Olá. Aqui vai mais um capítulo. Queria avisar que a história vai mudar de rumo nos próximos capítulos, mas algumas coisas ainda precisam ser esclarecidas nesse e no próximo capítulo que espero ter pronto nesse fim de semana ainda. Queria agradecer muito às pessoas que ainda estão enviando suas revisões. É muito bom saber que alguns continuam lendo. Espero não decepcioná-los.

Lady-Liebe: Obrigada pela review. O esclarecimento sobre o mistério do livro vem no capítulo 7, certo? Mas ele ainda vai ter um papel muito importante até o final da estória.

Kagura Bakura: Obrigada pelos comentários. Fico sempre feliz em achar uma mensagem sua na minha caixa.

Grande abraço.

* 6 *

Elrohir deslizava seus olhos pelas linhas do grande livro vermelho como uma criança diante de uma mesa de doces. Elrond finalmente o havia chamado para ficar com Legolas aquela noite. Ele estava grato pelo irmão mais velho não tê-lo questionado sobre o porquê de seu desejo de querer continuar guardando o sono do amigo de Mirkwood por mais uma noite, mas Estel estava intrigado como se desconfiasse de algo. Estel sempre desconfiava de tudo que não entendia e isso era uma grande qualidade. Mas não naquele momento.

A manhã já estava se aproximando e os primeiros perfumes e sons matinais presenteavam os sentidos do filho de Elrond que se ajeitava em sua poltrona e virava mais uma página displicentemente. Era uma sensação indescritível poder estar manuseando aquele livro e esperar pela oportunidade fora um suplício. No entanto, naquela noite o prazer de infringir algumas regras e arriscar uma ação totalmente inesperada não fora tão recompensador quanto ele imaginava que seria.

Vez por outra o belo elfo havia se erguido e se aproximado do paciente cujo sono naquela noite tinha sido mais agitado do que o normal. Várias vezes ele teve que acalmá-lo com palavras suaves para assegurar-lhe de onde estava e que tudo estava bem. Pesadelos pareciam incomodar o arqueiro de Mirkwood.

Por coincidência no exato momento em que Elrohir dissecava esses pensamentos preocupado, questionando-se sobre o que poderia estar transtornando o jovem amigo mais do que o de costume, ele ouviu novamente uma voz atormentada vinda do leito pronunciando as mesmas palavras de desespero.

"Não, eu não quero ficar aqui. Me deixe ir."

Elrohir largou o livro e aproximou-se da cabeceira colocando uma mão na testa de Legolas como fizera inúmeras vezes desde que Elrond deixara o quarto. Muitas vezes só a sensação do toque amigo já afastava o que quer que o estivesse atormentando, mas aquele momento parecia pedir uma atitude diferente. O corpo de Legolas tremia e seus punhos cerrados pareciam presos ao colchão.

"Não, por favor..."

Elrohir respirou fundo pensando na atitude mais sensata a tomar.

"Paz, mellon nîn." Ele disse numa voz branda, buscando mais uma vez afastar a escuridão que parecia estar tentando aprisionar o arqueiro. "Está tudo bem. Você está em casa."

"Não." Continuava o outro sem sentir as palavras de conforto do amigo. "Não faça isso, Ada. Eles não têm culpa. Foi culpa minha..."

"Legolas!" Elrohir o sacudia de leve agora. Ouvir o rapaz mencionar o pai fez com que o filho de Elrond sentisse um frio na espinha. Provavelmente o pesadelo era pior do que se podia imaginar e era preciso acordá-lo, já que parecia não haver condições de ajudá-lo a simplesmente abandonar o sonho ruim. "Legolas ouça a minha voz! Venha para a luz!"

O corpo do elfo louro se agitava na cama. Ele sacudia a cabeça para os lados e erguia o peito mantendo os braços estendidos.

"Não faça isso, Ada... Por favor..."

Seu peito arfava agora e a cor fugia de seu rosto, ele sacudia a cabeça com força fazendo com que muitas mechas de cabelo lhe cobrissem o rosto. O elfo moreno colocou ambas as mãos nos ombros do amigo sacudindo-o com um pouco mais de força.

