Olá, novamente!
Conforme prometido aqui vai o capítulo 7 e o esclarecimento sobre o livro... bem, pelo menos em parte.
A história tende agora a tomar outro rumo, afinal Legolas não pode ficar numa cama eternamente, não é? Ele tem muita coisa para resolver.
Um zilhão de obrigados para as pessoas amáveis que estão mandando suas reviews com as impressões que estão tendo. Obrigada mesmo!!!
Agradecimentos especiais, como sempre a Lady-Liebe (sempre muito bom receber seu email) e a Kagura Bakura (obrigada por deixar sempre uma review). Vocês são pessoas adoráveis. Agradeço também a Mirtraa com quem tive a oportunidade de conversar (você é muito simpática).
Grande abraço e vamos ao capítulo 7.
7
O dia passou sem que Legolas despertasse. Elrond e seus filhos simplesmente não conseguiram deixar o ambiente por muito tempo. O coração de todos estava muito pesado e a preocupação com o futuro do amigo de Mirkwood ultrapassava a barreira do suportável. Eles sabiam que deviam fazer algo, mas não sabiam o que. Elrond ausentou-se algumas vezes do cômodo para tratar de assuntos quando foi chamado, mas não obrigou os filhos a irem a parte alguma. Ele mesmo não conseguia sair de lá por muito tempo.
Naquela noite, justamente como na primeira, todos permaneceram no quarto velando pelo sono do rapaz que também não fora tranqüilo. Aragorn havia colocado sua cadeira bem próxima da cama para que conseguisse alcançar o amigo apenas esticando os braços. Mas não estava encostado nela agora, havia pendido o corpo para frente e deitado a cabeça sobre o colchão segurando a mão do elfo. O rapaz tinha se agitado muito durante a noite, mas, ao contrário da véspera, ele nada dizia, apenas movia a cabeça para os lados e sua respiração acelerava-se ligeiramente. Naqueles momentos Aragorn chamava-lhe o nome, alisava-lhe os cabelos e ele continuava a dormir com os olhos fechados.
Elrond estava de pé na sacada olhando as mesmas estrelas da véspera. Uma sensação estranha assolava-lhe o coração e ele não conseguia entender a visão que o estava perturbando. O poder profético que possuía fora sempre um incômodo. As imagens vinham em sua mente, mas quando elas chegavam a fazer algum sentido muitas vezes já era tarde. E naquela noite uma imagem o estava incomodando e ele não conseguia compreendê-la. Ele via o jovem Legolas cavalgando um belo corcel negro por entre pastagens muito verdes. Porém o animal estava selado como se fosse um dos cavalos que Estel usava em suas jornadas para o norte. O rapaz tinha os cabelos e uma parte do rosto escondidos numa espécie de capuz e estava praticamente em pé na sela sussurrando palavras ao ouvido do animal. Parecia pedir-lhe que fosse mais depressa. Ele não usava as rédeas nem o chicote embora Elrond pudesse vê-los. Apenas continuava alisando o pescoço do amigo eqüino, incentivando-o a ir o mais depressa que podia. Algumas vezes olhava para trás assustado como se estivesse sendo perseguido ou esperasse que alguém o seguisse. Mas a imagem sumia entre outros pensamentos e Elrond não conseguia entender seu significado.
Voltando-se devagar, ele caminhou a passos leves para dentro do quarto. Já era amanhecer e ele não havia se sentado ou descansado por um momento sequer. No canto da porta Elrohir dormia desajeitadamente na mesma poltrona na qual gostava de ficar. A cabeça pendida para o lado, os braços abraçando os joelhos. Estava encolhido como se sentisse frio. Elrond passou os dedos pelos negros fios de cabelo do rapaz suavemente para não acordá-lo.
