Olá!
Essa é a última parte da primeira fase da minha estória. Um pouco mais de ação e aventura agora está por vir, embora eu não me considere muito boa nesse gênero estou tentando escrever algo emocionante. Vamos ver o que o destino reservou ao nosso elfo louro dessa vez...
Novamente meu muito obrigada as pessoas maravilhosas que continuam deixando sua review. Fico feliz demais toda vez que recebo um retorno do capítulo que coloquei no site. Aqui vão alguns agradecimentos especiais.
Misao-dono - Obrigada por mais uma review, seus comentários são muito gentis e me fazem tentar fazer sempre o melhor possível. Espero conseguir passar tanta emoção quanto você passa em suas estórias.
Kagura Bakura - Por favor nunca deixe de colocar seus comentários que sempre são deliciosos de se ler. É uma grande alegria quando recebo um retorno seu de um capítulo que escrevi. Muito obrigada.
Lady-Liebe – Super simpática Liebe. Ainda estou pensando nas suas sugestões sobre o que fazer com o nosso Thranduil e aguardando a sequência dos Hobbits no MacDonald's. Obrigada por ser tão gentil.
Mitraa – Muito bom conversar com você. Espero suas opiniões a respeito da minha angst, você que é uma leitura assídua do gênero.
8
Legolas ajeitou a túnica azul diante do espelho. Era um presente que Elladan pedira que o alfaiate de Rivendell fizesse para o príncipe. Ele se divertia em ver como todas as pessoas pareciam gostar de vê-lo vestido com aquela cor, embora pessoalmente ele preferisse os tons de verde e marrom, que eram as cores de Mirkwood. Cores que não podia mais vestir infelizmente. Mas ele não queria pensar nisso agora, pois estava feliz por Lorde Elrond tê-lo autorizado a jantar a mesa com todos os outros naquela noite. Ele sentia que já havia passado tempo demais na cama e, por sua vontade, gostaria de não voltar para ela tão cedo.
Com essa sensação agradável o príncipe caminhou até a porta, mas antes de sair sentiu um instinto estranho chamá-lo. Voltou-se e viu que a grande árvore de sua sacada balançava contra o vento de uma forma incomum. Dirigiu-se até a varanda e sentiu um arrepio na espinha ao provar a fria brisa do anoitecer em sua pele. Apesar da noite estar agradável, não havia estrelas no céu.
Instintivamente Legolas esfregou os braços para combater aquela sensação estranha. O frio nunca o incomodara, mas algo mais além do agradável frescor noturno estava temperando aquela paisagem que aguardava além da sacada. Mais alguns passos o colocaram próximo aos longos e grossos galhos que faziam curvas em várias direções invadindo amistosamente a sacada do quarto do príncipe. Ele tocou em um deles e fechou os olhos tentando entender o que estava se passando. A árvore parecia assustada, querendo prevenir o amigo de algo que estava no ar. Legolas pôde sentir o temor subindo pelo forte tronco, deslizando pelos enrugados galhos e espalhando-se assim por todo o seu corpo também, como se ele e a velha árvore fossem naquele momento um só ser.
"O que há, amiga?" Ele indagou num tom amável deslizando os dedos pelos galhos e folhas que visitavam sua sacada.
Sua concentração não durou muito tempo, logo ele foi desperto pelo som de uma voz conhecida vinda do jardim. Por sorte o príncipe procurou saber a quem a voz pertencia olhando por entre os galhos da árvore e não foi visto por quem se aproximava. Eram dois batedores de Mirkwood que chegavam a cavalo. Os cabelos dos dois brilhavam mesmo numa noite sem estrelas. Legolas não teve tempo para descobrir quem eram, pois se atirou no chão movido pelo susto que levara.
Um temor incontrolável invadiu seu coração. Será que eles o tinham visto? O que estariam fazendo em Imladris? Será que já sabiam de sua presença na casa de Elrond? Seu coração parecia bater descompassadamente e parecia doer no peito, afligido por um grande desespero.