"Legolas!" Chamou mais uma vez, uma aflição crescendo em seu coração. "Mellon nîn! Saia daí! É um pesadelo! É só a escuridão tentando abraçá-lo! Ouça minha voz! Ouça! Venha para a luz!".

O som daquelas palavras pareceu fazer um efeito súbito. O arqueiro parou de debater-se, mas ainda estava ofegante.

"Elrohir?" Ele chamou em um tom apavorado. Não parecia ter despertado.

"Sou eu, mellon nîn. Estou aqui. Siga minha voz. Está tudo bem. Venha para a luz."

"Não." A resposta do paciente foi tão veemente que chegou a assustar o amigo. "Elrohir, me ajude, por favor! Não deixe que façam mal a eles. Eles não têm culpa."

O gêmeo mordeu o lábio apreensivo. Não estava conseguindo despertá-lo daquele pesadelo que parecia terrível. Analisou mais uma vez o estado do arqueiro cujo corpo havia voltado a tremer. Só que agora Elrohir parecia tremer com ele devido à apreensão que sentia por não saber como agir.

"Legolas!" Ele tentou mais uma vez elevando ligeiramente seu tom de voz e sacudindo os ombros do amigo com mais força. "É a escuridão! São mentiras que a escuridão está criando para te atormentar! Siga a minha voz, mellon nîn! Venha para a luz!

"Não!!!" Gritou Legolas erguendo o corpo subitamente, empurrando o amigo que caiu por sobre o colchão e olhando para todos os lados com os olhos arregalados de pavor. "Não! Parem!! Não!!!"

Elrohir recuperou-se de imediato e voltou a segurar o elfo pelos ombros tentando fazê-lo deitar-se.

"Paz, Legolas!" Ele pediu segurando o amigo com mais força do que desejava fazê-lo, mas sendo obrigado, já que Legolas parecia fora de si. "Você está em Rivendell. Está tudo bem agora."

O jovem de Mirkwood ainda agitou-se mais alguns instantes mesmo sendo segurado por Elrohir. Seus olhos continuavam abertos e havia neles uma expressão de puro pavor. O rosto se contorcia como se estivesse tento uma visão medonha. Mas de repente seu o corpo parou de se agitar. Ele fixou os olhos nos de Elrohir e deixou caírem os braços. O elfo moreno não sabia se o outro estava ou não acordado.

"Eles estão mortos".Foram as palavras do arqueiro. O peito ainda arfava e ele mantinha os lábios sem cor ligeiramente separados, tentando buscar um pouco de oxigênio que parecia faltar-lhe. Havia um brilho estranho em seu olhar e sua voz demonstrava uma grande dor. "Estão mortos...".

"Quem?" Perguntou o outro colocando as mãos no rosto do amigo e olhando firme para aqueles dois cristais azuis.

"Todos".Ele respondeu simplesmente soltando um suave suspiro.

 Elrohir também suspirou e desceu as costas de uma das mãos pela face do amigo enxugando uma lágrima que caia, mas outras seguiam a primeira.

"Está tudo bem. Foi só um sonho ruim." Ele disse segurando as mãos do elfo. "Um sonho ruim onde você não me confundiu com meu irmão." Adicionou ele com um sorriso.

A brincadeira terminou de despertar Legolas que olhou confuso a sua volta. Parecia tão perdido que o coração de Elrohir doeu ao olhar para ele. Lágrimas ainda caiam de seus olhos involuntariamente e suas mãos tremiam. O sonho devia ter sido mesmo muito real. O gêmeo sentiu pena do estado de abandono no qual o amigo parecia estar. Levantou-se e voltou a se sentar atrás dele na cama, encostou-se na cabeceira e puxou Legolas para se apoiar em seu peito. O outro não resistiu deixando seu peso cair levemente sobre o do amigo que enlaçou sua cintura com os braços, segurando-lhe as mãos.

"Você teve um sonho ruim. Não pense mais nisso, está bem?".