Elladan lia um livro sobre ervas numa cadeira perto da porta. Tinha levado o pequeno lampião para perto dele e decidira sentar-se longe dos demais para que a luz não incomodasse a ninguém. Elrond sabia que o filho estava apreensivo pela maneira com que olhava os desenhos e as letras do livro. O rapaz já o havia lido centenas de vezes e era um dos seus favoritos, mas naquele momento o volume parecia apenas algo com o qual ocupar as mãos e disfarçar a ansiedade. O elfo virava as folhas rapidamente sem se ater a nenhuma figura ou assunto por muito tempo. Nem havia visto o curador se aproximar, mas quando percebeu que o pai o observava esboçou um leve sorriso. Elrond deslizou as costas da mão pela face do primogênito e fez o mesmo.
Continuando a caminhar pelo quarto o lorde elfo aproximou-se da cama onde Estel já estava adormecido com uma parte do tronco sobre o colchão, a mão ainda segurava a do príncipe. Elrond alisou-lhe os cabelos e o guardião se mexeu um pouco, mas continuou dormindo. Então o curador deu a volta em torno da cama e puxou outra cadeira para bem perto dela, sentando-se e analisando as feições do paciente no leito. A cor havia sumido completamente dos lábios do elfo de Mirkwood e grandes anéis escuros se formavam abaixo dos olhos dele. Elrond suspirou e apoiou levemente a mão por sobre a que o rapaz mantinha no peito. Mas para sua surpresa Legolas abriu os olhos imediatamente e fixou-os no mestre.
"Perdoe-me, filho".Desculpou-se Elrond num sussurro para não acordar os outros. "Não tinha a intenção de perturbar seu sono".
O olhar do elfo louro parecia distante. Grandes olhos azuis fixavam o mestre curador com um brilho que os fazia parecer duas das estrelas que Elrond observara durante a noite. Mas Legolas não disse nada, somente segurou a mão que se apoiava na sua fazendo uma leve pressão e, mantendo-a assim próxima ao peito, voltou a dormir.
Os lábios de Elrond formaram um leve sorriso. Legolas não guardara nenhuma mágoa dele e isso aquietava seu coração. Chegou então a pensar que talvez aquela imagem que ele vira fosse reflexo de seus próprios temores. Talvez elas simbolizassem o que ele achava que o rapaz queria fazer. Talvez...
O dia amanheceu e o cantar dos pássaros foi despertando Rivendell e seus habitantes. Ruídos começaram a ser ouvidos pela casa e o agradável cheiro de pão fresco e chá temperava aquela manhã ensolarada.
Elrond levantou-se e foi acordar Estel que parecia estar numa posição muito incômoda na cama de Legolas. O guardião sobressaltou-se e olhou imediatamente para o amigo no leito.
"Está tudo bem, ion nîn" Garantiu o pai massageando-lhe as costas suavemente com a palma da mão. "Por que você não vai se banhar e comer algo? Foi uma longa noite."
Aragorn, ainda confuso como sempre ficava quando acordava e não sabia bem onde estava ou o que tinha acontecido, demorou um pouco a entender a sugestão do pai e ficou olhando a sua volta, provavelmente reconstruindo a cena da véspera em sua mente. Depois olhou novamente para Legolas e suspirou.
"Quero ficar com ele, Ada." Disse por fim voltando a segurar a mão do amigo. "Não me peça para sair dessa vez, por favor."
Elrond sorriu balançando a cabeça.
"Você sabe que dia é hoje?" Ele indagou enquanto Estel esfregava os olhos azuis com uma das mãos e sacudia levemente a cabeça fazendo depois voltas com ela e estalando o pescoço.
Elrond repetiu a pergunta que parecia não ter sido ouvida. O guardião ergueu a cabeça e franziu a testa, depois deslizou os olhos pelo quarto sem nada olhar, apenas tentando lembrar-se de algo que talvez tivesse esquecido e seu pai o estivesse alertando.
Mas a informação que procurava veio-lhe de repente como um açoite.
"Valar, não!" As palavras saíram de sua boca num tom mais alto do que ele desejava.
Elrohir pulou da cadeira sobressaltado e correu para o leito. Elladan largou o livro no chão e fez o mesmo.
