Olá. Obrigada novamente pelas reviews. Se puderem deixar suas opiniões eu ficarei muito grata. Qualquer erro ou incoerência, por favor, me avisem. Não tenho ninguém para revisar meus textos e às vezes as bobagens nos escapam.
Grande abraço e obrigada
* 5 *
Já era entardecer quando os olhos do príncipe se abriram novamente. Desta vez ele não se questionou mais sobre onde estava, nem sentiu nenhuma vontade de olhar para os lados ou se mover em busca de alguém. A imagem do mundo já estava toda pintada em sua mente tal qual era naquele momento e o quadro não parecia nada bom. Ele estava preso numa cama sem forças ou vontade para ir a qualquer lugar e mesmo se as tivesse não havia para onde ir a não ser seu antigo flat, naquela floresta infestada de orcs onde ele certamente encontraria, mais cedo ou mais tarde, a morte certa. Ao mesmo tempo ele sentia que precisava sair dali o quanto antes para poupar Lorde Elrond e seus filhos da ira do rei Thranduil. Seu maior temor naquele momento era pela segurança de seus amigos.
Naquelas poucas horas de sono algumas imagens amargas tinham vindo povoar seus pesadelos e agora certas cenas simplesmente resolveram ficar enraizadas em sua cabeça, mesmo depois que ele abrira os olhos e deixara o mundo dos sonhos. Os seus amigos elfos, membros da patrulha da qual ele era líder e que corajosamente enfrentaram o rei e optaram por seguí-lo no exílio, eram os personagens de suas visões dessa vez. Seria talvez um indício, um aviso para que ele se lembrasse do preço alto pago por aqueles que decidem apóia-lo ou protegê-lo? Um sinal do quanto seus amigos de Rivendell estavam arriscando mantendo-o ali em segurança?
Uma a uma as imagens dos amigos foram surgindo em meio à névoa de seus pensamentos, mas eles não sorriam, suas expressões eram tristes e amargas e seus olhares traziam uma grande dor, mas não havia ressentimento ou condenação neles. Legolas sentia que estava acordado, mas de certa forma era como se ainda sonhasse. Ele ficou imóvel encarando aqueles rostos e tentando compreender o que diziam, o que queriam dele. Mas palavra alguma foi proferida e um a um eles foram desaparecendo na escuridão da noite que agora invadia o quarto suavemente.
Mais alguns momentos de incertezas se passaram sem que o príncipe se atrevesse a proferir uma palavra ou arriscar um movimento. As imagens o deixaram e ele se sentiu só novamente, como no dia em que os sobreviventes daquela horrível sessão de tortura se encararam e se despediram para nunca mais voltar. Legolas permitiu-se lembrar deles mais uma vez, de seus rostos, seus nomes, suas famílias. A maioria havia crescido com ele e o conhecia muito bem e todos dariam sua vida para salvá-lo. Eles lhe eram fiéis. E, acima de tudo, acreditavam que seus problemas um dia encontrariam as devidas soluções e um novo caminho os levaria de volta para Mirkwood. Sim. Eles acreditavam nisso. Viviam a repetir, cantavam em suas canções, consolavam-se uns aos outros com essa esperança. Mas Legolas nunca acreditou, apenas sorria e acenava a cabeça quando os via cantar sob a luz da fogueira, apertando os lábios para aprisionar o desespero em seu coração, para reprimir o desejo que tinha de gritar. Ele queria que os amigos tivessem essa esperança, pois sabia que ela os mantinha vivos, que ela afastava seus espíritos da escuridão.
Amargurando ainda essas tristes lembranças Legolas finalmente decidiu enfrentar o mundo a sua volta uma vez mais. Ergueu ligeiramente a cabeça e seus olhos deram uma volta de 180 graus no quarto em busca de alguém. O ambiente já estava praticamente tomado pela escuridão, iluminado apenas pela luz da lua cheia que entrava pela varanda aberta. O príncipe forçou o olhar um pouco mais e suas pupilas se adaptaram melhor a escuridão que não lhe era de todo um grande problema. Foi quando viu, num canto perto da varanda, uma figura em pé. Seus olhos estavam voltados para a paisagem que coloria aquele início da noite, mas a impressão que o elfo teve era de que seus pensamentos viajaram a léguas e léguas dali. A luz do luar iluminava seu rosto emprestando-lhe uma triste palidez e um brilho estranho nos olhos. Legolas quis chamar o nome do amigo humano a quem tanto prezava, quis despertá-lo de pensamentos que pareciam não estar lhe fazendo muito bem, mas deteve-se ao lembrar-se que, fazendo isso, ele provavelmente só substituiria uma preocupação por outra na mente do guardião. Olhando então o anoitecer pela fresta de céu que podia ver da sua cama ele se lembrou que em breve o amigo se recolheria e alguém viria tomar seu posto para velar por ele durante a noite, provavelmente Elladan, haja vista que foi Elrohir quem esteve no quarto pela manhã naquele dia.