Legolas recostou a cabeça no ombro do amigo tentando parar de tremer. Estava novamente com aquele sentimento que o fazia julgar-se a pessoa mais frágil do mundo. Tinha a impressão de que, nos últimos dias, tudo o que conseguia fazer era chorar e ser consolado como uma criança abandonada. Quando aquilo ia acabar?

As imagens do sonho ruim que tivera tremulavam diante dele. Os amigos que se foram, os amigos que estavam se arriscando agora por ele e outros amigos que porventura viriam a se envolver também para tentar ajudá-lo. Todas aquelas figuras somadas a do Rei Thranduil geravam uma mistura que apavorava o arqueiro terrivelmente. Lembrou-se então da conversa que tivera com Elrond e voltou a sentir seu coração acelerar. E se Elrond realmente o levasse a Lothlorien? Ele não tinha como resistir se o mestre decidisse fazê-lo. O elfo repassou todos os pontos da conversa enquanto segurava as mãos de Elrohir com mais força sem perceber. Ele sabia o que o mestre queria que ele fizesse e era o que ele ia fazer. Ele ia se recuperar e sair daquela cama acontecesse o que acontecesse. Era o único caminho que ele podia tomar, mesmo que isso significasse ter que voltar a viver no exílio a que fora condenado.

Elrohir sentiu a tensão no corpo do amigo e preocupou-se ainda mais. Não sabia como ajudá-lo e tinha medo de questioná-lo a respeito do pesadelo que tivera. A única coisa que o irmão de Aragorn queria agora era afastar o amigo Legolas de qualquer pensamento ruim que pudesse estar tentando tomar-lhe o pouco de paz que restava.

"Quer que eu cante para você?" Ele ofereceu.

Legolas gostou da idéia. A voz de Elrohir era uma das mais belas do reino apesar dele nem sempre estar disposto a brindar os convidados nas festas de Elrond com algumas de suas canções. Elrohir, apesar da postura sempre bem humorada, não era muito inclinado a exibicionismos ou coisas do gênero e por mais que os outros garantissem a ele que suas canções eram as mais belas de todo o reino o elfo apenas rebatia o elogio com um gracejo qualquer e buscava uma oportunidade de escapar do pedido. Legolas ficou comovido com a consideração daquele amigo a quem ele queria como um irmão.

"Quer?" Insistiu o outro mais uma vez com um ar debochado. "Não são todos que têm a oportunidade de ouvir minhas belas canções, cujos temas variam entre o nada e o coisa alguma... Você vai ser invejado".

O arqueiro não pode conter uma risada. Lá ia Elrohir novamente esconder-se atrás do seu já tão surrado manto do sarcasmo e do deboche. Legolas então soltou um longo suspiro e apertou as mãos do amigo nas suas tentando conter algumas lágrimas que ainda teimavam em trilhar seu caminho no rosto do rapaz. Seu corpo ainda tremia levemente. Sim. Ouvir Elrohir cantar seria uma benção.

"Você cantaria para mim aquela canção que fez para Lorde Elrond?" Ele pediu finalmente.

Elrohir ergueu os olhos ao se lembrar. Era uma canção que fizera para homenagear o pai. Ele se lembrava bem do olhar de Elrond no meio do salão quando ele a cantou pela primeira vez. Todos tinham achado estranho a boa vontade do gêmeo mais novo em atender aos já tão repetitivos pedidos quase que de imediato. Eles sabiam que o rapaz tinha uma carta na manga, só que Elrond não pensava que fosse uma carta tão bela. Sim. Ele se lembrava bem daquele dia, todos se lembravam até hoje, pois foi o dia em que seu pai chorou em público. Ele pensou que Elrond fosse puxar-lhe a orelha quando acabou de cantar e viu o curador se aproximar com os olhos ainda úmidos, mas tudo que o pai fez foi apertar-lhe nos braços por um longo tempo sem uma palavra sequer e quando pediu que o ele dissesse algo Elrond apenas respondeu que naquela noite ele não queria ouvir mais nada, nem o som de sua própria voz. Ele queria apenas ficar com a voz do filho e aquelas belas palavras na sua mente até o amanhecer. Depois disso o Lorde de Imladris se retirou e ninguém mais o viu até o dia seguinte.