"O que houve?".Perguntaram os gêmeos assustados.
Estel ergueu-se. Seu corpo doía devido à noite mal dormida. Ele foi até a varanda passando por entre os irmãos que se entreolharam confusos e depois se voltaram para o pai esperando por um esclarecimento.
"Não posso".Disse o humano passando os dedos nervosamente pelos cabelos várias vezes e agitando a cabeça. Ele se aproximou da sacada e apoiou as duas mãos no parapeito deixando o peso do corpo sobre elas. "Não vou ter paz, Ada".
Os gêmeos estavam agora mais confusos. Por que as pessoas sempre faziam mistérios e simplesmente não respondiam as questões mais óbvias, sem que elas tivessem que ser feitas várias e várias vezes? Indagou-se Elrohir enquanto olhava o irmão mais velho que parecia compartilhar de sua indignação.
"Ada, o que houve com Estel?" Indagou Elladan sem tirar os olhos do guardião que agora deixara o corpo cair e estava sentado no chão frio da sacada apoiando a cabeça nas mãos.
"Ele tem que deixar de ser Estel para ser Strider mais uma vez".Concluiu repentinamente Elrohir também olhando para a mesma cena que o irmão.
O caçula levantou a cabeça. Seus olhos estavam cheios de aflição. Ele fitava o pai como se esperasse desesperadamente por um conselho que aliviasse seu coração.
Seria bom se Elrond pudesse simplesmente dizer-lhe que ele podia ficar, que podia deixar aquela investida de lado, esquecer os Dunadain, esquecer Mithrandir, esquecer Gondor e seu destino e voltar a ser Estel, voltar a fingir que era um elfo e que viveria eternamente com sua família para um dia, quem sabe, navegar para as terras imortais como muitos elfos já haviam feito, e muitos ainda estavam fazendo.
Estel permitiu-se pela primeira vez saborear aquela possibilidade, mas não demorou muito para que muitas imagens tristes viessem atormentá-lo. Vilas pobres, escravos, degradação, crianças famintas, governantes enlouquecidos e, pior do que tudo, um mal estranho que estava à espreita, um mal maior do que o que Elrond mencionava a Legolas na véspera, um mal que estava renascendo e contra o qual ele sabia que era um dos poucos que poderia lutar.
Não. Estel não poderia mais existir naquele mundo além das fronteiras de Rivendell. Ele logo seria apenas uma lembrança naquelas terras e, mais tarde, quando o lugar estivesse vazio essa lembrança se extinguiria também. Agora ele era aquele a quem fora destinado a ser desde criança. Ele era Aragorn, filho de Arathorn e herdeiro do trono de Gondor, futuro rei dos homens. Ainda havia muitos caminhos a serem trilhados até que assumisse a posição de Elessar, da "pedra élfica" que uniria os reinos e promoveria a paz. Mas nenhum passo desse caminho poderia ser evitado, nenhum atalho poderia ser tomado e nada e ninguém poderia impedi-lo, nem mesmo seu melhor amigo.
Elrond olhava para o filho adotivo como se ouvisse todos os seus pensamentos. Muitas vezes Estel chegou a desconfiar que o pai tinha esse dom. Que realmente conseguia, como os elfos de Lorien, ouvir os pensamentos de outras criaturas. Quando o guardião soltou os ombros num longo suspiro o curador sorriu tristemente. Estel sempre seria um dos seus maiores orgulhos.
"Podemos mandar um aviso".Ele sugeriu por fim, oferecendo a alternativa que o filho tanto queria, agora que estava certo de que Estel não duvidava de quem era e do que deveria ser prioridade em sua vida.
O caçula levantou-se rapidamente e aproximou-se do pai a passos largos.
"Um aviso?" Repetiu querendo saber qual era a sugestão.
"Uma das nossas patrulhas está indo nessa direção hoje".Disse o mestre olhando para os gêmeos que se entreolharam assustados, também haviam se esquecido de que partiriam naquele dia. "Eu até me admirava da coincidência de ter todos vocês indo para a mesma direção no mesmo dia." Adicionou o lorde sorrindo.