Ao pensar nisso, o elfo simplesmente relaxou a cabeça e fechou os olhos fingindo dormir. Ele não sabia se estava sendo justo ou injusto naquele momento, mas procurou pensar que, agindo assim, estava dando ao amigo umas horas a mais de sono. Era sabido que, se Estel o visse acordado, nada o convenceria a sair do seu lado e o guardião já havia tido sua cota de momentos tristes para um dia como aquele e a companhia amargurada do príncipe não o ajudaria a terminar aquele dia de uma forma mais satisfatória. O elfo queria que seu amigo pudesse dormir em paz por algumas horas.
Em alguns instantes a porta se abriu como Legolas havia previsto e uma voz agradável soou.
"Jantar e cama."
Era Elrohir.
Aragorn franziu a testa.
"Você de novo?"
O irmão lançou-lhe um olhar debochado e sorriu.
"Sim! Eu!!"
"Mas não é sua vez." Lembrou o caçula.
"E daí?"
"E daí que vocês não estão fazendo o combinado."
"O combinado era que o bebê dormisse a noite." Declarou o elfo por trás de um riso cínico. "Ninguém disse quem teria que ficar enquanto isso."
O humano deu um murro leve no ombro do irmão que conteve o grito para não acordar o paciente. Eles estavam falando num tom quase inaudível porque acreditavam que Legolas estava dormindo. Suas imagens eram apenas vultos na escuridão.
"Claro que disse".Retrucou o outro. "Vocês revezariam!".
"Re-ve-zar" O elfo repetiu pausando bem as sílabas. "Quer que eu te ensine o significado da palavra revezar? Significa substituir por turnos. Quer ver o dicionário? Nosso pai tem um muito bom".
Estel estava se irritando profundamente. Elrohir tinha essa habilidade.
"Turnos!" Ele não desistiu. "Então? Que turno é esse de vocês que te coloca aqui duas noites seguidas?".
"Você disse tudo irmãozinho".O outro não conseguia conter a satisfação em irritar o caçula. Estava falando tão próximo dele para ser ouvido que seus narizes quase se tocavam. "Turno de duas noites". Ele não pode evitar o riso. "Amanhã Elladan toma meu lugar e fica também na outra noite se quiser."
"Que bobagem é essa?" Retorquiu o caçula indignado fazendo um esforço enorme para manter seu tom de voz baixo, mas intimidador ao mesmo tempo. "O que você pensa que eu sou? Algum idiota?"
Mas o gêmeo não se deixou afetar, como nunca deixara na vida. Ver alguém zangado com ele por alguma brincadeira que fizera ou dissera só o divertia muito. O riso estampado em seu belo rosto era a indicação maior disso e Estel lia perfeitamente as entrelinhas das expressões do irmão e isso o irritava ainda mais.
"Elrohir! Você vai sair daqui numa maca se não esclarecer as suas intenções." Ameaçou o guardião com as sobrancelhas tão contorcidas que ele parecia estar com cãibra.
Outro riso foi a única resposta que recebeu.
Foi o que bastou. Aragorn agarrou o colarinho do gêmeo deixando seus rostos mais próximos do que nunca. Seus olhos azuis faiscavam de forma desafiadora. Definitivamente sua paciência se esgotara naquele exato instante. Ele sabia que Elrohir estava aprontando uma das suas. Não fazia sentido algum o irmão estar ali quando não era seu turno. E que idéia era aquela de que um turno teria duas noites agora? Ele o julgava uma criança ingênua?
Elrohir empurrou o caçula e ajeitou a túnica fingindo indignação.
"Vai amassar, humano tolo! Acha que todos nós gostamos de andar por aí como se tivéssemos acabo de sair da cama como você?".
Aragorn deu um passo em direção ao irmão erguendo as mãos, mas algo lhe chamou a atenção. Elrond estava entrando silenciosamente no quarto. Só fora notado pelo caçula por causa da luz que o acompanhava. Ele trazia um pequeno lampião para iluminar o quarto do príncipe durante a noite.