Mas Legolas não tinha aquelas respostas e essa aterradora incerteza estava transformando aqueles momentos numa eternidade. Tudo que pôde fazer então foi rastejar para dentro e, contrariando todos os seus desejos, fechar as portas que sempre permaneceram abertas. Ele arrastou-se para perto da camiseira e estendeu os braços sem se levantar, alcançando o lampião e apagando-o em seguida, deixando o quarto na mais completa escuridão.
Nesse momento Estel entrou a sua procura. O guardião assustou-se com o estado do ambiente. Doeu-lhe ver aquele cômodo assim trancado e sem luz, sabendo bem o quanto o príncipe não gostava de ambientes fechados. Ele sequer trancava a chave a porta de seu quarto e sempre mantinha as grandes portas da sacada abertas. O guardião apertou os olhos tentando ver se Legolas estava ali, aproveitava-se da pouca luz do corredor para tentar enxergar algo naquele negror total. Sua mente apavorava-se por não conseguir localizá-lo e mil conjecturas terríveis começavam a lhe ocorrer. Teria fugido ao ver os companheiros de Mirkwood? A idéia começou a incomodá-lo e a preocupação cresceu em seu coração.
"Legolas?" Ele chamou num tom quase inaudível.
O som de sua voz despertou então um súbito movimento ao lado da camiseira e finalmente o guardião pode ver um leve reflexo dourado surgir de lá. Mas o príncipe não disse uma palavra, estava encolhido num canto do quarto. Estel então correu em sua direção deixando a porta bater e agachou-se também abraçando o elfo. Estavam agora os dois envoltos pelo escuro e pelo receio.
"Tudo bem, mellon nîn! Vai ficar tudo bem. Ada vai cuidar deles".
Legolas tremia tanto que nem conseguia respirar. Ele se agarrou ao amigo com força escondendo o rosto no peito dele como uma criança assustada.
"Eles não podem descobrir que estou aqui, Estel. Lorde Elrond vai ter problemas".
"Eles não vão descobrir. Não se preocupe". Garantiu o outro massageando suavemente as costas do amigo, tentando desfazer a tensão dos músculos rígidos que encontrara.
Mas o arqueiro não conseguia se acalmar. O perigo assim tão próximo o estava esgotando rapidamente, ele apenas apertava-se contra o amigo como se quisesse desaparecer e balançava a cabeça em sinal de desaprovação.
"Está tudo errado. Eu não devia estar aqui, Estel". O tom de sua voz estava tão baixo que o guardião mal conseguiu entender o que o amigo dizia.
"Vai ficar tudo bem". O guardião limitou-se então a responder, não compreendendo bem as palavras, mas sentindo todo o porquê do tom que o elfo usava naquele momento. Tudo o que ele podia fazer era tentar acalmar o corpo que tremia em seus braços. "Ada vai resolver tudo, você vai ver".
Muito tempo se passou até que a porta do quarto se abriu e três figuras entraram. Eram os gêmeos e seu pai. Elrond trazia um grande lampião e ergueu-o para tentar entender o que se passava no lugar. Seu coração se compadeceu ao ver a figura do príncipe ainda agarrado em Estel. O guardião se erguera um pouco ao ver o pai, mas Legolas nem sequer se mexera, parecia petrificado de pavor. Elrond aproximou-se e se ajoelhou na frente dos dois.
"Infelizmente você não pode sair desse quarto, criança". Ele disse colocando uma das mãos no joelho do rapaz. "Eles não sabem que você está aqui, mas perguntaram se sei algo sobre seu paradeiro."
Legolas ergueu a cabeça e respirou fundo tentando se acalmar. Seus lábios tremiam ligeiramente e os olhos azuis brilhavam como lagos banhados pela luz do luar. O coração parecia querer saltar do peito e ele sentia-o bater tão forte que não se surpreenderia se descobrisse que todos a sua volta o podiam ouvir também. O príncipe sabia que não podia ficar ali mais nem um minuto. Era muito arriscado. Mas sabia também que os amigos não permitiriam que ele fosse novamente para a floresta sozinho.
"O que disse a eles, meu senhor?" Ele inquiriu temendo a resposta.
