forças para levantá-lo.

Foi então que a resposta veio à mente do filho de Elrond. Ele sorriu e tomou o livro que o rapaz tentava manejar, escondendo-o debaixo do colchão. Legolas não entendeu. O elfo moreno colocou as longas pernas para fora da cama e calçou novamente os sapatos.

"Acha que pode ficar sozinho por uns instantes?" Ele perguntou puxando a túnica ao se levantar.

"Aonde vai?".

"Buscar algo para você comer, mellon nîn. Para a sua informação você está aí adormecido há cinco dias, me surpreende até o fato de você se lembrar de quem é!" Ele finalizou soltando uma gargalhada.

O príncipe riu balançando a cabeça e saboreando o senso de humor do gêmeo mais novo.

"Eu não sinto fome".Disse então num tom amável e voltando os olhos para a mesa do canto. "Não sei se vou conseguir comer... Mas agradeceria se me desse mais água".

Mas Elrohir continuou seu caminho até a porta e, antes de sair, lançou mais um olhar para o amigo na cama. "Na volta." Ele garantiu antes de sumir pelo corredor.

O jovem elfo suspirou conformado envolto em seus lençóis e travesseiros e depois voltou a admirar a paisagem que via pela sacada. Muitos pensamentos passavam por sua cabeça, mas o mais agradável era como conseguir saber que livro era aquele que Elrohir escondera sob sua cama. Mas ele se sentia cansado demais para grandes manobras e ainda estava com sede. Virou-se então para a mesa lateral e avistou novamente o cantil de água e a caneca. Pensou então na loucura de tentar levantar-se e ir até lá, mas percebeu que, mesmo se pudesse fazê-lo, não teria forças sequer para erguer o copo cheio, quem dirá derramar a água do cantil.

Foi quando a porta voltou a se abrir e Elrohir entrou acompanhado pelo irmão. Eles traziam mais água, suco e uma bandeja com frutas e pães. Legolas ofereceu-lhes um sorriso ao vê-los e Elladan veio depressa se sentar perto dele, colocando a bandeja sobre a cama e segurando sua mão. Elrohir puxou a mesa para mais perto da cama fazendo mais barulho do que o necessário e colocou as jarras que tinha trazido sobre ela, depois se sentou do outro lado sorridente, mas fazendo discretamente um gesto com o dedo indicador contra os lábios para Legolas. Um pedido de silêncio.

Legolas franziu a testa sem entender. O gêmeo então apontou para o colchão, recordando o amigo sobre o que estava agora ali escondido, e voltou a repetir o gesto. O paciente então desprendeu os lábios num sinal de súbita compreensão, mas em seguida apertou novamente os lábios e acenou com a cabeça concordando um pouco contrariado. Elrohir voltou a expressar aquele sorriso malicioso e olhou para o irmão mais velho.

Elladan estava entretido cortando as frutas e os pães e não percebeu a linguagem de gestos e expressões dos dois. Legolas se sentiu mal por estar encobrindo mais uma travessura de Elrohir, mas de certa forma sentia que não poderia ser nada assim tão grave.

Quando Estel chegou à porta alegrou-se ao ouvir o riso dos irmãos antes mesmo de abri-la. Era o tão esperado sinal de que Legolas tinha acordado. Ele entrou rapidamente e deparou com os três rindo em cima da cama tomando o café da manhã. Legolas apoiava uma das mãos no lugar do ferimento enquanto tentava se conter, mas essa atitude não parecia estar beneficiando-o como ele gostaria. Elladan e Elrohir gargalhavam abertamente segurando pedaços de pães.

"Que cena!" Ele disse por fim fechando a porta por trás dele e sorrindo.

Legolas ficou feliz ao vê-lo e acenou levemente pedindo que ele se aproximasse. O filho adotivo de Elrond obedeceu de bom grado e sentou-se bem perto do amigo louro segurando-lhe a mão.

"Veja se consegue fazer ele comer algo antes que nosso pai encontre essa bagunça que fizemos." Pediu Elrohir sorrindo.