Os dois filhos se afastaram mais ainda um do outro para não levantarem suspeitas de que estavam discutindo. Elrohir ajeitou a túnica novamente, alisando-a em seguida com as duas mãos e ofereceu um sorriso falso ao pai quando este passou por eles com um olhar questionador. Estel acompanhou a atitude do irmão, porém não foi muito convincente. Elrohir era o melhor ator da casa, sem dúvida. Mas Elrond conhecia bem os filhos que tinha e o olhar de Estel por si só já denunciava que alguma coisa não estava bem. Ele passou pelos dois sem parar e dirigiu-se até a camiseira onde colocou o lampião, em seguida deu alguns passos até a varanda como fazia também quando visitava o quarto de Estel. Queria checar se o vento não estava forte demais para deixar a porta aberta. Ficou feliz em constatar que a noite estava agradável e o céu se formava repleto de estrelas. Elrond as amava do fundo de seu coração e aqueles pontos brilhantes pareciam sorrir-lhe revelando os mil e um segredos do universo. O curador deu um leve suspiro e virou-se em seus calcanhares aproveitando para aproximar-se de Legolas e assegurar-se de que o jovem elfo estava bem.
Os filhos apenas acompanharam os movimentos do pai em silêncio. Tudo em Elrond era um grande mistério para eles e a cada dia o curador parecia ter uma lição nova a lhes ensinar. Desde seu andar até o tom de sua voz, o movimento das mãos, o falar e o calar, tudo reservava uma intrigante mensagem, oferecia um importante conselho. Elrond inclinou-se em frente a cama de Legolas e tocou-lhe a testa cuidadosamente para checar sua temperatura. O rapaz parecia mais pálido do que devia estar e a recuperação lenta dos ferimentos de seu corpo preocupava o curador. O príncipe abriu os olhos instintivamente ao sentir a presença do mestre, seu olhar se cruzou com o do lorde de Rivendell e ele esboçou um leve sorriso recebendo um outro de volta. A luz do luar tornava seus semblantes mais brilhantes do que realmente eram e o silêncio do quarto adicionava alguma magia no ar. Elrond puxou uma cadeira e se sentou segurando a mão do rapaz. Seus olhos estavam fixos nele, mas o curador não emitiu nenhuma palavra.
Estel e Elrohir se olharam surpresos.
"Viu? Você o acordou! Humano desajeitado!" Acusou o gêmeo empurrando levemente o irmão e tentando disfarçar o riso.
Estel agarrou-lhe a túnica discretamente sem sequer desviar o olhar de Legolas e empurrou-o por sobre uma cadeira próxima que não agüentou o peso dos dois e tombou levando-os ao chão. Elrond, sobressaltado com o barulho e desperto de sua concentração, ergueu-se num instinto e franziu a testa ao ver os dois filhos no chão. Isso já estava virando uma rotina.
"Mas que mal eu fiz nessa terra?" Ele indagou em voz alta soltando os braços ao lado do corpo e batendo as palmas das mãos levemente nas pernas. Estel levantou-se de imediato ajudando Elrohir em seguida. O tom do pai não era o mesmo das inúmeras outras vezes em que ele se aborrecia com os "desentendimentos" dos dois. Elrohir também notou isso e não objetou em segurar a mão que o caçula lhe oferecia lançando-lhe um olhar de agradecimento em seguida.
"O que foi dessa vez?" Indagou o curador.
"Nada, Ada." Os filhos responderam juntos. Estavam agora tão próximos um do outro que seus ombros se tocavam levemente. Nem sequer arriscavam um olhar direto em direção a figura que os encarava. Estel olhava para o chão como sempre fazia quando se sentia contrariado ou constrangido e Elrohir calculava a distância que estavam da porta em caso de uma súbita necessidade de evadirem-se do recinto com uma certa urgência.
Elrond massageou as têmporas e voltou a sentar-se. Estava claro que alguma coisa o estava perturbando. Ficou algum tempo tentando aplacar uma possível dor de cabeça com as pontas dos dedos. Elfos normalmente não sentem dores de espécie alguma, mas Elrond considerava certas preocupações uma tipo de dor constante.
"Vá jantar, Estel." Aconselhou o pai sem erguer a cabeça.
Aragorn olhou para o irmão e depois para Elrond. Não queria sair agora que Legolas estava acordado, mas não ousaria contrariar o pai novamente depois do que acontecera essa manhã. Ainda mais sentindo o clima que parecia imperar no ambiente agora. Estava preocupado com o que poderia estar incomodando o pai, mas resolveu que seria mais prudente deixar esse questionamento para um momento mais conveniente.
"Posso dizer boa noite ao Legolas antes, Ada? " Foi a única coisa que pediu.