Sim. Era uma bela canção. Elrohir pensou sentindo as pontas dos lábios se erguerem num leve sorriso.

Mas em seguida um pensamento ruim lhe veio a mente.

"Não acho uma boa idéia, Legolas".Ele declarou subitamente.

O príncipe ergueu-se e voltou-se para encarar o amigo. Seu rosto pálido ainda guardava as marcas da dor que acabara de sentir e de outras que pareciam ainda estar lhe atormentando.

"Por quê?".

"Você sabe." Respondeu simplesmente o elfo de Rivendell puxando-o de maneira branda para que se recostasse novamente em seu peito, mas o arqueiro relutou mantendo o olhar sofrido no do amigo.

Elrohir suspirou profundamente e apertou os lábios.

"Uma canção que fiz para meu pai, que fala sobre o quanto eu o admiro, o quanto o amo e sinto orgulho em ser seu filho..."

"É muito bonita, Elrohir." Atestou Legolas desviando seu olhar como se a estivesse escutando. "É minha favorita."

O gêmeo mais novo apenas balançou a cabeça sorrindo. Ele sabia que Legolas tinha um coração sincero e por isso mesmo ouvi-lo dizer que a música que ele tinha composto era sua favorita o enchia de orgulho e alegria. Mas um outro porém o estava preocupando.

"Você vai lembrar-se de seu pai."

Legolas ainda fixou seus olhos nos do amigo por mais alguns instantes como se não tivesse entendido, mas depois os baixou tristemente. Elrohir tinha razão. Talvez seu subconsciente até quisesse saborear algumas lembranças, por isso o desejo de ouvir a canção veio à tona. Mas as preocupações do amigo tinham fundamento e ele tinha que concordar que não seria sábio arriscar-se a amargar mais uma dor.

Então ele desviou seu olhar para a varanda com pesar, mas o gêmeo puxou-o novamente para recostar-se nele e dessa vez Legolas não resistiu. Os dois ficaram ali calados por alguns instantes. O príncipe olhava o quarto cujo sol estava finalmente abençoando com os primeiros raios matinais. Foi quando viu o livro vermelho que o curador procurava jogado na camiseira ao lado da poltrona.

"Que tal ler pra mim?" Ele sugeriu num sorriso tentando erguer o corpo e voltando seus olhos para o amigo que procurava entender a sugestão.

"Ler?" O gêmeo repetiu sem compreender.

Legolas virou a cabeça e olhou para o volume de letras douradas, depois voltou a encarar o amigo.

Elrohir acompanhou seus movimentos e finalmente entendeu. Um sorriso malicioso tomou-lhe os lábios e ele correu então para pegar o volume trazendo-o de volta para a cama. Ajeitou outros travesseiros para que Legolas conseguisse um pouco mais de conforto e sentou-se na frente dele chutando os sapatos e cruzando as pernas por sobre o colchão.

Legolas não pode deixar de sorrir ao ver o ar de criança travessa estampado no rosto do elfo de Rivendell. Era uma das inúmeras máscaras que ele usava para esconder o bom coração que tinha e todos sabiam disso, por isso se deliciavam com suas traquinagens e provocações, mesmo quando eram as próprias vítimas delas.

"Pare de fazer suspense e me diga logo que livro abençoado é esse!" Insistiu o paciente respirando fundo para tentar relaxar e esquecer as dores que haviam voltado.

Mas o ar de sofrimento do rosto do amigo não passou desapercebido pelo companheiro.

"Está sentindo dor?" Indagou Elrohir demonstrando uma autêntica preocupação.

"Não, estou bem".Mentiu o outro. Não queria mais olhares de piedade voltados para ele. "Pare de me lograr e me diga que livro é esse".