"Acha que pode conseguir-me um pouco mais de tempo, Ada?" Estel estava ansioso, esfregava as mãos umas nas outras e não tirava os olhos dos do pai.
"Uma semana, pelos meus cálculos não atrasarão tanto os projetos que temos." Atestou ele sendo presenteado pelo enorme sorriso do filho, seguido de um abraço apertado ao qual nem teve tempo de retribuir, pois o caçula já correra para tomar seu lugar novamente ao lado do paciente.
Elrond sorriu abertamente dessa vez, mas se viu de repente pressionado por dois pares de olhos escuros que estavam em sua frente. O pai deu um passo adiante e segurou os jovens pelos ombros.
"Preciso conseguir um líder e um curador substitutos para essa expedição?" Ele indagou, recebendo dois sorrisos como resposta. Não podia acreditar na amizade que unia aquelas crianças. Nunca em sua vida havia visto os filhos preferirem ficar em casa a sair em uma patrulha por mais arriscada que fosse. Ele podia oferecer-lhes o que havia de melhor em Rivendell que nunca os convencia. Lembrava-se de uma vez que Elrohir escondera um tombo que levara do cavalo e que comprometera duas de suas costelas para poder acompanhar os outros patrulheiros. E agora lá estavam eles desesperados por uma oportunidade de ficarem ao lado do príncipe de Mirkwood.
Quando tirou finalmente as mãos dos ombros dos filhos, os dois correram também para perto do leito trocando sorrisos com o caçula, como se fossem um bando de crianças autorizadas pela primeira vez a passarem a noite em claro ou a tomarem o vinho da casa.
Elrond passou um longo tempo observando os filhos, depois voltou seu olhar para Legolas que ainda dormia.
E você ainda diz que leva o mal para os lugares aonde vai, criança... pensou o sábio elfo num sorriso, pedindo licença aos filhos e saindo em seguida, não esquecendo de avisar-lhes que mandaria que fosse servida a refeição para eles no quarto.
Os irmãos olhavam os pães e xícaras em silêncio, sentados a pequena mesa do canto. Apesar de autorizados pelo pai e do alívio que sentiam em estarem por perto do amigo para tentar garantir a sua recuperação, eles se sentiam estranhos por deixarem de lado suas obrigações. A Terra-Média sofrendo as mais terríveis ameaças e eles estavam ali, deixando seus amigos irem sozinhos enfrentar o desconhecido enquanto saboreavam as comodidades do lar.
Elrohir tinha um pedaço de pão nas mãos e já o desfizera em minúsculas migalhas no prato sem sequer prová-lo. Seus pensamentos corriam soltos pelas pradarias do norte buscando possíveis esconderijos ou sinais de perturbação. Ele realmente estava se sentindo culpado por estar ali.
Estel olhou para os irmãos e deu um longo suspiro para afastar o fantasma que perturbava a todos. Em seguida olhou para o prato do gêmeo mais novo e sorriu.
"O que é? Vai comer como galinha agora?".
Elladan engasgou-se com o gole de suco que acabara de beber e começou a tossir segurando o peito e rindo. Mas Elrohir não se intimidou.
"Estava pensando em adicionar um pouco de leite pra você, bebê. Está do seu agrado? Talvez mel? Esse pão dá um bom mingau".
O guardião franziu a testa e esmurrou o irmão com força fazendo-o dar um grito e segurar o ombro esfregando-o em seguida.
"Animal!".
Estel ia retrucar quando ouviu um riso leve vindo da cama. Legolas havia acordado e já estava segurando novamente o corte com uma das mãos para conter a dor enquanto ria.
"Esta vendo!" Resmungou o caçula levantando-se e correndo para a cama para se agachar perto do amigo. "Por isso que ele está demorando tanto para sarar. Você não para de fazê-lo rir, elfo bobo!".