Elrond sorriu levemente entendendo a preocupação do príncipe.
"Quer saber se eu menti?" Ele perguntou traduzindo o temor do rapaz em palavras.
Legolas baixou a cabeça, envergonhado. Elrond era um elfo sábio e honrado e ele sentia que o tinha colocado numa situação indigna, pois sabia que, para proteger o príncipe, o curador provavelmente teria que fazer uso de artimanhas que não aprovava totalmente. Mas Elrond ergueu a cabeça do rapaz com a ponta dos dedos e ofereceu-lhe um olhar cheio de afeto.
"Eles me perguntaram se eu o tinha visto e eu disse que sim."
Tanto os olhos de Legolas quanto os de Estel arregalaram-se.
"Eu contei a eles como você salvou minha vida há algumas semanas no descampado da Aldeia do Norte e eles pareceram transtornados. Parecem gostar de você, pelo que pude perceber".Constatou o curador tentando diminuir a intensidade do momento, mas observando as feições de Legolas se transformarem em pura tristeza. "Então" continuou ele "eu lhes disse que acreditava que você estivesse morando por ali. Eles não me fizeram mais nenhuma pergunta. Mas me pediram estadia por esta noite e eu não pude negar. Vão dormir nos quartos vagos da casa menor, mas é bom que não abusemos da sorte que tivemos. Você terá que jantar mais uma vez aqui no quarto, eu lamento".
Legolas estava tão confuso que não sabia o que dizer. Sua mente girava em grandes círculos e milhares de pensamentos iam e vinham atormentar-lhe. Não conseguia fazer com que seu coração se aquietasse e sua respiração ainda estava acelerada. Estel começou a acariciar suas costas novamente, mas nem o toque do amigo o estava ajudando naquele momento. Ele se sentia terrível por estar arriscando assim a vida de seus amigos e de uma cidade inteira. Por que ainda estava ali? Já devia ter ido embora. Ele tinha que ir, pois era o acordo que fizera, teria que partir quando estivesse bom e havia chegado o momento.
"Lorde Elrond?" O chamado fugiu-lhe dos lábios como se seus pensamentos quisessem se transformar em palavras contra sua vontade.
O nobre elfo fixou seus olhos nele, em seu íntimo já sabia o que o rapaz ia lhe perguntar."
"Sim, menino. Eu me lembro da promessa que fiz".Ele adiantou a resposta, embora não fosse a que o príncipe esperava. "Quando eu achar que você está bem. Lembra-se?".
Legolas não respondeu. Apenas manteve seus olhos fixos nos do lorde de Imladris. Ele sentia o quanto aquela família o amava, ele sentia que ali, sob aquele teto, recebera mais amor naquelas três semanas do que em toda a sua existência. E tudo o que fazia em troca era colocá-los em perigo, era fazê-los arriscarem suas vidas por alguém que nem a terra de Imladris pertencia. E o mais confuso de tudo era que todos eles pareciam mais do que dispostos a fazê-lo, todos eles se arriscariam e morreriam por ele sem hesitação. Eles o amavam de verdade.
Elrond mantinha seus olhos acinzentados presos nos do jovem amigo tentando decifrar-lhe os pensamentos já que o silêncio agora imperava no lugar. Subitamente Legolas ergueu-se e ajoelhou-se também diante do mestre olhando-o de uma forma que ele nunca o tinha visto olhar antes. Uma sensação estranha invadiu a alma do curador. Pela primeira vez Elrond não conseguiu entender o que aqueles olhos azuis queriam dizer.
"Eu o amo, meu senhor" Disse então o príncipe e algumas das lágrimas que tentava conter correram por sua face. "Todos os dias da minha vida, onde quer que eu esteja, vou me lembrar do que o senhor fez por mim e serei muito grato." Ele parou um momento, suspirou fundo e finalizou". Ofereço ao senhor, meu Mestre, e a sua família minha completa devoção e minha vida".