Estel franziu a testa e curvou-se para olhar o rosto do amigo acamado. De todos os aprendizes de Elrond ele sem dúvida era o mais eficiente, até mais eficiente que o próprio Elladan. Todos diziam que possuía mãos que curavam. Ele percebeu toda a agonia que o rapaz estava escondendo. Estava tudo ali escrito naquelas poças azuis, naquelas mãos frias. Estel não tinha feito outra coisa nos últimos dias além de se preocupar com a recuperação e com o futuro do amigo. Sentia que eles estavam caminhando sobre o fio de uma espada afiada no momento e deviam ter muito cuidado com o que dizer ou fazer. Seus irmãos também sabiam disso e estavam fazendo o papel que faziam tão bem: Animar e distrair o jovem amigo. Mas Estel sentia que cabia a ele, como o melhor amigo de Legolas, o papel de ajudá-lo a não só esquecer a dor, como faziam seus irmãos, mas a superá-la como ele já havia superado tantas outras.

Legolas não retribuiu o olhar do amigo, pois sabia da habilidade que o guardião possuía de sondar seus pensamentos e baixar sua guarda em poucos instantes.

"Ele não comeu?" Indagou Estel olhando para os irmãos.

Os dois confirmaram com movimentos negativos com a cabeça.

"Tenho sede" Declarou Legolas.

"Ele já bebeu muita água. Vai virar um poço assim." Brincou Elrohir, fazendo o príncipe fechar os olhos e voltar a segurar o ferimento tentando não rir.

Estel pegou um copo e encheu-o de suco. Mas Legolas balançou a cabeça com desânimo, desaprovando a idéia. O guardião parou por alguns instantes para pensar olhando o cantil de água. Em seguida pegou a caneca e começou a despedaçar um pedaço de lembas nela. Legolas sorriu sem entender. Depois o amigo derramou água e mexeu com uma colher dissolvendo os pedaços de pão.

"Argh" disse Elrohir enojado. "Você não vai obrigá-lo a comer isso, vai?" Ele provocou.

Estel lançou um olhar sugestivo para o irmão que dizia mais do que muitas palavras. Elrohir fingiu ofender-se, mas depois riu. O guardião voltou-se então para o amigo e olhou-o seriamente.

"Duas colheradas?" Ele pediu. "Vão ser o bastante."

O elfo de Mirkwood olhou para o conteúdo da xícara com um ar inexpressível. Sentia que o amigo estava realmente preocupado e que não seria um grande sacrifício fazer-lhe a vontade para que se sentisse melhor. Ele então acenou com a cabeça concordando. O guardião sorriu e ofereceu-lhe a primeira colherada.

O gosto não era ruim e Estel surpreendeu-se quando no fim de tudo Legolas havia comido todo o conteúdo da xícara vagarosamente.

"Quer mais?" Ele perguntou sorrindo.

"Não, obrigado, amigo." Respondeu o outro voltando o olhar para o cantil. "Posso beber mais água agora?"

Os três filhos do curador riram ao mesmo tempo enquanto Estel enchia uma caneca para o elfo da floresta.

"Um poço, ouçam o que eu digo." Afirmou Elrohir ajeitando a desordem da cama. "Vamos dar um jeito nisso antes que ganhemos o sermão do dia..."

Nesse momento ouviram a bela voz de Elrond no corredor conversando com Erestor. Ele indagava ao amigo sobre o desaparecimento de um de seus livros e o outro lhe assegurava de que não o tinha visto, oferecendo a possibilidade de, quem sabe, Glorofindel tê-lo pego emprestado com algum propósito.

A conversa fez com que Elrohir e Legolas se olhassem instintivamente. O elfo moreno balançou suavemente a cabeça confirmando que ainda queria o silêncio do amigo. Nem Estel, nem Elladan perceberam a comunicação dos dois.

Em seguida a porta se abriu e a figura de Elrond apareceu vestindo um de seus robes. Ele surpreendeu-se com a cena que viu e franziu a testa em desaprovação imediata.

"Pelos Valar, crianças!" Exclamou olhando para todos os lados. "Quantas vezes devo dizer para vocês que a cama de um paciente é um lugar sagrado".Ele se aproximou enquanto os filhos recolhiam rapidamente a bandeja e saíam do leito de Legolas escondendo o riso. "Que bagunça!" Inconformou-se o curador puxando uma cadeira e sentando-se perto do elfo acamado.