Elrond balançou a cabeça sem levantá-la. Então Estel se aproximou devagar da cama sendo observado pelos grandes olhos azuis do amigo que sorria para ele. O guardião se inclinou e beijou o elfo louro na testa desejando-lhe uma noite tranqüila, como havia feito todas as outras noites mesmo quando o elfo estava desacordado. Elrond comoveu-se ao ver Legolas levantar os braços e enlaçar o pescoço do amigo num leve abraço ao qual Estel retribuiu alegremente erguendo-o um pouco de seu leito. Eles se olharam por mais alguns instantes e então o humano levantou-se, beijou a testa do pai e saiu não esquecendo de empurrar o irmão mais velho antes de alcançar a porta.
Elrond sorriu e balançou a cabeça levemente voltando a olhar para o elfo acamado que também sorria. Elrohir notou que o pai queria uns instantes a sós com Legolas, então disse que estaria em seu quarto se precisassem dele e despediu-se. Era um momento conveniente para que ele saísse já que o pai decidira não questioná-los a respeito da briga que tiveram. Elrond acenou com a cabeça e ficou observando o filho fechar a porta. Mas não voltou os olhos para o paciente quando estavam sozinhos. Alguma coisa o parecia estar perturbando definitivamente.
Legolas sentiu uma sensação estranha ao olhar a figura do mestre a quem tanto admirava. Ele parecia consternado como o rapaz nunca vira antes. Uma tristeza refletia-se nos seus olhos acinzentados tornando-os pálidos e sem luz. O príncipe não queria vê-lo assim e não conseguia deixar de pensar que fosse provavelmente o responsável por tamanho pesar. Ele ergueu a mão estendendo-a ao elfo mais velho. Elrond notou seus movimentos e libertou-se de seus pensamentos segurando a mão oferecida a ele entre as suas e oferecendo outro sorriso triste ao jovem no leito.
"Posso ajudar em alguma coisa, meu senhor?" Perguntou o elfo louro. Sua voz ainda não tinha vigor. Mas seu olhar mostrava muita preocupação com o mestre.
Elrond colocou uma das mãos no rosto do rapaz acariciando-o levemente. Os olhos de Legolas brilharam ao sentir o toque do curador, mas a mão em seu rosto estava fria e nos olhos que o encaravam havia uma grande preocupação. Alguma coisa tinha acontecido e ele temia em pensar o que poderia ser.
Ficaram assim em silêncio por um tempo que não se pode contar. Elrond apenas deslizava as costas de sua mão pela face de Legolas estudando suas feições cuidadosamente. Parecia estar desenhando o rosto do rapaz em sua mente, desvendando mistérios que ninguém mais era capaz de ver.
Os olhos do príncipe tentavam fazer o mesmo, tentavam descobrir o que havia de errado com o amigo, o que o estava perturbando tanto.
"Lorde Elrond..." Ele disse atraindo o olhar do curador para o seu. "O que o está incomodando?"
Elrond suspirou quase imperceptivelmente, mas seus olhos estavam serenos.
"Seus ferimentos, menino." Ele voltou a segurar a mão do rapaz com ambas as suas. "Não estão cicatrizando propriamente."
Legolas franziu as sobrancelhas tentando entender.
"Seu espírito enfraquece." Continuou o mestre "Você precisa lutar."
Não houve mais respostas. Os olhares apenas se distanciaram e o silêncio voltou a imperar. Não havia mais só tristeza impregnando aquele ar, havia algo mais, havia medo. Um medo incontrolável que surgia de todos os cantos e afligia a cada um de formas diferentes.
"Estou assustado, meu senhor." Ele admitiu por fim. "Tenho receio do que está por vir... Se eu ficar bom. O que irá acontecer?"
"Você terá que enfrentar outros problemas." Concluiu o mestre deslizando suavemente os dedos pelas mechas do rapaz. "Mas você sabe que nós não te abandonaremos, criança. Você sabe que não está mais só."
O príncipe virou o rosto subitamente ao ouvir aquelas palavras que já o haviam comovido antes e que ainda tinham o mesmo efeito. Seus olhos encheram-se d'água e um aperto na garganta passou a incomodá-lo profundamente.
Elrond colocou a mão sobre o rosto do rapaz fazendo-o voltar a olhá-lo. Havia lágrimas novamente naqueles olhos azuis.
"Você sabe disso, não sabe?" Indagou o curador "Você não acredita que vamos deixar você a sua sorte, acredita?"
"Não." A resposta do jovem elfo saiu junto com um soluço.
"Então?" Elrond voltou a acariciar-lhe o rosto. Seu tom e seus gestos eram os mesmos de um pai que conversa com uma criança pequena que acaba de acordar de um pesadelo.