Elrohir fingiu-se ofendido e virou o rosto pegando um novo pedaço de pão. O bom humor dos irmãos e Legolas haviam despertado seu apetite de novo. Elladan levantou-se trazendo seu copo e olhando para o amigo na cama.
"Está com fome?" Perguntou.
"Queria um pouco de água".Informou o outro.
"Viram, o poço acordou".Gracejou Elrohir com a boca cheia.
Legolas riu novamente segurando o corte.
"Argh, Elrohir".Estel fez um ar de nojo. "Depois dizem que os elfos são criaturas nobres e educadas. Eles não conhecem você".
"Tive má influência!" Explicou o outro dessa vez com a boca mais cheia propositadamente.
Estel limitou-se a abanar a cabeça em reprovação enquanto observava Elladan ajudar Legolas a beber um pouco de água.
"Está sentindo alguma dor forte?" Perguntou o primogênito de Elrond puxando os lençóis depois de pedir que Estel segurasse a caneca que Legolas havia usado. O guardião a colocou depressa sobre a mesa e voltou para auxiliar o irmão. Surpreendentemente as feridas de Legolas não haviam sangrado durante a noite. Elladan e Estel trocaram olhares satisfeitos e mais felizes ficaram ao constatarem, quando foram substituir as bandagens, que todas elas estavam milagrosamente em um estado avançado de cicatrização.
Elrohir, que havia se levantado para saber do estado do amigo, sorriu por sobre o ombro de Estel.
"Boas notícias!" Ele disse esticando o pescoço para encontrar os olhos de Legolas. "Nosso príncipe logo vai se levantar."
Legolas sorriu feliz por ver o quanto seus amigos pareciam aliviados ao verem que finalmente seu corpo estava mostrando sinais de recuperação. Ao analisar aqueles olhares brilhantes que eram oferecidos a ele seu coração se encheu de alegria e ele prometeu para si mesmo que não ia mais trazer transtornos ou preocupações para aqueles que o amavam tanto.
"Me desculpem pelo que aconteceu." Ele pediu corando ligeiramente e baixando os olhos. "Não vou mais causar problemas, vocês vão ver."
Elladan que se ocupava em substituir os curativos do arqueiro ergueu subitamente a cabeça e encarou os olhos do paciente.
"Deixe de bobagens, mellon nîn!" Ele disse sendo apoiado por enfáticos "Isso mesmo." dos outros dois irmãos. "Nós sabemos o que você passou".Ele completou continuando o que estava fazendo. "E quer saber?" Perguntou subitamente voltando a erguer os olhos. "Eu não sei se agüentaria a metade disso..."
"Eu muito menos..." Acrescentou Estel segurando a mão do amigo com força e olhando-o nos olhos.
Elrohir suspirou fundo diante daquela cena. Ainda sentia-se um pouco incomodado com tudo o que acontecera, mas estava feliz em ver que o amigo parecia estar se recuperando.
"É claro que não." Disse em seu tom debochado. "Principalmente fazer o que o nosso príncipe fez ontem. Especialmente você, Estel!" Ele enfatizou mais ainda. "Ada te encontraria naquela árvore pelo cheiro."
Aragorn levantou-se subitamente e avançou para o irmão que quase se engasgou com o último pedaço de pão que colocara na boca. Elladan e Legolas se olharam e balançaram suas cabeças sorrindo ao verem o guardião agarrar o irmão e fazê-lo ajoelhar-se.
"Você vai retirar o que disse agora enquanto ainda tem uma língua dentro da boca para isso ou prefere usar mímica depois que eu acabar com você?" Ele ameaçou segurando o irmão com uma chave de braço.
Elrohir tossiu dramaticamente tentando tornar o momento menos cômico
"Solte-o, Estel!" Pediu Elladan um pouco preocupado. "Você está apertando demais"
Legolas ergueu-se um pouco do leito para tentar ver melhor a cena, mas Elladan segurou-o levemente. Ainda não tinha terminado seu trabalho.
"Não tanto quanto queria".Atestou o guardião olhando o rosto contorcido do irmão que fingia estar sem ar.