Subitamente o clima ficou sério naquele lugar. Os três filhos de Elrond juntaram-se em frente da cama do amigo de Mirkwood parecendo não saber o que fazer naquele momento. Elrond olhava nos olhos de Legolas profundamente como quem estava examinando mais do que um corpo. Examinava um espírito. O elfo louro não moveu o olhar, parecia num transe. Em seguida o lorde elfo ergueu uma das mãos e suavemente encostou-a na testa do rapaz sorrindo. O jovem soltou um suspiro e retribuiu o sorriso, mas uma tristeza estava presente nos olhos de ambos agora.

Elrond então se voltou para seus filhos que tentavam entender a cena e despertou-os de seus pensamentos.

"Vão dar um passeio crianças." Ele instruiu.

Os três se olharam perplexos.

"Não vai precisar de ajuda com os curativos?" Elladan indagou confuso.

"Ele está acordado agora, ion nîn. Podem ir."

Mas todos sabiam que aquilo era de fato um pretexto do pai para ficar sozinho com o príncipe por algum motivo que eles desconheciam e que os intrigava demais. Estel não gostou da idéia e objetou veementemente.

"Eu vou ficar".Sua voz saiu firme.

Elrond voltou-se para o filho mais novo. Estel tinha de fato atingido a maturidade e de uma forma que o curador não sonhava nem em seus melhores pensamentos. Ele sentia muito orgulho da coragem e determinação daquele que seria no futuro um grande rei. Porém algumas atitudes não poderiam ser aceitas. O mestre então se ergueu e dirigiu-se até a porta abrindo-a em silêncio e lançando um olhar duro para o caçula.

"Certamente você ficou muito tempo fora de Imladris, Aragorn".

Estel tremeu ao ouvir seu verdadeiro nome na boca do pai e percebeu que tinha ido longe demais em sua insolência. Os gêmeos saíram sem olhar para trás, mas o guardião deu apenas alguns passos hesitantes, ficando frente a frente com o pai.

"Me perdoe, senhor".Ele pediu com os olhos baixos. "Eu não tive a intenção de ofendê-lo. Apenas estou preocupado".

Elrond não o olhou. Doía mais em seu coração do que no do filho agir assim, mas era preciso.

O silêncio se fez desesperador, mas o guardião permaneceu na frente do pai sem se mover, parecia nem sequer respirar. Seus olhos trilhavam os ladrilhos do chão como se buscassem neles alguma resposta escondida, algum indício do que ele poderia fazer para amenizar aquela situação.

"Ada." Insistiu por fim. Sentia-se vencido. Ergueu receosamente os olhos cheios d'água. "Por favor..."

O mestre elfo sentiu seu coração derreter-se com o tom do filho que amava. Era sempre assim, desde que ele era pequeno e fazia as travessuras mais tolas. No fim de tudo sempre conseguia o que queria, não só do pai, mas de todos. Sua honestidade e seu bom coração acabavam por falar mais alto do que qualquer ato insensato ou palavra mais dura.

Elrond respirou fundo mais de uma vez erguendo os olhos em contemplação a algo que somente ele parecia poder ver. Ele contemplava o que poucos podiam fazer. Contemplava um passado repleto de imagens doces. Imagens do menino Estel correndo pelo jardim em busca dos irmãos que se escondiam propositalmente para pegá-lo de surpresa e fazê-lo rir. Ah, e como era doce ouvir o pequeno Estel rir. Elrohir e Elladan nunca se cansavam de provocá-lo e agarrá-lo para fazê-lo abençoar-lhes com o som do seu riso, com o brilho daqueles olhos azuis inocentes. Pensando nessas doces lembranças Elrond finalmente fechou a porta sentindo seu filho abraçá-lo em seguida.

"Me perdoe, Ada. Por favor." Estel implorou com o rosto enterrado no robe do pai.

O curador ergueu os braços inseguro, mas acabou abraçando o filho e acariciando suas costas para assegurar-lhe que tudo estava resolvido. O filho, entretanto não o soltou. De alguma forma a repreensão de suas palavras tinha sido mais dura do que ele imaginava.