"Tenho medo, medo por vocês." Ele disse não querendo encarar os olhos do curador, mas não tendo escolha. As imagens dos amigos de sua patrulha voltavam a perturbá-lo "Não vou me perdoar se algo acontecer a vocês também como aconteceu com..."
Mas não pode terminar, nem foi necessário. O lorde elfo sabia bem o que o afligia e limitou-se a sorrir. Havia grande ternura em seus olhos. Legolas se sentia bem só em olhar para eles. Elrond não era só um curador de corpos, era um curador de almas. Todos os seus gestos, o toque de sua mão, o tom de sua voz, a direção de seu olhar, faziam parte da sua arte de cura, na qual ninguém em toda a Terra-Média conseguia superá-lo. Mas naquela noite havia algo além, uma mensagem oculta atrás das cortinas daquele olhar.
"Se você não melhorar nos próximos dias eu vou ter que levá-lo a Lothlorien." Declarou finalmente o curador. Sua voz era calma, mas suas palavras soavam como uma leve ameaça.
Os olhos azuis do príncipe arregalaram-se tanto que Elrond riu involuntariamente.
"Por quê?"
"Para que Galadriel me ajude a curá-lo. Os ares de Lothlorien são um bálsamo para os que sofrem de males do espírito. Se quiser podemos ir amanhã mesmo. Faço meus preparativos essa noite e..."
"Não!" Legolas teve um sobressalto e se sentou na cama sentindo muitas dores, mas não voltou à posição inicial. Elrond tentou fazê-lo deitar-se novamente vendo que ele estava meio zonzo por ter se levantado tão depressa e pelas dores que estava sentindo, mas o príncipe abanou a cabeça com força. "Não quero ir a nenhum lugar. Não posso ir... Não devia nem estar aqui... se meu pa... se o rei souber que estou aqui... se descobrir... imagine se eu for a Lorien... envolver outros elfos..." A mente do jovem corria mais do que um cavalo selvagem, ele olhava para todos os lados, apavorado imaginando o pai não só em guerra contra Rivendell, mas também contra Lothlorien, contra Celeborn que era outro elfo muito poderoso. O que aconteceria? Três reinos em guerra por causa de um jovem estúpido e imprudente que deveria estar morto em uma cova qualquer e não estar arriscando outras vidas assim.
Elrond percebeu que despertara um vulcão com suas palavras. Ele se levantou e tentou conter o rapaz que se agitava na cama e agora tentava se levantar.
"Legolas..." Disse buscando segurar o paciente sem ferir-lhe mais do que estava.
"Eu quero ir embora, meu senhor. Me deixe ir, eu lhe peço. Eu não quero ficar aqui."
Havia tanto desespero naquela voz que o curador sentiu seu coração acelerar-se junto com o dele.
"Legolas! Acalme-se! Está tudo bem!"
"Eu não quero!" Ele gritou empurrando Elrond e conseguindo se levantar, mas segurando repentinamente o ferimento e apoiando-se na cabeceira da cama. Havia um brilho de agonia e aflição em seus olhos. Elrond voltou a segurá-lo. "Não quero ficar aqui" Ele repetiu, com a voz mais fraca, estava sentindo dores terríveis. "Não quero... não quero..."
"E aonde quer ir, criança?" Elrond questionou.
Legolas começou a soluçar segurando mais forte o ferimento.
"Não quero ir a nenhum lugar." Ele declarou com uma voz triste e fraca. A dor tomando-lhe as últimas forças. "Quero morrer."
O rapaz soluçava e segurava o corte como se doesse muito agora, como se até chorar fosse doloroso, seus joelhos penderam e ele só não caiu porque Elrond o segurou colocando-o de volta na cama. Quando o curador olhou para ele percebeu que estava novamente desacordado, tinha usado todas as forças que podia e não podia usar. Ele lamentou ter causado aquele transtorno para o já tão debilitado elfo, mas não havia outra escolha, ele tinha que mostrar ao rapaz que não desistiria dele, que ao contrário do que o jovem pensava, ele não se sentaria em sua cabeceira e esperaria por sua morte. Sim, Legolas assumira o que Elrond já sabia, que ele queria morrer, que havia desistido, mas o lorde elfo não havia desistido dele ainda e não chegaria esse dia. Se preciso fosse ele faria exatamente o que ameaçara. Ele tinha falado bem sério quando dissera ao rapaz que por ele enfrentaria toda a Terra Media. E não se importaria em pedir ajuda de outros elfos para isso. O que ele não permitiria de forma nenhuma era que uma vida brilhante como a do jovem Legolas se perdesse por causa do orgulho e da austeridade de um elfo sem visão como Thranduil.