Dizendo essas palavras por fim ele levou a mão ao coração, fechou os olhos e pendeu o corpo encostando a testa no chão. Elrond comoveu-se e lágrimas brotaram de seus olhos. Os filhos surpreenderam-se em ver que o pai parecia querer chorar. Mas entendiam o porquê. Legolas o havia chamado de Mestre, não como sinal de respeito, mas como sinal de devoção. Ele tinha se igualado à posição de um dos servos de Elrond, ele tinha colocado de lado seu título e sua nobreza.
Mas Elrond sentia que havia mais alguma coisa por trás daquelas palavras. Elas soavam como uma despedida. Uma despedida de quem vai para nunca mais voltar.
O lorde elfo suspirou controlando as emoções e, segurando o príncipe pelos ombros o fez erguer-se à posição inicial novamente. Legolas não objetou obedecendo, mas não voltou a encarar o mestre mantendo seus olhos baixos. Suas feições pareciam ter envelhecido embora seu rosto continuasse com a mesma beleza da mocidade eterna. Ele não era mais a mesma pessoa. Uma decisão pesava-lhe nos ombros e na alma e agora o mundo todo estava mudado.
Elrond tomou-lhe o rosto nas mãos e o obrigou a olhá-lo nos olhos.
"Eu também o amo, Legolas de Mirkwood".Ele declarou. Seus olhos mesclavam uma grande consternação e um afeto imenso. "Como amo a esses três jovens que estão aqui presentes. E vou dizer-lhe uma coisa que sempre digo a eles e que tenho como minha lição principal de vida. Por isso ouça-me bem, pois já passei por muitas provações na vida 'Nunca se esqueça de quem você é. Não importa o que aconteça.' E é essa lição que eu quero que você aprenda. Por isso vou praticá-la com você agora."
Legolas mantinha os olhos nos do mestre, mas não entendia.
"Está pronto?" Ele sorriu levemente para o jovem príncipe como se este fosse uma criança.
O rapaz suspirou e aguardou.
"Eu pergunto e quero uma resposta imediata sua, está bem? Nada de gestos ou suspiros, eu quero uma resposta em forma de palavras, certo?"
O tom de Elrond parecia muito sério agora
"Certo." Respondeu o elfo de Mirkwood com insegurança.
Os filhos de Elrond se olhavam intrigados. Um frio corria-lhes a espinha, ali ajoelhados, servidos apenas pela luz daquele lampião.
"Primeira questão: Qual é o seu nome?"
O rapaz engoliu seco.
"Legolas." Ele respondeu. Não queria provocar o lorde.
"Bom. Segunda questão: Quem é você?"
O elfo baixou os olhos, mas Elrond os acompanhou, segurando o olhar do rapaz no seu.
"Quem é você, criança?" Ele repetiu pausadamente.
"Sou seu servo, meu Mestre".Ele declarou por fim, usando o pouco orgulho que lhe restara e lançando um olhar severo a Elrond atestando que não queria ser contrariado naquele aspecto.
Elrond não se intimidou, franzindo a testa em desaprovação.
"Quem lhe autorizou a mudar a resposta dessa pergunta?".
"Eu lhe dei a resposta correta, meu Mestre".Ele insistiu
"Eu vou lhe dar a resposta correta e você vai me ouvir, criança".A voz de Elrond se transformara, até os filhos sentiam-se intimidados por ela. "Você é Legolas, filho do rei Thranduil e príncipe da floresta de Mirkwood."
"Não! Não sou!" Retorquiu corajosamente o elfo para o espanto de todos.
"Sim, criança, você é! E não pode mudar isso!"
"O rei já se encarregou de mudar isso para mim." Havia ira na voz dele agora.
"Ele também não pode mudar isso."
"Ele pode! Ele pode fazer o que quiser!" Disse Legolas não conseguindo conter um soluço. "Ele pode me matar se quiser. Ele deveria ter feito isso... Teria sido melhor." Assumiu o rapaz por fim desfazendo-se das mãos de Elrond e deixando o corpo cair de lado apoiado em uma das mãos e soluçando.
Elrond colocou a mão no ombro dele pacientemente.
"Não, ele não pode. E ele não quer."
Os olhos úmidos e brilhantes do rapaz voltaram-se então para o lorde questionando-o. Elrond sorriu colocando uma palma no rosto do arqueiro.