"Me chame de Estel, por favor." Ele pediu tentando conter os soluços.

O peito de Elrond se apertou ao ouvir aquelas palavras. Ele podia até sentir o coração do filho pulsando agonizantemente encostado nele, a respiração dele parecia difícil, pois o guardião tentava conter as lágrimas sem muito sucesso. A vida daquela criança humana que Elrond tomara nos braços como sua há muitos anos atrás agora era muito dura. Estel tivera que deixar Imladris e assumir várias identidades que não correspondiam a quem ele realmente era, e o experiente pai sabia o quanto isso pesava na vida do filho.

"Está tudo bem, meu Estel".Ele disse finalmente acariciando-lhe os cabelos. "Não chore. Eu não estou mais zangado".

Ficaram assim por algum tempo. De sua cama Legolas esforçava-se para não chorar junto com o amigo. Seu coração doía muito ao vê-lo assim, mas ao mesmo tempo, vê-lo abraçar o pai e ser retribuído fez com que sua saudade de Thranduil aumentasse demais, e o desejo de que ele o perdoasse, como Lorde Elrond havia feito com Estel naquele instante, voltou a povoar seus pensamentos. Mas a última imagem do rei que ele tinha era a de alguém que o odiava do fundo do coração. Em toda a sua vida ele nunca ouvira seu pai dizer palavras tão rudes e cruéis para alguém como ele dissera naquela tarde em que abriu a porta, porta esta que era a passagem para Legolas deixar Mirkwood para sempre. Ele abrira a porta do mesmo jeito que Elrond havia feito agora, mas nenhum pedido de desculpas de Legolas fora suficiente para tocar o coração do pai. Provavelmente porque, diferentemente de Elrond, Thranduil já não o amava mais o filho que tinha, ou a vergonha e a decepção que sentia fossem mais fortes do que qualquer resquício de amor que ainda povoasse o coração do rei elfo. Talvez a atitude dele finalmente tivesse conseguido matar os sentimentos bons que o pai tinha para com ele, tivessem feito com que ele não significasse mais nada para o rei.

Aqueles pensamentos eram fortes demais e Legolas não conseguiu conter as lágrimas. Ele virou-se dolorosamente para o lado tentando assim escapar de ser visto pelos amigos, mas não foi feliz, pois só o movimento do seu corpo já despertara pai e filho do transe em que estavam e os havia trazido rapidamente para perto da cama.

Elrond tinha se esquecido de onde estava. Um erro imperdoável naquela situação. A última coisa que Legolas precisava no momento era ver a cena que viu.

O curador sentou-se perto do jovem elfo e Estel ajoelhou-se na frente do rapaz. Legolas mantinha o rosto coberto pelas mãos e sacudiu a cabeça quando o amigo chamou seu nome tocando-lhe o ombro.

"Por favor, Estel. Eu quero ficar sozinho um pouco." Ele disse numa voz fraca.

Estel não respondeu. Limitou-se a olhar para o pai sem saber o que fazer. Não queria sair. Sentia que tinha estragado tudo como sempre fazia. Legolas tinha tido bons momentos naquelas últimas horas e ele o havia jogado de volta em todos os seus pesadelos em poucos instantes.

Elrond segurou o jovem elfo pelos ombros e o obrigou a voltar a sua posição inicial. Legolas obedeceu ao mestre como um autômato, mas manteve seu rosto coberto pelas mãos, seu peito arfava como se fosse explodir. O curador então segurou as duas mãos do rapaz e afastou-as levemente revelando seus olhos úmidos. Olhos que não conseguiram encará-lo. Estel segurou numa das mãos do amigo assim que ele a deixou cair por sobre o corpo. O elfo estava muito cansado para lutar contra qualquer coisa que fosse. Elrond buscava um caminho para consolar aquela alma tão atormentada, mas não sabia exatamente como fazê-lo. Ele então passou as costas de sua mão enxugando o rosto do rapaz, enquanto buscava estabelecer um contato com os olhos dele. Mas só o toque das mãos de pai do curador foi suficiente para fazer as lágrimas do paciente voltarem.