"Estel, não me faça ir até aí".Ameaçou o mais velho num tom que fez os demais se lembrarem subitamente de Elrond e obrigou o caçula a soltar o irmão na mesma hora.
Elrohir apoiou as duas mãos no chão respirando com dificuldade. Estava encenando seu melhor papel.
"Isso, mate logo o irmão." Ele disse deslizando as mãos pelo próprio pescoço como se sentisse dor enquanto sentava-se em seus calcanhares. "Você tem outro igualzinho, não é?"
"Graças aos Valar, não." Retrucou Estel sorrindo para Elladan e voltando a se sentar perto do leito. O irmão mais velho retribuiu o sorriso e voltou a checar o gêmeo com um olhar para garantir-se de que ele não estava mesmo ferido. Elrohir, que já estava se levantando e ajeitando a túnica, mostrou a língua para Elladan quando este olhou para ele, mas sorriu em seguida.
"Que tal comer alguma coisa agora?" Sugeriu Aragorn a Legolas depois que as bandagens do amigo tinham sido substituídas.
O arqueiro então ergueu um pouco a cabeça, interessado em verificar o que eles tinham por sobre a mesa. Estel não conseguia disfarçar a alegria que sentia. Era como se todas as preces que tinha feito durante a noite tivessem sido atendidas. Ajudou então o príncipe a se sentar colocando vários travesseiros em suas costas enquanto Elrohir trazia a bandeja para a cama.
O príncipe olhou o conteúdo e apanhou uma das maças vermelhas dando-lhe uma pequena mordida.
"Tente comer um pouco de lembas." Sugeriu Aragorn.
Legolas acenou positivamente com a cabeça continuando a mordiscar a fruta.
"Me surpreende que ele queira depois da "sopa de lembas" nojenta que você fez para ele ontem." Declarou Elrohir rindo e comendo mais um pedaço de pão. Fizera questão de enfatizar a palavra "nojenta" para aborrecer ainda mais o guardião.
Estel lançou um olhar cruel ao irmão que simplesmente o ignorou. O príncipe limitou-se a sorrir enquanto terminava de comer a fruta.
De repente alguém bateu levemente na porta entrando em seguida. Era Erestor.
"Olá meninos".Disse ele com sua voz suave. "Seu pai pede que você Estel e um dos gêmeos desçam para tratarem de um assunto importante".
Os três filhos de Elrond se entreolharam intrigados.
"Algo relacionado com uma carta que ele tem que mandar".Erestor adicionou.
Uma luz de esclarecimento atingiu a todos e eles se movimentaram para obedecer. Os gêmeos se olharam indecisos.
"Eu fico".Ofereceu Elrohir.
"Certo".Concordou Elladan enquanto acompanhava Estel que já esperava na porta. O guardião lançou novamente um olhar desconfiado para o irmão no quarto antes de sair, mas Elrohir respondeu com um sorriso falso enquanto fechava a porta atrás dele.
O elfo moreno olhou para o príncipe enquanto se aproximava novamente da cama. Legolas dava pequenas mordidas num pedaço de lembas conforme Estel havia lhe pedido.
"Mais água, poço louro?" Ele provocou sentando-se em frente do amigo.
Mas o príncipe não respondeu. Apenas riu e afastou a bandeja
"Você está me devendo algo".Ele disse olhando para o filho de Elrond com um leve sorriso.
Elrohir pendeu a cabeça e franziu a testa.
"Não se faça de desentendido!" Ameaçou o outro rindo agora. "Você sabe do que estou falando. Se não me mostrar o bendito livro agora eu vou contar tudo sobre ele para o primeiro que passar por aquela porta".
Por pura e inesperada coincidência a porta se abriu naquele exato instante e a figura de Erestor apareceu novamente fazendo com que os dois elfos se olhasse e começassem a rir terrivelmente sem conseguirem parar. O calmo amigo de Elrond não entendeu, ficando ali com metade do corpo para dentro do cômodo esperando uma oportunidade para dar seu recado e voltar aos seus afazeres.