"Ele acha que quer, mas não quer. Nenhum pai quer perder seu filho. Alguns querem até ter outros como seus".Elrond olhou para Estel que sorriu com a lembrança do pai. "Mas nenhum quer perder o seu".
"O meu quis".Atestou o rapaz com tristeza. "Eu lhe dei motivos para isso".
O curador suspirou e acenou a cabeça numa leve discordância.
"Ele pode acreditar nisso, criança. Pode acreditar até o dia que partir para as terras imortais. Mas você não pode e não deve acreditar. Foi o mal que criou essa mentira no coração de seu pai e ele pode custar uma eternidade para descobri-la, mas você não pode fazer parte dela, entende? Você não pode esquecer de quem é".
Legolas segurava o pranto. Não queria mais chorar. Tudo aquilo fazia tanto sentido para ele, muito mais sentido do que ele realmente gostaria que fizesse. Lord Elrond sempre fora um mestre na arte da retórica, capaz de convencer milhões com suas sábias palavras, mas naquele momento, por mais sábias e sinceras que fossem aquelas declarações do mestre o coração ferido de Legolas tinha dificuldades em aceitá-la, tinha medo de levantar novas esperanças, abrir antigas feridas mal cicatrizadas.
Mas Elrond conhecia todos os cantos escuros do coração daquele menino e ele sabia que não podia deixá-lo amargar uma sensação de abandono tamanha como aquela que o príncipe estava tentando aceitar como fato consumado. Ele conhecia o bem que uma esperança faz a um coração que já sofreu o insuportável. Ele tinha que fazer Legolas acreditar que havia ainda uma estrela para guiá-lo, uma esperança para alimentar seu coração.
"Quem é você, criança?" Inquiriu novamente o curador olhando-o nos olhos.
Fez-se mais um longo silêncio. Nem um suspiro foi ouvido.
Elrond ainda mantinha seus olhos fixos nos de Legolas que não resistia ao poder do olhar do curador permanecendo quieto e imóvel. Mas em seus olhos as lágrimas criavam um lago raso cujo brilho escapava-lhe em pequenas gotas que desciam sem serem impedidas. O mestre esperava uma resposta e não havia outra que pudesse substituí-la.
"Eu sou Legolas, filho do rei Thranduil e príncipe da floresta de Mirkwood." Disse por fim o arqueiro e ao dizê-lo percebeu que não havia nada no mundo que ele quisesse tanto afirmar em toda sua existência.
Os irmãos sorriram aliviados, mas Elrond ainda estava sério.
"Muito bem. Última pergunta." Propôs o mestre.
O coração de Legolas gelou.
"Quem sou eu?"
Legolas desprendeu os lábios, mas não sabia o que responder.
"Quem sou eu?" Elrond perguntou veementemente segurando os ombros do rapaz e olhando-o nos olhos.
"Meu amigo." Respondeu Legolas
Elrond sorriu. Mas foi a vez do príncipe manter a seriedade. Havia algo mais a ser dito.
"Alguém a quem eu queria muito chamar de Ada." Completou o rapaz para a surpresa do mestre que abriu um belo sorriso que mesclava um grande alívio e um imenso orgulho.
"Então me permita tomar esse lugar na sua vida por enquanto, ion nîn".Ele propôs colocando sua mão na nuca do rapaz enquanto encostava a testa na dele. "Assim terei algo para argumentar com Thranduil quando ele quiser o posto de volta."
Legolas sorriu e o abraçou sendo retribuído com carinho pelo Elfo dos Elfos.
Naquela noite Legolas conseguiu convencer os amigos que podia dormir sozinho. Estel não gostou da idéia, mas não havia qualquer argumento que convencesse o amigo elfo de que havia motivos para que alguém ainda cuidasse de seu sono. Todos pareciam exaustos na casa de Elrond. Muitas coisas tinham acontecido naqueles dias e o dia de hoje com todos os temores que surgiram com a chegada dos soldados de Mirkwood às terras de Rivendell, fora a gota d'água para os habitantes daquele lugar.