Elrohir franziu os olhos, desconfiado. Sabia que Legolas estava mentindo. Ele havia se agitado muito durante o sono e podia ter aberto algumas das feridas. O gêmeo analisou profundamente as feições no rosto do elfo de Mirkwood e percebeu que havia traços de sofrimento nelas por mais que o amigo tentasse esconder.

Sem pensar duas vezes, levantou-se, calçou os sapatos e voltou a esconder o livro por baixo do colchão de Legolas. Atônito o elfo louro acompanhava os movimentos dele procurando compreender o que se passava.

"Deixe-me ver seus curativos primeiro".Pediu Elrohir tentando puxar os lençóis da cama do paciente, mas Legolas segurou-os e se opôs veementemente mostrando indignação.

"Elrohir! Se não me mostrar agora, vou contar tudo a Lorde Elrond assim que ele cruzar essa porta".Ameaçou tentando conter o riso. Ele não era muito bom nesse tipo de chantagem.

"Eu corro o risco".Provocou o outro puxando o lençol novamente, mas ainda sendo impedido pelo dono do leito.

"Não é justo." Objetou o outro inconformado, mas cedendo depois da terceira tentativa, estava sem forças para resistir a pressão do amigo.

Elrohir riu ao constatar o óbvio.

"Eu sempre venço!" Provocou ele. "Você não tem nenhuma chance comigo, nunca teve e nunca terá."

Legolas colocou as mãos sobre o peito e balançou a cabeça sorrindo, inconformado. Por essas e outras afirmações é que o gêmeo sempre acabava ganhando alguns arranhões e hematomas de presente dos irmãos. Mas o príncipe nunca cedia aos argumentos provocativos do amigo e, por isso mesmo, poucas vezes era vítima deles.

O sorriso de Elrohir, porém, permaneceu por pouco tempo em seu rosto, sendo substituído por uma súbita palidez. Legolas assustou-se com o ar dele.

"O que foi?".

Não foi preciso nenhuma resposta. O arqueiro por si só já localizara o problema. Ele ergueu as mãos e viu que estavam machadas de sangue. Baixou os olhos e constatou que praticamente todos os curativos de seu peito continham nódoas vermelhas assustadoras.

"Vou chamar meu pai." Decidiu o amigo. "Não se mexa."

"Não!" Pediu o elfo segurando a mão do rapaz. Ele não queria que Elrond soubesse de seu estado. E se ele decidisse levar adiante o plano que mencionara? "Está tudo bem. É só trocar os curativos."

"Nem pensar, Legolas. Isso é sério". Elrohir tinha um ar que Legolas nunca tinha visto antes. Estava realmente preocupado. Ele desprendeu-se das mãos do amigo e correu pelo corredor até o quarto do pai entrando sem pedir licença. Mas Elrond não estava lá. Provavelmente estivesse na biblioteca ou em seu escritório. Abandonou o recinto vazio sem fechar a porta e quase atropelou Erestor que subia com algumas caixas.

"Meu pai?" Ele perguntou.

"Na varanda, lendo." Informou o outro tentando entender o olhar assustado do gêmeo mais novo do mestre curador.

Elrohir quase rolou as escadas com sua pressa. Chegou à porta e chamou pelo pai sem se dar ao trabalho de chegar até a varanda. Elrond, que passara a noite olhando algumas estrelas e agora tentava distrair-se lendo um livro de canções antigas, assustou-se e correu ao encontro do filho.

"O que há, criança?" Perguntou ele ao ser puxado pelo jovem sem nenhuma diplomacia.

"Legolas está sangrando".Disse ele já sem fôlego. "Ele se mexeu muito no sono, teve pesadelos...".

Elrond nem o deixou terminar, desfez-se das garras do rapaz e correu escada acima até o quarto do príncipe, sendo seguido pelo filho. Entraram quase ao mesmo tempo, mas encontraram o cômodo vazio.

"Onde ele está?" Indagou Elrohir surpreso e olhando para todos os lados.

"Você o deixou sozinho?" Inquiriu o pai correndo até a varanda e olhando para baixo.