Legolas sentia-se perdendo o controle, estava amarrado àquelas lembranças, amarrado a idéia de que nunca mais as coisas poderiam voltar a ser como antes, estava amarrado e não podia gritar... não podia chamar por seu pai, não podia pedir que ele o livrasse daquele castigo, ele não podia fazer nada além de chorar. O desespero tomou conta de seu espírito então e ele subitamente começou a balançar a cabeça com força e levantou o tronco num ato brutal e inesperado que assustou o curador. Mas Elrond não reagiu, apenas puxou-o no mesmo momento para perto do peito abraçando-o como fizera com Estel. O príncipe tentou se mover, mas acabou inclinando-se ao toque do lorde e deixou que as lágrimas viessem como queriam vir, deixou que se tornassem torrentes do desespero que ele estava sentindo. Estel observava enquanto Elrond passava as mãos suavemente nas costas do amigo e ficou feliz ao ver que o pai estava disposto a suprir um lugar que agora estava vago na vida de Legolas.

Ele se levantou então e, passando os dedos nos cabelos louros do elfo que era embalado agora, se despediu dizendo que esperaria na varanda. Na verdade havia percebido que no momento Legolas não precisava de um amigo, ele precisava de outro alguém, alguém que ele não podia ser, ele precisava de um pai.

Mas quando tomava seu caminho Elrond segurou-lhe uma das mãos e olhou-o bem nos olhos. Ele ainda embalava o rapaz que não chorava mais, apenas mantinha seus olhos fechados e a cabeça encostada no peito do lorde. O cheiro da tristeza estava impregnando o ar, mas Estel não queria sair.

"Fique e me ajude, filho".Pediu finalmente o curador soltando a mão do guardião para tirar alguns travesseiros que estavam na cabeceira e colocar Legolas sobre apenas um novamente. O elfo parecia adormecido, ou desacordado, seus olhos úmidos estavam completamente cerrados novamente e tremores leves passeavam pelas linhas de seu rosto. Estel preocupou-o ainda mais.

"Ele está bem, Ada?" A pergunta lhe escapou dos lábios.

Elrond que abria a túnica do rapaz limitou-se a sacudir a cabeça confuso ao ver as insistentes manchas vermelhas colorirem as bandagens. Dizer que Legolas estava bem era inútil. Nada em Legolas estava bem, sua saúde não estava bem, seus sentimentos não estavam bem, sua vida inteira não estava bem e, pior do que tudo, seu espírito não estava nada bem.

O silêncio do pai doeu mais do que a verdade em forma de palavras. Aragorn sabia que o espírito do amigo estava enfraquecido e por esse motivo seus ferimentos custavam tanto a cicatrizar. Isso já havia acontecido outras vezes, mas agora, por algum motivo, tudo parecia fora de controle e ele sentia que até mesmo Elrond temia pela sorte do príncipe.

Lágrimas correram pelo rosto do guardião e ele ficou sem ação. O amigo de Mirkwood tinha razão quando dissera que a vida não lhes era mais gentil. Ele sentia uma grande contradição em seu coração e os poucos momentos de paz que tivera desde sua chegada estavam se exaurindo rapidamente, escoando como o vinho em um barril furado, e ele não sabia como evitar. O que o afligia ainda além era lembrar-se que logo teria que retornar ao acampamento dos Dunadain para outras investidas que estavam programadas. Muita coisa precisava ser discutida e tratada. Questões que envolviam toda a Terra-Média. Depois ele teria que viajar mais para o Norte para encontrar Mithrandir conforme ele também havia prometido. E isso tudo significava que teria que deixar o amigo para trás sem saber se o encontraria de volta. Sem saber o que aconteceria se Thranduil descobrisse. Agora mais do nunca ele percebera que vida de Legolas se resumia a uma cela fechada, cujas paredes se estreitavam dia a dia e sentia bem o porquê da angústia do rapaz. Se ele, que apenas observava tudo do lado de fora, não conseguia ver uma saída para o amigo, como Legolas deveria estar se sentindo?