Legolas estava deitado de costas em sua cama olhando para o teto. Sentia falta da amiga árvore apesar de ouvir-lhe os galhos raspando na janela fechada, como se pedissem que o elfo a abrisse. Mas ele tinha que resistir. Era muito arriscado.
O rapaz estava nervoso. Toda cena que vivenciara naquele quarto com Elrond e seus filhos, todo o amor que sentira e demonstrara para com eles tinha enternecido seu coração. Ele se sentia forte novamente, sentia vontade de viver, vontade de viver por eles, vontade de viver para que Elrond se orgulhasse dele, como se orgulhava dos filhos que tinha. Mas ao mesmo tempo ele temia ainda mais pela segurança do curador e sua família. O lorde já tinha problemas o bastante para perder tempo com uma rixa tola que tinha ido longe demais, que tinha assumido proporções inimagináveis. Ele não tinha o direito de arriscar um reino inteiro assim. Por mais que Elrond lhe assegurasse que tudo estava sob controle Legolas não conseguia parar de se preocupar. Mesmo porque não era justo estar ali após ter prometido a seu pai que não pisaria em Rivendell se ele não revelasse o que tinha acontecido a ninguém. Ele se sentia traindo a pouca confiança que lhe fora depositada.
Num ímpeto o rapaz levantou-se da cama e foi olhar pelas frestas da janela. Um pavor estava tomando conta de seu coração novamente. Um medo sem tamanho de que os soldados desconfiassem. Em sua mente ele ficou levantando possibilidades sobre suas identidades. Os elfos de Mirkwood não são enganados com tanta facilidade. Eles poderiam estar desconfiados ou já saberem a verdade.
O rapaz começou a andar em círculos pelo quarto pensando em qual seria a atitude mais ajuizada a ser tomada. Dentro de sua mente a voz de sua consciência organizava o pior questionamento que ele já enfrentara na vida.
Calma Legolas Ele pensou consigo mesmo. Pense, pense, infeliz... Tome uma atitude sensata nessa vida. Uma atitude que não vai mais ocasionar a morte de ninguém
Mas para não colocar mais ninguém em risco não havia alternativa senão sair de onde estava. Buscar novamente o exílio na floresta. Voltar a ficar só.
Seu coração se apertou dolorosamente no peito só em cogitar essa hipótese. Ele estava feliz ali, feliz como nunca estivera nos últimos anos e mais feliz agora que estava se recuperando e poderia voltar a viver uma vida normal.
Mas a voz dentro de sua cabeça riu daqueles pensamentos. Normal? Que vida normal será essa? Viver trancado num quarto com medo de ser visto? Ou então arriscar tudo e assistir a uma guerra brutal entre dois reinos que você ama? Ora, deixe de ser uma criança covarde e aja! Pare de colocar em risco a vida de todos que estão a sua volta por um capricho seu!
Legolas colocou as mãos nas têmporas e balançou a cabeça enquanto caminhava em seu trajeto circular pelo quarto. Por mais cruéis que aquelas palavras fossem elas correspondiam à verdade. Ele tinha que fazer algo e tinha que fazer logo. Ele precisava tomar uma atitude e teria que ser justamente quando ninguém esperava que ele o fizesse. Ele tinha que sair de Rivendell hoje. Ele tinha que ir AGORA.
Pronto! A decisão estava tomada. Só restava saber como. Foi quando ele teve uma idéia. Correu até a cama e apanhou o livro que ainda estava embaixo do colchão. Elrond tinha se esquecido dele e Elrohir ficara com medo de devolvê-lo a biblioteca sem levantar questionamentos do pai. Ele folheou as páginas avidamente até encontrar o que procurava. Era uma receita simples e ele poderia encontrar todos os ingredientes na casa e na floresta também quando precisasse. Só precisava agora ter coragem de entrar no laboratório de Elrond.
O curador acordou com o filho caçula sacudindo de leve seu ombro. Ele adormecera na poltrona do quarto enquanto lia um livro. Fixando seus olhos em Estel viu que o rapaz estava apavorado.