O rapaz não respondeu. Ele queria argumentar, explicar o porquê, mas estava tão preocupado que sequer conseguia encontrar as palavras.

Naquele momento Estel entrou no quarto acompanhado por Elladan. Os dois se olharam confusos e depois perguntaram quase em uníssono.

"Onde está Legolas?".

Estel aproximou-se da cama e viu que havia sangue nos lençóis. Virou-se preocupado e irritado por não receber uma resposta. O pai e o gêmeo mais novo olhavam pela sacada. Elrond colocou uma das mãos na testa procurando recuperar o senso e pensar. Ele sabia que Legolas estava ferido, muito fraco, não poderia ter ido longe.

"Vão procurar pela casa".Ele ordenou.

"Não!" Gritou Estel entendendo a situação em parte e segurando o irmão pelo braço quando este já estava quase na porta. "Eu sei onde ele está".

Dizendo isso o guardião aproximou-se da sacada e olhou os galhos da árvore acima. Elrond sentiu-se um tolo. Em seu desespero não lhe ocorrera o mais obvio. Para onde poderia ir um elfo da floresta senão procurar conforto em algum lugar amigo.

"Consegue vê-lo?" Perguntou o pai colocando uma das mãos no ombro do filho e olhando na mesma direção.

"Não." Suspirou Aragorn apertando os olhos para conseguir um foco melhor. "Mas ele está lá. Posso sentir. Ele se camufla nos galhos e folhas, é muito experiente nisso. E..." ele fez uma grande pausa e suspirou novamente "e ele adora essa árvore."

Um sentimento estranho invadiu o coração do curador enquanto ele tentava localizar o rapaz por entre os galhos repletos de folhas que possuíam todos os tons de verde. Era uma das árvores mais belas de Rivendell. Na primavera os abençoava com flores vermelhas que inundavam os cômodos de um doce perfume, sendo que o quarto do príncipe era um dos mais privilegiados por aquela boa vontade da natureza. Ele sabia que Estel estava certo. Também conseguia sentir a presença do elfo ali embora não o conseguisse ver. Sua mente estava confusa sobre o porquê do rapaz tentar se esconder assim.

"Ele não queria que eu chamasse o senhor, Ada".Declarou Elrohir como se tivesse escutado os pensamentos do pai. "Ficou insistindo que bastava que trocássemos os curativos."

As palavras do filho trouxeram a resposta que Elrond buscava. Seus lábios desprenderam-se e um som incompreensível saiu de sua boca. Estel olhou para ele intrigado, mas estava preocupado demais para pedir maiores explicações.

"Vou subir lá!" Ele decidiu. Já tinha perdido a paciência.

Elrond segurou o braço do caçula.

"Deixe-me falar com ele. Ele vai descer. Só está assustado."

"Com o quê?" Indagou o guardião confuso.

"Com algo que eu disse a ele".Confessou o curador.

"O quê, Ada? Vocês andam cheios de mistérios!" Desabafou Aragorn sem se conter. Aquela situação estava mexendo com seus nervos e ele não conseguia mais agüentar.

Elrond não respondeu. Apenas pediu um pouco de espaço na sacada e aproximou-se mais da árvore olhando para sua copa e ainda tentando localizar o rapaz. Estel soltou os braços e sacudiu a cabeça com força afastando-se e andando pelo quarto, Elrohir aproximou-se e o segurou pelos ombros oferecendo consolo e de certa forma se garantindo que o caçula não fosse tomar nenhuma atitude impensada. Os irmãos ouviram então a voz de Elrond ecoar suavemente na sacada.

"Legolas. Venha, menino! Você sabe que eu não vou fazer nenhum mal a você. Nem vou permitir que nenhuma grande tragédia assole o nosso povo. Se eu tomo as atitudes que tomo é porque minha experiência me permite fazê-lo. Eu não tive intenção de assustá-lo."

Os três filhos se agruparam perto da porta da sacada sem entender do que o pai estava falando. Muito tempo se passou sem que ninguém ouvisse um ruído sequer. Todos começaram a se questionar se o rapaz estaria mesmo no local imaginado.