"Sim, Erestor?" Indagou o gêmeo entre um acesso e outro de riso.
O elfo mais velho não se perturbou. Ele conhecia bem o humor de Elrohir e experiências passadas já haviam demonstrado que indagá-lo a respeito de qualquer coisa que seja numa hora dessas não era muito conveniente se a pessoa prezasse por sua paz de espírito.
"Seus irmãos me pediram para avisá-lo que vão demorar um pouco a retornar. Querem saber se você pode fazer companhia ao príncipe. Se não puder eu me prontifico a ficar no seu lugar."
"Não. Está tudo bem, Erestor." Respondeu o jovem enxugando as lágrimas.
O outro deu de ombros e fechou a porta em seguida.
"Perdeu a oportunidade." Disse Elrohir provocando o amigo.
Legolas, que tinha rido mantendo todo o tempo as duas mãos no rosto com vergonha de ver o ar do fiel aliado de Lorde Elrond, apenas balançou a cabeça tentando se conter ao relembrar mais uma vez da infeliz coincidência.
"Por misericórdia, Elrohir." Ele pediu ainda tentando recuperar o fôlego. "Que livro abençoado é esse?"
O elfo moreno torceu o corpo e levantou o colchão onde estava sentado trazendo o livro vermelho novamente para as suas mãos.
"Deixe-me ver." Disse Legolas estendendo as duas mãos.
"Não!" Provocou o amigo apertando o livro contra o peito e rindo.
"Elrohir!"
"É meu!!"
"É de seu pai. E ele o está procurando!"
"E vai continuar por muito tempo."
"Não se eu contar para ele onde está." Ameaçou o príncipe irritado com as provocações do outro.
"Se contar vou dizer que foi você que me pediu".Ameaçou o gêmeo. Estava satisfeito por tirar o amigo do sério. Eram raras as vezes que conseguia isso.
Legolas levantou o corpo ameaçando tomar-lhe o volume das mãos, mas colocou a mão por sobre o ferimento como se tivesse sentido uma fisgada e voltou à posição inicial com um ar de dor estampado em seu rosto.
"Ai." Lamentou o elfo segurando o ferimento e torcendo o corpo.
Elrohir teve um sobressalto erguendo-se e agarrando o amigo pelos ombros.
"Legolas, o que você está sentindo?"
O príncipe se contorcia com o rosto no colchão.
"Quero um pouco d'água." Ele disse por fim.
Elrohir levantou-se depressa, mas mal teve tempo de chegar à mesa quando percebeu o elfo louro se levantando rapidamente, agarrando o livro nas mãos e apertando-o contra o peito.
Ele ficou sem ação. Legolas o havia enganado. Nunca ninguém o enganara antes. Ele enganava as pessoas, ele as fazia de bobas.
"Você fez um jogo muito sujo." Disse o elfo moreno decepcionado, tentando recuperar o ar. Seus olhos brilhavam e ele ainda guardava a palidez do susto que tomara. Legolas ficou arrependido e acabou não achando mesmo a brincadeira tão divertida quanto parecia. Ele não devia ter brincado com algo tão sério. Não depois de todos os sustos legítimos que havia dado em Elrond e seus filhos.
"Desculpe, mellon nîn." Pediu estendendo o livro de volta para o amigo. "Eu não sou tão bom quanto você para fazer brincadeiras."
Elrohir voltou para a cama devagar e sentou-se sem pegar o livro de volta.
"Me desculpe, por favor".Legolas insistiu ainda estendendo as mãos com o livro.
Seus olhos estavam tristes novamente. Elrohir se arrependeu por ser tão duro. Mas ele não pôde evitar. O medo que sentira de reviver os acontecimentos da véspera fora tão forte que ele ficou irritado ao perceber que o príncipe tivera coragem de brincar com algo tão sério. Mas, pensando melhor no assunto, acabou concluindo que talvez aquilo fosse um bom sinal. Se o jovem estava disposto a satirizar com algo assim tão grave era porque ele realmente estava tentando neutralizar aquele trauma de uma vez por todas.