"Ada! Legolas foi embora!"
Um profundo V formou-se na testa do mestre enquanto ele tentava assimilar as palavras do filho.
"Como assim?"
O guardião ofereceu-lhe um pedaço de papel.
"Encontrei ao meu lado quando acordei essa manhã. Ele levou um de meus casacos. Acho que saiu disfarçado."
Elrond olhou para o bilhete, mas não o pegou. Ainda estava tentando entender. Um elfo não se disfarça e sai durante a noite. À noite eles são muito mais visíveis do que qualquer humano e um simples casaco de couro não faria com que o rapaz se parecesse um.
"Ada!" Estel estava se desesperando. "Os gêmeos organizaram uma patrulha para ir atrás dele. Eu estou saindo também."
Elrond finalmente aceitou o papel e olhou novamente para Estel acenando com a cabeça, mas antes que o guardião chegasse à porta o chamou de novo.
"Estel? E os soldados de Mirkwood?"
"Ainda estão em seus quartos. Eu verifiquei."
O mestre respirou fundo e voltou a balançar a cabeça. Aragorn repetiu o gesto e desapareceu pelo corredor deixando a porta aberta e um silêncio desolador no ambiente.
Ajeitando-se na poltrona, o lorde elfo colocou o livro que estava sobre seu colo na mesa lateral e abriu o pequeno bilhete deixado pelo príncipe de Mirkwood.
Querido Estel,
Estou tomando a atitude mais difícil
de minha vida e meu maior temor não é pelo meu destino, mas sim não receber o
seu perdão por ir dessa forma sem consultá-lo ou despedir-me.
Por favor, perdoe-me e peça a nossa querida família que tente fazer o mesmo.
Vocês são muito importantes para mim, importantes demais para que eu os coloque em risco por não ser capaz de cumprir uma promessa que fiz ao rei Thranduil, por não ser capaz de arcar com os erros que cometi.
Deixo meu abraço afetuoso a você, a nosso pai e a nossos irmãos e desejo que as bênçãos de todos os reinos livres dessa nossa amada terra estejam com todos nós.
Legolas
Elrond fechou os olhos e uma lágrima correu por seu rosto. Ele não imaginava que uma carta fosse fazê-lo chorar um dia. Legolas havia finalmente aceitado fazer parte de sua família como ele sempre desejara que fosse, porém ele continuava o mesmo jovem destemido que jamais aceitaria arriscar a vida daqueles a quem amava. E agora eles, a sua família, eram o que o príncipe tinha de mais caro. O carinho e a afeição que ele e seus filhos demonstraram para com o jovem e que o haviam salvado da escuridão, eram os mesmos fatores que agora o obrigavam a enfrentar o mundo absolutamente sozinho novamente.
O mestre levantou-se e guardou o bilhete no bolso do robe que usava, pensando no que fazer. Resolveu esperar que as patrulhas voltassem e que os elfos de Mirkwood se fossem. Se até o fim do dia eles não o tivessem localizado, ele então escreveria cartas para todos os reinos que conhecia, para absolutamente todas as pessoas. Alguém o veria decerto. Alguém mandaria notícias. Ele o encontraria nem que fosse a última coisa que fizesse nesse chão da Terra-Média.
Mas o dia se passou e as patrulhas voltaram sem notícias.
Aragorn entrou exausto sendo conduzido por Elrohir e Elladan. Eles discutiam em voz alta e pareciam realmente alterados.
Elrond apareceu na sala e encarou-os até que silenciassem seus argumentos e decidissem contar-lhe o que tinham descoberto.
"Eu não queria voltar Ada".Reclamou o caçula olhando os irmãos. "Eles me obrigaram!" Sua voz guardava uma grande agonia e ele agitava as mãos sem conseguir aquietar-se.
"Ele está exausto, Ada" E já anoiteceu há tempos."Defendeu-se Elladan baixando os olhos tristemente. "Estel acha que não queremos também encontrar nosso irmão."
O mestre sorriu ao ouvir o primogênito chamar Legolas de irmão, mas não teve tempo para tecer nenhum comentário. A impaciência do andar de Aragorn pela sala o estava inquietando mais do que ele gostaria.