Elrond ao perceber que Estel não se prontificara a ajudá-lo com os curativos do paciente, levantou a cabeça para ver onde o humano estava e surpreendeu-se ao perceber que ele permanecia no mesmo lugar, em pé, em frente da cama. Mas seus olhos eram lagos d'água e seu corpo tremia.

Num sobressalto o pai levantou-se e colocou as mãos no rosto do guardião.

"O que você está sentindo, filho?" Ele indagou preocupado.

Mas Aragorn apenas ofereceu-lhe um sorriso amargo e pousou uma das mãos no peito do pai.

"Estou sentindo pena do senhor, Ada" Ele respondeu simplesmente e vislumbrou os olhos acinzentados do curador também serem invadidos por uma nuvem estranha de tristeza.

"Pena de mim, criança?" Ele repetiu as palavras do filho baixando as mãos.

"Porque todos te abraçam e derramam suas lágrimas em seus ombros largos, meu querido pai. Mas quem lhe cederá os ombros para suas lágrimas?"

"Aqueles a quem amo, ion nîn".Ele respondeu de imediato encarando o caçula. "Que por coincidência são os mesmos que me abraçam e derramam suas lágrimas".

Houve um grande silêncio então, apenas os sons dos pássaros e o ranger suave dos troncos que tocavam a porta da sacada pareciam dar vida àquele lugar. Estel ficou alguns instantes saboreando as palavras sempre tão sábias que ouvira, depois deu as costas e foi para a varanda vagarosamente. Mas seu pai não o acompanhou. Ficou estagnado no mesmo lugar tentando entender o que agora estava atormentando o coração do futuro rei. A tristeza continuava a tecer seu caminho por entre todos e ninguém a estava conseguindo conter.

Aragorn olhou para o céu acima. O sol do meio dia brilhava forte como nunca, pintado num límpido céu azul. A brisa suave da estação das flores oferecia o conforto que podia e o guardião o estava tentando aceitar. Mas sua mente corria sem cessar pelos caminhos sinuosos dos conflitos que ele previa estarem por vir. Ele podia até sentir todos os momentos de agonia que estavam sendo gerados naquele exato instante em diversos lugares da Terra-Média. Momentos de dor e desespero plantados como sementes pelo mal que estava a espreita. Dores que brotariam e cresceriam tentando invadir e aniquilar tudo a sua volta. E a dor estava agora também ali, e não era uma simples semente, não era um broto que podia ser arrancado, era um mal cujas raízes pareciam já estar abraçando o coração de todos e ele sentia-se incapaz de vencer esse mal. Isso era o ponto crucial então. Se ele não era capaz agora quem daria a garantia de que o seria no futuro?

 Foi quando o guardião, baixando subitamente os olhos, perdido em suas reflexões, viu os irmãos sentados no jardim conversando. Os dois olharam para ele no mesmo instante, como se fosse um instinto, mas não fizeram nenhum gesto e não afastaram o olhar. Estel queria acenar e dizer-lhes que estava tudo bem e ele sentiu que os outros dois, sentados na grama no meio das flores, queriam fazer o mesmo. Mas tanto o guardião quanto os gêmeos não pareciam dispostos a enganações ou brincadeiras naquele momento. Num instinto Estel limitou-se a colocar a mão sobre seu coração, mas quando percebeu os irmãos faziam o mesmo lá embaixo.

E por algum motivo desconhecido, o filho adotivo de Elrond se sentiu melhor depois disso. Um sentimento inteiramente novo invadiu-lhe o espírito e uma súbita esperança encheu-lhe o coração. Sim. Esperança. Ainda havia esperança porque ainda havia quem se importava, e essa era a chave. Ainda havia esperança para a Terra Média porque muitas pessoas como sua família, Legolas, os elfos, os Dunadain e Mithrandir existiam e se importavam, se arriscavam e não estavam dispostos a desistir. E também havia ainda esperança para o jovem e corajoso Legolas, havia esperanças para seu querido amigo porque todos ali o amavam e se importavam com ele. Sim. Essa era a chave. E era nisso que Estel precisava fazer com que o príncipe acreditasse e era disso que ele mesmo precisava se lembrar todos os dias de sua vida, fosse ele o simples Estel, ou Strider, ou Aragorn... ou Elessar...

CONTINUA...