"Você não confia mais no meu julgamento, criança?" Indagou o curador e sua voz parecia fazer parte da brisa da manhã.

Foi quando se ouviu um leve suspiro.

"Confio, meu senhor." Respondeu uma voz por entre os galhos.

Os irmãos apertaram a vista para tentar ver de onde vinha, mas ainda não conseguiam.

"O que são esses elfos de Mirkwood? Camaleões?" Indagou Elrohir não conseguindo perder a chance de fazer um gracejo, mesmo numa situação daquelas.

Elladan e Estel se olharam e não puderam conter o riso. Mas depois voltaram a procurar a imagem por trás daquelas palavras.

Mas Elrond já o tinha visto. De fato ele não tinha conseguido ir muito longe. O mestre apenas esticou o braço e já conseguiu segurar no pulso do rapaz. Todos fizeram um ar de surpresa quando perceberam o quão perto ele estava deles e ninguém o havia visto. Mas Legolas relutou em deixar sua posição original.

"Venha, criança." Incentivou o curador num tom amigável. "Vai ficar tudo bem."

Mas o arqueiro não se moveu, apenas mantinha seus olhos assustados nos do curador. Elrond sorria suavemente para ele e acariciava seu punho com a ponta dos dedos.

"Confie em mim." Ele pediu mais uma vez.

"Por favor, meu senhor. Não me leve para Lothlorien." Ele implorou traduzindo finalmente seus receios em palavras. Eram apenas dois olhos azuis no meio de um mar de folhas verdes, sua voz estava muito fraca.

"Você não precisa temer essa viagem. Você sabe disso."

"Por favor, meu senhor. Eu imploro".

Elrond apertou os lábios. Sabia que se fizesse a promessa que o elfo queria ouvir estaria diminuindo muito suas chances de recuperação. Ele temia que, sabendo que Elrond não o levaria a lugar algum, o rapaz se entregasse para a escuridão definitivamente. Seu corpo estava cansado e muito ferido e seu espírito enfraquecia dia a dia. Ele precisava de algo que o mantivesse tentando se recuperar, nem que fosse o temor de ser levado para Lothlorien e colocar involuntariamente outro reino élfico na mira de seu pai.

"Você não precisa ir, menino. E você sabe disso".

Legolas sabia o que o mestre queria dizer com aquelas palavras. Mas ele não podia dar a garantia que Elrond queria. Ele não sabia se conseguiria continuar. Seu caminho parecia mais árduo e sinuoso e ele tropeçava a cada passo que dava.

"Tenho medo, senhor. Não sei se vou conseguir. Estou cansado. Tenha piedade de mim, por favor. Não me peça o que não posso mais cumprir, não me obrigue a me sentir mais culpado do que já me sinto".

Elrond fechou os olhos diante das súplicas do rapaz. Era difícil não ceder. Era difícil não agarrar aquele menino ali mesmo e fazer todas as promessas que ele desejava ouvir.

Foi quando Estel deu um passo para frente e colocou-se ao lado do pai. Ele finalmente entendera o que Elrond estava intencionado a fazer. Colocando uma mão nos ombros do curador ele também encontrou os olhos brilhantes de Legolas por entre as folhas. O rapaz não conseguiu olhar o amigo, virando o rosto com grande vergonha. Sentia-se um fraco, pedindo misericórdia por não se julgar mais capaz nem de conduzir sua própria vida. Não conseguia imaginar no que havia se tornado, mas sentia-se distante de ser um elfo de verdade.

 "Venha, mellon nîn." Implorou Estel estendendo a mão e segurando o outro pulso de Legolas. O elfo apavorou-se ao perceber que agora estava preso.

"Vai ficar tudo bem. Ninguém vai lhe fazer mal." Assegurou o amigo.

Apesar de terem o jovem seguro em suas mãos agora, nem pai, nem filho queriam forçar o rapaz a tomar uma atitude contra sua vontade. Ele já tinha muitos traumas com os quais lidar e arrancá-lo a força de um lugar onde ele se julgava protegido não seria de grande ajuda no momento.