"Podíamos ficar a noite!" Reclamou novamente o guardião. "Eu achei umas pistas, só que não consegui ver aonde iam. Ficou escuro muito depressa e Legolas sempre foi bom em me confundir. Ele não levou Ohtar consigo. Está a pé. Não pode ter ido longe. Pelos Valar, Ada!" Ele já estava exaltado novamente, ofegando e caminhando em círculos com os olhos cheios d'água. "Ele está sozinho lá fora! Ele ainda não se recuperou e está sozinho e eu não consegui encontrá-lo".
Elrond, vendo o estado do filho, caminhou em sua direção e segurou-o pelos ombros.
"Paz, criança! Nós vamos encontrá-lo".
Mas Estel não conseguia se acalmar. Ele se desfez dos braços do pai e voltou a encarar os irmãos.
"Nós podíamos ter acampado! Eu achei pistas!".
Ao ouvir o tom acusador do caçula Elrohir voltou-se subitamente para ele. Um brilho em seus olhos transmitia uma sensação estranha.
"Você não achou nada que amanhã tenha valor, Estel!" Gritou o elfo de um modo que todos se impressionaram. Seu peito arfava e um ódio nascia de seu olhar. "Ele se foi e não vamos encontrá-lo. Estamos na mesma situação em que estávamos quando ele se escondeu naquela árvore. Nós não vamos achá-lo se ele não quiser e ele não quer!! Entendeu? Ele não quer ser achado! Ele quer desaparecer para salvar as nossas vidas miseráveis!!
Os olhos de Estel se arregalaram e o queixo de Elladan caiu ligeiramente. Ninguém nunca tinha ouvido Elrohir usar esse tom ou esse linguajar antes. Elrond se preocupou e aproximou-se do gêmeo mais novo com um olhar inquisidor. Mas Elrohir deu as costas e caminhou até a janela.
"Ele vai morrer lá".Ele concluiu olhando a paisagem escura. Sua voz tremia. "E não vamos nem ficar sabendo".
Dizendo isso o elfo não conseguiu mais se conter e começou a chorar agachando-se perto da parede abraçando o próprio corpo em desespero. Estel ficou perplexo. Normalmente era ele quem sempre se desesperava nas piores ocasiões e Elrohir o fazia sentir-se melhor com seu senso de humor. Ele correu para o irmão. Era a primeira vez que o via daquele jeito na vida e isso o agoniava demais. Elladan também se aproximou rapidamente e se ajoelhou perto do irmão mais novo.
"Não Elrohir", disse Estel colocando a mão levemente em seu ombro. "Nós vamos achá-lo. Você vai ver".
"Legolas é muito experiente".Adicionou Elladan acariciando o braço do irmão com suaves movimentos circulares. "Nada vai acontecer com ele".
Mas Elrohir não respondia mais, apenas soluçava com os braços em volta do corpo e a cabeça apoiada nos joelhos. Os irmãos se olharam em desespero e buscaram a figura do pai que já se aproximava. Elrond sentou-se no chão e depois de pedir espaço para os outros filhos puxou Elrohir para deitar-se em seu colo. O jovem não resistiu deixando o corpo cair sobre o pai e soluçando abertamente. Ele parecia tão entregue a dor que preocupou o mestre. Elrond limitou-se a deslizar as mãos por sobre o rosto e os cabelos do rapaz.
"Garanto-lhe, ion nin".Disse enfaticamente. "Que eu também não terei paz enquanto aquele menino não estiver sob a minha guarda mais uma vez."
Ao ouvir as palavras do pai Elrohir enlaçou os braços pela cintura de Elrond e encolheu-se mais ainda nos braços do pai. Se Elrond não teria paz isso queria dizer que não deixaria de tentar encontrá-lo, que havia esperança e Legolas ainda tinha uma chance.
Estel jogou-se cansado no chão também e Elladan sentou-se atrás dele puxando o caçula para apoiar as costas em seu peito. Não havia nada mais que pudesse ser feito naquele dia.
CONTINUA...