Legolas mantinha os braços erguidos, olhos atentos na expressão do amigo. Estava muito arrependido e não sabia mais o que dizer. Elrohir finalmente aproximou-se mais, tomou-lhe o livro das mãos e abraçou-o em seguida. O elfo louro surpreendeu-se, mas retribuiu o abraço sem saber qual era o motivo.
"Não faça mais isso comigo".Pediu o filho de Elrond ainda segurando o amigo. Os corpos dos dois tremiam um pouco naquele momento.
"Desculpe, eu prometo não brincar com algo assim tão sério mais. Foi tolice minha."
"Nah." Suspirou Elrohir soltando o outro. "Eu te pedi para prometer que não vai mais me fazer de bobo como fez agora. Esse papel é meu. EU e somente EU tenho esse direito."
"Direito de se fazer de bobo sozinho?" Legolas não resistiu.
O elfo moreno empurrou o príncipe que caiu por sobre os travesseiros.
"Estamos ficando muito tempo juntos." Atestou o gêmeo fingindo-se zangado.
O príncipe riu e permaneceu deitado. Sentia-se um pouco cansado com toda aquela agitação. O amigo percebeu isso e levantou-se se preparando para tirar os travesseiros que estavam atrás da cabeça de Legolas.
"O que está fazendo?" Perguntou o outro.
"Ajeitando a cama para você descansar." Disse ele puxando alguns travesseiros com força e os jogando ao pé da cama. "Você está precisando."
Legolas indignou-se embora não conseguisse impedir o amigo.
"Elrohir, por favor. Eu não agüento mais a curiosidade de saber que livro é esse que tanto toma sua atenção. Não me torture. É sério!".
O filho de Elrond olhou os belos olhos azuis do amigo que agora estava deitado e sorriu. Só naquela hora ele havia percebido que Legolas sequer olhara o livro quando o tinha nas mãos. Seu pai tinha razão. A consideração do príncipe para com as pessoas era realmente uma qualidade rara.
"Eu vou ler para você." Disse ele "Só quero que esteja confortável e possa dormir se quiser, está bem?"
Legolas sorriu concordando e ajeitando-se na cama.
"Bom menino!" Disse o outro tirando os sapatos e se sentando com as pernas cruzadas sobre o colchão.
"Mostre a capa para mim!" O príncipe estava ansioso.
Elrohir colocou o volume em frente aos olhos do rapaz que agora conseguia distinguir as letras muito bem. Seu queixo caiu e uma palidez tomou conta de todo o seu rosto.
"Não acredito que Lorde Elrond tenha um livro desses? É realmente dele?".
"É um presente do mestre Gil-Galad, tem até uma dedicatória dele para meu pai".Declarou o elfo abrindo na primeira página e mostrando uma mensagem escrita à mão e assinada pelo sábio elfo que tão bravamente defendera a Terra-Média."
O corpo de Legolas estremeceu todo ao olhar aquelas palavras, mas não conseguia entender o que diziam.
"Que língua é essa?".
"Quênia. Língua élfica antiga. Eu mesmo conheço poucas palavras".
"Ah sim".O outro parecia lembrar-se. "Eu estudei também um pouco quando novato. Mas não me lembro de muita coisa. Uma vergonha não sabermos, não é?"
"É sim".O outro concordou abrindo o livro no primeiro capítulo. "Jovens não se interessam por nada e depois que crescem se interessam menos ainda."
Legolas riu com o tom de deboche da frase final do amigo, mas procurou concentrar-se para não dormir. Queria ouvir algumas páginas.
"Leia para mim, por favor".
"Magias e Feitiços" iniciou Elrohir dando um tom interessante a sua voz que fez com que Legolas ficasse mais estimulado ainda do que já estava. Eles realmente iam se meter em uma grande encrenca se fossem pegos com aquele livro nas mãos.
CONTINUA...