"Ninguém vai lhe fazer mal." Repetiu a voz de Aragorn que ecoou na mente do elfo fazendo seus olhos franzirem-se de ódio, ódio de si mesmo.

"Eu sou o mal." Afirmou Legolas por entre os galhos. "Vocês não entendem? EU SOU O MAL!!!" Ele gritou usando suas últimas forças. "EU CARREGO O MAL PARA ONDE VOU... EU VOU TRAZER O MAL ATÉ VOCÊS!!!"

Aquelas palavras pesaram no coração dos presentes. Os gêmeos se entreolharam e baixaram suas cabeças. Estel deixou o queixo cair perplexo. Mas Elrond não se alterou. Ele simplesmente esticou o outro braço e segurou o punho que já detinha com ambas as mãos, capturando o olhar do elfo de Mirkwood no seu.

"Você não tem culpa do que aconteceu, criança." Sua voz soava como se no mundo agora só houvesse ele e o rapaz. "É fato que o mal trilha o seu caminho, infelizmente, isso eu posso ver e também enche meu coração de temor. O mal está a sua espreita como já esteve várias vezes e como estará espreitando o caminho de qualquer ser que anseie e tenha coragem de lutar por justiça. E você tem lutado bravamente, Legolas. Você tem arriscado tudo em todas as situações. Você nunca fez distinção quando quis fazer o bem e isso é uma qualidade das mais raras, qualidade essencial nos dias de hoje quando temos que enfrentar o mal escondido e disfarçado nas mais diferentes formas possíveis e imagináveis. O mal está a sua espreita, mas não pode tocá-lo e é isso o que ele mais quer, ele quer tocá-lo, quer que todos os justos façam parte de sua teia, ele quer o seu espírito, filho. Não o deixe abraçá-lo, não baixe seu escudo, lute!"

Os olhos do rapaz se fecharam quando Elrond terminou seu pensamento. Elrohir e Elladan aproximaram-se devagar, tinham os olhos cheios d'água, mas estavam dispostos a fazer o que fosse preciso para tirar o amigo de lá. Estel olhou para o pai apreensivo. No rosto reflexos da dor que sentia e da emoção das palavras que ouvira. Elrond só fez-lhe um sinal com a cabeça e voltou o rosto para a árvore. Eles iam tirá-lo de lá agora e o guardião entendeu bem o recado.

Puxaram o amigo devagar e ele não resistiu mais. Quando chegou a sacada Estel tomou-lhe nos braços e entrou, Elladan adiantou-se e foi ajeitar os lençóis da cama. Arrancou com força o lençol manchado de cima e atirou-o no chão. Estel colocou o amigo por sobre a coberta que restara e ainda estava intacta e começou a abrir-lhe a túnica. Elrond dessa vez só assistiu aos filhos cuidarem do paciente. A experiência dos dois o confortava e ele julgou que fosse conveniente afastar-se naquele momento da visão do elfo, que talvez estivesse involuntariamente associando alguns de seus temores à imagem do mestre. Seu coração se entristecia em saber que o amor do rapaz por ele poderia estar comprometido devido às atitudes que tivera de tomar. Eram os traços do mal, que povoava o mundo e torturava as criaturas, que ele também estava sentindo naquele momento. E era um sentimento difícil de tratar, até para ele que julgava já ter vivido o bastante.

Uma mão pousou em seu ombro. Era Elrohir oferecendo-lhe um sorriso triste. Elrond percebeu que o rapaz estava abalado com tudo aquilo, provavelmente sentindo-se culpado por tudo ter acontecido enquanto Legolas estava sob sua guarda. O Lorde abraçou o filho pela cintura e deu-lhe um beijo no rosto, sentindo-o tremer um pouco com a demonstração de afeto recebida. Colocando então uma das mãos por sobre a cabeça do jovem, ele o conduziu a apoiá-la em seu ombro por alguns momentos, dizendo-lhe algumas palavras de carinho.

CONTINUA...